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	<title>A Pulga &#187; Avulsa</title>
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	<description>Um coletivo diletante de ideias</description>
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		<title>Marx sempre esteve certo</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Apr 2020 20:29:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Naiana Rodrigues]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quem diria que precisaríamos viver uma pandemia, uma crise sanitária de alcance global, para olhar para a sociedade com mais cuidado e perceber que “tá tudo errado”. Consumismo, individualismo e <a class="read-more" href="https://apulga.com/marx-sempre-esteve-certo/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2020/04/marx-popart.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1940" alt="marx-popart" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2020/04/marx-popart.jpg" width="700" height="454" /></a></p>
<p>Quem diria que precisaríamos viver uma pandemia, uma crise sanitária de alcance global, para olhar para a sociedade com mais cuidado e perceber que “tá tudo errado”. Consumismo, individualismo e desigualdade de renda caíram na conta da negatividade social, pois eram situações com as quais já convivíamos e que se tornaram praticamente insuportáveis e abomináveis para muitos quando a morte por Covid-19 se tornou uma ameaça real e imediata. Por outro lado, esse mesmo temor direcionou os olhares para dimensões e instituições sociais que vinham em um processo de desgaste, de perda de credibilidade há tempos.</p>
<p>A ciência, o jornalismo e o trabalho compõem o que considero a tríade dos humilhados que se revelou essencial para manter a vida hoje, entendida aqui nos sentidos biológico e cultural. Cada elemento desse trio está envolto em uma miríade de sentidos contraditórios que se amalgamam à vida cotidiana em tempos de pandemia e isolamento social. Em razão da celebração do primeiro de maio, é interessante apontar a lupa da conscientização para o trabalho, pivô de embates com os quais nos deparamos na cobertura midiática, nas chamadas de vídeo com amigos e parentes, no supermercado, na farmácia e na portaria do prédio na hora de pegar o alimento comprado via aplicativo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Consumismo, individualismo e desigualdade caíram na conta da negatividade social, pois eram situações com as quais já convivíamos e que se tornaram insuportáveis quando a morte por Covid-19 se tornou uma ameaça.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O trabalho está em todos os lugares, não foi à toa, portanto, que Karl Marx e seus leitores, como György Lukács, enunciaram que o trabalho é o que dá sentido à vida do homem em sociedade. Para o velho barbudo e para os materialistas de plantão é pelo trabalho que o homem se diferencia dos demais seres vivos, pois através do trabalho, o homem transforma a realidade e essa transformação tem como objetivo garantir as condições materiais de existência e sobrevivência do próprio homem. Em resumo, o trabalho está no cerne da nossa própria definição de humanidade.</p>
<p>Os marxistas sempre defenderam a centralidade social do trabalho, até porque o trabalho é o que dá forma às mercadorias e serviços, sendo a peça-chave para a operação do sistema capitalista. Porém, por mais que eles tenham gritado a plenos pulmões que o trabalho importa, e muito, para a sanidade social, isso não impediu que o menino labor fosse humilhado pelo próprio sistema que dele depende. A tecnologia, a informação e o conhecimento já se insurgiram reclamando para si o posto de catalisadores da centralidade social. E conseguiram, a despeito de o trabalho estar sempre lá, dizendo que, sem ele, não há tecnologia, não há informação e nem conhecimento.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Para o velho barbudo e para os materialistas de plantão é pelo trabalho que o homem se diferencia dos demais seres vivos, pois através do trabalho, o homem transforma a realidade e essa transformação tem como objetivo garantir as condições materiais de existência e sobrevivência do próprio homem.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Da arena de disputas epistemológicas para o campo político, o trabalho se tornou um objeto da batalha discursiva que vem sendo travada em plena pandemia. Para o presidente da república, a defesa do trabalho virou sua plataforma de flexibilização do isolamento social. Quando o presidente diz: as pessoas precisam trabalhar! Ele deixa subentendido que não quer se responsabilizar pela geração de renda para a população que deve ficar em casa. A classe-que-vive-do-trabalho no Brasil, como diria o sociólogo Ricardo Antunes, é heterogênea em sua composição, mas homogênea em sua constituição precarizada. Portanto, ficar em casa para muitos desses trabalhadores significa perder a renda parcial ou totalmente e para outros sentir os efeitos deletérios da precarização.</p>
<p>A classe média composta por professores, servidores públicos, jornalistas e uma diversidade de profissionais que podem ficar em casa, sentem, muitos pela primeira vez, os efeitos contraditórios do trabalho em home office, da educação a distância, das reuniões por chamadas de vídeo, da cobrança por produtividade. A tal da tecnologia que tanto nos ajuda nas interações cotidianas também pode ser carrasca quando se alia a objetivos profanos. É o que experimentam esses trabalhadores, para quem a renda pode até não faltar, mas para os quais sobra a intensificação do trabalho com o aumento das horas trabalhadas ou o aumento da quantidade de atividades realizadas durante a jornada de trabalho.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Para o presidente da república, a defesa do trabalho virou sua plataforma de flexibilização do isolamento social. Quando o presidente diz: as pessoas precisam trabalhar! Ele deixa subentendido que não quer se responsabilizar pela geração de renda para a população que deve ficar em casa.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Em outra frente, há ainda os trabalhadores de plataformas, os famosos entregadores dos aplicativos e motoristas de uber, que continuam ziguezagueando nas ruas e desviando do vírus para garantir o sustento diário. Esses sim conhecem bem a cartilha da precarização, pois se submetem às empresas de plataforma que tentam fazê-los acreditar que estão se liberando do fardo de ser assalariados para se tornarem “homens-empresas”, indivíduos que governam suas vidas como se estivessem gerindo uma empresa. Mas, em vez de autonomia e prosperidade, esses trabalhadores de plataformas encontram sofrimento, servidão e, agora, o risco de contágio por coronavírus. Recentemente, essa situação foi bem exposta pelo programa do humorista Gregório Duvivier, em uma narrativa com toques de ironia e “comunismo” que destaca a crueldade das plataformas.</p>
<p>Frente todas essas circunstâncias, pode não fazer sentido a celebração do primeiro de maio. Mas o que o simbolismo da data nos remete é que não podemos perder de vista a centralidade social do trabalho. Quando as camadas de irrelevância da vida cotidiana começam a cair, o trabalho sobra no terreno da essencialidade. Mesmo que seu sentido remeta hegemonicamente a sofrimento, precarização e crise, sem ele, não há capitalismo nem sociedade. E somente com ele será possível reerguer o mundo em bases menos danosas e mais justas. Nos pós-apocalipse da pandemia, o que nos resta é o trabalho.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Quando as camadas de irrelevância da vida cotidiana começam a cair, o trabalho sobra no terreno da essencialidade. Mesmo que seu sentido remeta hegemonicamente a sofrimento, precarização e crise, sem ele, não há capitalismo nem sociedade.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Os sobreviventes terão, portanto, a árdua tarefa de forjar novos sentidos para o trabalho, desatrelando-o do consumismo, do individualismo e do espírito do capitalismo. E fortalecendo o significado ontológico do trabalho. Na prática, isso implica na assunção de que por meio do trabalho o indivíduo se conecta com a sociedade e que ele não pode se identificar com a empresa, estas que não podem mais lucrar indistintamente sobre a exploração da força de trabalho, força de trabalho humano essa que precisa do retorno das garantias sociais, extintas com as reformas trabalhistas. Garantias que, por sua vez, só serão asseguradas com a organização coletiva dos trabalhadores. Assim, um novo projeto de sociedade, quiçá de humanidade, pode se desenhar tendo como horizonte valores coletivos e solidários &#8211; comunistas, dirão muitos.</p>
