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	<title>A Pulga &#187; Destaque</title>
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	<description>Um coletivo diletante de ideias</description>
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		<title>Das Ding</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Aug 2023 03:54:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; O local preciso era 14 paradas após a estação de metrô mais longínqua na qual eu já havia posto os pés. Por outro caminho, pegávamos a condução em frente <a class="read-more" href="https://apulga.com/das-ding/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2023/08/Das-Ding2.jpeg"><img class="alignnone size-full wp-image-2025" alt="Das Ding2" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2023/08/Das-Ding2.jpeg" width="768" height="1024" /></a></p>
<p>O local preciso era 14 paradas após a estação de metrô mais longínqua na qual eu já havia posto os pés. Por outro caminho, pegávamos a condução em frente a universidade, descíamos 2 paradas depois para então pegar outro ônibus, percorrer mais 11 paradas e finalmente chegar àquele ponto onde ainda restavam mais 14 até o destino final. Repito: era o lugar mais distante em que havia estado e aquilo me atingiu de diversas maneiras. Era o outro ateando fogo ao conhecido que havia em mim.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> O que a gente faz para se despedir quando não parece ser possível se despedir completamente? A gente viaja. Vai rumo a deixar algo, mas cuja jornada acaba impregnando o mensageiro daquilo que ele iria entregar. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Se esse texto fosse um mapa colocaria uma marcação naquela coordenada que foi das grandes fronteiras do meu enfrentamento. Há um desenho animado antigo chamado Cavalo de Fogo (Wildfire, 1986), nele uma menina cruza um portal dimensional para um mundo ao qual ela pertence e que, ao mesmo tempo, lhe é estranho. Uma relação fantasiosa entre um rancho em Montana, no oeste norte-americano, e o planeta Dar-Shan. Uma parte do que ela é está em cada lugar. Referência que pego emprestada como uma espécie de caricatura do idílio, da travessia abrupta, daquilo que de maneira infantil nos toma. Acho mesmo que a gente passa boa parte da vida procurando em uma paisagem e em algo externo a representação do que somos em uma fração muito íntima da nossa psiquê. Ocorre que, algumas vezes, é uma pessoa quem nos apresenta essa paisagem externa que nos endereça a esse destino interno. Como se alguém nos convidasse a esse caminho.</p>
<p>É um oximoro. Um paradoxo. O que está fora e ao mesmo tempo mora dentro. “Rua Leonor/Rua Semente”, eu escutava no segundo andar do ônibus enquanto percorria aquelas 14 paradas que eram o trajeto que tanto me acolhia como me provocava. E esse dilema me tomou de assalto porque simplesmente aquela paisagem era um imã de polos opostos. Quanto mais eu queria largá-la, mas ela fincava uma raiz dentro de mim. Em síntese, é percurso que enseja uma pergunta: O que a gente faz para se despedir quando não parece ser possível se despedir completamente? A resposta é: a gente viaja. E viaja como quem tenta, parte em uma missão. Vai rumo a deixar algo, mas cuja jornada acaba impregnando o mensageiro daquilo que ele iria entregar.</p>
<p>“Tão Forte e Tão Perto” (Extremely Loud &amp; Incredibly Close, 2011), adaptado do romance Extremamente Alto &amp; Incrivelmente Perto de Jonathan Safran Foe é uma espécie de petardo da Sessão da Tarde sobre esse tipo de Odisseia íntima. No filme um menino escuta do pai uma história sobre o 6º Distrito, uma parte perdida de Nova Iorque cuja ideia serve de bússola para a procura de um lugar imaginário. É uma relação preenchida de histórias, com uma linguagem própria. Diante das dificuldades do filho em se relacionar, o pai criava um jogo para fazê-lo mover-se e ir, ao seu jeito, enfrentando seus medos. É o preâmbulo do enredo que, de fato, começa com a morte do joalheiro Thomas Schell e segue pela expedição que o pequeno Oskar empreende na tentativa de achar o dono para uma chave encontrada nas coisas de seu pai.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Eis o paradoxo do filme e daquilo que nos afeta. É sentir falta de algo quando o objetivo era justo não sentir.  Trata-se de um estranho percurso em que a gente se transmuta na tentativa de abandonar o que nos constituí. É sobre um movimento. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>A busca pelo destinatário desconhecido é um exercício que faz Oskar revisitar a cidade além dos muros, como Thomas sempre quis. O menino saí cruzando muitas fronteiras que vão se refletindo umas nas outras, como se olhássemos os espelhos em forma de triângulo no fundo de um caleidoscópio. Percorre os bairros além de Manhattan, atravessando a memória de quem ele próprio era ao lado do pai. São partes de si que vão se transformando pela jornada sem, no entanto, mudarem completamente. Dentro e fora. O oximoro. O caminho para viver seu próprio luto.</p>
<p>Podia ser a jornada bíblica de Tobias para encontrar a cura de Tobit ou alguma missão de Zeus dada a um herói grego. O recurso é antiquíssimo. O 6º Distrito, a chave ou o que mais puder tomar a imagem de algo a ser encontrado e devolvido ao seu lugar. Na verdade, essa “coisa” (das ding, diria Freud) é o sentimento fora de um espaço que lhe caiba. É preciso gastar certa energia na tentativa de, finalmente, devolver-lhe um sentido, restaurá-la. A coisa, tal como o choro que acalma. Na sua expedição de reconhecimento, ao cruzar diversas fronteiras, Oskar Schell diz: “Eu estava me aproximando do meu pai. Eu estava perdendo-o”. Touché!</p>
<p>Eis o paradoxo do filme e daquilo que nos afeta. É sentir falta de algo quando o objetivo era justo não sentir. Recordo o quanto já gastei de palavras no exercício de racionalizar. Não se trata de um não-lugar, do espaço da barganha. Tampouco é o passado visto da perspectiva de quem hoje compreende e aceita que não há mais afeto. Não sendo sobre o lugar e nem sobre o tempo, trata-se de um estranho percurso em que a gente se transmuta na tentativa de abandonar parte do que nos constituí. É sobre um movimento. Mas, suspeito que essa seja uma jornada impossível, visto que há algo em nós que não pode ser descolado, apenas deixa de estar fora para encontrar um pouso dentro. Contudo, após o trajeto, muda-se algo de substancial, como o estado físico de uma matéria. O gelo, o vapor e a água. Outro peso, forma, temperatura e pressão – ainda que com a mesma essência.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> E qualquer elaboração da perda passa por esse sequestro de um traço que era do outro e que você incorpora no eu. Mas aí há essa dialética. Era do outro, mas já era eu. Já era. Porque se a gente é ser com. Você só se apropriou de algo que já era teu e que você tinha se apoiado nesse outro por conta desse traço. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Isto porque as despedidas todas revelam algo que há em nós. E se esse texto é sobre o que se deixa, o percurso para decantar sentimentos, é preciso antes compreender como eles se formam. O porquê de ser impossível deixar algumas coisas por completo. Talvez das melhores explicações para essa impossibilidade, em sua plenitude, eu tenha escutado pelas palavras da psicanalista Maria Homem. Ao falar sobre o assunto, ela volta ao que une para, então, arrematar a partida: “Já percebeu que você termina uma relação e muitas vezes começa a fazer uma coisa que o outro fazia? Ou começa a fazer algo que você achava que nem gostava, mas que o outro queria que você fizesse? Você começa a fazer ginástica, começa a nadar, vai aprender uma língua, muda um estilo”.</p>
<p>Ao lado das perguntas, Maria Homem enceta uma resposta que me pareceu fechar um ciclo de inquietudes: “E depois de muito tempo você começa a se dar conta de que você carrega um traço que era do outro. É muito comum. Você aprende uma forma de falar, pega uma expressão que era do outro, vai cumprir um desejo inacabado do outro. Ele deixou uma música, era seu parceiro e você vai terminar de compor aquela música, vai escrever um livro de memória, vai pintar um quadro&#8230; Você vai elaborar aquela perda”. Nesse apanhado de frases, em uma costura que é própria da sua fala, a psicanalista revela essa espécie de sintoma que é a nossa busca por percorrer um caminho que tanto nos preenche como no tira algo.</p>
<p>É nesse exato momento que Maria Homem mata a charada ao enunciar: “E qualquer elaboração da perda passa por esse sequestro de um traço que era do outro e que você incorpora no eu. Mas aí há essa dialética. Era do outro, mas já era eu. Já era. Porque se a gente é “ser com”, você só se apropriou de algo que já era teu e que você tinha se apoiado nesse outro por conta desse traço. Você já tinha se apaixonado, por exemplo, por esse homem porque ele já era do universo da arte, que era teu, que você desejava e que você nunca se autorizou. E quando você perde isso, então você assume esse lado, desenvolve esse lado, mesmo tendo perdido o objeto. Então, na verdade, o que é a morte, o luto e a perda? São as várias faces das metamorfoses do eu. Grandes metamorfoses o tempo inteiro, a gente vai comendo, deglutindo e sendo outra coisa.”</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> É uma tentativa de aparta-se de algo visceral, de algum sentido que nos constitui. A figura do pai, um grande amor, a ideia de uma terra encantada&#8230;  É justo o exercício de desprender-se que acaba por nos revelar algo.  </strong><strong></div></strong></h3>
<p>É o “estar com”, o mit sein, como diz o filósofo alemão Peter Sloterdijk, que a psicanalista revela. Por isso, nunca conseguimos nos despedir de algo que em parte está em nós. Mais uma vez estamos diante de um oxímoro. Contudo, mais do que um exercício narcísico, há muito de poesia nesse movimento de nos reconhecermos em algo ou em alguém para depois nos vermos sendo esvaziados desse sentido original, justamente quanto o mais procuramos preenchê-lo. É porque talvez (apenas talvez) o luto se realize ao vermos que está dentro o que procurávamos fora. Conheço uma história de quem detestava cafés e fez um blog sobre o tema para servir de diário à sua jornada. Noutro caso, um fanzine foi artefato da despedida. Definido lindamente como “um retrato 3&#215;4 da alma”, a brochura caseira era o artifício do que precisava ser entendido. Movimentos para gastar o que só pode ser enterrado anos depois. Ao fim, é o menino Oskar Schell descobrindo que conseguia explorar a geografia de uma cidade e os seus próprios limites sem o pai.</p>
<p>É uma tentativa de aparta-se de algo visceral, de algum sentido que nos constitui. A figura do pai, um grande amor, a ideia de uma terra encantada&#8230; Mas como isso está cravado no que se é, tal tentativa tem lá sua faceta quixotesca. Novamente, a viagem para deixar e ao mesmo tempo encontrar algo. É justo o exercício de desprender-se que acaba por nos revelar algo. E quantos anos não se demora nessa estrada? Lembro de um dia, no entardecer defronte a uma janela naquele ponto mais longínquo, pensar que meus passos eram muito válidos, que eu só precisava de mais tempo para estar ali. Talvez fosse o início da Aurora, como escreve Paulo Mendes Campos.</p>
<p>É curioso que ao finalizar este texto sobre “despedidas”, em meio a uma conversa fortuita, eu receba um fragmento escrito assim “Fiquei triste um certo dia quando soube que até as estrelas morrem. Mas, desta vez, não foi a poesia que me consolou&#8230;” Um paragrafo vindo assim, por mensagem, num diálogo na madrugada.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Esse reconhecimento de quem se é, da própria história e do desejo que já existia antes de você encontrar o outro é justo o que lhe é “devolvido” ao fim da jornada de despedida. Gorgeous and alone. Face to face, como num solo do Nels Cline.  </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Sempre tive medo de me despedir, gastei tanto o tempo das coisas que algumas vezes me veio outro temor: o de que as palavras perdessem a força. Hoje entendo que é isso mesmo. Deixar ir leva tempo. É uma morte morrida e não matada. Enfraquece a memória porque algo novo é que vai ganhando vida. A viagem é, enfim, o ato de consumir. Só depois é possível compreender o novo. Por isso, também precisei exaurir alguns sentimentos. E também por isso, repito, este texto é sobre o movimento entre o espanto de ver-se apartado do futuro e o sentimento de quando já nos transformamos e não há mais lamento.</p>
<p>Na viagem que me dispus a fazer reconheci esquinas, percorri o caminho inteiro olhando todos os detalhes, me atentei aos letreiros, escutei os sons, pus os pés na grama, respirei tentando capturar o cheiro de éter e páprica, travei um diálogo insólito com uma senhora que desenhava sozinha pelas ruas. Exauri o que pude para então reconhecer que apenas precisei de um pouco mais de tempo para chegar até ali. Esse reconhecimento de quem se é, da própria história e do desejo que já existia antes de você encontrar o outro é justo o que lhe é “devolvido” ao fim da jornada de despedida. É uma parte sua que se revela inconteste e por isso mesmo não pode ser abandonada completamente. “Gorgeous and alone. Face to face”, como num solo do Nels Cline.</p>
<p>Seja como for, acho que vou dizendo um adeus fraco, agora ou depois. Quando estiver comendo um falafel do Zaim, ainda me lembrarei do que foi. Caminho feito, o passado não é mais. Muda devagar e sempre, o tempo todo, tal qual nós mesmos.</p>
