Política

Pelo urgente reencantamento com a política

Congresso2

Em pouco mais de um mês, teremos eleições majoritárias. Contexto propício para repensarmos nossos votos e contribuirmos para uma melhoria sistemática do quadro político – do Palácio do Planalto ao Congresso, das assembléias legislativas aos governos estaduais, é hora de destituir ou reconduzir ao poder líderes e parlamentares que atestaram sua competência e integridade, ou sua inaptidão para a vida pública. Todavia, apesar da relevância do pleito, percebo que, não obstante a passionalidade de alguns militantes nas redes sociais, boa parte da população parece exaurida do debate político. De modo mais enfático, noto um claro desencantamento ou indiferença entre os jovens (eleitores na casa dos 16 a 25 anos).

Em certa medida, a pouca motivação é compreensível; afinal, o jogo político no País e seus protagonistas não têm inspirado entusiasmo – nesta seara, há uma clara expansão dos setores conservadores (evangélicos e ruralistas, dentre outros) e o toma-lá-dá-cá entre os partidos nunca pareceu tão frenético e suspeito, com recorrentes denúncias de improbidade e falta de ética. Resultado: são raros os nomes que suscitam confiança e escassas as legendas que não ostentam vexatórias denúncias/condenações. Mas, apesar deste retrospecto, me entristece perceber certa apatia nas ruas e universidades: sou de um tempo em que o agir político se aliava à reflexão crítica e os debates transcorriam em salas de aula, cantinas e corredores, conectando alunos e professores na defesa de candidaturas inspiradas e de projetos de relevância social. Estampar adesivos no peito e broches nas mochilas era motivo de orgulho, bandeira inconteste. De uns tempos pra cá, parece que, em cada residência, triunfa um individualismo progressivo, seguido de uma descrença generalizada. E, não bastasse o quadro de letargia, com frequência acompanho uma enfática defesa da anulação ou invalidação do voto.

Se o motivo for um claro protesto, me resigno. Não votar ou abdicar do voto por motivos críticos (portanto políticos!) é uma forma de atestar plena insatisfação e de publicizar o incômodo. Se tal gesto é eficiente ou não, é uma questão para a qual me falta competência acadêmica para responder. Mas o que dizer quando a decisão resulta de mera indiferença, de um abandono da responsabilidade que cada eleitor tem de acompanhar o quadro político do seu país e de encaminhar exigências a seus representantes?! Tal posição quase sempre se vincula a um sentimento crescente de pessimismo, do tipo que reverbera uma leitura nada generosa da cultura brasileira: este País não tem jeito e estamos condenados em virtude de uma suposta inviabilidade que nos seria atávica, insistem. Em outros termos, não adiantaria persistir porque aqui o justo se degenera e a generosidade sempre se converte em moeda de barganha.

Desnecessário dizer que tantos clichês, além de carecer de fundamentação séria, em nada contribuem para promover as mudanças que julgamos necessárias. No limite, o gesto fácil de se ausentar da luta apenas implica em entregar aos adversários que tanto criticamos o direito de continuar a decidir nossos destinos. O que, por efeito dominó, só ampliaria a nossa insatisfação. Mas, afinal, terá o jogo político perdido o encanto e implodido a convicção dos eleitores? Prefiro acreditar que ainda há brechas para alguma utopia ou resistência. Não gosto de atitudes iconoclastas, não cedo fácil ao niilismo, tampouco integro o time dos cabisbaixos.

Neste debate, ouço com frequência colocações que nivelam partidos e políticos em patamares semelhantes e nada honrados. E reconheço que o mal-estar tem fundamentação. Mas também aqui é preciso manter uma obstinada lucidez: entre uma legenda e outra, não obstante a convergência de equívocos, há diferenças. Algumas até enfáticas. Para os desavisados, é importante lembrar que estatísticas sobre corrupção, condenações e candidaturas inelegíveis estão facilmente disponíveis para consulta na Internet, o que pode dissipar nossas incertezas. Assim, apesar da oferta suspeita no varejo eleitoral, sempre é possível identificar alguém cuja trajetória política é menos maculada e cujos projetos encaminhados são, de fato, prioritários ao País, em vez de pensados para atender interesses escusos.

Manter avivada alguma centelha otimista não implica abdicar de uma posição crítica ou contundente; tampouco é sinônimo de uma confiança num futuro inexoravelmente promissor. Ele até pode ser promissor (e o desejamos!), mas para que o seja, o presente solicita o nosso engajamento e vigilância contínua. Assim, desejo para os eleitores mais jovens o imediato revigoramento do debate político, livre da parcialidade da grande imprensa e dos ressentimentos de classe ou de geração. Desejo a renovação da lucidez, para que o exercício do voto não se converta num gesto de indiferença. E, sobretudo, desejo que suas decisões não sejam motivadas por episódios de clamor suspeito, como a recente comoção pública provocada pela morte trágica de Eduardo Campos (PSB) em acidente aéreo. Não obstante o mal-estar que a morte suscita em cada um de nós, a figura ambígua do político Campos (um gestor de virtudes e defeitos enfáticos), através de ostensiva cobertura midiática, foi elevada à condição de mito num esforço para converter o luto em capital político para sua substituta na disputa presidencial. Uma estratégia, no mínimo, controversa. Em tempos de apatia política, ressalto, carecemos de um amplo debate e, não, de messianismos ou de paixões cegas.

Laécio Ricardo

Laécio Ricardo é (ou foi) jornalista, é doutor em Multimeios pela Unicamp e professor da UFPE. Apaixonado por gatos, tem convicção de que é cearense, não obstante pistas contrárias, e adora o mar, apesar da epiderme albina.

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