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	<title>A Pulga &#187; Artigo</title>
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	<description>Um coletivo diletante de ideias</description>
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		<title>Vão-se os anéis e os jornais, infelizmente&#8230;</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Feb 2021 19:51:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Laécio Ricardo]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Stardust]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Durante a minha formação escolar, uma convicção rapidamente se enraizou como meta futura: eu seria jornalista e minha escrita, aliada à uma curiosidade incansável, haveria de me levar para outros <a class="read-more" href="https://apulga.com/vao-se-os-aneis-e-os-jornais-infelizmente/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2021/02/Memorias-jornalismo1.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1980" alt="Memorias jornalismo1" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2021/02/Memorias-jornalismo1.jpg" width="662" height="499" /></a></p>
<p>Durante a minha formação escolar, uma convicção rapidamente se enraizou como meta futura: eu seria jornalista e minha escrita, aliada à uma curiosidade incansável, haveria de me levar para outros horizontes, além de um conjunto residencial situado na periferia de Fortaleza. Era algo cristalino, como uma dose de Ypióca Prata. Tal decisão nunca comportou hesitações e a aprovação no curso de Comunicação Social da UFC, num longínquo 1995, me parecia apenas a confirmação de um destino ambicionado desde os 12 anos.</p>
<p>Nos semestres finais da graduação, tive meu batismo profissional na sucursal da revista Veja, em período no qual a revista salpicava escritórios pelas grandes capitais do País. Em seguida, ingressei na Gazeta Mercantil, então o baluarte do jornalismo econômico brasileiro, numa época em que inexistia o Valor Econômico. Guardo lembranças positivas e negativas destas experiências; e, claro, coleciono algumas amizades. Mas se retomo hoje essas memórias, é para celebrar outro periódico e redação, aquela que foi a minha verdadeira casa, não obstante seus defeitos estruturais – o jornal Diário do Nordeste (DN), cuja edição impressa deixará de circular em fins de fevereiro, após quase 40 anos de atividades. A versão online sobreviverá; e pelo que me consta, turbinada. Alguns dirão que é uma migração inevitável; outros, que muitos empregos serão mantidos. Não contesto. Mas um portal não compensa minha insatisfação sempre que uma rotativa cessa de rodar.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Mas se retomo hoje essas memórias, é para celebrar o jornal Diário do Nordeste (DN), cuja edição impressa deixará de circular em fins de fevereiro, após quase 40 anos de atividades. A versão online sobreviverá; e pelo que me consta, turbinada. Mas um portal não compensa minha insatisfação sempre que uma rotativa cessa de rodar.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Neste misto de saudosismo e pesar pelo seu fechamento (uma sina compartilhada com outros tantos jornais brasileiros), faço um hiato para dois esclarecimentos. Nos anos em que vertia sangue para me converter num jornalista econômico mediano, frustrado porque estagiava numa área que não me apetecia, foi o DN que abriu suas portas para meus textos no campo do jornalismo cultural, publicados com pseudônimo porque a Gazeta Mercantil não autorizava de outra forma. Alguém indagará: você recebia algo pelas matérias? Não, escrevia de boa vontade e de peito estufado. E o que ganhei? Aquelas matérias não apenas me deram visibilidade numa seara que eu gostaria de ingressar; elas também asseguraram minha sobrevida emocional, uma vez que eu podia contornar a minha insatisfação diária a cada publicação anônima. E tal experiência rendeu frutos: após concluir a graduação, em meio a euforia pelo canudo e ansiedade para inaugurar a carteira de trabalho como efetivo, fui demitido da Gazeta. Um episódio muito dolorido, diga-se de passagem. Tal notícia chegou ao DN e, em menos de uma semana, o editor de cultura me recrutou para integrar sua equipe em definitivo. Aquelas matérias anônimas germinaram e a redenção possível veio.</p>
<p>Integrei a equipe do DN por quase 10 anos, com uma única pausa durante o início do meu mestrado. Ali colecionei amigos e quase nenhum desafeto (pelos menos, eu acho!). Fiz matérias que me honraram imensamente e outras que, a contragosto, tive que encarar. Jornalismo, eu lembro, não é blog, não é escolha pessoal – você se depara com paixões e rancores, levanta a cabeça e aprende a driblar os dissabores. O nome disso é malícia (no bom sentido), traquejo, experiência, savoir faire. No DN, fui uma foca feliz, um aprendiz permanente e me converti num profissional respeitado. Lembro com carinho de dezenas de reportagens que me emocionaram; e tinha um apreço imenso pelas edições dominicais, cujas matérias especiais consumiam longos dias de apuração e resultavam em pequenos dossiês sobre temas quase sempre fascinantes.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Foi o DN que abriu suas portas para meus textos no campo do jornalismo cultural, publicados com pseudônimo porque a Gazeta Mercantil não autorizava de outra forma. Escrevia de boa vontade e de peito estufado. Aquelas matérias não apenas me deram visibilidade numa seara que eu gostaria de ingressar; elas também asseguraram minha sobrevida emocional.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Uma redação de jornal é uma família. Extensa, é verdade. E como em toda família, há as afinidades e os mais distantes. Ali, eu contabilizei tantos afetos, que é impossível mensurar: colegas de geração se mesclavam a ex-alunos, que agora partilhavam comigo os “ossos do ofício”; e veteranos de outras décadas observavam curiosos a nossa presença crescente. Hoje, aos 44 anos, caso ainda estivesse na redação, me pergunto como eu acompanharia esta inevitável tarefa de renovação – eu seria receptivo ou teria desconfiança com os novatos?<br />
Não pensem, pela leitura deste texto, que idealizo a profissão e mascaro suas dificuldades. De modo algum: os salários são defasados; as cobranças, permanentes; e as recompensas, nem sempre imediatas. Eventualmente uma pauta solicitada por encomenda da chefia ou para agradar um amigo dos proprietários, desconectada de importância para sua editoria, pode representar um desafio humilhante. E claro que os enfrentei. Mas se há desgosto nestas ocasiões, é preciso ressaltar também a euforia quando sua matéria emociona os leitores, transforma positivamente a vida das fontes consultadas ou promove empatias necessárias. Assim, nesta gangorra entre o impublicável e a reportagem notável, é preciso dosar para mensurar sua experiência profissional: no meu caso, o saldo é positivo, de longe.</p>
<p>Deixei a redação no fim de 2007 para cursar o doutorado e não mais retornei. Volta e meia confiro alguma edição, e sempre que vou a Fortaleza, tento visitar o jornal ou encontrar algum colega de ofício, embora minha geração hoje seja minoria no expediente. Mas a notícia recente do fechamento iminente do DN me alvejou em cheio. E retirou do meu estoque de lembranças uma dezena de memórias tocantes, felizes, preciosas&#8230; Não sei se outros jornalistas que passaram pela casa foram sensibilizados da mesma forma, afinal o vírus da comoção tem diferentes intensidades. Quanto mim, permaneço triste ao saber que suas rotativas ficarão emperradas.</p>