<p>Uma charada in looping. “Finitude e eternidade não precisam ser antágonos”, sentencia minha interlocutora da madrugada. Ela que também escreveu sobre potes de vidros, armários antigos, espiãs russas, bicicletas azuis e uma série de fragmentos rotineiros de uma vida que já é outra. O oximoro. Na memória o aviso: &#8220;Rua Leonor/Rua semente&#8221;, o som que hoje escuto de outra forma dentro de mim.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Groucho Marx e o amor de si</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Jan 2022 23:28:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;Amor é dado de graça. É semeado no vento. Na cachoeira, no eclipse&#8230;&#8221;. Assim Carlos Drummond de Andrade alinhava um dos poemas mais bonitos da literatura brasileira. Se não fosse <a class="read-more" href="https://apulga.com/groucho-marx-e-o-amor-de-si/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2022/01/Groucho3.png"><img class="alignnone size-full wp-image-2018" alt="Groucho3" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2022/01/Groucho3.png" width="400" height="300" /></a></p>
<p>&#8220;Amor é dado de graça. É semeado no vento. Na cachoeira, no eclipse&#8230;&#8221;. Assim Carlos Drummond de Andrade alinhava um dos poemas mais bonitos da literatura brasileira. Se não fosse belo pelas palavras, seria pela maneira delicada de dizer uma verdade muito dura: o amor é escolha. Por mais que nos esforcemos para merecê-lo, não há peripécia, adorno ou mesmo imolação que consiga nos dar aquilo que também é atributo do outro; o gesto de nos escolher por aquilo que somos.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É isto: amamos pelo que o outro diz de nós, por aquilo que nele nos cala e, nesse sentido, não há esforço que molde esse intangível encontro. Digo que a dedicação só se sustenta porque algo nesse sentimento de encaixe se atualiza. “A gente se escolhe”. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>É isto: amamos pelo que o outro diz de nós, por aquilo que nele nos cala e, nesse sentido, não há esforço que molde esse intangível encontro. É claro, a maturidade nos mostra que só se sobrevive àquilo que se constrói a partir desse encontro. Mas meu ponto aqui não é o da pertinência, do tempo e daquilo que vai se urdindo a partir desse encontro. É precisamente o contrário. Digo que a dedicação só se sustenta porque algo nesse sentimento de encaixe se atualiza. “A gente se escolhe” é uma frase que minha comadre me repete há anos com uma precisão cirúrgica a selar esse dilema.</p>
<p>E o que nos faz continuar escolhendo algo ou alguém? Como se diz na homilia católica, “eis o mistério da fé”. Ou desejo é falta, diria Freud. Podemos procurar explicações mil, mas a questão aqui é precisar o quanto dessa escolha é da conta do outro, e não nossa. Repito: não há esforço que molde esse intangível encontro.</p>
<p>Se isso serve para entendermos nossas paixões (e nos libertarmos, caso alguém não nos escolha mais), ver essa constatação pelo espelho é algo que nos impõe um olhar agudo sobre nós mesmos. Woody Allen, no enredo que certamente é o precursor de nove entre dez comédias românticas citadas aqui como exemplo, coloca essa questão em Annie Hall (1977): “Não quero entrar pra nenhum clube que aceite alguém como eu como sócio”. A frase de Groucho Marx dita por Allen atualiza o humor judaico para expor a ironia de que, quando alguém nos aceita como somos, talvez algo de errado haja aí, algo que nos faça perder o interesse porque justamente a falta é (supostamente) preenchida.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">“Não quero entrar pra nenhum clube que aceite alguém como eu como sócio”. A frase de Groucho Marx dita por Allen atualiza o humor judaico para expor a ironia de que, quando alguém nos aceita como somos, talvez algo de errado haja aí, algo que nos faça perder o interesse porque justamente a falta é preenchida.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Essa referência me fez lembrar de um causo corriqueiro, mas bem ilustrativo. Loli, minha professora de alemão, ao me ajudar a procurar uma editora para minha tese e ao esbarrar com uma em relação à qual não viu defeitos aparentes, saiu-me com esta: “Grazinha, vamos procurar mais, porque está tudo muito bem, então, deve ter algo errado”. Essa história até hoje me traz boas risadas por múltiplos motivos, mas aqui vou pegar o fio da “inadequação” para descer um ponto a mais na ferida do ego. Saio do encontro com o outro (a editora, o amor, o filme etc.) e vou para o encontro com o eu.</p>
<p>É esse o tema que tem me pegado em rodeios como no nariz de cera que escrevi até aqui. Em específico, a falta que sentimos que nos faz tanto desejar como repelir algo – não no outro, mas algo em nós mesmos. Com o que é possível nos reconciliarmos a partir do que já vivemos e o que não pode prescindir de ainda ser vivido? Não sei se existe resposta fácil para essas questões. Suspeito que elas vão variar de acordo com o tempo histórico e com o nosso próprio tempo de vida, mas há algo nesse dilema que me intriga e foge um bocado às experiências para centrar-se em algo mais essencial.</p>
<p>Talvez possa dizer de forma mais precisa: e quando sentimos falta de nós e por isso “precisamos” nos escolher? E se cantássemos para nós mesmos o trecho “Olha, você tem todas as coisas/ Que um dia eu sonhei pra mim/ A cabeça cheia de problemas/ Não me importa, eu gosto mesmo assim&#8221;? É piegas e bobo, eu sei, um chavão. Ocorre que essa banalidade nos faz descer mais um degrau no argumento, indo a uma espécie de necessidade de aceitação dos nos próprios defeitos para seguir adiante em nossa escolha e aceitação do que somos. Um amor de si gabola que nos corrigi o rumo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Com o que é possível nos reconciliarmos a partir do que já vivemos e o que não pode prescindir de ainda ser vivido? Não sei se existe resposta fácil para essas questões. Suspeito que elas vão variar de acordo com o tempo histórico e com o nosso próprio tempo de vida, mas há algo nesse dilema que me intriga e foge um bocado às experiências para centrar-se em algo mais essencial.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>É como visualizar Groucho Marx sendo enquadrado por sua mãe judia em um discurso de quem tanto fez para lhe dar a luz e hoje não recebe nada em troca. O velho Groucho, diante de drama maior, haveria de pôr a ironia de lado e lustrar o próprio ego para fornecer uma significativa cota de orgulho e atenção à sua progenitora. É como ver meu afilhado, na galhardia dos seus 5 anos, exibindo-se com embaixadinhas para um grupo de crianças mais velhas. Destemido, olhava para a turma e dizia, entre pequenos chutes: “Olha o que eu seu fazer”. Deu certo, enturmou-se. Mas, no fundo, ele fazia mesmo era o malabarismo para si, em um misto de personalidade bem-resolvida, destemor infantil e, sobretudo, aceitação irreverente das suas habilidades meio falhas e meio atrevidas. “Uma pirueta, duas piruetas/ Bravo, bravo/ Super piruetas, ultrapiruetas/ Bravo, bravo/ Salta sobre a arquibancada e tomba de nariz/ Que a moçada vai pedir bis/ Que a moçada vai pedir bis”.</p>
<p>Muito antes de saber da existência de Groucho Marx, Didi Mocó fez esses malabares durante toda a minha infância e, confesso, sempre preferi os filmes e esquetes em que ele se dava bem no final àqueles em que saía triste tal qual o Carlito, alijado por algum galã. Vejo muito mais graça no Didi fantasiado de Maria Bethânia com o coração transbordando de pretendentes ao errante e preocupado Bonga de “Os Vagabundos Trapalhões” (1982). É como se Pedro Malasartes fosse a antítese de Groucho Marx. Sem ter muito em que se sustentar, para o astuto Pedro não havia espaço para ironias autodepreciativas, mesmo que cheias de charme.</p>
<p>Aliás, passei a infância escutando minha avó me falar das aventuras do Malasartes, uma espécie de MacGyver do sertão, a léguas de distância de qualquer Cinderela encantada. Eram histórias de um pobre coitado que, com um saco, três pedras, um graveto e muita esperteza conseguia quebrar o encanto da princesa, vencer o desafio do rei e ganhar seu quinhão no reino. Ah, os descendentes de Lazarillo de Tormes! Não à toa meu coração disparou ao ver João Grilo, do genial Ariano Suassuna, com seus causos sobre a cachorra que havia deixado um testamento, o gato que &#8220;descomia&#8221; dinheiro e a gaita mágica que ressuscitava gente. O Grilo enganou o padre e o bispo, o padeiro e sua mulher, o cangaceiro chefe do bando e, não contente com a façanha, diante do diabo, não usou de autocomiseração boba. Como ele mesmo anunciou, de besta só tinha a cara, e se saiu com um trunfo maior do que qualquer santo, apelando à Nossa Senhora, a Compadecida.</p>
<p>Um detalhe que vale menção é que Grilo faz seu chamamento sem solenidades e com um verso para lá de maroto: “Já fui barco, fui navio/ Mas hoje sou escaler/ Já fui menino, fui homem/ Só me falta ser mulher/ Valha-me Nossa Senhora/ Mãe de Deus de Nazaré”. É como ele mesmo diz: a mãe da Justiça, a lhe acudir, sabendo exatamente a peça que o Grilo é. Mas, antes, foi ele próprio quem não desistiu de si mesmo diante de todas as suas imperfeições e, muito provavelmente, até por elas. Queria estar no clube, era tudo o que ele tinha. Em uma análise psicanalítica de botequim, o Grilo havia escolhido a si próprio. Podia ensinar a Drummond o avesso do seu poema: &#8220;Amor é dado de graça. É semeado no vento. Na cachoeira, no eclipse&#8230;&#8221; o Grilo amou-se, sabe Deus (ou Nossa Senhora) o porquê. Mas é fato que, de alguma forma, supriu a própria falta reconciliado que estava consigo, com o que havia de bom e ruim.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Mas, antes, foi ele próprio quem não desistiu de si mesmo diante de todas as suas imperfeições e, muito provavelmente, até por elas. Queria estar no clube, era tudo o que ele tinha. Em uma análise psicanalítica de botequim, o Grilo havia escolhido a si próprio. Podia ensinar a Drummond o avesso do seu poema: &#8220;Amor é dado de graça. É semeado no vento. Na cachoeira, no eclipse&#8230;&#8221; o Grilo amou-se. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Eu volto a pensar nisso, como se houvesse solução para esse mistério contínuo do movimento de quando somos gentis conosco e quando nos torturamos. Penso que talvez uma arenga bem dosada nos sirva de medida, já que ela nos provoca, mas também nos acaricia com um humor necessário à vida. A chave me parece ser mesmo querer fazer parte do clube. Mesmo que ele não exista de fato, há algo que se sobressai naqueles que, enfim, fazem essa escolha. Acho que é um pulo não apenas por escapar, mas sobretudo por viver. “A esperteza é a arma do pobre”, diz a Compadecida diante dos pecados do Grilo.</p>
<p>Há alguns anos tive o privilégio de entrevistar Ariano Suassuna e lhe perguntei justamente sobre o encantamento e essa salvação pela astúcia. Ele me respondeu: “Sou uma pessoa que, com 80 anos de idade, ainda continuo animoso”. Por isso, sua literatura tinha esses personagens que enfrentam o real com uma espécie de galope mágico. Suassuna perdeu o pai assassinado ainda criança e viu sua mãe esconder o paradeiro do assassino para evitar que um rastilho de vingança destruísse a vida dos filhos. Foi compreender isso adulto. Dizia-se um homem assombrado até que sua esposa Zélia lhe aliviou o coração. Quando a conheceu, gaiato como ele só, Ariano disse a sua irmã Germana: “Hoje, na Rua Nova, uma galeguinha maravilhosa, linda, olhou pra mim com cara de alma que tá pedindo reza”. Ariano teve uma sorte imensa por Zélia ter lhe escolhido, dessa sorte dita por Drummond, que é do outro para conosco. Mas, acho que em algum momento ele mesmo escolheu a si mesmo como um ser animoso que era.</p>
