Crônica

Isn´t it a pity

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Hilda Hilst costumava dizer: “Fico besta quando me entendem”. A perspicácia dessa frase sempre me fez pensar em variações para ela. Há diversas possibilidades mas talvez a melhor seja: “Fico besta quando me amam”. E o amor é para mim algo admirável. Primeiro, por sua natureza intangível. Será que ele existe? Depois, pela dificuldade de se escapar dele. Seria possível dar-lhe as costas sem nem ao menos um arranhão? Por fim, porque é sorte, é dado de graça, embora o cultivo lhe dê vida ou lhe condene à morte.

Falar do amor é abrir uma janela para o sem-fim onde a humanidade já se perdeu tentando nomeá-lo e entendê-lo. É sinuoso o caminho para encontrar esse substantivo abstrato. Defini-lo, então, é peleja para os poetas. O amor pode ser mil coisas, com infindáveis nomes e indistintas formas. O curioso, no entanto, é o espanto de senti-lo e não senti-lo mais.

O amor pode ser mil coisas, com infindáveis nomes e indistintas formas. O curioso, no entanto, é o espanto de senti-lo e não senti-lo mais.

É o lamento.“Isn’t it a pity”, cantava George Harrison sobre a fração de segundos em que se percebe tê-lo perdido. Há mágoa na canção do velho Beatle,  toda aquela confusão de sentimentos de quem ainda tenta entender o que aconteceu. É uma balada triste e sincera. Longe dos versos, Freud diria que ainda não foi feito o luto pelo qual rompemos a ligação libidinal com o ser amado.

Não, não estou falando das entranhas do amor, mas do momento em que ele acaba, ou melhor, do instante em que sua finitude se realiza. How we break each other’s hearts and cause each other pain? Francisco Bosco, em uma crônica primorosa, enceta: “Se pudesses, deverias frequentar um outro mundo”. A frase de Ovídio é uma espécie de conselho para esse instante do rompimento, já que, como diz Bosco, o amor acaba depois. Então, o luto é extrair algo ainda vivo. Quando é preciso “separar os mundos, desjuntar o tempo, afastar-se libidinalmente – para que então, depois, o amor acabe”.

É o salto. Esse momento de corte é descrito por ele como numa perseguição de um filme de gângster: “Butch Cassidy e Sundance Kid estão em fuga pela mata. A polícia os persegue, com rastreadores, implacavelmente. Os dois fugitivos chegam a um precipício, de onde não podem voltar. Embaixo, muito embaixo, passa um rio. Os policiais estão a caminho: eles vão chegar. É preciso o salto. Sundance diz: ‘Eu não sei nadar’. O abismo, enorme, o medo, a vertigem – só de olhar. Mas é preciso. A polícia. Não tem volta. Feche os olhos. Pulam”.

Como diz Francisco Bosco, o amor acaba depois. Então, o luto é extrair algo ainda vivo. Quando é preciso “separar os mundos, para que então, depois, o amor acabe”.

Eis uma descrição justa. Pular no abismo. Extrair-se vivo. O espanto. Contudo, o problema está exatamente no que mencionei acima: o amor morre depois. Some things take so long…  Até encaramos o salto, mas o que nos faz chegar a um paradeiro é algo que nos foge ao controle. Eu suspeito, seja a consciência do desamor. Uma espécie de estalo que se dá quando encaramos a realidade. É como escutar a versão de Nina Simone para a balada de George Harrison. Nela há um tom acima, como se a lucidez sobre o que passou fosse mais aguda. Oh, miss Simone! Por que a gente foi esquecendo de lembrar, de voltar atrás? Agora, simplesmente, é muito tarde.

Há sempre esse momento em que nos esquecemos de deixar a porta aberta. No entanto, não interessa mais, não há retorno. É disto que falo: após o lamento, vêm o salto, a ruptura. E se engana quem acha que este é um faroeste unicamente carnal. Cabem muitos amores no tempo que corta os laços. Existem dois romances preciosos que, ao seu jeito, falam sobre essa tentativa de pular seja para onde for. São dois dramas familiares.

