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	<title>A Pulga &#187; Grilo Falante</title>
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	<description>Um coletivo diletante de ideias</description>
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		<title>Das Ding</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Aug 2023 03:54:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; O local preciso era 14 paradas após a estação de metrô mais longínqua na qual eu já havia posto os pés. Por outro caminho, pegávamos a condução em frente <a class="read-more" href="https://apulga.com/das-ding/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2023/08/Das-Ding2.jpeg"><img class="alignnone size-full wp-image-2025" alt="Das Ding2" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2023/08/Das-Ding2.jpeg" width="768" height="1024" /></a></p>
<p>O local preciso era 14 paradas após a estação de metrô mais longínqua na qual eu já havia posto os pés. Por outro caminho, pegávamos a condução em frente a universidade, descíamos 2 paradas depois para então pegar outro ônibus, percorrer mais 11 paradas e finalmente chegar àquele ponto onde ainda restavam mais 14 até o destino final. Repito: era o lugar mais distante em que havia estado e aquilo me atingiu de diversas maneiras. Era o outro ateando fogo ao conhecido que havia em mim.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> O que a gente faz para se despedir quando não parece ser possível se despedir completamente? A gente viaja. Vai rumo a deixar algo, mas cuja jornada acaba impregnando o mensageiro daquilo que ele iria entregar. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Se esse texto fosse um mapa colocaria uma marcação naquela coordenada que foi das grandes fronteiras do meu enfrentamento. Há um desenho animado antigo chamado Cavalo de Fogo (Wildfire, 1986), nele uma menina cruza um portal dimensional para um mundo ao qual ela pertence e que, ao mesmo tempo, lhe é estranho. Uma relação fantasiosa entre um rancho em Montana, no oeste norte-americano, e o planeta Dar-Shan. Uma parte do que ela é está em cada lugar. Referência que pego emprestada como uma espécie de caricatura do idílio, da travessia abrupta, daquilo que de maneira infantil nos toma. Acho mesmo que a gente passa boa parte da vida procurando em uma paisagem e em algo externo a representação do que somos em uma fração muito íntima da nossa psiquê. Ocorre que, algumas vezes, é uma pessoa quem nos apresenta essa paisagem externa que nos endereça a esse destino interno. Como se alguém nos convidasse a esse caminho.</p>
<p>É um oximoro. Um paradoxo. O que está fora e ao mesmo tempo mora dentro. “Rua Leonor/Rua Semente”, eu escutava no segundo andar do ônibus enquanto percorria aquelas 14 paradas que eram o trajeto que tanto me acolhia como me provocava. E esse dilema me tomou de assalto porque simplesmente aquela paisagem era um imã de polos opostos. Quanto mais eu queria largá-la, mas ela fincava uma raiz dentro de mim. Em síntese, é percurso que enseja uma pergunta: O que a gente faz para se despedir quando não parece ser possível se despedir completamente? A resposta é: a gente viaja. E viaja como quem tenta, parte em uma missão. Vai rumo a deixar algo, mas cuja jornada acaba impregnando o mensageiro daquilo que ele iria entregar.</p>
<p>“Tão Forte e Tão Perto” (Extremely Loud &amp; Incredibly Close, 2011), adaptado do romance Extremamente Alto &amp; Incrivelmente Perto de Jonathan Safran Foe é uma espécie de petardo da Sessão da Tarde sobre esse tipo de Odisseia íntima. No filme um menino escuta do pai uma história sobre o 6º Distrito, uma parte perdida de Nova Iorque cuja ideia serve de bússola para a procura de um lugar imaginário. É uma relação preenchida de histórias, com uma linguagem própria. Diante das dificuldades do filho em se relacionar, o pai criava um jogo para fazê-lo mover-se e ir, ao seu jeito, enfrentando seus medos. É o preâmbulo do enredo que, de fato, começa com a morte do joalheiro Thomas Schell e segue pela expedição que o pequeno Oskar empreende na tentativa de achar o dono para uma chave encontrada nas coisas de seu pai.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Eis o paradoxo do filme e daquilo que nos afeta. É sentir falta de algo quando o objetivo era justo não sentir.  Trata-se de um estranho percurso em que a gente se transmuta na tentativa de abandonar o que nos constituí. É sobre um movimento. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>A busca pelo destinatário desconhecido é um exercício que faz Oskar revisitar a cidade além dos muros, como Thomas sempre quis. O menino saí cruzando muitas fronteiras que vão se refletindo umas nas outras, como se olhássemos os espelhos em forma de triângulo no fundo de um caleidoscópio. Percorre os bairros além de Manhattan, atravessando a memória de quem ele próprio era ao lado do pai. São partes de si que vão se transformando pela jornada sem, no entanto, mudarem completamente. Dentro e fora. O oximoro. O caminho para viver seu próprio luto.</p>
<p>Podia ser a jornada bíblica de Tobias para encontrar a cura de Tobit ou alguma missão de Zeus dada a um herói grego. O recurso é antiquíssimo. O 6º Distrito, a chave ou o que mais puder tomar a imagem de algo a ser encontrado e devolvido ao seu lugar. Na verdade, essa “coisa” (das ding, diria Freud) é o sentimento fora de um espaço que lhe caiba. É preciso gastar certa energia na tentativa de, finalmente, devolver-lhe um sentido, restaurá-la. A coisa, tal como o choro que acalma. Na sua expedição de reconhecimento, ao cruzar diversas fronteiras, Oskar Schell diz: “Eu estava me aproximando do meu pai. Eu estava perdendo-o”. Touché!</p>
<p>Eis o paradoxo do filme e daquilo que nos afeta. É sentir falta de algo quando o objetivo era justo não sentir. Recordo o quanto já gastei de palavras no exercício de racionalizar. Não se trata de um não-lugar, do espaço da barganha. Tampouco é o passado visto da perspectiva de quem hoje compreende e aceita que não há mais afeto. Não sendo sobre o lugar e nem sobre o tempo, trata-se de um estranho percurso em que a gente se transmuta na tentativa de abandonar parte do que nos constituí. É sobre um movimento. Mas, suspeito que essa seja uma jornada impossível, visto que há algo em nós que não pode ser descolado, apenas deixa de estar fora para encontrar um pouso dentro. Contudo, após o trajeto, muda-se algo de substancial, como o estado físico de uma matéria. O gelo, o vapor e a água. Outro peso, forma, temperatura e pressão – ainda que com a mesma essência.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> E qualquer elaboração da perda passa por esse sequestro de um traço que era do outro e que você incorpora no eu. Mas aí há essa dialética. Era do outro, mas já era eu. Já era. Porque se a gente é ser com. Você só se apropriou de algo que já era teu e que você tinha se apoiado nesse outro por conta desse traço. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Isto porque as despedidas todas revelam algo que há em nós. E se esse texto é sobre o que se deixa, o percurso para decantar sentimentos, é preciso antes compreender como eles se formam. O porquê de ser impossível deixar algumas coisas por completo. Talvez das melhores explicações para essa impossibilidade, em sua plenitude, eu tenha escutado pelas palavras da psicanalista Maria Homem. Ao falar sobre o assunto, ela volta ao que une para, então, arrematar a partida: “Já percebeu que você termina uma relação e muitas vezes começa a fazer uma coisa que o outro fazia? Ou começa a fazer algo que você achava que nem gostava, mas que o outro queria que você fizesse? Você começa a fazer ginástica, começa a nadar, vai aprender uma língua, muda um estilo”.</p>
<p>Ao lado das perguntas, Maria Homem enceta uma resposta que me pareceu fechar um ciclo de inquietudes: “E depois de muito tempo você começa a se dar conta de que você carrega um traço que era do outro. É muito comum. Você aprende uma forma de falar, pega uma expressão que era do outro, vai cumprir um desejo inacabado do outro. Ele deixou uma música, era seu parceiro e você vai terminar de compor aquela música, vai escrever um livro de memória, vai pintar um quadro&#8230; Você vai elaborar aquela perda”. Nesse apanhado de frases, em uma costura que é própria da sua fala, a psicanalista revela essa espécie de sintoma que é a nossa busca por percorrer um caminho que tanto nos preenche como no tira algo.</p>
<p>É nesse exato momento que Maria Homem mata a charada ao enunciar: “E qualquer elaboração da perda passa por esse sequestro de um traço que era do outro e que você incorpora no eu. Mas aí há essa dialética. Era do outro, mas já era eu. Já era. Porque se a gente é “ser com”, você só se apropriou de algo que já era teu e que você tinha se apoiado nesse outro por conta desse traço. Você já tinha se apaixonado, por exemplo, por esse homem porque ele já era do universo da arte, que era teu, que você desejava e que você nunca se autorizou. E quando você perde isso, então você assume esse lado, desenvolve esse lado, mesmo tendo perdido o objeto. Então, na verdade, o que é a morte, o luto e a perda? São as várias faces das metamorfoses do eu. Grandes metamorfoses o tempo inteiro, a gente vai comendo, deglutindo e sendo outra coisa.”</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> É uma tentativa de aparta-se de algo visceral, de algum sentido que nos constitui. A figura do pai, um grande amor, a ideia de uma terra encantada&#8230;  É justo o exercício de desprender-se que acaba por nos revelar algo.  </strong><strong></div></strong></h3>
<p>É o “estar com”, o mit sein, como diz o filósofo alemão Peter Sloterdijk, que a psicanalista revela. Por isso, nunca conseguimos nos despedir de algo que em parte está em nós. Mais uma vez estamos diante de um oxímoro. Contudo, mais do que um exercício narcísico, há muito de poesia nesse movimento de nos reconhecermos em algo ou em alguém para depois nos vermos sendo esvaziados desse sentido original, justamente quanto o mais procuramos preenchê-lo. É porque talvez (apenas talvez) o luto se realize ao vermos que está dentro o que procurávamos fora. Conheço uma história de quem detestava cafés e fez um blog sobre o tema para servir de diário à sua jornada. Noutro caso, um fanzine foi artefato da despedida. Definido lindamente como “um retrato 3&#215;4 da alma”, a brochura caseira era o artifício do que precisava ser entendido. Movimentos para gastar o que só pode ser enterrado anos depois. Ao fim, é o menino Oskar Schell descobrindo que conseguia explorar a geografia de uma cidade e os seus próprios limites sem o pai.</p>
<p>É uma tentativa de aparta-se de algo visceral, de algum sentido que nos constitui. A figura do pai, um grande amor, a ideia de uma terra encantada&#8230; Mas como isso está cravado no que se é, tal tentativa tem lá sua faceta quixotesca. Novamente, a viagem para deixar e ao mesmo tempo encontrar algo. É justo o exercício de desprender-se que acaba por nos revelar algo. E quantos anos não se demora nessa estrada? Lembro de um dia, no entardecer defronte a uma janela naquele ponto mais longínquo, pensar que meus passos eram muito válidos, que eu só precisava de mais tempo para estar ali. Talvez fosse o início da Aurora, como escreve Paulo Mendes Campos.</p>
<p>É curioso que ao finalizar este texto sobre “despedidas”, em meio a uma conversa fortuita, eu receba um fragmento escrito assim “Fiquei triste um certo dia quando soube que até as estrelas morrem. Mas, desta vez, não foi a poesia que me consolou&#8230;” Um paragrafo vindo assim, por mensagem, num diálogo na madrugada.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Esse reconhecimento de quem se é, da própria história e do desejo que já existia antes de você encontrar o outro é justo o que lhe é “devolvido” ao fim da jornada de despedida. Gorgeous and alone. Face to face, como num solo do Nels Cline.  </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Sempre tive medo de me despedir, gastei tanto o tempo das coisas que algumas vezes me veio outro temor: o de que as palavras perdessem a força. Hoje entendo que é isso mesmo. Deixar ir leva tempo. É uma morte morrida e não matada. Enfraquece a memória porque algo novo é que vai ganhando vida. A viagem é, enfim, o ato de consumir. Só depois é possível compreender o novo. Por isso, também precisei exaurir alguns sentimentos. E também por isso, repito, este texto é sobre o movimento entre o espanto de ver-se apartado do futuro e o sentimento de quando já nos transformamos e não há mais lamento.</p>
<p>Na viagem que me dispus a fazer reconheci esquinas, percorri o caminho inteiro olhando todos os detalhes, me atentei aos letreiros, escutei os sons, pus os pés na grama, respirei tentando capturar o cheiro de éter e páprica, travei um diálogo insólito com uma senhora que desenhava sozinha pelas ruas. Exauri o que pude para então reconhecer que apenas precisei de um pouco mais de tempo para chegar até ali. Esse reconhecimento de quem se é, da própria história e do desejo que já existia antes de você encontrar o outro é justo o que lhe é “devolvido” ao fim da jornada de despedida. É uma parte sua que se revela inconteste e por isso mesmo não pode ser abandonada completamente. “Gorgeous and alone. Face to face”, como num solo do Nels Cline.</p>
<p>Seja como for, acho que vou dizendo um adeus fraco, agora ou depois. Quando estiver comendo um falafel do Zaim, ainda me lembrarei do que foi. Caminho feito, o passado não é mais. Muda devagar e sempre, o tempo todo, tal qual nós mesmos.</p>
<p>Uma charada in looping. “Finitude e eternidade não precisam ser antágonos”, sentencia minha interlocutora da madrugada. Ela que também escreveu sobre potes de vidros, armários antigos, espiãs russas, bicicletas azuis e uma série de fragmentos rotineiros de uma vida que já é outra. O oximoro. Na memória o aviso: &#8220;Rua Leonor/Rua semente&#8221;, o som que hoje escuto de outra forma dentro de mim.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Groucho Marx e o amor de si</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Jan 2022 23:28:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;Amor é dado de graça. É semeado no vento. Na cachoeira, no eclipse&#8230;&#8221;. Assim Carlos Drummond de Andrade alinhava um dos poemas mais bonitos da literatura brasileira. Se não fosse <a class="read-more" href="https://apulga.com/groucho-marx-e-o-amor-de-si/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2022/01/Groucho3.png"><img class="alignnone size-full wp-image-2018" alt="Groucho3" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2022/01/Groucho3.png" width="400" height="300" /></a></p>
<p>&#8220;Amor é dado de graça. É semeado no vento. Na cachoeira, no eclipse&#8230;&#8221;. Assim Carlos Drummond de Andrade alinhava um dos poemas mais bonitos da literatura brasileira. Se não fosse belo pelas palavras, seria pela maneira delicada de dizer uma verdade muito dura: o amor é escolha. Por mais que nos esforcemos para merecê-lo, não há peripécia, adorno ou mesmo imolação que consiga nos dar aquilo que também é atributo do outro; o gesto de nos escolher por aquilo que somos.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É isto: amamos pelo que o outro diz de nós, por aquilo que nele nos cala e, nesse sentido, não há esforço que molde esse intangível encontro. Digo que a dedicação só se sustenta porque algo nesse sentimento de encaixe se atualiza. “A gente se escolhe”. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>É isto: amamos pelo que o outro diz de nós, por aquilo que nele nos cala e, nesse sentido, não há esforço que molde esse intangível encontro. É claro, a maturidade nos mostra que só se sobrevive àquilo que se constrói a partir desse encontro. Mas meu ponto aqui não é o da pertinência, do tempo e daquilo que vai se urdindo a partir desse encontro. É precisamente o contrário. Digo que a dedicação só se sustenta porque algo nesse sentimento de encaixe se atualiza. “A gente se escolhe” é uma frase que minha comadre me repete há anos com uma precisão cirúrgica a selar esse dilema.</p>
<p>E o que nos faz continuar escolhendo algo ou alguém? Como se diz na homilia católica, “eis o mistério da fé”. Ou desejo é falta, diria Freud. Podemos procurar explicações mil, mas a questão aqui é precisar o quanto dessa escolha é da conta do outro, e não nossa. Repito: não há esforço que molde esse intangível encontro.</p>
