<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>A Pulga &#187; Grazielle Albuquerque</title>
	<atom:link href="https://apulga.com/author/grazzie/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://apulga.com</link>
	<description>Um coletivo diletante de ideias</description>
	<lastBuildDate>Mon, 02 Oct 2023 09:05:39 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
		<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
		<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=3.8.41</generator>
	<item>
		<title>Das Ding</title>
		<link>https://apulga.com/das-ding/</link>
		<comments>https://apulga.com/das-ding/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 28 Aug 2023 03:54:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Grilo Falante]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=2022</guid>
		<description><![CDATA[&#160; O local preciso era 14 paradas após a estação de metrô mais longínqua na qual eu já havia posto os pés. Por outro caminho, pegávamos a condução em frente <a class="read-more" href="https://apulga.com/das-ding/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2023/08/Das-Ding2.jpeg"><img class="alignnone size-full wp-image-2025" alt="Das Ding2" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2023/08/Das-Ding2.jpeg" width="768" height="1024" /></a></p>
<p>O local preciso era 14 paradas após a estação de metrô mais longínqua na qual eu já havia posto os pés. Por outro caminho, pegávamos a condução em frente a universidade, descíamos 2 paradas depois para então pegar outro ônibus, percorrer mais 11 paradas e finalmente chegar àquele ponto onde ainda restavam mais 14 até o destino final. Repito: era o lugar mais distante em que havia estado e aquilo me atingiu de diversas maneiras. Era o outro ateando fogo ao conhecido que havia em mim.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> O que a gente faz para se despedir quando não parece ser possível se despedir completamente? A gente viaja. Vai rumo a deixar algo, mas cuja jornada acaba impregnando o mensageiro daquilo que ele iria entregar. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Se esse texto fosse um mapa colocaria uma marcação naquela coordenada que foi das grandes fronteiras do meu enfrentamento. Há um desenho animado antigo chamado Cavalo de Fogo (Wildfire, 1986), nele uma menina cruza um portal dimensional para um mundo ao qual ela pertence e que, ao mesmo tempo, lhe é estranho. Uma relação fantasiosa entre um rancho em Montana, no oeste norte-americano, e o planeta Dar-Shan. Uma parte do que ela é está em cada lugar. Referência que pego emprestada como uma espécie de caricatura do idílio, da travessia abrupta, daquilo que de maneira infantil nos toma. Acho mesmo que a gente passa boa parte da vida procurando em uma paisagem e em algo externo a representação do que somos em uma fração muito íntima da nossa psiquê. Ocorre que, algumas vezes, é uma pessoa quem nos apresenta essa paisagem externa que nos endereça a esse destino interno. Como se alguém nos convidasse a esse caminho.</p>
<p>É um oximoro. Um paradoxo. O que está fora e ao mesmo tempo mora dentro. “Rua Leonor/Rua Semente”, eu escutava no segundo andar do ônibus enquanto percorria aquelas 14 paradas que eram o trajeto que tanto me acolhia como me provocava. E esse dilema me tomou de assalto porque simplesmente aquela paisagem era um imã de polos opostos. Quanto mais eu queria largá-la, mas ela fincava uma raiz dentro de mim. Em síntese, é percurso que enseja uma pergunta: O que a gente faz para se despedir quando não parece ser possível se despedir completamente? A resposta é: a gente viaja. E viaja como quem tenta, parte em uma missão. Vai rumo a deixar algo, mas cuja jornada acaba impregnando o mensageiro daquilo que ele iria entregar.</p>
<p>“Tão Forte e Tão Perto” (Extremely Loud &amp; Incredibly Close, 2011), adaptado do romance Extremamente Alto &amp; Incrivelmente Perto de Jonathan Safran Foe é uma espécie de petardo da Sessão da Tarde sobre esse tipo de Odisseia íntima. No filme um menino escuta do pai uma história sobre o 6º Distrito, uma parte perdida de Nova Iorque cuja ideia serve de bússola para a procura de um lugar imaginário. É uma relação preenchida de histórias, com uma linguagem própria. Diante das dificuldades do filho em se relacionar, o pai criava um jogo para fazê-lo mover-se e ir, ao seu jeito, enfrentando seus medos. É o preâmbulo do enredo que, de fato, começa com a morte do joalheiro Thomas Schell e segue pela expedição que o pequeno Oskar empreende na tentativa de achar o dono para uma chave encontrada nas coisas de seu pai.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Eis o paradoxo do filme e daquilo que nos afeta. É sentir falta de algo quando o objetivo era justo não sentir.  Trata-se de um estranho percurso em que a gente se transmuta na tentativa de abandonar o que nos constituí. É sobre um movimento. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>A busca pelo destinatário desconhecido é um exercício que faz Oskar revisitar a cidade além dos muros, como Thomas sempre quis. O menino saí cruzando muitas fronteiras que vão se refletindo umas nas outras, como se olhássemos os espelhos em forma de triângulo no fundo de um caleidoscópio. Percorre os bairros além de Manhattan, atravessando a memória de quem ele próprio era ao lado do pai. São partes de si que vão se transformando pela jornada sem, no entanto, mudarem completamente. Dentro e fora. O oximoro. O caminho para viver seu próprio luto.</p>
<p>Podia ser a jornada bíblica de Tobias para encontrar a cura de Tobit ou alguma missão de Zeus dada a um herói grego. O recurso é antiquíssimo. O 6º Distrito, a chave ou o que mais puder tomar a imagem de algo a ser encontrado e devolvido ao seu lugar. Na verdade, essa “coisa” (das ding, diria Freud) é o sentimento fora de um espaço que lhe caiba. É preciso gastar certa energia na tentativa de, finalmente, devolver-lhe um sentido, restaurá-la. A coisa, tal como o choro que acalma. Na sua expedição de reconhecimento, ao cruzar diversas fronteiras, Oskar Schell diz: “Eu estava me aproximando do meu pai. Eu estava perdendo-o”. Touché!</p>
<p>Eis o paradoxo do filme e daquilo que nos afeta. É sentir falta de algo quando o objetivo era justo não sentir. Recordo o quanto já gastei de palavras no exercício de racionalizar. Não se trata de um não-lugar, do espaço da barganha. Tampouco é o passado visto da perspectiva de quem hoje compreende e aceita que não há mais afeto. Não sendo sobre o lugar e nem sobre o tempo, trata-se de um estranho percurso em que a gente se transmuta na tentativa de abandonar parte do que nos constituí. É sobre um movimento. Mas, suspeito que essa seja uma jornada impossível, visto que há algo em nós que não pode ser descolado, apenas deixa de estar fora para encontrar um pouso dentro. Contudo, após o trajeto, muda-se algo de substancial, como o estado físico de uma matéria. O gelo, o vapor e a água. Outro peso, forma, temperatura e pressão – ainda que com a mesma essência.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> E qualquer elaboração da perda passa por esse sequestro de um traço que era do outro e que você incorpora no eu. Mas aí há essa dialética. Era do outro, mas já era eu. Já era. Porque se a gente é ser com. Você só se apropriou de algo que já era teu e que você tinha se apoiado nesse outro por conta desse traço. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Isto porque as despedidas todas revelam algo que há em nós. E se esse texto é sobre o que se deixa, o percurso para decantar sentimentos, é preciso antes compreender como eles se formam. O porquê de ser impossível deixar algumas coisas por completo. Talvez das melhores explicações para essa impossibilidade, em sua plenitude, eu tenha escutado pelas palavras da psicanalista Maria Homem. Ao falar sobre o assunto, ela volta ao que une para, então, arrematar a partida: “Já percebeu que você termina uma relação e muitas vezes começa a fazer uma coisa que o outro fazia? Ou começa a fazer algo que você achava que nem gostava, mas que o outro queria que você fizesse? Você começa a fazer ginástica, começa a nadar, vai aprender uma língua, muda um estilo”.</p>
<p>Ao lado das perguntas, Maria Homem enceta uma resposta que me pareceu fechar um ciclo de inquietudes: “E depois de muito tempo você começa a se dar conta de que você carrega um traço que era do outro. É muito comum. Você aprende uma forma de falar, pega uma expressão que era do outro, vai cumprir um desejo inacabado do outro. Ele deixou uma música, era seu parceiro e você vai terminar de compor aquela música, vai escrever um livro de memória, vai pintar um quadro&#8230; Você vai elaborar aquela perda”. Nesse apanhado de frases, em uma costura que é própria da sua fala, a psicanalista revela essa espécie de sintoma que é a nossa busca por percorrer um caminho que tanto nos preenche como no tira algo.</p>
