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	<title>A Pulga &#187; Laécio Ricardo</title>
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	<description>Um coletivo diletante de ideias</description>
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		<title>O que você vai fazer com a sua dor?</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Jun 2021 17:41:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Laécio Ricardo]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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		<description><![CDATA[&#160; Este texto era para ser uma homenagem, algo com força de tributo e gratidão. Mas como o combustível que o impulsionou foi uma mescla de tristeza, raiva e impotência, <a class="read-more" href="https://apulga.com/o-que-voce-vai-fazer-com-a-sua-dor/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1996" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2021/06/Stardust-dor-enviar2.jpg"><img class="size-full wp-image-1996" alt="Foto: Eduardo Rocha" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2021/06/Stardust-dor-enviar2.jpg" width="640" height="617" /></a><p class="wp-caption-text">Foto: Eduardo Rocha</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este texto era para ser uma homenagem, algo com força de tributo e gratidão. Mas como o combustível que o impulsionou foi uma mescla de tristeza, raiva e impotência, ele resultou em uma espécie de confissão que expressa minha perplexidade com o drama que enfrentamos desde março de 2020, quando fomos alarmados com o viés insidioso e o ritmo de contaminação da suposta “gripezinha” e mergulhamos num abismo que parece não ter fim. Em poucas semanas, o mundo e a sociabilidade que conhecíamos foram interditados; e numa mudança súbita, livre de ensaios, tivemos que nos adaptar ao home office, aos remédios contra insônia e ansiedade, às máscaras e borrifadores de álcool, ao confinamento, à gestão da vida pelos smartphones.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">O que você, leitor, vai fazer com a sua dor? Ou não existe angústia no seu peito, pesar nos seus dias e aflição nas suas noites?! Duvido muito. Quando um país atinge uma cifra tão expressiva, apesar de tristíssima, penso que a imensa maioria dos seus indivíduos foram, de algum modo, alvejados direta ou indiretamente por tais números.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Passados 15 meses dessa distopia chamada covid-19, e com o número de óbitos no Brasil chegando à casa das 470 mil vítimas fatais, sem nenhum indicativo claro que sugira o final desta contabilidade fúnebre, lanço aqui a pergunta que intitula este texto: o que você, leitor, vai fazer com a sua dor? Ou não existe angústia no seu peito, pesar nos seus dias e aflição nas suas noites?! Duvido muito. Quando um país atinge uma cifra tão expressiva, apesar de tristíssima, penso que a imensa maioria dos seus indivíduos foram, de algum modo, alvejados direta ou indiretamente por tais números. Posso ser mais franco: desconheço hoje, no meu círculo de amigos, alguém que não tenha tido, na sua família ou entorno próximo, um parente ou pessoa querida que faleceu ou agonizou em leito hospitalar em decorrência da pandemia. Se você não se encaixa na descrição, não comemore o privilégio; é bem provável que, em breve, você ingresse no clube. E não se trata de profecia agourenta: com a vacinação em ritmo lento e a contaminação fora de controle, não há alternativa ou feitiçaria que promova uma blindagem.</p>
<p>Mas me permitam assumir a primeira pessoa, como é de praxe nos meus textos, uma vez que perdi o apreço pela escrita formal e distanciada há anos. Para expressar minha relação com a pandemia, eu precisaria de um espaço bem mais amplo do que este reservado à minha coluna – talvez um podcast com horas de duração. Na impossibilidade de me envolver com tal projeto, adotemos o teclado e as palavras como aliados. Tive um 2020 duríssimo: uma suspeita de contaminação que me deixou sequelas prolongadas (picos de ansiedade frequentes, uma quinzena de forte insônia, dificuldades alimentares), o cancelamento de um pós-doutorado almejado há anos, uma queda de braço com companhias aéreas e aeroportos para conseguir minha repatriação, e a admissão daquilo que durante anos eu hesitara em encarar – minha vulnerabilidade.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Fragilidade e vulnerabilidade, eis duas palavras que têm nos confrontado nesta pandemia. Um enfrentamento nada fácil. O lado positivo é que o ser humano parece descobrir, quando está prestes a tocar a superfície do abismo, outro binômio importante – resistência e resiliência.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O pano de fundo desse pesadelo vivido de forma solitária era, evidentemente, a covid-19 e as notícias sobre a pandemia veiculadas continuamente, numa espécie de looping perverso. Numa situação como esta, de evidente fragilidade, o excesso de informação e a contundência dos fatos divulgados apenas aceleram a abertura do cadafalso. Fragilidade e vulnerabilidade, eis duas palavras que têm nos confrontado nesta pandemia. Um enfrentamento nada fácil. O lado positivo é que o ser humano parece descobrir, quando está prestes a tocar a superfície do abismo, outro binômio importante – resistência e resiliência.  Voltei, pois, ao Brasil. Claro, sem achar que findaram os meus (e os nossos!) problemas. Sim, não se encerraram.</p>
<p>Na verdade, de um ponto de vista pessoal, celebro minha recuperação e acho que consegui administrar meus temores; mas quando penso no drama social que temos enfrentado, e que se aprofunda em 2021, sinto um misto de cansaço, esgotamento, irritação, dor. Sim, dor e empatia. Afinal, como encarar a cifra das 450 mil vítimas fatais e tocar o dia como se nada estivesse a ocorrer, como se fosse um problema deles, dos mortos, e não nosso?! Impossível. Aderir a certo torpor para prosseguir, é compreensível; diria até que é necessário para não sermos tragados pela tristeza e pela ansiedade. Mas não se comover com números tão alarmantes, não manifestar empatia pelo sofrimento dos pacientes e pela dor dos familiares e amigos, é de uma crueldade intraduzível&#8230;</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Fragilidade e vulnerabilidade, eis duas palavras que têm nos confrontado nesta pandemia. Um enfrentamento nada fácil. O lado positivo é que o ser humano parece descobrir, quando está prestes a tocar a superfície do abismo, outro binômio importante – resistência e resiliência.</strong><strong></div></strong></h3>
<p><strong> </strong>Quando o cientista Atila Iamarino, ainda no primeiro semestre de 2020, apresentou um estudo nos alertando para o risco da pandemia provocar a morte de até um milhão de brasileiros, caso nenhum planejamento efetivo e medidas de contenção fossem adotados previamente, muitos consideraram a divulgação excessivamente alarmista. Talvez estivessem seduzidos pelo desdém com que o presidente da República se referia ao problema (uma gripezinha, uma chuva), no intuito de minimizar sua contundência. Hoje, quando novas ondas de contaminação já se avizinham, e com o Brasil e a Índia na condição de párias do mundo, é provável que parte dos incrédulos (não digo todos porque, em tempos de boçalidade explícita, parte do gado prefere manter sua fidelidade a reconhecer os erros) releia as anotações de Iamarino como um trabalho profético.</p>
<p>Fizemos tudo errado. Uso o plural porque é preciso ser inclusivo sobretudo no reconhecimento dos erros. Da parte do governo Federal, faltou tudo – planejamento para enfrentar a crise, compra antecipada de vacinas, respeito à ciência e às autoridades sanitárias credenciadas, humildade para admitir os equívocos. Da nossa parte, faltou solidariedade e compromisso com os protocolos de segurança – uso ostensivo de máscaras, higiene regular das mãos, maior confinamento no espaço doméstico e, consequentemente, não promover aglomerações.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Fizemos tudo errado. Uso o plural porque é preciso ser inclusivo sobretudo no reconhecimento dos erros. Da parte do governo Federal, faltou tudo &#8211; planejamento para enfrentar a crise, compra antecipada de vacinas, respeito à ciência e às autoridades sanitárias credenciadas&#8230;  Da nossa parte, faltou solidariedade e compromisso com os protocolos de segurança.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Sim, estamos todos cansados e ansiosos pelo retorno da vida social; afinal, cada dia de isolamento amplia uma espera já insuportável. Mas a desculpa (compreensível até!) da higiene mental não pode justificar condutas precipitadas e a baixa da guarda, sob o risco de prorrogarmos o quadro atual de modo indeterminado. E não adianta bradar que na sua residência todo mundo faz o “dever de casa”; estamos diante de uma tarefa que precisa ser abraçada coletivamente e de modo massivo. Do contrário, acumularemos novos fracassos. Em outros termos, precisamos convencer as partes resistentes sobre a importância de aderir a tal esforço. Não é fácil, não é agradável – do lado de lá, há cegueira e intransigência. Mas é preciso perder o pudor e partir para a abordagem verbal lúcida, consciente, ainda que não tenhamos garantia de vitórias. Mas vai que alguém acate a nossa orientação; será, no mínimo, mais um que se despe do manto da incredulidade e do negacionismo.</p>
<p>Estou quase finalizando o texto e volto a pensar nos 470 mil mortos; vidas que sofreram em isolamento, vítimas que não foram devidamente veladas ou pranteadas, lutos que não foram elaborados por familiares e amigos. Somos um país de tradição cristã e de ritos funerários consolidados há séculos. Tais ritos foram interditados de modo súbito, tendo em vista as orientações sanitárias. O que significa dizer que foram interrompidos sem que houvesse um “aviso-prévio” ou a adoção de práticas interinas. E tudo isso terá forte impacto.</p>
<p>Podemos não mensurar agora, mas a conta virá. Onde não há luto, eu insisto, não pode haver superação da perda e o restabelecimento do fio da vida por parte dos que permanecem vivos. No limite, sempre haverá a lembrança de uma despedida impossibilitada, de um choro não partilhado, de um abraço não distribuído. Aqui devolvo para você a pergunta que dá título ao texto: o que você vai fazer com a sua dor? Vai administrá-la de modo solitário e sufocá-la num soluço ou vai canalizá-la em ação, de modo a contribuir com os esforços demandados pelo presente?</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Onde não há luto, eu insisto, não pode haver superação da perda e o restabelecimento do fio da vida por parte dos que permanecem vivos. No limite, sempre haverá a lembrança de uma despedida impossibilitada, de um choro não partilhado, de um abraço não distribuído. Aqui devolvo para você a pergunta que dá título ao texto: O que você vai fazer com a sua dor?</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Disse no início que esse texto deveria ser uma homenagem, mas cedo desisti da tarefa. Não gostaria de concluir, porém, sem fazer referência ao homenageado, um ex-professor e amigo querido que, infelizmente, ingressou na contabilidade das vítimas fatais. Seu nome: Francisco Gilmar Cavalcante de Carvalho. Um pesquisador notável, dotado do mais generoso dos dons na minha opinião: ser capaz de identificar e de motivar novas vocações. Sou um exemplo claro, mas estou longe de ser o único. Comigo estão outras dezenas de vozes, todas elas gratas pelos contínuos incentivos do Gilmar&#8230; Seu falecimento provocou uma comoção em nossas redes sociais.</p>
<p>Declarações de afeto e doces memórias se multiplicaram em postagens tocantes. Foi o nosso consolo e a despedida possível&#8230; Mas ao declinar da missão de redigir um tributo, vislumbrei outra constatação: mesmo que tivesse ânimo para avançar na tarefa, ela seria insuficiente e insatisfatória. Penso que uma homenagem à altura somente seria possível se eu pedisse licença aos colegas para partilhar todas as postagens e assim compor um texto coletivo. Apenas esse mosaico afetivo, acredito, alcançaria a intensidade da sua presença em nossas vidas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Vão-se os anéis e os jornais, infelizmente&#8230;</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Feb 2021 19:51:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Laécio Ricardo]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
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		<description><![CDATA[Durante a minha formação escolar, uma convicção rapidamente se enraizou como meta futura: eu seria jornalista e minha escrita, aliada à uma curiosidade incansável, haveria de me levar para outros <a class="read-more" href="https://apulga.com/vao-se-os-aneis-e-os-jornais-infelizmente/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2021/02/Memorias-jornalismo1.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1980" alt="Memorias jornalismo1" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2021/02/Memorias-jornalismo1.jpg" width="662" height="499" /></a></p>
<p>Durante a minha formação escolar, uma convicção rapidamente se enraizou como meta futura: eu seria jornalista e minha escrita, aliada à uma curiosidade incansável, haveria de me levar para outros horizontes, além de um conjunto residencial situado na periferia de Fortaleza. Era algo cristalino, como uma dose de Ypióca Prata. Tal decisão nunca comportou hesitações e a aprovação no curso de Comunicação Social da UFC, num longínquo 1995, me parecia apenas a confirmação de um destino ambicionado desde os 12 anos.</p>