<p>Se isso serve para entendermos nossas paixões (e nos libertarmos, caso alguém não nos escolha mais), ver essa constatação pelo espelho é algo que nos impõe um olhar agudo sobre nós mesmos. Woody Allen, no enredo que certamente é o precursor de nove entre dez comédias românticas citadas aqui como exemplo, coloca essa questão em Annie Hall (1977): “Não quero entrar pra nenhum clube que aceite alguém como eu como sócio”. A frase de Groucho Marx dita por Allen atualiza o humor judaico para expor a ironia de que, quando alguém nos aceita como somos, talvez algo de errado haja aí, algo que nos faça perder o interesse porque justamente a falta é (supostamente) preenchida.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">“Não quero entrar pra nenhum clube que aceite alguém como eu como sócio”. A frase de Groucho Marx dita por Allen atualiza o humor judaico para expor a ironia de que, quando alguém nos aceita como somos, talvez algo de errado haja aí, algo que nos faça perder o interesse porque justamente a falta é preenchida.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Essa referência me fez lembrar de um causo corriqueiro, mas bem ilustrativo. Loli, minha professora de alemão, ao me ajudar a procurar uma editora para minha tese e ao esbarrar com uma em relação à qual não viu defeitos aparentes, saiu-me com esta: “Grazinha, vamos procurar mais, porque está tudo muito bem, então, deve ter algo errado”. Essa história até hoje me traz boas risadas por múltiplos motivos, mas aqui vou pegar o fio da “inadequação” para descer um ponto a mais na ferida do ego. Saio do encontro com o outro (a editora, o amor, o filme etc.) e vou para o encontro com o eu.</p>
<p>É esse o tema que tem me pegado em rodeios como no nariz de cera que escrevi até aqui. Em específico, a falta que sentimos que nos faz tanto desejar como repelir algo – não no outro, mas algo em nós mesmos. Com o que é possível nos reconciliarmos a partir do que já vivemos e o que não pode prescindir de ainda ser vivido? Não sei se existe resposta fácil para essas questões. Suspeito que elas vão variar de acordo com o tempo histórico e com o nosso próprio tempo de vida, mas há algo nesse dilema que me intriga e foge um bocado às experiências para centrar-se em algo mais essencial.</p>
<p>Talvez possa dizer de forma mais precisa: e quando sentimos falta de nós e por isso “precisamos” nos escolher? E se cantássemos para nós mesmos o trecho “Olha, você tem todas as coisas/ Que um dia eu sonhei pra mim/ A cabeça cheia de problemas/ Não me importa, eu gosto mesmo assim&#8221;? É piegas e bobo, eu sei, um chavão. Ocorre que essa banalidade nos faz descer mais um degrau no argumento, indo a uma espécie de necessidade de aceitação dos nos próprios defeitos para seguir adiante em nossa escolha e aceitação do que somos. Um amor de si gabola que nos corrigi o rumo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Com o que é possível nos reconciliarmos a partir do que já vivemos e o que não pode prescindir de ainda ser vivido? Não sei se existe resposta fácil para essas questões. Suspeito que elas vão variar de acordo com o tempo histórico e com o nosso próprio tempo de vida, mas há algo nesse dilema que me intriga e foge um bocado às experiências para centrar-se em algo mais essencial.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>É como visualizar Groucho Marx sendo enquadrado por sua mãe judia em um discurso de quem tanto fez para lhe dar a luz e hoje não recebe nada em troca. O velho Groucho, diante de drama maior, haveria de pôr a ironia de lado e lustrar o próprio ego para fornecer uma significativa cota de orgulho e atenção à sua progenitora. É como ver meu afilhado, na galhardia dos seus 5 anos, exibindo-se com embaixadinhas para um grupo de crianças mais velhas. Destemido, olhava para a turma e dizia, entre pequenos chutes: “Olha o que eu seu fazer”. Deu certo, enturmou-se. Mas, no fundo, ele fazia mesmo era o malabarismo para si, em um misto de personalidade bem-resolvida, destemor infantil e, sobretudo, aceitação irreverente das suas habilidades meio falhas e meio atrevidas. “Uma pirueta, duas piruetas/ Bravo, bravo/ Super piruetas, ultrapiruetas/ Bravo, bravo/ Salta sobre a arquibancada e tomba de nariz/ Que a moçada vai pedir bis/ Que a moçada vai pedir bis”.</p>
<p>Muito antes de saber da existência de Groucho Marx, Didi Mocó fez esses malabares durante toda a minha infância e, confesso, sempre preferi os filmes e esquetes em que ele se dava bem no final àqueles em que saía triste tal qual o Carlito, alijado por algum galã. Vejo muito mais graça no Didi fantasiado de Maria Bethânia com o coração transbordando de pretendentes ao errante e preocupado Bonga de “Os Vagabundos Trapalhões” (1982). É como se Pedro Malasartes fosse a antítese de Groucho Marx. Sem ter muito em que se sustentar, para o astuto Pedro não havia espaço para ironias autodepreciativas, mesmo que cheias de charme.</p>
<p>Aliás, passei a infância escutando minha avó me falar das aventuras do Malasartes, uma espécie de MacGyver do sertão, a léguas de distância de qualquer Cinderela encantada. Eram histórias de um pobre coitado que, com um saco, três pedras, um graveto e muita esperteza conseguia quebrar o encanto da princesa, vencer o desafio do rei e ganhar seu quinhão no reino. Ah, os descendentes de Lazarillo de Tormes! Não à toa meu coração disparou ao ver João Grilo, do genial Ariano Suassuna, com seus causos sobre a cachorra que havia deixado um testamento, o gato que &#8220;descomia&#8221; dinheiro e a gaita mágica que ressuscitava gente. O Grilo enganou o padre e o bispo, o padeiro e sua mulher, o cangaceiro chefe do bando e, não contente com a façanha, diante do diabo, não usou de autocomiseração boba. Como ele mesmo anunciou, de besta só tinha a cara, e se saiu com um trunfo maior do que qualquer santo, apelando à Nossa Senhora, a Compadecida.</p>
<p>Um detalhe que vale menção é que Grilo faz seu chamamento sem solenidades e com um verso para lá de maroto: “Já fui barco, fui navio/ Mas hoje sou escaler/ Já fui menino, fui homem/ Só me falta ser mulher/ Valha-me Nossa Senhora/ Mãe de Deus de Nazaré”. É como ele mesmo diz: a mãe da Justiça, a lhe acudir, sabendo exatamente a peça que o Grilo é. Mas, antes, foi ele próprio quem não desistiu de si mesmo diante de todas as suas imperfeições e, muito provavelmente, até por elas. Queria estar no clube, era tudo o que ele tinha. Em uma análise psicanalítica de botequim, o Grilo havia escolhido a si próprio. Podia ensinar a Drummond o avesso do seu poema: &#8220;Amor é dado de graça. É semeado no vento. Na cachoeira, no eclipse&#8230;&#8221; o Grilo amou-se, sabe Deus (ou Nossa Senhora) o porquê. Mas é fato que, de alguma forma, supriu a própria falta reconciliado que estava consigo, com o que havia de bom e ruim.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Mas, antes, foi ele próprio quem não desistiu de si mesmo diante de todas as suas imperfeições e, muito provavelmente, até por elas. Queria estar no clube, era tudo o que ele tinha. Em uma análise psicanalítica de botequim, o Grilo havia escolhido a si próprio. Podia ensinar a Drummond o avesso do seu poema: &#8220;Amor é dado de graça. É semeado no vento. Na cachoeira, no eclipse&#8230;&#8221; o Grilo amou-se. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Eu volto a pensar nisso, como se houvesse solução para esse mistério contínuo do movimento de quando somos gentis conosco e quando nos torturamos. Penso que talvez uma arenga bem dosada nos sirva de medida, já que ela nos provoca, mas também nos acaricia com um humor necessário à vida. A chave me parece ser mesmo querer fazer parte do clube. Mesmo que ele não exista de fato, há algo que se sobressai naqueles que, enfim, fazem essa escolha. Acho que é um pulo não apenas por escapar, mas sobretudo por viver. “A esperteza é a arma do pobre”, diz a Compadecida diante dos pecados do Grilo.</p>
<p>Há alguns anos tive o privilégio de entrevistar Ariano Suassuna e lhe perguntei justamente sobre o encantamento e essa salvação pela astúcia. Ele me respondeu: “Sou uma pessoa que, com 80 anos de idade, ainda continuo animoso”. Por isso, sua literatura tinha esses personagens que enfrentam o real com uma espécie de galope mágico. Suassuna perdeu o pai assassinado ainda criança e viu sua mãe esconder o paradeiro do assassino para evitar que um rastilho de vingança destruísse a vida dos filhos. Foi compreender isso adulto. Dizia-se um homem assombrado até que sua esposa Zélia lhe aliviou o coração. Quando a conheceu, gaiato como ele só, Ariano disse a sua irmã Germana: “Hoje, na Rua Nova, uma galeguinha maravilhosa, linda, olhou pra mim com cara de alma que tá pedindo reza”. Ariano teve uma sorte imensa por Zélia ter lhe escolhido, dessa sorte dita por Drummond, que é do outro para conosco. Mas, acho que em algum momento ele mesmo escolheu a si mesmo como um ser animoso que era.</p>
<p>Nem sempre é possível seguir em frente pondo os pés sobre um alicerce imperfeito. Há pendências que precisam ser resolvidas para que não retornem sempre numa sabotagem cada vez maior, é fato. Mas também há uma hora em que a gente deve se escolher como escolhe o outro que enuncia nossas faltas e nosso desejo. Talvez por isso mesmo demos esse passo quando entendemos o que de nós pode ser aceito mesmo que nos doa. “Quatro cambalhotas, cinco cambalhotas/ Bravo, bravo/ Arquicambalhotas, hipercambalhotas/ Bravo, bravo/ Rompe a lona, beija as nuvens, tomba de nariz/ Que os jovens vão pedir bis/ Que os jovens vão pedir bis”. Salve o Grilo Saltimbanco Malasartes!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Foi bom, eu fingi que estava feliz</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Nov 2019 06:28:49 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Existe uma história ótima que ronda o meu círculo de amizades há anos. O filho mais velho da minha comadre era uma criança muito adulta. Quando levado àqueles playgrounds de <a class="read-more" href="https://apulga.com/foi-bom-eu-fingi-que-estava-feliz/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/11/frida.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1909" alt="frida" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/11/frida.jpg" width="361" height="339" /></a></p>
<p>Existe uma história ótima que ronda o meu círculo de amizades há anos. O filho mais velho da minha comadre era uma criança muito adulta. Quando levado àqueles <i>playgrounds</i> de <i>shopping</i>, sempre preferiu ficar em um canto, desenhando a correr e a pular como os outros meninos da sua idade. A mãe chegava a impulsioná-lo com algumas palavras e gestos, na tentativa de que o pequeno “gastasse” toda aquela oportunidade que, por vezes, parecia desperdiçada. Esse é o preâmbulo do episódio mais representativo desse dilema sobre as incríveis “chances da vida”. Acho que, por volta dos seus 5 ou 6 anos, depois de muita insistência, nosso infante finalmente cedeu e, atendendo aos anseios familiares, vestiu-se de toda uma capa lúdica e foi participar de sua primeira peça no colégio. Ao sair, a mãe, entusiasmada, interpelou-o: “E, então, meu filho, como foi?”. A resposta sincera veio de chofre: “Foi bom, mamãe, eu fingi que estava feliz”.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A frase “foi bom, eu fingi que estava feliz” – acabou virando um mantra, uma espécie de brincadeira íntima, que repetíamos sempre que queríamos designar a astúcia necessária para representar um papel de nós esperado pela sociedade.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O caso – e, sobretudo, a frase “foi bom, eu fingi que estava feliz” – acabou virando um mantra, uma espécie de brincadeira íntima, que repetíamos sempre que queríamos designar a astúcia necessária para representar um papel de nós esperado pela sociedade. Para os diversos meandros da academia, então, essa parecia ser a máxima perfeita. Tudo que se deve tolerar e representar em nome de um título. Como numa espécie de jogo da vida, chega ao fim mais repleto de patrimônio e relações aquele que melhor dominar a arte da interpretação.</p>
<p>Decerto, minha observação tem lá seu tom cínico. A academia, que tanto se coloca como balisa das outras instituições é, ela própria, um dos espaços de reprodução mais violenta e abusiva dessa lógica. Contudo, nem de longe se pode alegar que tenha exclusividade para tal <i>modus operandi</i>. Quanto mais hierárquicas (com poucos filtros verticais) e estimulantes da vaidade sejam as instituições, mais fácil é de se perpetrar essa lógica. Ela está na justiça, na diplomacia, na caserna&#8230; E, <i>touché</i>, chega no local do pensamento crítico que tudo analisa até que o referido princípio não lhe coloque em xeque. Tudo em nome das boas relações corporativas (sic).</p>
<p>Fosse eu falar o que vivi&#8230; Até hoje me pergunto como é possível um programa considerado como referência de estudos colocar para orientar em um doutorado alguém que sequer havia concluído uma orientação de mestrado. No âmbito do Judiciário, vi um advogado não ir a audiência mediente a apresentação de um atestado de uma ginecologista. A cena processual foi lá nos anos 1990. Logo depois, o debate em torno da Reforma do Judiciário sinalizou uma mudança institucional nunca convertida em democratização institucional. Mas, de alguma maneira, o incômodo estava lá aparecendo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Decerto, minha observação tem lá seu tom cínico. A academia, que tanto se coloca como balisa das outras instituições é, ela própria, um dos espaços de reprodução mais violenta e abusiva dessa lógica.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Nos dias de hoje há uma ironia. Ainda que por uma superexposição de agenda e seus reais trâmites, de uma maneira nada usual, a magistratura se vê diante de críticas jamais vistas. Então, hoje também fico pensando quando movimentos como o #metoo, abarcando abusos de ordens distintas, chegará enfim à academia. Instituições com potencial de transformar vão minando suas estruturas pela reprodução do compadrio.  Não adianta questionar autores clássicos, falar em empoderamento periférico, se o desrespeito se coloca cotidiano nas relações mais básicas. Talvez daqui a alguns anos vejamos as contradições acadêmicas explodirem nas mesmas ironias que chegaram à Justiça em meio ao debate público.</p>
<p>Mas, de forma sintética, não há segredo e nem mistério: relações institucionais que dependam da sorte, dado o nível de poder e verticalidade nas quais se baseiam, costumam ter algo de muito errado em seu cerne. Da sorte dependem os sentimentos, e não um julgamento justo, uma orientação não abusiva, uma ordem abjeta. Contudo, seguimos aprendendo a pagar os preços. Digo, esses preços específicos do silenciamento e da <i>mise en scène</i>.</p>
<p>É exatamente este o meu ponto: quando se deve decidir não pagar esse preço? Quando simular a felicidade se torna algo pesado demais? Quando sucumbir for a única opção com sentido? Em nossa sociedade, há uma ode à felicidade. Ela é escancarada, como nos debates em torno do “show do eu” das redes sociais, para usar um termo da Paula Sibília, mas também ela é velada nos escaninhos do que todos suportamos em nome do que julgamos ser um bem maior.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Não é o caso de ter um raciocínio niilista ou hedonista, como se na vida não existissem responsabilidades. O que apontamos aqui é outra questão: é o sufocamento e a violência consentida em nome do pragmatismo.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Por vezes são os que nos amam a indicar, compreensivelmente, esse caminho. O concurso, a casa própria, o título, o pacote do que deveria trazer a felicidade. Talvez aqui seja o caso de evocar um teórico mais clássico, Erving Goffman, a nos indicar, como no teatro, o jogo interpretativo que fazemos para sobreviver. É muito comum pagar esses preços e, sim, ter uma sobrevida &#8211; não no sentido primeiro, do essencial – mas, ao contrário, de algo que é superficial e ao qual nos agarramos mesmo representando o oposto dos nossos desejos. Dito de forma direta: o apego à artificialidade que pode nos destriur silenciosamente. Se as instituições pagam um preço por isso a longo prazo (os brioches de Maria Antonieta podem atestar), o custo pessoal tampouco é baixo. Aí abre-se a janela para as escolhas íntimas que, por essência, temos maior manejo.</p>
<p>Não é o caso de ter um raciocínio niilista ou hedonista, como se na vida não existissem boletos, responsabilidades e dificuldades. O que apontamos aqui é outra questão: é o sufocamento e a violência consentida em nome do pragmatismo. Sempre que me pego articulando essas ideias, me vêm à mente aquelas mulheres dos anos 1950 que, seguindo a recomendação das mães, das avós e das revistas femininas, apreendiam sistematicamente que era melhor aceitar todas (ou quase todas) as violências conjugais em nome de não serem mulheres desquitadas, de não perderem o sustento do lar, de não macularem seu nome. Eis aí títulos não acadêmicos a pedir o silêncio como paga. Não é difícil imaginar a frase “minha filha, não faça isso, é para o seu próprio bem”. O patriarcado dá contorno a essa cena como a tantas outras, mas, como no argumento que levantamos, a lógica é mais ampla: tudo suportar em nome de algo pretensamente maior.</p>
