Crônica

O livreiro e o outro

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Botou uma placa na frente da loja, um cavalete sobre a calçada. O escrito de giz na lousa anunciava: “Acervo – livros a 10 reais”. Foi um jeito de lidar com a crise, pois assim chamaria quem estivesse na rua. Melhor que a vitrine, no velho estilo, a placa era uma espécie de convite. É do reclame que vivem os comerciantes. Carece chamar atenção para o produto.

Mas acontece que sebo não é armarinho, nem loja hipster e nem banquinha de paletas mexicanas no verão. Livro tem vida. Certa dignidade mesmo. Tem cheiro, respira pelas páginas, usa capa feito vestimenta, tem temperamento para fisgar ou causar enfado. É cheio dos melindres. Talvez por isso o Chico de Assis, dono do sebo, tenha me dito que livreiro é meio professor. Embora, advertiu, nem todo professor possa ser um bom livreiro. O que une os ofícios é o gosto por saber das coisas e, sobretudo, por saber do outro. Das diferenças sei muito pouco; talvez fique no caixa, no estoque e na ordem das prateleiras.

Fato é que quem lida com livro, mais do que da letra, tem que entender do homem, seja ele leitor ou não. Isso porque é preciso dar uma chance ao futuro. É o convite. Há sempre o risco de alguém tombar com o reclame, entrar, dar de cara com um título e, bingo, talvez tornar-se um leitor, ainda que eventual.

Livreiro é meio professor. Embora, nem todo professor possa ser livreiro. Mas o que une os ofícios é o gosto por saber das coisas e, sobretudo, por saber do outro.

Foi isso que vi o Chico de Assis tantas vezes fazer. Fisgar o desavisado, dar a ele uma pista sobre o seu próprio desejo. É uma fronteira íntima. O sujeito leva um pouco mais do que lhe interessa ou pode esbarrar com algo novo que lhe abra uma porta. Mas, nesse escaninho, é sempre o outro que impera. É o diálogo no qual o livreiro antecipa a fala do seu interlocutor. Observa, conversa e arrisca a mostrar-lhe um mundo novo.

Mesmo para os iniciados, há descobertas. Falando do Borges, o bruxo, escuto o nome do Macedônio Fernández, argentino, louco, inspirador de muitos devaneios do elegante autor do “Jardins das veredas que se bifurcam”. Cá para nós: toda loucura tem pai. O motivo de ser também habita as palavras. Quem escreve já leu. Carrega consigo outros milhares de escritores, que, por sua vez, foram leitores, que foram escritores, que foram leitores, que, certamente, frequentaram livrarias e sebos.

Fico imaginando quando caíram nas mãos de Fernando Pessoa as primeiras letras de Omar Khayyam. Como Pessoa teria descoberto e trazido consigo as poções desse poeta e alquimista medieval? É um disparate imaginar esses caminhos.

Outro dia mesmo, no século XXI – na verdade, na quinta da semana passada –, um sujeito moderninho entrou no sebo e perguntou pelo Khayyam, o que nos levou a Pessoa, o que nos levou ao escaninho aberto, o que nos levou a tantos outros leitores e escritores. É o reclame. A plaquinha do sebo. O risco. O outro.

E são tantas e diversas as descobertas… Alguns dias de papo no Acervo e conheço o Fabián, um chileno que é garçom num restaurante de empanadas na vizinhança e me fala de Bolaños e vários outros cuja referência latina vergonhosamente me escapam. Tentando estipular uma ordem sobre o que se deve ler, Chico de Assis falava sobre o tempo necessário a algumas obras: “Tem livro para se ler maduro”, afirmava. Fabián discordou. Não há tempo. Saiu-se com essa: “A literatura é a própria carta de navegação”. Anotei num caderninho a frase. Era certeira. Eis o risco, ele nos lembrou.

Mas, nesse escaninho, é sempre o outro que impera. É o diálogo no qual o livreiro antecipa a fala do seu interlocutor. Observa, conversa e arrisca a mostrar-lhe um mundo novo.

