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	<title>A Pulga &#187; Daniel Sampaio</title>
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	<description>Um coletivo diletante de ideias</description>
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		<title>A saudade e o encontro marcado</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Aug 2015 19:57:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Sampaio]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Andarilho]]></category>
		<category><![CDATA[Viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[Todo ser humano tem alguma ambição na vida. A minha sempre foi muito simples: ir. Sonhava em morar em outra cidade, conhecer pessoas novas, espantar-me com costumes diferentes. Veio a <a class="read-more" href="https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas1.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1046" alt="Minas1" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas1.jpg" /></a></p>
<p>Todo ser humano tem alguma ambição na vida. A minha sempre foi muito simples: ir. Sonhava em morar em outra cidade, conhecer pessoas novas, espantar-me com costumes diferentes. Veio a faculdade, um curso aqui, uma acomodação acolá e o plano foi ficando de lado. A vida cobrou. Aquele emprego – e os que mais surgiam &#8211; deixou de ser interessante, os cursos ofertados já não eram tão atrativos e a cidade, apesar de amada, não abraça como antes.</p>
<p>Depois dos 30, coloquei no matulão uma profissão, muita vontade de aprender e cara de pau sobrando. Quem quer sair de casa sem uma bolsa de estudos ou um parente mecenas que banque uma aventura precisa desses três itens básicos. E eu tinha todos eles. Não foi presente, roubei do tempo. Parti.</p>
<p>Belo Horizonte tinha tudo que eu precisava: uma especialização atraente, um custo de vida possível para a grana economizada, amigos morando na cidade ou planejando mudar-se para ela, uma comida boa pra danar, um samba do bom e muitos bares por metro quadrado. “Pronto!”</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Quem quer sair de casa sem uma bolsa de estudos ou um parente mecenas que banque uma aventura precisa desses três itens básicos. E eu tinha todos eles. Não foi presente, roubei do tempo. Parti. </div></strong></h3>
<p>Dezembro chegou com a mudança, oportunidade de começar de fato um ano-novo. Aí vida te cobra outra vez. O preço da conta varia. Deixar o carro de lado, por exemplo, foi muito barato. Aliás, foi quase um investimento. Andar pelo Centro à noite sem aquele medo de ser abordado de forma violenta é uma das sensações mais gostosas. Precisava de um ambiente mais democrático para morar ou algo parecido com isso.</p>
<p>No entanto, nem tudo é barato. Saciar vontade de ir embora é ter de administrar a saudade o tempo todo. É se questionar se ainda restou pedaço de raiz, depois do arrancar-se, que permita uma nova florada. Como bem registrou o pesquisador Durval Muniz de Albuquerque Júnior, “a saudade é um sentimento pessoal de quem se percebe perdendo pedaços queridos do seu ser, dos territórios que construiu para si” (A invenção do Nordeste e outras artes).</p>
<p>Mudar de cidade é estar longe do sobrinho que chegou da escola todo pintado de índio; é não ter mais aquela marmita que a mãe sempre lhe entregava ao fim de uma visita (“depois tu traz meu depósito”); é não receber mais aquele convite para tomar uma cerveja em plena terça-feira (mesmo que a recusa fosse uma resposta-padrão); é não estar perto do mar.</p>
<p>Mudar de cidade é deparar- se com o preconceito contra aqueles que nasceram em uma região pobre como a minha. É estranhar o fato de não ser convidado no primeiro instante para tomar um bom café coado (com sorte, no terceiro ou no quarto instante). Esse custo &#8211; altíssimo para mim – rendeu-me muitas lágrimas e arranhões nos discos do Belchior e do Fagner.</p>
<p>Como li dia desses, na internet, ir para longe de casa por escolha envolve a sensação de estar por querer estar, mesmo que isso cause um certo sofrimento. É saber que existe algum propósito ter ido. Os muros invisíveis que nós mesmos construímos começam a ruir e o “realizar” só começa a fazer sentido quando permitimos que o novo lugar tome conta da gente.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Ir para longe de casa por escolha envolve a sensação de estar por querer estar, mesmo que isso cause um certo sofrimento. Os muros invisíveis que nós mesmos construímos começam a ruir e o “realizar” só começa a fazer sentido quando permitimos que o novo lugar tome conta da gente.</div></strong></h3>
<p>É possível sentir isso nos momentos mais simples do dia a dia. A gente passa a se sentir fazendo parte da nova morada quando é reconhecido no meio da rua, numa tarde qualquer, pelo garçom do seu bar do coração; por ter trocado cinco minutos de prosa com o cara que te vende queijo toda semana; por ter conquistado algumas calorias com aquele bolo de cenoura com chocolate do Mercado Central que não existe em nenhum outro lugar do mundo; por ter sempre por perto aquele torresmo de qualidade e um feijão tropeiro de responsa.</p>