<p>Acontece que o preço que pagamos por esse caminho de pragmatismo idílico desconhece os limites humanos, personalíssimos e intransferíveis. Nem tudo vale a pena e nem tudo nós suportamos da mesma maneira. Essa fronteira deve ser não só respeitada como dita. Quebrar o silêncio é fundamental. A lógica do  “faça, mas não alardeie” é outra violência. Parte fundante do processo de cura é a fala. Freud foi genial, entre outras coisas, por, justamente na época de ouro dos manicômios, apontar para a palavra como forma de elaboração da dor.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Acontece que o preço que pagamos por esse caminho de pragmatismo idílico desconhece os limites humanos, personalíssimos e intransferíveis. Nem tudo vale a pena e nem tudo nós suportamos da mesma maneira.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Contudo, é importante voltarmos ao passo anterior, àquele sobre admitir que não valeu a pena. Esse parece ser outro tabu dos nossos tempos. Diante do fracasso, há sempre uma advertência para vermos o lado bom e para tocarmos em frente. “Fazer do limão uma limonada” parece a concessão máxima que o pragmatismo idílico dá ao fracasso. A frase é em si um sofisma, porque o sonho de que tudo pode nos levar a um resultado prático é tão fantasioso como é pueril a esperança de que se possa seguir extraindo do mal um bem. Se tal pensamento serve para tantas coisas cotidianas, certamente não serve para determinadas situações nas quais sucumbimos. O que se procura é, neste caso, tão e simplesmente encarar essa verdade sem subterfúgios. Só isso pode nos levar ao passo seguinte. Sem tomar consciência de que algo para nós pereceu, não é possível dar qualquer outro movimento de mudança.</p>
<p>É, então, que o ato de falar e calar (por vezes, negar, no sentido de atribuir ao motivo de determinadas violências um fim) torna-se o segundo e importante passo. Há uma série de retratos de Frida Kahlo em que ela aparece com o rosto recortado das fotografias. No lugar da cabeça, um buraco, o vazio. É, talvez, uma expressão, digamos, plástica, de algo primeiro, que é a capacidade de recontar a própria história e, diante dela, dar os sentidos que as experiências de fato tiveram em nós. Em um <i>stand-up comedy</i> intitulado “Nanette”, a australiana Hannah Gadsby vai destrinchando com uma capa de humor uma série de situações abusivas, em especial as relativas ao ódio à comunidade LGBT.</p>
<p>Lá pelas tantas, Hannah aponta para os buracos na sua própria narrativa e admite que, quando finalmente se assumiu lésbica, era tarde demais: ela já tinha internalizado a homofobia. É algo que começa parecendo um esquete de humor, mas é um soco no estômago. Ali não há um rosto retirado da foto, mas há uma negativa exposta. É alguém que sucumbe, expõe isso e só dessa forma consegue dar o significado real ao que se passou. Se uma verdade que é dura aflora, outra mais doce, porém inverídica, é finalmente silenciada.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É exatamente por isso que ao assumir que determinadas processos são uma farsa e que atos de violência e abuso foram perpetrados, o que se busca de fato é uma mínima reparação pela fala e pela verdade. Assume-se um valor.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Fico pensando cá com os meus botões se nós estivéssemos até hoje dizendo que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil só porque isso foi dito reiteradamente por quem convinha. Ou, se ninguém tivesse se revoltado contra a ideia sacrossanta do casamento, será que estaríamos até hoje falando que cabe à mulher zelar pela família? Quando uma versão é negada, outra é dita. Costumam ser mais custosas e verdadeiras aquelas histórias veladas que, quando vêm à tona, causam tanto pavor.</p>
<p>É exatamente por isso que ao assumir que determinadas processos são uma farsa e que atos de violência e abuso foram perpetrados, o que se busca de fato é uma mínima reparação pela fala e pela verdade. Assume-se um valor. Não sem custo, mas assume-se. O preço pelas escolhas todos nós pagamos. Novamente, é personalíssimo e intransferível. Só que, em determinados momentos, a questão é saber se você vai pagar pela doença de permanecer calado, inoculando as convenientes meias verdades, ou se é melhor pagar a conta de assumir o que não foi. É como se disséssemos de forma inversa: “Foi bom, eu não fingi que estava feliz”. É o limite de cada um. Não é saudável ir contra ele. Não é mais barato pagar o preço de fingir que dá para ir levando.</p>
<p>Aos que novamente relembram a práxis da vida, eu vislumbro o desejo que dá contorno aos limites. Por que um homem branco, hétero e bem-sucedido deixaria tudo para assumir outra identidade de gênero?  Por que alguém escolhe abandonar a faculdade de medicina? Por que negar que cada de nós é movido por pulsões e fronteiras distintas?</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Se, ao fim e ao cabo, somos nós que pagamos o preço, convém que nós também possamos escolher.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O risco de negar nossas verdades, em especial as mais duras, é ficarmos aprisionados como em um livro de Tolstói. O pobre Ivan Ilitch, que apenas teve sua epifania reveladora no momento da morte. Só ali viu que levou a vida a contemplar todos os desejos alheios, menos o seu. Se, ao fim e ao cabo, somos nós que pagamos o preço, convém que nós também possamos escolher.</p>
<div></div>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Neuer Jungferntieg</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Mar 2018 10:39:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Grilo Falante]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando cruzei pela primeira vez a Neuer Jungfernstieg, 21, em outubro 2011, eu tinha esquecido tanta coisa sobre mim. Dias antes, em Berlim, havia escrito uma carta a dois amigos <a class="read-more" href="https://apulga.com/neuer-jungferntieg/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Alster5.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1732" alt="Alster5" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Alster5.jpg" width="726" height="483" /></a></p>
<p>Quando cruzei pela primeira vez a Neuer Jungfernstieg, 21, em outubro 2011, eu tinha esquecido tanta coisa sobre mim. Dias antes, em Berlim, havia escrito uma carta a dois amigos falando sobre aquela viagem. Era uma espécie de memorial interrompido, um roteiro que dava conta de uma jornada antiga que nunca fora concluída. Era exatamente isto: eu estava onde queria ter estado há dez anos. Mas, estar ali, tanto tempo depois, era realmente o que eu queria? Ainda fazia sentido? Questionava os meus amigos, como num sofisma. Uma pergunta feita a mim mesma que eu, de pronto, já ensaiava a resposta: “Não, não havia mais sentido porque eu era outra pessoa”. Meus sonhos juvenis não caberiam mais ali. O sentimento era de inadequação, como se algo não pudesse mais se realizar.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Não se vive uma mesma história duas vezes, ainda que na primeira ela tenha sido promessa e não realidade. É preciso um significado de agora, do tempo presente, mesmo que traga em si a lembrança do que foi. E a grande dificuldade de juntar essas pontas, está em atravessar-se. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Diante daquela impossibilidade, em algum momento do <i>e-mail</i> exponho o dilema: “Vivo uma confortável vida de classe média ou saio para o doutorado fora e dou algum crédito à aventura e aos sacrifícios inerentes a ela? E, aí, vem a pergunta: qual o sentido disso?” Eis o ponto: esse sentido deve ser atualizado. Não se vive uma mesma história duas vezes, ainda que na primeira ela tenha sido promessa, e não realidade. É preciso um significado de agora, como algo novo, do tempo presente, mesmo que traga em si a lembrança do que foi. E a grande dificuldade de juntar essas pontas, preencher esse hiato, está no abismo de atravessar-se. Um fio solto de um sonho, a depender da sua natureza, se não deixa à deriva o próprio desejo – que sempre pode mudar –, decerto abandona uma parte do sonhador que em algum momento se perde de si, do que poderia ter sido e não foi. Há uma ruptura. Recuperar isso é impossível. Contudo, num instante qualquer, um gatilho nos provoca a saber o que deixamos para trás.</p>
<p>Poucas obras falam dessa experiência de maneira tão corajosa e bela quanto “Santiago”, de João Moreira Salles. Lançado em 2007, o documentário havia sido filmado em 1992, quando o cineasta tinha 30 anos, mas só aos 43 ele conseguiu voltar à edição do material, enfrentá-lo. E isso é colocado de pronto. Na primeira cena, o narrador enuncia: “Há treze anos, quando fiz estas imagens, pensava que o filme começaria assim: primeiro, uma música dolente. Não essa que eu só conheci mais tarde, mas algo parecido; depois, um movimento lento em direção a três fotografias. (&#8230;) Uma das minhas lembranças de criança sou eu e meus irmãos vestidos de copeiros, com uma bandeja na mão, entre os convidados, brincando de servir. Nessas ocasiões, quem punha a bandeja em minha mão e me ensinava a equilibrá-la sem derrubar os copos era Santiago, o mordomo da casa. O filme que eu tentei fazer há 13 anos era sobre ele”. Assim, João inicia a narração em uma película que não documenta um objetivo, não se volta a uma finalidade, mas expõe sua jornada interna para, com a passagem do tempo, conseguir ver o que antes lhe era impossível. É um filme sobre o filme, uma metalinguagem sobre a construção de uma obra audiovisual. Mas é, sobretudo, uma reflexão sobre o caminho que o diretor encontrou para poder realizá-lo.</p>
<p>Em dezembro último, durante um debate na Matilha Cultural, em São Paulo, perguntei a João sobre a relação entre “Santiago” e seu último filme, “No intenso agora”, lançado em 2017. Ambas são narrativas em primeira pessoa e, das múltiplas coisas de que se pode falar, ele enfatizou uma: Santiago é um filme sobre nós. O jovem João começou a filmar o mordomo de sua casa achando que ele era um personagem externo a si. Um outro. Mas esse argumento era falso porque aquele era o criado de sua casa e ele não era um cineasta estranho. Era o Joãozinho, como Santiago o chamava. Como ele próprio afirma, era um filme sobre nós, mas isso só pode ser visto depois. Ao concluir o documentário, João fala: “E, no fim, quando Santiago tentou me falar do que lhe era mais íntimo, eu não liguei a câmera”. Foi preciso tempo, tempo para atravessar-se. O documentário inicial de 1992 nunca pôde se concretizar, mas João Moreira Salles realizou sua jornada. O filme de 2007 é tanto algo novo como a representação dessa travessia.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">O que aconteceu comigo é que eu simplesmente tinha esquecido. A vida faz isso com a gente, né? De repente há uma interrupção em nosso caminho, algo se parte e vamos nos embotando, perdendo a memória de quem somos. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Por algum motivo psicanalítico não tão misterioso assim, Santiago sempre foi um filme que me tocou. Um quase diário a indicar a descoberta do tempo, de si e do outro. É fácil pensar nisso agora, tem um nexo. Mas o filme aqui é uma alegoria do meu incômodo, embora à época não o soubesse nominar. O que me importunava era diverso de um “nós”, de algo não percebido. O que aconteceu comigo é que eu simplesmente tinha esquecido. Tinha esquecido muito sobre mim. A vida faz isso com a gente, né? De repente, há uma interrupção em nosso caminho, algo se parte e vamos nos embotando, perdendo a memória de quem somos. Lygia Fagundes Telles costuma dizer que a gente precisa se “desembrulhar”. Mas como fazer isso se às vezes sequer temos a dimensão das camadas que nos “protegem”?</p>
<p>Eu ensaiava alguma visão e meu incômodo é sinal disso, mas não conseguia de fato enxergar o todo. Uma vida adulta precoce demais tinha me tirado a ideia de que era possível eu me arriscar, me permitir. Posso falar da vocação, do mundo&#8230; Mas me refiro essencialmente a uma noção de “pertencimento”, não num sentido pueril e pretencioso que o termo carrega, mas no da permissão que o sujeito concede a si mesmo ao se sentir parte de algo. Obviamente, sentimentos como o amor e o pertencimento são também uma linguagem, tem elementos que nos escapam porque são acessados sem que tenhamos o controle. Por isso uma obra de arte nos salva, porque ela nos toca num ponto que desconhecíamos, ela nos revela. É “de lá para cá”, mas nós precisamos abrir a porta, sentir que merecemos.</p>
<p>Para Habermas, a legitimidade da lei carece de validade; para Freud, é necessária a transferência entre o paciente e o analista. São ligações misteriosas, requerem uma forma de permissão, um aceite. Para Deleuze, a amizade requer não uma comunhão de ideias, mas uma pré-linguagem comum. Numa entrevista à TV francesa, ele explica: &#8220;Há pessoas em relação às quais não entendo nada do que me dizem. Mesmo coisas simples como ‘passe o sal’, eu não consigo entender. E há pessoas que me falam de um assunto totalmente abstrato, com o qual não posso concordar, mas entendo tudo o que dizem. É um mistério, um charme”. Ele complementa: “Há frases insignificantes que têm tanto charme e mostram tanta delicadeza que, imediatamente, você acha que aquela pessoa é sua. Não no sentido de propriedade, mas é sua. E você espera ser dela. Nesse momento nasce a amizade”. É disto que falo: desse encontro com o outro. Especificamente, com outro que há em nós, escondido.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Sentimentos como o amor e o pertencimento são também uma linguagem, tem elementos que nos escapam porque são acessados sem que tenhamos o controle. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Nem sempre é fácil achar os sinais do que escondemos de nós mesmos, mas, em determinados momentos da vida, um fresta se abre. No começo, Hamburgo foi isto: uma porta aberta além de mim. Primeiro, foi o incômodo, a dúvida. Só depois pode ser a experiência plena. Os seis anos que separaram minha primeira viagem à cidade, em 2011, e a estadia mais recente, em 2017 – com direito a uma breve parada, em 2013 –, foram também a cronologia de uma jornada interna. Gastei esse tempo, esse precioso tempo, atravessando-me para reencontrar algo perdido.</p>
<p>A Hamburgo que conheci, em 2011, era um cenário tão diminuto quanto desafiador. Antes de qualquer coisa, a cidade foi a Colonnaden e seu pequeno comércio: a loja de botas de cowboy americano, o antiquário com louças delicadas e um casal de velhinhos, as duas livrarias – uma sofisticada e a outra um varejo de livros de idiomas – quase vizinhas, a velha casa de chá, a bifurcação com a Gustav-Mahler Platz, o café Caravela com suas coxinhas a me lembrar o Brasi. E foi, sobretudo, o sabor do macarrão com frutos do mar do Vinum et Cibus. O vinho tinto e a pasta servida com muito molho. O descer os degraus rumo ao porão para depois “emergir” equilibrando os pratos e pousá-los nas mesas altas no meio da rua. Como em um dos cenários do Circo do Dr. Lao, algo entre o lúdico e o estranho.</p>
<p>Eu observava o passo das pessoas, o vaievém das bicicletas, imaginava como poderia ser tal rotina. Aquele dia no fim de outubro de 2011 se fez assim: o céu cinzento, com um pouco de frio, o gosto da comida ainda na boca, uma rua estreita como atalho para Neuer Jungfernstieg e, finalmente, o German Institute of Global and Area Studies, o Giga, no número 21. Defronte, o Alster. Recordo de mirar o lago, ver um zepelim, as folhas caindo no outono. Olhava por entre alguns ganhos à margem do espelho d´água e, vendo de longe o céu, como já disse, tinha a sensação de uma porta aberta além de mim.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> No começo, Hamburgo foi isso: uma porta aberta além de mim. Primeiro foi o incômodo, a dúvida. Só depois pode ser a experiência plena. Os seis anos que separaram minha primeira viagem à cidade da estadia mais recente eu gastei atravessando-me para reencontrar algo perdido.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Seis anos depois, Hamburgo foi deixando de ser espanto para ser a vivência. Era o momento de chegar para ficar alguns meses. O plano de fazer o doutorado fora do Brasil ganhava, então, uma forma possível. A cidade saiu da paisagem restrita para construir-se numa rotina. A primeira morada na Bramhsalle, o caminho que fazia andando pela Gridelhof, o tempo de sentar com calma na Allende-Platz e ver o movimento em frente ao cine Abaton, o Grupo de Estudos de Temas Brasileiros na UNI, os cafés da Sternschanze, as bicicletas, o fishmarket, a chuva intermitente, os longos dias de verão, o metrô, o gosto das geleias e do Somersby. Landungsbrücken, HafenCity, Reeperbahn&#8230; A camaradagem dos amigos. A gentileza, o apoio, as dicas de <i>hostels</i> baratos, a garimpagem dos livros, os dias no parque, a vida de estudante, o dinheiro contado, o desafio do idioma, os novos laços que se desenhavam. De alguma maneira, estava entre aqueles que teriam estado comigo anos atrás.</p>