<p>Afinal, antes mesmo da pandemia, o capitalismo, por meio da exploração, da precarização e da flexibilização do trabalho já vinha nos matando aos poucos. A sobrevivência material e social da humanidade, portanto, depende sim do trabalho e de como vamos defendê-lo e requalificá-lo, sem as firulas discursivas do mundo corporativo, mas com a certeza de que a emancipação do trabalho é a emancipação da vida como um todo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Ideologia: eu quero uma pra viver mesmo!</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Mar 2018 16:13:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Naiana Rodrigues]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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		<description><![CDATA[Todo dia rompemos uma barreira rumo à intolerância. Marielle, presente! Anderson, presente! Quantos não sabemos os rostos? Os nomes? A gente grita, mas é preciso olhar o fundo, ver de <a class="read-more" href="https://apulga.com/ideologia-eu-quero-uma-pra-viver-mesmo/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p dir="ltr"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/HandsNaiana2.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1777" alt="HandsNaiana2" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/HandsNaiana2.jpg" width="750" height="500" /></a></p>
<p dir="ltr">Todo dia rompemos uma barreira rumo à intolerância. Marielle, presente! Anderson, presente! Quantos não sabemos os rostos? Os nomes? A gente grita, mas é preciso olhar o fundo, ver de onde brota essa violência, olhar as palavras que já escrevemos sobre ela. Para trazer essa questão para um plano mais próximo, lembro do um episódio ocorrido no final de janeiro de 2018. Nessa ocasião, o Benfica, bairro universitário da Capital cearense, mais uma vez foi cenário de manifestações de violência de cunho racista e homofóbica. Um refúgio até bem pouco tempo atrás considerado seguro para estudantes e pessoas gays, lésbicas, trans e bissexuais que se encontravam, aos fins de semana, em uma das pracinhas do bairro para tomar seu bom vinho barato, fumar seu baseado e paquerar, o lugar foi visitado por um grupo de homens brancos e negros também intitulados como “Carecas do Brasil” que diziam panfletar contra as drogas no bairro. O resultado dessa visita foi um jovem negro notadamente homossexual agredido.</p>
<p dir="ltr">O fato rapidamente circulou pelo Facebook. Não só o relato da agressão, mas as fotos e perfis dos carecas foram facilmente revelados pela inteligência coletiva. Na esteira da audiência na rede e das cobranças de justiça, os jornais locais se dedicam a entrevistar os carecas. Uma repórter, inclusive, presenciou, durante a realização da entrevista, uma cena de violência contra eles, ao que o jornal responde com um artigo que finaliza conclamando a oferta de flores para os agressores que naquele momento foram vítimas de violência.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">E todos temos uma, seja ela libertária, opressora, religiosa ou laica. A ideologia é inerente ao ser humano e assumir isso e não mascarar a existência de diferentes correntes ideológicas já é um grande passo para o empoderamento político.</strong><strong></div></strong></h3>
<p dir="ltr">Apesar da explanação do acontecimento e de sua cobertura jornalística, me abstenho aqui de realizar uma análise jornalística do fato &#8211; em sala de aula, já tenho espaço para fazer isso &#8211; mas quero apenas chamar a atenção para a aparição de condutas fascistas em nosso cotidiano, aqui, bem pertinho da gente. São atos e discursos violentos que expressam nada mais, nada menos que ideologias, conjunto de ideias forjadas em um tempo histórico, em uma dada cultura, por um grupo social com vistas ao alcance de uma posição hegemônica na sociedade.</p>
<p>E todos temos uma, seja ela libertária, opressora, religiosa ou laica. A ideologia é inerente ao ser humano e assumir isso e não mascarar a existência de diferentes correntes ideológicas já é um grande passo para o empoderamento político. Quanto mais se nega sua própria filiação ideológica (bem diferente de filiação partidária), mas se fica suscetível ao domínio ideológico de outrem, de uma maioria, de quem está no poder.</p>
<p>Essas reflexões em torno de ideologias e de como estas quando assumem o lugar hegemônico podem se tornar tiranas estão me perturbando intelectualmente desde que reli pela segunda vez a obra 1984, de George Orwell, e terminei a primeira temporada da série The Handmaid’s Tale, inspirada no livro homônimo da escritora Margaret Atwood.</p>
<p>Ambas, com focos diferentes, tratam da ascensão de governos totalitários. O livro de Orwell, com fim bem pessimista (não darei spoilers, calma!), mostra um futuro em que a história é constantemente manipulada. As notícias dos jornais são alteradas com vistas a terem sempre um caráter favorável ao partido. Esse controle da verdade social e discursiva relaciona-se, ao meu ver, com a propagação de fake news na atualidade, sobretudo, em épocas de disputas eleitorais. A noção de verdade se altera em 1984, assim como ela tenta ser alterada nas redes sociais em 2018.</p>
<p dir="ltr">A redução da linguagem a um vocabulário enxuto e livre de ambiguidades, de metáforas, de analogias e paradoxos foi algo que me assustou também no livro de Orwell. A orquestração da nova linguagem com palavras que expressam um conceito apenas e a definição direta de seu antônimo, me move a relacionar esse cerceamento intelectual a episódios recentes de censura de exposições artísticas, vendo a arte como uma linguagem, a mais transgressora delas, diga-se de passagem.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Esse controle da verdade social e discursiva relaciona-se, ao meu ver, com a propagação de fake news na atualidade, sobretudo, em épocas de disputas eleitorais. A noção de verdade se altera em 1984, assim como ela tenta ser alterada nas redes sociais em 2018.</strong><strong></div></strong></h3>
<p dir="ltr">Privar a expressão do pensamento é um dos primeiros artifícios dos governos autoritários. Mas limitar essa expressão em seu nascedouro, pois sem palavras, em uma cultura ainda tipográfica, como afirmou McLuhan, é minar o pensamento em sua gênese, pois sem saber o que dizer, como significar aquilo que se pensa, o que vou enunciar? Resta apenas o sentir. A luta no livro do sistema com o protagonista, que ousou enunciar seu pensamento contrário, mesmo de modo sigiloso, é exatamente em domesticar o sentir.</p>
<p>A domesticação, aliás, é o tema recorrente na série adaptada do livro de Atwood. A premissa central da obra trata de uma revolução ocorrida nos EUA orquestrada por um grupo reacionário que se ampara em preceitos religiosos para governar. A quebra da laicidade da política é outro fator que a ficção enfatiza e que observamos claramente no Congresso brasileiro. A bancada evangélica se organiza e fortalece para disputar mais espaços no pleito de 2018. Vale ressaltar que a mulher, seja para os pastores brasileiros no poder, ou para os homens de Gilead em The Handmaid’s Tale, é ainda a personificação do pecado. Tanto que, na série, uma das primeiras ações impetradas pelo grupo revolucionário é a demissão de todas as mulheres de seus empregos e o fechamento de suas contas bancárias, fazendo-as ficarem dependentes dos homens, sejam maridos, pais, irmãos ou amigos. Ideia que um Bolsonaro da vida não hesitaria em colocar em prática.</p>