<p>Nos semestres finais da graduação, tive meu batismo profissional na sucursal da revista Veja, em período no qual a revista salpicava escritórios pelas grandes capitais do País. Em seguida, ingressei na Gazeta Mercantil, então o baluarte do jornalismo econômico brasileiro, numa época em que inexistia o Valor Econômico. Guardo lembranças positivas e negativas destas experiências; e, claro, coleciono algumas amizades. Mas se retomo hoje essas memórias, é para celebrar outro periódico e redação, aquela que foi a minha verdadeira casa, não obstante seus defeitos estruturais – o jornal Diário do Nordeste (DN), cuja edição impressa deixará de circular em fins de fevereiro, após quase 40 anos de atividades. A versão online sobreviverá; e pelo que me consta, turbinada. Alguns dirão que é uma migração inevitável; outros, que muitos empregos serão mantidos. Não contesto. Mas um portal não compensa minha insatisfação sempre que uma rotativa cessa de rodar.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Mas se retomo hoje essas memórias, é para celebrar o jornal Diário do Nordeste (DN), cuja edição impressa deixará de circular em fins de fevereiro, após quase 40 anos de atividades. A versão online sobreviverá; e pelo que me consta, turbinada. Mas um portal não compensa minha insatisfação sempre que uma rotativa cessa de rodar.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Neste misto de saudosismo e pesar pelo seu fechamento (uma sina compartilhada com outros tantos jornais brasileiros), faço um hiato para dois esclarecimentos. Nos anos em que vertia sangue para me converter num jornalista econômico mediano, frustrado porque estagiava numa área que não me apetecia, foi o DN que abriu suas portas para meus textos no campo do jornalismo cultural, publicados com pseudônimo porque a Gazeta Mercantil não autorizava de outra forma. Alguém indagará: você recebia algo pelas matérias? Não, escrevia de boa vontade e de peito estufado. E o que ganhei? Aquelas matérias não apenas me deram visibilidade numa seara que eu gostaria de ingressar; elas também asseguraram minha sobrevida emocional, uma vez que eu podia contornar a minha insatisfação diária a cada publicação anônima. E tal experiência rendeu frutos: após concluir a graduação, em meio a euforia pelo canudo e ansiedade para inaugurar a carteira de trabalho como efetivo, fui demitido da Gazeta. Um episódio muito dolorido, diga-se de passagem. Tal notícia chegou ao DN e, em menos de uma semana, o editor de cultura me recrutou para integrar sua equipe em definitivo. Aquelas matérias anônimas germinaram e a redenção possível veio.</p>
<p>Integrei a equipe do DN por quase 10 anos, com uma única pausa durante o início do meu mestrado. Ali colecionei amigos e quase nenhum desafeto (pelos menos, eu acho!). Fiz matérias que me honraram imensamente e outras que, a contragosto, tive que encarar. Jornalismo, eu lembro, não é blog, não é escolha pessoal – você se depara com paixões e rancores, levanta a cabeça e aprende a driblar os dissabores. O nome disso é malícia (no bom sentido), traquejo, experiência, savoir faire. No DN, fui uma foca feliz, um aprendiz permanente e me converti num profissional respeitado. Lembro com carinho de dezenas de reportagens que me emocionaram; e tinha um apreço imenso pelas edições dominicais, cujas matérias especiais consumiam longos dias de apuração e resultavam em pequenos dossiês sobre temas quase sempre fascinantes.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Foi o DN que abriu suas portas para meus textos no campo do jornalismo cultural, publicados com pseudônimo porque a Gazeta Mercantil não autorizava de outra forma. Escrevia de boa vontade e de peito estufado. Aquelas matérias não apenas me deram visibilidade numa seara que eu gostaria de ingressar; elas também asseguraram minha sobrevida emocional.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Uma redação de jornal é uma família. Extensa, é verdade. E como em toda família, há as afinidades e os mais distantes. Ali, eu contabilizei tantos afetos, que é impossível mensurar: colegas de geração se mesclavam a ex-alunos, que agora partilhavam comigo os “ossos do ofício”; e veteranos de outras décadas observavam curiosos a nossa presença crescente. Hoje, aos 44 anos, caso ainda estivesse na redação, me pergunto como eu acompanharia esta inevitável tarefa de renovação – eu seria receptivo ou teria desconfiança com os novatos?<br />
Não pensem, pela leitura deste texto, que idealizo a profissão e mascaro suas dificuldades. De modo algum: os salários são defasados; as cobranças, permanentes; e as recompensas, nem sempre imediatas. Eventualmente uma pauta solicitada por encomenda da chefia ou para agradar um amigo dos proprietários, desconectada de importância para sua editoria, pode representar um desafio humilhante. E claro que os enfrentei. Mas se há desgosto nestas ocasiões, é preciso ressaltar também a euforia quando sua matéria emociona os leitores, transforma positivamente a vida das fontes consultadas ou promove empatias necessárias. Assim, nesta gangorra entre o impublicável e a reportagem notável, é preciso dosar para mensurar sua experiência profissional: no meu caso, o saldo é positivo, de longe.</p>
<p>Deixei a redação no fim de 2007 para cursar o doutorado e não mais retornei. Volta e meia confiro alguma edição, e sempre que vou a Fortaleza, tento visitar o jornal ou encontrar algum colega de ofício, embora minha geração hoje seja minoria no expediente. Mas a notícia recente do fechamento iminente do DN me alvejou em cheio. E retirou do meu estoque de lembranças uma dezena de memórias tocantes, felizes, preciosas&#8230; Não sei se outros jornalistas que passaram pela casa foram sensibilizados da mesma forma, afinal o vírus da comoção tem diferentes intensidades. Quanto mim, permaneço triste ao saber que suas rotativas ficarão emperradas.</p>
<h3></h3>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Limitação criativa, abjeção, conservadorismo&#8230; os deslizes de GOT</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Jul 2019 18:03:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Laécio Ricardo]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Stardust]]></category>
		<category><![CDATA[GOT]]></category>

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		<description><![CDATA[Ao contrário de muitos, não assisti a Game of Thrones (GOT) durante sua exibição regular pela HBO. O enredo que me relatavam &#8211; pejorativamente, houve quem me dissesse ser a <a class="read-more" href="https://apulga.com/limitacao-criativa-abjecao-conservadorismo-os-deslizes-de-got/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/07/GOT2P3.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1902" alt="GOT2P3" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/07/GOT2P3.jpg" width="650" height="366" /></a></p>
<p>Ao contrário de muitos, não assisti a Game of Thrones (GOT) durante sua exibição regular pela HBO. O enredo que me relatavam &#8211; pejorativamente, houve quem me dissesse ser a obra um exemplar de capa e espada, que mesclava Senhor do Anéis com Caverna do Dragão &#8211; e seu eventual apelo dramático (uma dança das cadeiras marcada pela imprevisibilidade) estavam longe de mobilizar meu interesse. Mas minha resistência não deve ser entendida como atitude pedante. Estou longe da cinefilia marcada pelo elitismo. Se não aderi à febre, foi porque não me senti tragado por suas promessas. Acrescente a isto o fato de eu ter dificuldades em lidar com narrativas seriadas cujas tramas se prolongam no decorrer de temporadas. Sim, não administro a ansiedade de modo saudável.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Se você não viu a série, devo informar que este texto contém spoilers e comentários críticos. Francamente, não me enervo com vazamentos, mas entendo quem se inquieta com antecipações. Sendo assim, se pretende vê-la, abandone esta leitura. Prometo não guardar rancor. Também não tenho pretensão de ser uma espécie de voz do discernimento sobre a obra.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>De qualquer forma, apenas depois do seu desfecho oficial e em virtude de um acordo doméstico para maratonar GOT durante as férias escolares, iniciei meu périplo na adaptação da obra de George Martin, possivelmente o fenômeno televisivo mais importante desta década. Se você não viu a série, devo informar que este texto contém spoilers e comentários críticos. Francamente, não me enervo com vazamentos, mas entendo quem se inquieta com antecipações. Sendo assim, se pretende vê-la, abandone esta leitura. Prometo não guardar rancor. Também não tenho pretensão de ser uma espécie de voz do discernimento sobre a obra. Partilho apenas algumas impressões; como naveguei pelas águas de Westeros e o que achei da experiência. Assim, não porto respostas; trago provocações, aponte divergências e só. E não quero ser cobrado por isso &#8211; se você é fanático pela trama e adora debates, procure outro interlocutor.</p>
<p><strong>Dilemas da representação e demandas do presente</strong></p>
<p>Inicio meus apontamentos com outra informação brochante: não li nenhum dos volumes de Martin, de modo que só posso mensurar GOT pelo que a série me apresenta. A fidelidade, portanto, não é critério para minha apreciação. No que se refere à obra televisiva, a primeira coisa que me causou um peculiar incômodo nas escolhas de produção/encenação é o triunfo da branquitude na saga &#8211; a repetição de um padrão étnico majoritariamente europeu em Westeros e, obviamente, a ausência de um recorte plural. E quando um perfil multifacetado desponta no continente vizinho (Essos), os personagens são construídos com atitudes e trejeitos que parecem destoar do “padrão civilizado” (formal, marcado por certo recato e solenidade) evidente nos reinos de Westeros. Um tipo de construção que vislumbráramos, por exemplo, na franquia Indiana Jones e que, àquela altura, início dos anos de 1980, já inquietava algumas sensibilidades. O que desejo dizer com isso? Em tempos nos quais os debates sobre representação (como determinados temas, questões culturais e grupos minoritários são abordados na prática artística?) e representatividade (tais grupos minoritários participam das elaborações que deles são feitas?) no cinema se avolumam, talvez fosse sensato, da parte dos executivos da HBO, ponderar suas escolhas e, claro, avaliar suas consequências.</p>
<p>Exemplifico. Em que medida, em 2019, por exemplo, é pertinente articular a redenção de Daenaerys como “libertadora dos escravos” (ela, uma mulher branquíssima), para em seguida, numa demonstração de adoração, fazê-la desfilar nos braços da multidão de alforriados (pardos, em sua maioria)? Não teremos visto, na história da colonização, narrativas semelhantes que edificam um herói branco e silenciam os subalternos de qualquer protagonismo no que se refere às suas próprias demandas e destinos? Não desejo ser o censor de uma obra ficcional, mas penso que a fantasia não pode se autoproclamar um território blindado às revisões que despontam na contemporaneidade (em outros termos, se é importante respeitar o universo diegético da obra &#8211; sua ambientação, digamos -, penso ser igualmente relevante ponderar o seu contexto de circulação). Assim, uma adequação entre meios e fins, não no sentido maquiavélico, talvez seja a justa medida no empreendimento artístico&#8230;</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Não desejo ser o censor de uma obra ficcional, mas penso que a fantasia não pode se autoproclamar um território blindado às revisões que despontam na contemporaneidade (em outros termos, se é importante respeitar o universo diegético da obra &#8211; sua ambientação, digamos -, penso ser igualmente relevante ponderar o seu contexto de circulação).</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Avaliação semelhante vale para a nudez, para o tratamento do sexo e da violência sexual. Neste quesito, reitero: a quem interessa o excesso de exposição do corpo feminino? E por que a ocultação do corpo masculino? Um moribundo Jon Snow, num rito de ressurreição, permanece despido com sua genitália encoberta, escolha que atesta um pudor incabível; enquanto isso, em muitíssimas outras cenas, diferentes mulheres, atrizes centrais ou figurantes, comparecem em nu frontal. Curiosamente, o único protagonista que tem seu pênis exposto (Theon) é castrado no decorrer da série &#8211; uma espécie de punição pela exibição do falo? Desde a sua primeira temporada, a violência sexual faz parte da saga e é sempre possível argumentar que as relações de poder e de autoridade, numa atmosfera que evoca uma remota Idade Média, eram permeadas por abusos deste tipo. Estaríamos assim no campo da acuidade histórica (ou, para quem leu os livros, de uma possível fidelidade às escolhas do autor). Mas insisto: em tempos de #MeToo, de reivindicação de empoderamento pelas minorias, de questionamento das práticas desiguais no âmbito das discussões de gênero e da emergência de um pensamento decolonial que não mais aceita o triunfo exclusivo do patriarcado e do eurocentrismo, seriam tais escolhas narrativas pertinentes? Em que medida a fidelidade histórica poderia desconsiderar as demandas de um presente que não deseja mais pactuar com injustiças? E por que, quase sempre, esta violência se opera sobre e em torno do corpo feminino? Percebam que me limito a indagar, sem avançar nas respostas. Mas se trago perguntas é porque algo me inquieta, demandando uma reflexão superior ao tempo de alguns episódios&#8230;</p>