<p>E, de todas as coisas que poderiam ser ditas, das físicas às subjetivas, a mais honesta é a sensação de pertencimento ao cruzar os corredores do Giga. Uma certeza íntima foi se revelando no atravessar das portas, ao tomar café no final da tarde com um bando de <i>nerds</i> aficionados por Ciência Política e Relações Internacionais. Éramos felizes, mesmo meio “espremidos” na cozinha do 6<sup>o</sup> andar. E, dessa forma, todos os dias, ao passar pelo Alster, eu agradecia a chance de me lembrar do muito sobre mim que havia esquecido.</p>
<p>Essa lembrança é curiosa porque não é estanque, restrita ao passado, nem mesmo mora fora, na rua. Ela fica aqui dentro, hoje, me provocando a ser quem sou. De vez em quando aparece, irrompe, como num dia em que vi um quadro no Checkpoint Charlie. A imagem de Reagan e Gorbachev assinando o tratado de redução das armas nucleares em 1987 e, num piscar de olhos, estava diante do meu velho livro do Melhem Adas que me fez querer estudar Ciência Política. Era Santiago falando com a câmera desligada, as madeleines de Proust, o mecanismo que te desperta algo guardado e tão constitutivo de quem se é.</p>
<h3><strong> </strong><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> É difícil admitir a fragilidade, os medos e os outros esqueletos que temos no armário. Infelizmente, desconheço outro caminho. Porque só a percepção de que algo estava profundamente errado nos dá a chance de acertar a trilha.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>No fundo, quando quis escrever sobre Hamburgo, nessa perspectiva tão íntima, era disto que queria falar: do momento em que nos lembramos quando o sentido se reelabora. Mas isso só é possível depois de um árduo caminho de enfrentamento. É trabalho duro, contínuo. Dói um bocado. Mas é difícil admitir a fragilidade, os medos e os outros esqueletos que temos no armário. Infelizmente, desconheço outro caminho. Porque só a percepção de que algo estava profundamente errado nos dá a chance de acertar a trilha.</p>
<p>Em outra ocasião, pude escrever sobre Hamburgo do ponto de vista histórico, numa crônica* sobre as mudanças de um tempo e as nossas próprias. Nesse texto, uso uma frase de Aracy de Carvalho que, numa referência ao passado, diz: “Esse viver ninguém me tira”. Mas subverto a citação e a uso como predição, uma recompensa a quem se arrisca. Repito essa fase para mim, como uma forma de não mais esquecer. Atravessar-se é uma viagem, a mais difícil. E só a coragem para tal travessia leva a algum lugar com sentido. Há despedidas nesse caminho, mas hoje fico com o desejo de ir além e com os encontros, precisamente o que temos conosco.</p>
<p>É disto que falo e repito: Joãozinho, um “charme”, o Alster&#8230; Algo nos sopra o ouvido. De repente. E eu só consegui entender isso, muito antes de voltar ao Giga, quando me lembrei das coisas mais íntimas que carregava e do porquê de tê-las deixado de lado. Isso me traz de volta a João Moreira Salles e à sua narrativa. Se “Santiago” só pôde ser feito quando João entendeu quem ele era naquele enredo, em “No intenso agora” (2017) já há um diretor plenamente maduro a falar sobre dar sentido às coisas quando o ápice da vida parece já ter acontecido. Pode-se pensar que este é um filme sobre política, sobre 1968, mas não é. É sobre a capacidade de dar sentido ao novo. No instante em que nos lembramos de nós, algo se liga, mas não voltamos ao passado: precisamos dar um novo significado ao que nos tornamos e ao que temos pela frente.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Só a coragem para a travessia leva a algum lugar com sentido. Hoje fico com o desejo de ir além e com os encontros, precisamente o que temos conosco.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Talvez eu faça todas essas ilações porque ainda seja difícil falar sobre mim em primeira pessoa. Assumir os desejos, os riscos. Ir lá no osso, naquela menina que um dia fui. Ainda coloco uma camada, tal qual João Moreira Salles, que escala o irmão Fernando para narrar Santiago. Mas algo em mim já se atravessou definitivamente, o medo que tinha voltou a ocupar o lugar que lhe é devido na equação da vida. Finalmente, posso dizer que o meu medo de ficar é maior do que o de ir e eu reencontrei uma das partes mais preciosas de quem sou.
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/screen-shot-2018-03-11-at-12-06-53/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Screen-Shot-2018-03-11-at-12.06.53-150x150.png" class="attachment-thumbnail" alt="O Alster  visto de dentro, num barco, num dia alto de verão. Parece até que algo quebrado volta a funcionar. Sempre me lembrava o mar da Fusta e um encantamento que só a água tem." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/screen-shot-2018-03-11-at-12-00-34/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Screen-Shot-2018-03-11-at-12.00.34-150x150.png" class="attachment-thumbnail" alt="Foto completamente &quot;ordinária&quot; para o registro do famoso dia em que dormi no porão ou salinha de recreio da Cruz Vermelha. Síntese aventureira total." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/screen-shot-2018-03-11-at-11-35-59/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Screen-Shot-2018-03-11-at-11.35.59-150x150.png" class="attachment-thumbnail" alt="Eu sendo &quot;chapeleiro maluco&quot; na melhor loja de chapéus que vi na vida e com um autêntico panamá coco na cabeça. Cool cat, dear Fred Mercury." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/el-philharmonie-ao-fundo-pulga/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/El-philharmonie-ao-fundo-Pulga-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Saindo do Giga e indo à pé para a região portuária. El Philharmonie ao fundo. Deslumbre." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/rote-flora-g20-to-the-hell-pulga/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Rote-flora-G20-to-the-Hell-Pulga-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Rote Flora gritando: &quot;G20 to the Hell&quot;. O berço da contestação na  cidade." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/parque-brahmsalle2-pulga/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Parque-Brahmsalle2-Pulga-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Parque ao lado da Brahmsalle, a rotina com sol no verão. De serenar a alma, ler um livro e se desligar de qualquer aflição." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/screen-shot-2018-03-11-at-11-20-28/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Screen-Shot-2018-03-11-at-11.20.28-150x150.png" class="attachment-thumbnail" alt="Playground Coffee dentro do Otto&#039;s Burger na região da Grindlhof. Sem dúvida o café mais acolhedor e simpático, com um grão esplêndido da República Democrática do Congo, um chocolate quente e um chai latte precisos. Esse añi operando as &quot;máquinas&quot; é o simpático Mark." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/dehnhaide-pulga/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Dehnhaide-Pulga-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Imagem da estação Dehnhaide rumo a uma das minhas moradias. A rotina e a parte não turística da cidade." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/turma-giga-2/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Turma-Giga-2-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Turma do Giga na cozinha do 6o. andar. Todos &quot;espremidos&quot;  na cozinha do sexto andar, no café da despedida." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/margem-alster2-pulga/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Margem-Alster2-Pulga-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Margem do Alster, semana do Orgulho LGBT. Ao fundo, atrás das bandeiras, a Neuer Jungferntieg." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/colonnaden-pulga/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Colonnaden-Pulga-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Colonnaden, as bicicletas e as mesas na rua defronte ao Vinum et Cibus. A pasta com frutos do mar das sextas-feiras." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/alster-2011/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Alster-2011-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="O Alster no outono, o zepelim entre os galhos, uma porta aberta, outubro de 20111." /></a>

<h3><strong> </strong></h3>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>O livreiro e o outro</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Dec 2016 20:28:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Grilo Falante]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>

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		<description><![CDATA[Botou uma placa na frente da loja, um cavalete sobre a calçada. O escrito de giz na lousa anunciava: “Acervo – livros a 10 reais”. Foi um jeito de lidar <a class="read-more" href="https://apulga.com/o-livreiro-o-risco-e-o-outro/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;" align="center"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/Acervo34.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1593" alt="acervo34" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/Acervo34.jpg" width="683" height="625" /></a></p>
<p style="text-align: left;" align="center">Botou uma placa na frente da loja, um cavalete sobre a calçada. O escrito de giz na lousa anunciava: “Acervo – livros a 10 reais”. Foi um jeito de lidar com a crise, pois assim chamaria quem estivesse na rua. Melhor que a vitrine, no velho estilo, a placa era uma espécie de convite. É do reclame que vivem os comerciantes. Carece chamar atenção para o produto.</p>
<p>Mas acontece que sebo não é armarinho, nem loja <i>hipster </i>e nem banquinha de paletas mexicanas no verão. Livro tem vida. Certa dignidade mesmo. Tem cheiro, respira pelas páginas, usa capa feito vestimenta, tem temperamento para fisgar ou causar enfado. É cheio dos melindres. Talvez por isso o Chico de Assis, dono do sebo, tenha me dito que livreiro é meio professor. Embora, advertiu, nem todo professor possa ser um bom livreiro. O que une os ofícios é o gosto por saber das coisas e, sobretudo, por saber do outro. Das diferenças sei muito pouco; talvez fique no caixa, no estoque e na ordem das prateleiras.</p>
<p>Fato é que quem lida com livro, mais do que da letra, tem que entender do homem, seja ele leitor ou não. Isso porque é preciso dar uma chance ao futuro. É o convite. Há sempre o risco de alguém tombar com o reclame, entrar, dar de cara com um título e, bingo, talvez tornar-se um leitor, ainda que eventual.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Livreiro é meio professor. Embora, nem todo professor possa ser livreiro. Mas o que une os ofícios é o gosto por saber das coisas e, sobretudo, por saber do outro.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Foi isso que vi o Chico de Assis tantas vezes fazer. Fisgar o desavisado, dar a ele uma pista sobre o seu próprio desejo. É uma fronteira íntima. O sujeito leva um pouco mais do que lhe interessa ou pode esbarrar com algo novo que lhe abra uma porta. Mas, nesse escaninho, é sempre o outro que impera. É o diálogo no qual o livreiro antecipa a fala do seu interlocutor. Observa, conversa e arrisca a mostrar-lhe um mundo novo.</p>
<p>Mesmo para os iniciados, há descobertas. Falando do Borges, o bruxo, escuto o nome do Macedônio Fernández, argentino, louco, inspirador de muitos devaneios do elegante autor do “Jardins das veredas que se bifurcam”. Cá para nós: toda loucura tem pai. O motivo de ser também habita as palavras. Quem escreve já leu. Carrega consigo outros milhares de escritores, que, por sua vez, foram leitores, que foram escritores, que foram leitores, que, certamente, frequentaram livrarias e sebos.</p>
<p>Fico imaginando quando caíram nas mãos de Fernando Pessoa as primeiras letras de Omar Khayyam. Como Pessoa teria descoberto e trazido consigo as poções desse poeta e alquimista medieval? É um disparate imaginar esses caminhos.</p>
<p>Outro dia mesmo, no século XXI – na verdade, na quinta da semana passada –, um sujeito moderninho entrou no sebo e perguntou pelo Khayyam, o que nos levou a Pessoa, o que nos levou ao escaninho aberto, o que nos levou a tantos outros leitores e escritores. É o reclame. A plaquinha do sebo. O risco. O outro.</p>
<p>E são tantas e diversas as descobertas&#8230; Alguns dias de papo no Acervo e conheço o Fabián, um chileno que é garçom num restaurante de empanadas na vizinhança e me fala de Bolaños e vários outros cuja referência latina vergonhosamente me escapam. Tentando estipular uma ordem sobre o que se deve ler, Chico de Assis falava sobre o tempo necessário a algumas obras: “Tem livro para se ler maduro”, afirmava. Fabián discordou. Não há tempo. Saiu-se com essa: “A literatura é a própria carta de navegação”. Anotei num caderninho a frase. Era certeira. Eis o risco, ele nos lembrou.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Mas, nesse escaninho, é sempre o outro que impera. É o diálogo no qual o livreiro antecipa a fala do seu interlocutor. Observa, conversa e arrisca a mostrar-lhe um mundo novo.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Dos frequentadores do Acervo há também o Mangarielo, editor de livros comunistas e estudioso da obra de Jacob Bazarian. Aí o que se abre é o mundo da filosofia, a ponte entre o Brasil e a Armênia. Numa tarde encantada, Mangarielo repetia para mim que era preciso estar atento ao método, às premissas do pensamento. Falou que quando viajou à Armênia tinha a companhia do seu próprio KGB. Demorei alguns minutos para entender que, de fato, ele falava do Serviço Secreto Soviético. São tantas histórias&#8230;</p>
<p>Na vitrine, quando o Chico de Assis coloca os livros de sociologia sobre as diferenças de classe no Brasil, há clientes que entram desconfiados. Ah, o reclame também pode ser provocativo. É perigoso ter amigo comunista nestes dias, um cliente poderia dizer ao livreiro e professor. Pensando bem, “Comunismo e ficção nos dias atuais” até daria um bom nome para a prateleira ao lado daquela com os livros do realismo fantástico.</p>
<p>São as descobertas que vão das palavras aos personagens cotidianos, silenciosos.  Era começo de dezembro, numa tarde chuvosa, quando Dona Maria José, uma das mais curiosas frequentadoras do Acervo, adentrou o sebo à procura de um presente de Natal. Ao olhar o Chico de Assis por detrás da sua pequena mesa, dizia efusiva: “ Esse aí é um artista”. Eu ri, curiosa, querendo saber o porquê. Entendi que era algo relativo à alma. Sinceramente, não sei se dela, pessoa tão inquieta com o que é da superfície, ou dele, que tinha visto nela tal incapacidade de se adequar. E, num diálogo próprio dos dois, estabelecia-se uma conexão improvável aos grandes magazines.</p>
<p>Talvez disso advenha o elã dos pequenos espaços, dos sebos que não apenas amontoam livros. Porque é preciso estar atento ao outro. Mas isso também só é possível quando quem manuseia o encanto sabe o que oferecer de suas estantes. Aliás, às vezes o desafio é oposto. Deve-se saber também o que não vender.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Acho que tem sua arte quem promove esses encontros.  Livreiro é professor sem cátedra. Como quem professa longe dos espaços públicos, de forma íntima.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Das próximas prateleiras a serem inauguradas no Acervo, haverá uma escrito: livros para não comprar. Em tempos de delírio coletivo, convém não ler aqueles livros que quebrem a corrente dos escritores, que, por sua vez, foram leitores, que foram escritores, que foram leitores, que, certamente, frequentaram livrarias e sebos. Soube pelas más línguas que um livro do Lobão foi oferecido de graça algumas vezes sem muito interesse. O Chico de Assis me disse que esse exemplar vai inaugurar a seção.</p>
<p>Acho que tem mesmo sua arte quem promove esses encontros. Talvez seja isto: o livreiro é professor sem cátedra. Como quem professa longe dos espaços públicos, de forma íntima, pelo escaninho, dependendo de quem veja a placa, entre e se permita o melindre das palavras.</p>
<p>Foi desse gesto que também eu caí no risco. Disse o Chico de Assis que o primeiro livro que comprei no Acervo foi um do Jaguar. Capa laranja, ele frisou. Mas, confesso, eu não lembrava. Fui procurar, e era mesmo. “Átila, você é bárbaro”, numa edição da Civilização Brasileira dos anos 60. E olha que tenho boa memória. Mas a verdade é que não sou eu a livreira. Estava apenas lá, entrando distraída. E, no fim, é isto mesmo: quem tem por ofício saber do outro é quem realmente lembra.</p>
