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	<title>A Pulga &#187; Andarilho</title>
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	<description>Um coletivo diletante de ideias</description>
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		<title>São Paulo travessia</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Dec 2016 06:43:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
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				<content:encoded><![CDATA[<style type="text/css"><!--
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<p>&nbsp;</p>
<div id="attachment_1567" style="width: 760px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP20.jpg"><img class="size-full wp-image-1567" alt="sp20" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP20.jpg" width="750" height="790" /></a><p class="wp-caption-text">Foto: Grazielle Albuquerque</p></div>
<p>Vim para São Paulo com os dias contados. Era chegar, cumprir uma missão e voltar para casa. Foi um movimento aos empurrões, um impulso em busca de uma meta a cumprir. Na agenda vermelha estavam a lista das disciplinas, a data-limite para a proficiência em francês e a urgência de escolher onde morar. Sim, um doutorado a cumprir.</p>
<p>E, quando se muda de cidade com algo muito definido para dar conta, corre-se o risco duplo de ser engolido pela tarefa imposta e pelos estereótipos que as pessoas costumam vender sobre os locais e as formas mais adequadas para realizar tal tarefa. É quase como tirar um daqueles cartões de instrução do Banco Imobiliário: “Se você quer ganhar o jogo, precisa comprar tantos lotes da mesma cor, colocar umas casinhas, aí poderá montar um hotel e vencer na vida”. Tudo dito, uma cartelinha de indicações para a felicidade.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Eis aí o primeiro desafio: ter lucidez para enxergar que desejo e necessidade não precisam entrar em uma “forma”</strong><strong>. Fui, então, descobrindo outros caminhos. Nada estava no <i>script</i>, era tudo descoberta.</div></strong></h3>
<p>Eis aí o primeiro desafio: ter lucidez para enxergar que desejo e necessidade não precisam entrar em uma “forma”. Foi assim que, mesmo estudando em Campinas, descobri que poderia viver muito bem em São Paulo. Na primeira greve do transporte público na capital, ficou claro que foi acertada essa minha escolha inversa à máxima de que se deve “morar perto de onde se estuda e trabalha”. Fui, então, descobrindo outros caminhos. Assim, minha rotina consistia em ir à Unicamp no “Massa Crítica” – o fretado mais intelectual da paróquia, andar de bicicleta pela Faria Lima e desvendar parques como o Ibirapuera, subir a pé a Consolação e flanar pela Paulista com todos os sentidos atentos a essa espécie de artéria que atravessa um corpo. Nada estava no <i>script</i>, era tudo descoberta.</p>
<p>Além das ruas com grafites e lambe-lambes, uma das seduções de São Paulo é o apelo ao paladar. Descobri locais especiais de Pinheiros, como o Doce e Cia., com a melhor sopa não <i>gourmetizada</i> da região; o ovo <i>molett</i> do Le Jazz, que tem a capacidade de materializar a verdadeira felicidade pequeno-burguesa em uma garfada; o Fitzgerald do Boca de Ouro, com a sensação de que um <i>drink</i> serve mesmo para se comemorar algo, ainda que intimamente; o Cine Sala – cinema de rua da Fradique Coutinho –, que trabalha com uma escandalosa combinação para a “terceira idade” de filmes de arte, futons nas primeiras filas, pipoca sem sal e sorvete de chocolate vegano. Uma cidade que se mostra pelos serviços, pelos locais cheios de detalhes, pelo comércio dos bairros.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">E se você sabe o que quer? Não seria um desperdício não aproveitar para fazer tudo diferente? Não. São Paulo me ensinou que, em essência, estranho seria tentar ser outra gostando tanto de quem sou</strong><strong>.</div></strong></h3>
<p>Acontece que essa gama de possibilidades também é uma armadilha. Tudo e nada. Uma cartolina em branco para desenhar uma nova vida como lhe der na telha. Mas, e se você gosta é das mesmas coisas? E se, em grande parte da vida, fizesse as mesmas escolhas? E se você sabe o que quer? Não seria um desperdício não aproveitar para fazer tudo diferente? Não. São Paulo me ensinou que, em essência, estranho seria tentar ser outra gostando tanto de quem sou. Essa aceitação passa também por um modelo de cidade, pelas ruas que você escolhe, os caminhos que faz, as pessoas com quem fala. E, para mim, o espaço que ocupo sempre teve uma conotação afetiva. Gosto de saber o nome das pessoas que me atendem, onde encontrar a melhor iguaria, que rua tem as casas mais bonitas. É uma apropriação sem a qual meus vínculos não se estabelecem. Preciso pertencer ao local que ocupo, ainda que esse pertencimento seja uma passagem. É como contar uma história que pode terminar ao dobrar a esquina, mas até lá sua narrativa tem cheiro, cor e nome.</p>
<p>Foi dessas possibilidades que montei minha São Paulo. Algo que costumo chamar de meu pequeno roteiro afetivo. Desço a Artur de Azevedo e avisto o sebo do Josué com os livros que me esperam. Lá descobri o Brito Broca, ganhei um exemplar da Lygia Fagundes Telles autografado e fiz dois amigos. Um pouco à frente, no encontro com a Lisboa, está o café da Flavinha, onde revezo o <i>ristretto</i> na xícara de louça com o <i>machiatto</i> tirado fraquinho, como num mimo. Eis que, na esquina perto de casa, pude descobrir tantos matizes de algo tão atávico em mim como o gosto pelo café. Virando à esquerda, sigo em frente por uns três quarteirões, cruzo a praça Benedito Calixto e subo a ladeira rumo ao Goethe. Lá, bato papo com o Paulo, o bibliotecário, observo a senhora alemã com seus 90 anos que, no sofá pequeno, junta as pernas deixando à mostra seu <i>all star</i> rosa enquanto lê alguma revista e, finalmente, me acomodo em frente à janela do birô principal ou estudo lá fora, nas mesinhas do pátio, onde nos dias de inverno bate algum sol. Mais adiante, de volta à Artur, no fim da rua, vou à piscina da Atlética. Às vezes o encarregado se esquece de colocar a marcação com as boias e eu nado solta na raia do meio, como se cada braçada fosse uma conquista náutica. Das melhores sensações de liberdade.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A aventura foi a própria escolha tanto quanto o resultado dela. Pude reafirmar o que gosto, mudando o que não cabia mais em mim. Foi ainda uma época de corte, de saber quem são as pessoas que permanecem e aquelas que não têm mais lugar.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Esse pertencimento das coisas miúdas pode me mostrar que, como diz a Fernanda Meireles, “toda cidade é uma invenção”. E, se existem cidades no mundo que te permitem essa mágica, São Paulo é uma delas, porque é tão múltipla que cabe tudo em suas fronteiras. É possível viver a ferveção da Augusta, observar a nostalgia meio decrépita do centro, tirar uma foto clichê da Ipiranga com a São João, rasgar dinheiro nos <i>shoppings</i> ou na 25 de Março e ver os judeus em Higienópolis. Pode tudo, como na metáfora da Paulista aberta aos domingos: as bicicletas, as pessoas, os coxinhas, os casais <i>gays</i> se beijando, o Pato da Fiesp e os mendigos nas calçadas. E, tal qual o clima que comporta sol, chuva e frio no mesmo dia, também é possível viver tudo junto. Há contrastes em uma cidade que pode oprimir pelo excesso, mas abre a chave para o particular.</p>
