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	<title>A Pulga &#187; Resenha</title>
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	<description>Um coletivo diletante de ideias</description>
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		<title>Somos linchadores virtuais</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Jul 2015 06:30:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Alan Santiago]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Casa da Palavra]]></category>

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		<description><![CDATA[Todos aguardamos pacientemente o momento de expor com raiva canina os erros cometidos por outros nas redes sociais Depois que li “So You’ve Been Publicly Shamed”, livro do jornalista norte-americano <a class="read-more" href="https://apulga.com/somos-linchadores-virtuais/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1033" style="width: 1149px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/07/Literata-6-Linchamento-virtual.jpg"><img class="size-full wp-image-1033" alt="Ilustração: Yuri Leonardo" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/07/Literata-6-Linchamento-virtual.jpg" width="1139" height="800" /></a><p class="wp-caption-text">Ilustração: Yuri Leonardo</p></div>
<p><i><br />
Todos aguardamos pacientemente o momento de expor com raiva canina os erros cometidos por outros nas redes sociais</i></p>
<p><i></i><span style="line-height: 1.5em;">Depois que li “So You’ve Been Publicly Shamed”, livro do jornalista norte-americano Jon Ronson, tive mais certeza de que estamos mesmo nos tornando linchadores virtuais. O texto leve de Ronson, que investiga as particularidades da vergonha na era digital, deixa evidente a insensatez do justiçamento, que, para mim, é a mais abjeta forma de vingança.</span></p>
<p>A imolação dos pecadores segue um mesmo ritual macabro, com a exceção de dois ou três nomes próprios: alguém, por inocência ou má-fé, aperta o botão enviar com um comentário considerado desrespeitoso demais para ser uma mera piada de humor negro, e quase instantaneamente uma horda ensandecida e empunhando tochas arromba a porta do cômodo, arranca o sujeito da frente do computador e o leva para uma fogueira armada no meio da rua, onde geralmente a madeira já crepita; a figura perde o emprego, algumas amizades e às vezes até a segurança de sair na rua. Em poucos dias, o tuiteiro passa de companheiro descolado a condenado sem remissão, sem direito a defesa e, pior, obrigado a rever o calvário inteiro ao clique de um mouse.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Em poucos dias, o tuiteiro passa de companheiro descolado a condenado sem remissão, sem direito a defesa e, pior, obrigado a rever o calvário inteiro ao clique de um mouse.</div></strong></h3>
<p>Ronson conta a história da diretora de comunicação Justine Sacco, que, pouco antes de entrar num voo em direção à África do Sul, em 2013, onde ia visitar a família, teve a infelicidade de elaborar o seguinte tuíte: “Partindo para a África. Espero não pegar Aids. Brincadeirinha. Sou branca!”. A internet explodiu; Justine, depois, é claro, morreu metaforicamente. Perdeu o emprego e passou um bom tempo trancafiada em casa. Acabou indo fazer trabalho voluntário na mesmíssima África que pichou na internet.</p>
<p>Outro caso, de 2012, é o da professorinha de escola infantil, Lindsey Stone, que, diante da placa “Silence and Respect”, do Arlington National Cemetery, um cemitério militar em homenagem aos mortos nas guerras americanas, fingiu que gritava enquanto levantava o dedo médio numa foto postada no Facebook. Já havia feito outras peripécias do gênero sem maiores consequências, como simular que fumava num lugar proibido. Era uma brincadeira recorrente que compartilhava com um amigo. De críticas ao peso dela até ameaças de morte, Stone recebeu de tudo via comentário.</p>
<p>Cada uma à sua maneira, Sacco e Stone disseram a Ronson que foram mal interpretadas: Sacco pensou que fazia uma crítica, em verdade, ao privilégio e à desigualdade; Stone visou muito mais a mensagem simples da placa do que o subtexto histórico e militar que estava contido lá. Mas as justificativas delas pouco interessam. Não porque seus erros sejam injustificáveis, mas porque, mesmo que esses erros não fossem sob qualquer hipótese justificáveis, ainda assim não acredito que amarrar alguém num poste e açoitá-lo até a morte seja um modo saudável e humano de punir erros e desvios. É fisicamente ruim na vida real; é desumano também na internet com a capacidade de infinita reprodutibilidade —sobre isso, vale a pena ler o capítulo em que Ronson tenta ajudar Stone a se livrar das inúmeras referências negativas a seu nome e percebe que o mecanismo de pesquisa do Google é inteligente demais para deixar cair no esquecimento um fato que pode trazer ainda tantos cliques.</p>
<p>Pois, enquanto nos casos Sacco e Stone há uma suposta possibilidade de que as suas atitudes estejam mergulhadas de fato numa zona cinzenta (pondo-as no grupo das pessoas ‘boas’ em ações babacas), um caso brasileiro não deixa dúvidas de que a autora saiu, de propósito, vestida para matar, mas, apesar disso, não mereceu o que fizemos com ela.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Não acredito que amarrar alguém num poste e açoitá-lo até a morte seja um modo saudável e humano de punir erros e desvios. É fisicamente ruim na vida real; é desumano também na internet com a capacidade de infinita reprodutibilidade.</div></strong></h3>
<p>Era outubro de 2010, e a presidente Dilma Rousseff tinha acabado de ganhar as eleições. Eu me lembro muito bem, porque estive particularmente envolvido naquele período eleitoral —a verdade é que a gente tem muito tempo livre na época de faculdade. Quando saiu o resultado, dava para ouvir uma saraiva de balas de 140 caracteres pela janela. A paulistana Mayara Petruso, por exemplo, estava fula da vida: “Nordestisto (sic) não é gente, faça um favor a Sp, mate um nordestino afogado!”</p>
<p>Do sétimo andar de um apartamento no bairro de Fátima, em Fortaleza, eu trucidei Mayara no Twitter. Dizer que ela ia ser presa foi o mínimo. Outros me acompanharam. É até bem possível que você também tenha se juntado a mim nesse belo exemplo de linchamento virtual: @mayarapetruso era estagiária num escritório de advocacia, que a dispensou pouco depois daquele domingo; ela entrou numa espécie de crise de pânico, não saindo mais à rua, não indo à faculdade, que abandonou em seguida, e tendo crises de choro, segundo os familiares contaram à imprensa; o Ministério Público abriu investigação contra ela, e a conta do Twitter apagada em desespero não impediu, e a propósito não impede hoje, de as provas do crime estarem todas vivas, até com os deslizes de digitação. Para nosso deleite, o caso ainda rendeu matérias no jornal “Daily Telegraph”, na agência “AP” e na emissora “Fox News”. Tudo com a foto de Mayara.</p>