<p>* Chico de Assis na verdade chama-se Josué. O apelido furtivo dado por mim é talvez o oposto ao pseudônimo do Julinho da Adelaide usado pelo Chico Buarque durante a Ditadura Militar ou do nome Teresa do Amor Divino usado pela artista plástica Djanira ao se recolher no fim da vida à Ordem Terceira Carmelita. Antes de esconder ou silenciar, na verdade revela todas as possibilidades que cabem na literatura e em seus personagens. A ficção tão real como a própria vida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>São Paulo travessia</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Dec 2016 06:43:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Andarilho]]></category>
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		<description><![CDATA[&#160; Vim para São Paulo com os dias contados. Era chegar, cumprir uma missão e voltar para casa. Foi um movimento aos empurrões, um impulso em busca de uma meta <a class="read-more" href="https://apulga.com/sao-paulo-travessia-2/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<style type="text/css"><!--
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<p>&nbsp;</p>
<div id="attachment_1567" style="width: 760px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP20.jpg"><img class="size-full wp-image-1567" alt="sp20" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP20.jpg" width="750" height="790" /></a><p class="wp-caption-text">Foto: Grazielle Albuquerque</p></div>
<p>Vim para São Paulo com os dias contados. Era chegar, cumprir uma missão e voltar para casa. Foi um movimento aos empurrões, um impulso em busca de uma meta a cumprir. Na agenda vermelha estavam a lista das disciplinas, a data-limite para a proficiência em francês e a urgência de escolher onde morar. Sim, um doutorado a cumprir.</p>
<p>E, quando se muda de cidade com algo muito definido para dar conta, corre-se o risco duplo de ser engolido pela tarefa imposta e pelos estereótipos que as pessoas costumam vender sobre os locais e as formas mais adequadas para realizar tal tarefa. É quase como tirar um daqueles cartões de instrução do Banco Imobiliário: “Se você quer ganhar o jogo, precisa comprar tantos lotes da mesma cor, colocar umas casinhas, aí poderá montar um hotel e vencer na vida”. Tudo dito, uma cartelinha de indicações para a felicidade.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Eis aí o primeiro desafio: ter lucidez para enxergar que desejo e necessidade não precisam entrar em uma “forma”</strong><strong>. Fui, então, descobrindo outros caminhos. Nada estava no <i>script</i>, era tudo descoberta.</div></strong></h3>
<p>Eis aí o primeiro desafio: ter lucidez para enxergar que desejo e necessidade não precisam entrar em uma “forma”. Foi assim que, mesmo estudando em Campinas, descobri que poderia viver muito bem em São Paulo. Na primeira greve do transporte público na capital, ficou claro que foi acertada essa minha escolha inversa à máxima de que se deve “morar perto de onde se estuda e trabalha”. Fui, então, descobrindo outros caminhos. Assim, minha rotina consistia em ir à Unicamp no “Massa Crítica” – o fretado mais intelectual da paróquia, andar de bicicleta pela Faria Lima e desvendar parques como o Ibirapuera, subir a pé a Consolação e flanar pela Paulista com todos os sentidos atentos a essa espécie de artéria que atravessa um corpo. Nada estava no <i>script</i>, era tudo descoberta.</p>
<p>Além das ruas com grafites e lambe-lambes, uma das seduções de São Paulo é o apelo ao paladar. Descobri locais especiais de Pinheiros, como o Doce e Cia., com a melhor sopa não <i>gourmetizada</i> da região; o ovo <i>molett</i> do Le Jazz, que tem a capacidade de materializar a verdadeira felicidade pequeno-burguesa em uma garfada; o Fitzgerald do Boca de Ouro, com a sensação de que um <i>drink</i> serve mesmo para se comemorar algo, ainda que intimamente; o Cine Sala – cinema de rua da Fradique Coutinho –, que trabalha com uma escandalosa combinação para a “terceira idade” de filmes de arte, futons nas primeiras filas, pipoca sem sal e sorvete de chocolate vegano. Uma cidade que se mostra pelos serviços, pelos locais cheios de detalhes, pelo comércio dos bairros.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">E se você sabe o que quer? Não seria um desperdício não aproveitar para fazer tudo diferente? Não. São Paulo me ensinou que, em essência, estranho seria tentar ser outra gostando tanto de quem sou</strong><strong>.</div></strong></h3>
<p>Acontece que essa gama de possibilidades também é uma armadilha. Tudo e nada. Uma cartolina em branco para desenhar uma nova vida como lhe der na telha. Mas, e se você gosta é das mesmas coisas? E se, em grande parte da vida, fizesse as mesmas escolhas? E se você sabe o que quer? Não seria um desperdício não aproveitar para fazer tudo diferente? Não. São Paulo me ensinou que, em essência, estranho seria tentar ser outra gostando tanto de quem sou. Essa aceitação passa também por um modelo de cidade, pelas ruas que você escolhe, os caminhos que faz, as pessoas com quem fala. E, para mim, o espaço que ocupo sempre teve uma conotação afetiva. Gosto de saber o nome das pessoas que me atendem, onde encontrar a melhor iguaria, que rua tem as casas mais bonitas. É uma apropriação sem a qual meus vínculos não se estabelecem. Preciso pertencer ao local que ocupo, ainda que esse pertencimento seja uma passagem. É como contar uma história que pode terminar ao dobrar a esquina, mas até lá sua narrativa tem cheiro, cor e nome.</p>
<p>Foi dessas possibilidades que montei minha São Paulo. Algo que costumo chamar de meu pequeno roteiro afetivo. Desço a Artur de Azevedo e avisto o sebo do Josué com os livros que me esperam. Lá descobri o Brito Broca, ganhei um exemplar da Lygia Fagundes Telles autografado e fiz dois amigos. Um pouco à frente, no encontro com a Lisboa, está o café da Flavinha, onde revezo o <i>ristretto</i> na xícara de louça com o <i>machiatto</i> tirado fraquinho, como num mimo. Eis que, na esquina perto de casa, pude descobrir tantos matizes de algo tão atávico em mim como o gosto pelo café. Virando à esquerda, sigo em frente por uns três quarteirões, cruzo a praça Benedito Calixto e subo a ladeira rumo ao Goethe. Lá, bato papo com o Paulo, o bibliotecário, observo a senhora alemã com seus 90 anos que, no sofá pequeno, junta as pernas deixando à mostra seu <i>all star</i> rosa enquanto lê alguma revista e, finalmente, me acomodo em frente à janela do birô principal ou estudo lá fora, nas mesinhas do pátio, onde nos dias de inverno bate algum sol. Mais adiante, de volta à Artur, no fim da rua, vou à piscina da Atlética. Às vezes o encarregado se esquece de colocar a marcação com as boias e eu nado solta na raia do meio, como se cada braçada fosse uma conquista náutica. Das melhores sensações de liberdade.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A aventura foi a própria escolha tanto quanto o resultado dela. Pude reafirmar o que gosto, mudando o que não cabia mais em mim. Foi ainda uma época de corte, de saber quem são as pessoas que permanecem e aquelas que não têm mais lugar.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Esse pertencimento das coisas miúdas pode me mostrar que, como diz a Fernanda Meireles, “toda cidade é uma invenção”. E, se existem cidades no mundo que te permitem essa mágica, São Paulo é uma delas, porque é tão múltipla que cabe tudo em suas fronteiras. É possível viver a ferveção da Augusta, observar a nostalgia meio decrépita do centro, tirar uma foto clichê da Ipiranga com a São João, rasgar dinheiro nos <i>shoppings</i> ou na 25 de Março e ver os judeus em Higienópolis. Pode tudo, como na metáfora da Paulista aberta aos domingos: as bicicletas, as pessoas, os coxinhas, os casais <i>gays</i> se beijando, o Pato da Fiesp e os mendigos nas calçadas. E, tal qual o clima que comporta sol, chuva e frio no mesmo dia, também é possível viver tudo junto. Há contrastes em uma cidade que pode oprimir pelo excesso, mas abre a chave para o particular.</p>
<p>Por isso mesmo, nesse universo tão intenso e plural, a aventura foi a própria escolha tanto quanto o resultado dela. Pude reafirmar o que gosto, mudando o que não cabia mais em mim. Foi ainda uma época de corte, de saber quem são as pessoas que permanecem e aquelas que não têm mais lugar. Por outro lado, foi a vastidão do conhecimento, a definição de uma agenda de pesquisa para a vida. O encontro da academia com o jornalismo. O texto em ambas as dimensões. A escrita, da qual não abro mão. Ah, a escrita! A análise e o ativismo. Mais uma vez a sensação de que se pode fazer o que se quer de uma maneira que não obedeça a ditames ortodoxos. Uma espécie de sintonia fina. Uma travessia para dentro que te prepara para o mundo.</p>
<p>E, nessas inúmeras descobertas, curiosamente, talvez a coisa mais preciosa que São Paulo me mostrou foi uma nova dimensão de Fortaleza, tanto da cidade quanto do adjetivo. Uma certa força que advém da consciência de si. Pauliceia que se desvairou em sentidos e me fez perceber que o que havia construído na cidade onde nasci e cresci irei levar comigo aonde quer que eu vá. É estranha essa construção, mas não frágil. E como foi difícil perceber isso. Tão difícil quanto necessário.</p>
<p>Eis a minha São Paulo travessia: o mundo que me revelou a casa e que, ao seu jeito, me libertou dela. O primeiro passo de uma estrada muito longa.</p>
<p>&nbsp;</p>

<a href='https://apulga.com/sao-paulo-travessia-2/sp13-2/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP131-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Um detalhe do cotidiano. Artur de Azevedo com Lisboa. A esquina do meu roteiro afetivo de São Paulo." /></a>
<a href='https://apulga.com/sao-paulo-travessia-2/sp19/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP19-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Meu refúgio e desafio nas águas. Aperfeiçoamento dos fundamentos e um pouco de paz nas tardes da Atlética.  Treinamento para o mar." /></a>
<a href='https://apulga.com/sao-paulo-travessia-2/sp17/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP17-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Os personagens da cidade. Praça Ramos, ao lado da biblioteca Mário de Andrade. Enquanto acontecia algum show, alguém senta-se ao lado do palco e lê seu jornal." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1567'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP20-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="A metáfora da Paulista aberta aos domingos: as bicicletas, as pessoas, os coxinhas, os casais gays se beijando, o Pato da Fiesp e os mendigos nas calçadas. É possível viver tudo junto." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1563'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP15-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Sala São Paulo e a filarmônica de Viena sendo aplaudida de pé. A estética em grau máximo de beleza. Caixa para te transportar a outra dimensão ao som de Mahler." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1561'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP13-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Protesto dos secundaristas na Henrique Schaumann. Dos momentos mais bonitos de ver foi essa verdadeira revolução dos secundaristas. Uma aula de política e cidadania." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1559'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP12-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Mesmo sem foco essa foto representa tanto. Um registro do ABC Bailão. O baile gay dos senhores para lá de sessenta às quintas-feiras é dos mais comoventes que há. Gente podendo ser quem é." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1557'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP11-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Uma casa onde habitam estudiosos das Ciências Sociais não passaria imune à crise política. Lola deu o seu recado por nós." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1555'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP10-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Ano novo judaico. Nas ruas de higienópolis um rabino e um gói conversam sobre algo transcendente. Deve ser o edén uma cidade que permite encontros." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1553'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP9-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Vista noturna do Vale do Anhangabaú. O centro da cidade à noite respira outros ares. Tão fascinante como perigoso. Cheio de uma vida própria." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1551'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP8-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Curso de métodos caseiros de café. Eis a primeira aventura desse mundo novo de um amor tão antigo. Cinema e café, coisas que São Paulo ofere com o profissionalismo que poucas cidades no mundo tem." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1549'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP7-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Andar de bike, outro prazer recuperado. Desde a minha Caloy Cross, aos 13 anos, não pedalava com tanto afinco. É, sem dúvida, uma outra forma de se relacionar com a cidade." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1547'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP6-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Augusta e seus personagens. Assim, a rua vai capturando quem anda a pé. Paulo Gaeta faz seu número. Uma vedete já meio decadente cantando Piaf e outros dramas." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1545'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/IMG_5833-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Uma das coisas que São Paulo me devolveu foi o prazer da escrita. Aqui estou eu e o Valter Hugo Mãe sendo gaiatos depois de uma entrevista para essa micro-aventura particular que é a Pulguinha." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1539'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP4-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Toda cidade é uma invenção, eis a frase que mais me lembrei durante meu percurso para construir minha cidade.  Na mesa de trabalho," /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1537'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP3-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="As luzes do IFCH. Rua Cora Coralina, 100. A Unicamp e a descoberta de um novo mundo. Finalmente, o doutorado!" /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1535'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP2-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Entre idas e vindas, eis a mala de uma cientista política. Em vários sentidos, o início de uma aprendizagem." /></a>
<a href='https://apulga.com/?attachment_id=1534'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/SP1-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Paulo, Suzana e eu na chegada a São Paulo. Exposição no MIS. Anfitriões a quem sou muito grata, das minhas primeiras demonstrações de acolhida na cidade." /></a>

<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Isn´t it a pity</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Aug 2016 22:56:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; Hilda Hilst costumava dizer: “Fico besta quando me entendem”. A perspicácia dessa frase sempre me fez pensar em variações para ela. Há diversas possibilidades mas talvez a melhor seja: <a class="read-more" href="https://apulga.com/isnt-it-a-pity/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/08/Isnt-a-pity3-copy.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1463" alt="Isnt a pity3 copy" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/08/Isnt-a-pity3-copy.jpg" width="600" height="668" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Hilda Hilst costumava dizer: “Fico besta quando me entendem”. A perspicácia dessa frase sempre me fez pensar em variações para ela. Há diversas possibilidades mas talvez a melhor seja: “Fico besta quando me amam”. E o amor é para mim algo admirável. Primeiro, por sua natureza intangível. Será que ele existe? Depois, pela dificuldade de se escapar dele. Seria possível dar-lhe as costas sem nem ao menos um arranhão? Por fim, porque é sorte, é dado de graça, embora o cultivo lhe dê vida ou lhe condene à morte.</p>
<p>Falar do amor é abrir uma janela para o sem-fim onde a humanidade já se perdeu tentando nomeá-lo e entendê-lo. É sinuoso o caminho para encontrar esse substantivo abstrato. Defini-lo, então, é peleja para os poetas. O amor pode ser mil coisas, com infindáveis nomes e indistintas formas. O curioso, no entanto, é o espanto de senti-lo e não senti-lo mais.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">O amor pode ser mil coisas, com infindáveis nomes e indistintas formas. O curioso, no entanto, é o espanto de senti-lo e não senti-lo mais.</div></strong></h3>