<p>É nesse exato momento que Maria Homem mata a charada ao enunciar: “E qualquer elaboração da perda passa por esse sequestro de um traço que era do outro e que você incorpora no eu. Mas aí há essa dialética. Era do outro, mas já era eu. Já era. Porque se a gente é “ser com”, você só se apropriou de algo que já era teu e que você tinha se apoiado nesse outro por conta desse traço. Você já tinha se apaixonado, por exemplo, por esse homem porque ele já era do universo da arte, que era teu, que você desejava e que você nunca se autorizou. E quando você perde isso, então você assume esse lado, desenvolve esse lado, mesmo tendo perdido o objeto. Então, na verdade, o que é a morte, o luto e a perda? São as várias faces das metamorfoses do eu. Grandes metamorfoses o tempo inteiro, a gente vai comendo, deglutindo e sendo outra coisa.”</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> É uma tentativa de aparta-se de algo visceral, de algum sentido que nos constitui. A figura do pai, um grande amor, a ideia de uma terra encantada&#8230;  É justo o exercício de desprender-se que acaba por nos revelar algo.  </strong><strong></div></strong></h3>
<p>É o “estar com”, o mit sein, como diz o filósofo alemão Peter Sloterdijk, que a psicanalista revela. Por isso, nunca conseguimos nos despedir de algo que em parte está em nós. Mais uma vez estamos diante de um oxímoro. Contudo, mais do que um exercício narcísico, há muito de poesia nesse movimento de nos reconhecermos em algo ou em alguém para depois nos vermos sendo esvaziados desse sentido original, justamente quanto o mais procuramos preenchê-lo. É porque talvez (apenas talvez) o luto se realize ao vermos que está dentro o que procurávamos fora. Conheço uma história de quem detestava cafés e fez um blog sobre o tema para servir de diário à sua jornada. Noutro caso, um fanzine foi artefato da despedida. Definido lindamente como “um retrato 3&#215;4 da alma”, a brochura caseira era o artifício do que precisava ser entendido. Movimentos para gastar o que só pode ser enterrado anos depois. Ao fim, é o menino Oskar Schell descobrindo que conseguia explorar a geografia de uma cidade e os seus próprios limites sem o pai.</p>
<p>É uma tentativa de aparta-se de algo visceral, de algum sentido que nos constitui. A figura do pai, um grande amor, a ideia de uma terra encantada&#8230; Mas como isso está cravado no que se é, tal tentativa tem lá sua faceta quixotesca. Novamente, a viagem para deixar e ao mesmo tempo encontrar algo. É justo o exercício de desprender-se que acaba por nos revelar algo. E quantos anos não se demora nessa estrada? Lembro de um dia, no entardecer defronte a uma janela naquele ponto mais longínquo, pensar que meus passos eram muito válidos, que eu só precisava de mais tempo para estar ali. Talvez fosse o início da Aurora, como escreve Paulo Mendes Campos.</p>
<p>É curioso que ao finalizar este texto sobre “despedidas”, em meio a uma conversa fortuita, eu receba um fragmento escrito assim “Fiquei triste um certo dia quando soube que até as estrelas morrem. Mas, desta vez, não foi a poesia que me consolou&#8230;” Um paragrafo vindo assim, por mensagem, num diálogo na madrugada.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Esse reconhecimento de quem se é, da própria história e do desejo que já existia antes de você encontrar o outro é justo o que lhe é “devolvido” ao fim da jornada de despedida. Gorgeous and alone. Face to face, como num solo do Nels Cline.  </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Sempre tive medo de me despedir, gastei tanto o tempo das coisas que algumas vezes me veio outro temor: o de que as palavras perdessem a força. Hoje entendo que é isso mesmo. Deixar ir leva tempo. É uma morte morrida e não matada. Enfraquece a memória porque algo novo é que vai ganhando vida. A viagem é, enfim, o ato de consumir. Só depois é possível compreender o novo. Por isso, também precisei exaurir alguns sentimentos. E também por isso, repito, este texto é sobre o movimento entre o espanto de ver-se apartado do futuro e o sentimento de quando já nos transformamos e não há mais lamento.</p>
<p>Na viagem que me dispus a fazer reconheci esquinas, percorri o caminho inteiro olhando todos os detalhes, me atentei aos letreiros, escutei os sons, pus os pés na grama, respirei tentando capturar o cheiro de éter e páprica, travei um diálogo insólito com uma senhora que desenhava sozinha pelas ruas. Exauri o que pude para então reconhecer que apenas precisei de um pouco mais de tempo para chegar até ali. Esse reconhecimento de quem se é, da própria história e do desejo que já existia antes de você encontrar o outro é justo o que lhe é “devolvido” ao fim da jornada de despedida. É uma parte sua que se revela inconteste e por isso mesmo não pode ser abandonada completamente. “Gorgeous and alone. Face to face”, como num solo do Nels Cline.</p>
<p>Seja como for, acho que vou dizendo um adeus fraco, agora ou depois. Quando estiver comendo um falafel do Zaim, ainda me lembrarei do que foi. Caminho feito, o passado não é mais. Muda devagar e sempre, o tempo todo, tal qual nós mesmos.</p>
<p>Uma charada in looping. “Finitude e eternidade não precisam ser antágonos”, sentencia minha interlocutora da madrugada. Ela que também escreveu sobre potes de vidros, armários antigos, espiãs russas, bicicletas azuis e uma série de fragmentos rotineiros de uma vida que já é outra. O oximoro. Na memória o aviso: &#8220;Rua Leonor/Rua semente&#8221;, o som que hoje escuto de outra forma dentro de mim.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/das-ding/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Groucho Marx e o amor de si</title>
		<link>https://apulga.com/groucho-marx-e-o-amor-de-si/</link>
		<comments>https://apulga.com/groucho-marx-e-o-amor-de-si/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 13 Jan 2022 23:28:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Grilo Falante]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=2007</guid>
		<description><![CDATA[&#8220;Amor é dado de graça. É semeado no vento. Na cachoeira, no eclipse&#8230;&#8221;. Assim Carlos Drummond de Andrade alinhava um dos poemas mais bonitos da literatura brasileira. Se não fosse <a class="read-more" href="https://apulga.com/groucho-marx-e-o-amor-de-si/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2022/01/Groucho3.png"><img class="alignnone size-full wp-image-2018" alt="Groucho3" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2022/01/Groucho3.png" width="400" height="300" /></a></p>
<p>&#8220;Amor é dado de graça. É semeado no vento. Na cachoeira, no eclipse&#8230;&#8221;. Assim Carlos Drummond de Andrade alinhava um dos poemas mais bonitos da literatura brasileira. Se não fosse belo pelas palavras, seria pela maneira delicada de dizer uma verdade muito dura: o amor é escolha. Por mais que nos esforcemos para merecê-lo, não há peripécia, adorno ou mesmo imolação que consiga nos dar aquilo que também é atributo do outro; o gesto de nos escolher por aquilo que somos.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É isto: amamos pelo que o outro diz de nós, por aquilo que nele nos cala e, nesse sentido, não há esforço que molde esse intangível encontro. Digo que a dedicação só se sustenta porque algo nesse sentimento de encaixe se atualiza. “A gente se escolhe”. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>É isto: amamos pelo que o outro diz de nós, por aquilo que nele nos cala e, nesse sentido, não há esforço que molde esse intangível encontro. É claro, a maturidade nos mostra que só se sobrevive àquilo que se constrói a partir desse encontro. Mas meu ponto aqui não é o da pertinência, do tempo e daquilo que vai se urdindo a partir desse encontro. É precisamente o contrário. Digo que a dedicação só se sustenta porque algo nesse sentimento de encaixe se atualiza. “A gente se escolhe” é uma frase que minha comadre me repete há anos com uma precisão cirúrgica a selar esse dilema.</p>
<p>E o que nos faz continuar escolhendo algo ou alguém? Como se diz na homilia católica, “eis o mistério da fé”. Ou desejo é falta, diria Freud. Podemos procurar explicações mil, mas a questão aqui é precisar o quanto dessa escolha é da conta do outro, e não nossa. Repito: não há esforço que molde esse intangível encontro.</p>