<h3></h3>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Crônica da pandemia</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Sep 2020 14:35:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dayse Abreu]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Apreensão, álcool gel, revolução no modo de trabalhar (quando não se perdeu o emprego), encontros virtuais, prefeito e governador que escutavam as orientações de médicos e cientistas, presidente que as <a class="read-more" href="https://apulga.com/cronica-da-pandemia/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2020/09/Captura-de-Tela-2020-09-21-às-11.47.51.png"><img class="alignnone size-full wp-image-1955" alt="Captura de Tela 2020-09-21 às 11.47.51" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2020/09/Captura-de-Tela-2020-09-21-às-11.47.51.png" width="631" height="461" /></a></p>
<p>Apreensão, álcool gel, revolução no modo de trabalhar (quando não se perdeu o emprego), encontros virtuais, prefeito e governador que escutavam as orientações de médicos e cientistas, presidente que as ignorava, lockdown, lockdown pero no mucho, notícias de quem pegou o vírus, de quem se curou, de quem não resistiu&#8230; Quando vai passar? Já não era para ter passado?! Começou em março de 2020. Algumas cidades no Brasil foram estabelecendo práticas de isolamento social, por conta da pandemia do coronavírus. Um dos memes que mais circularam foi o do “eu não aguento mais não aguentar mais”. Tentando (não) lidar com tudo isso, fui buscar um refúgio nos livros.</p>
<p>Logo no começo da quarentena, vi algumas pessoas lendo A Peste, do Camus. Ainda pensei em fazer o mesmo por curiosidade, afinal, não conheço o livro. Só que essa vontade não durou nem trinta segundos. Eu não queria me refugiar numa história que me traria de volta à realidade.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Só tinha a sensação de completude, de início e fim, quando lia alguma crônica do Fernando Sabino, num livro há tempos esquecido em cima de um móvel. Lia uma, lia outra, mas não considerava, solenemente, que “este é o livro que estou lendo”. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>No entanto, paradoxalmente, era exatamente a realidade que eu parecia procurar, consumindo notícias em quase todo o meu tempo livre, como num transe. Quantos novos casos, em quais bairros, número de óbitos, taxa de ocupação das UTIs &#8211; podiam me perguntar qualquer um desses dados, eu saberia informar. Ser detentora de informações assim me fazia sentir, de alguma maneira, um pouco mais segura, mais preparada. Só que o preço dessa segurança (que não assegurava muita coisa, a bem da verdade) veio em forma de estafa mental.</p>
<p>Não conseguia me concentrar. Comecei e larguei várias leituras. No canto inferior direito da tela do leitor digital, a indicação de onde tinha terminado minha empolgação com cada livro: 15, 10, 3%&#8230;</p>
<p>Só tinha a sensação de completude, de início e fim, quando lia alguma crônica do Fernando Sabino, num livro há tempos esquecido em cima de um móvel. Lia uma, lia outra, mas não considerava, solenemente, que “este é o livro que estou lendo”. Grande bobagem. Eu não precisava estar lendo um livro inteiro. Eu precisava era de algo fluido, leve, engraçado, talvez até sério, mas, ainda assim, lírico. E curto, já que a estafa mental não tinha passado completamente, mesmo depois que passei a acompanhar menos as notícias.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Então era isso, crônicas do Fernando Sabino. Ou a questão seriam as crônicas? Ou o Fernando Sabino? Talvez as duas coisas. Comprei, assim, mais três livros de crônicas, dois do Antônio Prata e um do Rubem Braga&#8230; </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Aquelas crônicas me faziam muito bem, só que elas estavam acabando. Eu precisava me reabastecer, e não podia ser com livro digital. Tinha que ser no papel, para poder abrir aleatoriamente. Assim, uma hora pode aparecer uma crônica ainda inédita. Outra, um texto que já li (mas sem problema, ele ótimo, vou ler de novo). Às vezes, até vem algum de que não gostei tanto assim, mas é só virar a página que a história é outra. Já que não podemos fazer isso com a pandemia, ao menos o façamos no nosso refúgio.</p>
<p>Então era isso, crônicas do Fernando Sabino. Ou a questão seriam as crônicas? Ou o Fernando Sabino? Talvez as duas coisas. Comprei, assim, mais três livros de crônicas, dois do Antônio Prata e um do Rubem Braga. E também fui atrás de dois livros de cartas, um de correspondências trocadas entre o Fernando Sabino e a Clarice Lispector, e outro de cartas que ele enviou para seus três grandes amigos ao longo de décadas.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Como me surpreendi com as confissões da Clarice Lispector ao amigo Fernando Sabino: &#8220;Só quem diz a verdade é quem não gosta da gente ou é indiferente. Tudo o que ele diz é verdade. Não se pode fazer arte só porque se tem um temperamento infeliz e doidinho&#8221;.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Essas compras me fizeram passar um tempo remoendo uma pequena culpa pelo surto consumista literário. Nos últimos meses, não fui diferente de tanta gente que começou a refletir mais sobre seus hábitos de consumo, sobre o que é preciso ter mesmo, em detrimento do que seria supérfluo. Sim, tenho muitos livros não lidos ainda guardados na estante. Mas eles não podiam me dar o abraço que as crônicas (ou o Fernando Sabino?) me proporcionavam. Leituras que abraçam não são supérfluas para mim em tempos pandêmicos. Culpa superada, então.</p>
<p>Ah, como eu ri da descrição do Fernando Sabino sobre o dia em que ele, em pleno aeroporto, foi convencido por um repórter de rádio a dar uma entrevista dentro de uma cabine telefônica para diminuir o barulho ao redor. Acabaram entalados. O amigo do Sabino, do lado de fora, tentava ajudar, “em gestos frenéticos de guardador de carro ajudando motorista a entrar na vaga” (1).</p>
<p>Como eu voltei no tempo quando o Antônio Prata relembrou as viagens de família na infância, quando o pneu do carro furava (2). Como eu achei lindo o mesmo Antônio Prata relatando uma conversa que teve com um motorista de táxi, viúvo, que contou da falta que sentia de não ter fotos da esposa fazendo as coisas do dia a dia, que era como ele se lembrava dela (3).</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Sabino desabafa: “Não é possível eu continuar assim, a vida me empurrando, me empurrando sem parar (&#8230;) Tudo vai acontecendo, vem vindo, vem vindo, já passou! É tão depressa, tão fugaz que nem percebo, não apreendo a vida.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Como eu me surpreendi com as confissões da Clarice Lispector ao amigo Fernando Sabino em 1946. Clarice só tinha publicado dois livros até então e estava desanimada com a recepção negativa do segundo. Ela chega, num momento, a concordar com um dos críticos: “Só quem diz a verdade é quem não gosta da gente ou é indiferente. Tudo o que ele diz é verdade. Não se pode fazer arte só porque se tem um temperamento infeliz e doidinho” (4). Ainda bem que ela tinha um amigo com quem trocava cartas e que lhe deu apoio e incentivo. Clarice veio a escrever tantos livros depois disso ainda.</p>