<p><strong>Uma trama que flerta com a abjeção?</strong></p>
<p>Durante esta maratona, vivenciei um outro mal-estar; e este decorre de uma disposição moral-emocional minha versus a contundência do roteiro e das escolhas de encenação. Por diversas vezes, repeti a mesma pergunta: na balança da experiência espectatorial, sinto mais prazer ou desconforto com esta série? Quase sempre, o incômodo triunfava. Não tivesse firmado meu compromisso doméstico, teria abandonado a atração sem remorso&#8230; E como traduzir o mal-estar? Outra pergunta difícil. Mas como ele se refere unicamente a mim, tento esboçar uma (incompleta) resposta. Acredito que a trama de GOT é excitante, que há bons personagens (e logicamente ótimas interpretações), que algumas temporadas têm um cuidado bem acima da média na condução da narrativa. Porém, ao término de muitos episódios, me vi numa encruzilhada: determinadas escolhas no roteiro/encenação pareciam me posicionar, enquanto espectador, numa cumplicidade desconfortável, cuja analogia seria a de alguém envolto numa gangorra que oscilaria entre um sadismo desnecessário e um masoquismo inexpiável. Afetos ou pulsões que, dependendo da intensidade exposta, me constrangem. Não vejo uma obra para ser apaziguado, sei bem disso; mas não preciso escolher o que me fere, sobretudo se identifico uma desproporcionalidade na abordagem, algo que beira o abjeto.</p>
<p>Tentarei, se possível, aprofundar esta analogia. Há muitos exemplos na série, mas recorrerei aos embates familiares no enredo. Motivado pelo lema da roda, espécie de engrenagem que conecta e envenena os herdeiros de importantes famílias que se alternam no tabuleiro político de Westeros, GOT nos conta as disputas palacianas destas facções pelo trono de ferro; em síntese, pelo comando dos sete reinos. Um revezamento quase sempre marcado por traições e mortes trágicas. Nesta competição com ares de xadrez, onde predominam a estratégia e o conchavo, parece haver pouco lugar para a honra e outros sentimentos nobres. Importam a maquinação e as alianças. Por outro lado, aproximar-se e ocupar o trono também não é uma posição confortável, dado que todo rei, ou postulante ao cargo, no decorrer da série, está fadado à tirania, à loucura, ao autoritarismo ou, na melhor das hipóteses, à fé cega; e, no limite, sucumbe às tentações do poder e encontra seu fim. Percebemos logo, pelo menos eu o percebi, que a série nos conta, na verdade, a história do esfacelamento destas famílias e dinastias; tragadas por este elo inquebrantável, a roda, observamos a contínua queda e pulverização dos seus núcleos, episódio após episódio. Em alguns casos, sua completa extinção.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Acredito que a trama de GOT é excitante, que há bons personagens&#8230; Porém, ao término de muitos episódios, me vi numa encruzilhada: determinadas escolhas no roteiro/encenação pareciam me posicionar, enquanto espectador, numa cumplicidade desconfortável, cuja analogia seria a de alguém envolto numa gangorra que oscilaria entre um sadismo desnecessário e um masoquismo inexpiável.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Embora ciente do que designei no início de premissas da narrativa (a imprevisível dança das cadeiras; a frustração como lei geral), provavelmente desenvolvi uma empatia pelos Starks, senhores do Norte de Westeros. Em certa medida, é possível também entender GOT como uma espécie de narrativa sobre o ocaso e a posterior reabilitação do Starks, a única das grandes famílias a não ser destroçada nesta disputa. Mas, no meu entendimento, se os Starks retomam Winterfell (seu lar) e alguns dos seus herdeiros sobrevivem ao desfecho da trama, esta aparente compensação não implica exatamente um retorno da ordem. Diria até que, mesmo sobrevivendo, talvez sejam eles os que mais perdem nesta saga; e é exatamente ao ponderar o tratamento destinado aos nobres do Norte na série que meu incômodo se reafirmava. Todas as grandes casas caem, fato; mas nem todas caem da mesma forma ou recebem igual tratamento dos roteiristas. Dito de outro modo, há uma correlação desigual na abordagem. Se traçarmos um paralelo com seus principais rivais do Sul, os Lannisters, o desequilíbrio se torna evidente, pendendo negativamente para o clã do inverno.</p>
<p>Vejamos. No decorrer da saga, a família Stark perde seus genitores e o primogênito; seus corpos são objeto de pilhéria e expostos à execração. Não há luto, choro ou sepultamento &#8211; e sabemos que, onde não há luto, não há cicatrização e superação da perda. Acompanhamos, assim, a jornada trágica de pais que se separam e de filhos que não puderam se despedir; trajetórias fadadas a nunca se reencontrar. A filha mais velha, Sansa, permanece durante cinco temporadas submetida a ritos de humilhação diários. É mantida refém de um tirano detestável; é aparentemente salva por um aliado de conduta questionável; e, quando nenhum agravo lhe parece possível, cai nas mãos de um novo carrasco com o qual é obrigada a se casar. A união forçada se consolida com um estupro que, em termos narrativos, não encontra justificativas. Sabemos que Ramsay Bolton, o esposo, é um jovem sádico e intempestivo e que, sob sua vigilância, Sansa enfrenta agressões cotidianas (verbais e físicas). Neste contexto em que seu destino já nos fora comunicado, a encenação do estupro é desmesurada, se torna desnecessária (lembremos aqui do que eu disse acima sobre os dilemas da representação, sobre as demandas do presente e o movimento #MeToo).</p>
<p>Quando de sua fuga e posterior retomada de Winterfell pela família, na famosa Batalha dos Bastardos, imaginamos, nós, os espectadores, que o suplício dos Starks findará; no entanto, no início do conflito, seu irmão mais novo, Rickon, traído por ex-vassalos, é vítima da violência de Bolton. Temos aqui outra morte que, a meu ver, não encontra justificativa no âmbito narrativo, afinal Ramsay é o que já sabemos, ele deseja recuperar Sansa e matar Snow, e a batalha a que me referi seria travada de qualquer forma. Assim, em termos narrativos, o sacrifício de Rickon nada acrescenta &#8211; no máximo, potencializa o sentimento de vingança da dupla Sansa/Snow (sentimento já instalado, diga-se). Expandindo um pouco a reflexão, alguém poderia indagar: a morte de Oberyn Martell e da princesa Baratheon, esta última levada à fogueira com a anuência paterna, também não seriam exemplos de uma violência questionável em GOT?</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Todas as grandes casas caem, fato; mas nem todas caem da mesma forma ou recebem igual tratamento dos roteiristas. Dito de outro modo, há uma correlação desigual na abordagem. Se traçarmos um paralelo com seus principais rivais do Sul, os Lannisters, o desequilíbrio se torna evidente, pendendo negativamente para o clã do inverno.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Responderei à pergunta recorrendo ao mesmo argumento: Oberyn morre numa situação de duelo, da qual ele participa voluntariamente &#8211; alguém, portanto, haveria de perder, não obstante a brutalidade da cena. Já a herdeira dos Baratheon, traída pela sua estirpe, tem um desfecho tristíssimo, mas em termos narrativos, ele é pertinente &#8211; leva ao abandono do pai por parte de suas tropas e, assim, à sua derrota final. De qualquer modo, se pudéssemos formular um princípio para a discussão aqui exposta, ele seria: nos casos apontados (estupro de Sansa, morte de Rickon), a abjeção não decorre da violência explícita, mas da violência desnecessária, daquilo que não é pertinente à trama e que parece apenas violentar a nós, espectadores.</p>
<p>Mas voltemos aos herdeiros do Norte. Concluída a Batalha dos Bastardos, e ao término de seis temporadas (lembro que toda a série tem oito!), Winterfell retorna aos seus senhores e alguma unidade familiar parece próxima. Mas como ressaltei, a reparação já não é possível. Seguindo um arco paralelo durante a errância dos Starks, Arya, a irmã de Sansa, vive um rito iniciático &#8211; uma jornada que a levará a se tornar uma assassina cujo objetivo é matar os responsáveis pelos crimes cometidos contra sua “casa”. Finalizado o “treinamento”, é somente na sétima temporada que iremos testemunhar, de fato, uma reunião familiar. Sansa revê Arya, mas o reencontro é pouco caloroso e marcado por hesitações. Nenhuma delas é mais a personagem apresentada no início da série, fato; mas o crescimento teve como ônus a perda da inocência e do otimismo, a contenção de qualquer afetividade. Para os roteiristas de GOT, crescer é endurecer e se embrutecer, implica internalizar uma desconfiança permanente e bloquear os afetos. Um aprendizado talvez importante no contexto da trama, mas que implica grande sacrifício (uma quase desumanização).</p>
<p>Passemos aos Lannister. Alguém evocará: mas a “casa” que se orgulha de quitar suas dívidas e cujo brasão é um leão dourado, não pagou com a morte dos seus infantes pelos crimes cometidos por seu patriarca (Tywin) e pela rainha Cersei?! Aliás, o próprio patriarca e a rainha não terminam por morrer na saga?! É verdade, a família sucumbe aos desmandos dos seus expoentes e deixa de girar a roda, como se habituara há anos. Mas, como eu disse, a comparação é desigual: nenhum Lannister caiu pela espada de uma família traída, vilipendiada por seus abusos e maquinações; tampouco, foi degolado por um adversário ou teve seu corpo dilacerado e exposto à execração (a posterior vitória de Daenarys, a meu ver, não conta nesta apreciação; afinal, os Targaryen &#8211; reduzidos a dois herdeiros e exilados de Westeros &#8211; já não integravam a roda). Fato ainda mais grave: Joffrey, Tywin e Myrcella foram velados; portanto, houve pesar, sepultamento e despedida, precisamente os elementos que facultam a continuidade familiar após a perda. E foi exatamente a impossibilidade do luto &#8211; de um último aceno em meio a dor &#8211; que marcou a sina dos Starks. Isto para não mencionar o fim agridoce reservado a Cersei, autora de algumas das piores vilanias na série: a impiedosa rainha morre nos braços do seu amor incestuoso. Confortante e complacente.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Para os roteiristas de GOT, crescer é endurecer e se embrutecer, implica internalizar uma desconfiança permanente e bloquear os afetos. Um aprendizado talvez importante no contexto da trama, mas que implica grande sacrifício (uma quase desumanização).</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Retomando a lista de aflições contra os Starks, haveria uma última observação; algo que, se for pertinente, demarcaria a tragédia do clã. Pelo que entendi na série, a continuidade das famílias depende de patrilinearidade (os filhos herdam o nome do pai; apenas os homens são reis &#8211; o golpe de estado de Cersei, insisto, é um ponto fora da curva). Assim, os três filhos de Cersei são considerados Baratheon, a linhagem do pai (Robert), e não Lannister. Do mesmo modo, os filhos de Ned e Catelyn são designados de Stark (nome paterno) e nunca de Tully &#8211; e eles tampouco se vêem como herdeiros de Correrio. Tywin, por sua vez, não cessa de pedir a Jaime que deixe o posto de guarda real para assegurar a continuidade da casa Lannister. E onde quero chegar? Bem, se a premissa for legítima, Sansa e Arya não poderiam repassar o nome da família aos herdeiros, caso os tenham. Aclamado como novo rei, o “corvo Bran” é apontando como alguém impossibilitado de ter filhos. Sobra Snow. Ao desfecho da série, o outrora bastardo é punido (não pode casar e procriar); e caso pudesse, pelo princípio patrilinear, sabemos agora que ele, na verdade, é Targaryen. Assim, considerando tal princípio, a médio prazo os Starks também estariam fadados a desaparecer&#8230; Não, definitivamente eu não gostaria de ter nascido no Norte em GOT.</p>
<p><strong>Como perder o fio ou a série que desandou&#8230;</strong></p>
<p>Embora confrontado vez ou outra pela abjeção, optei por avançar na trama. Talvez por também ter ciência dos seus méritos. Eu só não esperava, todavia, concluir a curva da sexta temporada, que findara de modo promissor, e me deparar com o agonizante declínio da saga em sua reta final. É fato que, desejando inovar na construção do seu intrincado roteiro e apostando nas reviravoltas como mecanismo narrativo, GOT foi, na verdade, conservador. A que me refiro? Simples: gradualmente, sua fórmula virou clichê e o inesperado, de repente, se revelava pouco surpreendente. Decorre daí o que me parece ser uma lei da roteirização: todo recurso, empregado à exaustão, tende a se esgotar. Todavia, o que eu até então identificara como vício de roteiro, nas sétima e oitava temporadas se converte em incompetência criativa &#8211; a série desanda, mergulha numa espiral negativa e dela não consegue retornar.</p>
