<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>A Pulga &#187; Débora Dias</title>
	<atom:link href="https://apulga.com/author/debora-dias/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://apulga.com</link>
	<description>Um coletivo diletante de ideias</description>
	<lastBuildDate>Mon, 02 Oct 2023 09:05:39 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
		<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
		<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=3.8.41</generator>
	<item>
		<title>Sendo estrangeira, não sou estranha</title>
		<link>https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/</link>
		<comments>https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 03 Jan 2015 14:20:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Débora Dias]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Andarilho]]></category>
		<category><![CDATA[Viagem]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=766</guid>
		<description><![CDATA[&#160; &#8220;A terra que piso é outra e outra é a compleição do comum das gentes que a habitam, as quais me sugerem que, sendo forasteiro, não sou estranho, porque <a class="read-more" href="https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_775" style="width: 710px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-33.jpg"><img class="size-full wp-image-775" alt="Portugal 33" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-33.jpg" width="700" height="525" /></a><p class="wp-caption-text">Coimbra. Foto: Marina Dias Lima.</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;">&#8220;A terra que piso é outra e outra é a compleição do comum das gentes que a habitam, as quais me sugerem que, sendo forasteiro, não sou estranho, porque se me tornou afetivamente fluida a fronteira do portuguesismo e da brasilidade&#8221;. Joaquim de Carvalho, historiador da cultura e da filosofia portuguesa, durante conferência apresentada em sua primeira viagem ao Brasil, 1953.</p>
<p>Viajar é diferente de morar. E para se viver em um lugar outro, penso eu, o esforço e a vontade de saber do outro, mantendo o próprio eixo, talvez nunca prescindam. Estrangeira em uma terra onde a língua que falo é a mesma, há três anos habito Portugal. A cada dia tento saber mais da sua complexidade, por vezes me irrito quando não alcanço os porquês, mas na maior parte do tempo é sentir, e aprender pelo sentimento. Agora em Lisboa, vivo em coletivo na cidade mulher luminosa e simpática. De sorriso largo, se abre fácil para os tantos forasteiros que por aqui aportam. É de muitos e não é de hoje que esse ponto privilegiado entre mundos mistura partida, chegada e passagem. Mas altera também fácil o humor, tem seus dias de chuva, e faz pensar na humidade (umidade, no uso do português brasileiro) e aquilo termina. Quando volta radiante e ilumina, é de um céu que desaba contentamento.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Estrangeira em uma terra onde a língua que falo é a mesma, há três anos habito Portugal. Por vezes me irrito quando não alcanço os porquês, mas na maior parte do tempo é sentir, e aprender pelo sentimento.</div></strong></h3>
<p>Dias atrás, em um café, uma pesquisadora indagava sobre o fenômeno dos brasileiros no País em anos de tanta crise. Às levas de trabalhadores, chegam agora os estudantes. Defendi que o argumento da língua é forte, mas não chega perto de explicar, nem de ser o motivo mais importante. Muitos são os caminhos que trazem as pessoas para cá ou que as fazem ficar. Se tiver que escolher, digo que foi porque amava a ideia e, como acontece frequentemente aos amores, idealizava Portugal antes de o conhecer, de aqui alguma vez ter estado. Depois desses poucos anos de convivência, conceitos foram se formando nos prazeres, nas dificuldades e nos aprendizados, e o amor se transformou. De Fortaleza para Lisboa, conheci a solidariedade imigrante, e com ela fui guiada para a estação de comboios, chegando em Coimbra. Na cidade do rio Mondego, era começar o doutoramento, preparar a chegada da filha então com dez anos, tentar uma bolsa que me permitisse ficar mais tempo a viver nesse outro tempo, diferente do que tive. O horizonte era imenso e o agora ainda tão distante. A crise era o futuro que hoje se realiza dramaticamente. E o futuro chegou rápido. A cada ano, as promessas de piora se cumpriam e muito do que o país conquistou após o abril de 1974, com o fim da mais longa ditadura da Europa ocidental, foi reduzido, extinto ou ameaçado. Pessoalmente, após quase um ano de incertezas, chegou do Brasil a tão esperada bolsa de estudos, e com ela a possibilidade institucionalizada de ficar mais. A filha foi se adaptando a um outro jeito de viver e de sentir, mergulhando no que chamamos cultura portuguesa, às vezes parecida, às vezes tão diferente da nossa. Aqui nos descobrimos brasileiras, afirmamos identidades na diferença. Conhecemos mais da África e da Índia, na mistura das gentes. Hoje, aos 13 anos, o aqui é mais dela do que meu.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Fui para o estrangeiro desse estrangeiro, e voltei. Conheci gente, firmei laços, soltei outros, e aconteceu de doer. Foi muito e ainda não foi o bastante.</div></strong></h3>
<p>Nesse tempo, viajamos, acompanhamos as estações, terminei minhas lições na universidade, pesquisei em arquivos, me emocionei até com papel, tinta e o pó. Fui para o estrangeiro desse estrangeiro, e voltei. Conheci gente, firmei laços, soltei outros, e aconteceu de doer. Em outros dias foi a saudade nesse Portugal já tão saudoso em si. De Coimbra mudei para Lisboa e casei com quem já era companheiro de vida e veio para perto. Mudamos de casa em três. Foi muito e ainda não foi o bastante. Vendo os que chegam a cada temporada, revendo os encantos e estranhamentos de chegada, é como se reatualizasse minha condição de imigrante, um pouco mais acomodada a cada ano, mas sabendo que esse tempo está suspenso, à espera de desfecho. Desenlace que talvez nem queira ainda. E o que fica? Muito dos versos de Ricardo Reis, aquele outro do Pessoa.</p>
<p style="text-align: right;">“Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros Onde que quer que estejamos. Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros Onde quer que moremos. Tudo é alheio Nem fala língua nossa. Façamos de nós mesmos o retiro Onde esconder-nos, tímidos do insulto Do tumulto do mundo. Que quer o amor mais que não ser dos outros? Como um segredo dito nos mistérios, Seja sacro por nosso”.</p>
<p style="text-align: right;">9-6-1932</p>
<p style="text-align: right;">Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994).</p>

<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-13/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-13-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 13" /></a>
<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-10/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-10-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 10" /></a>
<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-12/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-12-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 12" /></a>
<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-7/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-7-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 7" /></a>
<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-8/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-8-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 8" /></a>
<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-9/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-9-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 9" /></a>
<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-55/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-55-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 55" /></a>
<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-44/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-44-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 44" /></a>
<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-11/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-11-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 11" /></a>
<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-6/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-6-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 6" /></a>
<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-33/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-33-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 33" /></a>

<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>
