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	<title>A Pulga &#187; Prosa curta</title>
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	<description>Um coletivo diletante de ideias</description>
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		<title>A senhora do Tegel</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Jan 2019 23:22:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Prosa curta]]></category>
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		<description><![CDATA[Há muitos anos, eu estava sentada no chão do Tegel quando vi uma cena corriqueira que até hoje trago como referência. Depois de cruzar Berlin de ônibus com duas malas <a class="read-more" href="https://apulga.com/a-senhora-do-tegel/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/01/Screen-Shot-2019-01-08-at-20.27.49.png"><img class="alignnone size-full wp-image-1872" alt="Screen Shot 2019-01-08 at 20.27.49" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/01/Screen-Shot-2019-01-08-at-20.27.49.png" width="533" height="527" /></a></p>
<p>Há muitos anos, eu estava sentada no chão do Tegel quando vi uma cena corriqueira que até hoje trago como referência. Depois de cruzar Berlin de ônibus com duas malas e ser parte da uma despedida doída, eu era uma pessoa tão cansada quanto meio largada ao lado da minha mochila. Estava sentada no chão da sala de embarque esperando a chamada do voo. Lembro-me de tomar um café e pedir um salgado qualquer, talvez um croissant. Curioso é que eu me via assim, um tanto “juvenil”, já que, naquele instante, a vida era de qualquer jeito, um tanto quanto deslocada. Era como se uma parte de mim não se encaixasse, a parte toda a felicidade por aquela jornada.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Contudo, mesmo ainda longe de me aproximar daquela cena, acho que o que muda na minha percepção de agora é a certeza mais calma de si. A senhora do Tegel, como a chamo, é a metáfora perfeita desse tipo de &#8220;ciência&#8221;.  Ela é minha meta, mesmo no desalinho da correria.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Fato é que, enquanto eu esperava, ali no chão, com minha mochila, meu tênis e minha comida com gosto de qualquer coisa, uma senhora de uns 80 anos se materializou na minha frente. Mentira. Lembro-me de vê-la caminhar com um sobretudo de lã caramelo com uma leve estampa xadrez. O cabelo completamente branco cortado no ombro e uma boina de lado. Era linda. Parecia uma menina saída de algum college dos anos 50. Mas tinha lá seus 80 anos ou mais e uma serena certeza de si, the charming como diz o Morrissey na clássica canção. Não bastasse isso, ela sentou no balcão do café onde eu havia pedido meu insosso croissant e puxou da bolsa uma maçã para servir de lanche. Nunca vou esquecer essa cena. É das coisas que mais me dizem sobre como levar a vida. Quando tiver 80, quero ser desse jeitinho.</p>
<p>Hoje já aprendi (work in progress) a domar as mil bagagens, trago uvas e castanhas na bolsa, mas o chapéu segue guardado na mala para me economizar no manejo dos apetrechos diante da correria nos portões de embarque. Contudo, mesmo ainda longe de me aproximar daquela cena, acho que o que muda na minha percepção de agora é a certeza mais calma de si. A senhora do Tegel, como a chamo, é a metáfora perfeita desse tipo de “ciência”. Ela é minha meta, mesmo no desalinho da correria. Assim, é com essa visão que hoje volto de outra forma. Com o coração cheio nos dois sentidos, dos caminhos e pessoas que deixo e reencontro. E isso, graças a Deus, está longe de ser de qualquer jeito, de estar fora do lugar.</p>
<p>Texto publicado originalmente em outubro de 2017.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>A epifania do algodão doce</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Jun 2018 16:47:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ontem eu vivi uma cena tão bonita e forte que me lembrou outra vivida há anos, quando eu ainda fazia faculdade e peguei uma rota de ônibus chamada Demócrito Rocha, <a class="read-more" href="https://apulga.com/algodao-doce/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/algodão-doce.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1877" alt="algodão doce" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/algodão-doce.jpg" width="720" height="960" /></a></p>
