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	<title>A Pulga &#187; Crônica</title>
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	<description>Um coletivo diletante de ideias</description>
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		<title>Crônica da pandemia</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Sep 2020 14:35:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dayse Abreu]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Apreensão, álcool gel, revolução no modo de trabalhar (quando não se perdeu o emprego), encontros virtuais, prefeito e governador que escutavam as orientações de médicos e cientistas, presidente que as <a class="read-more" href="https://apulga.com/cronica-da-pandemia/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2020/09/Captura-de-Tela-2020-09-21-às-11.47.51.png"><img class="alignnone size-full wp-image-1955" alt="Captura de Tela 2020-09-21 às 11.47.51" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2020/09/Captura-de-Tela-2020-09-21-às-11.47.51.png" width="631" height="461" /></a></p>
<p>Apreensão, álcool gel, revolução no modo de trabalhar (quando não se perdeu o emprego), encontros virtuais, prefeito e governador que escutavam as orientações de médicos e cientistas, presidente que as ignorava, lockdown, lockdown pero no mucho, notícias de quem pegou o vírus, de quem se curou, de quem não resistiu&#8230; Quando vai passar? Já não era para ter passado?! Começou em março de 2020. Algumas cidades no Brasil foram estabelecendo práticas de isolamento social, por conta da pandemia do coronavírus. Um dos memes que mais circularam foi o do “eu não aguento mais não aguentar mais”. Tentando (não) lidar com tudo isso, fui buscar um refúgio nos livros.</p>
<p>Logo no começo da quarentena, vi algumas pessoas lendo A Peste, do Camus. Ainda pensei em fazer o mesmo por curiosidade, afinal, não conheço o livro. Só que essa vontade não durou nem trinta segundos. Eu não queria me refugiar numa história que me traria de volta à realidade.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Só tinha a sensação de completude, de início e fim, quando lia alguma crônica do Fernando Sabino, num livro há tempos esquecido em cima de um móvel. Lia uma, lia outra, mas não considerava, solenemente, que “este é o livro que estou lendo”. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>No entanto, paradoxalmente, era exatamente a realidade que eu parecia procurar, consumindo notícias em quase todo o meu tempo livre, como num transe. Quantos novos casos, em quais bairros, número de óbitos, taxa de ocupação das UTIs &#8211; podiam me perguntar qualquer um desses dados, eu saberia informar. Ser detentora de informações assim me fazia sentir, de alguma maneira, um pouco mais segura, mais preparada. Só que o preço dessa segurança (que não assegurava muita coisa, a bem da verdade) veio em forma de estafa mental.</p>
<p>Não conseguia me concentrar. Comecei e larguei várias leituras. No canto inferior direito da tela do leitor digital, a indicação de onde tinha terminado minha empolgação com cada livro: 15, 10, 3%&#8230;</p>
<p>Só tinha a sensação de completude, de início e fim, quando lia alguma crônica do Fernando Sabino, num livro há tempos esquecido em cima de um móvel. Lia uma, lia outra, mas não considerava, solenemente, que “este é o livro que estou lendo”. Grande bobagem. Eu não precisava estar lendo um livro inteiro. Eu precisava era de algo fluido, leve, engraçado, talvez até sério, mas, ainda assim, lírico. E curto, já que a estafa mental não tinha passado completamente, mesmo depois que passei a acompanhar menos as notícias.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Então era isso, crônicas do Fernando Sabino. Ou a questão seriam as crônicas? Ou o Fernando Sabino? Talvez as duas coisas. Comprei, assim, mais três livros de crônicas, dois do Antônio Prata e um do Rubem Braga&#8230; </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Aquelas crônicas me faziam muito bem, só que elas estavam acabando. Eu precisava me reabastecer, e não podia ser com livro digital. Tinha que ser no papel, para poder abrir aleatoriamente. Assim, uma hora pode aparecer uma crônica ainda inédita. Outra, um texto que já li (mas sem problema, ele ótimo, vou ler de novo). Às vezes, até vem algum de que não gostei tanto assim, mas é só virar a página que a história é outra. Já que não podemos fazer isso com a pandemia, ao menos o façamos no nosso refúgio.</p>
<p>Então era isso, crônicas do Fernando Sabino. Ou a questão seriam as crônicas? Ou o Fernando Sabino? Talvez as duas coisas. Comprei, assim, mais três livros de crônicas, dois do Antônio Prata e um do Rubem Braga. E também fui atrás de dois livros de cartas, um de correspondências trocadas entre o Fernando Sabino e a Clarice Lispector, e outro de cartas que ele enviou para seus três grandes amigos ao longo de décadas.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Como me surpreendi com as confissões da Clarice Lispector ao amigo Fernando Sabino: &#8220;Só quem diz a verdade é quem não gosta da gente ou é indiferente. Tudo o que ele diz é verdade. Não se pode fazer arte só porque se tem um temperamento infeliz e doidinho&#8221;.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Essas compras me fizeram passar um tempo remoendo uma pequena culpa pelo surto consumista literário. Nos últimos meses, não fui diferente de tanta gente que começou a refletir mais sobre seus hábitos de consumo, sobre o que é preciso ter mesmo, em detrimento do que seria supérfluo. Sim, tenho muitos livros não lidos ainda guardados na estante. Mas eles não podiam me dar o abraço que as crônicas (ou o Fernando Sabino?) me proporcionavam. Leituras que abraçam não são supérfluas para mim em tempos pandêmicos. Culpa superada, então.</p>
<p>Ah, como eu ri da descrição do Fernando Sabino sobre o dia em que ele, em pleno aeroporto, foi convencido por um repórter de rádio a dar uma entrevista dentro de uma cabine telefônica para diminuir o barulho ao redor. Acabaram entalados. O amigo do Sabino, do lado de fora, tentava ajudar, “em gestos frenéticos de guardador de carro ajudando motorista a entrar na vaga” (1).</p>