<p>Por isso mesmo, nesse universo tão intenso e plural, a aventura foi a própria escolha tanto quanto o resultado dela. Pude reafirmar o que gosto, mudando o que não cabia mais em mim. Foi ainda uma época de corte, de saber quem são as pessoas que permanecem e aquelas que não têm mais lugar. Por outro lado, foi a vastidão do conhecimento, a definição de uma agenda de pesquisa para a vida. O encontro da academia com o jornalismo. O texto em ambas as dimensões. A escrita, da qual não abro mão. Ah, a escrita! A análise e o ativismo. Mais uma vez a sensação de que se pode fazer o que se quer de uma maneira que não obedeça a ditames ortodoxos. Uma espécie de sintonia fina. Uma travessia para dentro que te prepara para o mundo.</p>
<p>E, nessas inúmeras descobertas, curiosamente, talvez a coisa mais preciosa que São Paulo me mostrou foi uma nova dimensão de Fortaleza, tanto da cidade quanto do adjetivo. Uma certa força que advém da consciência de si. Pauliceia que se desvairou em sentidos e me fez perceber que o que havia construído na cidade onde nasci e cresci irei levar comigo aonde quer que eu vá. É estranha essa construção, mas não frágil. E como foi difícil perceber isso. Tão difícil quanto necessário.</p>
<p>Eis a minha São Paulo travessia: o mundo que me revelou a casa e que, ao seu jeito, me libertou dela. O primeiro passo de uma estrada muito longa.</p>
<p>&nbsp;</p>

<a href='https://apulga.com/sao-paulo-travessia-2/sp13-2/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP131-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Um detalhe do cotidiano. Artur de Azevedo com Lisboa. A esquina do meu roteiro afetivo de São Paulo." /></a>
<a href='https://apulga.com/sao-paulo-travessia-2/sp19/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP19-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Meu refúgio e desafio nas águas. Aperfeiçoamento dos fundamentos e um pouco de paz nas tardes da Atlética.  Treinamento para o mar." /></a>
<a href='https://apulga.com/sao-paulo-travessia-2/sp17/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP17-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Os personagens da cidade. Praça Ramos, ao lado da biblioteca Mário de Andrade. Enquanto acontecia algum show, alguém senta-se ao lado do palco e lê seu jornal." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1567'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP20-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="A metáfora da Paulista aberta aos domingos: as bicicletas, as pessoas, os coxinhas, os casais gays se beijando, o Pato da Fiesp e os mendigos nas calçadas. É possível viver tudo junto." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1563'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP15-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Sala São Paulo e a filarmônica de Viena sendo aplaudida de pé. A estética em grau máximo de beleza. Caixa para te transportar a outra dimensão ao som de Mahler." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1561'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP13-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Protesto dos secundaristas na Henrique Schaumann. Dos momentos mais bonitos de ver foi essa verdadeira revolução dos secundaristas. Uma aula de política e cidadania." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1559'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP12-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Mesmo sem foco essa foto representa tanto. Um registro do ABC Bailão. O baile gay dos senhores para lá de sessenta às quintas-feiras é dos mais comoventes que há. Gente podendo ser quem é." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1557'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP11-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Uma casa onde habitam estudiosos das Ciências Sociais não passaria imune à crise política. Lola deu o seu recado por nós." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1555'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP10-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Ano novo judaico. Nas ruas de higienópolis um rabino e um gói conversam sobre algo transcendente. Deve ser o edén uma cidade que permite encontros." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1553'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP9-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Vista noturna do Vale do Anhangabaú. O centro da cidade à noite respira outros ares. Tão fascinante como perigoso. Cheio de uma vida própria." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1551'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP8-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Curso de métodos caseiros de café. Eis a primeira aventura desse mundo novo de um amor tão antigo. Cinema e café, coisas que São Paulo ofere com o profissionalismo que poucas cidades no mundo tem." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1549'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP7-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Andar de bike, outro prazer recuperado. Desde a minha Caloy Cross, aos 13 anos, não pedalava com tanto afinco. É, sem dúvida, uma outra forma de se relacionar com a cidade." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1547'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP6-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Augusta e seus personagens. Assim, a rua vai capturando quem anda a pé. Paulo Gaeta faz seu número. Uma vedete já meio decadente cantando Piaf e outros dramas." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1545'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/IMG_5833-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Uma das coisas que São Paulo me devolveu foi o prazer da escrita. Aqui estou eu e o Valter Hugo Mãe sendo gaiatos depois de uma entrevista para essa micro-aventura particular que é a Pulguinha." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1539'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP4-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Toda cidade é uma invenção, eis a frase que mais me lembrei durante meu percurso para construir minha cidade.  Na mesa de trabalho," /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1537'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP3-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="As luzes do IFCH. Rua Cora Coralina, 100. A Unicamp e a descoberta de um novo mundo. Finalmente, o doutorado!" /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1535'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP2-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Entre idas e vindas, eis a mala de uma cientista política. Em vários sentidos, o início de uma aprendizagem." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1534'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP1-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Paulo, Suzana e eu na chegada a São Paulo. Exposição no MIS. Anfitriões a quem sou muito grata, das minhas primeiras demonstrações de acolhida na cidade." /></a>

<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>A saudade e o encontro marcado</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Aug 2015 19:57:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Sampaio]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Andarilho]]></category>
		<category><![CDATA[Viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[Todo ser humano tem alguma ambição na vida. A minha sempre foi muito simples: ir. Sonhava em morar em outra cidade, conhecer pessoas novas, espantar-me com costumes diferentes. Veio a <a class="read-more" href="https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas1.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1046" alt="Minas1" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas1.jpg" /></a></p>