Como o título deixa antever, em “Dois Irmãos”, Milton Hatoum conta a história dos gêmeos Yaqub e Omar, que, feito Caim e Abel, entram numa disputa da qual parecem não conseguir escapar. O mais velho, Yaqub, tenta com todas as forças se esquivar daquela teia familiar, mas sempre dá um passo atrás, motivado pelos pedidos da mãe ou por alguma tentativa de dar ordem às coisas. Acontece que nada muda e o personagem só se enreda. Não consegue pular. Sempre me perguntei: o que Yaqub achava que podia ter daquelas pessoas? Por que não conseguia se apartar? Não digo que seja fácil. Costuma-se pagar um preço alto quando se foge de algo, sobretudo de nossas origens, sem se atravessar por dentro e se achar do outro lado. É este exatamente o meu ponto: a travessia é dolorosa, mas necessária. É preciso achar-se sem outro.

Há sempre esse momento em que nos esquecemos de deixar a porta aberta. No entanto, não interessa mais, não há retorno. Após o lamento, vêm o salto, a ruptura.

Essa é a sensação que se tem ao não se reconhecer mais quem um dia amamos muito. Às vezes o amor se transforma em amizade, mas noutras – quando simplesmente deixa de existir – é preciso enterrá-lo. Da mesma forma que algumas amizades continuam a vingar, outras se perdem. Entender que alguém não te ama é realizar que você também pode não amar. E essa afirmativa sequer tem uma ordem de reciprocidade necessária; ela é absoluta. A gente se escolhe. Isso implica que, seja pelo motivo que for, alguém um dia pode não nos escolher mais. É o desamor. E precisamos reconhecê-lo como forma de enxergar a nós próprios e seguirmos adiante. É o fim do espanto.

Se os personagens de Hatoum rodam presos entre si, em “Ciranda de Pedra”, Lygia Fagundes Telles torna protagonista a jovem Virgínia, cuja história é marcada justamente pelo rompimento. O romance de Lygia, escrito em 1954, faz uma crítica à burguesia paulistana. Porém, num plano mais fechado, mostra uma personagem que consegue sair da rejeição para enxergar – sem máscaras – a realidade de uma família corroída. Com a maturidade, Virgínia finalmente desloca sua libido, cessam suas tentativas de ficar com seu amor da infância, Conrado, e de fazer parte daquele círculo fechado, a tal ciranda de pedra. O final do livro narra uma mulher que, tendo experimentado mais uma vez pertencer ao grupo, entende que aquele não é o seu lugar. É o entendimento que Virgínia passa a ter sobre si e sobre os outros que a faz partir para uma longa viagem, sem perspectiva de volta. Ela entende que ali não havia amor e passa a não desejar mais aquilo para si.

É lindo o trecho final do romance: “Trocaram um leve beijo. Depois ela prosseguiu sozinha pelo estreito caminho da sombra. Quando julgou ter atingido a metade, voltou-se. Lá estava Conrado, na mesma posição em que o deixara, de pé na clareira. Mas os frouxos raios de sol que o iluminavam já tinham desaparecido. “Apagou-se”, pensou ela, acenando pela última vez. Ainda ouviu o grito do pássaro rompendo a quietude, porém não o achou mais parecido com a risada de Otávia. Era apenas um som anônimo, perdido na tarde”.

Entender que alguém não te ama é realizar que você também pode não amar. A gente se escolhe. Não, não é uma pena. É o começo da nova vida.

Há tempos em que o amor é dor, mágoa, esperança… Mas há, em algum momento, o ponto em que o amor é o próprio rompimento. Decerto ele havia morrido antes, mas é ao nos depararmos com sua ausência que o enterramos de vez. Assim, perceber que não amamos mais alguém é, curiosamente, a senha para compreendermos que também podemos não ser amados. A compreensão de que não mais escolhemos alguém é a mesma dada quando alguém também já não nos escolhe. Esse jogo de subtração nos liberta, somos apenas um.

O desamor nos ensina a partir, Miss Simone.

É um outro mundo. Deixar de amar talvez seja o término do fascínio, quando as coisas se apresentam como são e o encanto se esvai. Não, não é uma pena. O lamento também perdeu seu lugar. Ficou no passado. O salto concluiu-se. Moving too fast.  Finda o espanto, começa a nova vida.

Grazielle Albuquerque

Grazielle Albuquerque é doutoranda em Ciência Política pela Unicamp, jornalista e arengueira. Criou a Pulga nos idos dos anos 2000 e agora revive a meninice. Nessa nova fase, edita a Pulga desde 2014. É viciada em história, política, café e música. Cultiva o bom humor e tem um quarto azul.

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