<p>Não sei ao certo quem foi o primeiro a puxar os cabelos dela e arremessar a moça no fogo, mas confesso que, na época, marejei os olhos por aquela criminosa estar ali derretendo e esguichando de dor bem pertinho de nós. Mayara entronou-se, para mim, como o primeiro espécime a ser identificado, julgado e condenado em poucos dias, numa celeridade que o judiciário brasileiro jamais concebeu.</p>
<p>Em 2012, a Justiça oficializou o que nós já tínhamos decretado dois anos antes: Mayara acabou sentenciada a um ano, cinco meses e quinze dias de prisão, uma pena abaixo do mínimo legal e convertida em prestação de serviços. A decisão está disponível online, e a juíza Monica Camargo optou por esse caminho pela “punição moral de fato a que Mayara foi submetida” e porque as consequências da infração “também atingiram a própria acusada de forma tão grave”.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Mayara entronou-se como o primeiro espécime a ser identificado, julgado e condenado em poucos dias, numa celeridade que o judiciário brasileiro jamais concebeu.</div></strong></h3>
<p>Pode parecer erroneamente que estou defendo um relaxamento do castigo em comparação ao crime e que, afinal, tudo passasse incólume. Muito ao contrário, acho que ela e todos os outros que cometeram xenofobia agora e naquela época, em 2014, na reeleição da Dilma, devem ser identificados, julgados e condenados (culpados, se possível). Como nordestino, me ofendo com cada comentário desse gênero que leio ou escuto na rua. Mas, sem querer ser legalista demais ou em outras palavras realista de menos, não consigo vislumbrar outra forma de punir pessoas que cometeram crimes senão pelo mecanismo judicial.</p>
<p>O que fizemos lá não foi isso. Ou melhor, não apenas isso. Hackearam até o (saudoso) Orkut da estudante. Reproduziram o tuíte dela em prints que ficaram fazendo voltas <em>ad aeternum</em> pela troca de bits na rede. Qualquer pesquisa rápida no Google retorna uma imensidão de páginas contando a história —essa é uma delas, feliz ou infelizmente. Nós destruímos não só a vida profissional e emocional de Mayara, mas quem sabe até a vida amorosa. Imagine pesquisar o nome da paquera e saber que ela vomitou o mais sórdido e pútrido preconceito. Em tempos de Tinder, todos nós damos um block, na vida real ou no Facebook, e passamos para a próxima. Mesmo que a pessoa, cinco anos depois, seja completamente outra. Eu e você mudamos de 2010 para cá; ela, veja só, é muito provável que também tenha. A diferença é que ela está marcada para sempre e nós, não.</p>
<p>Esse tipo de justiçamento ganhou força no Brasil com a visibilidade inevitável que ações do gênero começaram a ter na internet americana. A caça às bruxas se tornou bem mais refinado quando entraram no jogo movimentos da sociedade (de direita e de esquerda) que defendiam ideias bem claras e perceberam a necessidade de vencer a partida eliminando o adversário discursivamente. Não à toa há um rosário de termos em inglês, traduzidos ou não, que são uma espécie de receituário para a ação. Acontece que, se antes as Mayaras Petrusos abundavam e eram facilmente decapitadas, agora todo usuário de rede social sabe que se vive num permanente tabuleiro da moral, em que todos, rigorosamente todos podem ser defenestrados desde que se pise um pouco fora da casa. Isso tornou o jogo mais complicado e também internamente mais mortal. O inimigo pode estar em qualquer lugar.</p>
<p>Esse é exatamente o problema. Se todos somos potenciais inimigos, seres falíveis esperando o momento de uma escorregadinha para sermos abatidos, então o julgamento se torna uma fatalidade inevitável, ou seja, muito mais uma confirmação de que sempre fomos culpados —racistas, misóginos, tucanos etc.— do que uma análise que pesa contextos, variações do ambiente ou ainda que se autoavalie como incapaz de fazer mais julgamentos ponderados senão por meio jurídico.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Se todos somos potenciais inimigos, seres falíveis esperando o momento de uma escorregadinha para sermos abatidos, então o julgamento se torna uma fatalidade inevitável, ou seja, muito mais uma confirmação de que sempre fomos culpados —racistas, misóginos, tucanos etc.</div></strong></h3>
<p>Durante o século XVI, se a bruxa praguejasse contra os inquisidores de Deus enquanto virava cinzas na fogueira era atestado de culpa; se se calasse, era confirmação de que sua mágica a impedia até de sentir dor, logo, culpadíssima; se a palha demorasse a pegar fogo, era sinal claro de que os considerados poderes atrapalhavam até a execução da pena, então, culpadérrima. O cheiro da madeira queimada em 1567 sob os pés de bruxas rescende nos tuítes do século XXI.</p>
<p>E assim como naquele período tenebroso da história, nossa fogueira 2.0, com entrada USB e 30 Mbps, em farta medida cresce cada vez mais alta, porque pessoas que confiamos e que compartilham de nossos valores reproduzem irrefletidamente o mesmo manual de horror medieval nas redes sociais com outros que ainda não somos nós.</p>
<p>Vou citar um pensador a contragosto. O psicólogo social e físico amador francês Gustave Le Bon (1841-1931) —também misógino e racista, mas isso é outra história— tem uma definição hiperbólica sobre a mentalidade das pessoas em meio à multidão. No livro best-seller “La psychologie des foules”, lançado em 1895, ele escreve (apud Ronson): “Pelo simples fato de se fazer parte de uma massa organizada, um homem decai vários degraus na escada da civilização. Isolado, pode até ser um indivíduo refinado; na multidão, é um bárbaro —isto é, uma criatura que age pelo instinto (&#8230;) Na multidão, todo sentimento e ato são contagiosos.”</p>