<p>Todo ser humano tem alguma ambição na vida. A minha sempre foi muito simples: ir. Sonhava em morar em outra cidade, conhecer pessoas novas, espantar-me com costumes diferentes. Veio a faculdade, um curso aqui, uma acomodação acolá e o plano foi ficando de lado. A vida cobrou. Aquele emprego – e os que mais surgiam &#8211; deixou de ser interessante, os cursos ofertados já não eram tão atrativos e a cidade, apesar de amada, não abraça como antes.</p>
<p>Depois dos 30, coloquei no matulão uma profissão, muita vontade de aprender e cara de pau sobrando. Quem quer sair de casa sem uma bolsa de estudos ou um parente mecenas que banque uma aventura precisa desses três itens básicos. E eu tinha todos eles. Não foi presente, roubei do tempo. Parti.</p>
<p>Belo Horizonte tinha tudo que eu precisava: uma especialização atraente, um custo de vida possível para a grana economizada, amigos morando na cidade ou planejando mudar-se para ela, uma comida boa pra danar, um samba do bom e muitos bares por metro quadrado. “Pronto!”</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Quem quer sair de casa sem uma bolsa de estudos ou um parente mecenas que banque uma aventura precisa desses três itens básicos. E eu tinha todos eles. Não foi presente, roubei do tempo. Parti. </div></strong></h3>
<p>Dezembro chegou com a mudança, oportunidade de começar de fato um ano-novo. Aí vida te cobra outra vez. O preço da conta varia. Deixar o carro de lado, por exemplo, foi muito barato. Aliás, foi quase um investimento. Andar pelo Centro à noite sem aquele medo de ser abordado de forma violenta é uma das sensações mais gostosas. Precisava de um ambiente mais democrático para morar ou algo parecido com isso.</p>
<p>No entanto, nem tudo é barato. Saciar vontade de ir embora é ter de administrar a saudade o tempo todo. É se questionar se ainda restou pedaço de raiz, depois do arrancar-se, que permita uma nova florada. Como bem registrou o pesquisador Durval Muniz de Albuquerque Júnior, “a saudade é um sentimento pessoal de quem se percebe perdendo pedaços queridos do seu ser, dos territórios que construiu para si” (A invenção do Nordeste e outras artes).</p>
<p>Mudar de cidade é estar longe do sobrinho que chegou da escola todo pintado de índio; é não ter mais aquela marmita que a mãe sempre lhe entregava ao fim de uma visita (“depois tu traz meu depósito”); é não receber mais aquele convite para tomar uma cerveja em plena terça-feira (mesmo que a recusa fosse uma resposta-padrão); é não estar perto do mar.</p>
<p>Mudar de cidade é deparar- se com o preconceito contra aqueles que nasceram em uma região pobre como a minha. É estranhar o fato de não ser convidado no primeiro instante para tomar um bom café coado (com sorte, no terceiro ou no quarto instante). Esse custo &#8211; altíssimo para mim – rendeu-me muitas lágrimas e arranhões nos discos do Belchior e do Fagner.</p>
<p>Como li dia desses, na internet, ir para longe de casa por escolha envolve a sensação de estar por querer estar, mesmo que isso cause um certo sofrimento. É saber que existe algum propósito ter ido. Os muros invisíveis que nós mesmos construímos começam a ruir e o “realizar” só começa a fazer sentido quando permitimos que o novo lugar tome conta da gente.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Ir para longe de casa por escolha envolve a sensação de estar por querer estar, mesmo que isso cause um certo sofrimento. Os muros invisíveis que nós mesmos construímos começam a ruir e o “realizar” só começa a fazer sentido quando permitimos que o novo lugar tome conta da gente.</div></strong></h3>
<p>É possível sentir isso nos momentos mais simples do dia a dia. A gente passa a se sentir fazendo parte da nova morada quando é reconhecido no meio da rua, numa tarde qualquer, pelo garçom do seu bar do coração; por ter trocado cinco minutos de prosa com o cara que te vende queijo toda semana; por ter conquistado algumas calorias com aquele bolo de cenoura com chocolate do Mercado Central que não existe em nenhum outro lugar do mundo; por ter sempre por perto aquele torresmo de qualidade e um feijão tropeiro de responsa.</p>
<p>Essas pequenas coisas começam a te afagar o coração como um pedido de calma e paciência para os momentos de aperreio e de saudade. As conquistas – a confiança para tomar o café coado, o emprego novo que aparece, o aprender a tratar com a ignorância de alguns preconceituosos e os avanços acadêmicos – passam a te fazer escolher um repertório mais animado nos vinis. “Asa partida e dor” dá lugar a “você me dá prazer, você me dá cartaz”.</p>
<p>Com o tempo, a gente vai entendendo que sempre é possível voltar quando esse desejo for maior que o de ir. Ter para onde voltar é a segurança para ir cada vez mais longe, numa espécie de paradoxo que enaltece o prazer inebriante do “seguir”. Sinto, porém, que fiz um pacto parecido com o feito pelos personagens do mineiro Fernando Sabino:</p>
<p>“Últimos dias de aula. Eduardo, Mauro e Eugênio (um rapaz franzino, pálido e de olhar vivo, que viera transferido de outro colégio) conversavam no corredor sobre a vida que iam enfrentar lá fora, o destino que os esperava. Resolveram, os três, assumir um compromisso: qualquer que fosse o caminho que eles tomassem, vinte anos depois voltariam a reunir-se ali, naquele lugar.</p>
<p>- Vinte não: quinze – objetou Eduardo. – Vou morrer antes disso.</p>
<p>- Então quinze – concordaram os outros dois, sem se importar que ele morresse. Onde estivessem, acontecesse o que acontecesse.</p>
<p>- Neste mesmo lugar.</p>
<p>- Mesmo que tenham derrubado o Ginásio, nos encontraremos no lugar onde havia o Ginásio.</p>
<p>Marcaram a data certa, dia e hora, cada qual escreveu num papelzinho.</p>
<p>- Quem faltar, é porque morreu.</p>
<p>- Ou então está preso&#8230;</p>
<p>- Só não pode esquecer&#8230;</p>
<p>Calaram-se, e ficaram pensando&#8230;</p>
<p>- Que será de nós? – perguntou um deles, distraído.” (O Encontro Marcado)</p>
<p><span style="line-height: 1.5em;">
<a href='https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/minas10/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas10-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Carta de cachaças é um patrimônio mineiro conhecido no Brasil. Por aqui, as cervejas artesanais também regam as noites cheias de saudades." /></a>
<a href='https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/minas88/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas88-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Na Praça do Papa é possível ter uma bela visão da cidade e das montanhas que a cercam." /></a>
<a href='https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/minas99/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas99-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="O fim do dia no Centro de Belo Horizonte: cores no céu e barulho no chão." /></a>
<a href='https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/minas66/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas66-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Turma tocando samba na Feira da Savassi." /></a>
<a href='https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/minas77/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas77-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="O jardim da Praça da Liberdade foi inspirado em Versailles." /></a>
<a href='https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/minas22/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas22-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Capela de São Francisco de Assis, na Lagoa da Pampulha, pintada por Portinari." /></a>
<a href='https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/minas33/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas33-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Bairro Mangabeiras, onde fica a Praça do Papa e onde moram os ricos da cidade." /></a>