<p>Nem sempre é possível seguir em frente pondo os pés sobre um alicerce imperfeito. Há pendências que precisam ser resolvidas para que não retornem sempre numa sabotagem cada vez maior, é fato. Mas também há uma hora em que a gente deve se escolher como escolhe o outro que enuncia nossas faltas e nosso desejo. Talvez por isso mesmo demos esse passo quando entendemos o que de nós pode ser aceito mesmo que nos doa. “Quatro cambalhotas, cinco cambalhotas/ Bravo, bravo/ Arquicambalhotas, hipercambalhotas/ Bravo, bravo/ Rompe a lona, beija as nuvens, tomba de nariz/ Que os jovens vão pedir bis/ Que os jovens vão pedir bis”. Salve o Grilo Saltimbanco Malasartes!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>O que você vai fazer com a sua dor?</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Jun 2021 17:41:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Laécio Ricardo]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; Este texto era para ser uma homenagem, algo com força de tributo e gratidão. Mas como o combustível que o impulsionou foi uma mescla de tristeza, raiva e impotência, <a class="read-more" href="https://apulga.com/o-que-voce-vai-fazer-com-a-sua-dor/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1996" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2021/06/Stardust-dor-enviar2.jpg"><img class="size-full wp-image-1996" alt="Foto: Eduardo Rocha" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2021/06/Stardust-dor-enviar2.jpg" width="640" height="617" /></a><p class="wp-caption-text">Foto: Eduardo Rocha</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este texto era para ser uma homenagem, algo com força de tributo e gratidão. Mas como o combustível que o impulsionou foi uma mescla de tristeza, raiva e impotência, ele resultou em uma espécie de confissão que expressa minha perplexidade com o drama que enfrentamos desde março de 2020, quando fomos alarmados com o viés insidioso e o ritmo de contaminação da suposta “gripezinha” e mergulhamos num abismo que parece não ter fim. Em poucas semanas, o mundo e a sociabilidade que conhecíamos foram interditados; e numa mudança súbita, livre de ensaios, tivemos que nos adaptar ao home office, aos remédios contra insônia e ansiedade, às máscaras e borrifadores de álcool, ao confinamento, à gestão da vida pelos smartphones.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">O que você, leitor, vai fazer com a sua dor? Ou não existe angústia no seu peito, pesar nos seus dias e aflição nas suas noites?! Duvido muito. Quando um país atinge uma cifra tão expressiva, apesar de tristíssima, penso que a imensa maioria dos seus indivíduos foram, de algum modo, alvejados direta ou indiretamente por tais números.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Passados 15 meses dessa distopia chamada covid-19, e com o número de óbitos no Brasil chegando à casa das 470 mil vítimas fatais, sem nenhum indicativo claro que sugira o final desta contabilidade fúnebre, lanço aqui a pergunta que intitula este texto: o que você, leitor, vai fazer com a sua dor? Ou não existe angústia no seu peito, pesar nos seus dias e aflição nas suas noites?! Duvido muito. Quando um país atinge uma cifra tão expressiva, apesar de tristíssima, penso que a imensa maioria dos seus indivíduos foram, de algum modo, alvejados direta ou indiretamente por tais números. Posso ser mais franco: desconheço hoje, no meu círculo de amigos, alguém que não tenha tido, na sua família ou entorno próximo, um parente ou pessoa querida que faleceu ou agonizou em leito hospitalar em decorrência da pandemia. Se você não se encaixa na descrição, não comemore o privilégio; é bem provável que, em breve, você ingresse no clube. E não se trata de profecia agourenta: com a vacinação em ritmo lento e a contaminação fora de controle, não há alternativa ou feitiçaria que promova uma blindagem.</p>
<p>Mas me permitam assumir a primeira pessoa, como é de praxe nos meus textos, uma vez que perdi o apreço pela escrita formal e distanciada há anos. Para expressar minha relação com a pandemia, eu precisaria de um espaço bem mais amplo do que este reservado à minha coluna – talvez um podcast com horas de duração. Na impossibilidade de me envolver com tal projeto, adotemos o teclado e as palavras como aliados. Tive um 2020 duríssimo: uma suspeita de contaminação que me deixou sequelas prolongadas (picos de ansiedade frequentes, uma quinzena de forte insônia, dificuldades alimentares), o cancelamento de um pós-doutorado almejado há anos, uma queda de braço com companhias aéreas e aeroportos para conseguir minha repatriação, e a admissão daquilo que durante anos eu hesitara em encarar – minha vulnerabilidade.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Fragilidade e vulnerabilidade, eis duas palavras que têm nos confrontado nesta pandemia. Um enfrentamento nada fácil. O lado positivo é que o ser humano parece descobrir, quando está prestes a tocar a superfície do abismo, outro binômio importante – resistência e resiliência.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O pano de fundo desse pesadelo vivido de forma solitária era, evidentemente, a covid-19 e as notícias sobre a pandemia veiculadas continuamente, numa espécie de looping perverso. Numa situação como esta, de evidente fragilidade, o excesso de informação e a contundência dos fatos divulgados apenas aceleram a abertura do cadafalso. Fragilidade e vulnerabilidade, eis duas palavras que têm nos confrontado nesta pandemia. Um enfrentamento nada fácil. O lado positivo é que o ser humano parece descobrir, quando está prestes a tocar a superfície do abismo, outro binômio importante – resistência e resiliência.  Voltei, pois, ao Brasil. Claro, sem achar que findaram os meus (e os nossos!) problemas. Sim, não se encerraram.</p>
<p>Na verdade, de um ponto de vista pessoal, celebro minha recuperação e acho que consegui administrar meus temores; mas quando penso no drama social que temos enfrentado, e que se aprofunda em 2021, sinto um misto de cansaço, esgotamento, irritação, dor. Sim, dor e empatia. Afinal, como encarar a cifra das 450 mil vítimas fatais e tocar o dia como se nada estivesse a ocorrer, como se fosse um problema deles, dos mortos, e não nosso?! Impossível. Aderir a certo torpor para prosseguir, é compreensível; diria até que é necessário para não sermos tragados pela tristeza e pela ansiedade. Mas não se comover com números tão alarmantes, não manifestar empatia pelo sofrimento dos pacientes e pela dor dos familiares e amigos, é de uma crueldade intraduzível&#8230;</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Fragilidade e vulnerabilidade, eis duas palavras que têm nos confrontado nesta pandemia. Um enfrentamento nada fácil. O lado positivo é que o ser humano parece descobrir, quando está prestes a tocar a superfície do abismo, outro binômio importante – resistência e resiliência.</strong><strong></div></strong></h3>
<p><strong> </strong>Quando o cientista Atila Iamarino, ainda no primeiro semestre de 2020, apresentou um estudo nos alertando para o risco da pandemia provocar a morte de até um milhão de brasileiros, caso nenhum planejamento efetivo e medidas de contenção fossem adotados previamente, muitos consideraram a divulgação excessivamente alarmista. Talvez estivessem seduzidos pelo desdém com que o presidente da República se referia ao problema (uma gripezinha, uma chuva), no intuito de minimizar sua contundência. Hoje, quando novas ondas de contaminação já se avizinham, e com o Brasil e a Índia na condição de párias do mundo, é provável que parte dos incrédulos (não digo todos porque, em tempos de boçalidade explícita, parte do gado prefere manter sua fidelidade a reconhecer os erros) releia as anotações de Iamarino como um trabalho profético.</p>
<p>Fizemos tudo errado. Uso o plural porque é preciso ser inclusivo sobretudo no reconhecimento dos erros. Da parte do governo Federal, faltou tudo – planejamento para enfrentar a crise, compra antecipada de vacinas, respeito à ciência e às autoridades sanitárias credenciadas, humildade para admitir os equívocos. Da nossa parte, faltou solidariedade e compromisso com os protocolos de segurança – uso ostensivo de máscaras, higiene regular das mãos, maior confinamento no espaço doméstico e, consequentemente, não promover aglomerações.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Fizemos tudo errado. Uso o plural porque é preciso ser inclusivo sobretudo no reconhecimento dos erros. Da parte do governo Federal, faltou tudo &#8211; planejamento para enfrentar a crise, compra antecipada de vacinas, respeito à ciência e às autoridades sanitárias credenciadas&#8230;  Da nossa parte, faltou solidariedade e compromisso com os protocolos de segurança.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Sim, estamos todos cansados e ansiosos pelo retorno da vida social; afinal, cada dia de isolamento amplia uma espera já insuportável. Mas a desculpa (compreensível até!) da higiene mental não pode justificar condutas precipitadas e a baixa da guarda, sob o risco de prorrogarmos o quadro atual de modo indeterminado. E não adianta bradar que na sua residência todo mundo faz o “dever de casa”; estamos diante de uma tarefa que precisa ser abraçada coletivamente e de modo massivo. Do contrário, acumularemos novos fracassos. Em outros termos, precisamos convencer as partes resistentes sobre a importância de aderir a tal esforço. Não é fácil, não é agradável – do lado de lá, há cegueira e intransigência. Mas é preciso perder o pudor e partir para a abordagem verbal lúcida, consciente, ainda que não tenhamos garantia de vitórias. Mas vai que alguém acate a nossa orientação; será, no mínimo, mais um que se despe do manto da incredulidade e do negacionismo.</p>
<p>Estou quase finalizando o texto e volto a pensar nos 470 mil mortos; vidas que sofreram em isolamento, vítimas que não foram devidamente veladas ou pranteadas, lutos que não foram elaborados por familiares e amigos. Somos um país de tradição cristã e de ritos funerários consolidados há séculos. Tais ritos foram interditados de modo súbito, tendo em vista as orientações sanitárias. O que significa dizer que foram interrompidos sem que houvesse um “aviso-prévio” ou a adoção de práticas interinas. E tudo isso terá forte impacto.</p>
<p>Podemos não mensurar agora, mas a conta virá. Onde não há luto, eu insisto, não pode haver superação da perda e o restabelecimento do fio da vida por parte dos que permanecem vivos. No limite, sempre haverá a lembrança de uma despedida impossibilitada, de um choro não partilhado, de um abraço não distribuído. Aqui devolvo para você a pergunta que dá título ao texto: o que você vai fazer com a sua dor? Vai administrá-la de modo solitário e sufocá-la num soluço ou vai canalizá-la em ação, de modo a contribuir com os esforços demandados pelo presente?</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Onde não há luto, eu insisto, não pode haver superação da perda e o restabelecimento do fio da vida por parte dos que permanecem vivos. No limite, sempre haverá a lembrança de uma despedida impossibilitada, de um choro não partilhado, de um abraço não distribuído. Aqui devolvo para você a pergunta que dá título ao texto: O que você vai fazer com a sua dor?</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Disse no início que esse texto deveria ser uma homenagem, mas cedo desisti da tarefa. Não gostaria de concluir, porém, sem fazer referência ao homenageado, um ex-professor e amigo querido que, infelizmente, ingressou na contabilidade das vítimas fatais. Seu nome: Francisco Gilmar Cavalcante de Carvalho. Um pesquisador notável, dotado do mais generoso dos dons na minha opinião: ser capaz de identificar e de motivar novas vocações. Sou um exemplo claro, mas estou longe de ser o único. Comigo estão outras dezenas de vozes, todas elas gratas pelos contínuos incentivos do Gilmar&#8230; Seu falecimento provocou uma comoção em nossas redes sociais.</p>
<p>Declarações de afeto e doces memórias se multiplicaram em postagens tocantes. Foi o nosso consolo e a despedida possível&#8230; Mas ao declinar da missão de redigir um tributo, vislumbrei outra constatação: mesmo que tivesse ânimo para avançar na tarefa, ela seria insuficiente e insatisfatória. Penso que uma homenagem à altura somente seria possível se eu pedisse licença aos colegas para partilhar todas as postagens e assim compor um texto coletivo. Apenas esse mosaico afetivo, acredito, alcançaria a intensidade da sua presença em nossas vidas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Marx sempre esteve certo</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Apr 2020 20:29:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Naiana Rodrigues]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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		<category><![CDATA[Trabalho]]></category>

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		<description><![CDATA[Quem diria que precisaríamos viver uma pandemia, uma crise sanitária de alcance global, para olhar para a sociedade com mais cuidado e perceber que “tá tudo errado”. Consumismo, individualismo e <a class="read-more" href="https://apulga.com/marx-sempre-esteve-certo/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2020/04/marx-popart.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1940" alt="marx-popart" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2020/04/marx-popart.jpg" width="700" height="454" /></a></p>
<p>Quem diria que precisaríamos viver uma pandemia, uma crise sanitária de alcance global, para olhar para a sociedade com mais cuidado e perceber que “tá tudo errado”. Consumismo, individualismo e desigualdade de renda caíram na conta da negatividade social, pois eram situações com as quais já convivíamos e que se tornaram praticamente insuportáveis e abomináveis para muitos quando a morte por Covid-19 se tornou uma ameaça real e imediata. Por outro lado, esse mesmo temor direcionou os olhares para dimensões e instituições sociais que vinham em um processo de desgaste, de perda de credibilidade há tempos.</p>
<p>A ciência, o jornalismo e o trabalho compõem o que considero a tríade dos humilhados que se revelou essencial para manter a vida hoje, entendida aqui nos sentidos biológico e cultural. Cada elemento desse trio está envolto em uma miríade de sentidos contraditórios que se amalgamam à vida cotidiana em tempos de pandemia e isolamento social. Em razão da celebração do primeiro de maio, é interessante apontar a lupa da conscientização para o trabalho, pivô de embates com os quais nos deparamos na cobertura midiática, nas chamadas de vídeo com amigos e parentes, no supermercado, na farmácia e na portaria do prédio na hora de pegar o alimento comprado via aplicativo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Consumismo, individualismo e desigualdade caíram na conta da negatividade social, pois eram situações com as quais já convivíamos e que se tornaram insuportáveis quando a morte por Covid-19 se tornou uma ameaça.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O trabalho está em todos os lugares, não foi à toa, portanto, que Karl Marx e seus leitores, como György Lukács, enunciaram que o trabalho é o que dá sentido à vida do homem em sociedade. Para o velho barbudo e para os materialistas de plantão é pelo trabalho que o homem se diferencia dos demais seres vivos, pois através do trabalho, o homem transforma a realidade e essa transformação tem como objetivo garantir as condições materiais de existência e sobrevivência do próprio homem. Em resumo, o trabalho está no cerne da nossa própria definição de humanidade.</p>