<p>Como eu voltei no tempo quando o Antônio Prata relembrou as viagens de família na infância, quando o pneu do carro furava (2). Como eu achei lindo o mesmo Antônio Prata relatando uma conversa que teve com um motorista de táxi, viúvo, que contou da falta que sentia de não ter fotos da esposa fazendo as coisas do dia a dia, que era como ele se lembrava dela (3).</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Sabino desabafa: “Não é possível eu continuar assim, a vida me empurrando, me empurrando sem parar (&#8230;) Tudo vai acontecendo, vem vindo, vem vindo, já passou! É tão depressa, tão fugaz que nem percebo, não apreendo a vida.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Como eu me surpreendi com as confissões da Clarice Lispector ao amigo Fernando Sabino em 1946. Clarice só tinha publicado dois livros até então e estava desanimada com a recepção negativa do segundo. Ela chega, num momento, a concordar com um dos críticos: “Só quem diz a verdade é quem não gosta da gente ou é indiferente. Tudo o que ele diz é verdade. Não se pode fazer arte só porque se tem um temperamento infeliz e doidinho” (4). Ainda bem que ela tinha um amigo com quem trocava cartas e que lhe deu apoio e incentivo. Clarice veio a escrever tantos livros depois disso ainda.</p>
<p>Como eu me diverti, lendo correspondências como a que Fernando Sabino endereçou a “meus jovens mentecaptos Hélio e Otto”. Por outro lado, como eu refleti sobre a amizade, quando, em outra carta, Sabino diz a um amigo que “o principal, que nos sustenta de pé quando a noite avança e o sono abaixa, é que nós nos sabemos juntos” (5).</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Tudo vai acontecendo, vem vindo, vem vindo, já passou! É tão depressa, tão fugaz que nem percebo, não apreendo a vida, ela escorre pelos meus dedos quando vou segurá-la”. O que Sabino não escreveria sobre essa peste de coronavírus?</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Do livro com as cartas de Fernando Sabino para seus companheiros, uma das que mais me marcou foi escrita no Rio de Janeiro, em “12 para 13 de Agosto, 44”. Nela, Sabino desabafa: “não é possível eu continuar assim, a vida me empurrando, me empurrando sem parar (&#8230;) Tudo vai acontecendo, vem vindo, vem vindo, já passou! É tão depressa, tão fugaz que nem percebo, não apreendo a vida, ela escorre pelos meus dedos quando vou segurá-la” (5). Setenta e seis anos atrás, Fernando Sabino escreveu isso para seu amigo Hélio (“meu velho”). O que ele não escreveria sobre essa peste de coronavírus?</p>
<p>Me falta ainda explorar o livro do Rubem Braga. Por enquanto, só dei uma rápida folheada, suficiente apenas para descobrir que as crônicas que lá estão foram selecionadas pelo&#8230; Fernando Sabino. Juro que comprei sem saber.</p>
<p>(1) Da crônica &#8220;Por falar em aperto&#8221;, do livro &#8220;As melhores histórias de Fernando Sabino&#8221;<br />
(2) Da crônica &#8220;Ótima viagem&#8221;, do livro &#8220;Meio intelectual, meio de esquerda&#8221;<br />
(3) Da crônica &#8220;Recordação&#8221;, do livro &#8220;Trinta e Poucos&#8221;<br />
(4) Do livro &#8220;Cartas Perto do Coração&#8221;<br />
(5) Do livro &#8220;Cartas na Mesa&#8221;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>O livreiro e o outro</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Dec 2016 20:28:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Grilo Falante]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>

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		<description><![CDATA[Botou uma placa na frente da loja, um cavalete sobre a calçada. O escrito de giz na lousa anunciava: “Acervo – livros a 10 reais”. Foi um jeito de lidar <a class="read-more" href="https://apulga.com/o-livreiro-o-risco-e-o-outro/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;" align="center"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/Acervo34.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1593" alt="acervo34" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/Acervo34.jpg" width="683" height="625" /></a></p>
<p style="text-align: left;" align="center">Botou uma placa na frente da loja, um cavalete sobre a calçada. O escrito de giz na lousa anunciava: “Acervo – livros a 10 reais”. Foi um jeito de lidar com a crise, pois assim chamaria quem estivesse na rua. Melhor que a vitrine, no velho estilo, a placa era uma espécie de convite. É do reclame que vivem os comerciantes. Carece chamar atenção para o produto.</p>
<p>Mas acontece que sebo não é armarinho, nem loja <i>hipster </i>e nem banquinha de paletas mexicanas no verão. Livro tem vida. Certa dignidade mesmo. Tem cheiro, respira pelas páginas, usa capa feito vestimenta, tem temperamento para fisgar ou causar enfado. É cheio dos melindres. Talvez por isso o Chico de Assis, dono do sebo, tenha me dito que livreiro é meio professor. Embora, advertiu, nem todo professor possa ser um bom livreiro. O que une os ofícios é o gosto por saber das coisas e, sobretudo, por saber do outro. Das diferenças sei muito pouco; talvez fique no caixa, no estoque e na ordem das prateleiras.</p>
<p>Fato é que quem lida com livro, mais do que da letra, tem que entender do homem, seja ele leitor ou não. Isso porque é preciso dar uma chance ao futuro. É o convite. Há sempre o risco de alguém tombar com o reclame, entrar, dar de cara com um título e, bingo, talvez tornar-se um leitor, ainda que eventual.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Livreiro é meio professor. Embora, nem todo professor possa ser livreiro. Mas o que une os ofícios é o gosto por saber das coisas e, sobretudo, por saber do outro.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Foi isso que vi o Chico de Assis tantas vezes fazer. Fisgar o desavisado, dar a ele uma pista sobre o seu próprio desejo. É uma fronteira íntima. O sujeito leva um pouco mais do que lhe interessa ou pode esbarrar com algo novo que lhe abra uma porta. Mas, nesse escaninho, é sempre o outro que impera. É o diálogo no qual o livreiro antecipa a fala do seu interlocutor. Observa, conversa e arrisca a mostrar-lhe um mundo novo.</p>
<p>Mesmo para os iniciados, há descobertas. Falando do Borges, o bruxo, escuto o nome do Macedônio Fernández, argentino, louco, inspirador de muitos devaneios do elegante autor do “Jardins das veredas que se bifurcam”. Cá para nós: toda loucura tem pai. O motivo de ser também habita as palavras. Quem escreve já leu. Carrega consigo outros milhares de escritores, que, por sua vez, foram leitores, que foram escritores, que foram leitores, que, certamente, frequentaram livrarias e sebos.</p>
<p>Fico imaginando quando caíram nas mãos de Fernando Pessoa as primeiras letras de Omar Khayyam. Como Pessoa teria descoberto e trazido consigo as poções desse poeta e alquimista medieval? É um disparate imaginar esses caminhos.</p>
<p>Outro dia mesmo, no século XXI – na verdade, na quinta da semana passada –, um sujeito moderninho entrou no sebo e perguntou pelo Khayyam, o que nos levou a Pessoa, o que nos levou ao escaninho aberto, o que nos levou a tantos outros leitores e escritores. É o reclame. A plaquinha do sebo. O risco. O outro.</p>