<p dir="ltr">Na distopia audiovisual, a mulher fértil (guerras nucleares e empreendimentos médicos deixaram a população infértil no mundo da ficção) deve contribuir para o repovoamento da nova nação sendo uma aia, serva que permanece sob os cuidados de uma família (de homens do alto escalão do governo) até que gere um filho que será cuidado pela família. Vale destacar que a concepção consiste em um ritual realizado no dia fértil da aia, na presença da esposa, em um ato que claramente se caracteriza por um estupro. A dominação do corpo feminino e a legitimação do estupro como parte de um ritual sagrado e político é também assustador e que, em certa medida, é algo com o que vivemos dia após dia em uma sociedade de regime supostamente democrático.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Ser feminista é a ideologia que me salva todos os dias. Mas é aquela que também pode me conduzir a um exílio, à prisão ou à morte caso um regime totalitário se instaure no Brasil. É o risco de assumir um posicionamento perante o mundo. Ficar à deriva não é mais uma opção.</strong><strong></div></strong></h3>
<p dir="ltr">O corpo feminino é explorado pelas indústrias cultural, médica e da beleza e a cultura do estupro se manifesta em músicas, em discursos e em atos violentos praticados por homens que reproduzem o machismo estrutural, inclusive em ambientes considerados intelectualmente elevados como a universidade.</p>
<p dir="ltr">Nunca as distopias, para mim, foram tão próximas do presente como agora. Daí porque escolhi abrir esse texto com um fato real, para chegar nas ficções, mas o qual poderia aparecer na ficção, assim como os fatos da própria ficção podem surgir na realidade. E o que isso nos indica? Que as ideologias reacionárias se fortalecem mundo afora. Que os fascismos se avizinham (uso o plural, pois cada um tem sua particularidade, ora alinhado às religiões, ora ao próprio capital) e que um posicionamento ideológico da nossa parte é necessário, para, como já cantava Cazuza, vivermos.</p>
<p>Ser feminista é a ideologia que me salva todos os dias. Mas é aquela que também pode me conduzir a um exílio, à prisão ou à morte caso um regime totalitário se instaure no Brasil. É o risco de assumir um posicionamento perante o mundo. Ficar à deriva não é mais uma opção, pois lá do outro lado, eles se assumem como carecas, skinheads, evangélicos, de direita. E enquanto negarmos a ideologia por uma suposta neutralidade ou imparcialidade, eles continuarão sendo maioria e dispostos a agredir e aniquilar quem consideram opositores. Não vou entrar no mérito da violência por quem se afirma libertário ou minimamente partidário pelos direitos humanos, mas o confronto está próximo, e a força física, infelizmente, será necessária, mas por enquanto, quero apenas poder sentir com mais afinco o despertar da força ideológica, das ideias, mesmo, pois sem elas, não há motivação nem mobilização.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Gordofóbicos passam!</title>
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		<pubDate>Tue, 25 Oct 2016 14:47:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Naiana Rodrigues]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Machistas não passarão! Homofóbicos não passarão! Essas frases já devem ter ecoado alguma vez na sua timeline como palavras de ordem de algum movimento feminista ou de causa LGBT. Elas <a class="read-more" href="https://apulga.com/gordofobicos-passam/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/10/Avulsa-5-gordofobia3.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1513" alt="avulsa-5-gordofobia3" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/10/Avulsa-5-gordofobia3.jpg" width="700" height="579" /></a></p>
<p>Machistas não passarão! Homofóbicos não passarão! Essas frases já devem ter ecoado alguma vez na sua timeline como palavras de ordem de algum movimento feminista ou de causa LGBT. Elas emergem em um cenário em que as disputas simbólicas se aguçam e a violência se espraia e no qual a opressão se torna insuportável. Se por um lado cresce a intolerância de grupos religiosos e pessoas de orientação conservadora (para não dizer fascista) para com a desconstrução dos gêneros binários ou mesmo o empoderamento feminino; por outro, cresce também nossa intolerância com a opressão, a violência, mas não só a física, também aquela que se manifesta de forma hostil no cotidiano. Esse tipo de violência está na telenovela, na piada do stand up comedy, no rótulo do produto de beleza, no xingamento do motorista parado no trânsito, na academia, na discussão da relação, está em mim e em você. Todos somos vítimas e, às vezes, algozes quando reproduzimos práticas e discursos que não oprimem apenas o outro, mas a nós mesmos. Na esteira dessa esquizofrenia entre opressor e oprimido emerge um movimento que combate a gordofobia. Nunca ouviu falar ou leu sobre? Pois vamos lá!</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Todos somos vítimas e, às vezes, algozes quando reproduzimos práticas e discursos que não oprimem apenas o outro, mas a nós mesmos. Na esteira dessa esquizofrenia entre opressor e oprimido emerge um movimento que combate a gordofobia.</div></strong></h3>
<p>Agregado à pauta do feminismo, o movimento contra o preconceito, hostilização e constrangimento de pessoas pelo simples fato de serem gordas ainda não tem a expressividade que merecia. Essa timidez política e ausência de campanhas com #gordofóbicosnãopassarão talvez se deva à própria natureza da violência e do preconceito em questão, cuja agressividade, muitas vezes, se mascara na brincadeira e até mesmo no conselho da “miga” sobre a dieta do momento. Porém, isso não nos impede de ficarmos alertas ao menor sinal dos discursos gordofóbicos que se materializam em práticas as quais submetem o corpo a maus tratos desnecessários em prol de um ideal de beleza inexistente, ficcional, construído graças à destreza do editor de imagens que fez aquele curso massa de Photoshop e aos devaneios de consumo de uma indústria de massa. Assim como o machismo, a gordofobia está entranhada na cultura e, pior, legitimada por ela. As indústrias da moda e da beleza que o digam, responsáveis pela popularização de padrões de corpos cuja qualidade primeira é a magreza exacerbada. Daí a tristeza de dezenas de milhares de mulheres que entram no provador de uma fast fashion e saem com a autoestima nas profundezas do núcleo da terra porque experimentaram a loja inteira e nada caiu bem no seu corpo real, de trabalhadora, mãe, professora, estudante… Ah, mas existem as lojas plus size. Apesar de ser cliente de marcas assim, olho pra elas com “rabo de olho”, isso porque aquele mesmo mercado que exclui a mulher com corpo “fora do padrão” inclui a consumidora “com curvas protuberantes” criando um segmento considerado de nicho e cobrando, muitas vezes, preços absurdos. E não vou nem entrar no mérito das publicidades das marcas com modelos que passam longe do que é ser plus size. Enfim, pagamos um preço alto por não vestir 38.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Quando você afirma que não quer comer para não engordar, é como se você estivesse dizendo “não quero comer para não ficar doente” ou “não quero comer para não ficar feia”.</div></strong></h3>