<p>Os marxistas sempre defenderam a centralidade social do trabalho, até porque o trabalho é o que dá forma às mercadorias e serviços, sendo a peça-chave para a operação do sistema capitalista. Porém, por mais que eles tenham gritado a plenos pulmões que o trabalho importa, e muito, para a sanidade social, isso não impediu que o menino labor fosse humilhado pelo próprio sistema que dele depende. A tecnologia, a informação e o conhecimento já se insurgiram reclamando para si o posto de catalisadores da centralidade social. E conseguiram, a despeito de o trabalho estar sempre lá, dizendo que, sem ele, não há tecnologia, não há informação e nem conhecimento.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Para o velho barbudo e para os materialistas de plantão é pelo trabalho que o homem se diferencia dos demais seres vivos, pois através do trabalho, o homem transforma a realidade e essa transformação tem como objetivo garantir as condições materiais de existência e sobrevivência do próprio homem.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Da arena de disputas epistemológicas para o campo político, o trabalho se tornou um objeto da batalha discursiva que vem sendo travada em plena pandemia. Para o presidente da república, a defesa do trabalho virou sua plataforma de flexibilização do isolamento social. Quando o presidente diz: as pessoas precisam trabalhar! Ele deixa subentendido que não quer se responsabilizar pela geração de renda para a população que deve ficar em casa. A classe-que-vive-do-trabalho no Brasil, como diria o sociólogo Ricardo Antunes, é heterogênea em sua composição, mas homogênea em sua constituição precarizada. Portanto, ficar em casa para muitos desses trabalhadores significa perder a renda parcial ou totalmente e para outros sentir os efeitos deletérios da precarização.</p>
<p>A classe média composta por professores, servidores públicos, jornalistas e uma diversidade de profissionais que podem ficar em casa, sentem, muitos pela primeira vez, os efeitos contraditórios do trabalho em home office, da educação a distância, das reuniões por chamadas de vídeo, da cobrança por produtividade. A tal da tecnologia que tanto nos ajuda nas interações cotidianas também pode ser carrasca quando se alia a objetivos profanos. É o que experimentam esses trabalhadores, para quem a renda pode até não faltar, mas para os quais sobra a intensificação do trabalho com o aumento das horas trabalhadas ou o aumento da quantidade de atividades realizadas durante a jornada de trabalho.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Para o presidente da república, a defesa do trabalho virou sua plataforma de flexibilização do isolamento social. Quando o presidente diz: as pessoas precisam trabalhar! Ele deixa subentendido que não quer se responsabilizar pela geração de renda para a população que deve ficar em casa.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Em outra frente, há ainda os trabalhadores de plataformas, os famosos entregadores dos aplicativos e motoristas de uber, que continuam ziguezagueando nas ruas e desviando do vírus para garantir o sustento diário. Esses sim conhecem bem a cartilha da precarização, pois se submetem às empresas de plataforma que tentam fazê-los acreditar que estão se liberando do fardo de ser assalariados para se tornarem “homens-empresas”, indivíduos que governam suas vidas como se estivessem gerindo uma empresa. Mas, em vez de autonomia e prosperidade, esses trabalhadores de plataformas encontram sofrimento, servidão e, agora, o risco de contágio por coronavírus. Recentemente, essa situação foi bem exposta pelo programa do humorista Gregório Duvivier, em uma narrativa com toques de ironia e “comunismo” que destaca a crueldade das plataformas.</p>
<p>Frente todas essas circunstâncias, pode não fazer sentido a celebração do primeiro de maio. Mas o que o simbolismo da data nos remete é que não podemos perder de vista a centralidade social do trabalho. Quando as camadas de irrelevância da vida cotidiana começam a cair, o trabalho sobra no terreno da essencialidade. Mesmo que seu sentido remeta hegemonicamente a sofrimento, precarização e crise, sem ele, não há capitalismo nem sociedade. E somente com ele será possível reerguer o mundo em bases menos danosas e mais justas. Nos pós-apocalipse da pandemia, o que nos resta é o trabalho.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Quando as camadas de irrelevância da vida cotidiana começam a cair, o trabalho sobra no terreno da essencialidade. Mesmo que seu sentido remeta hegemonicamente a sofrimento, precarização e crise, sem ele, não há capitalismo nem sociedade.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Os sobreviventes terão, portanto, a árdua tarefa de forjar novos sentidos para o trabalho, desatrelando-o do consumismo, do individualismo e do espírito do capitalismo. E fortalecendo o significado ontológico do trabalho. Na prática, isso implica na assunção de que por meio do trabalho o indivíduo se conecta com a sociedade e que ele não pode se identificar com a empresa, estas que não podem mais lucrar indistintamente sobre a exploração da força de trabalho, força de trabalho humano essa que precisa do retorno das garantias sociais, extintas com as reformas trabalhistas. Garantias que, por sua vez, só serão asseguradas com a organização coletiva dos trabalhadores. Assim, um novo projeto de sociedade, quiçá de humanidade, pode se desenhar tendo como horizonte valores coletivos e solidários &#8211; comunistas, dirão muitos.</p>
<p>Afinal, antes mesmo da pandemia, o capitalismo, por meio da exploração, da precarização e da flexibilização do trabalho já vinha nos matando aos poucos. A sobrevivência material e social da humanidade, portanto, depende sim do trabalho e de como vamos defendê-lo e requalificá-lo, sem as firulas discursivas do mundo corporativo, mas com a certeza de que a emancipação do trabalho é a emancipação da vida como um todo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Foi bom, eu fingi que estava feliz</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Nov 2019 06:28:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Grilo Falante]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>

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		<description><![CDATA[Existe uma história ótima que ronda o meu círculo de amizades há anos. O filho mais velho da minha comadre era uma criança muito adulta. Quando levado àqueles playgrounds de <a class="read-more" href="https://apulga.com/foi-bom-eu-fingi-que-estava-feliz/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/11/frida.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1909" alt="frida" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/11/frida.jpg" width="361" height="339" /></a></p>
<p>Existe uma história ótima que ronda o meu círculo de amizades há anos. O filho mais velho da minha comadre era uma criança muito adulta. Quando levado àqueles <i>playgrounds</i> de <i>shopping</i>, sempre preferiu ficar em um canto, desenhando a correr e a pular como os outros meninos da sua idade. A mãe chegava a impulsioná-lo com algumas palavras e gestos, na tentativa de que o pequeno “gastasse” toda aquela oportunidade que, por vezes, parecia desperdiçada. Esse é o preâmbulo do episódio mais representativo desse dilema sobre as incríveis “chances da vida”. Acho que, por volta dos seus 5 ou 6 anos, depois de muita insistência, nosso infante finalmente cedeu e, atendendo aos anseios familiares, vestiu-se de toda uma capa lúdica e foi participar de sua primeira peça no colégio. Ao sair, a mãe, entusiasmada, interpelou-o: “E, então, meu filho, como foi?”. A resposta sincera veio de chofre: “Foi bom, mamãe, eu fingi que estava feliz”.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A frase “foi bom, eu fingi que estava feliz” – acabou virando um mantra, uma espécie de brincadeira íntima, que repetíamos sempre que queríamos designar a astúcia necessária para representar um papel de nós esperado pela sociedade.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O caso – e, sobretudo, a frase “foi bom, eu fingi que estava feliz” – acabou virando um mantra, uma espécie de brincadeira íntima, que repetíamos sempre que queríamos designar a astúcia necessária para representar um papel de nós esperado pela sociedade. Para os diversos meandros da academia, então, essa parecia ser a máxima perfeita. Tudo que se deve tolerar e representar em nome de um título. Como numa espécie de jogo da vida, chega ao fim mais repleto de patrimônio e relações aquele que melhor dominar a arte da interpretação.</p>
<p>Decerto, minha observação tem lá seu tom cínico. A academia, que tanto se coloca como balisa das outras instituições é, ela própria, um dos espaços de reprodução mais violenta e abusiva dessa lógica. Contudo, nem de longe se pode alegar que tenha exclusividade para tal <i>modus operandi</i>. Quanto mais hierárquicas (com poucos filtros verticais) e estimulantes da vaidade sejam as instituições, mais fácil é de se perpetrar essa lógica. Ela está na justiça, na diplomacia, na caserna&#8230; E, <i>touché</i>, chega no local do pensamento crítico que tudo analisa até que o referido princípio não lhe coloque em xeque. Tudo em nome das boas relações corporativas (sic).</p>
<p>Fosse eu falar o que vivi&#8230; Até hoje me pergunto como é possível um programa considerado como referência de estudos colocar para orientar em um doutorado alguém que sequer havia concluído uma orientação de mestrado. No âmbito do Judiciário, vi um advogado não ir a audiência mediente a apresentação de um atestado de uma ginecologista. A cena processual foi lá nos anos 1990. Logo depois, o debate em torno da Reforma do Judiciário sinalizou uma mudança institucional nunca convertida em democratização institucional. Mas, de alguma maneira, o incômodo estava lá aparecendo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Decerto, minha observação tem lá seu tom cínico. A academia, que tanto se coloca como balisa das outras instituições é, ela própria, um dos espaços de reprodução mais violenta e abusiva dessa lógica.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Nos dias de hoje há uma ironia. Ainda que por uma superexposição de agenda e seus reais trâmites, de uma maneira nada usual, a magistratura se vê diante de críticas jamais vistas. Então, hoje também fico pensando quando movimentos como o #metoo, abarcando abusos de ordens distintas, chegará enfim à academia. Instituições com potencial de transformar vão minando suas estruturas pela reprodução do compadrio.  Não adianta questionar autores clássicos, falar em empoderamento periférico, se o desrespeito se coloca cotidiano nas relações mais básicas. Talvez daqui a alguns anos vejamos as contradições acadêmicas explodirem nas mesmas ironias que chegaram à Justiça em meio ao debate público.</p>
<p>Mas, de forma sintética, não há segredo e nem mistério: relações institucionais que dependam da sorte, dado o nível de poder e verticalidade nas quais se baseiam, costumam ter algo de muito errado em seu cerne. Da sorte dependem os sentimentos, e não um julgamento justo, uma orientação não abusiva, uma ordem abjeta. Contudo, seguimos aprendendo a pagar os preços. Digo, esses preços específicos do silenciamento e da <i>mise en scène</i>.</p>
<p>É exatamente este o meu ponto: quando se deve decidir não pagar esse preço? Quando simular a felicidade se torna algo pesado demais? Quando sucumbir for a única opção com sentido? Em nossa sociedade, há uma ode à felicidade. Ela é escancarada, como nos debates em torno do “show do eu” das redes sociais, para usar um termo da Paula Sibília, mas também ela é velada nos escaninhos do que todos suportamos em nome do que julgamos ser um bem maior.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Não é o caso de ter um raciocínio niilista ou hedonista, como se na vida não existissem responsabilidades. O que apontamos aqui é outra questão: é o sufocamento e a violência consentida em nome do pragmatismo.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Por vezes são os que nos amam a indicar, compreensivelmente, esse caminho. O concurso, a casa própria, o título, o pacote do que deveria trazer a felicidade. Talvez aqui seja o caso de evocar um teórico mais clássico, Erving Goffman, a nos indicar, como no teatro, o jogo interpretativo que fazemos para sobreviver. É muito comum pagar esses preços e, sim, ter uma sobrevida &#8211; não no sentido primeiro, do essencial – mas, ao contrário, de algo que é superficial e ao qual nos agarramos mesmo representando o oposto dos nossos desejos. Dito de forma direta: o apego à artificialidade que pode nos destriur silenciosamente. Se as instituições pagam um preço por isso a longo prazo (os brioches de Maria Antonieta podem atestar), o custo pessoal tampouco é baixo. Aí abre-se a janela para as escolhas íntimas que, por essência, temos maior manejo.</p>