<p>E são tantas e diversas as descobertas&#8230; Alguns dias de papo no Acervo e conheço o Fabián, um chileno que é garçom num restaurante de empanadas na vizinhança e me fala de Bolaños e vários outros cuja referência latina vergonhosamente me escapam. Tentando estipular uma ordem sobre o que se deve ler, Chico de Assis falava sobre o tempo necessário a algumas obras: “Tem livro para se ler maduro”, afirmava. Fabián discordou. Não há tempo. Saiu-se com essa: “A literatura é a própria carta de navegação”. Anotei num caderninho a frase. Era certeira. Eis o risco, ele nos lembrou.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Mas, nesse escaninho, é sempre o outro que impera. É o diálogo no qual o livreiro antecipa a fala do seu interlocutor. Observa, conversa e arrisca a mostrar-lhe um mundo novo.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Dos frequentadores do Acervo há também o Mangarielo, editor de livros comunistas e estudioso da obra de Jacob Bazarian. Aí o que se abre é o mundo da filosofia, a ponte entre o Brasil e a Armênia. Numa tarde encantada, Mangarielo repetia para mim que era preciso estar atento ao método, às premissas do pensamento. Falou que quando viajou à Armênia tinha a companhia do seu próprio KGB. Demorei alguns minutos para entender que, de fato, ele falava do Serviço Secreto Soviético. São tantas histórias&#8230;</p>
<p>Na vitrine, quando o Chico de Assis coloca os livros de sociologia sobre as diferenças de classe no Brasil, há clientes que entram desconfiados. Ah, o reclame também pode ser provocativo. É perigoso ter amigo comunista nestes dias, um cliente poderia dizer ao livreiro e professor. Pensando bem, “Comunismo e ficção nos dias atuais” até daria um bom nome para a prateleira ao lado daquela com os livros do realismo fantástico.</p>
<p>São as descobertas que vão das palavras aos personagens cotidianos, silenciosos.  Era começo de dezembro, numa tarde chuvosa, quando Dona Maria José, uma das mais curiosas frequentadoras do Acervo, adentrou o sebo à procura de um presente de Natal. Ao olhar o Chico de Assis por detrás da sua pequena mesa, dizia efusiva: “ Esse aí é um artista”. Eu ri, curiosa, querendo saber o porquê. Entendi que era algo relativo à alma. Sinceramente, não sei se dela, pessoa tão inquieta com o que é da superfície, ou dele, que tinha visto nela tal incapacidade de se adequar. E, num diálogo próprio dos dois, estabelecia-se uma conexão improvável aos grandes magazines.</p>
<p>Talvez disso advenha o elã dos pequenos espaços, dos sebos que não apenas amontoam livros. Porque é preciso estar atento ao outro. Mas isso também só é possível quando quem manuseia o encanto sabe o que oferecer de suas estantes. Aliás, às vezes o desafio é oposto. Deve-se saber também o que não vender.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Acho que tem sua arte quem promove esses encontros.  Livreiro é professor sem cátedra. Como quem professa longe dos espaços públicos, de forma íntima.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Das próximas prateleiras a serem inauguradas no Acervo, haverá uma escrito: livros para não comprar. Em tempos de delírio coletivo, convém não ler aqueles livros que quebrem a corrente dos escritores, que, por sua vez, foram leitores, que foram escritores, que foram leitores, que, certamente, frequentaram livrarias e sebos. Soube pelas más línguas que um livro do Lobão foi oferecido de graça algumas vezes sem muito interesse. O Chico de Assis me disse que esse exemplar vai inaugurar a seção.</p>
<p>Acho que tem mesmo sua arte quem promove esses encontros. Talvez seja isto: o livreiro é professor sem cátedra. Como quem professa longe dos espaços públicos, de forma íntima, pelo escaninho, dependendo de quem veja a placa, entre e se permita o melindre das palavras.</p>
<p>Foi desse gesto que também eu caí no risco. Disse o Chico de Assis que o primeiro livro que comprei no Acervo foi um do Jaguar. Capa laranja, ele frisou. Mas, confesso, eu não lembrava. Fui procurar, e era mesmo. “Átila, você é bárbaro”, numa edição da Civilização Brasileira dos anos 60. E olha que tenho boa memória. Mas a verdade é que não sou eu a livreira. Estava apenas lá, entrando distraída. E, no fim, é isto mesmo: quem tem por ofício saber do outro é quem realmente lembra.</p>
<p>* Chico de Assis na verdade chama-se Josué. O apelido furtivo dado por mim é talvez o oposto ao pseudônimo do Julinho da Adelaide usado pelo Chico Buarque durante a Ditadura Militar ou do nome Teresa do Amor Divino usado pela artista plástica Djanira ao se recolher no fim da vida à Ordem Terceira Carmelita. Antes de esconder ou silenciar, na verdade revela todas as possibilidades que cabem na literatura e em seus personagens. A ficção tão real como a própria vida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Da arte de ser filho único</title>
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		<pubDate>Thu, 18 Feb 2016 08:51:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Grilo Falante]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
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		<description><![CDATA[Ilustração: Mariane Marques &#160; Componho com outros dois amigos de adolescência uma espécie de tríade fraternal de filhos únicos, com toda a idiossincrasia que essa expressão possa conter. Somos uma <a class="read-more" href="https://apulga.com/da-arte-de-ser-filho-unico/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/02/Filho-único22.jpg"><img class="size-full wp-image-1994" alt="Ilustração: Mariane Marques" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/02/Filho-único22.jpg" width="432" height="755" /></a></p>
<dl class="wp-caption alignnone" id="attachment_1994" style="width: 442px;">
<dd class="wp-caption-dd">Ilustração: Mariane Marques</dd>
</dl>
<p>&nbsp;</p>
<p>Componho com outros dois amigos de adolescência uma espécie de tríade fraternal de filhos únicos, com toda a idiossincrasia que essa expressão possa conter. Somos uma médica, um militar e uma jornalista. Tão díspares como um peixe, um tigre e um pássaro. Seres de hábitats distintos, mas os três com absoluta consciência de seus papéis familiares. E há algo a mais nesse ethos singular que nos une: somos filhos que cedo se responsabilizaram por suas mães, arcaram com as despesas de casa e foram, ao seu modo, protagonistas de famílias pequenas. Aqueles que saíram pro mundo e proveram o lar. Dito isso, esclareço que falo desse tipo específico de filhos únicos, como numa espécie de um gênero mais vasto, para, a partir dessa “tipologia”, ilustrar algo quase intrínseco a esses seres: a ideia de que se é responsável por tudo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Dito isso, esclareço que falo desse tipo específico de filhos únicos, para, a partir dessa “tipologia”, ilustrar algo quase intrínseco a esses seres: a ideia de que se é responsável por tudo.</div></strong></h3>