<p>Vindo do mercado, nada me assusta ou estranha, porque ele é escroto mesmo e é honesto, quer lucrar. O que mais me incomoda são as relações de poder que se constroem na ostentação do corpo perfeito, nas restrições alimentares, nas relações pessoais. Não, eu não sou fofa, não sou cheinha, sou gorda, sou saudável e não preciso do seu conselho de emagrecimento. E você, amiga feminista, engajada e magra magoa a amiga gorda toda vez que senta ao lado dela no café e solta um “ah, não vou comer nada para não engordar”, “aqui só tem comida gorda” ou “nossa, você precisa emagrecer, é questão de saúde”. Para bom analista do discurso, uma única frase basta. Quando você afirma que não quer comer para não engordar, é como se você estivesse dizendo “não quero comer para não ficar doente” ou “não quero comer para não ficar feia”. E mais, por acaso, você já recomendou a uma pessoa magra engordar para ficar saudável? Loucura, nóia da minha parte? Seja honesta com você mesma e admita que já pensou isso ou fez isso. Quer afirmação mais gordofóbica do que “miga, você está linda, está magra! Fez dieta”? É o elogio que entra como uma verdadeira punhalada porque traz em si uma realidade não dita: “antes, te achava feia porque você estava gorda”. Fica a dica: basta dizer que a miga está mais bonita, sem fazer relação direta com o corpo dela, pois a beleza pode ser também um estado de espírito e não só a obediência a medidas de cintura, aos looks e cortes de cabelo da moda.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Assim como o machismo, a gordofobia está entranhada na cultura e, pior, legitimada por ela. As indústrias da moda e da beleza que o digam, responsáveis pela popularização de padrões de corpos cuja qualidade primeira é a magreza exacerbada.</div></strong></h3>
<p>Pare de fiscalizar o corpo alheio e respeite seu próprio corpo. Não estou fazendo apologia à gordura ou gordice (para os que gostam do hype), a saúde é o horizonte de todos nós, deixar o corpo saudável é prerrogativa para viver bem, mas o saudável também pode ser o gordo, o fora do padrão, o rechonchudo, o largo, o diferente. Ao contrário do que pregam a indústria farmacêutica e as blogueiras fitness, a magreza nem sempre é sinônimo de saúde em dia, sem falar dos processos pelos quais ela é alcançada que incluem mutilações cirúrgicas e “treinos” opressores. Como diria minha mãe: tudo demais é veneno! Mesmo aquela pessoa que está muito acima do peso “ideal” por razões patológicas merece respeito e não desprezo, pena ou repulsa. Se a ideia é ser desconstruída, então, admita seus preconceitos com o corpo alheio ou com o seu próprio. A democracia pela qual tanto se lamenta nos últimos tempos não está perdida apenas pela sujeira do jogo político institucional, ela se perdeu nas entrelinhas dos relacionamentos sociais, quando, por exemplo, enquadramos os corpos gordos, ou simplesmente os corpos diferentes, em uma posição de inferioridade. Ser democrático é tratar igual os diferentes, é respeitar os diferentes, sejam eles mulheres, gays ou pessoas gordas. No bojo dos novíssimos movimentos sociais de que fala Gloria Gohn, a luta contra a gordofobia é a minoria da minoria. E enquanto não aparecerem mobilizações virtuais ou presenciais mais intensas que deem conta desse preconceito, muitos gordofóbicos, sim, passarão.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>A (des) ordem do discurso</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Apr 2016 14:05:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Naiana Rodrigues]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; Peço licença a Foucault, e sem querer usar suas palavras em vão, para parafrasear o título de uma de suas obras e mesmo das ideias contidas nela para entender <a class="read-more" href="https://apulga.com/a-des-ordem-do-discurso/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1383" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/04/Avulsa-5-discurso.jpg"><img class="size-full wp-image-1383 " alt="Avulsa 5 - discurso" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/04/Avulsa-5-discurso.jpg" width="640" height="399" /></a><p class="wp-caption-text">Ilustração: Marcos Paulo Drumond</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Peço licença a Foucault, e sem querer usar suas palavras em vão, para parafrasear o título de uma de suas obras e mesmo das ideias contidas nela para entender o que presenciamos neste dia 17 de abril de 2016: o dia do “sim” ao Impeacheamant da Presidenta Dilma Roussef.</p>
<p>Foucault, nesta referida obra, sabiamente, afirma que a sociedade não luta pelos objetos dos quais tratam os discursos, ela luta pelo poder de discursar. Essa afirmação não poderia ser melhor exemplificada do que com as cerca de 10 horas de transmissão da votação na Câmara dos Deputados Federais. Foram quase 3.600 minutos de falas inflamadas, contidas, razoáveis, absurdas, mas que dificilmente se preocupavam em versar sobre o objeto do discurso: o crime da presidenta.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Foram cerca de 10h de transmissão da votação na Câmara com quase 3.600 minutos de falas inflamadas, contidas, razoáveis, absurdas, mas que dificilmente se preocupavam em versar sobre o objeto do discurso: o crime da presidenta.</div></strong></h3>
<p>Ora, o que é uma pedalada fiscal – nome também discursivamente criado pela mídia para resumir a questão – frente aos meus filhos, minha mãe, da minha esposa, meus amigos, a Deus, e pasmem, ao povo (essa figura amorfa e acéfala, para muitos dos protagonistas desta noite).</p>
<p>O objeto sobre o qual os discursos deveriam versar foi completamente obliterado pelo que se mostrou mais urgente discutir por quem, muitas vezes, teve, pela primeira vez, o poder do discurso. Sim, pois sabemos que nem todos os 504 deputados ali presentes discursam na Tribuna todos os dias. Muitos dela nunca haviam chegado perto – aposto – e quando a ela se achegaram não resistiram e falaram de si mesmos.</p>
<p>Engana-se quem pensa que esse negócio de falar de si, de exposição, de narrativas autobiográficas é coisa apenas de redes sociais. Em todo e qualquer espaço, quando não somos capazes de enunciar sobre algo exterior a nós, sobre a realidade de modo geral, nos voltamos para nós mesmos, seja para gerar empatia no outro, seja pela completa falta de o que falar para além de nossas próprias experiências. Sim, somos narcisos discursivos. Mas isso é outra história.</p>
<p>Para além do narcisismo expostos pelos 367 deputados que votaram a favor do sim, eles nos revelaram, por meio da enunciação de palavras como “família” e “Deus”, um discurso que se ergue para toda uma geração acostumada ao campo semântico da política de esquerda, o discurso do conservadorismo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A pirâmide discursiva do poder, que tem o povo na base, a família no corpo e Deus, no cume, significa reforçar um discurso de conservação da ordem e da tradição que muitos movimentos revolucionários, desde o Iluminismo, combatem.</div></strong></h3>
<p>A família brasileira, a família de bem ali referenciada, trata-se, nada mais, nada menos, da família clássica, heteronormativa, que emerge com a burguesia e sua necessidade de ordenamento financeiro, comercial e longe de ser por uma demanda afetiva, isso é invenção do romantismo.</p>
<p>O Deus ali evocado não é primitivo, apócrifo, ancestral, é o Deus moldado por outro forte discurso, o das Igrejas, sejam elas católicas ou pentecostais. O Deus institucionalizado, cuja representação terrena possui um poder incontestável, e o Deus medieval mesmo, que é intolerante e queima aqueles que contestam sua ordem. Daí porque o deputado Bolsonaro, um filho temente a Deus, exorta em seu discurso um torturador da época da Ditadura Militar no Brasil. Não é de se admirar, afinal, o Deus para o qual ele fala em nome é impiedoso mesmo e não tolera dissidências.</p>
<p>Calma aos que acreditam em uma divindade bondosa, e cheia de amor pra dar. Esse Deus, também inventado recentemente, não coaduna com o poder, pois ele é, inclusive, um deus com ares comunistas, já que ele pensa que é “dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado”. Então, continuem acreditando nesse Deus, que não se corporifica no Congresso, na representação discursiva de homens que lançam mão de seu nome achando que você, cristão, irá fundamentá-lo.</p>