<p>Não é o caso de ter um raciocínio niilista ou hedonista, como se na vida não existissem boletos, responsabilidades e dificuldades. O que apontamos aqui é outra questão: é o sufocamento e a violência consentida em nome do pragmatismo. Sempre que me pego articulando essas ideias, me vêm à mente aquelas mulheres dos anos 1950 que, seguindo a recomendação das mães, das avós e das revistas femininas, apreendiam sistematicamente que era melhor aceitar todas (ou quase todas) as violências conjugais em nome de não serem mulheres desquitadas, de não perderem o sustento do lar, de não macularem seu nome. Eis aí títulos não acadêmicos a pedir o silêncio como paga. Não é difícil imaginar a frase “minha filha, não faça isso, é para o seu próprio bem”. O patriarcado dá contorno a essa cena como a tantas outras, mas, como no argumento que levantamos, a lógica é mais ampla: tudo suportar em nome de algo pretensamente maior.</p>
<p>Acontece que o preço que pagamos por esse caminho de pragmatismo idílico desconhece os limites humanos, personalíssimos e intransferíveis. Nem tudo vale a pena e nem tudo nós suportamos da mesma maneira. Essa fronteira deve ser não só respeitada como dita. Quebrar o silêncio é fundamental. A lógica do  “faça, mas não alardeie” é outra violência. Parte fundante do processo de cura é a fala. Freud foi genial, entre outras coisas, por, justamente na época de ouro dos manicômios, apontar para a palavra como forma de elaboração da dor.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Acontece que o preço que pagamos por esse caminho de pragmatismo idílico desconhece os limites humanos, personalíssimos e intransferíveis. Nem tudo vale a pena e nem tudo nós suportamos da mesma maneira.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Contudo, é importante voltarmos ao passo anterior, àquele sobre admitir que não valeu a pena. Esse parece ser outro tabu dos nossos tempos. Diante do fracasso, há sempre uma advertência para vermos o lado bom e para tocarmos em frente. “Fazer do limão uma limonada” parece a concessão máxima que o pragmatismo idílico dá ao fracasso. A frase é em si um sofisma, porque o sonho de que tudo pode nos levar a um resultado prático é tão fantasioso como é pueril a esperança de que se possa seguir extraindo do mal um bem. Se tal pensamento serve para tantas coisas cotidianas, certamente não serve para determinadas situações nas quais sucumbimos. O que se procura é, neste caso, tão e simplesmente encarar essa verdade sem subterfúgios. Só isso pode nos levar ao passo seguinte. Sem tomar consciência de que algo para nós pereceu, não é possível dar qualquer outro movimento de mudança.</p>
<p>É, então, que o ato de falar e calar (por vezes, negar, no sentido de atribuir ao motivo de determinadas violências um fim) torna-se o segundo e importante passo. Há uma série de retratos de Frida Kahlo em que ela aparece com o rosto recortado das fotografias. No lugar da cabeça, um buraco, o vazio. É, talvez, uma expressão, digamos, plástica, de algo primeiro, que é a capacidade de recontar a própria história e, diante dela, dar os sentidos que as experiências de fato tiveram em nós. Em um <i>stand-up comedy</i> intitulado “Nanette”, a australiana Hannah Gadsby vai destrinchando com uma capa de humor uma série de situações abusivas, em especial as relativas ao ódio à comunidade LGBT.</p>
<p>Lá pelas tantas, Hannah aponta para os buracos na sua própria narrativa e admite que, quando finalmente se assumiu lésbica, era tarde demais: ela já tinha internalizado a homofobia. É algo que começa parecendo um esquete de humor, mas é um soco no estômago. Ali não há um rosto retirado da foto, mas há uma negativa exposta. É alguém que sucumbe, expõe isso e só dessa forma consegue dar o significado real ao que se passou. Se uma verdade que é dura aflora, outra mais doce, porém inverídica, é finalmente silenciada.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É exatamente por isso que ao assumir que determinadas processos são uma farsa e que atos de violência e abuso foram perpetrados, o que se busca de fato é uma mínima reparação pela fala e pela verdade. Assume-se um valor.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Fico pensando cá com os meus botões se nós estivéssemos até hoje dizendo que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil só porque isso foi dito reiteradamente por quem convinha. Ou, se ninguém tivesse se revoltado contra a ideia sacrossanta do casamento, será que estaríamos até hoje falando que cabe à mulher zelar pela família? Quando uma versão é negada, outra é dita. Costumam ser mais custosas e verdadeiras aquelas histórias veladas que, quando vêm à tona, causam tanto pavor.</p>
<p>É exatamente por isso que ao assumir que determinadas processos são uma farsa e que atos de violência e abuso foram perpetrados, o que se busca de fato é uma mínima reparação pela fala e pela verdade. Assume-se um valor. Não sem custo, mas assume-se. O preço pelas escolhas todos nós pagamos. Novamente, é personalíssimo e intransferível. Só que, em determinados momentos, a questão é saber se você vai pagar pela doença de permanecer calado, inoculando as convenientes meias verdades, ou se é melhor pagar a conta de assumir o que não foi. É como se disséssemos de forma inversa: “Foi bom, eu não fingi que estava feliz”. É o limite de cada um. Não é saudável ir contra ele. Não é mais barato pagar o preço de fingir que dá para ir levando.</p>
<p>Aos que novamente relembram a práxis da vida, eu vislumbro o desejo que dá contorno aos limites. Por que um homem branco, hétero e bem-sucedido deixaria tudo para assumir outra identidade de gênero?  Por que alguém escolhe abandonar a faculdade de medicina? Por que negar que cada de nós é movido por pulsões e fronteiras distintas?</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Se, ao fim e ao cabo, somos nós que pagamos o preço, convém que nós também possamos escolher.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O risco de negar nossas verdades, em especial as mais duras, é ficarmos aprisionados como em um livro de Tolstói. O pobre Ivan Ilitch, que apenas teve sua epifania reveladora no momento da morte. Só ali viu que levou a vida a contemplar todos os desejos alheios, menos o seu. Se, ao fim e ao cabo, somos nós que pagamos o preço, convém que nós também possamos escolher.</p>
<div></div>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Resistência e sinal fechado – o triunfo de uma e a tragédia de muitos</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Jun 2018 18:00:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Laécio Ricardo]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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		<description><![CDATA[&#160; Em certa medida, este texto é uma homenagem. Não sei bem como conduzi-la, mas se trata de um reconhecimento público. Poderia ter sido feito de modo privado, mas me <a class="read-more" href="https://apulga.com/resistencia-e-sinal-fechado-o-triunfo-de-uma-e-a-tragedia-de-muito/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1826" style="width: 421px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/Foto-Pulga.jpg"><img class="size-full wp-image-1826" alt="&quot;Nobody Likes Me,&quot; street art in Stanley Park." src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/Foto-Pulga.jpg" width="411" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">&#8220;Nobody Likes Me,&#8221; street art in Stanley Park.</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em certa medida, este texto é uma homenagem. Não sei bem como conduzi-la, mas se trata de um reconhecimento público. Poderia ter sido feito de modo privado, mas me parece sensato partilhar que falhei; ou melhor, que sucumbimos, todos nós. Assim, o que importa é admitir que <i>ela venceu</i>, mesmo sem o saber ou sem conseguir articular as razões do seu triunfo. Norteada apenas por uma espécie de instinto que a afasta das hordas eletrônicas dispersivas, vigilantes, permissivas, promotoras de intrigas&#8230; Quanto a nós, <i>o sinal está fechado pra nós</i>. E talvez nunca mais reacenda. E se reacender, pode ser para exigir nova conexão. Deus me livre, arremesso pra longe meu smartphone!</p>
<p>Não é novidade pra ninguém, embora a partir de 2018 tenha se convertido numa revelação alarmante: ao navegar pela internet, inserir dados no Google, criar contas no Facebook e Instagram, aderir ao Whatsapp, deixamos pegadas digitais permanentes. Rastros, indícios, vestígios do nosso percurso e das nossas predileções. Pouco adianta deletar a postagem ou desativar o aplicativo. O prejuízo apenas se reduz. Nossas andanças virtuais já foram mapeadas e nosso perfil de usuário, devidamente dissecado, sem respeito a qualquer noção de privacidade. E os recentes escândalos envolvendo o Facebook nas eleições majoritárias dos EUA ou no plebiscito que definiu a saída do Reino Unido da Comunidade europeia (o chamado “Brexit”), dentre outros, apenas sinalizam que o fosso aberto é infinito.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Não é novidade pra ninguém: ao navegar pela internet, inserir dados no Google, criar contas no Facebook e Instagram, aderir ao Whatsapp, deixamos pegadas digitais permanentes. Rastros, indícios, vestígios do nosso percurso e das nossas predileções.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Assim, cada nova entrada é codificada, convertida em algoritmos e se transforma em bancos de dados à disposição de agências interessadas na gestão das nossas idéias e contatos. Seja para nos ofertar anúncios regulares cada vez mais invasivos, seja para realizar a triagem das possíveis notícias que nos interessariam, seja para nos indicar um potencial novo “amigo” ou “página” com os quais supostamente partilhamos afinidades, dentre outros males (oficialmente, a campanha eleitoral brasileira se inicia em agosto; e com ela, já se avista a possibilidade de novos vazamentos e a proliferação de <i>fake news</i>). Mas não adianta apenas praguejar contra Zuckerberg ou os criadores do Google; e exigir deles explicações nos tribunais do Primeiro Mundo. Esta <i>espiral do Diabo</i>, não custa lembrar, tem o nosso consentimento, ainda que involuntário. Baixar um aplicativo e postar freneticamente implica em aderir ao jogo, em ceder informações e abrir mão de qualquer privacidade.</p>
<p>Reconheço que o contexto atual estimula uma proliferação e circulação da intimidade, um desejo de se expor e de falar de si, materializado nos “textões” abertamente confessionais e no enquadramento narcísico das selfies. E este excesso de exposição, claro, só se concretiza com uma inevitável contrapartida – o mesmo contexto (uma nova configuração do capitalismo voltada à gestão do íntimo) também estimula um voyeurismo constante, o desejo de tudo bisbilhotar, a aspiração por uma visibilidade máxima, que se refestela diante das sex tapes <i>intencionalmente</i> vazadas, da proliferação dos reality shows, dos vídeos caseiros ambientados no espaço doméstico e cuja prerrogativa maior é a narração em 1ª pessoa. Alimentamos este circuito infernal e com ele nos regozijamos, despudoramente. Quem não se reconhecer neste quadro, em maior ou menor escala, que atire a primeira pedra!</p>
<p>Mariana Aquino, amiga querida e a homenageada deste texto, pode atirar. Na verdade, pode até despejar um carregamento inteiro de britas em nossos frágeis telhados virtuais. Tem moral e histórico para isso. Mas antes de enaltecer a sua resistência exemplar, gostaria de fazer mais algumas ponderações. Sim, as redes sociais têm uma faceta positiva – promovem novas formas de sociabilidade, impulsionam certas atividades profissionais e, pasmem, permitem até mesmo a circulação de contrainformação (de narrativas contrárias aos discursos hegemônicos). Deste modo, reconheço que é possível transitar por elas sem aderir a tanta exposição, sem ceder aos seus apelos e se beneficiando desta positividade. Mas eu conto nos dedos da mão de Lula quem assim procede! No geral, o chamado “show do eu” é incontornável. Um canto de sereia duradouro e irresistível.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Mariana Aquino, preciso reiterar: você venceu! Venceu porque nunca cedeu aos apelos tecnológicos, porque sempre recusou toda novidade e vício oriundo da Internet, porque sempre debochou da nossa estima pelo Facebook e porque nunca desejou ter conta no Instagram.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Ciente desta cantilena diabólica, e estimulado por minha heroína, optei por uma discrição virtual parcial. É pouco, reconheço. E não me isenta de ser tragado por estas engrenagens. Mas hoje repenso minhas adesões e postagens. Deixei inativa a conta do Facebook, o território por excelência da vigilância política e da proliferação de <i>tretas</i> (jargão que ilustra bem nossa predileção por picuinhas virtuais). E me excluí dos grupos de Whatsapp com inclinação suspeita e daqueles que funcionam para agregar dezenas de familiares distantes. Este canal pode possibilitar trocas instigantes, reconheço, mas a experiência me ensinou que o contato real tem maior apreço, é menos dispersivo e reduz a circulação de falsas notícias. Afinal, se existe um território onde a boataria perversa se aninha com prazer, ele se chama Whatsapp. E assim, com menos contas para administrar, me vejo com mais tempo para os livros e para garimpar, por ímpeto próprio, as notícias que de fato me interessam, nas fontes que julgo pertinentes.</p>