<p>Ontem eu vivi uma cena tão bonita e forte que me lembrou outra vivida há anos, quando eu ainda fazia faculdade e peguei uma rota de ônibus chamada Demócrito Rocha, que nem sei se existe mais. Ela passava por dentro do meu bairro. Sempre pegava esse trajeto quando tinha tempo e queria ir vendo as ruas de dentro, longe da avenida, e ter alguma emoção com o motorista que dirigia nas ladeiras como se elas fossem um tobogã.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É sobre as madeleines de Prost, é um gosto que lembra a infância. Não é lembrar das coisas em si, mas do gosto delas, o que em você elas mobilizam. Isso de alguma forma é libertador porque o que permanece é a sensação e não o desejo de voltar no tempo.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O ônibus sempre ía vazio a noite e num desses passeios solitários eu avistei pela janela um carrinho com algodão doce. Foi a última vez na vida que vi um  carrinho daqueles. Uma espécie de carrocinha com a máquina acoplada, nada de palitinho e nem anilina. Era açúcar de pobre, sem refino (hoje conhecido como demerara) que ganhava forma de algodão doce apenas preso por uma ponta de papel, desses também rústicos, que antigamente enrolavam pão. Esse tipo de algodão, com esses vendedores foram entrando em extinção ao longo da minha adolescência. Já havia anos que eu não avistava um e, nesse dia, quando pela janela vi passar a tal carrocinha, dei sinal e desci ainda bem longe da minha casa. Catei todas as moedas que tinha e comprei o algodão doce maior que pude, como que na certeza de que nunca mais tivesse outra oportunidade de sentir aquela sensação.</p>
<p>Era quase cômica a cena. Um algodão gigantesco derretendo com o vento, grudando no meu rosto e cabelo.  Enquanto isso, eu andando uns 15 quarteirões a pé tentando tanto comê-lo, para evitar que derretesse, quanto ao mesmo tempo desejando que demorasse o máximo possível, querendo prolongar aquela sensação, tê-la guardada em algum lugar. Isso já tem pra lá de uma década e guardo até hoje essa sensação numa espécie de bolso íntimo, ainda que o gosto daquilo tenha durado, sei lá, cinco minutos.</p>
<p>É algo sobre as madeleines de Prost, é um gosto que lembra a infância, a casa da minha avó, a vitrolinha antiga&#8230;. A gente não pode reviver certas coisas, fato. Mas certas sensações se desprendem da realidade e remontam mesmo a um estado de espírito. Não é lembrar as coisas em si, mas do gosto delas, o que em você elas mobilizam. Isso de alguma forma é libertador porque o que permanece é a sensação e não o desejo de voltar no tempo. É como terminar uma jornada e de certa forma poder descansar, sentir a grama sob os pés, o choro incontido. Porque o que se retoma, ainda que momentaneamente, é algo vivo.  Mesmo que escondido, o que emerge é um potente sentimento sobre si.</p>
<p>Texto publicado originalmente em 13 de setembro de 2017.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>A sorte e o salto na vida</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Jun 2018 13:36:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Semana pancada e ânimo quase se exaurindo. Volto da biblioteca e sigo apressada a procura de um café. Aperto o passo na esquina da Benedito Calixto e num canto da <a class="read-more" href="https://apulga.com/a-sorte-e-o-salto-na-vida/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/Igal.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1849" alt="Igal" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/Igal.jpg" width="640" height="640" /></a></p>