<p>Se isso serve para entendermos nossas paixões (e nos libertarmos, caso alguém não nos escolha mais), ver essa constatação pelo espelho é algo que nos impõe um olhar agudo sobre nós mesmos. Woody Allen, no enredo que certamente é o precursor de nove entre dez comédias românticas citadas aqui como exemplo, coloca essa questão em Annie Hall (1977): “Não quero entrar pra nenhum clube que aceite alguém como eu como sócio”. A frase de Groucho Marx dita por Allen atualiza o humor judaico para expor a ironia de que, quando alguém nos aceita como somos, talvez algo de errado haja aí, algo que nos faça perder o interesse porque justamente a falta é (supostamente) preenchida.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">“Não quero entrar pra nenhum clube que aceite alguém como eu como sócio”. A frase de Groucho Marx dita por Allen atualiza o humor judaico para expor a ironia de que, quando alguém nos aceita como somos, talvez algo de errado haja aí, algo que nos faça perder o interesse porque justamente a falta é preenchida.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Essa referência me fez lembrar de um causo corriqueiro, mas bem ilustrativo. Loli, minha professora de alemão, ao me ajudar a procurar uma editora para minha tese e ao esbarrar com uma em relação à qual não viu defeitos aparentes, saiu-me com esta: “Grazinha, vamos procurar mais, porque está tudo muito bem, então, deve ter algo errado”. Essa história até hoje me traz boas risadas por múltiplos motivos, mas aqui vou pegar o fio da “inadequação” para descer um ponto a mais na ferida do ego. Saio do encontro com o outro (a editora, o amor, o filme etc.) e vou para o encontro com o eu.</p>
<p>É esse o tema que tem me pegado em rodeios como no nariz de cera que escrevi até aqui. Em específico, a falta que sentimos que nos faz tanto desejar como repelir algo – não no outro, mas algo em nós mesmos. Com o que é possível nos reconciliarmos a partir do que já vivemos e o que não pode prescindir de ainda ser vivido? Não sei se existe resposta fácil para essas questões. Suspeito que elas vão variar de acordo com o tempo histórico e com o nosso próprio tempo de vida, mas há algo nesse dilema que me intriga e foge um bocado às experiências para centrar-se em algo mais essencial.</p>
<p>Talvez possa dizer de forma mais precisa: e quando sentimos falta de nós e por isso “precisamos” nos escolher? E se cantássemos para nós mesmos o trecho “Olha, você tem todas as coisas/ Que um dia eu sonhei pra mim/ A cabeça cheia de problemas/ Não me importa, eu gosto mesmo assim&#8221;? É piegas e bobo, eu sei, um chavão. Ocorre que essa banalidade nos faz descer mais um degrau no argumento, indo a uma espécie de necessidade de aceitação dos nos próprios defeitos para seguir adiante em nossa escolha e aceitação do que somos. Um amor de si gabola que nos corrigi o rumo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Com o que é possível nos reconciliarmos a partir do que já vivemos e o que não pode prescindir de ainda ser vivido? Não sei se existe resposta fácil para essas questões. Suspeito que elas vão variar de acordo com o tempo histórico e com o nosso próprio tempo de vida, mas há algo nesse dilema que me intriga e foge um bocado às experiências para centrar-se em algo mais essencial.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>É como visualizar Groucho Marx sendo enquadrado por sua mãe judia em um discurso de quem tanto fez para lhe dar a luz e hoje não recebe nada em troca. O velho Groucho, diante de drama maior, haveria de pôr a ironia de lado e lustrar o próprio ego para fornecer uma significativa cota de orgulho e atenção à sua progenitora. É como ver meu afilhado, na galhardia dos seus 5 anos, exibindo-se com embaixadinhas para um grupo de crianças mais velhas. Destemido, olhava para a turma e dizia, entre pequenos chutes: “Olha o que eu seu fazer”. Deu certo, enturmou-se. Mas, no fundo, ele fazia mesmo era o malabarismo para si, em um misto de personalidade bem-resolvida, destemor infantil e, sobretudo, aceitação irreverente das suas habilidades meio falhas e meio atrevidas. “Uma pirueta, duas piruetas/ Bravo, bravo/ Super piruetas, ultrapiruetas/ Bravo, bravo/ Salta sobre a arquibancada e tomba de nariz/ Que a moçada vai pedir bis/ Que a moçada vai pedir bis”.</p>
<p>Muito antes de saber da existência de Groucho Marx, Didi Mocó fez esses malabares durante toda a minha infância e, confesso, sempre preferi os filmes e esquetes em que ele se dava bem no final àqueles em que saía triste tal qual o Carlito, alijado por algum galã. Vejo muito mais graça no Didi fantasiado de Maria Bethânia com o coração transbordando de pretendentes ao errante e preocupado Bonga de “Os Vagabundos Trapalhões” (1982). É como se Pedro Malasartes fosse a antítese de Groucho Marx. Sem ter muito em que se sustentar, para o astuto Pedro não havia espaço para ironias autodepreciativas, mesmo que cheias de charme.</p>
<p>Aliás, passei a infância escutando minha avó me falar das aventuras do Malasartes, uma espécie de MacGyver do sertão, a léguas de distância de qualquer Cinderela encantada. Eram histórias de um pobre coitado que, com um saco, três pedras, um graveto e muita esperteza conseguia quebrar o encanto da princesa, vencer o desafio do rei e ganhar seu quinhão no reino. Ah, os descendentes de Lazarillo de Tormes! Não à toa meu coração disparou ao ver João Grilo, do genial Ariano Suassuna, com seus causos sobre a cachorra que havia deixado um testamento, o gato que &#8220;descomia&#8221; dinheiro e a gaita mágica que ressuscitava gente. O Grilo enganou o padre e o bispo, o padeiro e sua mulher, o cangaceiro chefe do bando e, não contente com a façanha, diante do diabo, não usou de autocomiseração boba. Como ele mesmo anunciou, de besta só tinha a cara, e se saiu com um trunfo maior do que qualquer santo, apelando à Nossa Senhora, a Compadecida.</p>
<p>Um detalhe que vale menção é que Grilo faz seu chamamento sem solenidades e com um verso para lá de maroto: “Já fui barco, fui navio/ Mas hoje sou escaler/ Já fui menino, fui homem/ Só me falta ser mulher/ Valha-me Nossa Senhora/ Mãe de Deus de Nazaré”. É como ele mesmo diz: a mãe da Justiça, a lhe acudir, sabendo exatamente a peça que o Grilo é. Mas, antes, foi ele próprio quem não desistiu de si mesmo diante de todas as suas imperfeições e, muito provavelmente, até por elas. Queria estar no clube, era tudo o que ele tinha. Em uma análise psicanalítica de botequim, o Grilo havia escolhido a si próprio. Podia ensinar a Drummond o avesso do seu poema: &#8220;Amor é dado de graça. É semeado no vento. Na cachoeira, no eclipse&#8230;&#8221; o Grilo amou-se, sabe Deus (ou Nossa Senhora) o porquê. Mas é fato que, de alguma forma, supriu a própria falta reconciliado que estava consigo, com o que havia de bom e ruim.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Mas, antes, foi ele próprio quem não desistiu de si mesmo diante de todas as suas imperfeições e, muito provavelmente, até por elas. Queria estar no clube, era tudo o que ele tinha. Em uma análise psicanalítica de botequim, o Grilo havia escolhido a si próprio. Podia ensinar a Drummond o avesso do seu poema: &#8220;Amor é dado de graça. É semeado no vento. Na cachoeira, no eclipse&#8230;&#8221; o Grilo amou-se. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Eu volto a pensar nisso, como se houvesse solução para esse mistério contínuo do movimento de quando somos gentis conosco e quando nos torturamos. Penso que talvez uma arenga bem dosada nos sirva de medida, já que ela nos provoca, mas também nos acaricia com um humor necessário à vida. A chave me parece ser mesmo querer fazer parte do clube. Mesmo que ele não exista de fato, há algo que se sobressai naqueles que, enfim, fazem essa escolha. Acho que é um pulo não apenas por escapar, mas sobretudo por viver. “A esperteza é a arma do pobre”, diz a Compadecida diante dos pecados do Grilo.</p>
<p>Há alguns anos tive o privilégio de entrevistar Ariano Suassuna e lhe perguntei justamente sobre o encantamento e essa salvação pela astúcia. Ele me respondeu: “Sou uma pessoa que, com 80 anos de idade, ainda continuo animoso”. Por isso, sua literatura tinha esses personagens que enfrentam o real com uma espécie de galope mágico. Suassuna perdeu o pai assassinado ainda criança e viu sua mãe esconder o paradeiro do assassino para evitar que um rastilho de vingança destruísse a vida dos filhos. Foi compreender isso adulto. Dizia-se um homem assombrado até que sua esposa Zélia lhe aliviou o coração. Quando a conheceu, gaiato como ele só, Ariano disse a sua irmã Germana: “Hoje, na Rua Nova, uma galeguinha maravilhosa, linda, olhou pra mim com cara de alma que tá pedindo reza”. Ariano teve uma sorte imensa por Zélia ter lhe escolhido, dessa sorte dita por Drummond, que é do outro para conosco. Mas, acho que em algum momento ele mesmo escolheu a si mesmo como um ser animoso que era.</p>
<p>Nem sempre é possível seguir em frente pondo os pés sobre um alicerce imperfeito. Há pendências que precisam ser resolvidas para que não retornem sempre numa sabotagem cada vez maior, é fato. Mas também há uma hora em que a gente deve se escolher como escolhe o outro que enuncia nossas faltas e nosso desejo. Talvez por isso mesmo demos esse passo quando entendemos o que de nós pode ser aceito mesmo que nos doa. “Quatro cambalhotas, cinco cambalhotas/ Bravo, bravo/ Arquicambalhotas, hipercambalhotas/ Bravo, bravo/ Rompe a lona, beija as nuvens, tomba de nariz/ Que os jovens vão pedir bis/ Que os jovens vão pedir bis”. Salve o Grilo Saltimbanco Malasartes!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/groucho-marx-e-o-amor-de-si/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Foi bom, eu fingi que estava feliz</title>