<p>Voltemos agora à minha homenageada. Desta vez, em definitivo. Mariana Aquino, preciso reiterar: você venceu! Venceu porque nunca cedeu aos apelos tecnológicos, porque sempre recusou toda novidade e vício oriundo da Internet, porque sempre debochou da nossa estima pelo Facebook, porque nunca desejou ter conta no Instagram, porque sempre controlou e restringiu seus acessos ao laptop, enquanto nós, servos do deus Google, dispersávamos nossa energia física e criativa navegando horas a fio. Por anos, admito, sua resistência me intrigara: a advogada que lia e-mails uma vez por semana e a única do grupo a não dispor de gadgets, de smartphones. A preferir o velho celular com lanterninha e a se limitar ao envio de torpedos. Em tempos recentes, é verdade, você aceitou a companhia de um smartphone; mas ainda assim, o enlace não foi fácil. O primeiro aparelho se danificou antes de ser usado; e o segundo foi roubado nos primeiros dias. Um sinal divino de que você estava certa e de que era preciso resistir. Hoje, passado algum tempo, você aderiu à novidade. Cheguei a imaginar que você recuaria em sua determinação. Mas logo percebi que as regras seguiriam firmes em prol da integridade. Afinal, este maldito aparelho te pertence (e não o contrário!). As ligações ainda são atendidas esparsamente, as fotos seguem escassas e enviadas somente para os mais íntimos; e a única rede social instalada, o Telegram, se encontra na lista de aplicativos não denunciados. Sim, amiga, você venceu. Admito mais uma vez. E o sinal está fechado pra nós. Talvez definitivamente.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Ideologia: eu quero uma pra viver mesmo!</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Mar 2018 16:13:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Naiana Rodrigues]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Avulsa]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>

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		<description><![CDATA[Todo dia rompemos uma barreira rumo à intolerância. Marielle, presente! Anderson, presente! Quantos não sabemos os rostos? Os nomes? A gente grita, mas é preciso olhar o fundo, ver de <a class="read-more" href="https://apulga.com/ideologia-eu-quero-uma-pra-viver-mesmo/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p dir="ltr"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/HandsNaiana2.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1777" alt="HandsNaiana2" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/HandsNaiana2.jpg" width="750" height="500" /></a></p>
<p dir="ltr">Todo dia rompemos uma barreira rumo à intolerância. Marielle, presente! Anderson, presente! Quantos não sabemos os rostos? Os nomes? A gente grita, mas é preciso olhar o fundo, ver de onde brota essa violência, olhar as palavras que já escrevemos sobre ela. Para trazer essa questão para um plano mais próximo, lembro do um episódio ocorrido no final de janeiro de 2018. Nessa ocasião, o Benfica, bairro universitário da Capital cearense, mais uma vez foi cenário de manifestações de violência de cunho racista e homofóbica. Um refúgio até bem pouco tempo atrás considerado seguro para estudantes e pessoas gays, lésbicas, trans e bissexuais que se encontravam, aos fins de semana, em uma das pracinhas do bairro para tomar seu bom vinho barato, fumar seu baseado e paquerar, o lugar foi visitado por um grupo de homens brancos e negros também intitulados como “Carecas do Brasil” que diziam panfletar contra as drogas no bairro. O resultado dessa visita foi um jovem negro notadamente homossexual agredido.</p>
<p dir="ltr">O fato rapidamente circulou pelo Facebook. Não só o relato da agressão, mas as fotos e perfis dos carecas foram facilmente revelados pela inteligência coletiva. Na esteira da audiência na rede e das cobranças de justiça, os jornais locais se dedicam a entrevistar os carecas. Uma repórter, inclusive, presenciou, durante a realização da entrevista, uma cena de violência contra eles, ao que o jornal responde com um artigo que finaliza conclamando a oferta de flores para os agressores que naquele momento foram vítimas de violência.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">E todos temos uma, seja ela libertária, opressora, religiosa ou laica. A ideologia é inerente ao ser humano e assumir isso e não mascarar a existência de diferentes correntes ideológicas já é um grande passo para o empoderamento político.</strong><strong></div></strong></h3>
<p dir="ltr">Apesar da explanação do acontecimento e de sua cobertura jornalística, me abstenho aqui de realizar uma análise jornalística do fato &#8211; em sala de aula, já tenho espaço para fazer isso &#8211; mas quero apenas chamar a atenção para a aparição de condutas fascistas em nosso cotidiano, aqui, bem pertinho da gente. São atos e discursos violentos que expressam nada mais, nada menos que ideologias, conjunto de ideias forjadas em um tempo histórico, em uma dada cultura, por um grupo social com vistas ao alcance de uma posição hegemônica na sociedade.</p>
<p>E todos temos uma, seja ela libertária, opressora, religiosa ou laica. A ideologia é inerente ao ser humano e assumir isso e não mascarar a existência de diferentes correntes ideológicas já é um grande passo para o empoderamento político. Quanto mais se nega sua própria filiação ideológica (bem diferente de filiação partidária), mas se fica suscetível ao domínio ideológico de outrem, de uma maioria, de quem está no poder.</p>
<p>Essas reflexões em torno de ideologias e de como estas quando assumem o lugar hegemônico podem se tornar tiranas estão me perturbando intelectualmente desde que reli pela segunda vez a obra 1984, de George Orwell, e terminei a primeira temporada da série The Handmaid’s Tale, inspirada no livro homônimo da escritora Margaret Atwood.</p>
<p>Ambas, com focos diferentes, tratam da ascensão de governos totalitários. O livro de Orwell, com fim bem pessimista (não darei spoilers, calma!), mostra um futuro em que a história é constantemente manipulada. As notícias dos jornais são alteradas com vistas a terem sempre um caráter favorável ao partido. Esse controle da verdade social e discursiva relaciona-se, ao meu ver, com a propagação de fake news na atualidade, sobretudo, em épocas de disputas eleitorais. A noção de verdade se altera em 1984, assim como ela tenta ser alterada nas redes sociais em 2018.</p>
<p dir="ltr">A redução da linguagem a um vocabulário enxuto e livre de ambiguidades, de metáforas, de analogias e paradoxos foi algo que me assustou também no livro de Orwell. A orquestração da nova linguagem com palavras que expressam um conceito apenas e a definição direta de seu antônimo, me move a relacionar esse cerceamento intelectual a episódios recentes de censura de exposições artísticas, vendo a arte como uma linguagem, a mais transgressora delas, diga-se de passagem.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Esse controle da verdade social e discursiva relaciona-se, ao meu ver, com a propagação de fake news na atualidade, sobretudo, em épocas de disputas eleitorais. A noção de verdade se altera em 1984, assim como ela tenta ser alterada nas redes sociais em 2018.</strong><strong></div></strong></h3>
<p dir="ltr">Privar a expressão do pensamento é um dos primeiros artifícios dos governos autoritários. Mas limitar essa expressão em seu nascedouro, pois sem palavras, em uma cultura ainda tipográfica, como afirmou McLuhan, é minar o pensamento em sua gênese, pois sem saber o que dizer, como significar aquilo que se pensa, o que vou enunciar? Resta apenas o sentir. A luta no livro do sistema com o protagonista, que ousou enunciar seu pensamento contrário, mesmo de modo sigiloso, é exatamente em domesticar o sentir.</p>
<p>A domesticação, aliás, é o tema recorrente na série adaptada do livro de Atwood. A premissa central da obra trata de uma revolução ocorrida nos EUA orquestrada por um grupo reacionário que se ampara em preceitos religiosos para governar. A quebra da laicidade da política é outro fator que a ficção enfatiza e que observamos claramente no Congresso brasileiro. A bancada evangélica se organiza e fortalece para disputar mais espaços no pleito de 2018. Vale ressaltar que a mulher, seja para os pastores brasileiros no poder, ou para os homens de Gilead em The Handmaid’s Tale, é ainda a personificação do pecado. Tanto que, na série, uma das primeiras ações impetradas pelo grupo revolucionário é a demissão de todas as mulheres de seus empregos e o fechamento de suas contas bancárias, fazendo-as ficarem dependentes dos homens, sejam maridos, pais, irmãos ou amigos. Ideia que um Bolsonaro da vida não hesitaria em colocar em prática.</p>
<p dir="ltr">Na distopia audiovisual, a mulher fértil (guerras nucleares e empreendimentos médicos deixaram a população infértil no mundo da ficção) deve contribuir para o repovoamento da nova nação sendo uma aia, serva que permanece sob os cuidados de uma família (de homens do alto escalão do governo) até que gere um filho que será cuidado pela família. Vale destacar que a concepção consiste em um ritual realizado no dia fértil da aia, na presença da esposa, em um ato que claramente se caracteriza por um estupro. A dominação do corpo feminino e a legitimação do estupro como parte de um ritual sagrado e político é também assustador e que, em certa medida, é algo com o que vivemos dia após dia em uma sociedade de regime supostamente democrático.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Ser feminista é a ideologia que me salva todos os dias. Mas é aquela que também pode me conduzir a um exílio, à prisão ou à morte caso um regime totalitário se instaure no Brasil. É o risco de assumir um posicionamento perante o mundo. Ficar à deriva não é mais uma opção.</strong><strong></div></strong></h3>
<p dir="ltr">O corpo feminino é explorado pelas indústrias cultural, médica e da beleza e a cultura do estupro se manifesta em músicas, em discursos e em atos violentos praticados por homens que reproduzem o machismo estrutural, inclusive em ambientes considerados intelectualmente elevados como a universidade.</p>
<p dir="ltr">Nunca as distopias, para mim, foram tão próximas do presente como agora. Daí porque escolhi abrir esse texto com um fato real, para chegar nas ficções, mas o qual poderia aparecer na ficção, assim como os fatos da própria ficção podem surgir na realidade. E o que isso nos indica? Que as ideologias reacionárias se fortalecem mundo afora. Que os fascismos se avizinham (uso o plural, pois cada um tem sua particularidade, ora alinhado às religiões, ora ao próprio capital) e que um posicionamento ideológico da nossa parte é necessário, para, como já cantava Cazuza, vivermos.</p>
<p>Ser feminista é a ideologia que me salva todos os dias. Mas é aquela que também pode me conduzir a um exílio, à prisão ou à morte caso um regime totalitário se instaure no Brasil. É o risco de assumir um posicionamento perante o mundo. Ficar à deriva não é mais uma opção, pois lá do outro lado, eles se assumem como carecas, skinheads, evangélicos, de direita. E enquanto negarmos a ideologia por uma suposta neutralidade ou imparcialidade, eles continuarão sendo maioria e dispostos a agredir e aniquilar quem consideram opositores. Não vou entrar no mérito da violência por quem se afirma libertário ou minimamente partidário pelos direitos humanos, mas o confronto está próximo, e a força física, infelizmente, será necessária, mas por enquanto, quero apenas poder sentir com mais afinco o despertar da força ideológica, das ideias, mesmo, pois sem elas, não há motivação nem mobilização.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Neuer Jungferntieg</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Mar 2018 10:39:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Grilo Falante]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando cruzei pela primeira vez a Neuer Jungfernstieg, 21, em outubro 2011, eu tinha esquecido tanta coisa sobre mim. Dias antes, em Berlim, havia escrito uma carta a dois amigos <a class="read-more" href="https://apulga.com/neuer-jungferntieg/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Alster5.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1732" alt="Alster5" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Alster5.jpg" width="726" height="483" /></a></p>
<p>Quando cruzei pela primeira vez a Neuer Jungfernstieg, 21, em outubro 2011, eu tinha esquecido tanta coisa sobre mim. Dias antes, em Berlim, havia escrito uma carta a dois amigos falando sobre aquela viagem. Era uma espécie de memorial interrompido, um roteiro que dava conta de uma jornada antiga que nunca fora concluída. Era exatamente isto: eu estava onde queria ter estado há dez anos. Mas, estar ali, tanto tempo depois, era realmente o que eu queria? Ainda fazia sentido? Questionava os meus amigos, como num sofisma. Uma pergunta feita a mim mesma que eu, de pronto, já ensaiava a resposta: “Não, não havia mais sentido porque eu era outra pessoa”. Meus sonhos juvenis não caberiam mais ali. O sentimento era de inadequação, como se algo não pudesse mais se realizar.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Não se vive uma mesma história duas vezes, ainda que na primeira ela tenha sido promessa e não realidade. É preciso um significado de agora, do tempo presente, mesmo que traga em si a lembrança do que foi. E a grande dificuldade de juntar essas pontas, está em atravessar-se. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Diante daquela impossibilidade, em algum momento do <i>e-mail</i> exponho o dilema: “Vivo uma confortável vida de classe média ou saio para o doutorado fora e dou algum crédito à aventura e aos sacrifícios inerentes a ela? E, aí, vem a pergunta: qual o sentido disso?” Eis o ponto: esse sentido deve ser atualizado. Não se vive uma mesma história duas vezes, ainda que na primeira ela tenha sido promessa, e não realidade. É preciso um significado de agora, como algo novo, do tempo presente, mesmo que traga em si a lembrança do que foi. E a grande dificuldade de juntar essas pontas, preencher esse hiato, está no abismo de atravessar-se. Um fio solto de um sonho, a depender da sua natureza, se não deixa à deriva o próprio desejo – que sempre pode mudar –, decerto abandona uma parte do sonhador que em algum momento se perde de si, do que poderia ter sido e não foi. Há uma ruptura. Recuperar isso é impossível. Contudo, num instante qualquer, um gatilho nos provoca a saber o que deixamos para trás.</p>