<p>E para fechar a tríade de nomes enunciados na noite do dia 17 de abril, temos o povo. Ah, o povo, por ele, mata-se e morre. O povo que precisa de líderes, de esclarecimento, o povo que é arredio, selvagem, e que não tem condições de escolher o próprio presidente do País, pois precisa que um Congresso altere essa decisão impedindo a presidenta de continuar sua gestão. É esse o povo ao qual os deputados fizeram referência.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É o discurso de legitimidade de instituições sociais construídas nos primórdios da modernidade e que estão à beira do esfacelamento na contemporaneidade, pois esta, não fica presa aos contornos da Família, de Deus e do Povo.</div></strong></h3>
<p>Encerrada a pirâmide discursiva do poder, que tem o povo na base, a família no corpo e Deus, no cume, vamos ao que ela significa. Ela reforça um discurso de conservação da ordem e da tradição que muitos movimentos revolucionários, desde o Iluminismo, combatem. É o discurso de legitimidade de instituições sociais construídas ainda nos primórdios da modernidade e que estão à beira do esfacelamento na contemporaneidade, pois esta, com sua complexidade, não consegue ficar presa aos contornos da Família, de Deus e do Povo.</p>
<p>E isso graças ao levante discursivo dos desviantes, daqueles que não se encaixam nessa tríade, como as mulheres (pois a família tradicional é patriarcal), os homossexuais, transgêneros, bissexuais e travestis; os negros (a família também é branca, assim como Deus) e os trabalhadores, que agora são tão esclarecidos quanto as elites, pois também ocupam os bancos universitários.</p>
<p>Todo esse cenário é assustador para quem pensa, erroneamente, que a realidade não deve mudar. E, por mais que a mudança tenha sido palavra proferida por muitos dos votantes do sim, ela não significa ruptura, mas mudança pela restauração de uma ordem política, social e cultural em que o poder de discursar, este que também é o poder de existir – já diriam Foucault e Bourdieu, permanece restrito aos homens brancos, de bem, tementes a Deus e porta-vozes legítimos do Povo.</p>
<p>Mas se estes mesmos 342 deputados foram levados a votar pelo medo de perder as instituições que tanto os protegem, imaginem o que o mesmo medo não irá fazer aos cerca de 54 milhões de brasileiros que, em tese, eram a favor do não? Agora é a hora de expandir os discursos de quem teme pelo conservadorismo. Na falta da tribuna, do púlpito, são nas ruas que esses discursos dos numericamente majoritários, mas simbolicamente minoritários, devem ecoar.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Se vimos um discurso em que os iguais se protegem, a reação é exatamente a aliança discursiva em prol das diferenças.</div></strong></h3>
<p>Se vimos no Congresso a corporificação de um discurso em que os iguais se protegem, a reação é exatamente a aliança discursiva em prol das diferenças, afinal, democracia de elite é autoritarismo. Então, a mudança do #nãovaitergolpe para o #vaiterluta é uma expressão de que sim continuamos na disputa pelo poder do discurso, pelo poder de existir.</p>
<p>E esse texto foi a forma que encontrei de vencer o desânimo e o pessimismo. Fui salva pelo discurso!</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>A miséria do jornalismo ou a miséria do mundo?</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Sep 2015 16:05:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Naiana Rodrigues]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Avulsa]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Fotografia]]></category>

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		<description><![CDATA[Estava eu, por esses dias, lendo um livro-reportagem sobre a queda da bomba de Hiroshima. O relato feito pelo jornalismo John Hersey, publicado na The New Yorker, em 31 de <a class="read-more" href="https://apulga.com/a-miseria-do-jornalismo-ou-a-miseria-do-mundo/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/09/Avulsa-4-imagens6.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1084" alt="Avulsa 4 - imagens6" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/09/Avulsa-4-imagens6.jpg" width="620" height="412" /></a></p>
<p>Estava eu, por esses dias, lendo um livro-reportagem sobre a queda da bomba de Hiroshima. O relato feito pelo jornalismo John Hersey, publicado na <i>The New Yorker</i>, em 31 de agosto de 1946, é considerado uma espécie de “Cidadão Kane” do jornalismo. Juízos de valor à parte, o fato é que a reportagem narra a vida de seis personagens antes, durante e depois do bombardeio. Em um pouco mais de 30 mil palavras, o jornalista trata com sobriedade o horror que foi a morte de 100 mil pessoas e os ferimentos de mais 100 mil, ora provocando pesar, identificação, lamento e fé do leitor para com os personagens. Ainda não terminei a leitura, mas o livro já me levou às lágrimas várias vezes pelo simples fato de lembrar que a humanidade, definitivamente, é desumana – com o perdão da tomada de empréstimo do trocadilho musical de Renato Russo.</p>
<p>Estou eu envolta na leitura, tentando saber o desfecho das vidas desses seis japoneses e das centenas de outros personagens que perpassam a narrativa quando me deparo, nas redes sociais, com a publicação, no dia 2 de setembro, da foto do pequeno menino sírio morto em uma praia na Turquia após um naufrágio de um barco com imigrantes  do Oriente Médio. E mais do que as notícias sobre o caso, já me dou conta também da repercussão em torno dele. A ética em torno da publicação da imagem pela mídia foi o argumento mais recorrente, seguido de perto pelo argumento de que não precisamos ver imagens tão tristes como esta, pois elas, supostamente, banalizam a desgraça alheia.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A ética em torno da publicação da imagem pela mídia foi o argumento mais recorrente, seguido de perto pelo argumento de que não precisamos ver imagens tão tristes como esta, pois elas, supostamente, banalizam a desgraça alheia. </div></strong></h3>
<p>A primeira coisa que me veio à mente foi: se em 1946, Hersey e os editores da <i>The New Yorker</i> pensassem assim, essa grande obra jornalística não teria saído do imaginário do jornalista. As palavras de Hersey têm o mesmo valor dos pixels da imagem fotográfica que rodou o mundo no dois de setembro. Os dois relatos de naturezas linguísticas distintas e contextos sócio-culturais também diferentes, carregam entre si a semelhança de terem incomodado o <i>status quo</i> e dado a ver ao mundo o terror das ações de governos intransigentes. A cúpula norte-americano, à época de Hiroshima, teve que se explicar sobre o uso de uma arma nuclear contra um país que estava à beira da rendição. Enquanto, hoje, os governos europeus se viram forçados a criar políticas de imigração que não prevejam apenas a construção de muros para manter o estrangeiro fora de seus domínios.</p>
<p>A mim, o incômodo maior não foi nem o do teor da imagem, que por mais triste que seja se alia a um grupo imenso de outras imagens produzidas ao longo de nossa história imagética que nos mostram o quão desumanos somos. Meu terror veio do fato de o público se recusar a ver essa imagem. Justo quando o jornalismo – essa instituição à beira da falência, para muitos – cumpre seu papel certinho, contextualizando a imagem, pressionando a opinião pública sobre o fato, parte do público esnoba seu resultado sob a alegação do sensacionalismo ou de um “cansaço do horror”. Quisera eu que o jornalismo só noticiasse beleza, delicadeza, mas enquanto existir o horror, temos a obrigação de mostrá-lo, claro que com a sensibilidade e respeito para com os envolvidos que a boa ética profissional ensina.</p>