<p>É um exagero. Trata-se da escrita de um sujeito influenciado pela ciência que se fazia em fins do século XIX, por isso minha contrariedade inicial, mas aponta para um cerne que, a despeito do que acreditava o autor em outras questões, é verdadeiro. Deixando de lado camadas e camadas de glacé positivista, Le Bon abriu margem para se entender que a manada, essa sem rosto mas cheia de vontades, mesmo se constituída de pessoas que compartilhem um ideal nobre, pode descambar para a barbárie, caso seus membros não se mantenham em contínuo questionamento do que estão fazendo e, em especial, de <i>como</i> estão fazendo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A cobra da moralidade morde o próprio rabo um dia, e eu não quero estar nessa extremidade quando isso eventualmente acontecer. Por que, então, deveria contribuir quando o assado no espeto é o outro?</div></strong></h3>
<p>Participei de outros linchamentos depois daquele de Mayara. O último foi o do professor de literatura Idelber Avelar. Li, com renovado prazer, tudo o que se havia publicado a respeito na blogosfera brasileira. A certa altura, um escritor, meu amigo no Facebook, divulgou um comentário maldoso com um link para o Tumblr que reunia conversas privadas de Avelar com as mulheres que o acusavam de machismo e abuso psicológico. No mural de comentários, disparei: “Não entendo como alguém que se mostra publicamente defensor das minorias pode ter tão pouca empatia com mulheres e maridos traídos”. Não pude me sentir mais estranho. “Uma coisa não tem a ver com a outra. Sexualidade e vida pública são esferas separadas”, me respondeu outro internauta. Foi o suficiente para apagar o que havia escrito.</p>
<p>Percebi que estava mais uma vez colaborando para aniquilar um sujeito que não conheço e sobre o qual não tenho meios materiais nem morais para julgar. A bem da verdade, ninguém tem, exceto os poucos envolvidos na querela. A cobra da moralidade morde o próprio rabo um dia, e eu não quero estar nessa extremidade quando isso eventualmente acontecer. Por que, então, deveria contribuir quando o assado no espeto é o outro?</p>
<p>Enquanto no pátio da internet as pessoas se divertem levando muitos à forca, baseando-se numa régua moral estreitíssima, tenho preferido ir para uma rua ou viela onde o rebuliço esteja em outro patamar, menos passional, mais racional e ponderado, o que ainda é possível. Caso contrário, é melhor voltar para casa e assistir ao vídeo das preguiças-bebês curtindo um banho de banheira.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Vida sem medo</title>
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		<pubDate>Thu, 07 May 2015 21:13:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Alan Santiago]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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		<description><![CDATA[Eduardo Galeano (1940-2015) dedica muitas páginas de &#8220;As Veias Abertas da América Latina&#8221;, um de seus livros mais conhecidos, à história de Potosí, uma cidade boliviana que teve suas reservas <a class="read-more" href="https://apulga.com/vida-sem-medo/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a style="line-height: 1.5em;" href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/05/Literata-5-Eduardo-Galeano2.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-911" alt="Eduardo Galeano" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/05/Literata-5-Eduardo-Galeano2.jpg" width="1063" height="794" /></a></p>
<p>Eduardo Galeano (1940-2015) dedica muitas páginas de &#8220;As Veias Abertas da América Latina&#8221;, um de seus livros mais conhecidos, à história de Potosí, uma cidade boliviana que teve suas reservas de prata plenamente exauridas entre os séculos XV e XVIII, chegando aos anos 1970, época da publicação da obra, amargando uma pobreza franciscana. Alguns escritores bolivianos chegaram a dizer, em rasgos de grandiloquência, que a Espanha havia recebido prata suficiente para fazer uma ponte da Bolívia à Europa.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A ideia de uma ponte imensa, imemorial, esculpida em prata, perfazendo um caminho ao mesmo tempo cheio de poesia e dor. Essa é também a melhor descrição da obra de Galeano &#8211; seus livros, suas entrevistas, seu pensamento sobre o mundo<strong>.</strong></div></strong></h3>
<p>A tragédia de Potosí sempre me impressionou exatamente por essa imagem: a ideia de uma ponte imensa, imemorial, toda esculpida em prata, perfazendo um caminho ao mesmo tempo cheio de poesia e dor. Acho que essa é também a melhor descrição da obra de Galeano &#8211; - seus livros, suas entrevistas, seu pensamento sobre o mundo.</p>
<p>Ele nos diz que a história constrói, à nossa revelia, uma ponte dolorosa e necessária em direção ao horizonte; entender em que ponto da caminhada estamos ou o que significa ser o que somos é crucial para seguir adiante. Isso transformaria a realidade num lugar de absoluta potência. Veja só: &#8220;Na verdade eu escrevo para celebrá-la [a realidade]. E, celebrando, denuncio tudo o que impede que a gente reconheça nos demais e em nós mesmos as múltiplas cores do arco-íris terrestre. Somos muitíssimo mais do que nos dizem que somos&#8221;, resumiu ao programa &#8220;Sangue Latino&#8221;, do Canal Brasil.</p>
<p>Embora tenha escrito muito sobre o passado e refletido sobre ele, Galeano tinha em mente sempre o futuro, esse lugar da utopia. Não à toa falava tanto dela. A utopia, que nunca será alcançada, serve para caminhar, relembra em várias entrevistas. Reiteradas vezes também, trazia à tona esse mundo &#8211; considerado impossível, improvável ou, pior, entendido como uma alegoria antiquada-, que está na interseção entre a história, a política e o sonho.</p>
<p>Numa manifestação juvenil na Catalunha, em maio de 2011, disse que o entusiasmo visto ali era a prova de que viver valia a pena. &#8220;E viver está muito mais além da mesquinharia da realidade política, onde se ganha ou se perde, e da realidade pessoal também &#8211; onde só se pode ganhar ou perder. Há um mundo que &#8216;pode ser&#8217; nascendo no mundo que &#8216;é&#8217;.&#8221;</p>
<p>Também para a Catalunha, mas dessa vez ao programa &#8220;Singulares&#8221; do canal 3, pediu que o espectador se desse o direito ao delírio. &#8220;A morte e o dinheiro perderão seus mágicos poderes. E nem por falecimento nem por fortuna um canalha se converterá num virtuoso cavalheiro&#8221;, leu, ao som do piano. &#8220;A educação não será um privilégio de quem possa pagá-la, e a polícia não será a maldição de quem não possa comprá-la.&#8221;</p>