<p>São tantos os problemas que é difícil enumerá-los na íntegra. Há uma queda na abordagem narrativa &#8211; a condução rítmica eficiente cede lugar à precipitação e à celeridade -, os diálogos se tornam precários (perdem sofisticação) e a elaboração cuidadosa é substituída pelo espetáculo visual das batalhas e mortes gratuitas. Do ponto de vista da construção dos personagens, a matização é negligenciada e as derrapagens são evidentes &#8211; Cersei se torna uma caricatura de si, repetindo sempre a mesma expressão facial; Tyrion perde sua sagacidade, se torna careta e, pasmem, um conselheiro inábil (como um roteirista erra a mão com um personagem tão rico?); Daenarys, por seu turno, é empurrada para uma egotrip nazista pouco convincente (falarei disso à frente). E isto para citar somente três protagonistas. Mas talvez o pior pecado seja aquilo que eu vou definir como a abdicação do enxadrismo e das intrigas palacianas pelo mero embate físico, pela guerra vencida não mais em decorrência da estratégia, mas somente na ponta da espada (ou, se o desejarem, pelo bafo de um dragão!). Neste sentido, acho até que a morte de Mindinho (o verdadeiro enxadrista de GOT) é sintomática desta guinada fatídica.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Embora confrontado vez ou outra pela abjeção, optei por avançar na trama. Talvez por também ter ciência dos seus méritos. Eu só não esperava, todavia, concluir a curva da sexta temporada, que findara de modo promissor, e me deparar com o agonizante declínio da saga em sua reta final. Gradualmente, sua fórmula virou clichê.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Lamento por avançar nos spoilers, mas o exorcismo dos erros é necessário. De qualquer modo, dialogo aqui com quem viu a série da HBO e poderá, neste exercício, reconhecer ou não o seu desapontamento. A precipitação com que é conduzido o embate entre os habitantes de Westeros e o exército de mortos do “Rei da Noite” &#8211; algo que desde o início da saga se afirma como um dos principais conflitos do enredo &#8211; figura na lista de vexames. O alardeado conflito encontra solução num único episódio e, não obstante o desfecho a toque de caixa, apresenta falhas inaceitáveis: apontados como uma ameaça iminente na chamada “Longa noite”, os “caminhantes/andarilhos brancos”, a elite militar do inimigo, são apenas coadjuvantes no confronto. Uma figuração inexplicável e algo tão risível quanto a decisão dos roteiristas de, no mesmo episódio, deslocar os personagens vulneráveis de Winterfell para a cripta da fortaleza. Ora, esta batalha envolvia um adversário que convertia os mortos em parte do seu exército; nestas circunstâncias, sugerir uma cripta como refúgio é a mesma coisa que condenar seus abrigados à execução sumária.</p>
<p>Um outro conflito mobilizou a ansiedade dos espectadores de GOT. Em virtude do ritmo cauteloso dos primeiros anos da série, tivemos (nós, os espectadores) que aguardar seis temporadas para vermos Daenarys e sua frota aportar em Westeros. Mas também aqui a celeridade se impôs como regra e um embate central do enredo encontrou solução num único episódio. E o pior, de modo polêmico &#8211; para o tormento dos zilhões de fãs da saga &#8211; e igualmente repleto de falhas. Algumas constrangedoras: 1) soldados mercenários (a tal companhia dourada) tido como imbatíveis e que fazem uma figuração tão medíocre quanto a dos “caminhantes brancos” &#8211; 20 mil homens vencidos pelas labaredas de Drogon; 2) armas letais que mataram e lesionaram os dragões Targaryen (o “escorpião”), instaladas em embarcações e nos muros da capital de Westeros, de repente, se tornam inofensivas; 3) uma cidade de alvenaria destruída por um único dragão, cujo combustível interno deve ser superior às reservas de petróleo da Venezuela. Sobra, como “cereja do bolo”, a revelação/afirmação da loucura de Daenarys, espécie de amazona alada com forte verve piromaníaca.</p>
<p>Sobre este último ponto, evitarei as controvérsias. Sei que metade dos fãs diriam dracarys para os roteiristas/produtores em virtude da decisão. No entanto, apesar da fúria, colegas próximos (e fãs assíduos da série) me informaram que o destino de fogueteira da musa platinada estava escrito na estrelas &#8211; ele fora antecipado em indícios, presságios do futuro sutilmente inseridos na saga. Particularmente, não gosto de tramas que apostam na inexorabilidade do destino (de que alguém estaria fadado a uma sina inelutável), sobretudo numa série que alardeia o imprevisível como seu principal mérito; além disso, penso que o problema maior desta escolha é o fato da conversão de Daenarys, em virtude da celeridade narrativa, não ter sido articulada de modo convincente.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Particularmente, não gosto de tramas que apostam na inexorabilidade do destino (de que alguém estaria fadado a uma sina inelutável), sobretudo numa série que alardeia o imprevisível como seu principal mérito; além disso, penso que o problema maior desta escolha é o fato da conversão de Daenarys, em virtude da celeridade narrativa, não ter sido articulada de modo convincente.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Decorre desta precipitação um outro desconforto. Se, em GOT, crescer equivale a vivenciar uma experiência de embrutecimento, por outro lado, a loucura ou a tirania parecem ser o fardo daqueles que ambicionam o poder. Por esta via, se aproximar do poder ou almejar o seu exercício, implica em se deixar seduzir pelo que há de mais torpe, em se corromper ou assumir a condição de déspota. Uma leitura que ressalta a negatividade do jogo político (e até um pouco simplória), mas que desconsidera o que talvez seja a sua positividade &#8211; a oportunidade de indicar outros possíveis e de repensar o futuro. Sim, Daenarys poderia personificar o novo, não o partido de Amoedo, óbvio, mas a promessa de uma vida menos amarga em Westeros. E com isto seu roteiristas nos entregariam uma heroína vibrante, em vez de uma mulher sanguinária; uma rainha notável e destoante da contagem de tiranos que lhe antecedera. Claro, esta é apenas a minha demanda diante de um presente que não mais aceita repetir os estereótipos da desigualdade de gênero. Um desejo talvez naïf; afinal o que esperar do desfecho de uma série na qual um dos personagens mais inteligentes, o Lorde Varys, num embate verbal com Tyrion, já na temporada final, afirma categoricamente que, para ser rei ou governar, “um pau pode fazer a diferença”?! Tirem suas conclusões.</p>
<p><strong>PS 1 -</strong> Sim, o último episódio foi vexatório. Acompanhemos. De início, vemos Daenarys enquadrada com as asas do seu dragão ao fundo, composição que nos leva a associá-la com uma espécie de anjo caído. É um plano bonito, admito. Em seguida, ela discursa para seus soldados; estes se encontram enfileirados numa disposição que evoca algumas tomadas célebres de “O triunfo da vontade”, de Leni Riefenstahl. Seu discurso, evidentemente, porta o delírio peculiar às bravatas do Führer. A egotrip nazista da herdeira dos Targaryen se afirma. Posteriormente, ela é morta por Snow; Drogon, seu filho-dragão, em vez de vingar a mãe, tem um insight filosófico e derrete o trono maldito, responsável pela queda de Daenarys. Decorrido algum tempo, os nobres sobreviventes se reúnem para aclamar um novo rei; ocasião em que Snow, após exigência dos Imaculados, é condenado ao exílio no extremo norte de Westeros. Apaziguados, os Imaculados partem do continente; Snow segue para sua pena. Faço uma pausa para realçar dois absurdos neste resumo. Sendo os Imaculados tão fiéis a Daenarys, teriam eles poupado Tyrion e Snow em virtude da traição do primeiro e do crime do segundo? E, uma vez que os Imaculados deixam Westeros, por que Snow, herói em batalhas cruciais da série, é obrigado a acatar uma sentença demandada por aqueles que partiram? Quem tiver respostas plausíveis, favor partilhar. Li opiniões que mencionavam que o regicida Snow, sendo o legítimo herdeiro Targaryen, deveria reivindicar sua condição de monarca; no contexto da trama (desta confusa oitava temporada), contudo, penso que tal sugestão não é cabível &#8211; além de não manifestar interesse, como poderia o jovem suceder à tia piromaníaca após a destruição da capital real, tragédia atribuída a uma espécie de herança familiar maldita? Quem confiaria em mais um Targaryen? Voltemos ao epílogo. Antes da escolha do novo rei, o anão Tyrion, num esforço metalinguístico, tenta disfarçar nosso mal-estar com uma piscadela ao espectador (“contar histórias é o que interessa”, diz ele). A brincadeira, porém, já não agrada, tampouco salva a série do seu ocaso. Aclamado o soberano, um novo conselho se reúne para deliberar os problemas do reino; o encontro, porém, revela a informalidade de uma mesa de bar&#8230; Decoro faz falta; criatividade, também.</p>
<p><strong>PS 2</strong> &#8211; Ainda sobre o imbróglio Daenarys, só uma coisa em seu arco narrativo me parece desprovida de nexo, desde o início de sua jornada. Herdeira Targaryen num lugar onde a filiação nem sempre assegura o trono (tendo em vista as traições e reviravoltas), ela não é uma cidadã de Westeros. Além disso, mobiliza um exército que concilia mercenários letais e um grupo étnico nômade completamente estranhos às estirpes orgulhosas do continente que ela almeja conquistar e subjugar. É este um ponto de partida viável? E suficientemente forte para lhe conferir legitimidade numa terra estranha? Entendemos, assim, o porquê de sua acolhida hostil em Westeros: não obstante sua importância na “Longa noite” e seu esforço para angariar reconhecimento, ela permanece uma outsider.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Resistência e sinal fechado – o triunfo de uma e a tragédia de muitos</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Jun 2018 18:00:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Laécio Ricardo]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; Em certa medida, este texto é uma homenagem. Não sei bem como conduzi-la, mas se trata de um reconhecimento público. Poderia ter sido feito de modo privado, mas me <a class="read-more" href="https://apulga.com/resistencia-e-sinal-fechado-o-triunfo-de-uma-e-a-tragedia-de-muito/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1826" style="width: 421px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/Foto-Pulga.jpg"><img class="size-full wp-image-1826" alt="&quot;Nobody Likes Me,&quot; street art in Stanley Park." src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/Foto-Pulga.jpg" width="411" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">&#8220;Nobody Likes Me,&#8221; street art in Stanley Park.</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em certa medida, este texto é uma homenagem. Não sei bem como conduzi-la, mas se trata de um reconhecimento público. Poderia ter sido feito de modo privado, mas me parece sensato partilhar que falhei; ou melhor, que sucumbimos, todos nós. Assim, o que importa é admitir que <i>ela venceu</i>, mesmo sem o saber ou sem conseguir articular as razões do seu triunfo. Norteada apenas por uma espécie de instinto que a afasta das hordas eletrônicas dispersivas, vigilantes, permissivas, promotoras de intrigas&#8230; Quanto a nós, <i>o sinal está fechado pra nós</i>. E talvez nunca mais reacenda. E se reacender, pode ser para exigir nova conexão. Deus me livre, arremesso pra longe meu smartphone!</p>
<p>Não é novidade pra ninguém, embora a partir de 2018 tenha se convertido numa revelação alarmante: ao navegar pela internet, inserir dados no Google, criar contas no Facebook e Instagram, aderir ao Whatsapp, deixamos pegadas digitais permanentes. Rastros, indícios, vestígios do nosso percurso e das nossas predileções. Pouco adianta deletar a postagem ou desativar o aplicativo. O prejuízo apenas se reduz. Nossas andanças virtuais já foram mapeadas e nosso perfil de usuário, devidamente dissecado, sem respeito a qualquer noção de privacidade. E os recentes escândalos envolvendo o Facebook nas eleições majoritárias dos EUA ou no plebiscito que definiu a saída do Reino Unido da Comunidade europeia (o chamado “Brexit”), dentre outros, apenas sinalizam que o fosso aberto é infinito.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Não é novidade pra ninguém: ao navegar pela internet, inserir dados no Google, criar contas no Facebook e Instagram, aderir ao Whatsapp, deixamos pegadas digitais permanentes. Rastros, indícios, vestígios do nosso percurso e das nossas predileções.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Assim, cada nova entrada é codificada, convertida em algoritmos e se transforma em bancos de dados à disposição de agências interessadas na gestão das nossas idéias e contatos. Seja para nos ofertar anúncios regulares cada vez mais invasivos, seja para realizar a triagem das possíveis notícias que nos interessariam, seja para nos indicar um potencial novo “amigo” ou “página” com os quais supostamente partilhamos afinidades, dentre outros males (oficialmente, a campanha eleitoral brasileira se inicia em agosto; e com ela, já se avista a possibilidade de novos vazamentos e a proliferação de <i>fake news</i>). Mas não adianta apenas praguejar contra Zuckerberg ou os criadores do Google; e exigir deles explicações nos tribunais do Primeiro Mundo. Esta <i>espiral do Diabo</i>, não custa lembrar, tem o nosso consentimento, ainda que involuntário. Baixar um aplicativo e postar freneticamente implica em aderir ao jogo, em ceder informações e abrir mão de qualquer privacidade.</p>