<a href='https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/minas44/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas44-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="A Praça da Liberdade é um dos símbolos de Belo Horizonte." /></a>
<a href='https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/minas55/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas55-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="No Mercado Central é possivel encontrar doces e queijos dos mais variados tipos para alimentar o coração." /></a>
<a href='https://apulga.com/a-saudade-e-o-encontro-marcado/minas1/'><img width="1" height="1" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/08/Minas1.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="No primeiro contato com Belo Horizonte, meses antes da mudança, estava sendo realizado um concurso de petiscos." /></a>

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		<title>Sendo estrangeira, não sou estranha</title>
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		<pubDate>Sat, 03 Jan 2015 14:20:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Débora Dias]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; &#8220;A terra que piso é outra e outra é a compleição do comum das gentes que a habitam, as quais me sugerem que, sendo forasteiro, não sou estranho, porque <a class="read-more" href="https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_775" style="width: 710px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-33.jpg"><img class="size-full wp-image-775" alt="Portugal 33" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-33.jpg" width="700" height="525" /></a><p class="wp-caption-text">Coimbra. Foto: Marina Dias Lima.</p></div>
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<p style="text-align: right;">&#8220;A terra que piso é outra e outra é a compleição do comum das gentes que a habitam, as quais me sugerem que, sendo forasteiro, não sou estranho, porque se me tornou afetivamente fluida a fronteira do portuguesismo e da brasilidade&#8221;. Joaquim de Carvalho, historiador da cultura e da filosofia portuguesa, durante conferência apresentada em sua primeira viagem ao Brasil, 1953.</p>
<p>Viajar é diferente de morar. E para se viver em um lugar outro, penso eu, o esforço e a vontade de saber do outro, mantendo o próprio eixo, talvez nunca prescindam. Estrangeira em uma terra onde a língua que falo é a mesma, há três anos habito Portugal. A cada dia tento saber mais da sua complexidade, por vezes me irrito quando não alcanço os porquês, mas na maior parte do tempo é sentir, e aprender pelo sentimento. Agora em Lisboa, vivo em coletivo na cidade mulher luminosa e simpática. De sorriso largo, se abre fácil para os tantos forasteiros que por aqui aportam. É de muitos e não é de hoje que esse ponto privilegiado entre mundos mistura partida, chegada e passagem. Mas altera também fácil o humor, tem seus dias de chuva, e faz pensar na humidade (umidade, no uso do português brasileiro) e aquilo termina. Quando volta radiante e ilumina, é de um céu que desaba contentamento.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Estrangeira em uma terra onde a língua que falo é a mesma, há três anos habito Portugal. Por vezes me irrito quando não alcanço os porquês, mas na maior parte do tempo é sentir, e aprender pelo sentimento.</div></strong></h3>
<p>Dias atrás, em um café, uma pesquisadora indagava sobre o fenômeno dos brasileiros no País em anos de tanta crise. Às levas de trabalhadores, chegam agora os estudantes. Defendi que o argumento da língua é forte, mas não chega perto de explicar, nem de ser o motivo mais importante. Muitos são os caminhos que trazem as pessoas para cá ou que as fazem ficar. Se tiver que escolher, digo que foi porque amava a ideia e, como acontece frequentemente aos amores, idealizava Portugal antes de o conhecer, de aqui alguma vez ter estado. Depois desses poucos anos de convivência, conceitos foram se formando nos prazeres, nas dificuldades e nos aprendizados, e o amor se transformou. De Fortaleza para Lisboa, conheci a solidariedade imigrante, e com ela fui guiada para a estação de comboios, chegando em Coimbra. Na cidade do rio Mondego, era começar o doutoramento, preparar a chegada da filha então com dez anos, tentar uma bolsa que me permitisse ficar mais tempo a viver nesse outro tempo, diferente do que tive. O horizonte era imenso e o agora ainda tão distante. A crise era o futuro que hoje se realiza dramaticamente. E o futuro chegou rápido. A cada ano, as promessas de piora se cumpriam e muito do que o país conquistou após o abril de 1974, com o fim da mais longa ditadura da Europa ocidental, foi reduzido, extinto ou ameaçado. Pessoalmente, após quase um ano de incertezas, chegou do Brasil a tão esperada bolsa de estudos, e com ela a possibilidade institucionalizada de ficar mais. A filha foi se adaptando a um outro jeito de viver e de sentir, mergulhando no que chamamos cultura portuguesa, às vezes parecida, às vezes tão diferente da nossa. Aqui nos descobrimos brasileiras, afirmamos identidades na diferença. Conhecemos mais da África e da Índia, na mistura das gentes. Hoje, aos 13 anos, o aqui é mais dela do que meu.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Fui para o estrangeiro desse estrangeiro, e voltei. Conheci gente, firmei laços, soltei outros, e aconteceu de doer. Foi muito e ainda não foi o bastante.</div></strong></h3>
<p>Nesse tempo, viajamos, acompanhamos as estações, terminei minhas lições na universidade, pesquisei em arquivos, me emocionei até com papel, tinta e o pó. Fui para o estrangeiro desse estrangeiro, e voltei. Conheci gente, firmei laços, soltei outros, e aconteceu de doer. Em outros dias foi a saudade nesse Portugal já tão saudoso em si. De Coimbra mudei para Lisboa e casei com quem já era companheiro de vida e veio para perto. Mudamos de casa em três. Foi muito e ainda não foi o bastante. Vendo os que chegam a cada temporada, revendo os encantos e estranhamentos de chegada, é como se reatualizasse minha condição de imigrante, um pouco mais acomodada a cada ano, mas sabendo que esse tempo está suspenso, à espera de desfecho. Desenlace que talvez nem queira ainda. E o que fica? Muito dos versos de Ricardo Reis, aquele outro do Pessoa.</p>
<p style="text-align: right;">“Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros Onde que quer que estejamos. Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros Onde quer que moremos. Tudo é alheio Nem fala língua nossa. Façamos de nós mesmos o retiro Onde esconder-nos, tímidos do insulto Do tumulto do mundo. Que quer o amor mais que não ser dos outros? Como um segredo dito nos mistérios, Seja sacro por nosso”.</p>
<p style="text-align: right;">9-6-1932</p>
<p style="text-align: right;">Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994).</p>

<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-13/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-13-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 13" /></a>
<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-10/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-10-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 10" /></a>
<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-12/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-12-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 12" /></a>
<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-7/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-7-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 7" /></a>
<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-8/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-8-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 8" /></a>
<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-9/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-9-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 9" /></a>