<p><span style="line-height: 1.5em;">Por isso, quando ele morreu, morreu também uma parte da esperança do mundo; minguou, para mim, pelo menos, isso que estou chamando de esperança, mas que talvez seja melhor dizer: sentimento do mundo &#8211; aquilo que é ao mesmo tempo uma visão total da complexidade da vida e também uma &#8220;racionalidade&#8221; antes de tudo sentimental e amorosa do universo. Galeano era esse sentimento.</span></p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Ele nos diz que a história constrói, à nossa revelia, uma ponte dolorosa e necessária em direção ao horizonte; entender em que ponto da caminhada estamos ou o que significa ser o que somos é crucial para seguir adiante. Isso transformaria a realidade num lugar de absoluta potência<strong>.</strong></div></strong></h3>
<p>(Vale ponderar que essa característica estava muito mais associada à sua figura de pensador que ao trabalho como escritor do livro &#8220;Veias Abertas&#8221; &#8211;o que é legítimo. Houve indícios disso na Bienal do Livro, em Brasília, quando ele afirmou que &#8220;não seria capaz de ler de novo esse livro, cairia desmaiado&#8221;. &#8220;Para mim essa prosa de esquerda tradicional é chatíssima. O meu físico não aguentaria. Seria internado no pronto-socorro&#8221;, divertiu-se. Embora o livro ainda seja uma aproximação válida a sua obra, o Galeano hoje não ficou parado no tempo e atualizou, como pôde, suas análises sobre a vida.)</p>
<p>Felizmente não restam agora somente os que se calam ou, o que é ainda uma tenebrosa realidade, os que &#8220;se dedicam a atormentar a humanidade&#8221; e que &#8220;vivem vidas enormes&#8221;. (&#8220;Não morrem nunca. Porque não têm uma glândula que, na verdade, é bem rara e que se chama consciência; é o que nos atormenta nas noites&#8221;, riu ao programa &#8220;Sangue Latino&#8221;).</p>
<p>Creio que existem também a nosso redor, e cada vez mais, aqueles que dizem &#8220;não&#8221;. Há um aprendizado poético e político na negação, como o personagem Bartleby que &#8220;preferiria não fazer&#8221;. E, de algum modo, a obra de Galeano compartilha com essas pessoas, desajustadas e incoerentes, a força do &#8220;não&#8221;, esse &#8220;não&#8221; à injustiça e ao desamor. De seus passeios por Montevidéu, do café que bebia no restaurante El Brasilero e que ganhou seu nome, das obras lançadas, das palestras e entrevistas, acho que ele deixa pra trás esse pequeno gesto grande de dizer &#8220;não&#8221; e, assim, poder acreditar num mundo onde seja possível viver sem medo.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>A casa da literatura é lá fora</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Oct 2014 12:43:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Alan Santiago]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Casa da Palavra]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; Como três grandes escritores elaboram em seus trabalhos o jogo entre dizer e esconder. Os escritores Scott Fitzgerald, James Salter e Patrick Modiano reforçam uma ideia que tenho considerado <a class="read-more" href="https://apulga.com/a-casa-da-literatura-e-la-fora/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<h2></h2>
<div id="attachment_700" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/10/Modiano3.jpg"><img class="size-full wp-image-700" alt="Patrick Modiano, escritor, vencedor do Nobel de 2014" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/10/Modiano3.jpg" width="640" height="431" /></a><p class="wp-caption-text">Patrick Modiano, escritor, vencedor do Nobel de 2014</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<h2><em>Como três grandes escritores elaboram em seus trabalhos o jogo entre dizer e esconder.</em></h2>
<p>Os escritores Scott Fitzgerald, James Salter e Patrick Modiano reforçam uma ideia que tenho considerado cada vez mais instigante: a literatura é, em verdade, tudo o que acontece fora dela, mas só poucos conseguem contaminar essa empreitada com o jogo preciso entre opacidade e transparência.</p>
<p>A escolha dos autores não foi ao acaso, embora muitos outros possam ser elencados. O francês Modiano, recém-Nobel de 2014, e os outros dois norte-americanos fizeram de suas produções literárias o reino primordial e consciente do não-dito.</p>
<p>É assim, por exemplo, na trama que conduz o narrador Nick Carraway, um jovem vendedor de títulos de crédito em Wall Street, à vida do milionário espúrio Jay Gatsby no romance &#8220;O Grande Gatsby&#8221;, que Fitzgerald (1896-1940) lançou em abril de 1925.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> A escolha dos autores não foi ao acaso. O francês Modiano e os outros dois norte-americanos (Fitzgerald e Salter) fizeram de suas produções literárias o reino primordial e consciente do não-dito.</div></strong></h3>
<p>O senhor Carraway aluga uma casa simples, US$ 80 ao mês, ao lado da mansão de Gatsby, aceita aproximá-lo da prima casada Daisy, com quem o &#8216;empresário&#8217; teve um affair no passado, e acaba vendo, após discussões e um atropelamento, todas aquelas traições amorosas degringolarem para um assassinato seguido de suicídio.</p>
<p>Há múltiplas interpretações para o livro, porque nas suas 218 páginas pouco é conhecido. A começar pelo sujeito que conta a história em primeira pessoa. Quem é Nick? O rapaz que considera a si próprio reservado, consciencioso, honesto?</p>
<p>Uma autodescrição que me parece pouco confiável, ainda que nada de estrondoso diga o contrário. Mas a relação bastante nublada que ele tem com a esportista Jordan Baker abre portas para um Nick que nunca conheceremos.</p>
<p>E quem seria, então, o misterioso Gatsby? O homem cujo sorriso é descrito como parecendo &#8220;encarar todo o mundo, a eternidade, e então se concentrava sobre você, transmitindo-lhe uma simpatia irresistível&#8221;? Ou seria ainda o indivíduo apaixonado pela fútil Daisy, que transformou sua escalada em direção à riqueza numa tentativa vã de reconquistá-la?</p>
<p>Pela ótica apaixonada de Nick, Gatsby é uma vítima do dinheiro, da imprudência de Daisy e da covardia de Tom Buchanan, o marido dela.</p>
<p>Mas suas tramoias profissionais nunca explicadas por inteiro e a promiscuidade sexual sugerida entre Gatsby e o velho, rico, &#8220;melhor amigo&#8221; Dan Cody deixam entrever um Jay egoisticamente motivado.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Agora, para a felicidade da literatura, o que temos é essa visão de Nick, limitada por suas fraquezas e paixões. Uma análise do mundo que se dissolve nas mãos do leitor.</div></strong></h3>
<p>Pouco populares, essas partes desconfortáveis, digamos, acabaram sendo ignoradas no filme de Jack Clayton para dar aquele clima todo especial a um Gatsby loiro, bonito e alto vivido por Robert Redford, em 1974. (Mas &#8220;O Grande Gatsby&#8221; do cinema é bom. Vale assistir.)</p>