<p>Como eu me diverti, lendo correspondências como a que Fernando Sabino endereçou a “meus jovens mentecaptos Hélio e Otto”. Por outro lado, como eu refleti sobre a amizade, quando, em outra carta, Sabino diz a um amigo que “o principal, que nos sustenta de pé quando a noite avança e o sono abaixa, é que nós nos sabemos juntos” (5).</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Tudo vai acontecendo, vem vindo, vem vindo, já passou! É tão depressa, tão fugaz que nem percebo, não apreendo a vida, ela escorre pelos meus dedos quando vou segurá-la”. O que Sabino não escreveria sobre essa peste de coronavírus?</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Do livro com as cartas de Fernando Sabino para seus companheiros, uma das que mais me marcou foi escrita no Rio de Janeiro, em “12 para 13 de Agosto, 44”. Nela, Sabino desabafa: “não é possível eu continuar assim, a vida me empurrando, me empurrando sem parar (&#8230;) Tudo vai acontecendo, vem vindo, vem vindo, já passou! É tão depressa, tão fugaz que nem percebo, não apreendo a vida, ela escorre pelos meus dedos quando vou segurá-la” (5). Setenta e seis anos atrás, Fernando Sabino escreveu isso para seu amigo Hélio (“meu velho”). O que ele não escreveria sobre essa peste de coronavírus?</p>
<p>Me falta ainda explorar o livro do Rubem Braga. Por enquanto, só dei uma rápida folheada, suficiente apenas para descobrir que as crônicas que lá estão foram selecionadas pelo&#8230; Fernando Sabino. Juro que comprei sem saber.</p>
<p>(1) Da crônica &#8220;Por falar em aperto&#8221;, do livro &#8220;As melhores histórias de Fernando Sabino&#8221;<br />
(2) Da crônica &#8220;Ótima viagem&#8221;, do livro &#8220;Meio intelectual, meio de esquerda&#8221;<br />
(3) Da crônica &#8220;Recordação&#8221;, do livro &#8220;Trinta e Poucos&#8221;<br />
(4) Do livro &#8220;Cartas Perto do Coração&#8221;<br />
(5) Do livro &#8220;Cartas na Mesa&#8221;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Bela, recatada e do lar e a síntese do atraso</title>
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		<pubDate>Wed, 29 Mar 2017 20:51:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Monalisa Soares]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Feminismo]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; Muito se falou nos últimos anos sobre uma primavera das mulheres. Em 2015, quando as mobilizações começaram a emergir, nós feministas estávamos nas ruas contra projetos de lei conservadores <a class="read-more" href="https://apulga.com/bela-recatada-e-do-lar-e-a-sintese-do-atraso/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1637" style="width: 760px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2017/03/Bela-recatada-e-do-lar33.jpg"><img class="size-full wp-image-1637" alt="Imagem retirada do incrível Tumblr http://belarecatadaedolar.tumblr.com/" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2017/03/Bela-recatada-e-do-lar33.jpg" width="750" height="563" /></a><p class="wp-caption-text">Imagem retirada do incrível Tumblr http://belarecatadaedolar.tumblr.com/</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Muito se falou nos últimos anos sobre uma primavera das mulheres. Em 2015, quando as mobilizações começaram a emergir, nós feministas estávamos nas ruas contra projetos de lei conservadores capitaneados pelo então presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Naquela altura, ainda que sob forte ataque, tínhamos uma mulher na Presidência da República. Não que isso significasse muito em termos de políticas públicas, mas tinha uma representatividade simbólica que nenhuma de nós poderia ignorar. De lá para cá, tudo virou do avesso.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"><strong>Temer conseguiu o feito de repetir algo visto pela última vez na ditadura militar: é o primeiro desde Geisel (1974-1979) que não possui mulheres no primeiro escalão do governo. Será que não havia mulheres competentes para tais funções?</strong></strong><strong></div></strong></h3>
<p>Há 10 meses, desde sua posse interina, Michel Temer tem demarcado a posição de seu governo face às questões de gênero, em especial às desigualdades entre homens e mulheres. Já na formatação da composição ministerial, lá estava a foto de homens (brancos, heterossexuais e velhos). Temer conseguiu o feito de repetir algo visto pela última vez na ditadura militar: é o primeiro desde Geisel (1974-1979) que não possui mulheres no primeiro escalão do governo. Naquele momento, quando interpelado por tal questão, o governo, através do ministro Padilha, disse que o critério do convite não era gênero e sim competência. A emenda saiu pior que o soneto, queria sugerir o ministro que não havia mulheres competentes para tais funções?</p>
<p>Esse episódio deixou explícito, inacreditavelmente, que questões as quais pensamos haver superado, não contentes em voltar à cena, tomaram de conta dela. O machismo explícito na prática política foi o que mais me chamou atenção. Como eu disse antes, não que vivêssemos no país mais progressista em termos de direitos das mulheres, mas um retrocesso tão grande foi para mim algo inimaginável. Imagino que também o foi para muitas feministas. A “nova” realidade era tão anacrônica que fiquei a pensar: onde vamos parar?</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">O machismo explícito na prática política foi o que mais me chamou atenção. Um retrocesso tão grande foi para mim algo inimaginávelA “nova” realidade era tão anacrônica que fiquei a pensar: onde vamos parar?<strong> </strong></strong><strong></div></strong></h3>
<p>A interinidade passou, mas o governo Temer continuou a reproduzir a mesma perspectiva conservadora e machista em relação às mulheres. Além de assumir uma agenda econômica restritiva, a qual impacta fortemente na vida das mulheres, o governo nomeou para a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) uma ex-deputada que havia sido membro da Frente Parlamentar Evangélica. Fátima Pelaes se colocava abertamente contra o aborto, inclusive, em casos de estupro. Fatidicamente na semana em que a secretária fazia suas declarações sobre o tema, ocorreu o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro, caso que teve repercussão nacional e gerou profunda indignação nos movimentos feministas e sociedade em geral. Outro aspecto relevante a ser destacado é que, não obstante o perfil conservador de Fátima Pelaes, a SPM passou a ser um órgão vinculado ao Ministério da Justiça, tornando claro que as questões relativas a vidas das mulheres, como a violência a que estamos submetidas, seriam tratadas como questão de polícia exclusivamente.</p>
<p>A perspectiva machista do governo Temer se desdobrou por fim no retorno de um tema que há muito os movimentos que lutam pelos direitos das mulheres têm buscado superar: o primeiro-damismo. O retorno do primeiro-damismo revela as duas faces da moeda conservadora do atual governo: por um lado retira as mulheres do lugar de protagonismo na formulação das políticas públicas, Marcela Temer é uma embaixadora (uma modelo), e por outro desmobiliza os esforços construídos ao longo dos últimos anos em torno dos direitos sociais. Desse modo, é fundamental destacar que a agenda econômica, que retira os direitos sociais, também revela traços de uma agenda conservadora moralmente, que busca voltar a atribuir para as mulheres o domínio do mundo privado.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"><strong>O retorno do primeiro-damismo revela as duas faces: </strong><strong>por um lado retira as mulheres do lugar de protagonismo na formulação das políticas públicas e por outro desmobiliza os esforços dos últimos anos em torno dos direitos sociais. </strong></strong><strong></div></strong></h3>
