Crônica

Vocare Humanum Est

Mudança – Mariane Marques

 

Quando perguntada sobre a vocação do escritor, Lygia Fagundes Telles costuma responder citando um poema do Drummond que indaga: “Trouxestes a chave?”, como se a palavra fosse um segredo a ser revelado. Talvez seja isto: o vocare careça que o convidado saiba abrir a porta; use ele habilidade, disciplina ou quem sabe ambas. Em uma determinada entrevista, quando o assunto é abordado, ela olha para o também escritor Ignácio de Loyola Brandão, seu interlocutor, e se justifica dizendo que venha ou não o sucesso (e ele não tem a menor importância) ambos têm a mesma paixão, cumprem sua tarefa com a palavra.

Eu, cá para mim, penso em como conciliar esses dois aspectos: o desejo e a missão. Nesse dilema vou achando mesmo que tal “chamado” é um monstro íntimo que possui essas duas naturezas, mas que exige unicamente a entrega. É uma espécie de diabinho de garras afiadas que nos desperta o desejo, mas que também devemos educar. “Trouxestes a chave?”, a pergunta ressoa em minha mente e mais uma vez penso que não basta trazê-la, que o talento por si só diz muito pouco. De fato, o dom requer exercício. Tanto que às vezes parecemos a Alice de Lewis Carroll, ou estamos grandes demais para passar pela porta ou ficamos pequenos demais para alcançar a chave. A vocação tem lá seus caminhos e nem sempre é fácil  percorrê-los.

Talento por si só diz pouco. O dom requer exercício. Às vezes parecemos a Alice de Lewis Carroll, ou estamos grandes demais para passar pela porta ou ficamos pequenos demais para alcançar a chave. A vocação tem lá seus caminhos e nem sempre é fácil percorrê-los.

No meu caso, o vocare chegou cedo, mas exigiu sua cota de anos para se entregar. Benjamin Button que sou, aos 13 anos eu era qualquer coisa, menos uma adolescente típica. Em plena puberdade, minha alma velha lia Florbela Espanca, escutava João Gilberto e era uma devoradora feroz de livros de história. Na sétima série quase reprovei em matemática e desenho geométrico (mas por que mesmo eu precisava saber a bissetriz de um ângulo diante dos impactos do Plano Marshall?), enquanto acumulava notas dez em história e geografia. Aliás, foi a bendita geografia que naquele ano mudou a ordem das coisas. Dos tradicionais mapas e rochas, os aspectos físicos da disciplina davam lugar às questões subjetivas; era a chamada geopolítica que se descortinava em um livro de Melhem Adas cuja capa trazia um soldado colocando uma flor em uma arma.

Pela primeira vez parecia se costurar uma teia que ligava toda uma narrativa histórica com acontecimentos contemporâneos de um mundo que estava mudando diante de mim. Era início dos anos 1990 e víamos a União Soviética se esfacelar, a Guerra Fria virar passado, o Brasil ter seu primeiro presidente a sofrer um impeachment… Coisas que hoje podem parecer distantes, mas que à época alteravam tudo; o que incluía das referências teóricas mais sofisticadas ao tabuleiro de War – que tinha no mapa um país que deixara de existir: a URSS. Outros jogos de mesa como Master passaram a ter algumas fichas descartadas pelas perguntas desatualizadas. Até a boa e velha sessão da tarde vez por outra parecia reprisar filmes de outra Era: “Rocky IV”, “O sol da meia noite”, “Os heróis não tem idade” – não importava o gênero, todos tinham ficado anacrônicos em menos de 10 anos depois de seu lançamento.

Essa ordem em mutação me instigava o chamado. É difícil imaginar como aquele livro de Melhem Adas e o conjunto de acontecimentos daqueles anos mexeram com minha cabeça. O ápice desse meu “encontro marcado” foi o trabalho de final de ano em que resolvi escrever sobre o conflito internacional que marcou 1993. E lá fui eu saltitante encontrar meu monstrinho em tardes a fio de pesquisa nos arquivos do jornal O Povo. O resultado do meu primeiro embate para domar a fera tenho até hoje escrito em folhas de papel almaço cuja capa – feita em canetinha colorida – enuncia: “A guerra civil na ex-Iugoslávia: causas e consequências do conflito” (!). Naquele ano também perguntei ao professor de geografia qual era o nome daquilo que eu queria estudar. Ele me respondeu: Ciência Política.

A questão essencial é achar uma maneira de lidar com aquilo para o qual somos chamados, independente do sucesso e do sustento. A relação primeira é íntima, o resto é acessório.

Se deparar com uma vocação assim tão precoce costuma catapultar qualquer adolescente para o universo encantado das pessoas estranhas. E no fundo é isso mesmo. Se na infância é bonitinho dizer que se quer ser astronauta e depois é admirável responder medicina ou engenharia como as profissões escolhidas, lidar muito cedo com um chamado fora do convencional tem seus espinhos. Mas, por outro lado, essa relação com o diferente nos abre horizontes de aprendizado e prazer. A outra boa nova é que há sempre alguém tão à margem como você “perdido” por aí.

Outro dia sentei para conversar e conhecer alguns desenhos de uma menina de 14 anos, Mariane Marques. Tímida e meiga, Mariane tem um traço com uma força incomum para a idade. Talvez ela própria não tenha noção do tamanho do monstro que carrega consigo, mas pude testemunhar seu potencial. Aliás, vou me corrigir, não me parece que para ela o desenho seja algo que “exprime possibilidades”, ele já o é, tem potência. Em nossa conversa, Mariane me disse que desenha todos os dias e quer fazer arquitetura. Um plano simples? Sabe Deus o que vai acontecer até lá. E na verdade não importa muito o título que a faculdade lhe reserva. O essencial está na relação rotineira que ela vai manter com o lápis e o papel nesse espaço de tempo.