<p>É o lamento.“<i>Isn&#8217;t it a pity</i>”, cantava George Harrison sobre a fração de segundos em que se percebe tê-lo perdido. Há mágoa na canção do velho Beatle,  toda aquela confusão de sentimentos de quem ainda tenta entender o que aconteceu. É uma balada triste e sincera. Longe dos versos, Freud diria que ainda não foi feito o luto pelo qual rompemos a ligação libidinal com o ser amado.</p>
<p>Não, não estou falando das entranhas do amor, mas do momento em que ele acaba, ou melhor, do instante em que sua finitude se realiza. <i>How we break each other&#8217;s hearts and cause each other pain?</i> Francisco Bosco, em uma crônica primorosa, enceta: “Se pudesses, deverias frequentar um outro mundo”. A frase de Ovídio é uma espécie de conselho para esse instante do rompimento, já que, como diz Bosco, o amor acaba depois. Então, o luto é extrair algo ainda vivo. Quando é preciso “separar os mundos, desjuntar o tempo, afastar-se libidinalmente – para que então, depois, o amor acabe”.</p>
<p>É o salto. Esse momento de corte é descrito por ele como numa perseguição de um filme de gângster: “Butch Cassidy e Sundance Kid estão em fuga pela mata. A polícia os persegue, com rastreadores, implacavelmente. Os dois fugitivos chegam a um precipício, de onde não podem voltar. Embaixo, muito embaixo, passa um rio. Os policiais estão a caminho: eles vão chegar. É preciso o salto. Sundance diz: ‘Eu não sei nadar’. O abismo, enorme, o medo, a vertigem – só de olhar. Mas é preciso. A polícia. Não tem volta. Feche os olhos. Pulam”.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Como diz Francisco Bosco, o amor acaba depois. Então, o luto é extrair algo ainda vivo. Quando é preciso “separar os mundos, para que então, depois, o amor acabe&#8221;.</div></strong></h3>
<p>Eis uma descrição justa. Pular no abismo. Extrair-se vivo. O espanto. Contudo, o problema está exatamente no que mencionei acima: o amor morre depois. <i>Some things take so long&#8230;</i>  Até encaramos o salto, mas o que nos faz chegar a um paradeiro é algo que nos foge ao controle. Eu suspeito, seja a consciência do desamor. Uma espécie de estalo que se dá quando encaramos a realidade. É como escutar a versão de Nina Simone para a balada de George Harrison. Nela há um tom acima, como se a lucidez sobre o que passou fosse mais aguda. Oh, miss Simone! Por que a gente foi esquecendo de lembrar, de voltar atrás? Agora, simplesmente, é muito tarde.</p>
<p>Há sempre esse momento em que nos esquecemos de deixar a porta aberta. No entanto, não interessa mais, não há retorno. É disto que falo: após o lamento, vêm o salto, a ruptura. E se engana quem acha que este é um faroeste unicamente carnal. Cabem muitos amores no tempo que corta os laços. Existem dois romances preciosos que, ao seu jeito, falam sobre essa tentativa de pular seja para onde for. São dois dramas familiares.</p>
<p>Como o título deixa antever, em “Dois Irmãos”, Milton Hatoum conta a história dos gêmeos Yaqub e Omar, que, feito Caim e Abel, entram numa disputa da qual parecem não conseguir escapar. O mais velho, Yaqub, tenta com todas as forças se esquivar daquela teia familiar, mas sempre dá um passo atrás, motivado pelos pedidos da mãe ou por alguma tentativa de dar ordem às coisas. Acontece que nada muda e o personagem só se enreda. Não consegue pular. Sempre me perguntei: o que Yaqub achava que podia ter daquelas pessoas? Por que não conseguia se apartar? Não digo que seja fácil. Costuma-se pagar um preço alto quando se foge de algo, sobretudo de nossas origens, sem se atravessar por dentro e se achar do outro lado. É este exatamente o meu ponto: a travessia é dolorosa, mas necessária. É preciso achar-se sem outro.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Há sempre esse momento em que nos esquecemos de deixar a porta aberta. No entanto, não interessa mais, não há retorno. Após o lamento, vêm o salto, a ruptura.</div></strong></h3>
<p>Essa é a sensação que se tem ao não se reconhecer mais quem um dia amamos muito. Às vezes o amor se transforma em amizade, mas noutras – quando simplesmente deixa de existir – é preciso enterrá-lo. Da mesma forma que algumas amizades continuam a vingar, outras se perdem. Entender que alguém não te ama é realizar que você também pode não amar. E essa afirmativa sequer tem uma ordem de reciprocidade necessária; ela é absoluta. A gente se escolhe. Isso implica que, seja pelo motivo que for, alguém um dia pode não nos escolher mais. É o desamor. E precisamos reconhecê-lo como forma de enxergar a nós próprios e seguirmos adiante. É o fim do espanto.</p>
<p>Se os personagens de Hatoum rodam presos entre si, em “Ciranda de Pedra”, Lygia Fagundes Telles torna protagonista a jovem Virgínia, cuja história é marcada justamente pelo rompimento. O romance de Lygia, escrito em 1954, faz uma crítica à burguesia paulistana. Porém, num plano mais fechado, mostra uma personagem que consegue sair da rejeição para enxergar – sem máscaras – a realidade de uma família corroída. Com a maturidade, Virgínia finalmente desloca sua libido, cessam suas tentativas de ficar com seu amor da infância, Conrado, e de fazer parte daquele círculo fechado, a tal ciranda de pedra. O final do livro narra uma mulher que, tendo experimentado mais uma vez pertencer ao grupo, entende que aquele não é o seu lugar. É o entendimento que Virgínia passa a ter sobre si e sobre os outros que a faz partir para uma longa viagem, sem perspectiva de volta. Ela entende que ali não havia amor e passa a não desejar mais aquilo para si.</p>
<p>É lindo o trecho final do romance: “Trocaram um leve beijo. Depois ela prosseguiu sozinha pelo estreito caminho da sombra. Quando julgou ter atingido a metade, voltou-se. Lá estava Conrado, na mesma posição em que o deixara, de pé na clareira. Mas os frouxos raios de sol que o iluminavam já tinham desaparecido. “Apagou-se”, pensou ela, acenando pela última vez. Ainda ouviu o grito do pássaro rompendo a quietude, porém não o achou mais parecido com a risada de Otávia. Era apenas um som anônimo, perdido na tarde”.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Entender que alguém não te ama é realizar que você também pode não amar. A gente se escolhe. Não, não é uma pena. É o começo da nova vida.</div></strong></h3>
<p>Há tempos em que o amor é dor, mágoa, esperança&#8230; Mas há, em algum momento, o ponto em que o amor é o próprio rompimento. Decerto ele havia morrido antes, mas é ao nos depararmos com sua ausência que o enterramos de vez. Assim, perceber que não amamos mais alguém é, curiosamente, a senha para compreendermos que também podemos não ser amados. A compreensão de que não mais escolhemos alguém é a mesma dada quando alguém também já não nos escolhe. Esse jogo de subtração nos liberta, somos apenas um.</p>
<p>O desamor nos ensina a partir, Miss Simone.</p>
<p>É um outro mundo. Deixar de amar talvez seja o término do fascínio, quando as coisas se apresentam como são e o encanto se esvai. Não, não é uma pena. O lamento também perdeu seu lugar. Ficou no passado. O salto concluiu-se. <i>Moving too fast.</i>  Finda o espanto, começa a nova vida.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Da arte de ser filho único</title>
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		<pubDate>Thu, 18 Feb 2016 08:51:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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		<description><![CDATA[Ilustração: Mariane Marques &#160; Componho com outros dois amigos de adolescência uma espécie de tríade fraternal de filhos únicos, com toda a idiossincrasia que essa expressão possa conter. Somos uma <a class="read-more" href="https://apulga.com/da-arte-de-ser-filho-unico/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/02/Filho-único22.jpg"><img class="size-full wp-image-1994" alt="Ilustração: Mariane Marques" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/02/Filho-único22.jpg" width="432" height="755" /></a></p>
<dl class="wp-caption alignnone" id="attachment_1994" style="width: 442px;">
<dd class="wp-caption-dd">Ilustração: Mariane Marques</dd>
</dl>
<p>&nbsp;</p>
<p>Componho com outros dois amigos de adolescência uma espécie de tríade fraternal de filhos únicos, com toda a idiossincrasia que essa expressão possa conter. Somos uma médica, um militar e uma jornalista. Tão díspares como um peixe, um tigre e um pássaro. Seres de hábitats distintos, mas os três com absoluta consciência de seus papéis familiares. E há algo a mais nesse ethos singular que nos une: somos filhos que cedo se responsabilizaram por suas mães, arcaram com as despesas de casa e foram, ao seu modo, protagonistas de famílias pequenas. Aqueles que saíram pro mundo e proveram o lar. Dito isso, esclareço que falo desse tipo específico de filhos únicos, como numa espécie de um gênero mais vasto, para, a partir dessa “tipologia”, ilustrar algo quase intrínseco a esses seres: a ideia de que se é responsável por tudo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Dito isso, esclareço que falo desse tipo específico de filhos únicos, para, a partir dessa “tipologia”, ilustrar algo quase intrínseco a esses seres: a ideia de que se é responsável por tudo.</div></strong></h3>
<p>Todo mundo, mesmo que não seja um apreciador de samba, já batucou instintivamente a conhecida estrofe que diz: “Não posso ficar nem mais um minuto com você / Sinto muito amor, mas não pode ser / Moro em Jaçanã. Se eu perder esse trem que sai agora às 11 horas, só amanhã de manhã”. Eis aí uma representação popular clássica dos que atendem ao comando prioritário da responsabilidade, mesmo que sem a ginga malandra, como convém à musica. Na prática, pertencer a essa espécie é ter hora para chegar em casa, é avisar quando não vem e quando vai atrasar. É ser um pouco pai e mãe às avessas, um elo que nos liga à ancestralidade, e não aos nossos iguais. Não há com quem dividir as tarefas além daqueles que originalmente nos deram esse papel. Estamos do lado de cá, somos os únicos filhos, fazemos um monólogo e, nos diálogos que restam, quase sempre concluímos a fala como na sentença de Adoniran Barbosa: “Tenho minha casa para olhar, eu não posso ficar”.</p>
<p>Algumas histórias muito duras demonstram isso que quero dizer. Tenho uma amiga cujos pais se separaram cedo. Ela foi morar com a mãe na casa da avó que ficava em outro estado. As acomodações supostamente temporárias não permitiram uma mudança completa. Parte das coisas ficaram na Bahia, estado onde ela nasceu. Isso foi há uns 25 anos e, desde então, fotos de família, objetos de decoração e uma série de souvenirs, aparentemente sem importância, mas que nos ajudam a contar nossa história, ficaram encaixotados em algum lugar. Há mais de uma década essa espécie de espólio de miudezas foi colocada num depósito em alguma cidade da Região Metropolitana de Salvador. Ficou por isso. Há três anos ela teve seu primeiro filho e as indagações corriqueiras sobre com quem a criança se parece acabaram remetendo às fotos infantis dos pais. Ela tinha, então, apenas uma foto de si mesma quando bebê, que, por algum motivo, havia carregado consigo aos 13 anos quando saiu de Salvador. Eis alguém que devia, mesmo tão jovem, cuidar da própria memória. Nada lhe foi imposto, dito ou escrito. Este é o ponto. Era um cuidado que cabia a ela pelas contingências da vida.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É fácil seguir o movimento da inércia e nos responsabilizarmos por tudo a nossa volta, sem atentar ao preço extorsivo dessa onipresença.</div></strong></h3>
<p>Outro amigo é, além de filho único, praticamente o sobrinho único de uma leva de uns sete tios. Temporão, restou a ele enterrar os tios mais velhos que foram partindo e ajudar a organizar a rotina dos que ficaram. Eu mesma também sou a responsável pelo meu espólio afetivo e já preparei o funeral de tantas pessoas próximas, entre vivos e mortos, que me tornei uma espécie de PhD no trato das partidas. Mas está aí uma grande cilada. Porque é fácil seguir o movimento da inércia e nos acostumarmos a ocupar todos os espaços, organizar todos os ritos, nos responsabilizarmos por tudo a nossa volta, sem atentar ao preço extorsivo dessa onipresença.</p>
<p>Na outra ponta está o aprendizado de quem pode dividir. Uma vez uma grande amiga, cuja família me adotou, me falou de uma brincadeira de infância em que ela e os irmãos ensaiavam números de mágica. Ela posicionava-se cuidadosamente embaixo de uma mesa que era coberta por uma longa toalha. Em seu posto, tinha como tarefa passar por um buraco feito no tampo do móvel – que dava no fundo da cartola – tudo que o irmão mágico pedia. Certa vez, o pano caiu e ela foi pega em flagrante. Zangou-se e nunca mais serviu de ajudante para o número. Num exemplo cru, ser filho único é não ter essa chance, visto que toda a brincadeira corre por sua conta.</p>
<p>O escritor inglês Geoff Dier escreveu para a revista Serrote um ensaio autobiográfico sobre sua condição de filho único. Lá pelas tantas, ele dá alguns exemplos da faceta triste desta condição, quando lembra que brincava de Banco Imobiliário sozinho, que jogava Detetive sozinho e que conseguia até mesmo a façanha de jogar Subbuteo sozinho: “Algo quase impossível, já que você precisa manejar os atacantes e controlar o goleiro do time adversário ao mesmo tempo”. A questão é que, na vida real, é, digamos, difícil atuar nessas duas posições simultaneamente.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Dentro daquele esquema posto, tornamo-nos adultos mais cedo e há uma parcela de vantagens nisso: compramos casa e carro, construímos uma carreira&#8230; Em suma: não somos intimidados pelos compromissos.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Porém, aqui vale um parêntese: engana-se quem pensa ser esse um papel de lamúria. Como tudo na vida, há dor e delícia. E, em relação à última, as possibilidades são imensas. Aprendemos desde cedo a ter as rédeas da vida nas mãos. Ser responsável implica certo poder. Estar fora de um padrão, sobretudo na geração dos anos 70 e 80, quando a média por família era de três irmãos, era se livrar de algumas comparações obrigatórias e ganhar a chance de criar uma trajetória mais particular. Assim, se nos passam a conta das obrigações, também ganhamos voz ativa na mesa dos negócios.</p>
<p>Com o tempo, aprendemos a manejar o jogo e podemos escolher a cor das paredes do quarto, o colégio em que queremos estudar e se preferimos ganhar um kit de pequeno cientista ou outro brinquedo no Natal. Exemplos infantis à parte, a questão é que aquele de quem muito é cobrado, sendo o único fornecedor de expectativas, sem ter concorrentes diretos e com certa esperteza, aprende a fazer valer sua vontade. Dentro daquele esquema posto, tornamo-nos adultos mais cedo e há uma parcela de vantagens nisso: compramos casa e carro, pagamos as contas, construímos uma carreira&#8230; Em suma: não somos intimidados pelos compromissos.</p>
<p>A grande questão é que dessa onipresença, entre ganhos e perdas, surgem complicações. Lidar com as escolhas alheias é a principal delas. Acontece que, se um jarro quebra, o filho único não pode “culpar” o irmão mais novo, ninguém lhe abre o caminho e ninguém o precederá. O vazio ao lado lhe dá uma coroa e um chicote. Não ter ninguém para dividir é se empoderar do muito e, infelizmente, isso quase sempre é desumano. Quando rompemos essa barreira que nos imputa a falha, é comum cairmos na prisão escura de achar que nunca fizemos o suficiente. A ideia é que tudo depende nós, e não há maior engano do que esse. Eis a armadilha da qual nós, ensimesmados filhos únicos, devemos nos desvencilhar. Na vida, embora nosso senso de responsabilidade e certo narcisismo nos digam o contrário, a brincadeira não ocorre só por nossa conta. Há sempre outra pessoa envolvida, uma ou mais, e não há condições físicas e emocionais possíveis de fazer a mágica e empurrar o coelho em um único gesto.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É por isso que esse texto é antes de tudo uma reflexão sobre o outro, aquele à parte de nós, o qual devemos reconhecer e respeitar porque, fazendo isso, estamos, na verdade, respeitando nós mesmos</strong><strong>.</div></strong></h3>
<p>É por isso que esse texto é antes de tudo uma reflexão sobre o outro, aquele à parte de nós, o qual devemos reconhecer e respeitar porque, fazendo isso, estamos, na verdade, respeitando nós mesmos. A escolha do outro, em muitos casos, não é de nossa alçada. No fundo, o que nos cabe é, sim, como reagir. Essa é a nossa parte. Por isso acho que tal “domínio artístico” consiste em aprender a dividir, mesmo que num limite imaginário que vamos exercitando vida afora como quem aprende com a alteridade a ser mais humano.</p>