<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-55/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-55-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 55" /></a>
<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-44/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-44-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 44" /></a>
<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-11/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-11-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 11" /></a>
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<a href='https://apulga.com/sendo-estrangeira-nao-sou-estranha/portugal-33/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Portugal-33-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Portugal 33" /></a>

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		<title>Índia: a estrada mística para a reconciliação</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Dec 2014 21:05:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tatiana Chaves]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; “Tudo isto para que Marco Polo pudesse explicar ou imaginar explicar ou ser imaginado a explicar ou finalmente conseguir explicar a si mesmo que aquilo que ele procurava estava <a class="read-more" href="https://apulga.com/india-a-estrada-mistica-para-a-reconcialiacao/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_742" style="width: 730px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/India12.jpg"><img class="size-full wp-image-742" alt="Garoto imitando o deus-macaco Hanuman, considerado a encarnação do Deus Shiva" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/India12.jpg" width="720" height="480" /></a><p class="wp-caption-text">Garoto imitando o deus-macaco Hanuman, considerado a encarnação do Deus Shiva</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p align="right">“Tudo isto para que Marco Polo pudesse explicar ou imaginar explicar ou ser imaginado a explicar ou finalmente conseguir explicar a si mesmo que aquilo que ele procurava estava diante de si, e, mesmo que se tratasse do passado, era um passado que mudava à medida que ele prosseguia a sua viagem. Porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado, não o passado recente ao qual cada dia que passa acrescenta um dia, mas um passado mais remoto. Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava existir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos. (Ítalo Calvino, As cidades invisíveis)</p>
<p>Sempre gostei muito de viajar. Na verdade, essa é uma das coisas que mais gosto de fazer: conhecer novas paisagens, pessoas, diferentes culturas, experimentar novos sabores; aprender com as cidades, seus fluxos, sua gente e seu modo de viver. Sempre planejei com cuidado os lugares por onde gostaria de passar, pesquisando referências históricas, literárias ou mesmo alguma imagem vista em um filme. Dessa vez foi diferente. Não fui eu que escolhi o destino, a Índia me escolheu.</p>
<p>Tudo bem, eu tive um motivo; pela primeira vez desde a minha primeira aula de <em>ashtanga yoga</em>, em 2005, e depois de muitas idas e vindas, estava praticando diariamente (com exceção dos sábados) de acordo com o que é ensinado em Mysore, ou seja, estava dedicada como nunca antes. Mas isso não me qualificava, em hipótese alguma, a fazer minha primeira viagem para o reduto do <em>ashtanga</em>. Muito pelo contrário: me achava velha demais, com poucos avanços nas posturas e com pouquíssima bagagem filosófica sobre essa prática. Já havia decidido voltar para o Brasil, cuidar da minha casa e do futuro do meu filho (agora em idade de vestibular), após quase um ano e meio vivendo em Dublin. A decisão de ir antes para Mysore (terceira maior cidade do estado de Karnataka, Índia), veio de um <i>insight</i> em uma postura chamada “<em>savasana</em>” (pronuncia-se ‘shavasana’), a postura do cadáver; nada mais simbólico: era preciso deixar morrer aquilo que não mais me pertencia, deixar ir tantas coisas que ainda carregava como um peso, para renascer. Era como uma preparação para voltar para casa, pensei. E mal sabia de que casa se tratava àquela altura.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A decisão de ir antes para Mysore veio de um <i>insight</i> em uma “<em>savasana</em>”, a postura do cadáver: era preciso deixar morrer aquilo que não mais me pertencia, tantas coisas que ainda carregava como um peso, para renascer.</div></strong></h3>
<p>A decisão foi tão impulsiva que comprei minhas passagens e pedi demissão do meu trabalho sem mesmo ter conseguido o visto. Acredito que o Universo sempre conspira a nosso favor quando temos que ir e toda essa parte burocrática foi resolvida sem nenhum contratempo. Coloquei minha mochila nas costas e fui, pela primeira vez, sem nenhuma expectativa, afinal de contas não fazia ideia do que poderia encontrar. E o que encontrei foi uma coleção de sinais que me diziam:  “você está não apenas no lugar certo, você está no caminho certo”.</p>
<p>Não posso falar de toda a Índia, até porque dizem que Mysore é quase uma exceção; posso falar apenas do que vi, e o que presenciei foi um lugar de uma beleza contraditória: uma cidade sem calçadas e com o trânsito mais caótico que já vi, onde trafegam <em>rickshaws</em>, carros, ônibus, bicicletas, vacas, cachorros, pessoas e motocicletas (muitas motocicletas!), mas para cujos moradores o tempo parece passar lento já que possuem uma calma que se contrapõe ao ir e vir frenético das ruas. Um lugar cheio de cores que vibravam nos templos, nos <em>sarees</em> (roupa típica feminina), nas frutas e nas flores. E não só as cores pareciam múltiplas ao meu olhar, mas tudo reverberava mais intenso nos outros sentidos. Ouvi o barulho incessante das buzinas, mas também o som dos pássaros, dos macacos e dos mantras entoados em diversas casas todos os dias antes do sol nascer. Por muitas vezes senti o cheiro do lixo nas ruas e da fumaça dos escapamentos, mas também o perfume de incenso e das flores que servem de oferenda para os deuses e de enfeite nos carros e nas portas das casas. Experimentei sabores exóticos e combinações de especiarias que eu jamais teria tentado sozinha sem saber que daria certo. E como dá certo!</p>
<p>Sim, vi muita pobreza e muita sujeira pelas ruas, mas também uma riqueza cultural e simbólica que está presente em quase tudo: na calçada onde se desenha mandalas assinalando que o local está limpo para que Deus possa entrar; no <em>bindi</em> (ponto usado entre as sobrancelhas) que pode sinalizar adoração ao intelecto ou ser usado como símbolo do casamento; no ato de tirar os sapatos para entrar tanto em casa como em alguns estabelecimentos comerciais; nos pequenos “altares” existentes dentro de cada residência&#8230;</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Na tentativa de entender o outro, precisei antes me concentrar em mim. E então percebi que meu maior desafio não seria viajar sozinha, mas viajar para dentro. Em uma atmosfera tão mística, a Índia me fez um convite de reconciliação comigo e eu aceitei.</div></strong></h3>
<p>Também foi possível perceber uma tradição que tenta se manter a despeito de toda a ocidentalização que vem sofrendo. Uma vez, em uma conversa com a dona da casa onde me hospedei, ela me disse que seu sobrinho (que mora com ela) irá casar no próximo ano e até me convidou para a festa, embora ele ainda não saiba. Perguntei: “se ele não sabe, como é que vai casar?”. Ela me disse que seus pais já estão à procura de uma esposa para ele. Assim que encontrarem farão o mapa astrológico dos dois; se os mapas se combinarem, aí então ele verá a foto da moça e, se gostar, é só marcar a data da cerimônia. Sim, isso ainda acontece por aqui! Eles me mostraram como comer com a mão (sem talheres), me falaram sobre deuses, sobre castas, e me ensinaram a cozinhar. Vi a dedicação deles em seus <em>poojas</em> (adoração, culto) aos seus mestres espirituais e aos seus mortos.</p>