<p>Semana pancada e ânimo quase se exaurindo. Volto da biblioteca e sigo apressada a procura de um café. Aperto o passo na esquina da Benedito Calixto e num canto da praça um menino me pergunta se eu não quero ajudá-lo comprando um origami. Eu cheguei a quase ir embora, não tinha trocado e queria meu café.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Eu disse: – Escolhe você que entende mais disso que eu. Ele abriu o sorriso e disse: – Toma o sapo, que é para dar um salto na vida e um Tsuru, que dá sorte. E abriu o sorriso maroto de novo.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Mas, não sei porque, o menino me chamou a atenção. Talvez a caixa de papelão toda colorida. Uma segurança na voz. Fato é que já estava quase indo quando desisti. Virei o corpo e perguntei se ele tinha troco pra uma cédula. E ele respondeu: &#8211; É claro, né? Já me compraram antes. Eu pensei com meus botões: &#8211; é muito gaiato. Então, falei: &#8211; Pois então me dá dois origamis. Ele me mostrou a caixa. &#8211; Pode escolher. Eu disse: &#8211; Escolhe você que entende mais disso que eu. Ele abriu o sorriso e disse: &#8211; Toma o sapo, que é para dar um salto na vida e um Tsuru, que dá sorte. E abriu o sorriso maroto de novo.</p>
<p>Aí eu não resisti. Perguntei: &#8211; E qual o seu nome? Ele falou: &#8211; Igal. Eu me despedi: &#8211; Pois tchau Igal, a gente se vê por aí. Num golpe final, ele retrucou: &#8211; Você é a primeira pessoa na rua que fala meu nome direito. E mais uma vez sorriu com um desprendimento tão bonito. E no fim fui eu quem saí feliz com meus dois origamis no bolso. Ironias da vida, quem me ajudou foi o menino. Dessas felicidades genuínas que te vencem.</p>
<p>P.S.: Em dia de pokemon go, ai como foi bom ver alguém procurando e oferecendo algo de verdade por aí.</p>
<p>Texto publicado originalmente em 4 de agosto de 2016.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>A vida é uma invenção</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Jun 2018 13:05:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[É das sutilezas e das certezas íntimas que são feitos os melhores dias de nossas vidas. E há aqueles em que se já não bastasse essa constatação, você ainda recebe <a class="read-more" href="https://apulga.com/a-vida-e-uma-invencao/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/Foto-Raquel.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1831" alt="Foto Raquel" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/Foto-Raquel.jpg" width="960" height="960" /></a></p>
<p>É das sutilezas e das certezas íntimas que são feitos os melhores dias de nossas vidas. E há aqueles em que se já não bastasse essa constatação, você ainda recebe um email carinhoso de uma professora que te acompanha desde o primeiro livro de teoria política. Lá no final da gradução, no tempo das imensas expectativas, da gaveta com sonhos.  Mas, tendo à parte as questões próprias de cada um, o que me resta na reflexão de hoje é algo sobre construção, persistência, tempo e &#8211; por que não dizer &#8211; reencontro consigo.</p>
<p>Quando a vida pesa, eu costumo brincar dizendo que não tem &#8220;pagadinha do Gugu&#8221; que dure dez anos. É uma forma de dizer que tudo passa, que a vida se reorganiza e as coisas mudam ainda que você fique inerte. Aí é que está. O tempo e o movimento da vida sempre mudam as circunstâncias ao nosso redor e isso, em si, transforma nossa condição, mesmo quando permanecemos parados. É um alento para quando não se tem muita gana de mexer as peças do tabuleiro. Nisso, muitas coisas morrem. Contudo, é bonito quando, mesmo antes da vida mudar de rota, nós mesmos vamos alterando a direção, damos alguma chance ao que ainda pode viver.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Tudo passa e as  condições se transformam. Contudo, é bonito quando, mesmo antes da vida mudar de rota, nós mesmos vamos alterando a direção, damos alguma chance ao que ainda pode viver.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Essa mesma professora a qual me referi sempre foi das pessoas mais luminares que conheci. Sempre atenciosa, mas sempre com pressa. A penúltima vez que a encontrei foi num café em Berlim, em 2013. Lá estava ela me ajudando com o projeto do doutorado. Uma caderneta, mil anotações e uma bicicleta lá fora. A vida veio num turbilhão e enquanto eu entrava do doutorado soube que ela estava em algum país do oriente, depois soube do seu câncer e por fim a reencontrei ano passado. Ela estava linda, com uma echarpe de seda nos ombros e o cabelo curtinho pintado de azul. A mesma acuidade, mas parecia outra pessoa. Algo tinha morrido e algo renascido, como nas metáforas próprias das doenças. Tinha pressa, mas tinha centramento e vida.</p>