Dos frequentadores do Acervo há também o Mangarielo, editor de livros comunistas e estudioso da obra de Jacob Bazarian. Aí o que se abre é o mundo da filosofia, a ponte entre o Brasil e a Armênia. Numa tarde encantada, Mangarielo repetia para mim que era preciso estar atento ao método, às premissas do pensamento. Falou que quando viajou à Armênia tinha a companhia do seu próprio KGB. Demorei alguns minutos para entender que, de fato, ele falava do Serviço Secreto Soviético. São tantas histórias…

Na vitrine, quando o Chico de Assis coloca os livros de sociologia sobre as diferenças de classe no Brasil, há clientes que entram desconfiados. Ah, o reclame também pode ser provocativo. É perigoso ter amigo comunista nestes dias, um cliente poderia dizer ao livreiro e professor. Pensando bem, “Comunismo e ficção nos dias atuais” até daria um bom nome para a prateleira ao lado daquela com os livros do realismo fantástico.

São as descobertas que vão das palavras aos personagens cotidianos, silenciosos.  Era começo de dezembro, numa tarde chuvosa, quando Dona Maria José, uma das mais curiosas frequentadoras do Acervo, adentrou o sebo à procura de um presente de Natal. Ao olhar o Chico de Assis por detrás da sua pequena mesa, dizia efusiva: “ Esse aí é um artista”. Eu ri, curiosa, querendo saber o porquê. Entendi que era algo relativo à alma. Sinceramente, não sei se dela, pessoa tão inquieta com o que é da superfície, ou dele, que tinha visto nela tal incapacidade de se adequar. E, num diálogo próprio dos dois, estabelecia-se uma conexão improvável aos grandes magazines.

Talvez disso advenha o elã dos pequenos espaços, dos sebos que não apenas amontoam livros. Porque é preciso estar atento ao outro. Mas isso também só é possível quando quem manuseia o encanto sabe o que oferecer de suas estantes. Aliás, às vezes o desafio é oposto. Deve-se saber também o que não vender.

Acho que tem sua arte quem promove esses encontros.  Livreiro é professor sem cátedra. Como quem professa longe dos espaços públicos, de forma íntima.

Das próximas prateleiras a serem inauguradas no Acervo, haverá uma escrito: livros para não comprar. Em tempos de delírio coletivo, convém não ler aqueles livros que quebrem a corrente dos escritores, que, por sua vez, foram leitores, que foram escritores, que foram leitores, que, certamente, frequentaram livrarias e sebos. Soube pelas más línguas que um livro do Lobão foi oferecido de graça algumas vezes sem muito interesse. O Chico de Assis me disse que esse exemplar vai inaugurar a seção.

Acho que tem mesmo sua arte quem promove esses encontros. Talvez seja isto: o livreiro é professor sem cátedra. Como quem professa longe dos espaços públicos, de forma íntima, pelo escaninho, dependendo de quem veja a placa, entre e se permita o melindre das palavras.

Foi desse gesto que também eu caí no risco. Disse o Chico de Assis que o primeiro livro que comprei no Acervo foi um do Jaguar. Capa laranja, ele frisou. Mas, confesso, eu não lembrava. Fui procurar, e era mesmo. “Átila, você é bárbaro”, numa edição da Civilização Brasileira dos anos 60. E olha que tenho boa memória. Mas a verdade é que não sou eu a livreira. Estava apenas lá, entrando distraída. E, no fim, é isto mesmo: quem tem por ofício saber do outro é quem realmente lembra.

* Chico de Assis na verdade chama-se Josué. O apelido furtivo dado por mim é talvez o oposto ao pseudônimo do Julinho da Adelaide usado pelo Chico Buarque durante a Ditadura Militar ou do nome Teresa do Amor Divino usado pela artista plástica Djanira ao se recolher no fim da vida à Ordem Terceira Carmelita. Antes de esconder ou silenciar, na verdade revela todas as possibilidades que cabem na literatura e em seus personagens. A ficção tão real como a própria vida.

 

Grazielle Albuquerque

Grazielle Albuquerque é doutoranda em Ciência Política pela Unicamp, jornalista e arengueira. Criou a Pulga nos idos dos anos 2000 e agora revive a meninice. Nessa nova fase, edita a Pulga desde 2014. É viciada em história, política, café e música. Cultiva o bom humor e tem um quarto azul.

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