<p>E diante de tanta informação, de tantas diferenças, era preciso me despir de algumas referências para que o novo encontrasse espaço. Foi assim que dei de cara comigo: na tentativa de entender o outro, precisei antes me concentrar em mim. E então percebi que meu maior desafio não seria viajar sozinha, mas viajar para dentro. Talvez por ter, a meu ver, uma atmosfera tão mística, a Índia me fez um convite de reconciliação comigo e eu aceitei.</p>
<p>Nessa viagem me deparei com um enorme sentimento de insegurança de não conseguir dar conta de um mês de prática, de não estar em nível avançado o suficiente, enfim. Obviamente que não foi a primeira vez, mas agora era diferente; resolvi que queria buscar as razões mais profundas desse sentimento em mim. Parei para pensar em todos os momentos em que me senti insegura e observei que a tentativa de acertar sempre com tamanho rigor não escondia apenas um medo de errar, mas de expor aos outros os erros cometidos. E quantas vezes não pautamos nossa existência naquilo que o outro vai pensar de nós? Acolhi minha insegurança e me aceitei com minhas qualidades e defeitos entendendo que isso não me faz melhor nem pior, mas certamente me faz mais humana.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Sinto um profundo amor por tudo o que vivi e por todas as transformações que podem, a partir de agora, me permitir uma vida com menos controle das circunstâncias e mais consciência de quem eu sou.</div></strong></h3>
<p>Me vi ainda atordoada com um medo de ser rejeitada ou, sei lá porque, de não conseguir me entrosar com as pessoas. Todos os meus fantasmas estavam apenas esperando uma oportunidade para me atormentar de uma só vez. Então me lembrei de tantas vezes que me forcei a ser quem eu não era apenas para ser aceita, para fazer parte de um grupo; e pior, com o qual eu não tinha nenhuma identificação. Abracei a menina carente que tantas vezes fui e disse a ela que ninguém precisa viver de migalhas. É de amor que se deve viver.</p>
<p>E como havia iniciado esse mergulho profundo visitei meus erros recentes e antigos sem, desta vez querer justificá-los ou entendê-los. Visitei-os para dizer a mim mesma: “em todos os momentos você tomou a melhor decisão que tinha condições de tomar”. E deixei que meus erros virassem cicatrizes que não doem mais. Também consegui perdoar algumas pessoas que, muitas vezes sem saber, me causaram muita dor. Enviei a cada uma delas muita energia de amor e de gratidão por terem, de alguma forma, me ensinado e ser mais forte. Também remeti, em pensamento, pedidos de perdão e espero sinceramente que sejam acolhidos.</p>
<p>O resumo de tudo isso é que hoje sinto uma imensa gratidão pela minha história; sem aquele orgulho que nos estufa o peito e nos faz pensar que somos melhores que os outros; sem a vergonha que nos diminui e nos humilha e sem também o drama que nos vitimiza. Sinto sim um profundo amor por tudo o que vivi e por todas as transformações que podem, a partir de agora, me permitir uma vida com menos controle das circunstâncias e mais consciência de quem eu sou. Espero estar preparada para voltar para o Brasil, porque para casa eu já voltei e ela sempre esteve dentro de mim.</p>
<p>PS: E aí você me pergunta: “Mas afinal de contas, você avançou na prática do yoga?”. Considerando que yoga não se limita aos ásanas (posturas) e que é uma prática que busca o auto-conhecimento, eu devolvo a pergunta: “O que você acha?”</p>

<a href='https://apulga.com/india-a-estrada-mistica-para-a-reconcialiacao/captura-de-tela-2014-12-03-as-08-54-24/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/Captura-de-Tela-2014-12-03-às-08.54.24-150x150.png" class="attachment-thumbnail" alt="Mulheres cantando Bhagavad Gita" /></a>
<a href='https://apulga.com/india-a-estrada-mistica-para-a-reconcialiacao/india11/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/India11-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Devara Kaadu (bosque sagrado), templo que fica na floresta" /></a>
<a href='https://apulga.com/india-a-estrada-mistica-para-a-reconcialiacao/india88/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/India88-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Poojas (adoração, culto) aos seus mestres espirituais e aos seus mortos" /></a>
<a href='https://apulga.com/india-a-estrada-mistica-para-a-reconcialiacao/india12/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/India12-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Garoto imitando o deus-macaco Hanuman, considerado a encarnação do Deus Shiva" /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=736'><img width="1" height="1" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/India1.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Mandalas desenhadas com giz nas calçadas" /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=734'><img width="1" height="1" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/India3.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Macacos selvagens que vivem nas árvores da cidade" /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=733'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/India4-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="As cores vibrantes no Devaraja Market" /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=731'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/India6-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Chinelos são deixados do lado de fora das casas" /></a>
<a href='https://apulga.com/india-a-estrada-mistica-para-a-reconcialiacao/india7/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/12/India7-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Templos multicoloridos" /></a>

<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Viajar é apreender tudo que a alma pede</title>
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		<pubDate>Fri, 09 May 2014 13:08:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flávia Castelo]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Andarilho]]></category>
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		<description><![CDATA[&#160; O verão estava chegando. Estendi a canga na grama (no inverno, ela virava echarpe), arrumei a mochila (como se fosse um travesseiro) e deitei de bruços – ritual que <a class="read-more" href="https://apulga.com/apreender-tudo-que-a-alma-pede/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_448" style="width: 621px" class="wp-caption alignnone"><img class="size-full wp-image-448  " title="Vista do museu do rio que mostra a cidade portuária de Antuérpia - Flávia Castelo" alt="" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/05/Antuerpia21.jpg" width="611" height="608" /><p class="wp-caption-text">Vista do museu do rio que mostra a cidade portuária de Antuérpia &#8211; Flávia Castelo</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>O verão estava chegando. Estendi a canga na grama (no inverno, ela virava echarpe), arrumei a mochila (como se fosse um travesseiro) e deitei de bruços – ritual que anunciava uma tarde de estudos numa espécie de parque-museu (Middelheim) da Antuérpia. Fiquei observando a coreografia em que as nuvens e os galhos das árvores competiam. Era uma dança em tons de azul, marrom e verde, com pinceladas brancas e cortes de raios dourados, que me hipnotizava muito mais pela intensidade das cores do que pelo próprio movimento. Eu me perguntava por que, apesar da distância dos meus, tudo era tão mais belo, leve e vivo. Fiquei realmente impressionada com as nuances da vida local e quase todos os dias, durante aquele ano em que morei na Bélgica, (me) fiz a mesma pergunta (ou alguma de suas variações): Por que as flores aqui são mais coloridas, têm mais vitalidade? Por que eu tenho vontade de comer cada ‘casinha’ que vejo? Até o branco da faixa de pedestre e o vermelho da ciclovia são encantadores (e convidativos). Todo mundo quer andar por eles! Pedestres e ciclistas. Nesta ordem e organizadamente. Por que, sempre que eu chego de viagem, levanto a cabeça para o alto, percebo todo o esplendor da Estação Central (um dos principais cartões postais da cidade dos diamantes, cervejas, waffles e chocolates) e, contraditoriamente, me surpreendo e me sinto em casa?</p>