<p>Quando ela estava se recuperando lembro de ter lhe enviado um livro da Rosa Montero &#8211; que adoro &#8211; chamado &#8220;A Louca da Casa&#8221;. É um livro sobre as narrativas que criamos para nós. Literalmente, a vida que inventamos. Era isso que eu queria dizer a ela. Que se podia inventar algo novo, mantendo o que ainda fazia sentido. Dizia para ela como quem repetia para mim: &#8221; &#8211; Sim, é possível&#8221;! E a gente tem que repetir sempre porque a gente esquece. Não tem uma semana, uma amiga repetia para mim a importância dessa vida inventada que a gente cria.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Era isso que eu queria dizer a ela. Que se podia inventar algo novo, mantendo o que ainda fazia sentido.  Sim, é possível! E a gente tem que repetir sempre porque a gente esquece.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>De tantas transformações, é bom perceber que não sou mais a menina de 20 anos mandando um email para uma professora desconhecida, é bom saber que do outro lado tem alguém que acompanhou minha trajetória. Mas, melhor mesmo é saber que ainda que lidando com o mesmo tema, com os mesmos sonhos, a trilha percorrida é outra porque nós também mudamos. Contudo, algo ainda faz sentido. O tempo destrói um monte de coisa e certamente é bom que isso aconteça. Tenho aprendido a deixar ir o que perdeu espaço na mesma intensidade que celebro o que mudou de roupa para caber melhor. E não há como negar que ver as coisas funcionando praticamente 15 anos depois é emocionante.</p>
<p>Nos dizeres da Rosa Montero, talvez seja porque nossa &#8220;vida inventada&#8221; tenha amadurecido, mas permaneça com o desejo de existir. Não precisa de situações drásticas para a gente se perder de si. A gente pode se perder no dia a dia. Por isso, é tão lindo quando ainda é possível se encontrar. Quando o que foi ainda pode ser, mesmo que para isso tenhamos que nos despedir de outras tantas coisas.</p>
<p>Texto publicado originalmente em 30 de maio de 2017.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>A mesa farta de afetos</title>
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		<pubDate>Tue, 22 May 2018 12:05:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quando minha roommate veio visitar Fortaleza no final do ano andei com ela por alguns lugares, cumprimentei as pessoas que encontrava pelos caminhos, contei histórias e sobre aquela sensação de <a class="read-more" href="https://apulga.com/a-mesa-farta-de-afetos/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/05/porto3.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1801" alt="porto3" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/05/porto3.jpg" width="750" height="484" /></a></p>
<p>Quando minha roommate veio visitar Fortaleza no final do ano andei com ela por alguns lugares, cumprimentei as pessoas que encontrava pelos caminhos, contei histórias e sobre aquela sensação de pertencimento ela me dizia: &#8211; o nome disso é pátria. Uma das nossas paradas foi na barraca de suco de frutas do Mercado Central. Conheço o Zé Maria, o dono, há anos e, em nossa pausa turística, ganhamos de regalo uma mistura de manga, limão, maracujá, carambola, caju e cajarana. O melhor suco da vida! Era um presente e um desafio. Tome e descubra as frutas. Só não acertei as seis porque troquei a cajarana por cajá. Foi quase. Deve ser isso que a Débora Maciel chamou de pátria. O afeto e os sentidos.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Trocamos a batedeira e o imperativo &#8220;reserve&#8221; pelo desvelo da mesa repleta de ingredientes diversos próprios de quem cozinha como se dá à vida, sem medo de arriscar.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>E essa minha pausa na Fusta foi assim repleta de sabores. Em boa parte das férias, o corpo adoeceu me fazendo parar. Porém, neste hiato, os sentidos e os encontros avolumaram-se. E todos eles tinham gosto. Uns vieram de Viçosa, no licor de leite e na geléia de pimenta (que conheci há anos e para a qual nunca encontrei concorrentes) que o Laécio Ricardo trouxe de mimo à minha cozinha. Cruzando o oceano, os <em>caramels ao beurre salé</em>, presentes do Ray Junior, tinham gosto de virada de ciclo, de celebração.</p>