<p>O problema, ao meu ver, não é a imagem, somos nós, ora acomodados nos nossos castelos de areia, ora banalizando a dor e sofrimento alheio. Essa repercussão é ótima para fazer com que coloquemos a mão na consciência sobre nossos atos e não falo de governos, falo de cada indivíduo, porque, muitas vezes, no dia a dia, na piada, na brincadeira, nas relações de trabalho reproduzimos violências discursivas e simbólicas que podem um dia levar a violências como esta que tanto nos incomoda quando registrada e devidamente problematizada.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Há um resquício de esperança perceber que essa fotografia nos aterrorizou, pois quando não nos admirarmos mais com a violência ou não nos apiedarmos pelos que sofrem, aí já teremos perdido a humanidade de vez.</div></strong></h3>
<p>Esse mascaramento das imagens que perturbam a ordem não é apenas uma rejeição midiática, mas uma ação que, de certa forma, já se sacralizou no cotidiano com a invisibilidade de sujeitos e situações que nos tiram de nossa zona de conforto. Mendigos, mulheres vítimas de violência doméstica e sexual e portadores de deficiências, para nós, “cidadãos”, no alto de nossas obrigações sociais, são sujeitos invisíveis pelo simples fato de não sabermos lidar com eles, de não caberem no nosso mundo perfeito e ideal, que não passa de uma grande utopia.</p>
<p>Já estamos habituados a dar de ombros para essas imagens, mas o menino sírio parece que descobriu um pouco esse véu da indiferença. Entendo que, no contexto de hoje, bem diferente daquele em que Hiroshima foi publicado, o valor de exibição das imagens reproduzidas tecnicamente – como bem observou Walter Benjamin – esvaziou de sentido e significado muitas fotografias, filmes e programas de TV. A sociedade do espetáculo parece ter nos anestesiado para o consumo de muitas cenas, porém me dá um resquício de esperança perceber que essa fotografia nos aterrorizou, pois quando não nos admirarmos mais com a violência ou não nos apiedarmos pelos que sofrem, aí já teremos perdido a humanidade de vez.</p>
<p>A iconicidade fotográfica ou a simbologia das palavras no texto verbal estão aí, seja no caso do menino sírio ou de Hiroshima, para nos fazer sentir vergonha, impotência, dor, lamento, piedade&#8230; Seja lá o que for, prefiro lidar com o incômodo que estes discursos me causam a viver na cegueira do conformismo. E quanto ao jornalismo, prefiro vê-lo relatando a miséria do mundo do que sendo miserável ao coadunar com a passividade.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Let’s talk about love &#8211; Parte 1</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Mar 2015 09:32:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Naiana Rodrigues]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Avulsa]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; Quem me conhece sabe que não sou uma romântica incorrigível. Sou sensível, reconheço, mas acho que uma das minhas maiores qualidades é ser realista, exceto quando estou “totally and <a class="read-more" href="https://apulga.com/lets-talk-about-love-parte-1-2/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_864" style="width: 658px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/03/Avulsa-361.jpg"><img class="size-full wp-image-864" alt="Mark Darcy e Bridget Jones" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/03/Avulsa-361.jpg" width="648" height="326" /></a><p class="wp-caption-text">Mark Darcy e Bridget Jones</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quem me conhece sabe que não sou uma romântica incorrigível. Sou sensível, reconheço, mas acho que uma das minhas maiores qualidades é ser realista, exceto quando estou “totally and completely in love” por alguém, porque não há razão que resista a uma enxurrada de desejo e emoção que brotam não sei de onde fazendo de você a mais ridícula e fofa das criaturas. Sim, tenho problemas com paixões, elas me assustam exatamente por isso, porque me tiram do Iluminismo e me jogam na Medina da primeira geração do Romantismo. Mas, continuando, não venho aqui hoje para narrar minhas “desventuras” românticas e sim para compartilhar uma observação que já faço há algum tempo: a mídia está matando o amor romântico. Calma, vou explicar.</p>
<p>A despeito de todas as comédias românticas que inundam o mercado audiovisual – que de tão ridículas não conseguem promover projeção nenhuma (pelo menos, em mim) – tenho percebido um movimento de “Vamos tocar a real” em algumas produções, sobretudo, televisivas. A real em questão é que o happy end não existe, não há felizes para sempre e “a pessoa”, aquela que vai te entender e completar, pode, na verdade, ser não uma, porém, mais de uma pessoa. É, minha gente, o mundo anda tão complicado&#8230; Ou diríamos mais interessante?</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"><strong>A TV alimenta um caldeirão de expectativas de pessoas românticas que, ao se depararem com a complexidade, mediocridade e até mesmo simplicidade das relações afetivas no plano realista acabam se deixando levar por um furacão de frustrações que as impede de ver a beleza singela dos diferentes encontros que a vida proporciona.</strong></div></strong></h3>
<p>Penso nessas conclusões exatamente quando lembro de dados reality shows (a praga da terceira fase da TV, como já enunciaria Eliseo Verón, apesar do adjetivo ser por minha conta). Essa ideia me veio à mente quando uma amiga me apresentou ao “Sister Wives”, um reality show exibido pelo canal TLC, desde 2010, sobre uma família poligâmica. E se confirmou depois da mesma amiga também me falar sobre o “Are you the one?”, um reality show exibido aqui no Brasil pela MTV, em que 10 homens e 10 mulheres (todos jovens e bonitos) são confinados em uma casa. O mote da questão é que existem cinco pares ideais na casa, reunidos pela produção do programa a partir de uma combinação de personalidades, e o jogo todo se desenrola em torno da busca pelo par ideal, motivada pela premiação de meio milhão de reais.</p>
<p>Genial! Porque o que se observa ao longo do programa é a formação de casais os mais díspares possíveis que, ao longo da disputa, descobrem que não formam um par ideal e aí se inicia o dilema: perseguir o dinheiro e o ideal ou me entregar ao que estou sentindo pelo parceiro “errado”? Enquanto isso, a audiência vai à loucura.</p>
<p>E qual o sentido da minha empolgação? De certa forma, mesmo forçando a barra para construir uma narrativa romântica a partir da edição das cenas, o programa, em sua parcela de realidade, mostra nada mais, nada menos, que não existe “o ser amado ideal”, mas apenas seres reais. Mesmo querendo retomar a lógica da narrativa melodramática, a rainha da cultura de massas, o programa acaba, a meu ver, desconstruindo certos ideais de romantismo que essa mesma cultura das mídias (parafraseando Lúcia Santaella) alicerçou ao longo de todo século XX em nosso imaginário. É nesse momento que alguém se insurge e diz que a realidade é dura e feia e o que se busca na ficção é mesmo a fantasia, a ilusão. Também concordo com essa afirmação, mas o que gosto de levar em consideração é que a televisão é responsável por uma de nossas mediações culturais, como já diria meu ídolo Jesús Martín-Barbero, e como tal, ela é responsável pela circulação de signos e ideias que encontrarão adesão no nosso cotidiano.</p>
<p>Em linhas gerais, a TV, por meio de suas ficções, alimenta um caldeirão de expectativas de românticos e românticas mundo afora que, ao se depararem com a complexidade, mediocridade e até mesmo simplicidade das relações afetivas no plano realista acabam se deixando levar por um furacão de frustrações e desânimo que os impede de ver a beleza singela dos diferentes encontros que a vida proporciona ou ainda de encarar as intempéries que qualquer relação a dois revela. E, muitas vezes, impedem também que se tenha mais uma história para contar, afinal, a probabilidade de ele ou ela não ser “the one” é muito maior do que o contrário. Por conta disso, muitos não se permitem simplesmente viver a realidade e ficam na eterna espera do amor de ficção que nunca chegará, porque ele só existe graças à magia da TV, do cinema ou da literatura.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"><strong>E, se como afirma Umberto Eco, tudo é uma grande ficção (no sentido de construção), então, vamos inventar nossos próprios romances, sem fórmulas ou paradigmas, apenas experimentando a melhor forma para construir nossas próprias narrativas de amor, sim, porque o amor não é um só, grande e inexorável, ele é multiforme.</strong></div></strong></h3>