		<link>https://apulga.com/foi-bom-eu-fingi-que-estava-feliz/</link>
		<comments>https://apulga.com/foi-bom-eu-fingi-que-estava-feliz/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 27 Nov 2019 06:28:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Grilo Falante]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=1906</guid>
		<description><![CDATA[Existe uma história ótima que ronda o meu círculo de amizades há anos. O filho mais velho da minha comadre era uma criança muito adulta. Quando levado àqueles playgrounds de <a class="read-more" href="https://apulga.com/foi-bom-eu-fingi-que-estava-feliz/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/11/frida.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1909" alt="frida" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/11/frida.jpg" width="361" height="339" /></a></p>
<p>Existe uma história ótima que ronda o meu círculo de amizades há anos. O filho mais velho da minha comadre era uma criança muito adulta. Quando levado àqueles <i>playgrounds</i> de <i>shopping</i>, sempre preferiu ficar em um canto, desenhando a correr e a pular como os outros meninos da sua idade. A mãe chegava a impulsioná-lo com algumas palavras e gestos, na tentativa de que o pequeno “gastasse” toda aquela oportunidade que, por vezes, parecia desperdiçada. Esse é o preâmbulo do episódio mais representativo desse dilema sobre as incríveis “chances da vida”. Acho que, por volta dos seus 5 ou 6 anos, depois de muita insistência, nosso infante finalmente cedeu e, atendendo aos anseios familiares, vestiu-se de toda uma capa lúdica e foi participar de sua primeira peça no colégio. Ao sair, a mãe, entusiasmada, interpelou-o: “E, então, meu filho, como foi?”. A resposta sincera veio de chofre: “Foi bom, mamãe, eu fingi que estava feliz”.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A frase “foi bom, eu fingi que estava feliz” – acabou virando um mantra, uma espécie de brincadeira íntima, que repetíamos sempre que queríamos designar a astúcia necessária para representar um papel de nós esperado pela sociedade.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O caso – e, sobretudo, a frase “foi bom, eu fingi que estava feliz” – acabou virando um mantra, uma espécie de brincadeira íntima, que repetíamos sempre que queríamos designar a astúcia necessária para representar um papel de nós esperado pela sociedade. Para os diversos meandros da academia, então, essa parecia ser a máxima perfeita. Tudo que se deve tolerar e representar em nome de um título. Como numa espécie de jogo da vida, chega ao fim mais repleto de patrimônio e relações aquele que melhor dominar a arte da interpretação.</p>
<p>Decerto, minha observação tem lá seu tom cínico. A academia, que tanto se coloca como balisa das outras instituições é, ela própria, um dos espaços de reprodução mais violenta e abusiva dessa lógica. Contudo, nem de longe se pode alegar que tenha exclusividade para tal <i>modus operandi</i>. Quanto mais hierárquicas (com poucos filtros verticais) e estimulantes da vaidade sejam as instituições, mais fácil é de se perpetrar essa lógica. Ela está na justiça, na diplomacia, na caserna&#8230; E, <i>touché</i>, chega no local do pensamento crítico que tudo analisa até que o referido princípio não lhe coloque em xeque. Tudo em nome das boas relações corporativas (sic).</p>
<p>Fosse eu falar o que vivi&#8230; Até hoje me pergunto como é possível um programa considerado como referência de estudos colocar para orientar em um doutorado alguém que sequer havia concluído uma orientação de mestrado. No âmbito do Judiciário, vi um advogado não ir a audiência mediente a apresentação de um atestado de uma ginecologista. A cena processual foi lá nos anos 1990. Logo depois, o debate em torno da Reforma do Judiciário sinalizou uma mudança institucional nunca convertida em democratização institucional. Mas, de alguma maneira, o incômodo estava lá aparecendo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Decerto, minha observação tem lá seu tom cínico. A academia, que tanto se coloca como balisa das outras instituições é, ela própria, um dos espaços de reprodução mais violenta e abusiva dessa lógica.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Nos dias de hoje há uma ironia. Ainda que por uma superexposição de agenda e seus reais trâmites, de uma maneira nada usual, a magistratura se vê diante de críticas jamais vistas. Então, hoje também fico pensando quando movimentos como o #metoo, abarcando abusos de ordens distintas, chegará enfim à academia. Instituições com potencial de transformar vão minando suas estruturas pela reprodução do compadrio.  Não adianta questionar autores clássicos, falar em empoderamento periférico, se o desrespeito se coloca cotidiano nas relações mais básicas. Talvez daqui a alguns anos vejamos as contradições acadêmicas explodirem nas mesmas ironias que chegaram à Justiça em meio ao debate público.</p>
<p>Mas, de forma sintética, não há segredo e nem mistério: relações institucionais que dependam da sorte, dado o nível de poder e verticalidade nas quais se baseiam, costumam ter algo de muito errado em seu cerne. Da sorte dependem os sentimentos, e não um julgamento justo, uma orientação não abusiva, uma ordem abjeta. Contudo, seguimos aprendendo a pagar os preços. Digo, esses preços específicos do silenciamento e da <i>mise en scène</i>.</p>
<p>É exatamente este o meu ponto: quando se deve decidir não pagar esse preço? Quando simular a felicidade se torna algo pesado demais? Quando sucumbir for a única opção com sentido? Em nossa sociedade, há uma ode à felicidade. Ela é escancarada, como nos debates em torno do “show do eu” das redes sociais, para usar um termo da Paula Sibília, mas também ela é velada nos escaninhos do que todos suportamos em nome do que julgamos ser um bem maior.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Não é o caso de ter um raciocínio niilista ou hedonista, como se na vida não existissem responsabilidades. O que apontamos aqui é outra questão: é o sufocamento e a violência consentida em nome do pragmatismo.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Por vezes são os que nos amam a indicar, compreensivelmente, esse caminho. O concurso, a casa própria, o título, o pacote do que deveria trazer a felicidade. Talvez aqui seja o caso de evocar um teórico mais clássico, Erving Goffman, a nos indicar, como no teatro, o jogo interpretativo que fazemos para sobreviver. É muito comum pagar esses preços e, sim, ter uma sobrevida &#8211; não no sentido primeiro, do essencial – mas, ao contrário, de algo que é superficial e ao qual nos agarramos mesmo representando o oposto dos nossos desejos. Dito de forma direta: o apego à artificialidade que pode nos destriur silenciosamente. Se as instituições pagam um preço por isso a longo prazo (os brioches de Maria Antonieta podem atestar), o custo pessoal tampouco é baixo. Aí abre-se a janela para as escolhas íntimas que, por essência, temos maior manejo.</p>
<p>Não é o caso de ter um raciocínio niilista ou hedonista, como se na vida não existissem boletos, responsabilidades e dificuldades. O que apontamos aqui é outra questão: é o sufocamento e a violência consentida em nome do pragmatismo. Sempre que me pego articulando essas ideias, me vêm à mente aquelas mulheres dos anos 1950 que, seguindo a recomendação das mães, das avós e das revistas femininas, apreendiam sistematicamente que era melhor aceitar todas (ou quase todas) as violências conjugais em nome de não serem mulheres desquitadas, de não perderem o sustento do lar, de não macularem seu nome. Eis aí títulos não acadêmicos a pedir o silêncio como paga. Não é difícil imaginar a frase “minha filha, não faça isso, é para o seu próprio bem”. O patriarcado dá contorno a essa cena como a tantas outras, mas, como no argumento que levantamos, a lógica é mais ampla: tudo suportar em nome de algo pretensamente maior.</p>