<p>Tudo assim, nos exemplos diversos das pequenas porções de sabor. No Natal, a torta de maça guardada para mim pela Socorro Tavares na famosa marmita fim-de-festa, nos bolos-aventura que tentei fazer para Ana Cesaltina e para Clarissa Tavares nas tapiocas agridoces e sopas de abóbora que sempre acolhem os que visitam o mofo-lar, nas degustações de café que distribuo como motivo de estar perto, na feijoada vegetariana do Mandir que me dou de prenda sempre que posso&#8230; E no fim desses dias, desses encontros todos, meu paladar ganhou de benesse a receita de papo de anjo da Adriana Ximenes.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É da pátria-Fortaleza que levo o gosto de casa, do velho coado e do pão d´água servidos no café da manhã. É que para gente ganhar o mundo sem se perder, a gente precisa é de um porto.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Com o carinho feito aula particular, minha agenda anotou o passo-a-passo que a professora-brigita me ensinava como quem cantarola um segredo. Ela dizia: a receita diz assim, mas eu faço desse jeito, ó. Trocamos a batedeira e o imperativo &#8220;reserve&#8221; pelo desvelo da mesa repleta de ingredientes diversos próprios de quem cozinha como se dá à vida, sem medo de arriscar. O curioso é que o mundo gira. Ao que consta, o papo de anjo original chegou a Adriana pelas mãos de uma quituteira Leite Barbosa, mais adiante tentarei acertá-lo. A vida é assim, né? A gente recebe aqui e passa acolá.</p>
<p>Eu que sou filha de uma grande cozinheira, temo não ter herdado esse dom. Mas, sei ao certo apreciar os encontros. E destes levo minha mala repleta. Se São Paulo me fez conhecer o café especial em grãos, a sofisticação das receitas e dos pensamentos acadêmicos, é da pátria-Fortaleza que levo o gosto de casa, do velho coado e do pão d´água servidos no café da manhã. É que para gente ganhar o mundo sem se perder, a gente precisa é de um porto. Graças a Deus eu tenho o meu e ele é assim, bonito e saboroso como uma mesa farta. Inté, Fusta!</p>
<p>Texto publicado originalmente em 8 de março de 2016.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Centro, um mapa afetivo da Fusta</title>
		<link>https://apulga.com/fortitudine/</link>
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		<pubDate>Sun, 15 Apr 2018 15:57:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa curta]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>

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		<description><![CDATA[Se tem uma coisa que eu gosto de fazer em Fortaleza é caminhar pelo Centro. É um hábito antigo que tenho desde criança, quando ia levada pelas mãos da minha <a class="read-more" href="https://apulga.com/fortitudine/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/04/Fortaleza2.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1787" alt="Fortaleza2" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/04/Fortaleza2.jpg" width="640" height="480" /></a></p>
<p>Se tem uma coisa que eu gosto de fazer em Fortaleza é caminhar pelo Centro. É um hábito antigo que tenho desde criança, quando ia levada pelas mãos da minha mãe. Naquela época quase não haviam shoppings e os cinemas de rua ficavam lá. Aquele era o passeio mágico do fim do mês quando ela recebia o salário e eu sempre ganhava um mimo, tomava um sorvete e comia uma coxinha na cantina das Lojas Americanas. Era o hábito proletário mais feliz de todos. Um imenso cruzar de fronteiras.</p>
<p>Hoje quando retorno ao Centro e vejo tanto abandono procuro na minha mente esses lugares incríveis que eu tive a sorte de poder conhecer lá. Lembro de um restaurante self service que funcionava nos fundos de uma loja de aluguel de roupas para festas e, salvo engano, ficava na Barão do Rio Branco ou na Senador Pompeu. Almocei lá inúmeras vezes durante o 2o grau e até hoje me arrependo de não ter entrevistado os donos daquele inusitado negócio. Também havia um local que só vendia sucos (todos da fruta, nada de polpa) em plena Pedro Pereira, perto do antigo BEC dos Peixihos. O local chamava &#8220;Progresso Lanches&#8221; e o caixa vendia as fichas dos sucos e alguns produtos eletrônicos. Há alguns anos vi que o lugar havia cedido à vocação do entorno e o oásis do suco tinha se tornado mais uma loja de fios, lâmpadas e outros quetais.