<p>Agora, para a felicidade da literatura, o que temos é essa visão de Nick, a um só tempo global e limitada por suas próprias fraquezas e paixões. Uma análise do mundo que se dissolve nas mãos do leitor &#8211;junto com o calor que faz ao longo de todo o enredo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>ESCURIDÃO</strong></p>
<p>Enquanto os ricos do East Egg fitzgeraldiano bebem campanhe e tomam banho de piscina, o detetive particular amnésico Guy Roland se despede do patrão Hutte e parte numa caminhada noir em busca da própria identidade.</p>
<p>Em &#8220;Uma Rua de Roma&#8221;, publicado no Brasil em 1986 pela Rocco, Modiano, assim como faz em seus outros livros, joga o personagem principal diante de um abismo que é o passado.</p>
<p>Guy é um nome falso. Seus documentos foram providenciados por Hutte, que o admitiu no negócio de investigações particulares recomendando que ele &#8220;pense no presente e no futuro&#8221;.</p>
<p>Mas, quando tudo desmorona com a aposentadoria do dono da agência, só lhe resta embarcar no rastro de pistas suspeitíssimas: dois barmen dizem que ele fazia parte da turma de Stioppa de Djagoriew &#8211;ou seria hóspede do Hotel Castilles?; na saída de um enterro, persegue um homem que acredita ser o tal russo; na casa do sujeito, para onde é levado após abordá-lo de maneira atabalhoada, acredita ver a si próprio mais jovem numa foto em que um homem qualquer está de braços dados com uma moça.</p>
<p>Assim, durante todo o resto da trama, essas impressões esfumaçadas, coincidências impossíveis, dados que só alguém soturno e desesperado pode levar seriamente em consideração vão guiando esse romance sobre uma fuga.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Em &#8220;Uma Rua de Roma&#8221;, Modiano , assim como faz em seus outros livros, joga o personagem principal diante de um abismo que é o passado.</div></strong></h3>
<p>E o encontro que tem com a inquilina do antigo apartamento onde teria morado com a mulher é exemplo do labirinto noturno que aquelas memórias suas ou alheias lhe impuseram.</p>
<p>Cheia de reticências, ela pergunta se é McEvoy. E ele, sem qualquer certeza, confirma para depois ouvir da criatura: &#8220;O senhor não mudou muito&#8221;. O comentário é muito menos uma afirmação de reconhecimento do que uma espécie de concessão que a personagem faz diante daquela figura que se diz McEvoy.</p>
<p>A visão de André Wildmer num bar também não é menos fantasmagórica. Que amigo, reencontrando alguém que supunha ter morrido em mãos nazistas, viraria as costas para conversar amenidades com parceiros de copo, mesmo depois de ter trocado palavras de reconhecimento?</p>
<p>Agindo desse modo, Wildmer é uma pista tão falsa quanto a inquilina, a fotografia, o russo &#8211;ou Howard de Luz, a Rue de Rome, Bora Bora.</p>
<p>Nas últimas páginas, quando a narrativa começa a ser inundada pelo passado daquele judeu que foge da França ocupada na Segunda Guerra, antes de descobrir de fato o que vivenciou Guy, estamos, na verdade, diante do nascimento da memória e das múltiplas bifurcações possíveis nesse percurso.</p>
<p>O chão é movediço e arenoso. Acaba sendo de uma clareza paradoxal: a verdade que Modiano teceu ao longo do livro está em algum ponto obscuro, que nunca será atingido.</p>
<p>Não à toa o último capítulo soa como o retrato de um montanhista que, ao chegar ao topo visível do monte, percebe que aquela formação rochosa segue muito acima, às nuvens, sem que se consiga ver de fato seu cume.</p>
<p><strong>MEU SENHOR, CONTIGO</strong></p>
<p>Fiquei muito admirado com este livrinho lançado em 2005 por James Salter: &#8220;Last Night&#8221; &#8211;estou falando da seleção original e não do volume da Companhia das Letras&#8211; são dez contos que têm o cruel objetivo de desestabilizar.</p>
<p>Personagens muito importantes desaparecem sem grandes explicações, momentos capitais são menosprezados diante de situações menos dramáticas e banais, detalhes menores ganham dimensão impensada a princípio.</p>
<p>Em &#8220;Comet&#8221;, um sujeito se pega olhando as estrelas após discutir com a mulher durante um jantar entre amigos; nas linhas de &#8220;Eyes of the Stars&#8221;, uma produtora termina a noite em casa, solitária, depois que a atriz contratada para as filmagens decide ignorá-la e sair com seu parceiro de cena; já em &#8220;Give&#8221;, o marido aborda seu funcionário depois que a esposa lhe faz um insólito pedido.</p>
<p>Enfim, Salter, nascido em 1925 em Nova York, parece estar sempre querendo dizer outra coisa.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Personagens importantes desaparecem sem grandes explicações, momentos capitais são menosprezados diante de situações menos dramáticas e banais.</div></strong></h3>
<p>Mas, entre todas, a história mais cheia de intermitências literárias é &#8220;My Lord You&#8221;. O rendevouz na casa de Deems acaba mal com a chegada de seu amigo Brennan. Já embriagado, o escritor desperdiça todas as oportunidades de ficar calado.</p>
<p>Sugere que Ardis, uma das convidadas, é uma dona de casa sem cultura e fica irritadiço por ela não conseguir reconhecer um poema de Ezra Pound que ele cita de cor. Toca num seio dela e diz: &#8220;Eu tenho dinheiro. Quer que eu faça mais isso?&#8221;</p>
<p>Na volta, o marido de Ardis comenta sobre Pound: &#8220;Era um traidor. Fazia transmissões de rádio para o inimigo durante a guerra. Deviam ter atirado nele&#8221;. Ardis questiona: &#8220;Mas o que aconteceu?&#8221; &#8220;Ganhou um prêmio de poesia&#8221;.</p>
<p>Ela não consegue mais sair do ambiente opressivo daquele jantar nos dias seguinte. Vai até à biblioteca e encontra, de Pound, &#8220;The River-Merchant&#8217;s Wife&#8221;, que tem entre seus versos: &#8220;At fourteen I married My Lord you&#8221; &#8211;algo como &#8220;Aos quatorze, me casei, Meu Senhor, contigo&#8221;.</p>
<p>Aquelas linhas a fazem procurar os livros de poesia escritos por Brennan. Mas, devido ao temperamento arredio do autor, as obras não estão mais disponíveis, como Ardis se informa com a bibliotecária.</p>
<p>Então, depois de vasculhar a varanda de Brennan, ela passa a ser seguida diuturnamente pelo cachorro do escritor, que em alguns momentos parece uma estátua egípcia, imponente e assustadora. O bicho aprende onde ela mora. E perscruta o lar de Ardis até acordá-la na cama.</p>
<p>Os versos de Pound, a perseguição do cachorro, o sumiço (quase) permanente de Brennan e a obstinação de Ardis por uma personalidade que lhe causa repulsa interligam-se na superfície do enredo.</p>