<p>É um desafio fazer o que nos cabe e deixar o outro seguir – ou pelo menos se reconciliar com essa ideia –, ainda que esse outro seja nosso pai, nossa mãe, um grande amor ou um amigo da vida inteira. Esse contorno semelhante ao de gêmeos siameses é o invólucro que nos constitui primariamente e que devemos romper. Há nessa totalidade um lado sombrio e um lado luminoso. Aprende-se com esmero que a vida depende da gente e, sim, somos capazes de feitos extraordinários. Tomamos em nossas mãos uma potência gigantesca e, tal qual um fugitivo que cava um túnel por trinta anos, realizamos com paciência o impensável. Mas isso não é vida, é estratégia de guerra. Pode servir para as questões estruturais, mas não para as relações. A vida comporta o outro. Ou melhor, a vida é desafiada pelo outro. E isso é incômodo porque há sempre algo que, para o bem e para o mal, repito, não depende de nós.</p>
<p>Há anos tive uma conversa com uma amiga de faculdade cujo relato me parecia misterioso à época. Ela me dizia que, quando interrompeu um período de análise, ainda adolescente, a terapeuta falou: – Eu vou te dizer algo, mas provavelmente você vai esquecer. E a frase reveladora era: – Você só dá conta de si. Aquela história me passou batida na época em que a escutei pela primeira vez. Eu mesma, que não era a interlocutora direta, havia esquecido. Lembrava-me da cena, mas não da assertiva. Contudo, mais de uma década depois, está guardado como num estalo em minha mente nosso diálogo sobre o assunto num pôr do sol na Ponte Metálica, em Fortaleza. Depois daquele hiato de tempo, em que havia trocado nossas especulações juvenis pela concretude da vida adulta, algo parecia mágico naquela constatação: – Sim, só damos conta de nós.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Sabendo nosso limite, podemos ser inteiros e seguir adiante como quem ora quer ser mágico e ora quer ser ajudante. Afinal, o que o outro nos dá é a liberdade de escolher ser quem somos.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Parte da nossa memória trazemos conosco, revelada ou não numa fotografia; outra parte está mesmo perdida por aí com quem cruzou nossa estrada. Podemos tentar girar o mundo para controlar as coisas, como naquela cena em que o Super-Homem, no filme clássico de 1978, coloca a Terra numa rotação inversa para salvar Lois Lane. Mas, fora do mundo da ficção e dos heróis, é fato que todo o esforço que queira mudar algo além de nós só terá efeito se conectado à vontade do outro.</p>
<p>E, ainda que com muito custo, é libertador não ser responsável por tudo. Isso nos empodera de maneira diversa da qual estamos acostumados porque dá aos nossos pares a possibilidade de agir e nos aliviar os ombros. Mesmo quando isso não acontece, ao fazer o que nos cabe e conseguir enxergar esse limite que costumamos avançar, nos livramos da prisão que é tentar ocupar dois espaços ao mesmo tempo. Ao abarcar o mundo, nos perdemos de nós. Parece uma daquelas charadas do Mestres do Magos, mas é bem isso. Reconhecer o outro e suas escolhas é tornar-se pleno em nossa unidade. Sabendo nosso limite, podemos ser inteiros e seguir adiante como quem ora quer ser mágico e ora quer ser ajudante. Afinal, o que o outro nos dá é a liberdade de escolher ser quem somos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>O jornalismo que nos move</title>
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		<pubDate>Sat, 14 Nov 2015 14:25:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há um certo espírito gremista que é das coisas mais bonitas no ser humano. Algo da meninice, do trabalho em grupo, da reunião com os amigos, um pouco do que <a class="read-more" href="https://apulga.com/do-jornalismo-que-nos-move/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/J50-LOGO-JORNALISMO111.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1208" alt="J50 - LOGO JORNALISMO111" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/J50-LOGO-JORNALISMO111.jpg" width="650" height="650" /></a></p>
<p>Há um certo espírito gremista que é das coisas mais bonitas no ser humano. Algo da meninice, do trabalho em grupo, da reunião com os amigos, um pouco do que hoje se costuma chamar de “coletivos”. Ainda que motivado por um indivíduo, o espírito de empreender o novo acaba sempre a arregimentar mais pessoas. É comovente – porque move em conjunto &#8211; como quase todos os desejos juvenis.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Muitas das relações construídas no Curso de Comunicação da UFC partem desse desejo de descobrir a vida. Querer dizer algo com o outro e para o outro é o que torna essa memória tão viva porque esse desejo, ainda que adormecido, continua em nós.</div></strong></h3>
<p>Podemos enumerar os casos em que este desejo se materializa e muda algo: Millor Fernandes criou “Pif-Paf” em maio de 1964. Com a Ditadura Militar, o jornal durou apenas três meses e oito exemplares, mas até hoje é referência no jornalismo.  Nos anos 1990, Ziraldo aparecia intrépido com suas revistas “Palavra” e “Bundas”. A primeira tentava deslocar apreciação cultural do eixo Rio-São Paulo enquanto a segunda tirava onda com o mundo das celebridades que, à época, começava a mostrar sua face moderna. O slogan era: “Quem põe a Bunda em Caras, não põe a Cara em Bundas”. Isto para não falar do Pasquim. Ah, o Pasquim!</p>
<p>Quando se entra no curso de Comunicação Social todas essas referências mágicas viram possíveis. É como se você pudesse finalmente dizer a plenos pulmões para o colega do lado: “Ei, vamos fazer um jornalzinho?”. Assim, este “mal” inventivo curar-se porque pode realizar-se em imagens, sons e palavras. Fico a me perguntar quantos dos que leem esse texto já não fizeram (ou desejaram fazer) um jornalzinho na escola, tiveram um álbum de colagem, montaram um fanzine, criaram ou um blog.</p>
<p>Estar no curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (que completa 50 anos) é, sem dúvida alguma, a possibilidade de exercitar essa vontade de se expressar. No final da década de 1990 vimos o Jabá ser reeditado, acompanhamos a criação do Bichos Escrotos, do Panegírico, da Pulga&#8230; A série de programas na radiadora. Depois, nos anos 2000 foi a vez de ver iniciativas como o Grupo Tr.e.m.a. e a Aerolândia. Novamente o Jabá era reeditado. Também é possível lembrar as inúmeras festas, paródias (ai meu paradigma, ai ai ai meu paradigma), a incrível Copa Jabá, vídeos, entrevistas e reportagens. Se era preciso fazer, nós fazíamos fossem ou não aquelas aventuras parte de uma disciplina. O que aprendemos estava também no poleiro, no bar e na torrinha. Tivemos a sorte de poder fazer uma faculdade que não apenas nos deu um ofício como nos tornou mais humanos e esta uma constatação preciosa.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Imaginar esse tipo de relação também entre alunos e professores &#8211; que sem dúvida são nossos amigos, como o mestre Agostinho Gósson, parece quase um manifesto subversivo contra os ditames impostos pela hierarquia.</div></strong></h3>
<p>Muitas das relações construídas no Curso de Comunicação da UFC partem desse desejo comum de descobrir a vida e dar a ela uma forma que se parecesse conosco. Querer dizer algo com o outro e para o outro é o que torna essa memória tão viva porque esse desejo, ainda que adormecido, continua em nós. É só olhar na timeline do Facebook e ver como são intensos os laços formados a partir daquele espaço e daqueles anos de convivência. Ainda que esqueçamos a tecnologia e as redes sociais, quantos colegas de sala não se tornaram padrinhos e madrinhas dos filhos de quem sentava a seu lado. Tantos que foram morar em outros estados e países mas se mantém presentes um na vida do outro. Quantos não cultivam laços que permanecem até hoje e, pela lógica do passar do tempo, deviam ter sido amainados.</p>
<p>Imaginar esse tipo de relação construída não apenas entre pares, meninos que começaram juntos a vida adulta, mas também entre alunos e professores &#8211; que sem dúvida são nossos amigos (os mestres Agostinho, Ronaldinho, Silas, Juju, Gilmar, Ricardo Jorge&#8230;) parece quase um manifesto subversivo contra os ditames impostos pela hierarquia. Mas, a Comunicação (o jornalismo e a publicidade) sempre foi assim, plural, com gente e formas de se relacionar que não cabiam em gavetas e armários. Isto é outros aspecto que sempre permitiu as mais diversas manifestações de opinião e informação.</p>
<p>Durante as diversas manifestações que estes 50 anos de jornalismo causou, talvez seja este espírito gremista de realizar algo junto, de estar perto, assim como quem divide um álbum de figurinhas, seja a maior representação do que é afeto. É isto  que nós faz olhar os anos de faculdade como algo que é parte de nós, vive pleno no que aprendemos, nas relações que construímos e nesse desejo de encontrar o outro.</p>
<div class="scbb-content-box-gray scbb-rounded-corners"><span style="line-height: 1.5em"><br />
</span><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_03_valdeliomuniz.png"><img class="size-full wp-image-1181 alignleft" alt="ufc50anos_03_valdeliomuniz" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_03_valdeliomuniz.png" width="254" height="225" /></a></p>
<p><em>&#8220;Parecia óbvio, elementar, para estudantes de Jornalismo, disporem de um jornal que, além de servir de “laboratório”, fosse um canal de integração dos diversos semestres em vez de mero produto de disciplinas isoladas. Mas nem por isso, era realidade até o final de 1996. Atentos a este vácuo, os estudantes criaram, então, o Jabá, como publicação independente da coordenação e livre das amarras até mesmo do Centro Acadêmico. E, em torno dele, um novo tempo e uma salutar movimentação foram se formando. Além de veicular importantes matérias, artigos, entrevistas, poesias, charges e reportagens, ele também “pariu” saudosas crias como a Copa Jabá, que integrou na Quadra do Céu equipes de futebol formadas por estudantes, servidores e professores, e o “Grande Prêmio Jabá de Jornalismo”, que reconhecia, periodicamente, os melhores trabalhos publicados no informativo em diferentes categorias. Foi a prova concreta de que o envolvimento e o compromisso de um grupo de estudantes de diferentes períodos, com a aprovação do público-alvo, são capazes de defender bandeiras, deixar indiscutível marca e fazer história.&#8221;</em></p>
<p><strong>– Valdélio Muniz, turma de 1993.2 &#8211; sobre o primeiro Jabá</strong></p>
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<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_01_adrianolima1.png"><img class="size-full wp-image-1182 alignleft" alt="ufc50anos_01_adrianolima" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_01_adrianolima1.png" width="234" height="225" /></a></p>
<p><em>&#8220;Durante minha passagem pelo Curso de Comunicação Social da UFC, tive a oportunidade de contribuir para o Jabá (a “fênix ressurrecta”), os Bichos Escrotos (se o nosso objetivo é informar, esse foi o “trote” mais genial) e o Jerimum (que não era jornal, mas um fanzine com duas edições em que apresentei o El Torrinha ao mundo). No entanto, foi o Panegírico minha primeira experiência com a produção de jornais na graduação.</em></p>
<p><em>Idealizado e coordenado pelo Márcio Teles e mais um punhado de pessoas da turma 1998.1, o jornal cujo título ninguém sabia o que significava (nem eu) começou polêmico. Muitos criticaram seus textos assinados com pseudônimos (eu era o “Fox Mulder”; não me processe, FOX!). Outros não foram simpáticos a um “rival” do Jabá, que passava por um de seus muitos períodos de hibernação. Poucos reclamaram dos textos, altamente autorais de quatro ou cinco alunos de primeiro semestre e, em sua maioria, poesias, crônicas ou baseados em fato nenhum (eu escrevia sobre paranormalidade e extraterrestres, por exemplo).</em></p>
<p><em>Apesar do mundo de 2015 banalizar o anonimato como estratégia para se “irresponsabilizar” por eventuais críticas ou acusações, em 1998, no caso do Panegírico, o objetivo era apenas permitir as expressões de forma mais livre. Ainda hoje sorrio ao lembrar da caça às bruxas, quando colegas de classe deram chiliques (piti, ataque histérico&#8230;) exigindo que os redatores anônimos se apresentassem publicamente.</em></p>
<p><em>Por mais que tenha gerado reclamações de alunos e professores, o Panegírico foi uma ótima experiência: começando pelo convite para concretizar uma ideia de se fazer um jornal, passando por acompanhar com o Márcio (vulgo “Du Bocage”) a produção artesanal (melhor que “amadora”) em MS Word e, por fim, buscar soluções para garantir sua impressão<span style="line-height: 1.5em">.</span>&#8220;</em></p>
<p><strong>– Adriano Lima, turma de 1998.1 &#8211; sobre o Panegírico</strong></p>
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<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_02_graziellealbuquerque_1.png"><img class="size-full wp-image-1183 alignleft" alt="ufc50anos_02_graziellealbuquerque_" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_02_graziellealbuquerque_1.png" width="347" height="225" /></a></p>
<p><em>&#8220;Sabe aquele espírito inquieto que só a meninice tem? Pois é, a Pulga nasceu desse ânimo, da vontade de experimentar coisas novas e poder criar algo no tato, sem um molde. Eram meados do ano 2000, com o emblemático século XX batendo à porta, e o projeto da Pulga surgiu como um canal para dar vazão à produção de um grupo de amigos do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará (UFC).</em></p>
<p><em>Fazíamos parte de uma geração de jovens comunicadores que tinha de aprender a lidar com a transição do analógico para o digital. Era uma época de sucateamento da universidade pública em que o lema era “se virar” com o que tinha. Diante da escassez de veículos institucionais, da uma urgência de dar conta do mundo e do primeiro contato com o online, o site servia como um canal para tirar da gaveta aquela produção nascente nos corredores do Centro de Humanidades.</em></p>
<p><em>Lembro que a ideia e criação da página surgiu a partir do contato com o professor Ricardo Jorge de Lucena Lucas, então meu orientador de iniciação científica, que ministrava uma cadeira opcional de jornalismo na internet. Até hoje, mantenho uma apostila com mil e uma dicas de edição em HTML. Essa perspectiva aberta de criação era o ponto central do projeto. Podíamos não só escrever, mas criar formatos, misturar cores, idealizar seções&#8230;</em></p>
<p><em>O projeto original durou uns 2 anos e, em 2014, ele voltou a ativa com novo formato, colaboradores antigos e novos que ajudam a criar um espaço sem pretenção. É uma espécie de sala onde o que a gente quer é sentar e conversar, encontrar os amigos, juntar opiniões diversas e escrever por diletantismo.&#8221;</em></p>
<p><strong>– Grazielle Albuquerque, turma de 1998.2 &#8211; sobre a Pulga</strong></p>
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<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_04_raquelgoncalves.png"><img class="size-full wp-image-1184 alignleft" alt="ufc50anos_04_raquelgoncalves" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_04_raquelgoncalves.png" width="291" height="225" /></a></p>
<p><em>&#8220;Há 10 anos, em uma reunião no Shopping Benfica, o Tr.e.m.a. – Território de Expressão no Mundo Anônimo surgia com toda a ingenuidade e o desejo de mais um grupo de amigos que dividiam anseios: escrever, questionar a realidade e a maneira como a comunicação era feita. Entre um copo de cerveja e outro e inúmeras discussões, formatamos um grupo exigente com suas próprias criações, ousado e pretensioso. Mas como esperar diferente de jovens sedentos por algo novo?</em></p>
<p><em>Durante dois anos dos três de existência do grupo, nos lançamos pelas madrugadas de Fortaleza conversando com as pessoas que passavam pelos sete terminais de ônibus da cidade: Conjunto Ceará, Papicu, Siqueira, Antônio Bezarre, Messejana, Lagoa e Parangaba. A ideia de experimentar a cidade, revelar novos olhares e viver um estranhamento de percepções a partir de narrativas gerou uma revista de reportagens – Cadeira com Rodas – e um documentário – O Conto Torto do Olho. Afinal, tínhamos que materializar de alguma forma nossa necessidade de deturpar caminhos pre-estabelecidos e de romper com a imagem cristalizada da “Fortaleza Bela” ou da “Cidade do Sol”.</em></p>
<p><em>Na época, nos achávamos muito mais do que realmente éramos. Mas vejo isso como natural de uma fase importante da vida, quando as vivências coletivas passam a dar sentido às nossas escolhas. Nossa formação pessoal, sem dúvida, foi moldada também por essa experiência viva durante o curso de Comunicação na UFC.&#8221;</em></p>
<p><strong>– Raquel Gonçalves, turma de 2004.1 &#8211; sobre o  Tr.e.m.a.</strong></p>