<p>Acontece que o preço que pagamos por esse caminho de pragmatismo idílico desconhece os limites humanos, personalíssimos e intransferíveis. Nem tudo vale a pena e nem tudo nós suportamos da mesma maneira. Essa fronteira deve ser não só respeitada como dita. Quebrar o silêncio é fundamental. A lógica do  “faça, mas não alardeie” é outra violência. Parte fundante do processo de cura é a fala. Freud foi genial, entre outras coisas, por, justamente na época de ouro dos manicômios, apontar para a palavra como forma de elaboração da dor.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Acontece que o preço que pagamos por esse caminho de pragmatismo idílico desconhece os limites humanos, personalíssimos e intransferíveis. Nem tudo vale a pena e nem tudo nós suportamos da mesma maneira.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Contudo, é importante voltarmos ao passo anterior, àquele sobre admitir que não valeu a pena. Esse parece ser outro tabu dos nossos tempos. Diante do fracasso, há sempre uma advertência para vermos o lado bom e para tocarmos em frente. “Fazer do limão uma limonada” parece a concessão máxima que o pragmatismo idílico dá ao fracasso. A frase é em si um sofisma, porque o sonho de que tudo pode nos levar a um resultado prático é tão fantasioso como é pueril a esperança de que se possa seguir extraindo do mal um bem. Se tal pensamento serve para tantas coisas cotidianas, certamente não serve para determinadas situações nas quais sucumbimos. O que se procura é, neste caso, tão e simplesmente encarar essa verdade sem subterfúgios. Só isso pode nos levar ao passo seguinte. Sem tomar consciência de que algo para nós pereceu, não é possível dar qualquer outro movimento de mudança.</p>
<p>É, então, que o ato de falar e calar (por vezes, negar, no sentido de atribuir ao motivo de determinadas violências um fim) torna-se o segundo e importante passo. Há uma série de retratos de Frida Kahlo em que ela aparece com o rosto recortado das fotografias. No lugar da cabeça, um buraco, o vazio. É, talvez, uma expressão, digamos, plástica, de algo primeiro, que é a capacidade de recontar a própria história e, diante dela, dar os sentidos que as experiências de fato tiveram em nós. Em um <i>stand-up comedy</i> intitulado “Nanette”, a australiana Hannah Gadsby vai destrinchando com uma capa de humor uma série de situações abusivas, em especial as relativas ao ódio à comunidade LGBT.</p>
<p>Lá pelas tantas, Hannah aponta para os buracos na sua própria narrativa e admite que, quando finalmente se assumiu lésbica, era tarde demais: ela já tinha internalizado a homofobia. É algo que começa parecendo um esquete de humor, mas é um soco no estômago. Ali não há um rosto retirado da foto, mas há uma negativa exposta. É alguém que sucumbe, expõe isso e só dessa forma consegue dar o significado real ao que se passou. Se uma verdade que é dura aflora, outra mais doce, porém inverídica, é finalmente silenciada.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É exatamente por isso que ao assumir que determinadas processos são uma farsa e que atos de violência e abuso foram perpetrados, o que se busca de fato é uma mínima reparação pela fala e pela verdade. Assume-se um valor.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Fico pensando cá com os meus botões se nós estivéssemos até hoje dizendo que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil só porque isso foi dito reiteradamente por quem convinha. Ou, se ninguém tivesse se revoltado contra a ideia sacrossanta do casamento, será que estaríamos até hoje falando que cabe à mulher zelar pela família? Quando uma versão é negada, outra é dita. Costumam ser mais custosas e verdadeiras aquelas histórias veladas que, quando vêm à tona, causam tanto pavor.</p>
<p>É exatamente por isso que ao assumir que determinadas processos são uma farsa e que atos de violência e abuso foram perpetrados, o que se busca de fato é uma mínima reparação pela fala e pela verdade. Assume-se um valor. Não sem custo, mas assume-se. O preço pelas escolhas todos nós pagamos. Novamente, é personalíssimo e intransferível. Só que, em determinados momentos, a questão é saber se você vai pagar pela doença de permanecer calado, inoculando as convenientes meias verdades, ou se é melhor pagar a conta de assumir o que não foi. É como se disséssemos de forma inversa: “Foi bom, eu não fingi que estava feliz”. É o limite de cada um. Não é saudável ir contra ele. Não é mais barato pagar o preço de fingir que dá para ir levando.</p>
<p>Aos que novamente relembram a práxis da vida, eu vislumbro o desejo que dá contorno aos limites. Por que um homem branco, hétero e bem-sucedido deixaria tudo para assumir outra identidade de gênero?  Por que alguém escolhe abandonar a faculdade de medicina? Por que negar que cada de nós é movido por pulsões e fronteiras distintas?</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Se, ao fim e ao cabo, somos nós que pagamos o preço, convém que nós também possamos escolher.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O risco de negar nossas verdades, em especial as mais duras, é ficarmos aprisionados como em um livro de Tolstói. O pobre Ivan Ilitch, que apenas teve sua epifania reveladora no momento da morte. Só ali viu que levou a vida a contemplar todos os desejos alheios, menos o seu. Se, ao fim e ao cabo, somos nós que pagamos o preço, convém que nós também possamos escolher.</p>
<div></div>
<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/foi-bom-eu-fingi-que-estava-feliz/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A senhora do Tegel</title>
		<link>https://apulga.com/a-senhora-do-tegel/</link>
		<comments>https://apulga.com/a-senhora-do-tegel/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 08 Jan 2019 23:22:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa curta]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=1869</guid>
		<description><![CDATA[Há muitos anos, eu estava sentada no chão do Tegel quando vi uma cena corriqueira que até hoje trago como referência. Depois de cruzar Berlin de ônibus com duas malas <a class="read-more" href="https://apulga.com/a-senhora-do-tegel/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/01/Screen-Shot-2019-01-08-at-20.27.49.png"><img class="alignnone size-full wp-image-1872" alt="Screen Shot 2019-01-08 at 20.27.49" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/01/Screen-Shot-2019-01-08-at-20.27.49.png" width="533" height="527" /></a></p>
<p>Há muitos anos, eu estava sentada no chão do Tegel quando vi uma cena corriqueira que até hoje trago como referência. Depois de cruzar Berlin de ônibus com duas malas e ser parte da uma despedida doída, eu era uma pessoa tão cansada quanto meio largada ao lado da minha mochila. Estava sentada no chão da sala de embarque esperando a chamada do voo. Lembro-me de tomar um café e pedir um salgado qualquer, talvez um croissant. Curioso é que eu me via assim, um tanto “juvenil”, já que, naquele instante, a vida era de qualquer jeito, um tanto quanto deslocada. Era como se uma parte de mim não se encaixasse, a parte toda a felicidade por aquela jornada.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Contudo, mesmo ainda longe de me aproximar daquela cena, acho que o que muda na minha percepção de agora é a certeza mais calma de si. A senhora do Tegel, como a chamo, é a metáfora perfeita desse tipo de &#8220;ciência&#8221;.  Ela é minha meta, mesmo no desalinho da correria.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Fato é que, enquanto eu esperava, ali no chão, com minha mochila, meu tênis e minha comida com gosto de qualquer coisa, uma senhora de uns 80 anos se materializou na minha frente. Mentira. Lembro-me de vê-la caminhar com um sobretudo de lã caramelo com uma leve estampa xadrez. O cabelo completamente branco cortado no ombro e uma boina de lado. Era linda. Parecia uma menina saída de algum college dos anos 50. Mas tinha lá seus 80 anos ou mais e uma serena certeza de si, the charming como diz o Morrissey na clássica canção. Não bastasse isso, ela sentou no balcão do café onde eu havia pedido meu insosso croissant e puxou da bolsa uma maçã para servir de lanche. Nunca vou esquecer essa cena. É das coisas que mais me dizem sobre como levar a vida. Quando tiver 80, quero ser desse jeitinho.</p>
<p>Hoje já aprendi (work in progress) a domar as mil bagagens, trago uvas e castanhas na bolsa, mas o chapéu segue guardado na mala para me economizar no manejo dos apetrechos diante da correria nos portões de embarque. Contudo, mesmo ainda longe de me aproximar daquela cena, acho que o que muda na minha percepção de agora é a certeza mais calma de si. A senhora do Tegel, como a chamo, é a metáfora perfeita desse tipo de “ciência”. Ela é minha meta, mesmo no desalinho da correria. Assim, é com essa visão que hoje volto de outra forma. Com o coração cheio nos dois sentidos, dos caminhos e pessoas que deixo e reencontro. E isso, graças a Deus, está longe de ser de qualquer jeito, de estar fora do lugar.</p>
<p>Texto publicado originalmente em outubro de 2017.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/a-senhora-do-tegel/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A epifania do algodão doce</title>
		<link>https://apulga.com/algodao-doce/</link>
		<comments>https://apulga.com/algodao-doce/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 26 Jun 2018 16:47:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa curta]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=1855</guid>