<p>Todo mundo, mesmo que não seja um apreciador de samba, já batucou instintivamente a conhecida estrofe que diz: “Não posso ficar nem mais um minuto com você / Sinto muito amor, mas não pode ser / Moro em Jaçanã. Se eu perder esse trem que sai agora às 11 horas, só amanhã de manhã”. Eis aí uma representação popular clássica dos que atendem ao comando prioritário da responsabilidade, mesmo que sem a ginga malandra, como convém à musica. Na prática, pertencer a essa espécie é ter hora para chegar em casa, é avisar quando não vem e quando vai atrasar. É ser um pouco pai e mãe às avessas, um elo que nos liga à ancestralidade, e não aos nossos iguais. Não há com quem dividir as tarefas além daqueles que originalmente nos deram esse papel. Estamos do lado de cá, somos os únicos filhos, fazemos um monólogo e, nos diálogos que restam, quase sempre concluímos a fala como na sentença de Adoniran Barbosa: “Tenho minha casa para olhar, eu não posso ficar”.</p>
<p>Algumas histórias muito duras demonstram isso que quero dizer. Tenho uma amiga cujos pais se separaram cedo. Ela foi morar com a mãe na casa da avó que ficava em outro estado. As acomodações supostamente temporárias não permitiram uma mudança completa. Parte das coisas ficaram na Bahia, estado onde ela nasceu. Isso foi há uns 25 anos e, desde então, fotos de família, objetos de decoração e uma série de souvenirs, aparentemente sem importância, mas que nos ajudam a contar nossa história, ficaram encaixotados em algum lugar. Há mais de uma década essa espécie de espólio de miudezas foi colocada num depósito em alguma cidade da Região Metropolitana de Salvador. Ficou por isso. Há três anos ela teve seu primeiro filho e as indagações corriqueiras sobre com quem a criança se parece acabaram remetendo às fotos infantis dos pais. Ela tinha, então, apenas uma foto de si mesma quando bebê, que, por algum motivo, havia carregado consigo aos 13 anos quando saiu de Salvador. Eis alguém que devia, mesmo tão jovem, cuidar da própria memória. Nada lhe foi imposto, dito ou escrito. Este é o ponto. Era um cuidado que cabia a ela pelas contingências da vida.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É fácil seguir o movimento da inércia e nos responsabilizarmos por tudo a nossa volta, sem atentar ao preço extorsivo dessa onipresença.</div></strong></h3>
<p>Outro amigo é, além de filho único, praticamente o sobrinho único de uma leva de uns sete tios. Temporão, restou a ele enterrar os tios mais velhos que foram partindo e ajudar a organizar a rotina dos que ficaram. Eu mesma também sou a responsável pelo meu espólio afetivo e já preparei o funeral de tantas pessoas próximas, entre vivos e mortos, que me tornei uma espécie de PhD no trato das partidas. Mas está aí uma grande cilada. Porque é fácil seguir o movimento da inércia e nos acostumarmos a ocupar todos os espaços, organizar todos os ritos, nos responsabilizarmos por tudo a nossa volta, sem atentar ao preço extorsivo dessa onipresença.</p>
<p>Na outra ponta está o aprendizado de quem pode dividir. Uma vez uma grande amiga, cuja família me adotou, me falou de uma brincadeira de infância em que ela e os irmãos ensaiavam números de mágica. Ela posicionava-se cuidadosamente embaixo de uma mesa que era coberta por uma longa toalha. Em seu posto, tinha como tarefa passar por um buraco feito no tampo do móvel – que dava no fundo da cartola – tudo que o irmão mágico pedia. Certa vez, o pano caiu e ela foi pega em flagrante. Zangou-se e nunca mais serviu de ajudante para o número. Num exemplo cru, ser filho único é não ter essa chance, visto que toda a brincadeira corre por sua conta.</p>
<p>O escritor inglês Geoff Dier escreveu para a revista Serrote um ensaio autobiográfico sobre sua condição de filho único. Lá pelas tantas, ele dá alguns exemplos da faceta triste desta condição, quando lembra que brincava de Banco Imobiliário sozinho, que jogava Detetive sozinho e que conseguia até mesmo a façanha de jogar Subbuteo sozinho: “Algo quase impossível, já que você precisa manejar os atacantes e controlar o goleiro do time adversário ao mesmo tempo”. A questão é que, na vida real, é, digamos, difícil atuar nessas duas posições simultaneamente.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Dentro daquele esquema posto, tornamo-nos adultos mais cedo e há uma parcela de vantagens nisso: compramos casa e carro, construímos uma carreira&#8230; Em suma: não somos intimidados pelos compromissos.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Porém, aqui vale um parêntese: engana-se quem pensa ser esse um papel de lamúria. Como tudo na vida, há dor e delícia. E, em relação à última, as possibilidades são imensas. Aprendemos desde cedo a ter as rédeas da vida nas mãos. Ser responsável implica certo poder. Estar fora de um padrão, sobretudo na geração dos anos 70 e 80, quando a média por família era de três irmãos, era se livrar de algumas comparações obrigatórias e ganhar a chance de criar uma trajetória mais particular. Assim, se nos passam a conta das obrigações, também ganhamos voz ativa na mesa dos negócios.</p>
<p>Com o tempo, aprendemos a manejar o jogo e podemos escolher a cor das paredes do quarto, o colégio em que queremos estudar e se preferimos ganhar um kit de pequeno cientista ou outro brinquedo no Natal. Exemplos infantis à parte, a questão é que aquele de quem muito é cobrado, sendo o único fornecedor de expectativas, sem ter concorrentes diretos e com certa esperteza, aprende a fazer valer sua vontade. Dentro daquele esquema posto, tornamo-nos adultos mais cedo e há uma parcela de vantagens nisso: compramos casa e carro, pagamos as contas, construímos uma carreira&#8230; Em suma: não somos intimidados pelos compromissos.</p>
<p>A grande questão é que dessa onipresença, entre ganhos e perdas, surgem complicações. Lidar com as escolhas alheias é a principal delas. Acontece que, se um jarro quebra, o filho único não pode “culpar” o irmão mais novo, ninguém lhe abre o caminho e ninguém o precederá. O vazio ao lado lhe dá uma coroa e um chicote. Não ter ninguém para dividir é se empoderar do muito e, infelizmente, isso quase sempre é desumano. Quando rompemos essa barreira que nos imputa a falha, é comum cairmos na prisão escura de achar que nunca fizemos o suficiente. A ideia é que tudo depende nós, e não há maior engano do que esse. Eis a armadilha da qual nós, ensimesmados filhos únicos, devemos nos desvencilhar. Na vida, embora nosso senso de responsabilidade e certo narcisismo nos digam o contrário, a brincadeira não ocorre só por nossa conta. Há sempre outra pessoa envolvida, uma ou mais, e não há condições físicas e emocionais possíveis de fazer a mágica e empurrar o coelho em um único gesto.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É por isso que esse texto é antes de tudo uma reflexão sobre o outro, aquele à parte de nós, o qual devemos reconhecer e respeitar porque, fazendo isso, estamos, na verdade, respeitando nós mesmos</strong><strong>.</div></strong></h3>