<p>Poucas obras falam dessa experiência de maneira tão corajosa e bela quanto “Santiago”, de João Moreira Salles. Lançado em 2007, o documentário havia sido filmado em 1992, quando o cineasta tinha 30 anos, mas só aos 43 ele conseguiu voltar à edição do material, enfrentá-lo. E isso é colocado de pronto. Na primeira cena, o narrador enuncia: “Há treze anos, quando fiz estas imagens, pensava que o filme começaria assim: primeiro, uma música dolente. Não essa que eu só conheci mais tarde, mas algo parecido; depois, um movimento lento em direção a três fotografias. (&#8230;) Uma das minhas lembranças de criança sou eu e meus irmãos vestidos de copeiros, com uma bandeja na mão, entre os convidados, brincando de servir. Nessas ocasiões, quem punha a bandeja em minha mão e me ensinava a equilibrá-la sem derrubar os copos era Santiago, o mordomo da casa. O filme que eu tentei fazer há 13 anos era sobre ele”. Assim, João inicia a narração em uma película que não documenta um objetivo, não se volta a uma finalidade, mas expõe sua jornada interna para, com a passagem do tempo, conseguir ver o que antes lhe era impossível. É um filme sobre o filme, uma metalinguagem sobre a construção de uma obra audiovisual. Mas é, sobretudo, uma reflexão sobre o caminho que o diretor encontrou para poder realizá-lo.</p>
<p>Em dezembro último, durante um debate na Matilha Cultural, em São Paulo, perguntei a João sobre a relação entre “Santiago” e seu último filme, “No intenso agora”, lançado em 2017. Ambas são narrativas em primeira pessoa e, das múltiplas coisas de que se pode falar, ele enfatizou uma: Santiago é um filme sobre nós. O jovem João começou a filmar o mordomo de sua casa achando que ele era um personagem externo a si. Um outro. Mas esse argumento era falso porque aquele era o criado de sua casa e ele não era um cineasta estranho. Era o Joãozinho, como Santiago o chamava. Como ele próprio afirma, era um filme sobre nós, mas isso só pode ser visto depois. Ao concluir o documentário, João fala: “E, no fim, quando Santiago tentou me falar do que lhe era mais íntimo, eu não liguei a câmera”. Foi preciso tempo, tempo para atravessar-se. O documentário inicial de 1992 nunca pôde se concretizar, mas João Moreira Salles realizou sua jornada. O filme de 2007 é tanto algo novo como a representação dessa travessia.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">O que aconteceu comigo é que eu simplesmente tinha esquecido. A vida faz isso com a gente, né? De repente há uma interrupção em nosso caminho, algo se parte e vamos nos embotando, perdendo a memória de quem somos. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Por algum motivo psicanalítico não tão misterioso assim, Santiago sempre foi um filme que me tocou. Um quase diário a indicar a descoberta do tempo, de si e do outro. É fácil pensar nisso agora, tem um nexo. Mas o filme aqui é uma alegoria do meu incômodo, embora à época não o soubesse nominar. O que me importunava era diverso de um “nós”, de algo não percebido. O que aconteceu comigo é que eu simplesmente tinha esquecido. Tinha esquecido muito sobre mim. A vida faz isso com a gente, né? De repente, há uma interrupção em nosso caminho, algo se parte e vamos nos embotando, perdendo a memória de quem somos. Lygia Fagundes Telles costuma dizer que a gente precisa se “desembrulhar”. Mas como fazer isso se às vezes sequer temos a dimensão das camadas que nos “protegem”?</p>
<p>Eu ensaiava alguma visão e meu incômodo é sinal disso, mas não conseguia de fato enxergar o todo. Uma vida adulta precoce demais tinha me tirado a ideia de que era possível eu me arriscar, me permitir. Posso falar da vocação, do mundo&#8230; Mas me refiro essencialmente a uma noção de “pertencimento”, não num sentido pueril e pretencioso que o termo carrega, mas no da permissão que o sujeito concede a si mesmo ao se sentir parte de algo. Obviamente, sentimentos como o amor e o pertencimento são também uma linguagem, tem elementos que nos escapam porque são acessados sem que tenhamos o controle. Por isso uma obra de arte nos salva, porque ela nos toca num ponto que desconhecíamos, ela nos revela. É “de lá para cá”, mas nós precisamos abrir a porta, sentir que merecemos.</p>
<p>Para Habermas, a legitimidade da lei carece de validade; para Freud, é necessária a transferência entre o paciente e o analista. São ligações misteriosas, requerem uma forma de permissão, um aceite. Para Deleuze, a amizade requer não uma comunhão de ideias, mas uma pré-linguagem comum. Numa entrevista à TV francesa, ele explica: &#8220;Há pessoas em relação às quais não entendo nada do que me dizem. Mesmo coisas simples como ‘passe o sal’, eu não consigo entender. E há pessoas que me falam de um assunto totalmente abstrato, com o qual não posso concordar, mas entendo tudo o que dizem. É um mistério, um charme”. Ele complementa: “Há frases insignificantes que têm tanto charme e mostram tanta delicadeza que, imediatamente, você acha que aquela pessoa é sua. Não no sentido de propriedade, mas é sua. E você espera ser dela. Nesse momento nasce a amizade”. É disto que falo: desse encontro com o outro. Especificamente, com outro que há em nós, escondido.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Sentimentos como o amor e o pertencimento são também uma linguagem, tem elementos que nos escapam porque são acessados sem que tenhamos o controle. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Nem sempre é fácil achar os sinais do que escondemos de nós mesmos, mas, em determinados momentos da vida, um fresta se abre. No começo, Hamburgo foi isto: uma porta aberta além de mim. Primeiro, foi o incômodo, a dúvida. Só depois pode ser a experiência plena. Os seis anos que separaram minha primeira viagem à cidade, em 2011, e a estadia mais recente, em 2017 – com direito a uma breve parada, em 2013 –, foram também a cronologia de uma jornada interna. Gastei esse tempo, esse precioso tempo, atravessando-me para reencontrar algo perdido.</p>
<p>A Hamburgo que conheci, em 2011, era um cenário tão diminuto quanto desafiador. Antes de qualquer coisa, a cidade foi a Colonnaden e seu pequeno comércio: a loja de botas de cowboy americano, o antiquário com louças delicadas e um casal de velhinhos, as duas livrarias – uma sofisticada e a outra um varejo de livros de idiomas – quase vizinhas, a velha casa de chá, a bifurcação com a Gustav-Mahler Platz, o café Caravela com suas coxinhas a me lembrar o Brasi. E foi, sobretudo, o sabor do macarrão com frutos do mar do Vinum et Cibus. O vinho tinto e a pasta servida com muito molho. O descer os degraus rumo ao porão para depois “emergir” equilibrando os pratos e pousá-los nas mesas altas no meio da rua. Como em um dos cenários do Circo do Dr. Lao, algo entre o lúdico e o estranho.</p>
<p>Eu observava o passo das pessoas, o vaievém das bicicletas, imaginava como poderia ser tal rotina. Aquele dia no fim de outubro de 2011 se fez assim: o céu cinzento, com um pouco de frio, o gosto da comida ainda na boca, uma rua estreita como atalho para Neuer Jungfernstieg e, finalmente, o German Institute of Global and Area Studies, o Giga, no número 21. Defronte, o Alster. Recordo de mirar o lago, ver um zepelim, as folhas caindo no outono. Olhava por entre alguns ganhos à margem do espelho d´água e, vendo de longe o céu, como já disse, tinha a sensação de uma porta aberta além de mim.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> No começo, Hamburgo foi isso: uma porta aberta além de mim. Primeiro foi o incômodo, a dúvida. Só depois pode ser a experiência plena. Os seis anos que separaram minha primeira viagem à cidade da estadia mais recente eu gastei atravessando-me para reencontrar algo perdido.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Seis anos depois, Hamburgo foi deixando de ser espanto para ser a vivência. Era o momento de chegar para ficar alguns meses. O plano de fazer o doutorado fora do Brasil ganhava, então, uma forma possível. A cidade saiu da paisagem restrita para construir-se numa rotina. A primeira morada na Bramhsalle, o caminho que fazia andando pela Gridelhof, o tempo de sentar com calma na Allende-Platz e ver o movimento em frente ao cine Abaton, o Grupo de Estudos de Temas Brasileiros na UNI, os cafés da Sternschanze, as bicicletas, o fishmarket, a chuva intermitente, os longos dias de verão, o metrô, o gosto das geleias e do Somersby. Landungsbrücken, HafenCity, Reeperbahn&#8230; A camaradagem dos amigos. A gentileza, o apoio, as dicas de <i>hostels</i> baratos, a garimpagem dos livros, os dias no parque, a vida de estudante, o dinheiro contado, o desafio do idioma, os novos laços que se desenhavam. De alguma maneira, estava entre aqueles que teriam estado comigo anos atrás.</p>
<p>E, de todas as coisas que poderiam ser ditas, das físicas às subjetivas, a mais honesta é a sensação de pertencimento ao cruzar os corredores do Giga. Uma certeza íntima foi se revelando no atravessar das portas, ao tomar café no final da tarde com um bando de <i>nerds</i> aficionados por Ciência Política e Relações Internacionais. Éramos felizes, mesmo meio “espremidos” na cozinha do 6<sup>o</sup> andar. E, dessa forma, todos os dias, ao passar pelo Alster, eu agradecia a chance de me lembrar do muito sobre mim que havia esquecido.</p>
<p>Essa lembrança é curiosa porque não é estanque, restrita ao passado, nem mesmo mora fora, na rua. Ela fica aqui dentro, hoje, me provocando a ser quem sou. De vez em quando aparece, irrompe, como num dia em que vi um quadro no Checkpoint Charlie. A imagem de Reagan e Gorbachev assinando o tratado de redução das armas nucleares em 1987 e, num piscar de olhos, estava diante do meu velho livro do Melhem Adas que me fez querer estudar Ciência Política. Era Santiago falando com a câmera desligada, as madeleines de Proust, o mecanismo que te desperta algo guardado e tão constitutivo de quem se é.</p>
<h3><strong> </strong><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> É difícil admitir a fragilidade, os medos e os outros esqueletos que temos no armário. Infelizmente, desconheço outro caminho. Porque só a percepção de que algo estava profundamente errado nos dá a chance de acertar a trilha.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>No fundo, quando quis escrever sobre Hamburgo, nessa perspectiva tão íntima, era disto que queria falar: do momento em que nos lembramos quando o sentido se reelabora. Mas isso só é possível depois de um árduo caminho de enfrentamento. É trabalho duro, contínuo. Dói um bocado. Mas é difícil admitir a fragilidade, os medos e os outros esqueletos que temos no armário. Infelizmente, desconheço outro caminho. Porque só a percepção de que algo estava profundamente errado nos dá a chance de acertar a trilha.</p>
<p>Em outra ocasião, pude escrever sobre Hamburgo do ponto de vista histórico, numa crônica* sobre as mudanças de um tempo e as nossas próprias. Nesse texto, uso uma frase de Aracy de Carvalho que, numa referência ao passado, diz: “Esse viver ninguém me tira”. Mas subverto a citação e a uso como predição, uma recompensa a quem se arrisca. Repito essa fase para mim, como uma forma de não mais esquecer. Atravessar-se é uma viagem, a mais difícil. E só a coragem para tal travessia leva a algum lugar com sentido. Há despedidas nesse caminho, mas hoje fico com o desejo de ir além e com os encontros, precisamente o que temos conosco.</p>
<p>É disto que falo e repito: Joãozinho, um “charme”, o Alster&#8230; Algo nos sopra o ouvido. De repente. E eu só consegui entender isso, muito antes de voltar ao Giga, quando me lembrei das coisas mais íntimas que carregava e do porquê de tê-las deixado de lado. Isso me traz de volta a João Moreira Salles e à sua narrativa. Se “Santiago” só pôde ser feito quando João entendeu quem ele era naquele enredo, em “No intenso agora” (2017) já há um diretor plenamente maduro a falar sobre dar sentido às coisas quando o ápice da vida parece já ter acontecido. Pode-se pensar que este é um filme sobre política, sobre 1968, mas não é. É sobre a capacidade de dar sentido ao novo. No instante em que nos lembramos de nós, algo se liga, mas não voltamos ao passado: precisamos dar um novo significado ao que nos tornamos e ao que temos pela frente.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Só a coragem para a travessia leva a algum lugar com sentido. Hoje fico com o desejo de ir além e com os encontros, precisamente o que temos conosco.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Talvez eu faça todas essas ilações porque ainda seja difícil falar sobre mim em primeira pessoa. Assumir os desejos, os riscos. Ir lá no osso, naquela menina que um dia fui. Ainda coloco uma camada, tal qual João Moreira Salles, que escala o irmão Fernando para narrar Santiago. Mas algo em mim já se atravessou definitivamente, o medo que tinha voltou a ocupar o lugar que lhe é devido na equação da vida. Finalmente, posso dizer que o meu medo de ficar é maior do que o de ir e eu reencontrei uma das partes mais preciosas de quem sou.