<p>Até a adolescência, quando tudo é vivido pela primeira vez, é compreensível essa expectativa ilusória, mas na fase adulta, com um pouco mais de vivência afetiva, é possível perceber que não há fórmulas e moldes em um relacionamento, mas um processo árduo de construção. O problema é que a mídia continua a reproduzir esse signo romântico e, muitos de nós, em vez de apenas se deleitar com o prazer que a ficção proporciona, tentam forjar uma relação baseados em enredos fantásticos e cenas grandiosas. É aí onde mora o perigo.</p>
<p>Claro que eu queria um Mark Darcy na minha vida, mas como não há um advogado de direitos humanos bem sucedido esbarrando em mim no supermercado, ficarei feliz se um João, José, Antônio ou Francisco olhar e sorrir para mim no cruzamento da esquina, me oferecer um drink na balada, conversar comigo na jornada dentro do ônibus ou puxar um “oi” no aplicativo de paquera. O nome disso é vida real, algo que a ficção, às vezes, representa, mas, muitas vezes, também distorce. Contudo, românticos, não desistam, a realidade também é mágica, ela só tem outros tons diferentes daqueles mostrados na TV.</p>
<p>A magia dos encontros no mundo real pode estar no cheiro do perfume, na música em comum, nas frases que se completam, na risada sincera, no orgasmo que te deixa sem fôlego&#8230; Pera aí, Naiana, tu está exatamente descrevendo cenas de tantos e tantos filmes. Por isso mesmo, se a arte imita a vida, então, é porque tudo isso é plausível de se viver, mas para que consigamos encontrar “essa magia” (nos dizeres de muitos, e apenas, afinidade, no meu próprio vocabulário) é preciso deixar de tantas falsas expectativas e julgamentos, muitos que impedem até de se experimentar cada um desses momentos. E, se como afirma Umberto Eco, tudo é uma grande ficção (no sentido de construção), então, vamos inventar nossos próprios romances, sem fórmulas ou paradigmas, apenas experimentando a melhor forma para construir nossas próprias narrativas de amor, sim, porque o amor não é um só, grande e inexorável, ele é multiforme etc &#8230; Acho que essa não será nossa única conversa sobre amor. <img src="https://apulga.com/wp-includes/images/smilies/icon_wink.gif" alt=";)" class="wp-smiley" /> </p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Rede das paixões</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Oct 2014 02:48:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Naiana Rodrigues]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Avulsa]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Às vésperas do segundo turno das eleições para os executivos estaduais e federal, a disputa política está agendada como assunto dominante nos jornais, na internet e nas mesas de bar. <a class="read-more" href="https://apulga.com/rede-das-paixoes/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/10/Avulsa-2-Facebook3.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-720" alt="Avulsa 2- Facebook3" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/10/Avulsa-2-Facebook3.jpg" width="650" height="396" /></a></p>
<p>Às vésperas do segundo turno das eleições para os executivos estaduais e federal, a disputa política está agendada como assunto dominante nos jornais, na internet e nas mesas de bar. Foi neste último espaço em que pude lançar, quase como uma bomba &#8211; mas sem estilhaços &#8211; minha leitura desse momento, que não diz propriamente respeito aos candidatos, e sim aos eleitores, mais precisamente aos usuários dos sites e aplicativos de redes sociais que estão fazendo deste pleito uma experiência comunicacional única.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Estamos vivendo a adolescência da comunicação na sociedade em rede. É um momento de descobertas, de entusiasmo, de dúvidas e, acima de tudo, de emoções à flor da pele.</div></strong></h3>
<p>Esses eleitores/usuários estão nada mais, nada menos, que verdadeiramente apaixonados. Mas o objeto de desejo deles não é o candidato, o partido ou a política em si, mas a comunicação, a capacidade de enunciar, de falar, de dizer e ser visto e ouvido por centenas e até milhares de outros sujeitos. Durante quase seis séculos, o homem comum, ordinário esteve mudo, forçosamente calado pela falta de acesso aos meios de comunicação. Somente a mídia institucional &#8211; se restringirmos nosso olhar para a modernidade &#8211; tinha condições e, consequentemente, autorização, para enunciar, discursar, para dizer algo.</p>
<p>Foi somente na virada do século 2000 que os homens, de posse, claro, de aparatos de comunicação como computadores e, posteriormente, de outros dispositivos, puderam exercer com afinco e plenitude sua capacidade discursiva latente. Afinal, como bem já observou Aristoteles, o homem é um animal retórico. Mas entre a sistematização da imprensa e a emergência da internet, nossa retórica esteve acuada, amedrontada pela dominação da mídia de massa. Usando as palavras de Foucault, vivemos um longo período de interdição discursiva e só agora gozamos da autorização para expressar o pensamento em espaços de grandes fluxos de audiências.</p>
<p>Daí porque consigo compreender as razões pelas quais a passionalidade domina o debate em torno do temas agendados em sites de relacionamentos a exemplo do Facebook. Estamos vivendo a adolescência da comunicação na sociedade em rede. É um momento de descobertas, de entusiasmo, de dúvidas e, acima de tudo, de emoções à flor da pele. Como jovens apaixonados, temos urgência em viver essa experiência e, para tal, disparamos opiniões e pontos de vista, muitas vezes, incoerentes, extremistas e pouco fundamentados. Não estamos dando o tempo necessário que a racionalidade requer para maturar um argumento ou opinião, queremos apenas nos expressar.</p>
<p>Diante disso, a postagem, em tempos de debate eleitoral, tem o valor de um beijo ardente, daqueles que tiram o fôlego e deixam um sabor quase indescritível na boca. Assim são as defesas dos candidatos, o compartilhamento de informações factuais e documentais que reforçam o gosto de certeza e verdade que tem o beijo discursivo. Estimulados pelo tesão que o discurso desperta, acabamos perdendo de vista, muitas vezes, o respeito pelo outro. Se a química de ideias não acontece, se não angariamos comentários e compartilhamentos, é porque não fomos feitos um para o outro e o rompimento se aproxima.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Quando o outro falha e não satisfaz o desejo de concordância que procuramos nas curtidas, a raiva é quase inevitável. A comunhão buscada transforma-se em rancor.</div></strong></h3>
<p>Quando o outro falha e não satisfaz o desejo de concordância que procuramos nas curtidas, a raiva é quase inevitável. E a comunhão buscada no encontro entre as palavras de mesmo sentido transforma-se em rancor. A negação do outro em satisfazer nosso desejo coloca uma lupa sobre as falhas e defeitos que a alteridade carrega. E, assim, é que o debate se encaminha para a desqualificação e ofensa pessoal, com trocas de acusações e apontamentos de erros e mentiras até que se chegue a ponto do rompimento. E sobre laços enfraquecidos e amizades desfeitas também teremos muito o que rememorar no revival desse período eleitoral. Afinal, a paixão é assim mesmo, avassaladora, e também frustrante.</p>
<p>Mas o que me consola é que tudo não passa de uma fase. Assim como as paixões juvenis, nossa relação com a comunicação há de amadurecer. Se, como bem observa  Dominique Wolton, que o verdadeiro significado da comunicação é a relação, aguardo, portanto, ansiosa pelo momento em que tenhamos mais amor pela comunicação, pois só aí saberemos como tratar bem os argumentos a serem ditos, como ouvir ou ler a opinião do outro sem desacreditá-lo logo em seguida. Poderemos, enfim, fortalecer nossos laços e nos enredar de vez em nós de respeito, usando os sites e Apps de redes sociais para o encontro com o outro e não para um coito discursivo momentâneo e fugaz.</p>