<p>Essas pequenas coisas começam a te afagar o coração como um pedido de calma e paciência para os momentos de aperreio e de saudade. As conquistas – a confiança para tomar o café coado, o emprego novo que aparece, o aprender a tratar com a ignorância de alguns preconceituosos e os avanços acadêmicos – passam a te fazer escolher um repertório mais animado nos vinis. “Asa partida e dor” dá lugar a “você me dá prazer, você me dá cartaz”.</p>
<p>Com o tempo, a gente vai entendendo que sempre é possível voltar quando esse desejo for maior que o de ir. Ter para onde voltar é a segurança para ir cada vez mais longe, numa espécie de paradoxo que enaltece o prazer inebriante do “seguir”. Sinto, porém, que fiz um pacto parecido com o feito pelos personagens do mineiro Fernando Sabino:</p>
<p>“Últimos dias de aula. Eduardo, Mauro e Eugênio (um rapaz franzino, pálido e de olhar vivo, que viera transferido de outro colégio) conversavam no corredor sobre a vida que iam enfrentar lá fora, o destino que os esperava. Resolveram, os três, assumir um compromisso: qualquer que fosse o caminho que eles tomassem, vinte anos depois voltariam a reunir-se ali, naquele lugar.</p>
<p>- Vinte não: quinze – objetou Eduardo. – Vou morrer antes disso.</p>
<p>- Então quinze – concordaram os outros dois, sem se importar que ele morresse. Onde estivessem, acontecesse o que acontecesse.</p>
<p>- Neste mesmo lugar.</p>
<p>- Mesmo que tenham derrubado o Ginásio, nos encontraremos no lugar onde havia o Ginásio.</p>
<p>Marcaram a data certa, dia e hora, cada qual escreveu num papelzinho.</p>
<p>- Quem faltar, é porque morreu.</p>
<p>- Ou então está preso&#8230;</p>
<p>- Só não pode esquecer&#8230;</p>
<p>Calaram-se, e ficaram pensando&#8230;</p>
<p>- Que será de nós? – perguntou um deles, distraído.” (O Encontro Marcado)</p>
<p><span style="line-height: 1.5em;">
<a href='https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/minas10/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas10-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Carta de cachaças é um patrimônio mineiro conhecido no Brasil. Por aqui, as cervejas artesanais também regam as noites cheias de saudades." /></a>
<a href='https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/minas88/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas88-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Na Praça do Papa é possível ter uma bela visão da cidade e das montanhas que a cercam." /></a>
<a href='https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/minas99/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas99-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="O fim do dia no Centro de Belo Horizonte: cores no céu e barulho no chão." /></a>
<a href='https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/minas66/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas66-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Turma tocando samba na Feira da Savassi." /></a>
<a href='https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/minas77/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas77-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="O jardim da Praça da Liberdade foi inspirado em Versailles." /></a>
<a href='https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/minas22/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas22-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Capela de São Francisco de Assis, na Lagoa da Pampulha, pintada por Portinari." /></a>
<a href='https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/minas33/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas33-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Bairro Mangabeiras, onde fica a Praça do Papa e onde moram os ricos da cidade." /></a>
<a href='https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/minas44/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas44-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="A Praça da Liberdade é um dos símbolos de Belo Horizonte." /></a>
<a href='https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/minas55/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas55-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="No Mercado Central é possivel encontrar doces e queijos dos mais variados tipos para alimentar o coração." /></a>
<a href='https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/minas1/'><img width="1" height="1" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas1.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="No primeiro contato com Belo Horizonte, meses antes da mudança, estava sendo realizado um concurso de petiscos." /></a>

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