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/screen-shot-2018-03-11-at-12-06-53/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Screen-Shot-2018-03-11-at-12.06.53-150x150.png" class="attachment-thumbnail" alt="O Alster  visto de dentro, num barco, num dia alto de verão. Parece até que algo quebrado volta a funcionar. Sempre me lembrava o mar da Fusta e um encantamento que só a água tem." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/screen-shot-2018-03-11-at-12-00-34/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Screen-Shot-2018-03-11-at-12.00.34-150x150.png" class="attachment-thumbnail" alt="Foto completamente &quot;ordinária&quot; para o registro do famoso dia em que dormi no porão ou salinha de recreio da Cruz Vermelha. Síntese aventureira total." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/screen-shot-2018-03-11-at-11-35-59/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Screen-Shot-2018-03-11-at-11.35.59-150x150.png" class="attachment-thumbnail" alt="Eu sendo &quot;chapeleiro maluco&quot; na melhor loja de chapéus que vi na vida e com um autêntico panamá coco na cabeça. Cool cat, dear Fred Mercury." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/el-philharmonie-ao-fundo-pulga/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/El-philharmonie-ao-fundo-Pulga-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Saindo do Giga e indo à pé para a região portuária. El Philharmonie ao fundo. Deslumbre." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/rote-flora-g20-to-the-hell-pulga/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Rote-flora-G20-to-the-Hell-Pulga-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Rote Flora gritando: &quot;G20 to the Hell&quot;. O berço da contestação na  cidade." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/parque-brahmsalle2-pulga/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Parque-Brahmsalle2-Pulga-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Parque ao lado da Brahmsalle, a rotina com sol no verão. De serenar a alma, ler um livro e se desligar de qualquer aflição." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/screen-shot-2018-03-11-at-11-20-28/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Screen-Shot-2018-03-11-at-11.20.28-150x150.png" class="attachment-thumbnail" alt="Playground Coffee dentro do Otto&#039;s Burger na região da Grindlhof. Sem dúvida o café mais acolhedor e simpático, com um grão esplêndido da República Democrática do Congo, um chocolate quente e um chai latte precisos. Esse añi operando as &quot;máquinas&quot; é o simpático Mark." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/dehnhaide-pulga/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Dehnhaide-Pulga-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Imagem da estação Dehnhaide rumo a uma das minhas moradias. A rotina e a parte não turística da cidade." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/turma-giga-2/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Turma-Giga-2-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Turma do Giga na cozinha do 6o. andar. Todos &quot;espremidos&quot;  na cozinha do sexto andar, no café da despedida." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/margem-alster2-pulga/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Margem-Alster2-Pulga-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Margem do Alster, semana do Orgulho LGBT. Ao fundo, atrás das bandeiras, a Neuer Jungferntieg." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/colonnaden-pulga/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Colonnaden-Pulga-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Colonnaden, as bicicletas e as mesas na rua defronte ao Vinum et Cibus. A pasta com frutos do mar das sextas-feiras." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/alster-2011/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Alster-2011-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="O Alster no outono, o zepelim entre os galhos, uma porta aberta, outubro de 20111." /></a>

<h3><strong> </strong></h3>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Do cotidiano como lugar de resistência</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Oct 2017 15:00:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Laécio Ricardo]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>

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		<description><![CDATA[Não tá fácil pra ninguém. Na verdade, nunca esteve, sejamos sinceros. Mas, de uns cinco anos pra cá, piorou bastante. Tudo se mostra extremamente difícil, sem sinalizar possibilidades de entendimento, <a class="read-more" href="https://apulga.com/do-cotidiano-como-lugar-de-resistencia/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2017/10/sombrinha.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1667" alt="sombrinha" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2017/10/sombrinha.jpg" width="750" height="563" /></a></p>
<p>Não tá fácil pra ninguém. Na verdade, nunca esteve, sejamos sinceros. Mas, de uns cinco anos pra cá, piorou bastante. Tudo se mostra extremamente difícil, sem sinalizar possibilidades de entendimento, de acolhida, de otimismo; as palavras parecem ponderadas com antecedência, como se temessem alguma vigilância constante e implacável, e todos os passos são executados com cautela, receosos de enveredar em alguma armadilha fatal. A polarização política que nos acomete, protagonizada por uma extrema direita irascível, fóbica e intolerante, e uma esquerda atordoada e patética, tampouco contribui para nos inspirar confiança. Na verdade, só aprofunda o fosso e a sensação de mal-estar.</p>
<p>Falta disponibilidade para se aproximar, para dialogar e entender; sobra impaciência, proliferam as pretensas verdades, ampliam-se os insultos, renovam-se os tabus, inclusive aqueles que julgávamos ter superado. Do meu lado, já ressabiado com tanta reviravolta e com o triunfo da hipocrisia, sedimenta-se certa desconfiança e também o pessimismo deseja fazer morada. Justo no meu coração, notório pelo seu entusiasmo e humanismo retumbante. Mas não tá fácil pra ninguém, menos ainda para o meu coração&#8230;</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Onde encontrar brechas? </strong><strong>É na esfera privada onde encontro brechas, vislumbro resistências e identifico possibilidades</strong><strong>. Pressionado pelos debates nada fecundos nas redes sociais, considero legítimo este refúgio na intimidade para recobrar algum ânimo.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Onde encontrar brechas? Onde identificar possíbilidades? Como construir alguma sociabilidade livre dos interditos e das vigilâncias, norteada pelo signo da esperança e do acolhimento? Este mundo carece de leveza, com urgência urgentíssima. Nada mais. E onde encontrá-la? Não tá fácil, reitero. Talvez seja a hora de renovarmos os engajamentos e de retomarmos as práticas militantes, aquelas que, conduzidas em grandes grupos e em espírito de comunhão, nos inspiram e nos sugerem possibilidades reais de transformação. Mas confesso que, na casa do 40 e com a carcaça já enrijecida, me encontro pouco motivado para enfrentar esta adversidade no corpo-a-corpo, no grito exaltado, ainda que ladeado por centenas de colegas igualmente irmanados. Confio plenamente nas ações coletivas, insisto, mas meu corpo hoje pede contenção, gestos mínimos, o que não se confunde com conformismo&#8230;</p>
<p>Portanto, é na esfera privada e nas redes próximas onde encontro brechas, vislumbro resistências e identifico possibilidades. À primeira vista, parece uma solução menor e pouco eficiente diante do quadro grave delineado; alguém poderia aventar também a hipótese de que se trata de uma saída com alcance social restrito. Admito e até visto a carapuça; mas não entendam como um gesto mesquinho, tampouco egoísta. Pressionado pelos debates nada fecundos nas redes sociais e exaurido pelas dificuldades de entendimento nos encontros presenciais, considero legítimo este refúgio na intimidade para reforçar os laços, consolidar os afetos e recobrar algum ânimo. Cada lealdade renovada, entendam, é um estímulo a mais para seguir num mundo onde as tensões parecem se multiplicar e a boa vontade se revela uma quimera.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Não pode ser simples mensagem de whatsapp ou outro aplicativo. É necessário ouvir, se demorar e, se as agitações da vida permitirem, encontrar pessoalmente, tocar, sentir a pulsação e a aprovação do olhar. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Tenho meus rituais cotidianos e sugiro a cada um que estabeleça os seus. Questão de sobrevivência, insisto. Ligo com regularidade para os amigos; um a um, sondo suas inquietações e partilho meus anseios. Não pode ser simples mensagem de whatsapp ou outro aplicativo. É necessário ouvir, se demorar e, se as agitações da vida permitirem, encontrar pessoalmente, tocar, sentir a pulsação e a aprovação do olhar. Não sou um indivíduo de forte vínculo familiar, mas não deixo estremecer o contato com as crianças que amo – sobrinha e afilhados. Venero meus discos com o entusiasmo de um adolescente e assisto a certos filmes com igual fascínio. E, como não tenho religiões, inventei uma própria. Todos os sábados, compareço ao meu culto matinal: vou à uma feira de orgânicos, onde me demoro a conversar em cada barraca; uma hortaliça aqui, uma fruta acolá, um doce mais a frente, encho a sacola e renovo meu credo. São nestes momentos breves, mas intensos, espécies de epifanias do cotidiano, onde recupero uma ponta de esperança, reencontro algum otimismo.</p>
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<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Bela, recatada e do lar e a síntese do atraso</title>
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		<pubDate>Wed, 29 Mar 2017 20:51:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Monalisa Soares]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Feminismo]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; Muito se falou nos últimos anos sobre uma primavera das mulheres. Em 2015, quando as mobilizações começaram a emergir, nós feministas estávamos nas ruas contra projetos de lei conservadores <a class="read-more" href="https://apulga.com/bela-recatada-e-do-lar-e-a-sintese-do-atraso/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1637" style="width: 760px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2017/03/Bela-recatada-e-do-lar33.jpg"><img class="size-full wp-image-1637" alt="Imagem retirada do incrível Tumblr http://belarecatadaedolar.tumblr.com/" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2017/03/Bela-recatada-e-do-lar33.jpg" width="750" height="563" /></a><p class="wp-caption-text">Imagem retirada do incrível Tumblr http://belarecatadaedolar.tumblr.com/</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Muito se falou nos últimos anos sobre uma primavera das mulheres. Em 2015, quando as mobilizações começaram a emergir, nós feministas estávamos nas ruas contra projetos de lei conservadores capitaneados pelo então presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Naquela altura, ainda que sob forte ataque, tínhamos uma mulher na Presidência da República. Não que isso significasse muito em termos de políticas públicas, mas tinha uma representatividade simbólica que nenhuma de nós poderia ignorar. De lá para cá, tudo virou do avesso.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"><strong>Temer conseguiu o feito de repetir algo visto pela última vez na ditadura militar: é o primeiro desde Geisel (1974-1979) que não possui mulheres no primeiro escalão do governo. Será que não havia mulheres competentes para tais funções?</strong></strong><strong></div></strong></h3>
<p>Há 10 meses, desde sua posse interina, Michel Temer tem demarcado a posição de seu governo face às questões de gênero, em especial às desigualdades entre homens e mulheres. Já na formatação da composição ministerial, lá estava a foto de homens (brancos, heterossexuais e velhos). Temer conseguiu o feito de repetir algo visto pela última vez na ditadura militar: é o primeiro desde Geisel (1974-1979) que não possui mulheres no primeiro escalão do governo. Naquele momento, quando interpelado por tal questão, o governo, através do ministro Padilha, disse que o critério do convite não era gênero e sim competência. A emenda saiu pior que o soneto, queria sugerir o ministro que não havia mulheres competentes para tais funções?</p>
<p>Esse episódio deixou explícito, inacreditavelmente, que questões as quais pensamos haver superado, não contentes em voltar à cena, tomaram de conta dela. O machismo explícito na prática política foi o que mais me chamou atenção. Como eu disse antes, não que vivêssemos no país mais progressista em termos de direitos das mulheres, mas um retrocesso tão grande foi para mim algo inimaginável. Imagino que também o foi para muitas feministas. A “nova” realidade era tão anacrônica que fiquei a pensar: onde vamos parar?</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">O machismo explícito na prática política foi o que mais me chamou atenção. Um retrocesso tão grande foi para mim algo inimaginávelA “nova” realidade era tão anacrônica que fiquei a pensar: onde vamos parar?<strong> </strong></strong><strong></div></strong></h3>
<p>A interinidade passou, mas o governo Temer continuou a reproduzir a mesma perspectiva conservadora e machista em relação às mulheres. Além de assumir uma agenda econômica restritiva, a qual impacta fortemente na vida das mulheres, o governo nomeou para a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) uma ex-deputada que havia sido membro da Frente Parlamentar Evangélica. Fátima Pelaes se colocava abertamente contra o aborto, inclusive, em casos de estupro. Fatidicamente na semana em que a secretária fazia suas declarações sobre o tema, ocorreu o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro, caso que teve repercussão nacional e gerou profunda indignação nos movimentos feministas e sociedade em geral. Outro aspecto relevante a ser destacado é que, não obstante o perfil conservador de Fátima Pelaes, a SPM passou a ser um órgão vinculado ao Ministério da Justiça, tornando claro que as questões relativas a vidas das mulheres, como a violência a que estamos submetidas, seriam tratadas como questão de polícia exclusivamente.</p>
<p>A perspectiva machista do governo Temer se desdobrou por fim no retorno de um tema que há muito os movimentos que lutam pelos direitos das mulheres têm buscado superar: o primeiro-damismo. O retorno do primeiro-damismo revela as duas faces da moeda conservadora do atual governo: por um lado retira as mulheres do lugar de protagonismo na formulação das políticas públicas, Marcela Temer é uma embaixadora (uma modelo), e por outro desmobiliza os esforços construídos ao longo dos últimos anos em torno dos direitos sociais. Desse modo, é fundamental destacar que a agenda econômica, que retira os direitos sociais, também revela traços de uma agenda conservadora moralmente, que busca voltar a atribuir para as mulheres o domínio do mundo privado.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"><strong>O retorno do primeiro-damismo revela as duas faces: </strong><strong>por um lado retira as mulheres do lugar de protagonismo na formulação das políticas públicas e por outro desmobiliza os esforços dos últimos anos em torno dos direitos sociais. </strong></strong><strong></div></strong></h3>
<p>A “bela, recatada e do lar” é, portanto, a síntese representativa das mulheres que o governo busca reconstruir. Os discursos de Temer no 8 de março, atribuindo exclusivamente às mulheres o cuidado com a vida privada e a educação dos filhos e também desmerecendo qualquer contribuição no mundo público, afinal na economia o que fazemos de melhor é verificar a alteração nos preços, servem de esteio para que os demais (homens) membros do governo e aliados reforcem essa perspectiva conservadora e machista sobre nós mulheres. Exemplos disso não faltam, destaco três para termos dimensão: a) ministro da saúde afirma que as crianças são obesas por responsabilidade das mães que trabalham fora de casa; b) relator da reforma da previdência afirma que a diferença etária para aposentadoria só poderia ser atribuída para mulheres casadas, que cuidam de filhos e marido; e c) relator da terceirização afirma que “ninguém faz limpeza melhor do que as mulheres” e que quando se avalia o ambiente que o trabalhador se insere deve-se perguntar “como é a mulher dele?”. Tais discursos reatualizam o que há de mais atrasado no repertório machista e conservador acerca das mulheres.</p>
<p>É relevante destacar que as lideranças políticas vinculadas ao governo Temer, incluindo ele próprio, reproduzem tal discursividade machista porque acreditam/concordam e vivenciam isso em suas experiências cotidianas, mas, sobretudo, porque ganham politicamente com esse discurso. O perfil conservador que emergiu no Congresso Nacional não é fruto exclusivamente de alguma distorção no sistema de eleição proporcional, esses parlamentares representam segmentos da sociedade que concordam com a abordagem dada aos temas de gênero, diversidade sexual, entre outros.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"><strong>Em face desse cenário sombrio, temos que reunirmo-nos, encontrarmo-nos, somarmo-nos, ou como diria Italo Calvino: “procurar e reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço”.</strong><strong> </strong></strong><strong></div></strong></h3>
<p>O acompanhamento das notícias diariamente causa estarrecimento. Para muitas/os de nós ainda parece difícil elaborar como depois de 6 anos de um mandato da primeira mulher Presidenta da República vejamos o retorno de tamanho conservadorismo, assim como do retrocesso no âmbito das políticas sociais. Como professora e feminista me inquieta ainda mais. Discutir as questões de gênero, mesmo no ensino superior, sempre comportou alguma dose de destreza na abordagem, afinal é importante que todas/os se sintam parte do debate. Atualmente, em tempos de “escola sem partido” rondando as salas de aula, escuto cada dia mais as queixas e receios das/os colegas. Notícias sobre professoras/es processados por discutir gênero e feminismo começam a surgir.</p>
<p>Em face desse cenário sombrio, temos que reunirmo-nos, encontrarmo-nos, somarmo-nos, ou como diria Italo Calvino: “O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: procurar e reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço”. Que diante de tudo isso, resistamos juntas/os.</p>
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