<p>Reconheço que o contexto atual estimula uma proliferação e circulação da intimidade, um desejo de se expor e de falar de si, materializado nos “textões” abertamente confessionais e no enquadramento narcísico das selfies. E este excesso de exposição, claro, só se concretiza com uma inevitável contrapartida – o mesmo contexto (uma nova configuração do capitalismo voltada à gestão do íntimo) também estimula um voyeurismo constante, o desejo de tudo bisbilhotar, a aspiração por uma visibilidade máxima, que se refestela diante das sex tapes <i>intencionalmente</i> vazadas, da proliferação dos reality shows, dos vídeos caseiros ambientados no espaço doméstico e cuja prerrogativa maior é a narração em 1ª pessoa. Alimentamos este circuito infernal e com ele nos regozijamos, despudoramente. Quem não se reconhecer neste quadro, em maior ou menor escala, que atire a primeira pedra!</p>
<p>Mariana Aquino, amiga querida e a homenageada deste texto, pode atirar. Na verdade, pode até despejar um carregamento inteiro de britas em nossos frágeis telhados virtuais. Tem moral e histórico para isso. Mas antes de enaltecer a sua resistência exemplar, gostaria de fazer mais algumas ponderações. Sim, as redes sociais têm uma faceta positiva – promovem novas formas de sociabilidade, impulsionam certas atividades profissionais e, pasmem, permitem até mesmo a circulação de contrainformação (de narrativas contrárias aos discursos hegemônicos). Deste modo, reconheço que é possível transitar por elas sem aderir a tanta exposição, sem ceder aos seus apelos e se beneficiando desta positividade. Mas eu conto nos dedos da mão de Lula quem assim procede! No geral, o chamado “show do eu” é incontornável. Um canto de sereia duradouro e irresistível.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Mariana Aquino, preciso reiterar: você venceu! Venceu porque nunca cedeu aos apelos tecnológicos, porque sempre recusou toda novidade e vício oriundo da Internet, porque sempre debochou da nossa estima pelo Facebook e porque nunca desejou ter conta no Instagram.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Ciente desta cantilena diabólica, e estimulado por minha heroína, optei por uma discrição virtual parcial. É pouco, reconheço. E não me isenta de ser tragado por estas engrenagens. Mas hoje repenso minhas adesões e postagens. Deixei inativa a conta do Facebook, o território por excelência da vigilância política e da proliferação de <i>tretas</i> (jargão que ilustra bem nossa predileção por picuinhas virtuais). E me excluí dos grupos de Whatsapp com inclinação suspeita e daqueles que funcionam para agregar dezenas de familiares distantes. Este canal pode possibilitar trocas instigantes, reconheço, mas a experiência me ensinou que o contato real tem maior apreço, é menos dispersivo e reduz a circulação de falsas notícias. Afinal, se existe um território onde a boataria perversa se aninha com prazer, ele se chama Whatsapp. E assim, com menos contas para administrar, me vejo com mais tempo para os livros e para garimpar, por ímpeto próprio, as notícias que de fato me interessam, nas fontes que julgo pertinentes.</p>
<p>Voltemos agora à minha homenageada. Desta vez, em definitivo. Mariana Aquino, preciso reiterar: você venceu! Venceu porque nunca cedeu aos apelos tecnológicos, porque sempre recusou toda novidade e vício oriundo da Internet, porque sempre debochou da nossa estima pelo Facebook, porque nunca desejou ter conta no Instagram, porque sempre controlou e restringiu seus acessos ao laptop, enquanto nós, servos do deus Google, dispersávamos nossa energia física e criativa navegando horas a fio. Por anos, admito, sua resistência me intrigara: a advogada que lia e-mails uma vez por semana e a única do grupo a não dispor de gadgets, de smartphones. A preferir o velho celular com lanterninha e a se limitar ao envio de torpedos. Em tempos recentes, é verdade, você aceitou a companhia de um smartphone; mas ainda assim, o enlace não foi fácil. O primeiro aparelho se danificou antes de ser usado; e o segundo foi roubado nos primeiros dias. Um sinal divino de que você estava certa e de que era preciso resistir. Hoje, passado algum tempo, você aderiu à novidade. Cheguei a imaginar que você recuaria em sua determinação. Mas logo percebi que as regras seguiriam firmes em prol da integridade. Afinal, este maldito aparelho te pertence (e não o contrário!). As ligações ainda são atendidas esparsamente, as fotos seguem escassas e enviadas somente para os mais íntimos; e a única rede social instalada, o Telegram, se encontra na lista de aplicativos não denunciados. Sim, amiga, você venceu. Admito mais uma vez. E o sinal está fechado pra nós. Talvez definitivamente.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>O amor possui quatro patas e atende por um miado</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Jan 2018 03:38:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Laécio Ricardo]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Stardust]]></category>
		<category><![CDATA[Gatos]]></category>

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		<description><![CDATA[Tenho três preconceitos consolidados, arraigados, entranhados, incrustados na alma: desconfio de quem substitui o café por chá (crime imperdoável, salvo indicação médica), não entendo quem troca praia por piscina (uma <a class="read-more" href="https://apulga.com/o-amor-possui-quatro-patas-e-atende-por-um-miado/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/01/Manolo1.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1695" alt="Manolo1" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/01/Manolo1.jpg" width="424" height="488" /></a></p>
<p>Tenho três preconceitos consolidados, arraigados, entranhados, incrustados na alma: desconfio de quem substitui o café por chá (crime imperdoável, salvo indicação médica), não entendo quem troca praia por piscina (uma imensidão que porta vitalidade por água clorada? Não somos vegetais à espera de higienização) e me apiedo de quem não aprecia a companhia de animais. De todas as provocações, quero me deter neste último ponto. E prometo não estimular rivalidades, porque o que não nos falta neste Brasil de vigilância instaurada por todos os lados e aplicativos são tretas. Tretas, adoro esta palavra – no Recife, onde resido, ela é pronunciada com regalo, é quase desejada!</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Assim, gostaria de me referir e de me dirigir aqui àqueles que, como eu, dão seu reino pela companhia de um bichano. Ah, captou a dica? Pensou em felinos? Bingo, você é dos meus! Traga sua ração premium, seu filho bigodudo e vamos tricotar sobre o amor a quatro patas.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Tenho amigos que fazem aquela linha: “não curto bichos, mas respeito e não maltrato”. Massa, bem diplomático. Não maltratar já é um bônus na minha balança dos amores renovados. Mas conta pouco, reitero. Não maltratar outro ser vivo me parece uma obrigação consensual (ou não?). Bom, pela escrita afiada e não vocacionada para o diálogo, deu pra sacar que este é um texto passional, né? E, como tudo que publico neste espaço, se trata de uma escrita errante – até sei o que me inquieta, mas desconheço onde chegarei. Sim, escrever é um parto sem direito a ultrassom conclusivo. Pelo menos pra mim&#8230; Assim, gostaria de me referir e de me dirigir aqui àqueles que, como eu, dão seu reino pela companhia de um bichano. Ah, captou a dica? Pensou em felinos? Bingo, você é dos meus! Traga sua ração premium, sua bolinha com guizo, seu filho bigodudo e vamos tricotar sobre o amor a quatro patas (não fetichize e nem me interprete mal, por favor!).</p>
<p>Também não me julguem pela maior inclinação, pendor, fascínio pelos gatos. Eu estimo e aprecio todos os animais domésticos, de “vera”. Nesta vida passageira, já tive preá, coelho, peixe ornamental, cachorro, periquito e hamster, além, logicamente, de um punhado de felinos. Não é pouco e a experiência me habilita a falar com algum conhecimento de causa. O fato é que, provavelmente por uma herança materna assumida com entusiasmo, os gatos cativaram desde cedo minha predileção (um antigo desenho animado – Manda-Chuva –também tem sua parcela de responsabilidade!). Cada gato encerra um mistério, cada dia de convívio é uma novidade e um aprendizado que não cessa, repito este bordão com fervor. Um encontro de donos de cães é uma festividade de rabos abanando e uma convergência de opiniões – isto quando os proprietários não são obrigados a interromper sua prosa para apanhar algum cocô inesperado. Um encontro de donos de gato é sempre imprevisível – primeiro, os bichanos não comparecem, ficam em casa exibindo sua silhueta elegante ou rolando pelo tapete; segundo, cada fala, relato é uma história diferente, pontuada de surpresas. Por vezes, algumas informações coincidem. Mas quase sempre predomina a novidade, a curiosidade, o encantamento&#8230;</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Um encontro de donos de gato é sempre imprevisível – primeiro, os bichanos não comparecem, ficam em casa exibindo sua silhueta elegante ou rolando pelo tapete; segundo, cada fala, relato é uma história diferente, pontuada de surpresas.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Toda esta digressão para partilhar com vocês um fato triste e uma decisão súbita. Há aproximadamente um ano e meio perdi um gato que me acompanhara por quase onze anos. Um filho, eu insistiria. Felpudo e gorducho, do tipo que poderia estrelar qualquer comercial de ração, Manolo não era um felino comum. Era meu gato, fato, mas na verdade foi o animal de toda uma geração de amigos e parentes. Tinha a petulância e a curiosidade da espécie, mas uma exuberância incomum. Era magnético, garboso, arisco e observador. Conheço gente que passou a criar e a amar gatos após conviver e participar da confraria em torno de Manolo; e minha mãe insistentemente o considerava um neto. Enfim, com sua partida ficamos órfãos, nosso lar se despedaçou, uma lacuna imensa se abriu, seguida de lenta cicatrização. Ainda hoje, ele permanece vívido em nossas lembranças – e creio será tema de recordação e saudade permanentes.</p>
<p>Durante o ciclo do luto (extenso demais em minha opinião!), repensamos sobre a possibilidade de adotar ou não outro animal. Vale à pena reprisar esta experiência – longos anos de convívio fraterno e um período de agonia após a perda inevitável? Racionalmente, desejava evitar o questionamento e qualquer decisão. Mas a pergunta persistia e retornava. Durante algum tempo, senti-me inclinado a não mais adentrar neste círculo de afetos intensificados; uma cumplicidade que gerava demandas crescentes e que, em certa medida, comprometia meus engajamentos profissionais e viagens de lazer. Fora a necessidade de ter que viabilizar uma rede mínima de apoio, residindo numa cidade onde não dispomos de familiares – sim, bicho é quase filho e pede uma cadeia de solidariedade permanente.<br />
Ocorre que, na virada do ano, motivado pelo espírito de renovação, mas sem qualquer planejamento, decidimos subitamente adotar dois rebentos felpudos. Dois! Uma mudança súbita para quem hesitava em aceitar um novo animal, receando sofrimentos futuros. Rápido passeio pelas páginas com bichanos para adoção e, voilà!, escolhemos nosso par de felinos. À esta escolha, seguiu-se uma breve disputa para definir seus nomes; após alguma discordância, fechamos em Ziggy (Stardust), persona mais famosa do meu divo David Bowie; e Bob (Dylan), músico sempre presente nas trilhas de nossas viagem.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Na virada do ano, motivado pelo espírito de renovação, mas sem planejamento, decidimos subitamente adotar dois rebentos felpudos. Neste lar fincado num cruzamento movimentado do Recife, a vida recomeçou com intensidade. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Bob e Ziggy estão conosco há pouquíssimo tempo. E, desde suas chegadas, não parei de repetir um questionamento: terá sido uma decisão sensata? Era a hora indicada? Nosso lar e corações estavam em condições de acolher novas vidas? Todas as manhãs, procurava sinais indicativos de que esta escolha não fora precipitada. Aos poucos, juntamente com o privilégio de ver nossa casa com energias renovadas, estes indícios foram aflorando. Uma pista aqui, outra acolá, o quebra-cabeças se encaixava. Hoje, não obstante os desafios que nos aguardam (redistribuir de modo equânime os afetos e não trair a confiança daqueles que decidimos amar!), estou otimista, entusiasmado, empolgado. Na esfera coletiva, acredito francamente que 2018 será um ano tão amargo ou difícil quanto 2016 e 2017; não vejo sinais de mudanças, sobretudo positivas. Mas, neste lar fincado num cruzamento movimentado do Recife, a vida recomeçou com intensidade. E, por hora, isto me basta&#8230;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Do cotidiano como lugar de resistência</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Oct 2017 15:00:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Laécio Ricardo]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>

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		<description><![CDATA[Não tá fácil pra ninguém. Na verdade, nunca esteve, sejamos sinceros. Mas, de uns cinco anos pra cá, piorou bastante. Tudo se mostra extremamente difícil, sem sinalizar possibilidades de entendimento, <a class="read-more" href="https://apulga.com/do-cotidiano-como-lugar-de-resistencia/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2017/10/sombrinha.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1667" alt="sombrinha" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2017/10/sombrinha.jpg" width="750" height="563" /></a></p>