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<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_05_guilhermecavalcante.png"><img class="size-full wp-image-1185 alignleft" alt="ufc50anos_05_guilhermecavalcante" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_05_guilhermecavalcante.png" width="333" height="225" /></a></p>
<p><em>&#8220;Em 2006 estava no meu terceiro ano de faculdade e completamente imerso na vida universitária. Tinha acabado de integrar uma chapa para o DA e mexendo nos arquivos descobri muita coisa sobre o jornal, que chegou a mim em 2004, mas de uma forma mais caricata, humorística. Não que tenha deixado de ser, mas o Jabá era um jornal sério, concebido para suprir a falta de um jornal laboratório, quando foi criado. Acionei uma turma pela lista do Data e convidei o Humberto (esqueci o sobrenome) para fazer uma oficina de jabá (risos). Pesquisando, descobri uma matéria da Mônica Mourão explicando a história. Pedi a ela para republicar na primeira edição. A euqipe não tinha ninguém fixo, mas o Alan Santiago, a Débora Medeiros e o Henrique Araújo sempre colaboraram. Eu ficava na edição e diagramação e também com a coluna alpinismo, junto da Thaís Fernandes e da Pamela Lemos.</em></p>
<p><em>Eu decidi retomar o Jabá porque eu tinha extremo afeto pelo curso, pelo DA e pelos projetos que as gerações passadas iniciaram, mas que foram se esquecendo no tempo. Pessoalmente, o momento mais especial foi ter ido a uma coletiva da Marisa Monte e em meio a dezenas de jornalistas eu fui lá me apresentar como repórter do Jornal Jabá, o que fez a Marisa rir. Ela me perguntou: &#8211; Você é de que jornal? Eu respondi: &#8211; Do Jabá. E todo mundo que estava na coletiva e que conhecia o jornal do curso também começou a rir.<span style="line-height: 1.5em">&#8220;</span></em></p>
<p><strong>– Guilherme Cavalcante, turma de 2004.1 &#8211; sobre o  terceiro Jabá.</strong></p>
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<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_06_yurileonardo.png"><img class="size-full wp-image-1186 alignleft" alt="ufc50anos_06_yurileonardo" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_06_yurileonardo.png" width="242" height="225" /></a></p>
<p><em>&#8220;Era final da década zero-zero e o mundinho da Comunicação em Fortaleza ainda estava zonzo pela quantidade de profetas, picaretas e aventureiros de toda sorte que se arriscavam em palestras sobre como as midias sociais nos trariam o Novo Jornalismo. Sim, esse Jornalismo do Futuro, o Jornalismo Conectado, e toda essa quimera que nunca chegou.</em></p>
<div>
<p><em>Tem, mas tá faltando: o que ficou em nossa cidade foi só mais brechas para se explorar mais o repórter-operário.</em></p>
<p><em>Foi nessa época quando arrumei meu primeiro estágio e descobri que a mágica no Jornalismo acontecia fora da sala de aula. E preciso dizer que a mágica também não estava dentro das redações. Nada mais clichê dizer aqui que as amizades que você constrói te ensinam mais do que sala de aula ou uma empresa. E foi. Era quase como figurar no Conta Comigo, clássico de Sessão da Tarde.</em></p>
<p><em>Dei sorte de conhecer uma turma que também andava encucada com os rumos das próprias linguagens com as quais trabalhavam. Escrita. Desenho. Objetos editoriais. Com alguns dos membros da patota já castigados de outras experiências de reinventar a roda no Jornalismo, nossa ambição nunca foi pousar o metier em um pedestal e circundá-lo como quem estuda uma escultura. Naquele momento, falo por mim, dava prazer alcançar a potência em revelar algo se utilizando da mentira, da picardia, da galhofa. E mentira só existe se há, de fato, algum naco de verdade &#8211; inclusive aquelas que precisam ser tocadas mesmo que ninguém esteja tão disposto a enfiar as mãos no chorume.</em></p>
<p><em>Talvez tenha sido desse chiste, de um &#8220;jornalismo&#8221; pautado na mentira, que o humor, essa casca de banana que faz tropeçar nosso senso mequetrefe de realidade, se tornou uma potente força motriz. Aerolândia foi nosso brinquedo, um experimento de fundo de quintal montado toda a sucata que encontrávamos, com o que era descartado do jornalismo tradicional. Durante o primeiro mês de AERO, era como se a semana inteira somente acontecesse para fazer eclodir uma nova edição online da &#8220;revista-fantasma&#8221; na quinta-feira, um dia antes da Revista Aldeota ser disponibilizada aos leitores.</em></p>
<p><em>(É importante notar também essa noção de &#8220;ecossistema&#8221; dos produtos editoriais de uma cidade. Houve, sem dúvida, uma motivação de circular uma publicação alheia ao que era feito pela Revista Aldeota. Havia uma frase que circulava pelas nossas cabeças, &#8220;é preciso fazer alguma coisa&#8221;, que motivou aquele movimento de editores e colaboradores &#8211; &#8220;piratas anônimos encastelados da academia&#8221;, como já fomos batizados uma vez. Sem muita curva, os editoriais das primeiras duas edições falam bem melhor sobre isso do que eu poderia escrever. De resto, aquele forte abraço para os aldeotinos que levaram pro pessoal. Sei lá, a vida é muito curta pra ter rancor, sabe?)</em></p>
<p><em>Como diz minha companheira, que também figurava no núcleo editorial do projeto, &#8220;perdeu a graça quando a coisa toda virou piada&#8221;. Daquilo tudo, fica um sorriso bobo ao revisitar arquivos antigos e constatar o quanto experimentamos os diversos sabores da linguagem em perfis, artigos, ensaios e ilustrações. Ficam as memórias dos almoços em conjunto, elaborando pautas, anunciando textos e editando cada nova edição, tudo muito regado a frango à cabidela com as gargalhadas que escuto até hoje, quando lembro que não preciso levar nada na vida tão a sério.&#8221;</em></p>
</div>
<p><strong>– Yuri Leonardo, turma de 2007.1 &#8211; sobre a Aerolândia</strong></p>
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<p><span style="line-height: 1.5em;"> </span></p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		</item>
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		<title>Quando se escolhe o caminho do meio</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Oct 2015 11:08:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Grilo Falante]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[ensaio]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; Lendo a biografia do Edu Lobo me deparo com um caso exemplar de algo que acho o mais engrandecedor do ser humano: a capacidade de fazer escolhas. No auge <a class="read-more" href="https://apulga.com/quando-se-escolhe-o-caminho-do-meio/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/10/Caminho-do-meio3.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1095" alt="Caminho do meio3" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/10/Caminho-do-meio3.jpg" width="750" height="876" /></a></p>
<p>Lendo a biografia do Edu Lobo me deparo com um caso exemplar de algo que acho o mais engrandecedor do ser humano: a capacidade de fazer escolhas. No auge do sucesso, depois de vencer o Festival da Canção em 1967 com Ponteio, o bom moço Edu Lobo havia tirado a sorte grande. Seu passaporte para o sucesso &#8211; que começava com uma série de shows no Beco das Garrafas e se estendia Brasil a fora &#8211; havia sido carimbado junto com nomes como Caetano, Gil, Gal, Elis, Chico&#8230;</p>
<p>Nem é preciso dizer que essas são figuras populares para além de um seleto grupo de entendidos em MPB, enquanto Edu Lobo permanece um ilustre desconhecido. Mesmo quem não conhece o álbum Transa do Caetano, certamente já escutou sua versão de “Sozinho” do Peninha. O sujeito pode nunca ter ouvido falar em “Vaca Profana” da Gal, mas já cantou “Festa do Interior” em algum baile carnavalesco da vida. Há, sem dúvida alguma, um corte entre uma MPB que é divulgada em meios massivos daquela que permanece submersa mais ligada aos arranjos, aos estúdios e aos bastidores musicais. Escolher ficar no lado B é incomum.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">O que me impressionou no caso foi a escolha que não ficou no preto e branco, mas achou uma sintonia fina, um tom acinzentado que lhe aprouvesse. Era a música que ele queria, sem dúvida, mas não aquela &#8220;corrida de cavalos&#8221;.</div></strong></h3>
<p>Edu Lobo já fazia sucesso como compositor (vale lembrar que Elis Regina ganhou o Festival de 65 com “Arrastão”), mas ter dado voz e rosto a Ponteio, que estourou em 1967, foi um divisor de águas. Curiosamente, isso causou nele mais uma depressão e um desgosto do que propriamente um deslumbramento. O incômodo da vitória foi tanto que Edu não tardou em casar e ir morar nos Estados Unidos logo depois do episódio. Fuga? Não acredito. Gosto de pensar que era alguém que podia seguir um reta e resolveu fazer uma curva. Por isso, o que me impressionou no caso foi a escolha que não ficou no preto e branco, mas achou uma sintonia fina, um tom acinzentado que lhe aprouvesse. Era a música que ele queria, sem dúvida, mas não aquela &#8220;corrida de cavalos&#8221; que a vitória em um festival lhe proporcionara.</p>
<p>Nesse sentido, não há escapulida ou esconderijo, os 70 anos de Edu Lobo não contam a história de um homem dividido, de uma ruptura, mas de alguém que soube fazer uma tapeçaria fina e corajosa, sair da correnteza e criar algo que lhe fosse legítimo. Por outro lado, sua condição social lhe permitia alçar esses voos. Ainda assim, tirada a prova dos nove, mesmo que com muitos tijolos à disposição, o valor de se construir uma casa na árvore onde se esperava um belo sobrado com alicerce na terra é evidente. Erguer algo a partir do “não estabelecido” tem um mérito inconteste. Não há muito glamour em sair pela tangente. É preciso ciência.</p>
<p>Esse cuidado com a forma é algo próprio da comunicação que sempre me instigou. O meio, de fato, muda a mensagem. Essa capacidade de modelar a prática e o discurso – numa metáfora da nossa própria vida &#8211; é liberdade. Eis um terreno movediço que é assustador porque tudo que queremos é o consolo do que é dado. Nosso imaginário está repleto de frases do tipo: &#8220;Quando Deus fecha uma porta, ele abre uma janela&#8221;; &#8220;Ah, é porque não era para ser&#8221; e outras tantas do gênero. Nem sempre uma porta fechada dá numa janela. Às vezes ficamos presos e é preciso cavar um túnel. Quase nada na vida é para ser, ainda que algo ou alguma circunstância se imponha sobre nós é nossa reação diante daquilo que muda os caminhos. E nenhuma circunstância ou condição é eterna. O próprio tempo as dissipa. O que se faz enquanto o tempo passa ou depois que ele passou é o determinante.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Mesmo que com muitos tijolos à disposição, o valor de se construir uma casa na árvore onde se esperava um belo sobrado com alicerce na terra é evidente. Erguer algo a partir do “não estabelecido” tem um mérito inconteste.</div></strong></h3>
<p>Talvez por isso eu goste tanto do ensaio, porque esse é o gênero penetra entre a ficção e o jornalismo. É o representante-mor do caminho do meio. É o gênero essencial da construção em que se cerca um tema de várias maneiras. É movimento e experimentação. Ele nos mostra como é possível dar vida a algo olhando para os detalhes, escolhendo ora atalhos ora trilhas longas. Você desenha o trajeto que muda tudo. E essa transmutação tem mais a ver com  o modo do que com o conteúdo. É como se diz algo e não propriamente o que se diz. Nesse sentido o ensaio mostra a essência da criação em uma espécie de jam session. O jazz que é “igual” mas toma nova forma a cada apresentação.</p>
<p>O antropólogo francês Michel Leiris escreveu sobre o continente africano no célebre romance “África Fantasma”, de 1934,  e numa série de trabalhos etnográficos como “Contacts de civilisation en Martinique et en Guadeloupe” (1955). Era a mesma África que precisava se legitimar em instância diferentes, a literária e a acadêmica. Leiris fez isso, criou algo relevante nas duas áreas. O material de base era o mesmo, mas o formato mudava tudo. Assim, mesmo sem ter assumido um caminho do meio, incidentalmente ele ajudou a apontar os acessos entre os dois campos. E no centro da trilha estava ele, um sujeito que não cabia numa forma. Desenhou o 1 e 2, para mostrar todas as possibilidade de números fracionados que nos parecem inexistentes. Mas, é preciso encarar que quanto mais encaramos a possibilidade de fugir de modelos mais doído é porque não estamos nem lá nem cá. Decidir por essa trilha é muitas vezes se cortar, esperar mais, sofrer, criar as condições onde elas não existam.</p>
<p>De todas as histórias que conheço sobre esse trabalhoso “caminho do meio” a mais espetacular é a do critico literário Antônio Cândido. Da geração dos grandes pensadores brasileiros, hoje um ícone na casa dos 90 anos, ele não escapou de frustrações quando era mais jovem e não se encaixava nas formas institucionais. Durante sua defesa de doutorado na sociologia da USP, em 1954, Cândido sofreu um duro golpe. Na ocasião da avaliação da tese “<i>Os Parceiros do Rio Bonito” </i>(publicada em 1975), Roger Bastide, membro da banca, recusou-lhe a nota máxima porque considerava que aquele não era um trabalho de sociologia. A argumentação era que a cadeira era de sociologia e a pesquisa tinha, nitidamente, um cunho antropológico.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Era a mesma África que precisava se legitimar em instância diferentes, a literária e a acadêmica. Leiris fez isso, criou algo relevante nas duas áreas. O material de base era o mesmo, mas o formato mudava tudo.</div></strong></h3>
<p>À advertência, Cândido respondeu: “<i>Se eu estou estudando uma cultura primitiva, acabo me preocupando com o problema humano daquele ser que está na minha frente. Como é que ele anda, como é que ele canta, como é que dança, como vê o mundo. No outro estremo, o da sociologia, eu não vejo ser nenhum. Eu vejo que 7.283 pessoas usam pasta dentifrícia Kolynos</i>”. Ainda que tenha retrucado com ironia à queixa de Bastide, era evidente que a interseção feita por Antônio Cândido entre a antropologia, a sociologia e a literatura expunha as fissuras entre seu pensamento e os padrões cobrados à época. Não à toa “Os Parceiros do Rio Bonito” foi escrito no mesmo período em que “Formação da Literatura Brasileira”. Os interesses se misturavam, mas precisavam de um caminho próprio que não era o que estava à disposição.</p>
<p>Uma combinação de fatores – e a necessidade do agente &#8211; mudaram a rota do estabelecido. Cândido não se enquadrava como um “sociólogo puro” e achava a “sociologia da literatura” um subterfugio. Por outro lado, estava desgostoso com a USP após o entrevero. Mesmo se dizendo tímido, tomou fôlego e desligou-se da Universidade. Livre, pode se dedicar a fazer o que queria e do jeito que queria. Antônio Cândido trocou a poderosa Universidade de São Paulo pela pequena Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis no curso de literatura brasileira. Lá ele pois em prática toda a estruturação do seu trabalho de crítica literária. Só depois de criar seu espaço e inventar o que não existia, ele voltou à USP para, a partir de 1974, torna-se professor-titular de Teoria Literária. Foi preciso dar uma volta, inventar um campo de estudo, para depois voltar ao esperado, ainda assim num lugar bem diferente do que o “destino” o reservara.</p>
<p>De alguma maneira esses são casos extremos. Nem sempre é possível fazer isso. E como é sofrido tentar inventar a roda quando os carros correm tão bem. No entanto eu advogo o exercício dessa tentativa como a mais libertadora para o ser humano porque ela implica exatamente na construção do nosso próprio sujeito. Procurar essa sintonia fina também nos projeta para frente. Se não é possível ficar no ponto em que se está, a liberdade de escolher os outros caminhos – quaisquer que sejam – ainda que não sejam assertivos, que sirvam apenas de passeio e não de pouso, é essencial para não nos colocarmos como reféns de nada e ninguém.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">O que somos terá mudado porque nos apropriamos com do nosso trajeto, nos legitimamos e, sim, descobrimos que a ausência e o incômodo nos dão a possibilidade de criar algo novo.</div></strong></h3>
<p>Não há formula de sucesso e, assim como se lê nos grandes ensaios, histórias tangenciais como a de Edu Lobo, Antônio Cândido e de tantos que desconhecemos são feitas de percalços, mas revelam como dar um salto e criar a própria rota é que nos torna quem somos. É possível fazer algo de diversas maneiras, a escolha delas muda sim o resultado ainda que aparentemente chegando no mesmo ponto final. O que somos terá mudado porque nos apropriamos com consciência do nosso trajeto, nos legitimamos como sujeitos e, sim, descobrimos que a ausência e o incômodo nos dão a possibilidade de criar algo novo. Volto a dizer: a novidade dói, demora, mas é libertadora.</p>
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