<p>A “bela, recatada e do lar” é, portanto, a síntese representativa das mulheres que o governo busca reconstruir. Os discursos de Temer no 8 de março, atribuindo exclusivamente às mulheres o cuidado com a vida privada e a educação dos filhos e também desmerecendo qualquer contribuição no mundo público, afinal na economia o que fazemos de melhor é verificar a alteração nos preços, servem de esteio para que os demais (homens) membros do governo e aliados reforcem essa perspectiva conservadora e machista sobre nós mulheres. Exemplos disso não faltam, destaco três para termos dimensão: a) ministro da saúde afirma que as crianças são obesas por responsabilidade das mães que trabalham fora de casa; b) relator da reforma da previdência afirma que a diferença etária para aposentadoria só poderia ser atribuída para mulheres casadas, que cuidam de filhos e marido; e c) relator da terceirização afirma que “ninguém faz limpeza melhor do que as mulheres” e que quando se avalia o ambiente que o trabalhador se insere deve-se perguntar “como é a mulher dele?”. Tais discursos reatualizam o que há de mais atrasado no repertório machista e conservador acerca das mulheres.</p>
<p>É relevante destacar que as lideranças políticas vinculadas ao governo Temer, incluindo ele próprio, reproduzem tal discursividade machista porque acreditam/concordam e vivenciam isso em suas experiências cotidianas, mas, sobretudo, porque ganham politicamente com esse discurso. O perfil conservador que emergiu no Congresso Nacional não é fruto exclusivamente de alguma distorção no sistema de eleição proporcional, esses parlamentares representam segmentos da sociedade que concordam com a abordagem dada aos temas de gênero, diversidade sexual, entre outros.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"><strong>Em face desse cenário sombrio, temos que reunirmo-nos, encontrarmo-nos, somarmo-nos, ou como diria Italo Calvino: “procurar e reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço”.</strong><strong> </strong></strong><strong></div></strong></h3>
<p>O acompanhamento das notícias diariamente causa estarrecimento. Para muitas/os de nós ainda parece difícil elaborar como depois de 6 anos de um mandato da primeira mulher Presidenta da República vejamos o retorno de tamanho conservadorismo, assim como do retrocesso no âmbito das políticas sociais. Como professora e feminista me inquieta ainda mais. Discutir as questões de gênero, mesmo no ensino superior, sempre comportou alguma dose de destreza na abordagem, afinal é importante que todas/os se sintam parte do debate. Atualmente, em tempos de “escola sem partido” rondando as salas de aula, escuto cada dia mais as queixas e receios das/os colegas. Notícias sobre professoras/es processados por discutir gênero e feminismo começam a surgir.</p>
<p>Em face desse cenário sombrio, temos que reunirmo-nos, encontrarmo-nos, somarmo-nos, ou como diria Italo Calvino: “O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: procurar e reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço”. Que diante de tudo isso, resistamos juntas/os.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Cabeça de homem</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Sep 2016 11:59:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Lucas Lima]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Gênero]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; A única saída para o homem contemporâneo é se emancipar Em “Teoria King Kong”, Virginie Despentes nos convida a pensar a figura da besta no filme “King Kong”, embora <a class="read-more" href="https://apulga.com/cabeca-de-homem/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1492" style="width: 510px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/09/erica-zoe-cabeca-de-homem.jpg"><img class="size-full wp-image-1492" alt="Ilustração: Érica Zoe" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/09/erica-zoe-cabeca-de-homem.jpg" width="500" height="614" /></a><p class="wp-caption-text">Ilustração: Érica Zoe</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><i>A única saída para o homem contemporâneo é se emancipar</i></p>
<p>Em “Teoria King Kong”, Virginie Despentes nos convida a pensar a figura da besta no filme “King Kong”, embora o todo do livro não trate apenas dessa pequena alegoria: reflete sobre a vida da própria Despentes, feminismo, classe social, papel da mulher em suas diferentes facetas, estupro, pornografia, punk-rock e um apanhado de outras tantas coisas. Despentes diz escrever a partir de um posicionamento feminista não liberal. Mas o que isso poderia, de fato, significar? É matéria a deixar para as feministas — caso aqui escrevesse uma delas, é bem provável que lhe interessasse falar desse tema ou mesmo dos outros assuntos listados antes; entretanto, quem redige estas linhas é um sujeito cis, heterossexual, a quem só cabe seu gênero e como esse gênero se comporta, pelo simples fato de que não posso me colocar na pele do outro gênero. Sobre isso, entendi que meu papel não está, e com razão, na luta ao lado das mulheres; para isso existe a sororidade. Devo compreender que o agente político para a emancipação do gênero feminino e das demais manifestações sexuais são, unicamente, estas mesmas manifestações — e a prática da teoria feminista levada a cabo pelas mulheres, cis ou não. Proponho que meu lugar é apenas o de me afastar e assim o é o de todos os meus semelhantes, tornando mais fácil a luta das mulheres; mas sempre cooperando, quando solicitado, com tais movimentos, suas pessoas, suas classes e nunca exercendo o papel de agente político libertador. Esclarecido este ponto, adentremos no que deve ser devido a um homem cis, heterossexual e a uma futura teoria de tal gênero (coisa que só será possível observando-se atentamente o exemplo das vanguardas feministas): vejamos o que se pode extrair de um livro feminista com as características de “Teoria King Kong”, um grande livro.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Na civilização, qual metáfora de uma condição sexual prévia à ordem estabelecida pela sociedade industrial, King Kong representa o caos contra a civilização, mostra-se como pornografia diante de toda a cidade, e, como pornografia, deve ser controlada, vez que é um mal.</div></strong></h3>
<p>O filme “King Kong” está, certamente, na memória de todos. Uma loura embarca num navio cheio de homens. Dirigem-se a uma ilha que não figura em nenhum mapa, com uma população aborígene como o são todas, isto é, asquerosas — e ser asqueroso é sempre não ser civilizado —, mas essa ilha tem algo de peculiar: está povoada de criaturas aparentemente desprovidas de genitais e sem um claro gênero identificável, embora suas estruturas polimorfas sejam, em muitos casos, análogas, pornograficamente análogas, a uma arte fálica sem igual. O famoso ou a famosa King Kong carece, claro, de peitos, de pau, de vagina, de qualquer atributo sexual. “É a porta entre o homem e o animal, entre o bom e o ruim, o primitivo e o civilizado, o branco e o preto. Híbrido, anterior à obrigação do binário. A ilha do filme é a possibilidade de uma sexualidade polimorfa e hiperpotente. Isso é o que precisamente o cinema quer capturar, exibir, desnaturalizar e finalmente exterminar.”** Assim, como explicação de uma utopia, vez que anterior à vida primitiva, Despentes nos mostra como a loura se sente selvagem e primitiva, ou seja, segura e livre, fisgada pela mão não binária de King Kong. No entanto, quando a mulher é levada pelo homem branco para a civilização, percebe como seu resgate foi apenas um pretexto para prender a besta. Na civilização, qual metáfora de uma condição sexual prévia à ordem estabelecida pela sociedade industrial, King Kong representa o caos contra a civilização, mostra-se como pornografia diante de toda a cidade, e, como pornografia, deve ser controlada, vez que é um mal. Mas as pessoas querem arriscar-se a ir vê-la, ainda que seja de uma maneira a não sofrer os danos físicos ou morais que se supõe que a pornografia carregue intrinsecamente. Assim, o animal é golpeado, martirizado, e a bela é desposada pelo galã heteronormativo; venceu, então, a nova sociedade industrial e seu arranjo heteropatriarcal. King Kong é sua epopeia.</p>