<p>Os vestígios para vislumbrar o que tudo isso pode significar vão sendo lançadas aos poucos. Dois deles considero cruciais. O primeiro é um pensamento de Warren, marido de Ardis. &#8220;Uma coisa ele viu: como os homens podem estar perto do desastre não importa o quão seguro eles pareçam&#8221;, escreve.</p>
<p>O segundo é a passagem sorrateira da mulher à casa de Brennan para tentar alimentar o cão. Diante de um espelho, Ardis despe a blusa e fica com os peitos à mostra, os seios que foram alvo da verborragia e da indelicadeza na festa.</p>
<p>Ela é assediada por dois tipos de figura masculina: a do marido, que trabalha &#8220;dando conselhos&#8221; e &#8220;ajudando os outros&#8221;, e o escritor, arrogante, prepotente e ameaçador.</p>
<p>É este segundo homem, com suas possibilidades de violência, dor e paixão, que ela parece ver na figura do cachorro. Ao mesmo tempo, o cão a amedronta, mas a faz regressar. O desejo e o medo andam de mãos dadas.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Tenho, de certo, a diversão de Salter pela literatura, que é essa brincadeira infantil: o chiaroscuro coloca o leitor desarmado perante a imaginação e o sonho.</div></strong></h3>
<p>O que seria a subserviência do eu-lírico no poema poundiano senão a obediência do cachorro ao dono e o encantamento da mulher diante do escritor?</p>
<p>Mas a presença de Brennan num bar sem seu bicho, ao fim do conto, se torna a deixa para reolhar a narrativa, escrita em terceira pessoa, sob uma outra ótica: por não ter motivos racionais para agir, o cachorro, um dos seres mais importantes ali, torna a história o lugar do imponderável e do inapreensível, daquilo que está a “ponto de” &#8211;seja o desastre ou a salvação.</p>
<p>Penso, numa absoluta conjectura livre, no desaparecimento de Brennan como sua materialização fabulosa naquele animal. Mas não sei se teria muitos elementos que corroborassem essa argumentação.</p>
<p>Tenho, de certo, a diversão de Salter pela literatura, que é essa brincadeira infantil: o chiaroscuro coloca o leitor desarmado perante a imaginação e o sonho.</p>
<p>E as construções de Modiano e Fitzgerald produzem igualmente essa sensação de algo ainda a ser dito, não terminado, incompleto por essência, embora mergulhem no inteiro.</p>
<p>O melhor: mas não é assim a própria vida?</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Pirâmide do medo</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Aug 2014 20:03:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Alan Santiago]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Casa da Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[América Latina]]></category>

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		<description><![CDATA[O mexicano Juan Villoro cria no romance “Arrecife” uma certa arquitetura da violência que é, antes tudo, um resumo ilustrado da América Latina. A certa altura de “Arrecife”, novo romance <a class="read-more" href="https://apulga.com/piramide-do-medo/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_604" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/08/Olevante_Rivera.jpg"><img class="size-full wp-image-604 " alt="O levante - Diego Rivera" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/08/Olevante_Rivera.jpg" width="640" height="503" /></a><p class="wp-caption-text">O levante &#8211; Diego Rivera</p></div>
<h2></h2>
<h2><em>O mexicano Juan Villoro cria no romance “Arrecife” uma certa arquitetura da violência que é, antes tudo, um resumo ilustrado da América Latina.</em></h2>
<p>A certa altura de “Arrecife”, novo romance do mexicano Juan Villoro, o protagonista Tony Góngora se depara com uma cena insólita: um sujeito de balaclava e roupa militar, segurando uma AK-47, dá guarida aos comparsas que sequestram as turistas daquele andar.</p>
<p>As moças, entre temor e gozo, deixam-se levar sem muita resistência, porque foram até o Caribe mexicano justamente para aquilo. Os hóspedes do La Pirámide recebem doses controladas de medo. Uma espécie de Disneylândia do terror foi construída na praia de Kukulcán.</p>
<p>Tony não consegue deixar de se admirar com a encenação. Ele é um personagem ao mesmo tempo alheio e parte daquele mundo de mentira. Trabalha lá, tirando música a partir dos peixes. E tudo parece se equilibrar até a morte de Ginger Oldenville, um dos mergulhadores do grande aquário do lugar.</p>
<p>O perigo se tornou real demais num ambiente que era apenas simulacro de terror. Embora seja o núcleo que guia a ação do romance, o assassinato daquele homem, cujo corpo é atravessado por uma lança, é apenas o pano de fundo para se compreender a trama de Villoro.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Essa relação entre um presente policialesco e um passado turbulento é o melhor do livro, porque revela como essa associação está na base dos países latino-americanos.</div></strong></h3>
<p>O passado é a principal questão de La Pirámide. Tony é um desmemoriado por conta do abuso de drogas na juventude. Ele narra a história do ponto de vista daquele que está sempre disposto a recordar —e para quem o passado retorna com insistência, ainda que de forma dolorosa.</p>
<p>Essa relação entre um presente policialesco e um passado turbulento é o melhor do livro, porque revela como essa associação está na base dos países latino-americanos.</p>
<p>O que vivemos senão um presente baseado no medo, que foi se construindo em cima de desejos e expectativas que não fazem mais sentido?</p>
<p>Assim, o romance enxerga de modo muito competente uma espécie de poesia da decadência ao se mover pelas memórias frágeis de Tony. Uma ruína muito própria daqueles países como o nosso, que servem para “salvar os europeus do tédio”.</p>
<p>Por isso os personagens parecem ter se perdido em algum lugar do tempo. Essa aparente melancolia não faz do livro uma peça claustrofóbica. Há possibilidades de respiro. Mas de onde vêm?</p>
<p>Tony tem uma resposta. É irônico e muito preciso que os dois mergulhadores mortos sejam estrangeiros —Roger Bacon, amigo de Oldenville, é o outro. Villoro parece nos dizer que as forças para superar o medo não vêm de fora. Estão, na verdade, próximas do protagonista.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Pode grifar</title>
		<link>https://apulga.com/pode-grifar/</link>
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		<pubDate>Mon, 11 Aug 2014 12:17:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Alan Santiago]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Casa da Palavra]]></category>