<p>Não tá fácil pra ninguém. Na verdade, nunca esteve, sejamos sinceros. Mas, de uns cinco anos pra cá, piorou bastante. Tudo se mostra extremamente difícil, sem sinalizar possibilidades de entendimento, de acolhida, de otimismo; as palavras parecem ponderadas com antecedência, como se temessem alguma vigilância constante e implacável, e todos os passos são executados com cautela, receosos de enveredar em alguma armadilha fatal. A polarização política que nos acomete, protagonizada por uma extrema direita irascível, fóbica e intolerante, e uma esquerda atordoada e patética, tampouco contribui para nos inspirar confiança. Na verdade, só aprofunda o fosso e a sensação de mal-estar.</p>
<p>Falta disponibilidade para se aproximar, para dialogar e entender; sobra impaciência, proliferam as pretensas verdades, ampliam-se os insultos, renovam-se os tabus, inclusive aqueles que julgávamos ter superado. Do meu lado, já ressabiado com tanta reviravolta e com o triunfo da hipocrisia, sedimenta-se certa desconfiança e também o pessimismo deseja fazer morada. Justo no meu coração, notório pelo seu entusiasmo e humanismo retumbante. Mas não tá fácil pra ninguém, menos ainda para o meu coração&#8230;</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Onde encontrar brechas? </strong><strong>É na esfera privada onde encontro brechas, vislumbro resistências e identifico possibilidades</strong><strong>. Pressionado pelos debates nada fecundos nas redes sociais, considero legítimo este refúgio na intimidade para recobrar algum ânimo.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Onde encontrar brechas? Onde identificar possíbilidades? Como construir alguma sociabilidade livre dos interditos e das vigilâncias, norteada pelo signo da esperança e do acolhimento? Este mundo carece de leveza, com urgência urgentíssima. Nada mais. E onde encontrá-la? Não tá fácil, reitero. Talvez seja a hora de renovarmos os engajamentos e de retomarmos as práticas militantes, aquelas que, conduzidas em grandes grupos e em espírito de comunhão, nos inspiram e nos sugerem possibilidades reais de transformação. Mas confesso que, na casa do 40 e com a carcaça já enrijecida, me encontro pouco motivado para enfrentar esta adversidade no corpo-a-corpo, no grito exaltado, ainda que ladeado por centenas de colegas igualmente irmanados. Confio plenamente nas ações coletivas, insisto, mas meu corpo hoje pede contenção, gestos mínimos, o que não se confunde com conformismo&#8230;</p>
<p>Portanto, é na esfera privada e nas redes próximas onde encontro brechas, vislumbro resistências e identifico possibilidades. À primeira vista, parece uma solução menor e pouco eficiente diante do quadro grave delineado; alguém poderia aventar também a hipótese de que se trata de uma saída com alcance social restrito. Admito e até visto a carapuça; mas não entendam como um gesto mesquinho, tampouco egoísta. Pressionado pelos debates nada fecundos nas redes sociais e exaurido pelas dificuldades de entendimento nos encontros presenciais, considero legítimo este refúgio na intimidade para reforçar os laços, consolidar os afetos e recobrar algum ânimo. Cada lealdade renovada, entendam, é um estímulo a mais para seguir num mundo onde as tensões parecem se multiplicar e a boa vontade se revela uma quimera.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Não pode ser simples mensagem de whatsapp ou outro aplicativo. É necessário ouvir, se demorar e, se as agitações da vida permitirem, encontrar pessoalmente, tocar, sentir a pulsação e a aprovação do olhar. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Tenho meus rituais cotidianos e sugiro a cada um que estabeleça os seus. Questão de sobrevivência, insisto. Ligo com regularidade para os amigos; um a um, sondo suas inquietações e partilho meus anseios. Não pode ser simples mensagem de whatsapp ou outro aplicativo. É necessário ouvir, se demorar e, se as agitações da vida permitirem, encontrar pessoalmente, tocar, sentir a pulsação e a aprovação do olhar. Não sou um indivíduo de forte vínculo familiar, mas não deixo estremecer o contato com as crianças que amo – sobrinha e afilhados. Venero meus discos com o entusiasmo de um adolescente e assisto a certos filmes com igual fascínio. E, como não tenho religiões, inventei uma própria. Todos os sábados, compareço ao meu culto matinal: vou à uma feira de orgânicos, onde me demoro a conversar em cada barraca; uma hortaliça aqui, uma fruta acolá, um doce mais a frente, encho a sacola e renovo meu credo. São nestes momentos breves, mas intensos, espécies de epifanias do cotidiano, onde recupero uma ponta de esperança, reencontro algum otimismo.</p>
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<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Um ano fadado a não acabar</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Dec 2016 04:58:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Laécio Ricardo]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Stardust]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Você já deve ter escutado de muitos amigos e provavelmente concorda: 2016 tá pesado! Pense num ano difícil e do qual pouco levaremos! Não tem freios, não há fim – <a class="read-more" href="https://apulga.com/um-ano-fadado-a-nao-acabar/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/caverna2016.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1528" alt="caverna2016" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/caverna2016.jpg" width="640" height="600" /></a></p>
<p>Você já deve ter escutado de muitos amigos e provavelmente concorda: <i>2016 tá pesado! Pense num ano difícil e do qual pouco levaremos!</i> Não tem freios, não há fim – desde que viramos a folhinha do calendário em janeiro as notícias e os eventos negativos são constantes. E quando a gente acredita que chegou no limite, ansioso pra liberar a respiração retida, vem outra desgraça com intensidade maior. Assim, se você tem algum ritual para desviar 2017 do caminho do antecessor e tornar nossas vidas amenas, é bom caprichar: pague o melhor pai de santo, compre uvas importadas, vista branco com assinatura <i>Dolce &amp; Gabbana</i> e nem ouse abrir uma sidra na última noite de dezembro!</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">O mal sedimentado em 2016 permanece; o que nos aflige por hora, não desaparecerá com os fogos do réveillon. Basta pensar na alardeada PEC 55. </strong><strong>Às vésperas do Natal, ainda somos açoitados com a recente divulgação de uma reforma previdenciária que promete empalidecer o nosso futuro</strong><strong>.</div></strong></h3>
<p>Eu, como não sou adepto de rituais e ando descrente, já joguei a toalha e espiritualmente estou me preparando para um 2017 severo, de igual envergadura ou pior. Antes de julgamentos, antecipo: não sou do tipo pessimista, tampouco embarco no delírio alheio. Mas os ventos agourentos que sopraram em 2016 prometem retornar e derrubar muita palhoça. Ninguém precisa concordar com o diagnóstico – eu tampouco queria! Mas que indícios temos para imaginar que será diferente?! Ao que me consta nenhum. E olha que não apelei para o argumento dos incrédulos: o de que a simples virada do calendário não apaga a conjuntura tumultuada, sinalizando um recomeço do zero. Ou seja, o mal sedimentado em 2016 permanece; o que nos aflige por hora, não desaparecerá com os fogos do réveillon. Basta pensar na alardeada PEC 55, cuja aprovação a toque de caixa se avizinha. Na aurora de janeiro, enquanto estivermos recolhendo as taças quebradas e a sobra da farofa, provavelmente a maldita estará sendo chancelada. E não adianta chorar as pitangas. Lutou pelo impeachment, alçou Temer e sua corja ao poder, agora é aguentar no lombo! Por vinte anos, sem arrego!</p>
<p>Tempos difíceis, rumos imprevisíveis. Recuando um pouco no calendário, cinco ou seis anos, quem diria que chegaríamos ao biênio 2015/2016 de forma tão melancólica, tão pouco auspiciosa, sem grandes expectativas! E que avançaríamos para 2017 sem a mais remota promessa de felicidade! É bem verdade que, neste ano funesto, celebrei quatro décadas. Um triunfo pessoal, uma festa bacana, cercado de bons amigos, tal como desejara. Mas, salvo um ou outro reencontro, não guardo recordações positivas do ciclo 2016. Se ponderar apenas as dores pessoais, diria que este foi o ano que levou meu ídolo dileto (Bowie) e que findou com a morte de outro gênio querido (Leonard Cohen), numa lista de perdas que inclui ainda aquele que talvez fosse meu cineasta vivo preferido (Abbas Kiarostami). Pensando na esfera doméstica, perdemos também nosso filho felino de modo súbito, uma dor que ainda hoje me consome algumas horas à noite. Até nas redes sociais, onde geralmente investimos numa persona mais extrovertida, creio que meu balanço é negativo. Prova disso é o vídeo-recordação que o Facebook nos oferece com um resumo do ano – acabo de ver o meu e fiquei constrangido.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Assim, encaminho novo conselho: desenvolva formas de resistência, pense em estratégias capazes de te blindar minimamente. Vale tudo: dos engajamentos coletivos às terapias privadas. A solução é manter alguma sanidade.</div></strong></h3>
<p>Mas, extrapolando a esfera privada, quando penso no meu entorno – Recife, Nordeste, Brasil – o diagnóstico é semelhante. Aversão à classe política (com o Executivo e o Legislativo disputando o monopólio da nossa raiva), incredulidade no Judiciário, desconfiança perante a grande imprensa (persiste a dúvida: onde encontrar alguma informação correta, equilibrada?), estagnação econômica e desemprego, exacerbação de um conservadorismo que julgávamos já superado, letargia social ou incapacidade para reagir diante deste quadro&#8230; Enfim, sinais de uma sangria que se aprofunda em vez de estancar. E, pra findar a lista, às vésperas do Natal, somos açoitados com a recente divulgação de uma reforma previdenciária que promete empalidecer o nosso futuro, solicitando de cada um maior tempo e maiores percentuais de contribuição, com a promessa de uma aposentadoria parcial numa velhice remota, arquejada. Para nos poupar, não vou enumerar as mazelas internacionais de 2016 – basta mencionar o nome Donald Trump, que já é uma boa síntese dos horrores que nos cercam.</p>
<p>Diante deste quadro, é fácil entender o anseio da maioria que, desde julho, pelo menos, pede celeridade ao tempo para promover o rápido desfecho do ano. É justo, com tanta negatividade no ar, quem desejaria aguardar todo um semestre e correr novos riscos?! Serei honesto, na contramão dos pedidos de tantos colegas, eu cá converso com Cronos e digo a ele que dezembro se demore um pouco mais, que dilate as horas. Não é masoquismo, nem a sina da vítima que se apega ao algoz. É que, uma vez na casa dos 40, não se deseja que o tempo escoe com rapidez. Afinal de contas, já não tenho a disposição e a doce inconsequência dos anos de graduação, quando a ampulheta poderia escorrer e tudo me era indiferente&#8230;</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Ligo para os mais amados pra reiterar o amor e fortalecer os laços. Voltei a cozinhar com regularidade. Por fim, vou à feira de orgânicos num bairro próximo todo santo sábado. Encho as sacolas, toco nas pessoas e renovo meu credo na humanidade.</div></strong></h3>
<p>Mas te dou um aviso, sem nada cobrar: se julgas que o desfecho de dezembro e a chegada de um novo janeiro vai dissipar 2016 do seu coração e do seu futuro, estás enganado! A exemplo de 1968, embora numa chave inversa (no lugar da esperança, o desespero!), este é um ano fadado a não acabar. Ou seja, viveremos um ciclo de mais alguns decênios e a história estará retornando a 2016 continuamente, numa tentativa de melhor entendê-lo e de avaliar seu legado sombrio. Assim, encaminho novo conselho: desenvolva formas de resistência, pense em estratégias capazes de te blindar minimamente. Vale tudo: dos engajamentos coletivos às terapias privadas. A solução é manter alguma sanidade.</p>
<p>Cá já bolei algo, coisa pouca, mas de relativa eficácia pra mim: com regularidade, ligo para os mais amados pra reiterar o amor e fortalecer os laços; hoje, me permito cada vez mais fazer o que quero e na hora em que desejo; e voltei a cozinhar com regularidade, porque o fogão é uma segunda vocação e a boa comida um ótimo ansiolítico. Por fim, descobri que o  que mais me tranquiliza é ir à feira de orgânicos num bairro próximo todo santo sábado. Ritual constante do qual não me desapego. Chego às 8h30, converso com os feirantes, encho as sacolas, degusto uma fruta, compro um bolo, toco nas pessoas e renovo meu credo na humanidade. É o possível, por enquanto, e bem restrito à esfera do cotidiano. Mas é onde percebo os resultados mais evidentes. De qualquer modo, se tiverem nova receita ou conselho, me repassem sem hesitação. Estamos naquele momento em que precisamos todos, enquanto persistir alguma serenidade, partilhar sugestões, comunicar novidades, indicar brechas, cavoucar saídas&#8230; Do contrário, seremos tragados pela histeria coletiva de outros tantos.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Confesso, meu coração é olímpico</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Aug 2016 21:22:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Laécio Ricardo]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