<p>É por isso que esse texto é antes de tudo uma reflexão sobre o outro, aquele à parte de nós, o qual devemos reconhecer e respeitar porque, fazendo isso, estamos, na verdade, respeitando nós mesmos. A escolha do outro, em muitos casos, não é de nossa alçada. No fundo, o que nos cabe é, sim, como reagir. Essa é a nossa parte. Por isso acho que tal “domínio artístico” consiste em aprender a dividir, mesmo que num limite imaginário que vamos exercitando vida afora como quem aprende com a alteridade a ser mais humano.</p>
<p>É um desafio fazer o que nos cabe e deixar o outro seguir – ou pelo menos se reconciliar com essa ideia –, ainda que esse outro seja nosso pai, nossa mãe, um grande amor ou um amigo da vida inteira. Esse contorno semelhante ao de gêmeos siameses é o invólucro que nos constitui primariamente e que devemos romper. Há nessa totalidade um lado sombrio e um lado luminoso. Aprende-se com esmero que a vida depende da gente e, sim, somos capazes de feitos extraordinários. Tomamos em nossas mãos uma potência gigantesca e, tal qual um fugitivo que cava um túnel por trinta anos, realizamos com paciência o impensável. Mas isso não é vida, é estratégia de guerra. Pode servir para as questões estruturais, mas não para as relações. A vida comporta o outro. Ou melhor, a vida é desafiada pelo outro. E isso é incômodo porque há sempre algo que, para o bem e para o mal, repito, não depende de nós.</p>
<p>Há anos tive uma conversa com uma amiga de faculdade cujo relato me parecia misterioso à época. Ela me dizia que, quando interrompeu um período de análise, ainda adolescente, a terapeuta falou: – Eu vou te dizer algo, mas provavelmente você vai esquecer. E a frase reveladora era: – Você só dá conta de si. Aquela história me passou batida na época em que a escutei pela primeira vez. Eu mesma, que não era a interlocutora direta, havia esquecido. Lembrava-me da cena, mas não da assertiva. Contudo, mais de uma década depois, está guardado como num estalo em minha mente nosso diálogo sobre o assunto num pôr do sol na Ponte Metálica, em Fortaleza. Depois daquele hiato de tempo, em que havia trocado nossas especulações juvenis pela concretude da vida adulta, algo parecia mágico naquela constatação: – Sim, só damos conta de nós.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Sabendo nosso limite, podemos ser inteiros e seguir adiante como quem ora quer ser mágico e ora quer ser ajudante. Afinal, o que o outro nos dá é a liberdade de escolher ser quem somos.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Parte da nossa memória trazemos conosco, revelada ou não numa fotografia; outra parte está mesmo perdida por aí com quem cruzou nossa estrada. Podemos tentar girar o mundo para controlar as coisas, como naquela cena em que o Super-Homem, no filme clássico de 1978, coloca a Terra numa rotação inversa para salvar Lois Lane. Mas, fora do mundo da ficção e dos heróis, é fato que todo o esforço que queira mudar algo além de nós só terá efeito se conectado à vontade do outro.</p>
<p>E, ainda que com muito custo, é libertador não ser responsável por tudo. Isso nos empodera de maneira diversa da qual estamos acostumados porque dá aos nossos pares a possibilidade de agir e nos aliviar os ombros. Mesmo quando isso não acontece, ao fazer o que nos cabe e conseguir enxergar esse limite que costumamos avançar, nos livramos da prisão que é tentar ocupar dois espaços ao mesmo tempo. Ao abarcar o mundo, nos perdemos de nós. Parece uma daquelas charadas do Mestres do Magos, mas é bem isso. Reconhecer o outro e suas escolhas é tornar-se pleno em nossa unidade. Sabendo nosso limite, podemos ser inteiros e seguir adiante como quem ora quer ser mágico e ora quer ser ajudante. Afinal, o que o outro nos dá é a liberdade de escolher ser quem somos.</p>
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		<title>O jornalismo que nos move</title>
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		<pubDate>Sat, 14 Nov 2015 14:25:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Grilo Falante]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[amizade]]></category>

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		<description><![CDATA[Há um certo espírito gremista que é das coisas mais bonitas no ser humano. Algo da meninice, do trabalho em grupo, da reunião com os amigos, um pouco do que <a class="read-more" href="https://apulga.com/do-jornalismo-que-nos-move/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/J50-LOGO-JORNALISMO111.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1208" alt="J50 - LOGO JORNALISMO111" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/J50-LOGO-JORNALISMO111.jpg" width="650" height="650" /></a></p>
<p>Há um certo espírito gremista que é das coisas mais bonitas no ser humano. Algo da meninice, do trabalho em grupo, da reunião com os amigos, um pouco do que hoje se costuma chamar de “coletivos”. Ainda que motivado por um indivíduo, o espírito de empreender o novo acaba sempre a arregimentar mais pessoas. É comovente – porque move em conjunto &#8211; como quase todos os desejos juvenis.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Muitas das relações construídas no Curso de Comunicação da UFC partem desse desejo de descobrir a vida. Querer dizer algo com o outro e para o outro é o que torna essa memória tão viva porque esse desejo, ainda que adormecido, continua em nós.</div></strong></h3>
<p>Podemos enumerar os casos em que este desejo se materializa e muda algo: Millor Fernandes criou “Pif-Paf” em maio de 1964. Com a Ditadura Militar, o jornal durou apenas três meses e oito exemplares, mas até hoje é referência no jornalismo.  Nos anos 1990, Ziraldo aparecia intrépido com suas revistas “Palavra” e “Bundas”. A primeira tentava deslocar apreciação cultural do eixo Rio-São Paulo enquanto a segunda tirava onda com o mundo das celebridades que, à época, começava a mostrar sua face moderna. O slogan era: “Quem põe a Bunda em Caras, não põe a Cara em Bundas”. Isto para não falar do Pasquim. Ah, o Pasquim!</p>
<p>Quando se entra no curso de Comunicação Social todas essas referências mágicas viram possíveis. É como se você pudesse finalmente dizer a plenos pulmões para o colega do lado: “Ei, vamos fazer um jornalzinho?”. Assim, este “mal” inventivo curar-se porque pode realizar-se em imagens, sons e palavras. Fico a me perguntar quantos dos que leem esse texto já não fizeram (ou desejaram fazer) um jornalzinho na escola, tiveram um álbum de colagem, montaram um fanzine, criaram ou um blog.</p>