<p>Depois de todo esse caos, passemos às revoltas do movimento feminista, tão significativo para o século XX, quando as mulheres tomam a iniciativa de sair à rua para reivindicar direitos ao voto e quetais, quando as mulheres assumem postos de trabalho antes reservados aos homens, quando o movimento, na rua e nas instituições, começa a adquirir sua grandiloquência atual; depois de toda essa epopeia da sexualidade que é King Kong, na qual a mulher encontrou um rumo para se desmitificar e soube se emancipar do jugo do homem, embora ainda falte um longo e tortuoso caminho, pergunta-se: “Onde ficou o homem?” O homem que raptou King Kong, o homem que ao final se casou com a bela e exibiu a besta abatida diante da civilização — porque, no fim das contas, parece que a bela soube se separar desse homem, soube lutar pelo divórcio, pela independência financeira, por uma teoria mais que invejável. Despentes destaca: “Como se explica que nos últimos trinta anos nenhum homem tenha produzido nenhum texto inovador sobre a masculinidade? Eles que são tipicamente loquazes e tão competentes quando se trata de discorrer sobre as mulheres? Como se explica esse silêncio em relação a eles mesmos? Porque sabemos que quanto mais falam, menos dizem sobre o essencial, sobre o que têm realmente na cabeça. Talvez queiram que sejamos agora nós que falemos deles? Querem, por exemplo, que digamos o que pensamos dos estupros coletivos? Diremos que eles querem mesmo é foder entre si, olhar pros paus uns dos outros, excitar-se juntos; diremos que eles têm vontade de meter nos cus uns dos outros”. Daí vem a questão. O homem com a sua condição privilegiada presume que seu posto é inamovível e que o conflito pode ser deixado de lado? Nós, homens, que pouco a pouco cedemos inexoravelmente nossos lugares às mulheres, mesmo atuando ativamente como machistas, nós deveríamos nos perguntar: por que não assumimos o papel de nos renovar, de nos reinventar, por que não deixamos de falar tanto das mulheres e de nossos próprios desejos masculinos por elas, por que não paramos de nos separar em grupos — de um lado homens, de outro mulheres? (E isso é coisa que acontece a cada vez que sentamos num bar para forrar as tripas de cerveja.) É para não revelar nossos sentimentos? Por que não atuamos de modo que, de nossa parte, façamos com que nossos iguais abandonem os velhos hábitos do aparato heteropatriarcal e passemos de uma vez por todas ao terreno da sensibilidade e da ação sobre nossa condição sexual?</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Nós, homens, que pouco a pouco cedemos inexoravelmente nossos lugares às mulheres, mesmo atuando ativamente como machistas, nós deveríamos nos perguntar: por que não assumimos o papel de nos renovar, de nos reinventar?</div></strong></h3>
<p>É evidente que os homens, durante todos esses anos de prática e luta feminista, só temos servido para exacerbar o conflito. Não nos emancipamos da mulher, enquanto ela já se emancipou de nós. “She wakes up/she makes up/She takes her time/and doesn&#8217;t feel/she has to hurry/She no longer needs you.” A situação dos homens que se dizem, hoje, e se disseram, no passado, feministas é ainda mais aguda: a teoria feminista conseguiu arremessá-los de lado, cedendo a elas espaço em governos e na vida social, mas, embora necessária, essa reconfiguração de forças não é suficiente, porque, mais do que conceder a elas simbolicamente um espaço de ação, é chegada a hora de que nos emancipemos nós. A mulher, por seu lado, já saiu da casa dos pais e do quarto do marido. É nossa vez de sair do lar materno, deixar para trás a casa a que as mulheres, com sabedoria, já abandonaram e ir cuidar dos filhos, falar dos sentimentos, confessar as pequenas vicissitudes e criar uma teoria que nos emancipe como gênero fraco — que, em verdade, é o que temos sido sempre, sob o amparo da mulher que escravizávamos. O homem criou a sociedade heteropatriarcal e se sente seu dono. Parece que ali não precisa modificar em nada seu comportamento de homem hetero. Nem mesmo falamos dos estupros e das violências que cometemos: deixamos, nesse aspecto, tudo a cargo da mulher, como se não tivéssemos participado de nada. Pois já é hora de que, como diz Despentes, confessemos que gostaríamos de ser penetrados pelo cu, ainda que disso as mulheres também tenham de se encarregar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>*Tradução de Alan Santiago</p>
<p>**Os excertos foram traduzidos a partir da edição em espanhol da obra de Despentes.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Sobre os mineros mineiros</title>
		<link>https://apulga.com/sobre-os-mineros-mineiros/</link>
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		<pubDate>Tue, 24 Nov 2015 20:36:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tiago Miranda]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Fitzgerald]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>

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		<description><![CDATA[“Vamos sair daqui antes que eles tranquem tudo”, diz um ator do filme “33” como um dos responsáveis por avisar a comunidade sobre o acidente na mina chilena de San <a class="read-more" href="https://apulga.com/sobre-os-mineros-mineiros/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/Tiago-133.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1173" alt="Tiago 133" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/Tiago-133.jpg" width="750" height="575" /></a></p>
<p>“Vamos sair daqui antes que eles tranquem tudo”, diz um ator do filme “33” como um dos responsáveis por avisar a comunidade sobre o acidente na mina chilena de San Jose, onde permaneceram por 70 dias 33 mineradores chilenos (<i>mineros</i>, em castelhano) dentro da montanha após um desmoronamento na área de extração de ouro. O filme relata os dias de confinamento dos mineiros e as disputas entre o governo chileno, a indústria responsável pela mina e os familiares. É impossível não traçar um paralelo entre o ocorrido no país andino e a atual situação em Minas Gerais. A falta de condições de trabalho, a exploração da comunidade que “vive” ao redor da mina e, principalmente, as tratativas da empresa em se desvencilhar de qualquer culpa sobre o ocorrido.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Quando iniciei meus estudos, ainda trafegavam pelo centro histórico da cidade caminhões carregados de minério de ferro. Nos 300 últimos anos, a extração de pedras preciosas e minerais foi e ainda é a base da economia local.</div></strong></h3>