		<description><![CDATA[Ontem eu vivi uma cena tão bonita e forte que me lembrou outra vivida há anos, quando eu ainda fazia faculdade e peguei uma rota de ônibus chamada Demócrito Rocha, <a class="read-more" href="https://apulga.com/algodao-doce/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/algodão-doce.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1877" alt="algodão doce" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/algodão-doce.jpg" width="720" height="960" /></a></p>
<p>Ontem eu vivi uma cena tão bonita e forte que me lembrou outra vivida há anos, quando eu ainda fazia faculdade e peguei uma rota de ônibus chamada Demócrito Rocha, que nem sei se existe mais. Ela passava por dentro do meu bairro. Sempre pegava esse trajeto quando tinha tempo e queria ir vendo as ruas de dentro, longe da avenida, e ter alguma emoção com o motorista que dirigia nas ladeiras como se elas fossem um tobogã.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É sobre as madeleines de Prost, é um gosto que lembra a infância. Não é lembrar das coisas em si, mas do gosto delas, o que em você elas mobilizam. Isso de alguma forma é libertador porque o que permanece é a sensação e não o desejo de voltar no tempo.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O ônibus sempre ía vazio a noite e num desses passeios solitários eu avistei pela janela um carrinho com algodão doce. Foi a última vez na vida que vi um  carrinho daqueles. Uma espécie de carrocinha com a máquina acoplada, nada de palitinho e nem anilina. Era açúcar de pobre, sem refino (hoje conhecido como demerara) que ganhava forma de algodão doce apenas preso por uma ponta de papel, desses também rústicos, que antigamente enrolavam pão. Esse tipo de algodão, com esses vendedores foram entrando em extinção ao longo da minha adolescência. Já havia anos que eu não avistava um e, nesse dia, quando pela janela vi passar a tal carrocinha, dei sinal e desci ainda bem longe da minha casa. Catei todas as moedas que tinha e comprei o algodão doce maior que pude, como que na certeza de que nunca mais tivesse outra oportunidade de sentir aquela sensação.</p>
<p>Era quase cômica a cena. Um algodão gigantesco derretendo com o vento, grudando no meu rosto e cabelo.  Enquanto isso, eu andando uns 15 quarteirões a pé tentando tanto comê-lo, para evitar que derretesse, quanto ao mesmo tempo desejando que demorasse o máximo possível, querendo prolongar aquela sensação, tê-la guardada em algum lugar. Isso já tem pra lá de uma década e guardo até hoje essa sensação numa espécie de bolso íntimo, ainda que o gosto daquilo tenha durado, sei lá, cinco minutos.</p>
<p>É algo sobre as madeleines de Prost, é um gosto que lembra a infância, a casa da minha avó, a vitrolinha antiga&#8230;. A gente não pode reviver certas coisas, fato. Mas certas sensações se desprendem da realidade e remontam mesmo a um estado de espírito. Não é lembrar as coisas em si, mas do gosto delas, o que em você elas mobilizam. Isso de alguma forma é libertador porque o que permanece é a sensação e não o desejo de voltar no tempo. É como terminar uma jornada e de certa forma poder descansar, sentir a grama sob os pés, o choro incontido. Porque o que se retoma, ainda que momentaneamente, é algo vivo.  Mesmo que escondido, o que emerge é um potente sentimento sobre si.</p>
<p>Texto publicado originalmente em 13 de setembro de 2017.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/algodao-doce/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A sorte e o salto na vida</title>
		<link>https://apulga.com/a-sorte-e-o-salto-na-vida/</link>
		<comments>https://apulga.com/a-sorte-e-o-salto-na-vida/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 26 Jun 2018 13:36:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa curta]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=1846</guid>
		<description><![CDATA[Semana pancada e ânimo quase se exaurindo. Volto da biblioteca e sigo apressada a procura de um café. Aperto o passo na esquina da Benedito Calixto e num canto da <a class="read-more" href="https://apulga.com/a-sorte-e-o-salto-na-vida/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/Igal.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1849" alt="Igal" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/Igal.jpg" width="640" height="640" /></a></p>
<p>Semana pancada e ânimo quase se exaurindo. Volto da biblioteca e sigo apressada a procura de um café. Aperto o passo na esquina da Benedito Calixto e num canto da praça um menino me pergunta se eu não quero ajudá-lo comprando um origami. Eu cheguei a quase ir embora, não tinha trocado e queria meu café.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Eu disse: – Escolhe você que entende mais disso que eu. Ele abriu o sorriso e disse: – Toma o sapo, que é para dar um salto na vida e um Tsuru, que dá sorte. E abriu o sorriso maroto de novo.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Mas, não sei porque, o menino me chamou a atenção. Talvez a caixa de papelão toda colorida. Uma segurança na voz. Fato é que já estava quase indo quando desisti. Virei o corpo e perguntei se ele tinha troco pra uma cédula. E ele respondeu: &#8211; É claro, né? Já me compraram antes. Eu pensei com meus botões: &#8211; é muito gaiato. Então, falei: &#8211; Pois então me dá dois origamis. Ele me mostrou a caixa. &#8211; Pode escolher. Eu disse: &#8211; Escolhe você que entende mais disso que eu. Ele abriu o sorriso e disse: &#8211; Toma o sapo, que é para dar um salto na vida e um Tsuru, que dá sorte. E abriu o sorriso maroto de novo.</p>
<p>Aí eu não resisti. Perguntei: &#8211; E qual o seu nome? Ele falou: &#8211; Igal. Eu me despedi: &#8211; Pois tchau Igal, a gente se vê por aí. Num golpe final, ele retrucou: &#8211; Você é a primeira pessoa na rua que fala meu nome direito. E mais uma vez sorriu com um desprendimento tão bonito. E no fim fui eu quem saí feliz com meus dois origamis no bolso. Ironias da vida, quem me ajudou foi o menino. Dessas felicidades genuínas que te vencem.</p>
<p>P.S.: Em dia de pokemon go, ai como foi bom ver alguém procurando e oferecendo algo de verdade por aí.</p>
<p>Texto publicado originalmente em 4 de agosto de 2016.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/a-sorte-e-o-salto-na-vida/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A vida é uma invenção</title>
		<link>https://apulga.com/a-vida-e-uma-invencao/</link>
		<comments>https://apulga.com/a-vida-e-uma-invencao/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 26 Jun 2018 13:05:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa curta]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=1830</guid>
		<description><![CDATA[É das sutilezas e das certezas íntimas que são feitos os melhores dias de nossas vidas. E há aqueles em que se já não bastasse essa constatação, você ainda recebe <a class="read-more" href="https://apulga.com/a-vida-e-uma-invencao/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/Foto-Raquel.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1831" alt="Foto Raquel" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/Foto-Raquel.jpg" width="960" height="960" /></a></p>
<p>É das sutilezas e das certezas íntimas que são feitos os melhores dias de nossas vidas. E há aqueles em que se já não bastasse essa constatação, você ainda recebe um email carinhoso de uma professora que te acompanha desde o primeiro livro de teoria política. Lá no final da gradução, no tempo das imensas expectativas, da gaveta com sonhos.  Mas, tendo à parte as questões próprias de cada um, o que me resta na reflexão de hoje é algo sobre construção, persistência, tempo e &#8211; por que não dizer &#8211; reencontro consigo.</p>
<p>Quando a vida pesa, eu costumo brincar dizendo que não tem &#8220;pagadinha do Gugu&#8221; que dure dez anos. É uma forma de dizer que tudo passa, que a vida se reorganiza e as coisas mudam ainda que você fique inerte. Aí é que está. O tempo e o movimento da vida sempre mudam as circunstâncias ao nosso redor e isso, em si, transforma nossa condição, mesmo quando permanecemos parados. É um alento para quando não se tem muita gana de mexer as peças do tabuleiro. Nisso, muitas coisas morrem. Contudo, é bonito quando, mesmo antes da vida mudar de rota, nós mesmos vamos alterando a direção, damos alguma chance ao que ainda pode viver.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Tudo passa e as  condições se transformam. Contudo, é bonito quando, mesmo antes da vida mudar de rota, nós mesmos vamos alterando a direção, damos alguma chance ao que ainda pode viver.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Essa mesma professora a qual me referi sempre foi das pessoas mais luminares que conheci. Sempre atenciosa, mas sempre com pressa. A penúltima vez que a encontrei foi num café em Berlim, em 2013. Lá estava ela me ajudando com o projeto do doutorado. Uma caderneta, mil anotações e uma bicicleta lá fora. A vida veio num turbilhão e enquanto eu entrava do doutorado soube que ela estava em algum país do oriente, depois soube do seu câncer e por fim a reencontrei ano passado. Ela estava linda, com uma echarpe de seda nos ombros e o cabelo curtinho pintado de azul. A mesma acuidade, mas parecia outra pessoa. Algo tinha morrido e algo renascido, como nas metáforas próprias das doenças. Tinha pressa, mas tinha centramento e vida.</p>