É nessa lida diária que vamos nos apaixonando e também dominando nosso vocare. Nesse sentido, é impossível pensar em um caminho linear. Como em toda relação, nós e nossos monstrinhos nos afastamos, nos magoamos e também nos reencontramos e estabelecemos novos laços de afeto. A vida não cabe numa linha reta e muitas vezes temos que conciliar o que é imanente com o mundo lá fora: o aluguel, a família, o emprego…

É nessa lida diária que vamos nos apaixonando e também dominando nosso vocare. Como em toda relação, nós e nossos monstrinhos nos afastamos, nos magoamos e também nos reencontramos e estabelecemos novos laços de afeto.

Assim, vou me convencendo que todos trazemos esse monstrinho particular. Tem sorte quem, apesar dos obstáculos, sabe cuidá-lo vida afora. Tenho uma amiga que é escritora profissional e caio na gargalhada quando lembro das mil e uma teorias sobre seu ofício. Há quem diga que ela consegue escrever porque vive às custas de uma herança dos Nogueira Acioly, velha oligarquia cearense. Quem conhece a Socorro (Acioli) de anos sabe bem o duro que ela teve que dar para transformar o sonho em profissão. Habilidade e disciplina, diria o chaveiro.

Essa ideia do esforço é fundamental para não acharmos que o vocare é um bichinho fácil, dado aos primeiros cortejos. Também não se deve pensar que ele sempre se mostra da mesma maneira. Cada um de nós tem uma história e para alguns o ofício se revela mais tarde, vagaroso, inesperado. Para outros vocação e trabalho são coisas distintas. Jamelão era escrivão da Polícia. Guimarães Rosa era diplomata. Cartola chegou a lavar carros mesmo depois de ter emplacado seus primeiros sambas. Há ainda tantos para os quais o convite é silencioso. Pessoas que bordam, cozinham, inventam máquinas e constroem um mundo dentro de pequenas cômodos, na imensidão da alma. A questão essencial é achar uma maneira de lidar com aquilo para o qual somos chamados, independente do sucesso e do sustento. A relação primeira é íntima, o resto é acessório.

Isto porque, no fundo, nossa vocação não está numa tabela de saberes e rendimentos. A Ciência Política que trago na mente e no coração é bem diferente daquela que a Academia define como um campo de estudo ligado às Ciências Sociais, tampouco acho que o traço da Mariane caiba nessa ou naquela definição. O monstro dela pode ter um nome mais comum, desenho, e o meu ter um nome mais estranho, Ciência Política, mas no fundo a gente lida com algo muito particular, com um conjunto de ideias e expressões, chaves para as quais nós próprios somos fechaduras. É por isso que é a nós mesmos quem libertamos quando reencontramos nosso monstro.

A materialidade do meu chamado foi se montando feito um lego. A vontade de escrever, os embates juvenis com a burocracia jurídica, a escolha da faculdade, a descoberta do medievo (ah, a soberania na Idade Média!), a necessidade de trabalhar… Tudo se mistura como numa caixa de ferramentas que podemos usar a nosso favor se não nos deixarmos vencer pelo cansaço.

Longe de ser um sonho pueril, a vocação é rotina, esforço e aprendizado. Eis-me aqui ajeitando a escrivaninha, desencaixotando os livros e descobrindo uma nova cidade.  Juntando as tralhas de uma vida  com o pomposo nome de “Ciência Política”. 

Quando me despedi do Ministério Público, instituição na qual amadureci profissionalmente, para seguir a aventura do doutorado em Ciência Política, muitas pessoas me abraçaram dizendo, felizes: – Que bom! Há quanto tempo você queria isso. E, ao se largar uma zona de conforto (a casa, o carro, a vizinhança) em direção ao novo, palavras como essas te despertam. No fundo, elas me lembraram algo que eu tinha esquecido: que este reencontro estava anotado na minha agenda havia 20 anos. Longe de ser um sonho pueril, a vocação é rotina, esforço e aprendizado. Eis-me aqui ajeitando a escrivaninha, desencaixotando os livros e descobrindo uma nova cidade. Finalmente, juntando as tralhas de uma vida, o Direito e a Comunicação, com o pomposo nome de “Ciência Política”.

Enfim, o vocare é viver junto – o que não é fácil – e eu agora passarei os próximos quatro anos dormindo e acordando ao lado do meu monstro favorito. Diante do seu chamado para a palavra, é Lygia quem arremata: “Acredito em vocação que vem a ser simplesmente a liberdade de cumprir essa vontade que vem das profundezas, lá das cavernas. (…) E são tantas as verdadeiras vocações que são cumpridas na maior obscuridade, no maior silêncio. O importante seria apenas seguir o impulso porque o risco é inevitável, está ali presente na própria partida”. Eu, de minha parte, não sei onde vou chegar, mas já parti.

 

Grazielle Albuquerque

Grazielle Albuquerque é doutoranda em Ciência Política pela Unicamp, jornalista e arengueira. Criou a Pulga nos idos dos anos 2000 e agora revive a meninice. Nessa nova fase, edita a Pulga desde 2014. É viciada em história, política, café e música. Cultiva o bom humor e tem um quarto azul.

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