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		<description><![CDATA[As grandes editoras se recusaram a aderir ao &#8220;Netflix dos livros&#8221; da Amazon; os autores autopublicados estão indignados por causa dele; o serviço muda o modelo de negócio editorial. E <a class="read-more" href="https://apulga.com/pode-grifar/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/08/Kindle5.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-582" alt="Kindle5" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/08/Kindle5.jpg" width="620" height="433" /></a></p>
<h2><em><em>As grandes editoras se recusaram a aderir ao &#8220;Netflix dos livros&#8221; da Amazon; os autores autopublicados estão indignados por causa dele; o serviço muda o modelo de negócio editorial. E a vantagem para o leitor? Poder usar –leia-se riscar– todos os livros da biblioteca.</em></em></h2>
<p>Um serviço lançado dia 18 de julho pela Amazon tem jogado incertezas no mercado mundial do livro e dividido leitores nos EUA.</p>
<p>O Kindle Unlimited é uma biblioteca digital: por R$ 9,99 ao mês &#8211;cerca de R$ 22, valor que no Brasil (quase) não compra um romance mirrado&#8211;, o usuário tem acesso ilimitado em seu e-reader, tablet ou celular a mais de 600 mil títulos. Por enquanto está disponível apenas nos EUA, sem previsão de chegada no Brasil.</p>
<p>Não há prazo para devolução do exemplar, pode grifar como se o livro fosse seu, baixar um gigantesco acervo de audiolivros e manter até dez e-books de uma só vez. Não à toa ganhou a alcunha de Netflix dos livros.</p>
<p>No Mobileread, um fórum dedicado à discussão de e-books, as opiniões se dividem entre os que mal deixaram o relógio cruzar 24 horas para assinar e os que estão absolutamente reticentes.</p>
<p>Exemplo da primeira espécie: o escritor inglês Dave Robinson, que aderiu pelas séries de ficção científica e a chance de descobrir coisas novas. Amostra do segundo gênero: Joy L., uma engenheira norte-americana, que está pouco disposta a ceder à Amazon.</p>
<p>Segundo ela, aderir a uma biblioteca digital só vale a pena para aqueles que leem mais de três livros por mês –o que até é o caso dela, que me disse já ter batido a suspeitíssima marca de 500 volumes num ano.</p>
<p>“Mas, se o serviço será realmente bom para o leitor, depende da seleção de títulos. E acho que o Kindle Unlimited ainda não alcançou seus competidores na área”, acrescentou.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A Amazon compete não apenas com bibliotecas locais que começaram a emprestar e-books, mas também com empresas que utilizam modelo análogo de negócio.</div></strong></h3>
<p>Essa frase ecoa um pouco a percepção geral da turma do fórum, um bom termômetro para a recepção geral da novidade. A biblioteca que frequentam, afirmam muitos, disponibiliza melhores livros do que o catálogo acessível por meio do Unlimited.</p>
<p>Essa é a grande questão para a Amazon nesse momento. Ela compete não apenas com bibliotecas locais que começaram a emprestar e-books, mas também com empresas que utilizam modelo análogo de negócio.</p>
<p>A Oyster, fundada em setembro de 2013, e o Scribd, –aquele que você baixava de graça PDF pirata– convertido em biblioteca digital paga em outubro daquele ano, rivalizam nesse nicho atualmente com a gigante.</p>
<p>O Scribd, por exemplo, cobra US$ 8,99 mensais e oferta 400 mil títulos de mais de 900 editoras. Na Oyster, por um acesso ilimitado a 500 mil livros, o leitor paga US$ 9,95 mensais.</p>
<p>“A entrada da Amazon no jogo não muda o que viemos fazendo no último ano e só reforça que estamos construindo algo grande”, afirma a porta-voz do Scribd, a americana Lyndsey Besser, numa entrevista que fiz com ela para a Folha de S.Paulo do dia 26 de julho.</p>
<p>Procurei a Oyster também para saber o que a empresa achava de um novo player num mercado que antes era praticamente só dela. A assessoria de imprensa até ensaiou atender a meu pedido de entrevista, mas não se pronunciou mais depois de uns dias –e as edições fecham, as pessoas morrem, o jornal embala peixe etc.</p>
<p>Mas que vantagem teriam  sobre a maior livraria do mundo as “modestas” Oyster e Scribd, que têm menos livros no catálogo e cobram quase o mesmo preço?</p>
<p>Fizeram parceria com algumas das principais  editoras americanas. A Amazon, não.  Mesmo quem assina o Unlimited e quiser ler livros da Nobel americana Toni Morrison ou do angloindiano Salman Rushdie, ambos publicados pela Penguin, terá de pagar por eles.</p>
<p>Stephen King, da Hachette, é outro que está fora. A Hachette, por  sinal, discute ardorosamente na justiça com a Amazon sobre os preços de seus livros vendidos lá. Está acusando a varejista inclusive de atrasar entregas de propósito. Há algo de podre no  reino da Dinamarca.</p>
<p>Simon &amp; Schuster, HarperCollins e Macmillan, completando as cinco grandes, decidiram também não disponibilizar seu acervo. (Pelo menos, por enquanto, amigos.)</p>
<p>A Amazon é só silêncios sobre muitas coisas e, previsibilíssima, não dá detalhes dessa negociação infrutífera.</p>
<p>De qualquer forma, o interesse da varejista por serviço de assinatura eletrônica de e-books  grita os próximos passos da indústria.</p>
<p>E, do mesmo jeito que uma onda de angústia caiu sobre a cabeça dos editores quando os livros digitais começaram a crescer numa popularidade vertiginosa, a mínima possibilidade de que o Unlimited se torne a regra num futuro próximo já tem feito as casas editoriais franzirem o cenho de desconfiança.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A principal mudança é na remuneração a editoras e autores. Eles deixam de receber por venda e passam a ganhar apenas por livros lidos.</div></strong></h3>
<p>“É muito cedo para saber o que vai acontecer. Isso muda completamente o modelo de negócio. Os próprios editores não sabem qual vai ser a consequência disso nas vendas”, afirma o analista Carlo Carrenho, fundador do Publishnews.</p>
<p>A principal mudança é na remuneração a editoras e autores. Eles deixam de receber por venda e passam a ganhar apenas por livros lidos.</p>
<p>Esse quantum de leitura exigido para que a cadeia produtiva seja de fato remunerada não é fixo. Besser, do Scribd, me disse que e-books de culinária ou de viagem não compartilham da mesma cota mínima dos romances.</p>
<p>No caso da Amazon, pelo menos 10% da edição  deve ser consumida para que os escritores autopublicados tenham retorno.</p>