<p>Estar no curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (que completa 50 anos) é, sem dúvida alguma, a possibilidade de exercitar essa vontade de se expressar. No final da década de 1990 vimos o Jabá ser reeditado, acompanhamos a criação do Bichos Escrotos, do Panegírico, da Pulga&#8230; A série de programas na radiadora. Depois, nos anos 2000 foi a vez de ver iniciativas como o Grupo Tr.e.m.a. e a Aerolândia. Novamente o Jabá era reeditado. Também é possível lembrar as inúmeras festas, paródias (ai meu paradigma, ai ai ai meu paradigma), a incrível Copa Jabá, vídeos, entrevistas e reportagens. Se era preciso fazer, nós fazíamos fossem ou não aquelas aventuras parte de uma disciplina. O que aprendemos estava também no poleiro, no bar e na torrinha. Tivemos a sorte de poder fazer uma faculdade que não apenas nos deu um ofício como nos tornou mais humanos e esta uma constatação preciosa.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Imaginar esse tipo de relação também entre alunos e professores &#8211; que sem dúvida são nossos amigos, como o mestre Agostinho Gósson, parece quase um manifesto subversivo contra os ditames impostos pela hierarquia.</div></strong></h3>
<p>Muitas das relações construídas no Curso de Comunicação da UFC partem desse desejo comum de descobrir a vida e dar a ela uma forma que se parecesse conosco. Querer dizer algo com o outro e para o outro é o que torna essa memória tão viva porque esse desejo, ainda que adormecido, continua em nós. É só olhar na timeline do Facebook e ver como são intensos os laços formados a partir daquele espaço e daqueles anos de convivência. Ainda que esqueçamos a tecnologia e as redes sociais, quantos colegas de sala não se tornaram padrinhos e madrinhas dos filhos de quem sentava a seu lado. Tantos que foram morar em outros estados e países mas se mantém presentes um na vida do outro. Quantos não cultivam laços que permanecem até hoje e, pela lógica do passar do tempo, deviam ter sido amainados.</p>
<p>Imaginar esse tipo de relação construída não apenas entre pares, meninos que começaram juntos a vida adulta, mas também entre alunos e professores &#8211; que sem dúvida são nossos amigos (os mestres Agostinho, Ronaldinho, Silas, Juju, Gilmar, Ricardo Jorge&#8230;) parece quase um manifesto subversivo contra os ditames impostos pela hierarquia. Mas, a Comunicação (o jornalismo e a publicidade) sempre foi assim, plural, com gente e formas de se relacionar que não cabiam em gavetas e armários. Isto é outros aspecto que sempre permitiu as mais diversas manifestações de opinião e informação.</p>
<p>Durante as diversas manifestações que estes 50 anos de jornalismo causou, talvez seja este espírito gremista de realizar algo junto, de estar perto, assim como quem divide um álbum de figurinhas, seja a maior representação do que é afeto. É isto  que nós faz olhar os anos de faculdade como algo que é parte de nós, vive pleno no que aprendemos, nas relações que construímos e nesse desejo de encontrar o outro.</p>
<div class="scbb-content-box-gray scbb-rounded-corners"><span style="line-height: 1.5em"><br />
</span><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_03_valdeliomuniz.png"><img class="size-full wp-image-1181 alignleft" alt="ufc50anos_03_valdeliomuniz" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_03_valdeliomuniz.png" width="254" height="225" /></a></p>
<p><em>&#8220;Parecia óbvio, elementar, para estudantes de Jornalismo, disporem de um jornal que, além de servir de “laboratório”, fosse um canal de integração dos diversos semestres em vez de mero produto de disciplinas isoladas. Mas nem por isso, era realidade até o final de 1996. Atentos a este vácuo, os estudantes criaram, então, o Jabá, como publicação independente da coordenação e livre das amarras até mesmo do Centro Acadêmico. E, em torno dele, um novo tempo e uma salutar movimentação foram se formando. Além de veicular importantes matérias, artigos, entrevistas, poesias, charges e reportagens, ele também “pariu” saudosas crias como a Copa Jabá, que integrou na Quadra do Céu equipes de futebol formadas por estudantes, servidores e professores, e o “Grande Prêmio Jabá de Jornalismo”, que reconhecia, periodicamente, os melhores trabalhos publicados no informativo em diferentes categorias. Foi a prova concreta de que o envolvimento e o compromisso de um grupo de estudantes de diferentes períodos, com a aprovação do público-alvo, são capazes de defender bandeiras, deixar indiscutível marca e fazer história.&#8221;</em></p>
<p><strong>– Valdélio Muniz, turma de 1993.2 &#8211; sobre o primeiro Jabá</strong></p>
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<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_01_adrianolima1.png"><img class="size-full wp-image-1182 alignleft" alt="ufc50anos_01_adrianolima" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_01_adrianolima1.png" width="234" height="225" /></a></p>
<p><em>&#8220;Durante minha passagem pelo Curso de Comunicação Social da UFC, tive a oportunidade de contribuir para o Jabá (a “fênix ressurrecta”), os Bichos Escrotos (se o nosso objetivo é informar, esse foi o “trote” mais genial) e o Jerimum (que não era jornal, mas um fanzine com duas edições em que apresentei o El Torrinha ao mundo). No entanto, foi o Panegírico minha primeira experiência com a produção de jornais na graduação.</em></p>
<p><em>Idealizado e coordenado pelo Márcio Teles e mais um punhado de pessoas da turma 1998.1, o jornal cujo título ninguém sabia o que significava (nem eu) começou polêmico. Muitos criticaram seus textos assinados com pseudônimos (eu era o “Fox Mulder”; não me processe, FOX!). Outros não foram simpáticos a um “rival” do Jabá, que passava por um de seus muitos períodos de hibernação. Poucos reclamaram dos textos, altamente autorais de quatro ou cinco alunos de primeiro semestre e, em sua maioria, poesias, crônicas ou baseados em fato nenhum (eu escrevia sobre paranormalidade e extraterrestres, por exemplo).</em></p>
<p><em>Apesar do mundo de 2015 banalizar o anonimato como estratégia para se “irresponsabilizar” por eventuais críticas ou acusações, em 1998, no caso do Panegírico, o objetivo era apenas permitir as expressões de forma mais livre. Ainda hoje sorrio ao lembrar da caça às bruxas, quando colegas de classe deram chiliques (piti, ataque histérico&#8230;) exigindo que os redatores anônimos se apresentassem publicamente.</em></p>
<p><em>Por mais que tenha gerado reclamações de alunos e professores, o Panegírico foi uma ótima experiência: começando pelo convite para concretizar uma ideia de se fazer um jornal, passando por acompanhar com o Márcio (vulgo “Du Bocage”) a produção artesanal (melhor que “amadora”) em MS Word e, por fim, buscar soluções para garantir sua impressão<span style="line-height: 1.5em">.</span>&#8220;</em></p>
<p><strong>– Adriano Lima, turma de 1998.1 &#8211; sobre o Panegírico</strong></p>