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Ainda que sem esses lugares perdidos no tempo, o Centro ainda tem traços do meu mapa afetivo. Subo no edifício Progresso e tenho uma das vistas mais espetaculares da cidade, esquecida (como o próprio Centro parece estar) numa janela aparentemente despretensiosa</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Outro local que me dói de saudade é o Waldo Café que funcionou por mais de 30 anos na esquina da Barão do Rio Branco com Guilherme Rocha. Lá só se vendia café coado e água. Nenhum capuccino, nenhum expresso, nenhum bolo ou qualquer outro quitute. Minto, nos caixas era possível comprar bijuterias Michelin e cigarros. Mesmo com o que se pode chamar de oferta reduzida de produtos, arrisco a dizer que era o melhor café da cidade em minha memória afetiva, servido em uma louça grossa, colocada no balcão ainda quente, logo após ser escaldada. O local também não tinha cadeiras. A gente se espremia no balcão, tomava o café escaldante e ia embora. Era o café mais lotado que conhecia, me intriga profundamente que tenha fechado.</p>
<p>Ainda que sem esses lugares perdidos no tempo, o Centro ainda tem traços do meu mapa afetivo. Sempre que vou consertar o relógio, subo no edifício Progresso e tenho uma das vistas mais espetaculares da cidade, esquecida (como o próprio Centro parece estar) numa janela aparentemente despretensiosa que dá defronte ao todo. Para continuar no mesmo ramo, passo sempre numa ótica da Guilherme Rocha em que conheço os gerentes desde que eram vendedores e sou sempre recebida com café, água e sorrisos. Hoje, a Francisca, que trabalha lá há anos, disse que lembrou tanto de mim no final do ano, quando o coro do natal canta na Praça do Ferreira, e eu sempre apareço por lá. Ano passado não tive tempo de ir e ela me mandou uma mensagem preocupada com meu paradeiro. É dessas singelezas que o dinheiro não paga e que eu duvido que os grandes estabelecimentos comerciais cultivem.</p>
<p>Muita coisa mudou no Centro, mas essa teia orgânica de quem ganha a vida lá continua inteira. As pessoas se conhecem, sabem onde conseguir de um tudo, estabelecem laços, fazem dali mais do que um local impessoal de se fazer negócio. Elas vivem o Centro. De alguma maneira, se apropriar disso, conhecer as ruas e as pessoas me dá um sentimento de uma felicidade mais genuína e menos afetada. É bom reconhecer-se nesses espaços, ainda que muito tenha mudado.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Muita coisa mudou no Centro, mas essa teia orgânica de quem ganha a vida lá continua inteira. Conhecer as ruas e as pessoas me dá um sentimento de uma felicidade mais genuína e menos afetada</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Contudo, confesso que me dá uma dor imensa saber que é preciso dessa ligação já estabelecida para ver a beleza que o Centro ainda conserva. Um estranho dificilmente se encantaria com tanto descaso. É uma das áreas mais cheias de vida da cidade e não reconheço uma ação para valorizá-la. Não há restauro das praças, criação de locais públicos convidativos, regulação do espaço urbano&#8230; É uma joia encoberta. Ás vezes tenho a ilusão de que, de alguma maneira, talvez isso afaste os predadores mais vorazes.</p>
<p>Da paisagem vista nesta foto fica tão claro como aquele é um espaço privilegiado. Quem só circula na Fortaleza-Dubai-Miami certamente não vê isso. Talvez, se visse, achasse bonito como num cartão postal europeu. Mas, se chegasse lá, logo expulsaria os antigos comerciantes, criaria um padrão de negócio, trocaria o que resta de vestígio do tempo e dos usos por alguma construção com aço e vidro. Acho que o nome moderno disso é gentrificação. Para mim é o desprezo a toda e qualquer identidade genuína.</p>
<p>Texto publicado originalmente em 13 de janeiro de 2015.</p>
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		<title>Da felicidade e dos biscoitos</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Mar 2018 23:09:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa curta]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>