<p>Tive a sorte de ter feito minha graduação em Ouro Preto. Entre 2000 e 2004, cursei Turismo na primeira turma da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e pude, ao longo desse período, conhecer não só a região, mas a história e um pouco das relações entre aquelas comunidades e a mineração. Quando iniciei meus estudos, ainda trafegavam pelo centro histórico da cidade caminhões carregados de minério de ferro e ônibus intermunicipais e privados transportando passageiros e funcionários das mineradoras da região. Nos 300 últimos anos, a extração de pedras preciosas e minerais foi e ainda é a base da economia local e seu principal gerador de empregos. Contudo, alguns centros urbanos ainda conseguem achar alternativas para essa equação de dependência – não é o caso de povoados como Bento Rodrigues, Camargos e tantos outros da região que encontram na mineração um modo de sobrevivência e, ao mesmo tempo, seu fim.</p>
<p>Segundo relatos, o rompimento das represas ocorreu por volta das 14h, e a população só foi avisada quase duas horas depois, por funcionários que, tal como os personagens do filme, saíram da empresa e foram informar a comunidade. Não havia sirene, nem plano de contenção de desastres, nem rotas de fuga – em resumo: nenhuma preocupação com a segurança dos funcionários ou da comunidade. Logo após os acidentes, o presidente da empresa veio a público lamentar o ocorrido e avisar que a lama que vazou da barragem não era tóxica. Não precisa ser nenhum gênio químico ou engenheiro de minas para saber que essa informação é falsa. O uso extensivo de metais pesados na mineração é uma de suas características básicas. Dias depois, com o avanço dos dejetos, as imagens de animais mortos pela onda de lama começam a surgir por todo o caminho traçado por ela. Divulga-se uma nota que informa que um terremoto teria sido o causador do rompimento. Em dois dias, o observatório sísmico da Universidade de Brasília desmente. Com um pouco mais de investigação, descobre-se que algumas das licenças estavam vencidas. O governo corre para dizer que o processo de renovação está atrasado devido às greves no funcionalismo. A proprietária da Samarco Mineradora corre para dizer que não é bem dona da empresa – “só” acionista majoritária. Tal como na película, não há “culpados”; foi um “acidente”. E em vez de buscar sobreviventes e informar a população sobre o que ocorre, governo e empresa (cada vez mais unidos em interesses e ações) isolam a área e proíbem o acesso de moradores e imprensa à zona do ocorrido, esperando a “poeira baixar” e garantindo que a ação é para a própria segurança dos locais.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Os danos ao meio ambiente e às pessoas são imensos e tornam-se ainda mais gritantes pela perspectiva de não terem a punição devida e nem servirem marco para evitar situações futuras como essa.</div></strong></h3>
<p>O “acidente” acabou com mais de 300 anos de história de um lugarejo esquecido da região mineradora. Tenho certeza que ele só chamou atenção devido à proximidade da capital e das cidades históricas e à divulgação quase que em tempo real, através das redes sociais, dos ocorridos. Tratar como um infortúnio o extermínio de uma cidade e das vidas de centenas de famílias é só mais um dos abusos que recebemos todos os dias seja pela mão das empresas, seja pelas mãos do governo. A onda de lama, literalmente, cimentou alguns pontos do leito do Rio Doce e levou todas as cidades que estavam próximo a ela a decretar estado de calamidade pública, devido à impossibilidade de tratar a contaminação das águas pelos resíduos de ferro e mercúrio (lembrem-se: não tóxicos). A demora para o diretor da Agência Nacional de Águas, da ministra do Meio Ambiente e mesmo da presidenta Dilma Roussef em ir à região só agravou a sensação (ou seria realidade?) de descaso ao crime ambiental ocorrido. Até agora, a lama do Rio Doce já atingiu o litoral do Espírito Santo e foram contabilizadas oito toneladas de peixes mortos. Os danos ao meio ambiente e às pessoas são imensos e tornam-se ainda mais gritantes pela perspectiva de não terem a punição devida e nem servirem marco para evitar situações futuras como essa.</p>
<p>O prefeito de Mariana diz que o fechamento da Samarco seria a morte da economia da região, ignorando os corpos que estão soterrados pela lama e a dor dos atingidos por ela. Talvez a solução seja a mesma do filme: parentes acampando em frente à mina e esperando uma resposta. Infelizmente, o final não será feliz. Não sairão com vida da lama nenhum das dezenas de corpos soterrados – nem mesmo a história centenária de Bento Rodrigues.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Vida sem medo</title>
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		<pubDate>Thu, 07 May 2015 21:13:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Alan Santiago]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Casa da Palavra]]></category>

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		<description><![CDATA[Eduardo Galeano (1940-2015) dedica muitas páginas de &#8220;As Veias Abertas da América Latina&#8221;, um de seus livros mais conhecidos, à história de Potosí, uma cidade boliviana que teve suas reservas <a class="read-more" href="https://apulga.com/vida-sem-medo/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a style="line-height: 1.5em;" href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/05/Literata-5-Eduardo-Galeano2.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-911" alt="Eduardo Galeano" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/05/Literata-5-Eduardo-Galeano2.jpg" width="1063" height="794" /></a></p>
<p>Eduardo Galeano (1940-2015) dedica muitas páginas de &#8220;As Veias Abertas da América Latina&#8221;, um de seus livros mais conhecidos, à história de Potosí, uma cidade boliviana que teve suas reservas de prata plenamente exauridas entre os séculos XV e XVIII, chegando aos anos 1970, época da publicação da obra, amargando uma pobreza franciscana. Alguns escritores bolivianos chegaram a dizer, em rasgos de grandiloquência, que a Espanha havia recebido prata suficiente para fazer uma ponte da Bolívia à Europa.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A ideia de uma ponte imensa, imemorial, esculpida em prata, perfazendo um caminho ao mesmo tempo cheio de poesia e dor. Essa é também a melhor descrição da obra de Galeano &#8211; seus livros, suas entrevistas, seu pensamento sobre o mundo<strong>.</strong></div></strong></h3>
<p>A tragédia de Potosí sempre me impressionou exatamente por essa imagem: a ideia de uma ponte imensa, imemorial, toda esculpida em prata, perfazendo um caminho ao mesmo tempo cheio de poesia e dor. Acho que essa é também a melhor descrição da obra de Galeano &#8211; - seus livros, suas entrevistas, seu pensamento sobre o mundo.</p>
<p>Ele nos diz que a história constrói, à nossa revelia, uma ponte dolorosa e necessária em direção ao horizonte; entender em que ponto da caminhada estamos ou o que significa ser o que somos é crucial para seguir adiante. Isso transformaria a realidade num lugar de absoluta potência. Veja só: &#8220;Na verdade eu escrevo para celebrá-la [a realidade]. E, celebrando, denuncio tudo o que impede que a gente reconheça nos demais e em nós mesmos as múltiplas cores do arco-íris terrestre. Somos muitíssimo mais do que nos dizem que somos&#8221;, resumiu ao programa &#8220;Sangue Latino&#8221;, do Canal Brasil.</p>