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<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_02_graziellealbuquerque_1.png"><img class="size-full wp-image-1183 alignleft" alt="ufc50anos_02_graziellealbuquerque_" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_02_graziellealbuquerque_1.png" width="347" height="225" /></a></p>
<p><em>&#8220;Sabe aquele espírito inquieto que só a meninice tem? Pois é, a Pulga nasceu desse ânimo, da vontade de experimentar coisas novas e poder criar algo no tato, sem um molde. Eram meados do ano 2000, com o emblemático século XX batendo à porta, e o projeto da Pulga surgiu como um canal para dar vazão à produção de um grupo de amigos do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará (UFC).</em></p>
<p><em>Fazíamos parte de uma geração de jovens comunicadores que tinha de aprender a lidar com a transição do analógico para o digital. Era uma época de sucateamento da universidade pública em que o lema era “se virar” com o que tinha. Diante da escassez de veículos institucionais, da uma urgência de dar conta do mundo e do primeiro contato com o online, o site servia como um canal para tirar da gaveta aquela produção nascente nos corredores do Centro de Humanidades.</em></p>
<p><em>Lembro que a ideia e criação da página surgiu a partir do contato com o professor Ricardo Jorge de Lucena Lucas, então meu orientador de iniciação científica, que ministrava uma cadeira opcional de jornalismo na internet. Até hoje, mantenho uma apostila com mil e uma dicas de edição em HTML. Essa perspectiva aberta de criação era o ponto central do projeto. Podíamos não só escrever, mas criar formatos, misturar cores, idealizar seções&#8230;</em></p>
<p><em>O projeto original durou uns 2 anos e, em 2014, ele voltou a ativa com novo formato, colaboradores antigos e novos que ajudam a criar um espaço sem pretenção. É uma espécie de sala onde o que a gente quer é sentar e conversar, encontrar os amigos, juntar opiniões diversas e escrever por diletantismo.&#8221;</em></p>
<p><strong>– Grazielle Albuquerque, turma de 1998.2 &#8211; sobre a Pulga</strong></p>
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<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_04_raquelgoncalves.png"><img class="size-full wp-image-1184 alignleft" alt="ufc50anos_04_raquelgoncalves" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_04_raquelgoncalves.png" width="291" height="225" /></a></p>
<p><em>&#8220;Há 10 anos, em uma reunião no Shopping Benfica, o Tr.e.m.a. – Território de Expressão no Mundo Anônimo surgia com toda a ingenuidade e o desejo de mais um grupo de amigos que dividiam anseios: escrever, questionar a realidade e a maneira como a comunicação era feita. Entre um copo de cerveja e outro e inúmeras discussões, formatamos um grupo exigente com suas próprias criações, ousado e pretensioso. Mas como esperar diferente de jovens sedentos por algo novo?</em></p>
<p><em>Durante dois anos dos três de existência do grupo, nos lançamos pelas madrugadas de Fortaleza conversando com as pessoas que passavam pelos sete terminais de ônibus da cidade: Conjunto Ceará, Papicu, Siqueira, Antônio Bezarre, Messejana, Lagoa e Parangaba. A ideia de experimentar a cidade, revelar novos olhares e viver um estranhamento de percepções a partir de narrativas gerou uma revista de reportagens – Cadeira com Rodas – e um documentário – O Conto Torto do Olho. Afinal, tínhamos que materializar de alguma forma nossa necessidade de deturpar caminhos pre-estabelecidos e de romper com a imagem cristalizada da “Fortaleza Bela” ou da “Cidade do Sol”.</em></p>
<p><em>Na época, nos achávamos muito mais do que realmente éramos. Mas vejo isso como natural de uma fase importante da vida, quando as vivências coletivas passam a dar sentido às nossas escolhas. Nossa formação pessoal, sem dúvida, foi moldada também por essa experiência viva durante o curso de Comunicação na UFC.&#8221;</em></p>
<p><strong>– Raquel Gonçalves, turma de 2004.1 &#8211; sobre o  Tr.e.m.a.</strong></p>
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<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_05_guilhermecavalcante.png"><img class="size-full wp-image-1185 alignleft" alt="ufc50anos_05_guilhermecavalcante" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_05_guilhermecavalcante.png" width="333" height="225" /></a></p>
<p><em>&#8220;Em 2006 estava no meu terceiro ano de faculdade e completamente imerso na vida universitária. Tinha acabado de integrar uma chapa para o DA e mexendo nos arquivos descobri muita coisa sobre o jornal, que chegou a mim em 2004, mas de uma forma mais caricata, humorística. Não que tenha deixado de ser, mas o Jabá era um jornal sério, concebido para suprir a falta de um jornal laboratório, quando foi criado. Acionei uma turma pela lista do Data e convidei o Humberto (esqueci o sobrenome) para fazer uma oficina de jabá (risos). Pesquisando, descobri uma matéria da Mônica Mourão explicando a história. Pedi a ela para republicar na primeira edição. A euqipe não tinha ninguém fixo, mas o Alan Santiago, a Débora Medeiros e o Henrique Araújo sempre colaboraram. Eu ficava na edição e diagramação e também com a coluna alpinismo, junto da Thaís Fernandes e da Pamela Lemos.</em></p>
<p><em>Eu decidi retomar o Jabá porque eu tinha extremo afeto pelo curso, pelo DA e pelos projetos que as gerações passadas iniciaram, mas que foram se esquecendo no tempo. Pessoalmente, o momento mais especial foi ter ido a uma coletiva da Marisa Monte e em meio a dezenas de jornalistas eu fui lá me apresentar como repórter do Jornal Jabá, o que fez a Marisa rir. Ela me perguntou: &#8211; Você é de que jornal? Eu respondi: &#8211; Do Jabá. E todo mundo que estava na coletiva e que conhecia o jornal do curso também começou a rir.<span style="line-height: 1.5em">&#8220;</span></em></p>
<p><strong>– Guilherme Cavalcante, turma de 2004.1 &#8211; sobre o  terceiro Jabá.</strong></p>
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<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_06_yurileonardo.png"><img class="size-full wp-image-1186 alignleft" alt="ufc50anos_06_yurileonardo" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/11/ufc50anos_06_yurileonardo.png" width="242" height="225" /></a></p>
<p><em>&#8220;Era final da década zero-zero e o mundinho da Comunicação em Fortaleza ainda estava zonzo pela quantidade de profetas, picaretas e aventureiros de toda sorte que se arriscavam em palestras sobre como as midias sociais nos trariam o Novo Jornalismo. Sim, esse Jornalismo do Futuro, o Jornalismo Conectado, e toda essa quimera que nunca chegou.</em></p>
<div>
<p><em>Tem, mas tá faltando: o que ficou em nossa cidade foi só mais brechas para se explorar mais o repórter-operário.</em></p>