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		<description><![CDATA[Semana passada morreu Eduardo Galeano. Li pouca coisa dele, mas lembro com exatidão de alguns trechos de “O Livro dos Abraços” que comprei há alguns anos para dar de presente <a class="read-more" href="https://apulga.com/da-felicidade-e-dos-biscoitos-2/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/BiscoitoP.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1765" alt="BiscoitoP" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/BiscoitoP.jpg" width="612" height="612" /></a></p>
<p>Semana passada morreu Eduardo Galeano. Li pouca coisa dele, mas lembro com exatidão de alguns trechos de “O Livro dos Abraços” que comprei há alguns anos para dar de presente a Clarissa Tavares. O livro é feito de breves relatos sobre amigos, familiares, lembranças… Questões aparentemente despretensiosas que são, em essência, imensas. Fala de coisas importantes, dessas que a gente corre corre, dá a volta ao mundo, achando que vai encontrá-las num universo distante e encantado para ver, depois de muita estrada, que estão ao lado e são da ordem do cotidiano, do pessoal. Ao folhear o livro, na hora, me lembrei de um conselho que o Guimarães Rosa deu a Fernando Sabino ao saber que este escrevia uma peça de teatro enquanto acalentava o sonho de fazer um grande romance: “Não faça biscoitos, faça pirâmides”. Sabino chega a consolar-se ao lembrar dos “faraós biscoiteiros” como Machado de Assis e, ironicamente, relata isso numa singela crônica, dando-se conta de que era, na verdade, um feliz padeiro.</p>
<p>Foram essas “pequeninices” que a lembrança do Galeano me trouxe de volta. Quando ele se foi pensei que era preciso fazer uma homenagem dessa natureza. Então, me veio a mente a história curiosa de uma amiga que certa vez se envolveu num acidente de carro e, sendo culpada do entrevero, recebeu uma surpreendente indulgência do outro condutor. Comovido com o aperreio da moça, ele disse: “Tudo bem, minha filha. Tá tudo certo. Vá pra casa e faça uma boa ação”. Ela chegou em casa e, sem saber o que fazer, soltou um passarinho da gaiola. Essa história pueril, que mais parece uma tirinha, talvez seja uma das demonstrações mais certeiras do que o padeiro Sabino chama de “a estética do amor”. É o pouquinho da índia do Manuel Bandeira. É que nos remete o Livro dos Abraços do Galeano.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Valter Hugo Mãe que me disse: “Uma cortina amarela em casa é uma dimensão fundamental da felicidade”. Eis aí o sonho de toda a gente. Mas, um sonho plasmado numa imagem. Eis a estética do amor.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Em uma carta ao amigo Hélio Pellegrino, em uma noite chuvosa de 1945, enquanto escutava Bach, Sabino se emociona ao lembrar dos amigos e da infância em Minas Gerais. De sobressalto escreve uma das mais belas cartas que já li e diz como numa sentença luminar que o “único caminho possível é o amor se traduzindo numa atitude estética diante da vida”. Soltar um passarinho, comover-se com Bach… São dessas coisas, desse tecido fino, que a felicidade é feita. Há algum tempo quando pude conversar Valter Hugo Mãe fiquei comovida com sua visão sobre a felicidade. Era ele também um biscoitero. Frustrado porque não morreu antes dos 40, como previu quando era menino, deu-se conta que os melhores sonhos da vida são os mais comuns, os de toda a gente.</p>
<p>Mas a felicidade não é a ausência da tristeza. Ao contrário, ela traz em si uma consciência e uma capacidade de lidar com a herança triste que todos nós temos. Por isso mesmo, a ilusão nos escapa. Aprendemos a reconhecê-la (e nos contentarmos, com toda a dimensão que essa palavra encerra) com o simples que nos afeta e se projeta na maneira que vemos o mundo. Foi o mesmo Valter Hugo Mãe que me disse: “Uma cortina amarela em casa é uma dimensão fundamental da felicidade”. Eis aí o sonho de toda a gente. Mas, um sonho plasmado numa imagem. A estética do amor se contenta, mas não se conforma. Arruma a casa, abre a gaiola, escreve um carta. Faz algo por alguém. Está no que sentimos e o que expressamos a partir disso. Cabe numa pirâmide majestosa e num biscoito fino servido a quem amamos na sala de cortinas amarelas. Eu, aliás, prefiro os biscoitos.</p>
<p>Texto publicado originalmente em 21 de abril de 2015.</p>
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