<p>Quando ela estava se recuperando lembro de ter lhe enviado um livro da Rosa Montero &#8211; que adoro &#8211; chamado &#8220;A Louca da Casa&#8221;. É um livro sobre as narrativas que criamos para nós. Literalmente, a vida que inventamos. Era isso que eu queria dizer a ela. Que se podia inventar algo novo, mantendo o que ainda fazia sentido. Dizia para ela como quem repetia para mim: &#8221; &#8211; Sim, é possível&#8221;! E a gente tem que repetir sempre porque a gente esquece. Não tem uma semana, uma amiga repetia para mim a importância dessa vida inventada que a gente cria.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Era isso que eu queria dizer a ela. Que se podia inventar algo novo, mantendo o que ainda fazia sentido.  Sim, é possível! E a gente tem que repetir sempre porque a gente esquece.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>De tantas transformações, é bom perceber que não sou mais a menina de 20 anos mandando um email para uma professora desconhecida, é bom saber que do outro lado tem alguém que acompanhou minha trajetória. Mas, melhor mesmo é saber que ainda que lidando com o mesmo tema, com os mesmos sonhos, a trilha percorrida é outra porque nós também mudamos. Contudo, algo ainda faz sentido. O tempo destrói um monte de coisa e certamente é bom que isso aconteça. Tenho aprendido a deixar ir o que perdeu espaço na mesma intensidade que celebro o que mudou de roupa para caber melhor. E não há como negar que ver as coisas funcionando praticamente 15 anos depois é emocionante.</p>
<p>Nos dizeres da Rosa Montero, talvez seja porque nossa &#8220;vida inventada&#8221; tenha amadurecido, mas permaneça com o desejo de existir. Não precisa de situações drásticas para a gente se perder de si. A gente pode se perder no dia a dia. Por isso, é tão lindo quando ainda é possível se encontrar. Quando o que foi ainda pode ser, mesmo que para isso tenhamos que nos despedir de outras tantas coisas.</p>
<p>Texto publicado originalmente em 30 de maio de 2017.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/a-vida-e-uma-invencao/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A mesa farta de afetos</title>
		<link>https://apulga.com/a-mesa-farta-de-afetos/</link>
		<comments>https://apulga.com/a-mesa-farta-de-afetos/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 22 May 2018 12:05:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa curta]]></category>
		<category><![CDATA[Culinária]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=1798</guid>
		<description><![CDATA[Quando minha roommate veio visitar Fortaleza no final do ano andei com ela por alguns lugares, cumprimentei as pessoas que encontrava pelos caminhos, contei histórias e sobre aquela sensação de <a class="read-more" href="https://apulga.com/a-mesa-farta-de-afetos/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/05/porto3.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1801" alt="porto3" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/05/porto3.jpg" width="750" height="484" /></a></p>
<p>Quando minha roommate veio visitar Fortaleza no final do ano andei com ela por alguns lugares, cumprimentei as pessoas que encontrava pelos caminhos, contei histórias e sobre aquela sensação de pertencimento ela me dizia: &#8211; o nome disso é pátria. Uma das nossas paradas foi na barraca de suco de frutas do Mercado Central. Conheço o Zé Maria, o dono, há anos e, em nossa pausa turística, ganhamos de regalo uma mistura de manga, limão, maracujá, carambola, caju e cajarana. O melhor suco da vida! Era um presente e um desafio. Tome e descubra as frutas. Só não acertei as seis porque troquei a cajarana por cajá. Foi quase. Deve ser isso que a Débora Maciel chamou de pátria. O afeto e os sentidos.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Trocamos a batedeira e o imperativo &#8220;reserve&#8221; pelo desvelo da mesa repleta de ingredientes diversos próprios de quem cozinha como se dá à vida, sem medo de arriscar.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>E essa minha pausa na Fusta foi assim repleta de sabores. Em boa parte das férias, o corpo adoeceu me fazendo parar. Porém, neste hiato, os sentidos e os encontros avolumaram-se. E todos eles tinham gosto. Uns vieram de Viçosa, no licor de leite e na geléia de pimenta (que conheci há anos e para a qual nunca encontrei concorrentes) que o Laécio Ricardo trouxe de mimo à minha cozinha. Cruzando o oceano, os <em>caramels ao beurre salé</em>, presentes do Ray Junior, tinham gosto de virada de ciclo, de celebração.</p>
<p>Tudo assim, nos exemplos diversos das pequenas porções de sabor. No Natal, a torta de maça guardada para mim pela Socorro Tavares na famosa marmita fim-de-festa, nos bolos-aventura que tentei fazer para Ana Cesaltina e para Clarissa Tavares nas tapiocas agridoces e sopas de abóbora que sempre acolhem os que visitam o mofo-lar, nas degustações de café que distribuo como motivo de estar perto, na feijoada vegetariana do Mandir que me dou de prenda sempre que posso&#8230; E no fim desses dias, desses encontros todos, meu paladar ganhou de benesse a receita de papo de anjo da Adriana Ximenes.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É da pátria-Fortaleza que levo o gosto de casa, do velho coado e do pão d´água servidos no café da manhã. É que para gente ganhar o mundo sem se perder, a gente precisa é de um porto.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Com o carinho feito aula particular, minha agenda anotou o passo-a-passo que a professora-brigita me ensinava como quem cantarola um segredo. Ela dizia: a receita diz assim, mas eu faço desse jeito, ó. Trocamos a batedeira e o imperativo &#8220;reserve&#8221; pelo desvelo da mesa repleta de ingredientes diversos próprios de quem cozinha como se dá à vida, sem medo de arriscar. O curioso é que o mundo gira. Ao que consta, o papo de anjo original chegou a Adriana pelas mãos de uma quituteira Leite Barbosa, mais adiante tentarei acertá-lo. A vida é assim, né? A gente recebe aqui e passa acolá.</p>
<p>Eu que sou filha de uma grande cozinheira, temo não ter herdado esse dom. Mas, sei ao certo apreciar os encontros. E destes levo minha mala repleta. Se São Paulo me fez conhecer o café especial em grãos, a sofisticação das receitas e dos pensamentos acadêmicos, é da pátria-Fortaleza que levo o gosto de casa, do velho coado e do pão d´água servidos no café da manhã. É que para gente ganhar o mundo sem se perder, a gente precisa é de um porto. Graças a Deus eu tenho o meu e ele é assim, bonito e saboroso como uma mesa farta. Inté, Fusta!</p>
<p>Texto publicado originalmente em 8 de março de 2016.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/a-mesa-farta-de-afetos/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Centro, um mapa afetivo da Fusta</title>
		<link>https://apulga.com/fortitudine/</link>
		<comments>https://apulga.com/fortitudine/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 15 Apr 2018 15:57:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa curta]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=1786</guid>
		<description><![CDATA[Se tem uma coisa que eu gosto de fazer em Fortaleza é caminhar pelo Centro. É um hábito antigo que tenho desde criança, quando ia levada pelas mãos da minha <a class="read-more" href="https://apulga.com/fortitudine/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/04/Fortaleza2.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1787" alt="Fortaleza2" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/04/Fortaleza2.jpg" width="640" height="480" /></a></p>
<p>Se tem uma coisa que eu gosto de fazer em Fortaleza é caminhar pelo Centro. É um hábito antigo que tenho desde criança, quando ia levada pelas mãos da minha mãe. Naquela época quase não haviam shoppings e os cinemas de rua ficavam lá. Aquele era o passeio mágico do fim do mês quando ela recebia o salário e eu sempre ganhava um mimo, tomava um sorvete e comia uma coxinha na cantina das Lojas Americanas. Era o hábito proletário mais feliz de todos. Um imenso cruzar de fronteiras.</p>