<p><em>Foi nessa época quando arrumei meu primeiro estágio e descobri que a mágica no Jornalismo acontecia fora da sala de aula. E preciso dizer que a mágica também não estava dentro das redações. Nada mais clichê dizer aqui que as amizades que você constrói te ensinam mais do que sala de aula ou uma empresa. E foi. Era quase como figurar no Conta Comigo, clássico de Sessão da Tarde.</em></p>
<p><em>Dei sorte de conhecer uma turma que também andava encucada com os rumos das próprias linguagens com as quais trabalhavam. Escrita. Desenho. Objetos editoriais. Com alguns dos membros da patota já castigados de outras experiências de reinventar a roda no Jornalismo, nossa ambição nunca foi pousar o metier em um pedestal e circundá-lo como quem estuda uma escultura. Naquele momento, falo por mim, dava prazer alcançar a potência em revelar algo se utilizando da mentira, da picardia, da galhofa. E mentira só existe se há, de fato, algum naco de verdade &#8211; inclusive aquelas que precisam ser tocadas mesmo que ninguém esteja tão disposto a enfiar as mãos no chorume.</em></p>
<p><em>Talvez tenha sido desse chiste, de um &#8220;jornalismo&#8221; pautado na mentira, que o humor, essa casca de banana que faz tropeçar nosso senso mequetrefe de realidade, se tornou uma potente força motriz. Aerolândia foi nosso brinquedo, um experimento de fundo de quintal montado toda a sucata que encontrávamos, com o que era descartado do jornalismo tradicional. Durante o primeiro mês de AERO, era como se a semana inteira somente acontecesse para fazer eclodir uma nova edição online da &#8220;revista-fantasma&#8221; na quinta-feira, um dia antes da Revista Aldeota ser disponibilizada aos leitores.</em></p>
<p><em>(É importante notar também essa noção de &#8220;ecossistema&#8221; dos produtos editoriais de uma cidade. Houve, sem dúvida, uma motivação de circular uma publicação alheia ao que era feito pela Revista Aldeota. Havia uma frase que circulava pelas nossas cabeças, &#8220;é preciso fazer alguma coisa&#8221;, que motivou aquele movimento de editores e colaboradores &#8211; &#8220;piratas anônimos encastelados da academia&#8221;, como já fomos batizados uma vez. Sem muita curva, os editoriais das primeiras duas edições falam bem melhor sobre isso do que eu poderia escrever. De resto, aquele forte abraço para os aldeotinos que levaram pro pessoal. Sei lá, a vida é muito curta pra ter rancor, sabe?)</em></p>
<p><em>Como diz minha companheira, que também figurava no núcleo editorial do projeto, &#8220;perdeu a graça quando a coisa toda virou piada&#8221;. Daquilo tudo, fica um sorriso bobo ao revisitar arquivos antigos e constatar o quanto experimentamos os diversos sabores da linguagem em perfis, artigos, ensaios e ilustrações. Ficam as memórias dos almoços em conjunto, elaborando pautas, anunciando textos e editando cada nova edição, tudo muito regado a frango à cabidela com as gargalhadas que escuto até hoje, quando lembro que não preciso levar nada na vida tão a sério.&#8221;</em></p>
</div>
<p><strong>– Yuri Leonardo, turma de 2007.1 &#8211; sobre a Aerolândia</strong></p>
</div>
<p><span style="line-height: 1.5em;"> </span></p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>A cidade que se escuta</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Jul 2015 13:46:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Flávia Castelo]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Cidade]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; Era agosto de um ano passado, meio dia. Eu estava entre uma aula e uma reunião, quando o cruzamento das ruas Júlia Siqueira e Nunes Valente me chamou a <a class="read-more" href="https://apulga.com/a-cidade-que-se-escuta/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/07/flavinha-pulga2.jpg"><img class="size-full wp-image-1612 aligncenter" alt="flavinha pulga2" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/07/flavinha-pulga2.jpg" width="390" height="538" /></a></p>
<p>Era agosto de um ano passado, meio dia. Eu estava entre uma aula e uma reunião, quando o cruzamento das ruas Júlia Siqueira e Nunes Valente me chamou a atenção. Mais de perto, consegui ler o que estava escrito no chão: “que seja eterno”. Meu coração pulou! Fui levada a ‘Frisson’, de ‘Suave Veneno’, e, como um amigo que mora no meu coração (e também entre os rios Reno e Savena) costuma dizer, ‘escrevi com a luz’ e, depois, ‘claro’, postei no Instagram.</p>
<p>Dentre tudo o que gosto de fotografar (eu não disse que sei, eu disse que gosto), não há nada como os diálogos urbanos. O que a cidade nos assegreda. Seja através de conselhos anônimos enquanto o sinal não abre, grafites inusitados, sinalizações mal (ou melhor) interpretadas, pixações irreverentes ou até mesmo anúncios (re)cortados. Amo mesmo o que a cidade fala em silêncio. Ou, alguém poderia dizer, “ela ama o que ‘escuta’”.</p>
<p>Enfim, a pé, de bicicleta, ônibus, trem ou carro, quando consigo, paro, pego meu telefone e ‘click’. Muita coisa passa sem o registro da lente, mas fica guardado. Exato, na mente. E ainda escrevo sobre cada uma delas.</p>
<p>No fim daquele dia, percebi que chegavam mensagens da mãe de uma amiga que estava morando onde se fala o castelhano mais puro da Espanha. Eram notificações do inbox do Facebook. Pensei ‘Oba! Notícias do velho mundo’. Mas, “Oi belíssima, em qual rua estava escrito no asfalto ‘que seja eterno’? Quem escreveu?”, foi o que li.</p>
<p>Sempre fiquei imaginando a história por trás do que as ruas falam. Gritos nos muros, declarações nos asfaltos. Eles não aparecem num passe de mágica. Por mais mágico que tudo pareça. “Acho que sei a história da foto&#8230;.vou checar&#8230;”, foi a última mensagem que recebi. E que me deixou na expectativa por uma semana. Afinal, pela primeira vez, eu saberia o começo, não ficaria só com o fim. E é tão emocionante ligar os pontos.</p>
<p>O que chegou na minha caixa de entrada depois da espera? Fotos de uma jovem, trechos de poesias e uma história, mais ou menos assim: Um médico da minha família, casado há 35 anos, se apaixonou perdidamente. Por quem? Por uma menina 42 anos mais nova do que ele. A paixão inspirou o homem e ele lançou um livro de poesias. Todas dedicadas a ela – que tinha idade para ser neta. Fui ao lançamento. A menina estava lá. Belíssima. E a mulher dele também. Mal humorada, naturalmente. Acho até que no dia seguinte, ainda mais, afinal, ele encheu o Facebook com fotos da pequena. Dentre as poesias, tinha uma que citava uma frase que ele escrevera na &#8216;calçada dela&#8217;: &#8216;que seja eterno&#8217;.</p>
<p>Connecting the dots! I love it! Como disse, sempre perdi (???) tempo pensando na história atrás da história. E agora que sei esta (e outras poucas), vou continuar com os registros e ligando os pontos, nem que seja com a minha imaginação. Afinal, no ‘jogo das cidades’, mais que em ‘jogos’ como este, ‘de papel’, a cada novo jogador, um novo ponto surpreende.</p>
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