<p>Morei no país sede das grandes organizações internacionais, entre 2012 e 2013, para responder a algumas questões de uma pesquisa acadêmica e voltei com mais dúvidas do que eu poderia imaginar. Simplesmente porque a viagem extrapolou a biotecnologia, meu tema de estudo. E considerando que é tendo dúvida que se aprende, penso que apreendi muito. Com dois ‘Es”, mesmo. Apreendi a (con)viver comigo, sozinha. E aprendi a ser (minha) melhor companhia. Descobri que os rituais podem (e devem) ser feitos, especialmente, para mim, sem qualquer testemunha. Que eu posso comprar um bom vinho, preparar a banheira e revezar meus pensamentos com o observar das flores dançando na água morna espumante ou, tranquilamente, imaginar as combinações dos ingredientes (que passei a manhã escolhendo na feira) do jantar de logo mais. Jantar preparado por mim. E para mim. Só para mim.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Entendi, na prática, que a distância entre arrumar a própria casa e se sentir bem e segura na rua, a qualquer hora, é bem menor do que entre a das bocas de jovens apaixonados.</div></strong></h3>
<p>Não, não estou cultuando o egoísmo. Fico descabelada com essa moda besta de olhar para o próprio umbigo. Apenas tive contato comigo mesma durante mais tempo do que tinha tido até então. Percebi mais a cidade também. E as pessoas. Não como ainda sinto ‘perceberem’ por aqui. Lá não importava se você ganhava um salário mínimo ou cem mil por mês. Se a roupa foi herdada ou comprada em boutique. Se você era gordo ou magro. Preto, branco ou amarelo. Todos sentavam lado a lado, no transporte público, pontual e, mesmo com tudo falado e escrito em holandês, bem fácil de entender sua metodologia e percursos. Andavam pelas mesmas praças, sentavam nos mesmos bancos, pedalavam as mesmas bicicletas.</p>
<p>Entendi, na prática, que a distância entre arrumar a própria casa e se sentir bem e segura na rua, a qualquer hora, é bem menor do que entre a das bocas de jovens apaixonados. Até descobri (mais) um dos meus ‘eus’ &#8211; sou geminiana! A Flavilene. Ela é minha versão ‘dona de casa exemplar’: ela, digo eu, colocava uma sainha azul, camiseta branca e batom vermelho no melhor estilo liberte, égalité, fraternité e com o inseparável amigo daqueles momentos &#8211; o aspirador de pó &#8211; ela ouvia do rock ao brega tão alto quanto a vizinhança permitia. E deixava tudo brilhando. Se eu fosse pagar para alguém fazer o serviço, seria mais caro do que a minha diária como bolsista de doutorado. E, certamente, não teria a mesma sensação de andar a noite, sem companhia do sexo oposto, pelas ruas fotografando tudo o que meus olhos (ou alma) pediam.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Não temos as estações do ano bem definidas que trazem com mais clareza as mudanças de cores e humores. Mas, podemos pintar um quadro (mais) bonito e, de preferência, bem (mais) louco.</div></strong></h3>
<p>Digo tudo isto (pelo saudosismo também) não porque acredito existir uma cidade melhor do que a minha. Também acho que não precisamos ir à India para nos encontrar. O contato consigo pode acontecer no banheiro de um bar. Digo para lembrar que a gente aprende tanto com as pessoas, apreende tanto com as cidades, desconstrói tantas certezas e multiplica tantas dúvidas, que podemos nos questionar o que estamos fazendo com Fortaleza e o que ela está fazendo conosco. Ela está nos ensinando a lição errada ou nós não estamos prestando atenção? Não temos as estações do ano bem definidas que trazem com mais clareza as mudanças de cores e humores. Mas, podemos pintar um quadro (mais) bonito e, de preferência, bem (mais) louco. Afinal, quem é que quer viver com a falta de esperança que a normalidade nos traz?</p>
<p>Vou já atualizar o passaporte e colocar o pé na estrada! Quando eu voltar, tudo estará exatamente como deixei. A única coisa diferente será eu mesma. Melhor, o meu olhar. Afinal, não existe uma metamorfose ambulante como a do viajante.</p>
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<a href='https://apulga.com/apreender-tudo-que-a-alma-pede/antuerpia13-2/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/05/Antuerpia13-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Vista de uma das janelas da minha sala, num dia de feira - sistematicamente a vizinhança se reunia com seus usados para vender ou trocar" /></a>
<a href='https://apulga.com/apreender-tudo-que-a-alma-pede/antuerpia14/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/05/Antuerpia14-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Groenplaats, mostrando uma das inúmeras fachadas dedicas as cervejas belgas" /></a>
<a href='https://apulga.com/apreender-tudo-que-a-alma-pede/antuerpia11/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/05/Antuerpia11-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Trecho de uma ruazinha secreta (porque não dá pra saber que é rua. a impressão é que é privada, já que é bem escondidinha e tem portões para entrar e sair) mas é uma ruazinha sim, de pedestres, onde estão alguns restaurantes e residências. Dois dos meus favoritos ficam lá e recebe o nome de um dos filhos da cidade: Sir Van Dyck" /></a>
<a href='https://apulga.com/apreender-tudo-que-a-alma-pede/antuerpia10/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/05/Antuerpia10-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Um dos campus da Universidade da Antuerpia" /></a>
<a href='https://apulga.com/apreender-tudo-que-a-alma-pede/antuerpia9/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/05/Antuerpia9-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Esta foto é na equivalente à av. Beira Mar de Fortaleza. É um muro que percorre toda a rua na qual tem uma poesia chamada universal. Estes prédios são  restaurantes e discotecas." /></a>
<a href='https://apulga.com/apreender-tudo-que-a-alma-pede/antuerpia8/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/05/Antuerpia8-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="livinha e eu na nossa cozinha, sendo flagradas discutindo (ou fazendo biquinho???) pelo meu irmão caçula" /></a>
<a href='https://apulga.com/apreender-tudo-que-a-alma-pede/antuerpia6/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/05/Antuerpia6-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Grote market -  a praça onde fica a Câmara e esta fonte (com a estátua de Brabo, um soldado romano que matou o gigante do Rio Escalda que cobrava taxas para navegação. Brabo arremessou a mão do gigante no rio, o que deu origem ao nome da cidade de Antuérpia)." /></a>
<a href='https://apulga.com/apreender-tudo-que-a-alma-pede/antuerpia5/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/05/Antuerpia5-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Centraal Station, um dos principais cartões postais da cidade" /></a>
<a href='https://apulga.com/apreender-tudo-que-a-alma-pede/antuerpia4/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/05/Antuerpia4-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Um dos pontos de bike. Na Meir, algo como a Monsenhor Tabosa de Fortaleza." /></a>