<p>Embora tenha escrito muito sobre o passado e refletido sobre ele, Galeano tinha em mente sempre o futuro, esse lugar da utopia. Não à toa falava tanto dela. A utopia, que nunca será alcançada, serve para caminhar, relembra em várias entrevistas. Reiteradas vezes também, trazia à tona esse mundo &#8211; considerado impossível, improvável ou, pior, entendido como uma alegoria antiquada-, que está na interseção entre a história, a política e o sonho.</p>
<p>Numa manifestação juvenil na Catalunha, em maio de 2011, disse que o entusiasmo visto ali era a prova de que viver valia a pena. &#8220;E viver está muito mais além da mesquinharia da realidade política, onde se ganha ou se perde, e da realidade pessoal também &#8211; onde só se pode ganhar ou perder. Há um mundo que &#8216;pode ser&#8217; nascendo no mundo que &#8216;é&#8217;.&#8221;</p>
<p>Também para a Catalunha, mas dessa vez ao programa &#8220;Singulares&#8221; do canal 3, pediu que o espectador se desse o direito ao delírio. &#8220;A morte e o dinheiro perderão seus mágicos poderes. E nem por falecimento nem por fortuna um canalha se converterá num virtuoso cavalheiro&#8221;, leu, ao som do piano. &#8220;A educação não será um privilégio de quem possa pagá-la, e a polícia não será a maldição de quem não possa comprá-la.&#8221;</p>
<p><span style="line-height: 1.5em;">Por isso, quando ele morreu, morreu também uma parte da esperança do mundo; minguou, para mim, pelo menos, isso que estou chamando de esperança, mas que talvez seja melhor dizer: sentimento do mundo &#8211; aquilo que é ao mesmo tempo uma visão total da complexidade da vida e também uma &#8220;racionalidade&#8221; antes de tudo sentimental e amorosa do universo. Galeano era esse sentimento.</span></p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Ele nos diz que a história constrói, à nossa revelia, uma ponte dolorosa e necessária em direção ao horizonte; entender em que ponto da caminhada estamos ou o que significa ser o que somos é crucial para seguir adiante. Isso transformaria a realidade num lugar de absoluta potência<strong>.</strong></div></strong></h3>
<p>(Vale ponderar que essa característica estava muito mais associada à sua figura de pensador que ao trabalho como escritor do livro &#8220;Veias Abertas&#8221; &#8211;o que é legítimo. Houve indícios disso na Bienal do Livro, em Brasília, quando ele afirmou que &#8220;não seria capaz de ler de novo esse livro, cairia desmaiado&#8221;. &#8220;Para mim essa prosa de esquerda tradicional é chatíssima. O meu físico não aguentaria. Seria internado no pronto-socorro&#8221;, divertiu-se. Embora o livro ainda seja uma aproximação válida a sua obra, o Galeano hoje não ficou parado no tempo e atualizou, como pôde, suas análises sobre a vida.)</p>
<p>Felizmente não restam agora somente os que se calam ou, o que é ainda uma tenebrosa realidade, os que &#8220;se dedicam a atormentar a humanidade&#8221; e que &#8220;vivem vidas enormes&#8221;. (&#8220;Não morrem nunca. Porque não têm uma glândula que, na verdade, é bem rara e que se chama consciência; é o que nos atormenta nas noites&#8221;, riu ao programa &#8220;Sangue Latino&#8221;).</p>
<p>Creio que existem também a nosso redor, e cada vez mais, aqueles que dizem &#8220;não&#8221;. Há um aprendizado poético e político na negação, como o personagem Bartleby que &#8220;preferiria não fazer&#8221;. E, de algum modo, a obra de Galeano compartilha com essas pessoas, desajustadas e incoerentes, a força do &#8220;não&#8221;, esse &#8220;não&#8221; à injustiça e ao desamor. De seus passeios por Montevidéu, do café que bebia no restaurante El Brasilero e que ganhou seu nome, das obras lançadas, das palestras e entrevistas, acho que ele deixa pra trás esse pequeno gesto grande de dizer &#8220;não&#8221; e, assim, poder acreditar num mundo onde seja possível viver sem medo.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>O Brasil encaretou?</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Oct 2014 14:27:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; Hoje é o grande dia. Está na hora de decidir o 1o turno das eleições presidenciais de 2014. Dentre as reviravoltas dessa campanha, o que realmente me causou estranhamento <a class="read-more" href="https://apulga.com/e-o-brasil-encaretou/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_669" style="width: 630px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/10/VALETUDOframe.jpg"><img class="size-full wp-image-669" alt="Marco Aurélio em Vale Tudo, novela de Gilberto Braga de 1988." src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/10/VALETUDOframe.jpg" width="620" height="465" /></a><p class="wp-caption-text">Marco Aurélio em Vale Tudo, novela de Gilberto Braga de 1988.</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Hoje é o grande dia. Está na hora de decidir o 1<sup>o</sup> turno das eleições presidenciais de 2014. Dentre as reviravoltas dessa campanha, o que realmente me causou estranhamento foi a temática conservadora das discussões: criminalização do aborto, redução da maioridade penal, homofobia&#8230; Talvez a representação mais caricata e ignóbil desse “fenômeno” tenha acontecido no debate da rede Record do domingo, dia 28 de setembro, em que o candidato Levy Fidelix fez uma comparação escatológica entre o aparelho excretor e reprodutor para falar dos gays. As declarações causaram rumor, contudo o espantoso é que elas não são um ponto fora da curva.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> O resultado desse embate mais direto é um maior posicionamento também por parte do eleitorado. A cobrança é mais explícita dos dois lados. A tendência é que não se deixe mais o assunto ficar debaixo do tapete.</div></strong></h3>
<p>Há na pauta do amplo debate político um movimento duplo: um que tenta barrar a ampliação da cidadania e outro que vai além e propõe o retrocesso. Por baixo das tensões relativas ao casamento homoafetivo, a descriminalização do aborto, as pesquisas com células tronco e outros temas que compõem as conquistas dos direitos civis de primeira e quarta gerações, existe ainda os que querem retroceder. A redução da maioridade penal talvez ilustre bem os ataques ao que já existe. Ou seja, a questão aqui não se resume ao incomodo de mudar o estabelecido, de ir adiante, é mesmo o desejo de voltar, de cercear direitos. Embora sejam paralelos, na prática esses movimentos se confundem e por vezes se somam. É atemorizante ver esse quadro desenhado em uma democracia ocidental do século XXI, distante que julgamos estar dos regimes que tutelam a vida privada.</p>
<p>Muitos dos temas que estão em pauta hoje, sobretudo a discussão sobre o aborto e o casamento homoafetivo, surgiram com mais força nas eleições de 2010. Se naquele período alguns candidatos ficaram em cima do muro evitando se comprometer, hoje a tomada de decisão é mais incisiva e polarizada. O movimento de Marina Silva à direita e a voz em coro dos candidatos fundamentalistas que compõem à bancada religiosa, em contraponto a campanha afirmativa do Psol, levaram a uma reação à esquerda por parte do PT. O resultado desse embate mais direto é um maior posicionamento também por parte do eleitorado. A cobrança é mais explícita dos dois lados. A tendência é que não se deixe mais o assunto ficar debaixo do tapete.</p>