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		<title>Pelo direito de ser outro</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Jul 2014 11:26:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Naiana Rodrigues]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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		<category><![CDATA[Identidade]]></category>

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				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_557" style="width: 420px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/07/Naiana-texto-1-andyF2.jpg"><img class="size-full wp-image-557" alt="Andy Warhol em um self-portrait " src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/07/Naiana-texto-1-andyF2.jpg" width="410" height="409" /></a><p class="wp-caption-text">Andy Warhol em um self-portrait</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um dia desses, estava eu numa dessas “fertinhas” da vida, rodeada de rapazes que ficavam com rapazes, de moças que beijavam outras moças ardentemente e de rapazes que beijavam rapazes, mas também gostavam de bitocar e “amassar” as moças. E aí, antes de pedir que o mundo parasse para eu dar uma descidinha, lembrei, quase que de imediato, de outro momento em que participava de uma banca de monografia, quando um colega disse que a discussão de identidade estava superada academicamente falando, meio démodé.</p>
<p>Pensei, pensei, li, li sobre relacionamentos livres, bissexualidade, poliamor, buscando a resposta para as interações que vi na noite, mas não paro de pensar mesmo é na identidade, no Stuart Hall e na colocação do meu colega, para quem, acredito eu, a identidade é tida como um conjunto de rótulos fechados e estanques. E, desse ponto de vista, sim, ela está completamente superada.</p>
<p>Mas é difícil pensar na superação da identidade dualista e fechada quando ainda nos comportamos como homens cartesianos, classificando o mundo em pares de opostos que não se encontram, se misturam, dialogam. Preto ou branco; direita ou esquerda; homem ou mulher; brega ou chique; vilão ou mocinho, heterossexual ou homossexual, etc. A classificação em categorias com limites e definições nos dá certa segurança para entender o mundo. Durante muito tempo, nos foi necessário pensarmos em termos exclusivos ou duais.</p>
<p>Mas os anos de 1980 chegam, e para quem diz que esta foi uma década perdida, não entende a revolução que os pensamentos do momento trouxeram para a cultura. Junto com Madonna e Michael Jackson, na cultura pop, Derrida e Lyotard despontam na cultura erudita desconstruindo tudo o que era aparentemente sólido, inclusive as identidades.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A pós-modernidade traz como maior benesse a possibilidade de percebermos a complexidade e que aqueles rótulos hermeticamente construídos não conseguiam mais dar conta de um mundo ambivalente ao extremo.</div></strong></h3>
<p>A “famigerada” pós-modernidade – discussão também old fashioned, para muitos, no âmbito científico – traz como maior benesse, a meu ver, a possibilidade de pensarmos no “para além”, de percebermos a complexidade e que aqueles rótulos hermeticamente construídos não conseguiam mais dar conta de um mundo ambivalente ao extremo.</p>
<p>Uma década inteira se passou, a pós-modernidade continuava a inquietar, muitos jovens ouviam Nirvana, desfiavam seu jeans e o jamaicano Stuart Hall tentava compreender como a identidade cultural se comportava na contemporaneidade. E, assim, ele alertava que uma identidade não é suficiente para nos definir, pois somos compostos de múltiplas identidades, temporárias e que ficam estagnadas por algum tempo, nos garantindo certa segurança.</p>
<p>Pensar desse jeito já garante certo alívio, mas ainda não resolve o problema das classificações, pois essas identidades podem muito bem ser construídas com base em tipologias e categorias fechadas: mãe, profissional, tradicional, elegante, homossexual, etc. A inquietação volta, pois tenho que escolher com o que me identificar e, somente depois de um tempo, posso me identificar com o oposto do que sou hoje. Ou seja, o sujeito tinha que escolher uma posição. É quase uma releitura da lei da física de que um corpo não pode ocupar o mesmo lugar no espaço. Não há lugar para a contradição. E, assim, voltamos mais uma vez ao cartesianismo.</p>
<p>E, agora, recordo da minha orientadora do mestrado que costumava me lembrar de que o homem é contraditório por natureza. E que há lugares sociais e culturais em que essas contradições são aceitáveis e outros em que são completamente banidas. Portanto, se a coerência é uma cobrança dominante, por exemplo, ser contraditório é ser diferente. Apenas isso, e não ser bom ou ruim, melhor ou pior.</p>
<p>Antes que cheguemos a um impasse, retomo o mesmo Hall acompanhado de Katryn Woodward que também me falaram das identificações e de que nos construímos, enquanto sujeitos culturais, mais pelas diferenças do que propriamente pelas identificações, que aparecem em um segundo momento nessa formação.</p>
<p>Em linhas gerais, só sei quem eu sou, porque sei que sou diferente de você. E a beleza dessa conclusão, para mim, particularmente, está no fato de que ela coloca em primeiro plano o reconhecimento do outro, da alteridade, de um exterior a mim, e tira da identidade o peso de uma construção solitária, subjetivista e interiorizada. A identidade se ergue no encontro, na minha interação com o outro, com o fora de mim.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Só sei quem eu sou, porque sei que sou diferente de você. (&#8230;) A identidade se ergue no encontro, na minha interação com o outro, com o fora de mim. </div></strong></h3>
<p>As diferenças atraem e, ao mesmo tempo assustam, exatamente porque o que reconhecemos como diferentes são os sujeitos fora dos padrões, que vivem para além dos limites, das definições, das classificações. É aqui onde reside o problema, a rejeição, a xenofobia, o preconceito e também a violência. O pensamento dualista levado ao extremo faz com que se considere o outro, o diferente como inimigo ou como inferior. Os homossexuais já experimentaram muito desse ódio sem justificativa, mas também o menino obeso que sofre bullying no colégio e a menina muito alta para a média da idade que usa roupas engraçadas e vira motivo de chacota.</p>
<p>Não estamos preparados para o diferente. Essa é questão. Mas ele avança e se mostra em comportamentos de moda, estilo de vida, sexualmente falando e afetivamente também. O diferente não se enquadra nas categorias convencionais nem nas tipologias de mercado, que dirá na legislação civil. Mas está por aí, nas festas, nas ruas e nos consultórios psiquiátricos e psicológicos, tentando entender que ser diferente não é problema, mas compreendendo que a sociedade aceita com mais “simpatia” os iguais, apesar dessa igualdade ser um discurso forjado, muitas vezes, em torno de identidades individualistas e identificações fracas.</p>
<p>Como vocês podem perceber, essa discussão pode ser travada em diferentes áreas, da política às questões de gênero. Mas, por enquanto, ela me acalenta quando me deparo com o diferente por aí e quando sinto um desejo incontrolável de encerrar minha conta no Facebook ou sair excluindo perfis da timeline como se não houvesse amanhã. Toda vez que vejo uma opinião com a qual não concordo – desde que ela não tenha teor preconceituoso – penso: é apenas o diferente, Naiana, é apenas o diferente!</p>
<p>P.S – Concordo com o colega de que já temos identidades demais compreendidas, precisamos olhar sim para as diferenças que se apresentam.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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