Música

MPB com sotaque cearense

Belchior, o incomparável bardo cearense

Belchior, o incomparável bardo cearense

 

Tenho tido pouco tempo e interesse em revirar novidades musicais, conduta aparentemente incompatível com a imagem que construí na juventude, mas totalmente aceitável nesta fase pós-35, em que a obrigação para com os livros é uma constante e a impaciência te impede de aceitar os modismos da crítica. No máximo, quando quero garimpar algo original, desconhecido ou que não frequentou minha discografia, tendo bem mais a me voltar para o passado do que para o presente.

E foi assim, há três ou quatros, creio, que, motivado por este olhar retroativo, redescobri e reativei parte de uma memória musical afetiva que permanecera latente por décadas e que, justamente em virtude desta inatividade, não recebera da minha vida adulta o apreço devido. Refiro-me precisamente ao movimento que ficou consagrado, na segunda metade dos anos de 1970, e na tradição da MPB, com o epíteto singelo de “Pessoal do Ceará”. A alcunha pode aparentar estranheza para os mais novos e, pasmem, não consta se quer na infame wikipédia (pelo menos até a finalização deste texto). Mas o ouvinte antenado com as correntes musicais brasileiras certamente terá lembranças de nomes como Fagner, Belchior, Ednardo, Amelinha e Fausto Nilo, dentre outros, que transformaram o estado tradicionalmente associado ao forró num dos pólos mais criativos daquela década.

Motivado por este olhar retroativo, redescobri parte de uma memória musical afetiva que permanecera latente. Refiro-me precisamente ao movimento, na segunda metade dos anos de 1970,  que ficou consagrado como “Pessoal do Ceará”. 

Posso soar pretensioso em minhas considerações e um cearense demasiado bairrista, mas minha hipótese é que, se a crítica musical brasileira tivesse tido um pouco mais de boa vontade, este movimento teria a projeção que a “Tropicália” o “Clube da Esquina”, dentre outros, tiveram alguns anos antes. Talento e originalidade não lhe faltavam. Talvez, apenas um pouco mais de autopromoção e uma maior receptividade nos redutos sulistas. Ainda assim, esta moçada fez um barulho ruidoso; não tão duradouro quanto eu desejaria, mas suficientemente audível para não ser esquecido pelos ouvidos mais sensíveis. Dos destinos de seus principais integrantes, pode se traçar um rápido resumo, sem desejar sugerir iniciações, faixas prediletas ou discos imperdíveis (sou meio reticente com este tipo de atitude).

Fagner despontou como nome de maior visibilidade e projeção, com um estilo vocal singular, letras de inspiração literária e que flertavam com a cultura nordestina, dentre outras referências, e uma roupagem visual que emulava Guevara (o Che). Teve trajetória irrepreensível até meados de 1980’s, mas entrou em contato com a dupla Sullivan & Massadas, dentre outros compositores menos inspirados, e migrou para uma fase radiofônica questionável, distante anos-luz de seu brilho setentista. E, infelizmente, não retomou o prumo. Ednardo, com menor visibilidade midiática, teve um percurso honrado, gestando sete ou oito composições de grande beleza e lirismo, algumas delas com êxito nacional, títulos que ainda hoje comovem facilmente qualquer cearense nostálgico. Mas me parece sobreviver desta glória passada, sem reciclar ou produzir algo novo que lhe recoloque na ribalta em grande estilo. O caso de Amelinha me parece semelhante: lançou alguns discos e compactos de êxito crítico e comercial até meados de 1982, mas sumiu na poeira do tempo. Eventualmente, faz shows no estilo “revival”, retomando seu cancioneiro, mas é mais uma que parece olhar para o retrovisor em vez de apontar novos caminhos (uma pena, tem um vozeirão…). Bem mais regular é o caso de Fausto Nilo, reconhecido prioritariamente como compositor versátil, autor de canções importantes regravadas por um sem-número de intérpretes da MPB. Em certa medida, Nilo conseguiu atravessar as últimas décadas mantendo o prestígio amealhado nos anos de 1970 e ampliando seu catálogo com regularidade. Caso único de sua geração, creio.

Afinal, como não aplaudir um artista que desdenha da grande mídia e que prefere o autoexílio à exposição nesta arena que confere visibilidade a tantos talentos questionáveis?! Belchior sabe que o seu reino não é deste mundo, definitivamente.

Se deixei Belchior para o final, é porque tenho um apreço incomparável pelo bardo cearense: um compositor refinado e um letrista genial, seguramente o melhor de sua geração (pós-1972). Esqueça as excentricidades noticiadas pelos jornais (sumiços repentinos, fugas, calotes, aversões públicas); no limite, elas só ampliam o fascínio que tenho por Belchior, este sim, minha melhor redescoberta musical dos últimos anos. Afinal, como não aplaudir um artista que desdenha da grande mídia e que prefere o autoexílio à exposição nesta arena que confere visibilidade a tantos talentos questionáveis?! Belchior sabe que o seu reino não é deste mundo, definitivamente. É verdade, porém, que a exemplo de Ednardo, embora de forma menos engessada, o trovador cearense tem se mostrado rarefeito no lançamento de novidades. Mas uma revisão e olhar atento ao seu portfólio são o suficiente para nos provocar um encantamento imediato.

Prometi neste texto não fornecer indicações, apresentar títulos ou coisa similar. Vou transigir, parcialmente. Seja persistente e procure na internet (ou confira no YouTube, dentre outras plataformas) discos como “Alucinação” (1976), “Coração selvagem” (1977), e “Era uma vez um homem e seu tempo” (1979). Não julgue sua voz anasalada de imediato; tenha paciência. A força de sua poesia e a interpretação comedida vão te arrebatar em algumas audições. Não tem erro! E procure as letras, procure atentamente! Estou cada vez mais convencido de que os versos de Belchior, nas mãos de um editor criterioso, renderia facilmente um compêndio de citações imperdíveis – poucos artistas conciliam, como ele, o viés político, o questionamento do devir humano, e cantam a dor e o privilégio de ser latino com intensidade. Tudo isso com uma carga sentimental sem afetação e que sugere genuinidade. Faça um pacto com o refinamento musical deste trovador: conclua o texto e o acolha com carinho em sua discografia pessoal. É tiro e queda; a exemplo do “óleo de copaíba”, indicado por uma amiga querida para todos os males deste e de outros mundos, e quiçá para os tormentos de suas encarnações passadas (piada interna). Quem sabe, Belchior não se converte em trilha de suas viagens futuras, a exemplo do que sucede hoje comigo…

Laécio Ricardo

Laécio Ricardo é (ou foi) jornalista, é doutor em Multimeios pela Unicamp e professor da UFPE. Apaixonado por gatos, tem convicção de que é cearense, não obstante pistas contrárias, e adora o mar, apesar da epiderme albina.

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