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		<category><![CDATA[Esporte]]></category>

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		<description><![CDATA[Que me perdoem os colegas constantemente preocupados com o “vampiro” interino, com a cumplicidade do Congresso para jogar na lama os direitos trabalhistas e, claro, com a votação definitiva do <a class="read-more" href="https://apulga.com/confesso-meu-coracao-e-olimpico/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/08/Stardust-7-Olimpíadas55.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1991" alt="Stardust 7 - Olimpíadas55" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/08/Stardust-7-Olimpíadas55.jpg" width="612" height="667" /></a></p>
<p>Que me perdoem os colegas constantemente preocupados com o “vampiro” interino, com a cumplicidade do Congresso para jogar na lama os direitos trabalhistas e, claro, com a votação definitiva do processo contra Dilma Rousseff no Senado Federal (ainda que as supostas provas para a validação do seu afastamento sejam constantemente refutadas). É tempo de Olimpíadas e meu coração e mente são tragados para as arenas, ginásios, estádios e piscinas do Rio de Janeiro, num zapping frenético, similar às batidas cardíacas quando estou vendo (e torcendo) em uma competição!</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É tempo de Olimpíadas e meu coração e mente são tragados para as arenas, ginásios, estádios e piscinas do Rio de Janeiro, num zapping frenético, similar às batidas cardíacas quando estou vendo (e torcendo) em uma competição!</div></strong></h3>
<p>Confesso que não estou interessado nem nas controvérsias sobre a liberação ou não do direito de exercício de manifestação política no decorrer das partidas. Óbvio, por mim, antes de cada hino, poderia haver um coro bradando “fora Temer” de modo retumbante! Mas minha preocupação maior está canalizada para o que vai acontecer quando soar o apito inicial. Claro, também reconheço as polêmicas vinculadas à organização dos jogos – afinal de contas, sediar uma competição deste nível, que exige investimento altíssimo e alto grau de responsabilidade, é prioridade para um País com tantas assimetrias sociais e prioridades evidentes? Por outro lado, abraçada a missão de sediar as Olimpíadas, temos competência e eficiência para vencer tal desafio e promover uma edição digna?</p>
<p>Novamente, ponho de lado as divergências, disputas e debates. Deixo para os amigos com engajamento político mais vigoroso a tarefa de problematizar o legado dos jogos e se houve acertos de nossos gestores em acatar esta missão. Do lado de cá da tela (já que não fui à capital carioca para conferir nenhuma partida, modalidade), prefiro me entregar à euforia e desespero dos que esperam quatro anos para, mais uma vez, acompanhar a elite do esporte mundial em quadra.</p>
<p>Na Rio 2016, já chorei algumas vezes, mas também já ameacei desrespeitar meus limites cardíacos diante de resultados negativos, provas não concluídas, derrotas que jamais serão acatadas. Embora carente de talento esportivo – no 2º grau, aprendi a jogar basquete com certo desenvoltura, mas a baixa estatura foi sempre um entrave –, padeço do mal daqueles que amam competições e veneram os grandes do Olimpo. Ou aqueles que, mesmo não tão grandes ou que ainda estão pavimentando seu caminho à morada dos deuses, se entregam com amor e devoção às suas modalidades.</p>
<p>Foi assim que as ginastas brasileiras me cativaram, bem como nossas judocas, jogadoras de futebol e atletas do vôlei (praia e quadra). Se confirmei algo nesta Olimpíada, foi o quanto dependemos do talento e desempenho feminino para conseguir resultados expressivos, premiações, reconhecimento, visibilidade. Há exceções, mas a Rio 2016 é, mais do que nunca, a comprovação da competência das mulheres! Sendo assim, viva o empoderamento feminino também nas arenas esportivas!</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Se confirmei algo nesta Olimpíada, foi o quanto dependemos do talento e desempenho feminino para conseguir resultados expressivos, premiações, reconhecimento, visibilidade. Viva o empoderamento feminino também nas arenas esportivas!</div></strong></h3>
<p>Mas também me emocionei com os gigantes, no auge e na queda. Por exemplo, com a simpatia de Novak Djokovic, cujos rompantes de brasilidade (no pulso, na raquete e nas sacolas) conquistaram os torcedores. Isto para não falar quando desabou na quadra ao perder sua última partida e se despedir das Olimpíadas. O atleta julgado invencível cedeu – os deuses também têm seus dias de mortais! Também fui às lágrimas com os pódios de Michael Phelps, divindade maior deste Olimpo. Depois de desistir das competições e de mergulhar em forte crise (prisão e depressão), o ídolo norte-americano retoma seus treinos e decide voltar às piscinas. Veterano num evento esportivo que, cada vez mais, parece preferir o vigor da juventude à experiência dos mais velhos – sim, na era dos superatletas, a idade delimita o sucesso e torna as carreiras efêmeras –, Phelps poderia findar sua trajetória de modo tímido, eclipsado pelas novas gerações. Deus entre os mortais, o nadador reverteu este princípio e suposta condenação: aos 31 anos, venceu várias provas e ratificou seu nome como o esportista mais “medalhado” da história. O mais surpreendente, ao acompanhar suas premiações, foi testemunhar que seu coração de veterano parecia exibir a comoção de um iniciante. É possível ser o melhor e ainda emular uma primeira vez? Mesmo quando foi derrotado nas piscinas, encarando o 2º lugar numa de suas provas favoritas (os 100m borboleta), Phelps ainda protagonizou uma das cenas mais memoráveis dos jogos. Numa varredura pelas redes sociais, o jornalismo esportivo descobriu que o campeão da disputa, o jovem Joseph Scooling, de 21 anos, ostentava com orgulho uma foto ao lado do ídolo americano. Resultado, tivemos um pódio simbólico, representativo da troca entre gerações – espécie de passagem de bastão entre o herói e seu aprendiz.</p>
<h3></h3>
<p>Poderia ampliar esta lista com outras histórias igualmente comoventes. Como a entrega passional da atleta etíope, competidora que, mesmo sem um par de tênis, seguiu em sua prova, ciente de que Olimpíada pressupõe entrega deliberada, convicção, superação – motivação e empenho que, em alguns momentos, parece faltar à comitiva brasileira. Ou a nadadora húngara Katinka Hosszu, outra “veterana” (apenas 27 anos, mas três olimpíadas nas costas e, até então, nenhuma vitória), que, tal como Phelps, desistiu da aposentadoria, treinou fortemente e já levou três ouros na Rio 2016. É, decididamente, esta edição dos jogos têm as mulheres como figuras centrais!</p>
<p>Para completar a lista de veteranos que desafiou a idade e recuperou o prestígio esportivo nas arenas cariocas, não posso deixar de mencionar a conquista do brasileiro Diego Hypolito, medalha de prata na prova de solo. Do vexame em Pequim e Londres, quando era favorito e fracassou em suas apresentações (tal como Daiane dos Santos), aceitou participar da Rio 2016, mesmo sob pesadas críticas – estaria velho para a modalidade, teria desempenho pífio, constrangedor. Diego, é fato, não levou o ouro, conquista que poderia ter arrebatado quando estava no auge; mas seu empenho e dedicação lhe trouxeram uma justa compensação. Em plena sintonia com o espírito olímpico, sua prata é exemplo de superação!</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Para completar a lista de veteranos que desafiou a idade e recuperou o prestígio esportivo nas arenas cariocas, não posso deixar de mencionar a conquista de Diego Hypolito. Em plena sintonia com o espírito olímpico, sua prata é exemplo de superação. </div></strong></h3>
<p>Por falar em ginástica, alguém poderia mencionar como apogeu dos jogos a revolução no esporte encampada pela equipe feminina do EUA, liderada pela notável Simone Biles. Neste momento, sou menos entusiasta. A equipe é de uma eficiência ímpar e Biles, uma vencedora inconteste. Além disso, é ótimo ver uma atleta negra triunfar em território historicamente liderado por competidoras caucasianas. Mas não aprecio esta ginástica que parece se afastar da escola de Nadia Comaneci (marcada pela elegância, suavidade, leveza dos movimentos) e migrar para um espetáculo misto de acrobacia e vigor físico. Há quem se empolgue, mas não estou na linha de frente&#8230;</p>
<p>Mas se algo me entristece ao acompanhar este desfile de gigantes do esporte, é perceber que, embora anfitriões razoáveis, nós, brasileiros, estamos longe de assegurar um lugar no Olimpo. Sem investimento contínuo em modalidades-chave, como forma de promover novas gerações e de assegurar um legado, entramos em quadra quase sempre como coadjuvantes, destinados a figurar em cena em ver de protagonizar. Há honradas exceções, mas são casos pontuais que não encobrem o vexame e pouco interesse com que o esporte de ponta é tratado no País. Certamente, encontrarei amigos que me dirão que há outras prioridades em nossa pátria combalida; e estarão certos, parcialmente. A meu ver, o estímulo e a valorização da prática esportiva de alto nível não são incompatíveis com os investimentos em educação, saúde e moradia. Mas, novamente, é uma opinião pessoal. Sem interesse de polemizar.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Viajo porque preciso, volto apesar de não te amar</title>
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		<pubDate>Sun, 10 Jan 2016 13:12:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Laécio Ricardo]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Stardust]]></category>
		<category><![CDATA[Viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[Como os demais textos aqui redigidos, este desponta num impulso, sem deliberação prévia. Espécie de jorro verbal quase catártico, pelo menos pra mim. Em certa medida, confesso, ele foi suscitado <a class="read-more" href="https://apulga.com/viajo-porque-preciso-volto-apesar-de-nao-te-amar/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/01/Stardust-6-SP2.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1221" alt="Stardust 6 - SP2" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/01/Stardust-6-SP2.jpg" width="540" height="540" /></a></p>
<p>Como os demais textos aqui redigidos, este desponta num impulso, sem deliberação prévia. Espécie de jorro verbal quase catártico, pelo menos pra mim. Em certa medida, confesso, ele foi suscitado por uma viagem recente, cujos efeitos ainda reverberam cá nos meus neurônios, mas não me ocorrera, até o presente em que escrevo, desejo de rascunhar quaisquer apontamentos sobre isso. O caso em pauta, vamos a ele, é minha relação conflituosa com a capital paulista; uma gangorra que, por hora, hesita em ceder. É possível amar e recusar uma cidade? Que triste indagação&#8230;</p>
<p>Nos tempos de jornalista, costumava celebrar toda pauta que me direcionava a São Paulo; sentia um prazer imenso em percorrer suas ruas, em frequentar suas festas e roteiros culturais, em rever velhos amigos que migraram para o Sudeste por um ou outro motivo. Assim, pintou viagem para SP não redação do Diário do Nordeste (Fortaleza-CE), lá estava eu entre os candidatos mais afoitos: podia ser pré-estreia de filme, divulgação de CD ou lançamento de gibi, eu topava tudo, com igual ânimo e entusiasmo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">O caso em pauta, vamos a ele, é minha relação conflituosa com a capital paulista; uma gangorra que, por hora, hesita em ceder. É possível amar e recusar uma cidade? Que triste indagação&#8230;</div></strong></h3>
<p>Veio 2008 e com ele mudanças repentinas que intensificaram este afeto: deixo a redação e o jornalismo em definitivo, inicio no doutorado e estabeleço residência em Campinas-SP, cidade de personalidade curiosa. Embora maior que algumas capitais brasileiras, permanece provinciana em certos aspectos; uma cidade rica, em virtude do pólo industrial, mas de ares ainda interioranos. Neste período, a proximidade entre Campinas e São Paulo me levou a converter esta última em segunda moradia: praticamente todos os fins de semana, aportava no Terminal do Tietê para longa estadia na Paulicéia. No percurso, já folheava o encarte cultural dos jornais para definir meu roteiro. Naqueles tempos, dizia e insisto ainda hoje: dependendo de sua índole e dispo$ição, São Paulo é a melhor cidade deste País para um estudante de doutorado.</p>
<p>Mas, como eu disse, esta avaliação depende de muitos fatores: o dinheiro, aliás, está longe de ser o único relevante. O fato é: tal como São Paulo me arrebatara, gradualmente a mesma cidade me comunicava uma resistência, impaciência e aversão crescentes. Suas vias me pareciam sufocantes; seus moradores, entediados; sua dinâmica, incompatível com o que ambiciono para a minha vida. E, confissão das mais honestas, não importa a atração musical ou a publicidade em torno de uma exposição (menciono, por exemplo, aquela em homenagem a David Bowie, ídolo de longa data), nada conseguiu demover tal indisposição, cujo ápice se deu em fins de 2012 e que prossegue forte nesta quase virada de ano.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A polarização PT-PSDB encontra sua justa analogia em outra velha dualidade: São Paulo x Nordeste. É triste, mas a “mais nordestina” das cidades brasileiras parece não atentar para as contradições implícitas neste antagonismo.</div></strong></h3>