<p>Poderíamos fazer uma avaliação estritamente eleitoral da questão. Mas, ampliando o quadro, vendo as eleições mais como uma amostra do que como um fenômeno a parte, é de chamar atenção a manifestação de vozes tão conservadoras. Vale ressaltar que elas só estão presentes no discurso político porque há um estrato social da qual se originam. E isso é relevante não só por seu conteúdo, mas também pela novidade na forma atual em que essas vozes se expressam. De um lado há uma institucionalização desses grupos de interesse através do jogo político, de outro eles aparecem nas ruas se mostrando em marchas, passeatas e outros instrumentos típicos dos movimentos socais. Existe aí todo um universo para ser estudado, mas sem dúvida muito do que ecoa na arena pública está nas manifestações de rua e na rede. Em caso de dúvida, é só olhar o teor dos comentários em qualquer portal de notícias para se confirmar a existência desse conservadorismo extremo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> No Brasil de 2014 subverte-se a ordem: os candidatos mais pró-mercado, que bradam a liberdade econômica, são verdadeiros cães de guarda da moral e dos bons costumes da vida alheia.</div></strong></h3>
<p>Fato é que há tempos não temos de maneira incisiva um bloco tão moralista bradando palavras de ordem. Ainda que por razões mais instrumentais ou mesmo por cinismo, o desejo de “aparecer bem na foto” dava um tom mais polido à fala dos reacionários de plantão. Da década de 1980 para cá, o discurso oficial era mais afirmativo de direitos do que o contrário. Nesse sentido, lembro uma frase do Nirlando Beirão sobre a visão libertária e provocativa que se tinha da política nos anos de abertura. A Constituição de 1988, mesmo não sendo propriamente uma Carta de ruptura, é prova inconteste de que estávamos numa curva ascendente de afirmação da cidadania. Hoje, o que vemos é o contrário.</p>
<p>É claro que a bancada evangélica tem peso nesse quadro, mas olhar só para essa variável é reducionista. Há mais para se prestar atenção. Se já não fosse suficientemente sério ter ditames religiosos interferindo com tanta força nos direitos civis, existem entraves de outra ordem. Não vamos esquecer, por exemplo, que o Brasil foi o último país da América Latina a criar a Comissão da Verdade e que sustenta juridicamente a legitimidade da Lei da Anistia. Estes são exemplos de desafios diferentes, mas que talvez tenham a mesma essência no que diz respeito a dar contornos mais definidos ao exercício da cidadania e ao que se espera das instituições democráticas. Posições sobre os rumos de economia podem variar de acordo com determinadas cartilhas políticas, a garantia de direitos não. O curioso é que este é, essencialmente, um elemento da doutrina liberal clássica. No Brasil de 2014 subverte-se a ordem: os candidatos mais pró-mercado, que bradam a liberdade econômica, são verdadeiros cães de guarda da moral e dos bons costumes da vida alheia. É com se quissesem liberar o Estado e estatizar constumes, numa inversao perversa e perigosa.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Dizer que o Brasil “encaretou” é uma armadilha fácil. É nesse ponto que me parece viável acreditar que se existe um bloco gritando palavras de ordem moralistas, há outro que também se organiza a reivindicar direitos. Essa tensão é necessária para se avançar.</div></strong></h3>
<p>Dizer simplesmente que o Brasil “encaretou” é uma armadilha fácil. Embora essa frase tenha ressonância, é preciso lembrar que não temos um Brasil, mas vários. É nesse ponto que me parece viável acreditar que se existe um bloco gritando palavras de ordem moralistas, há outro que também se organiza a reivindicar direitos. E, incomoda que seja, essa tensão é necessária para se avançar. Em meio ao embate, fico com várias imagens de “Vale Tudo”, novela do final dos anos 1980, na cabeça. Em sua primeira e última cena, Gilberto Braga colocou um michê no roteiro. Se Odete Roitman era a própria representação da elite reacionária, em outra ponta o enredo trazia o primeiro casal lésbico da telenovela e terminou com o antagonista Marco Aurélio fugindo num jatinho e dando uma banana para ao país. Estava tudo lá, em cores fortes, sem causar muito assombro. Há 26 anos era possível ver isso no horário nobre, na maior emissora do país. Hoje, apesar dos avanços e do famoso beijo gay, ainda existem tantos que mal dão conta de tramas cheias de pessoas de “boa família”.</p>
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		<title>A economia dos afetos em tempos de encontros e desencontros</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Sep 2014 19:35:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Diógenes Lycarião]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>

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				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_661" style="width: 738px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/09/banksy_29.jpg"><img class="size-full wp-image-661" alt="" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/09/banksy_29.jpg" width="728" height="487" /></a><p class="wp-caption-text">Banksy &#8211; modernidade e afetos</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Acusações não lhe faltam. Nosso tempo, dizem os atentos, é de individualismo em rede e marcado por uma aceleração permanente em direção ao descarte e à obsolescência programada. Traços tão fortes de nosso<i> Zeitgeist</i> que não apenas se aplicariam às coisas, mas também às formas das nossas relações. Assim, se os casamentos voltaram a crescer, também crescem os contratos pré-nupciais com regras claras para que, quando a força do amor se mostrar obsoleta, todos saibam muito bem onde e como descartar suas sobras.</p>
<p>Segue o diagnóstico: a expansão do consumo e as avançadas tecnologias de transporte que reposiciona bits e pessoas em milésimos de segundos, ao mesmo tempo que nos leva a lugares, antes só acessíveis por fotos e cinematografias, também deslocam nossos afetos tão abruptamente que acabamos engarrafados nos entroncamentos de tantas náuseas e euforias.</p>
<p>O avião que, até há pouco, só transportava alguns felizardos, hoje trouxe os continentes para debaixo de tantos pés como nunca antes na história desse mundo. E, para debaixo dos continentes, temos depositado boa parte daquilo que a história da natureza demorou milênios para oferecer. Com isso, ficou claro que, num futuro próximo, iremos oferecer a apenas a alguns felizardos a natureza que hoje conhecemos.</p>
<p>Bem, nada de novo no front. Não é de hoje que sabemos que “o mar da história é agitado”. Mas hoje sabemos, talvez como nunca, que não chegamos ao fim da história, que esta recomeça a cada instante, e numa velocidade que inclusive já não é narrável. Isso porque o oceano de informações dessa era parece ter produzido um deserto em nossa capacidade de narrar nossa história coletiva e pessoal. Dentre os milhões de posts e jornais à palma da mão ou de um clique, sobra apenas uma única e decisiva carência: a capacidade de juntar os pedaços e ver o que há por trás do prisma mediático.</p>
<p>Assim, chegamos naquele momento em que os pontos de junções e disjunções estão a se sobrepor num ângulo que nosso olhar já não alcança. Tal como o vento que se sente pelo sopro, é no corpo que a fricção desses nós nos enlaça e nos parte tão rapidamente que tudo que se enxerga é apenas uma sombra do que imaginamos ter sido um “nós”.</p>
<p>Mas eis que essa sombra que repousa em nosso olhar passa a ser tão somente a marca de um registro do passado a embaçar nossa vista, reduzindo a nitidez do momento seguinte. Aquele em que os nós que nos enlaçavam se desmancham para formar um oceano de saudades e esperança.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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