<p>Hoje quando retorno ao Centro e vejo tanto abandono procuro na minha mente esses lugares incríveis que eu tive a sorte de poder conhecer lá. Lembro de um restaurante self service que funcionava nos fundos de uma loja de aluguel de roupas para festas e, salvo engano, ficava na Barão do Rio Branco ou na Senador Pompeu. Almocei lá inúmeras vezes durante o 2o grau e até hoje me arrependo de não ter entrevistado os donos daquele inusitado negócio. Também havia um local que só vendia sucos (todos da fruta, nada de polpa) em plena Pedro Pereira, perto do antigo BEC dos Peixihos. O local chamava &#8220;Progresso Lanches&#8221; e o caixa vendia as fichas dos sucos e alguns produtos eletrônicos. Há alguns anos vi que o lugar havia cedido à vocação do entorno e o oásis do suco tinha se tornado mais uma loja de fios, lâmpadas e outros quetais.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Ainda que sem esses lugares perdidos no tempo, o Centro ainda tem traços do meu mapa afetivo. Subo no edifício Progresso e tenho uma das vistas mais espetaculares da cidade, esquecida (como o próprio Centro parece estar) numa janela aparentemente despretensiosa</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Outro local que me dói de saudade é o Waldo Café que funcionou por mais de 30 anos na esquina da Barão do Rio Branco com Guilherme Rocha. Lá só se vendia café coado e água. Nenhum capuccino, nenhum expresso, nenhum bolo ou qualquer outro quitute. Minto, nos caixas era possível comprar bijuterias Michelin e cigarros. Mesmo com o que se pode chamar de oferta reduzida de produtos, arrisco a dizer que era o melhor café da cidade em minha memória afetiva, servido em uma louça grossa, colocada no balcão ainda quente, logo após ser escaldada. O local também não tinha cadeiras. A gente se espremia no balcão, tomava o café escaldante e ia embora. Era o café mais lotado que conhecia, me intriga profundamente que tenha fechado.</p>
<p>Ainda que sem esses lugares perdidos no tempo, o Centro ainda tem traços do meu mapa afetivo. Sempre que vou consertar o relógio, subo no edifício Progresso e tenho uma das vistas mais espetaculares da cidade, esquecida (como o próprio Centro parece estar) numa janela aparentemente despretensiosa que dá defronte ao todo. Para continuar no mesmo ramo, passo sempre numa ótica da Guilherme Rocha em que conheço os gerentes desde que eram vendedores e sou sempre recebida com café, água e sorrisos. Hoje, a Francisca, que trabalha lá há anos, disse que lembrou tanto de mim no final do ano, quando o coro do natal canta na Praça do Ferreira, e eu sempre apareço por lá. Ano passado não tive tempo de ir e ela me mandou uma mensagem preocupada com meu paradeiro. É dessas singelezas que o dinheiro não paga e que eu duvido que os grandes estabelecimentos comerciais cultivem.</p>
<p>Muita coisa mudou no Centro, mas essa teia orgânica de quem ganha a vida lá continua inteira. As pessoas se conhecem, sabem onde conseguir de um tudo, estabelecem laços, fazem dali mais do que um local impessoal de se fazer negócio. Elas vivem o Centro. De alguma maneira, se apropriar disso, conhecer as ruas e as pessoas me dá um sentimento de uma felicidade mais genuína e menos afetada. É bom reconhecer-se nesses espaços, ainda que muito tenha mudado.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Muita coisa mudou no Centro, mas essa teia orgânica de quem ganha a vida lá continua inteira. Conhecer as ruas e as pessoas me dá um sentimento de uma felicidade mais genuína e menos afetada</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Contudo, confesso que me dá uma dor imensa saber que é preciso dessa ligação já estabelecida para ver a beleza que o Centro ainda conserva. Um estranho dificilmente se encantaria com tanto descaso. É uma das áreas mais cheias de vida da cidade e não reconheço uma ação para valorizá-la. Não há restauro das praças, criação de locais públicos convidativos, regulação do espaço urbano&#8230; É uma joia encoberta. Ás vezes tenho a ilusão de que, de alguma maneira, talvez isso afaste os predadores mais vorazes.</p>
<p>Da paisagem vista nesta foto fica tão claro como aquele é um espaço privilegiado. Quem só circula na Fortaleza-Dubai-Miami certamente não vê isso. Talvez, se visse, achasse bonito como num cartão postal europeu. Mas, se chegasse lá, logo expulsaria os antigos comerciantes, criaria um padrão de negócio, trocaria o que resta de vestígio do tempo e dos usos por alguma construção com aço e vidro. Acho que o nome moderno disso é gentrificação. Para mim é o desprezo a toda e qualquer identidade genuína.</p>
<p>Texto publicado originalmente em 13 de janeiro de 2015.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/fortitudine/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Da felicidade e dos biscoitos</title>
		<link>https://apulga.com/da-felicidade-e-dos-biscoitos-2/</link>
		<comments>https://apulga.com/da-felicidade-e-dos-biscoitos-2/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 12 Mar 2018 23:09:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa curta]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=1764</guid>
		<description><![CDATA[Semana passada morreu Eduardo Galeano. Li pouca coisa dele, mas lembro com exatidão de alguns trechos de “O Livro dos Abraços” que comprei há alguns anos para dar de presente <a class="read-more" href="https://apulga.com/da-felicidade-e-dos-biscoitos-2/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/BiscoitoP.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1765" alt="BiscoitoP" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/BiscoitoP.jpg" width="612" height="612" /></a></p>
<p>Semana passada morreu Eduardo Galeano. Li pouca coisa dele, mas lembro com exatidão de alguns trechos de “O Livro dos Abraços” que comprei há alguns anos para dar de presente a Clarissa Tavares. O livro é feito de breves relatos sobre amigos, familiares, lembranças… Questões aparentemente despretensiosas que são, em essência, imensas. Fala de coisas importantes, dessas que a gente corre corre, dá a volta ao mundo, achando que vai encontrá-las num universo distante e encantado para ver, depois de muita estrada, que estão ao lado e são da ordem do cotidiano, do pessoal. Ao folhear o livro, na hora, me lembrei de um conselho que o Guimarães Rosa deu a Fernando Sabino ao saber que este escrevia uma peça de teatro enquanto acalentava o sonho de fazer um grande romance: “Não faça biscoitos, faça pirâmides”. Sabino chega a consolar-se ao lembrar dos “faraós biscoiteiros” como Machado de Assis e, ironicamente, relata isso numa singela crônica, dando-se conta de que era, na verdade, um feliz padeiro.</p>
<p>Foram essas “pequeninices” que a lembrança do Galeano me trouxe de volta. Quando ele se foi pensei que era preciso fazer uma homenagem dessa natureza. Então, me veio a mente a história curiosa de uma amiga que certa vez se envolveu num acidente de carro e, sendo culpada do entrevero, recebeu uma surpreendente indulgência do outro condutor. Comovido com o aperreio da moça, ele disse: “Tudo bem, minha filha. Tá tudo certo. Vá pra casa e faça uma boa ação”. Ela chegou em casa e, sem saber o que fazer, soltou um passarinho da gaiola. Essa história pueril, que mais parece uma tirinha, talvez seja uma das demonstrações mais certeiras do que o padeiro Sabino chama de “a estética do amor”. É o pouquinho da índia do Manuel Bandeira. É que nos remete o Livro dos Abraços do Galeano.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Valter Hugo Mãe que me disse: “Uma cortina amarela em casa é uma dimensão fundamental da felicidade”. Eis aí o sonho de toda a gente. Mas, um sonho plasmado numa imagem. Eis a estética do amor.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Em uma carta ao amigo Hélio Pellegrino, em uma noite chuvosa de 1945, enquanto escutava Bach, Sabino se emociona ao lembrar dos amigos e da infância em Minas Gerais. De sobressalto escreve uma das mais belas cartas que já li e diz como numa sentença luminar que o “único caminho possível é o amor se traduzindo numa atitude estética diante da vida”. Soltar um passarinho, comover-se com Bach… São dessas coisas, desse tecido fino, que a felicidade é feita. Há algum tempo quando pude conversar Valter Hugo Mãe fiquei comovida com sua visão sobre a felicidade. Era ele também um biscoitero. Frustrado porque não morreu antes dos 40, como previu quando era menino, deu-se conta que os melhores sonhos da vida são os mais comuns, os de toda a gente.</p>
<p>Mas a felicidade não é a ausência da tristeza. Ao contrário, ela traz em si uma consciência e uma capacidade de lidar com a herança triste que todos nós temos. Por isso mesmo, a ilusão nos escapa. Aprendemos a reconhecê-la (e nos contentarmos, com toda a dimensão que essa palavra encerra) com o simples que nos afeta e se projeta na maneira que vemos o mundo. Foi o mesmo Valter Hugo Mãe que me disse: “Uma cortina amarela em casa é uma dimensão fundamental da felicidade”. Eis aí o sonho de toda a gente. Mas, um sonho plasmado numa imagem. A estética do amor se contenta, mas não se conforma. Arruma a casa, abre a gaiola, escreve um carta. Faz algo por alguém. Está no que sentimos e o que expressamos a partir disso. Cabe numa pirâmide majestosa e num biscoito fino servido a quem amamos na sala de cortinas amarelas. Eu, aliás, prefiro os biscoitos.</p>
<p>Texto publicado originalmente em 21 de abril de 2015.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/da-felicidade-e-dos-biscoitos-2/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>