<p>Tenho dificuldades em verbalizar o que provocou tamanha rejeição. Não é vergonha, mas incapacidade de racionalizar plenamente e de atestar convicção. Teria sido a “vocação coxinha” de muitos de seus moradores? Fator que a coloca, juntamente com Curitiba-PR, dentre as cidades de posição política mais tacanha neste Brasil por hora atribulado&#8230; Sabemos que a polarização PT-PSDB, pelo menos nas redes sociais, encontra sua justa analogia em outra velha dualidade: São Paulo x Nordeste (do ponto de vista “coxinha”, Brasil sucesso x Brasil regresso). É triste, mas a “mais nordestina” das cidades brasileiras parece não atentar para as contradições implícitas neste antagonismo&#8230;</p>
<p>Seria o monocromatismo de suas ruas e edificações, uma paisagem urbana de contornos medonhos? Talvez, mas, pra ser franco, são poucas as capitais brasileiras, cujo traçado urbano nos provoca encanto. As vias congestionadas, quem sabe? O andar robótico dos milhões de usuários que transitam pelas estações de metrô, atentos a seus smartphones e ao horário do serviço? A atmosfera sempre poluída que me provoca sucessivas crises alérgicas? As filas intermináveis para qualquer restaurante ou serviço? Sua elite tagarela que protesta contra ciclovias e reclama da crise, ainda que mantenha reservas constantes em restaurantes top como <i>D.O.M.</i> ou <i>Fasano</i>?&#8230; Em seu segundo álbum, o paulista Criolo, filho de Nordestinos, compôs uma canção cujo título se tornou referência comum para ilustrar um aspecto negativo da cidade &#8211; <i>Não existe amor em SP</i>. Este bordão, hoje, se tornou clichê. Mas, curiosamente, ainda possui força e atesta um pouco da inviabilidade que sinto ao redigir este texto.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Mas, a partir desta última viagem, ficou evidente pra mim que cidade alguma pode te levar a desistir do convívio íntimo com as pessoas que você ama.</div></strong></h3>
<p>Enfim, depois de quase três anos de afastamento consciente, voltei, em fins de 2015, a pisar no aeroporto de Guarulhos. Evitei o quanto pude. Frio na barriga, inquietação, ansiedade se mesclavam a certo desejo de ver minhas aflições e receios negados, pelo menos parcialmente. Em uma semana de estadia, tive a companhia e a solidariedade de amigos queridos; gente disposta a contribuir para renovar minha fé nesta cidade. Alguns passeios, bons restaurantes, longas tardes de conversa produtiva, vínculos afetivos restabelecidos&#8230; De modo algum, posso me queixar da acolhida recebida. Mas São Paulo não desabrochou; no limite, manteve dormente minha desconfiança&#8230;</p>
<p>De qualquer modo, me prometi que haveria outros retornos e em períodos mais breves.  Nestas idas e vindas futuras, é possível que São Paulo, em seu cotidiano implacável, não consiga reverter o jogo e novamente me cativar; por outro lado, reconheço que talvez eu me encontre numa posição refratária, típica de quem se blindou contra o que lhe aflige. Mas, a partir desta última viagem, ficou evidente pra mim que cidade alguma pode te levar a desistir do convívio íntimo com as pessoas que você ama. Assim, São Paulo, não obstante minha rejeição, poderá ser sempre um destino gastronômico surpreendente, o lugar para reencontrar e abraçar velhos amigos, a cidade onde posso beijar meu afilhado e vê-lo crescer&#8230; Embora, é claro, preferisse ele por aqui, correndo pelas ruas do Recife, ao alcance de algumas quadras!</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Dos ventos hostis aos lampejos de esperança</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Jul 2015 16:43:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Laécio Ricardo]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Stardust]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Os que me conhecem, sabem: não sou do tipo pessimista, cabisbaixo, tampouco daqueles que praguejam contra tudo e todos. Não gosto de remoer os fardos diários e, normalmente, reelaboro os <a class="read-more" href="https://apulga.com/dos-ventos-hostis-aos-lampejos-de-esperanca/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/07/casabranca2.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1006" alt="casabranca2" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/07/casabranca2.jpg" width="650" height="650" /></a></p>
<p>Os que me conhecem, sabem: não sou do tipo pessimista, cabisbaixo, tampouco daqueles que praguejam contra tudo e todos. Não gosto de remoer os fardos diários e, normalmente, reelaboro os problemas do dia-a-dia com uma noite de sono. Na pior das hipóteses, consigo digerir as dores mundanas na mesa de bar (não, não sou alcóolatra, acredite-me!). Mas confesso que o meu estilo &#8220;easygoing&#8221; (&#8220;tudo passa, tudo passará&#8221;) tem esbarrado no turbilhão dos eventos e dissabores que 2015 nos tem apresentado. A ponto de eu quase me encontrar parafraseando a célebre frase proferida pela atriz Regina Duarte durante a campanha presidencial de 2002: &#8220;sim, eu tenho medo&#8221;. Dói confessar, mas é necessário.</p>
<p>É fato que ventos estranhos e agourentos sopram do exterior (crescimento dos partidos ultraconservadores na Europa, expansão do Estado Islâmico, notícias contínuas de práticas xenofóbicas contra imigrantes, acirramento da polarização EUA e Rússia, iminência de nova crise econômica&#8230;). Mas as rajadas mais cortantes e temerárias, devo admitir, procedem de Brasília e se irradiam para outras praças brasileiras. É tanta coisa estranha e &#8220;fora da ordem&#8221; que fica difícil enumerar, hierarquizar e ensaiar uma análise lúcida, urgente. Como não sou especialista em conjuntura política, trato apenas de reiterar o meu mal-estar, a minha aflição. Quem sabe na tentativa de encontrar vozes e anseios igualmente abalados, e assim restabelecer uma cadeia solidária e recobrar alguma esperança&#8230;</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Pergunto: que tempos são estes em que decisões tortas e confrarias abjetas florescem à luz do dia, sem qualquer receio? Em que tanta informação vital é encoberta ou distorcida sem o menor pudor?</div></strong></h3>
<p>Aliás, é precisamente do campo político que se origina parte significativa deste desconforto. Mais especificadamente do Congresso Nacional, cuja composição atual ostenta um perfil conservador como há décadas não se via desde o restabelecimento da nossa democracia. Pergunto: que tempos são estes em que decisões tortas e confrarias abjetas florescem à luz do dia, sem qualquer receio? Em que tanta informação vital é encoberta ou distorcida sem o menor pudor? Onde tantos legisladores erguem sua voz para pregar valores e palavras de ordem que, há 10 anos, seriam pouco admissíveis ou causariam constrangimentos? É fato que, neste País como em muitos outros, política e interesses privados nunca foram instâncias dissociadas. Mas o que antes permanecia nos bastidores, para não atrair a censura dos mais esclarecidos, hoje triunfa sob os holofotes da grande mídia e com a cumplicidade de parcelas da dita &#8220;boa sociedade&#8221;.</p>
<p>Para não perder ovelhas do seu vasto rebanho de eleitores/financiadores, políticos vinculados a grupos econômicos e a facções religiosas ortodoxas, hoje e mais do que nunca, se recusam a legislar de forma idônea, sem se submeter a interesses escusos e de modo a promover os avanços necessários à solidificação da nossa frágil democracia. Ao contrário, são os princípios democráticos, as conquistas trabalhistas e os direitos das minorias que sofrem ameças diárias, abalos sucessivos, riscos de apagamento. E nada disso parece repercutir com ênfase nas rodas sociais &#8211; percebo que um amigo ou outro, de forma isolada, manifesta indignação. Mas parcelas numerosas da sociedade, quando vão às ruas ou organizam fóruns virtuais, parecem ignorar este quadro, preferindo direcionar sua munição unicamente contra o Executivo.</p>
<p>Reconheço que alguns dos nossos problemas atuais derivam de certa inoperância da presidente, figuram pouco hábil para o jogo político, e das alianças instáveis costuradas pelo PT para alcançar a tal &#8220;governabilidade&#8221; (alianças que, por sua vez, implicaram em concessões arriscadas e no gradual abandono de certas bandeiras históricas do partido). E sei que os recentes e sucessivos casos de corrupção na vida pública tem inquietado nossa boa sociedade. O resultado desta overdose de informações negativas, habilmente inoculadas pela grande mídia, são os sucessivos panelaços e atos de hostilidades contra Dilma Rousseff. Mas o que me indigna nestes protestos, além do discurso ressentido por parte daqueles que desejavam ter Aécio Neves na presidência e dos slogans que conclamam a volta do &#8220;regime militar&#8221; (oi??!!), é a cegueira do eleitor ante as barbaridades que transcorrem no Congresso Nacional.</p>
<p>Ao contrário, decisões arbitrárias conduzidas por Eduardo Cunha e massivamente abraçada pelos parlamentares com frequência encontram entusiastas nestes protestos ou na &#8220;sessão de comentários&#8221; dos jornais online. Uma espécie de ódio canalizado ao PT parece nos impedir de perceber as irregularidades do Legislativo (e também do Judiciário, se quisermos completar a trinca). E o ódio, insisto, é um sentimento destrutivo &#8211; sabemos onde a intolerância e os radicalismos podem nos conduzir, a história já nos demonstrou inúmeras vezes! Tanta cegueira e passionalidade me levam a conjugar um mantra diário: &#8220;não leia o comentário dos internautas&#8221;, &#8220;não leia o comentário dos internautas&#8221;. E também não hesito em bloquear as &#8220;almas sebosas&#8221; do ciberespaço. Do contrário, tenho medo de infartar ou de jamais recobrar minha eventual esperança.</p>
<p>Ressalto que não escrevo para elogiar o PT, mas para atestar minha indignação. Que tempos são estes em que o Estado Laico é permanentemente ameaçado por congressistas radicais, em que a redução da maioridade penal é debatida como se fosse &#8220;pauta de programa de auditório&#8221; (e com o depoimento/intervenção de figuras midiáticas questionáveis), em que a precarização das relações de trabalho é vista como saída única para as crises econômicas, em que uma reforma política séria se converte em pilhéria infeliz? Que triste constatação: hoje somos obrigados a admitir que Marcos Feliciano, deputado evangélico do PSC e ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, antes nosso grande desafeto, era apenas o prenúncio de problema bem maiores.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Em outros termos, enquanto parlamentares do nosso Congresso ainda insistem em discutir pautas arcaicas como a &#8220;cura gay&#8221;, a decisão da Corte americana alavanca o debate das minorias para a esfera do nivelamento dos direitos civis. Felizmente!</div></strong></h3>
<p>Enfim, após as eleições de 2014, tudo se agravou, tudo descarrilhou. A bancada ruralista não cessa de defender o agronegócio às custas de qualquer sacrifício ecológico; financiador de muitas campanhas eleitorais, o setor da construção civil dita as regras do desenvolvimento urbano sem encontrar resistências; os parlamentares evangélicos, por sua vez, parecem muito mais atentos à rigidez do Velho Testamento do que às diretrizes da Constituição ou, pelo menos, à compaixão dos Evangelhos. Um conservadorismo persistente se insinua em suas decisões e pronunciamentos, e parece encontrar eco na &#8220;boa sociedade&#8221;. Tempos sombrios, anos de provação, eu diria. O que virá pela frente? Por enquanto, só posso temer. A serpente, outrora reclusa no ovo, sinaliza o claro desejo de romper a casca&#8230;</p>
<p>Negatividade à parte, quero finalizar o texto com algo que me comoveu positivamente nos últimos dias. Refiro-me à recente decisão da corte suprema dos EUA de reconhecer a legitimidade do casamento igualitário em todo o território americano. Os EUA estão longe de ser o primeiro país a acolher tal decisão; na verdade, tendo em vista os avanços significativos conquistados pela comunidade LGBTT em algumas nações européias e latinas, cabe ressaltar que a pátria de Obama chega ao desfecho deste debate com um atraso lamentável. Mas, tendo em vista a centralidade dos EUA no tabuleiro global, é inevitável a repercussão desta medida em &#8220;outras praças&#8221;, bem como a intensificação de sua cobertura pela grande mídia. Em outros termos, enquanto parlamentares do nosso Congresso ainda insistem em discutir pautas arcaicas como a &#8220;cura gay&#8221; (pauta claramente reveladora de sintomas homofóbicos), a decisão da Corte americana alavanca o debate das minorias para a esfera do nivelamento dos direitos civis. Felizmente!</p>
<p>Todavia, para além das trocentas matérias veiculadas pelo noticiário internacional, o resultado mais comovente deste episódio, pelo menos para mim, se fez evidente nas redes sociais. Em questão de horas, dezenas de hashtags proliferaram (na esteira do trinfante #LoveWins) e milhões de internautas tingiram seus avatares com as cores do arco-íris. Uma celebração festiva e voluntária, e que, de algum modo, também alterou a coloração do meu humor. Pelo menos por alguns dias, já que, por enquanto, ao que tudo indica, viveremos de brechas, de respiros, de eventuais lampejos de esperança&#8230;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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