<a href='https://apulga.com/apreender-tudo-que-a-alma-pede/antuerpia3/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/05/Antuerpia3-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Middellheim, o parque" /></a>
<a href='https://apulga.com/apreender-tudo-que-a-alma-pede/antuerpia2/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/05/Antuerpia2-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Vista do museu do rio que mostra a cidade portuária de Antuérpia" /></a>
<a href='https://apulga.com/apreender-tudo-que-a-alma-pede/antuerpia1/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/05/Antuerpia1-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Por do sol, inverno, rio Scalda" /></a>

<h3></h3>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>A mudança da paisagem interna</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Mar 2014 14:35:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tatiana Chaves]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Andarilho]]></category>
		<category><![CDATA[Viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;De uma cidade não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas as respostas que dá às nossas perguntas&#8221; (Ítalo Calvino). Quando se decide viver em outra cidade, <a class="read-more" href="https://apulga.com/a-mudanca-da-paisagem-interna/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<address>
<div id="attachment_112" style="width: 1210px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2013/12/a-pulga-andarilho-01-05-small.jpg"><img class="size-full wp-image-112 " title="Arte - Tatiana Chaves" alt="" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2013/12/a-pulga-andarilho-01-05-small.jpg" width="1200" height="800" /></a><p class="wp-caption-text">Arte &#8211; Tatiana Chaves</p></div>
</address>
<address><em>&#8220;De uma cidade não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas as respostas que dá às nossas perguntas&#8221; (Ítalo Calvino).</em></address>
<p>Quando se decide viver em outra cidade, uma das primeiras perguntas que surgem é: qual é o meu objetivo? Sim a pergunta é reta e sisuda demais para dizer sobre o que nos move. Lembro que todas as vezes que pensei em me mudar de cidade, ou que me mudei efetivamente, fui motivada por um desejo. Desejo de viver com qualidade, de morar em um lugar mais bonito, de conhecer novas pessoas, de rever tantas outras, de aprender um idioma. Olhar para uma cidade e imaginar-se nela é experienciá-la como imagem possível, como sonho. E ainda que a cidade já seja conhecida, enquanto não se chega ao destino, é o desejo que conduz a imaginação e dá forma a uma cidade latente porque ainda não habitada.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É o uso que nos dá a noção do modo de ser da cidade e dos seus moradores. Viver a cidade é reconhecê-la, é ler as sutilezas do seu dia-a-dia e traduzi-la.</div></strong></h3>
<p>Mas a despeito do desejo que nos impulsionou, o que se acontece quando se está longe de onde estávamos acostumados, seja em outra cidade, seja em outro país, é antes de tudo nos darmos conta das mudanças que acontecem conosco de uma forma extremamente visceral, mas que só é possível perceber quando nossas referências também mudam. Não é apenas uma mudança de paisagem externa, não é apenas uma mudança geográfica, é, isso sim, uma mudança na paisagem interna.</p>
<p>Não há termos de comparação em uma cidade estranha. Os olhos percorrem as ruas em busca de representações que soem familiares, mas as referências não estão lá. Por outro lado, estar sem referências é também possuir uma página em branco, onde o corpo risca seu movimento e ao fazê-lo cria seus mapas, espacialidades, desenhos necessários ao aprendizado cotidiano, numa linguagem não-verbal de onde emergem sua relação com o outro e com o ambiente. É o uso que nos dá a noção do modo de ser da cidade e dos seus moradores. Viver a cidade é reconhecê-la, é ler as sutilezas do seu dia-a-dia e traduzi-la.</p>
<p>É a partir daí que se estabelece uma percepção possível da cidade através dos seus fragmentos de imagem. Possível porque a percepção é em grande parte um ato de criação e imaginação, já que as informações nunca são percebidas como um espelho do real e, quando traduzidas, ganham novos contornos, ou seja, apreender a cidade é também recriá-la.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Não há objetivo a ser atingido, mas uma busca interminável por descobrir-se. Busco em outras cidades porções de mim que foram perdidas ao longo do tempo.</div></strong></h3>
<p>Nasci em São Paulo, me mudei para Fortaleza aos 17 anos, voltei para São Paulo para fazer Mestrado, voltei para Fortaleza e hoje moro em Dublin. Entre essas idas e vindas ainda busquei outras cidades para flanar, aprender, trocar.</p>
<p>E neste ato de troca entre mim e a(s) cidade(s), ela(s) me surpreende(m) com uma possível reposta para a pergunta sobre o objetivo de se viver em outro lugar: não há objetivo a ser atingido, mas uma busca interminável por descobrir-se. Busco em outras cidades porções de mim que foram perdidas ao longo do tempo, partes daquilo que me compõe, pedaços de histórias que nem sabia existir, mas que de uma certa forma ajudaram a construir a minha própria. Mudo de cidade, procuro novas paisagens, novos horizontes e novos aprendizados, porque mais do que uma vida longa, espero ter uma vida larga.</p>
<p>&nbsp;</p>

<a href='https://apulga.com/a-mudanca-da-paisagem-interna/a-pulga-andarilho-01-03-nova/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2013/12/a-pulga-andarilho-01-03-nova-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="“Diga-lhes que esta vida não cessou de me maravilhar.” (Wittgenstein)" /></a>
<a href='https://apulga.com/a-mudanca-da-paisagem-interna/a-pulga-andarilho-01-09-small/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2013/12/a-pulga-andarilho-01-09-small-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Na história do país, o que pesa mais?" /></a>
<a href='https://apulga.com/a-mudanca-da-paisagem-interna/a-pulga-andarilho-01-08/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2013/12/a-pulga-andarilho-01-08-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Jardins" /></a>
<a href='https://apulga.com/a-mudanca-da-paisagem-interna/a-pulga-andarilho-01-07/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2013/12/a-pulga-andarilho-01-07-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Promessas de amor" /></a>
<a href='https://apulga.com/a-mudanca-da-paisagem-interna/a-pulga-andarilho-01-06-small/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2013/12/a-pulga-andarilho-01-06-small-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="“A alma nasce velha e se torna jovem.” (Oscar Wilde)" /></a>
<a href='https://apulga.com/a-mudanca-da-paisagem-interna/a-pulga-andarilho-01-05-small/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2013/12/a-pulga-andarilho-01-05-small-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Arte" /></a>
<a href='https://apulga.com/a-mudanca-da-paisagem-interna/a-pulga-andarilho-01-04-small/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2013/12/a-pulga-andarilho-01-04-small-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Let&#039;s dance" /></a>
<a href='https://apulga.com/a-mudanca-da-paisagem-interna/a-pulga-andarilho-01-02/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2013/12/a-pulga-andarilho-01-02-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Contemplação" /></a>
<a href='https://apulga.com/a-mudanca-da-paisagem-interna/a-pulga-andarilho-01-01-small/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2013/12/a-pulga-andarilho-01-01-small-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="As cores batem à porta" /></a>

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