<p>Por isso a discórdia está disseminada entre eles. O americano Mark Coker, fundador da Smashwords, a maior distribuidora de e-books autopublicados para lojas virtuais nos EUA, tem uma avaliação mais precisa do cenário.</p>
<p>Segundo ele, a forma de pagamento “imprevisível” da Amazon está em franco contraste com o que praticam Oyster e Scribd.</p>
<p>Os autores da Smashwords que estão nessas duas livrarias recebem 60% do preço de capa do livro quando o usuário avança além do exigido. “E esse preço é estipulado por nossos autores”, destaca.</p>
<p>Já na Amazon os escritores autopublicados são pagos por meio de um fundo global, criado especificamente para esse fim, e que tem a desvantagem de variar com a receita.</p>
<p>A porcentagem que cada autor vai ganhar depende do montante  total do fundo naquele período. Atualmente está em cerca de R$ 2 milhões, mas pode ser menos, depende da vontade de Jeff Bezos.</p>
<p>As editoras de grande porte e os autores bestseller têm a benesse de receber  seus royalties em cima do preço de capa. “Esse tratamento preferencial enfureceu muitos escritores na comunidade de independentes que publicam pela plataforma Kindle Direct Publishing, da Amazon, porque eles acabam recebendo menos”, pontua Coker.</p>
<p>Além disso, os dispostos a participar  do Unlimited têm que publicar apenas pela Amazon. Nada de deixar o mesmo romance disponível para os usuários da Oyster.</p>
<p>Num vídeo de 11 minutos, o editor independente Nate Haselton explica o desastre iminente: &#8220;Ontem, dia 18 de julho, assim que eles lançaram [o Kindle Unlimited], meus livros emprestados ultrapassaram as unidades vendidas. Isso significa que eu não faço a menor ideia de quanto eu vou ganhar por cada um deles&#8221;.</p>
<p>Mesmo assim, a Amazon se tornou um ator grande demais para ser ignorado, por isso muitos  preferem acompanhá-la do que trilhar um difícil caminho solitário. É o caso da Real. Cool. Media., uma pequena casa editorial com sede na Alemanha que tem seu catálogo no Unlimited.</p>
<p>“A gente espera que com o crescimento de inscritos no serviço o capital do fundo se adapte a isso. Mas acreditamos que mudança é sempre uma oportunidade positiva. Estamos ansiosos pelo futuro”, aposta o presidente da Real, o alemão Eliott Reich.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A suspeição das grandes editoras acontecerá também por aqui caso a gigante americana decida trazer o Kindle Unlimited para o Brasil?</div></strong></h3>
<p>Com seis romances de ficção científica no currículo, o professor Paul Levinson considera a novidade um “grande benefício” para os menos famosos, “porque vai encorajar novos leitores a tentarem seu livro”.</p>
<p>A suspeição das grandes editoras acontecerá também por aqui caso a gigante americana decida trazer o Kindle Unlimited para o Brasil? A presidente do Sindicato de Editores, Sônia Jardim, tenta ser cuidadosa. “Precisamos ver se esse modelo é adequado para o mercado brasileiro”, diz.</p>
<p>As bibliotecas digitais  também têm ganhado terreno no país. A Nuvem de Livros, nascida há quase três anos, tem mais de 12 mil títulos e dá também acesso a conteúdos multimídia educacionais –como teleaulas e jogos.</p>
<p>O acervo tem curadoria de três profissionais (que estão ali para renegar seu livro se for muito ruim, sorry) e guarda e-books de editoras como Moderna, Autêntica e Melhoramentos. Quem tem chip da Vivo paga R$ 3,49 por semana.</p>
<p>“Vejo o Kindle Unlimited como um movimento de ocupação de um espaço comercial que havia sido ignorado pela Amazon a princípio. Caso essa estrutura se afirme aqui no Brasil, vai ser uma disputa acirrada, mas não nos preocupa minimamente”, me disse por telefone o presidente da Nuvem, Roberto Bahiense.</p>
<p>Outra iniciativa, lançada em abril, é a Árvore de Livros. Com 14 mil livros para empréstimo, aceita apenas assinaturas de empresas, bibliotecas e escolas. Por mês, a empresa que contratou o serviço paga até R$ 5 por usuário.</p>
<p>Árvore e Nuvem optaram por uma estratégia bem à brasileira, longe do espírito de agressividade capitalista americano. Eles não reduziram a remuneração à leitura.</p>
<p>A Nuvem paga autores e editores um valor mensal, embora os conteúdos mais acessados acabem levando um toquinho a mais.</p>
<p>Já a Árvore tenta consagrar um esquema análogo ao do livro físico: se duas pessoas quiserem o mesmo título ao mesmo tempo, eles compram da editora dois exemplares. Quando um deles for alugado cem vezes, mais um valor é depositado na conta da casa.</p>
<p>O presidente da Árvore, Galeno Amorim, é otimista. Ex-gestor da Fundação Biblioteca Nacional, ele analisa que a entrada da Amazon nesse matagal inexplorado ajuda a consolidar o conceito de empréstimo de e-book.</p>
<p>Pondera também que a expansão dessa ideia vai ser um fator de democracia educacional. “Você chega a uma quantidade de lugares onde as pessoas não têm acesso a bibliotecas físicas.” Que assim seja.</p>
<p>OBS: O texto da Pulga é um desdobramento da <a href="http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/07/1491230-nova-regra-de-netflix-para-livros-enfurece-escritores-independentes.shtml">matéria</a> escrita por Alan Santiago para a Folha de São Paulo.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Poesia de Facebook</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Jul 2014 16:42:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Alan Santiago]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Como a prisão de 14 pessoas na França do século 18 pode ajudar a explicar o sentido dos comentários nas redes sociais A investigação da polícia parisiense na primavera de <a class="read-more" href="https://apulga.com/poesia-de-facebook-2/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_550" style="width: 641px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/07/Alan-Texto1.jpg"><img class="size-full wp-image-550" alt="Poesia e redes sociais. Ilustração: Érica Zoe." src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/07/Alan-Texto1.jpg" width="631" height="449" /></a><p class="wp-caption-text">Poesia e redes sociais. Ilustração: Érica Zoe.</p></div>
<h2></h2>
<h2><em>Como a prisão de 14 pessoas na França do século 18 pode ajudar a explicar o sentido dos comentários nas redes sociais</em></h2>
<p>A investigação da polícia parisiense na primavera de 1749 redundou, como já era de se prever, no mais amplo nada.</p>
<p>Ninguém sabia quem afinal havia escrito os versos que começavam desancando o rei Luis 15 assim: &#8220;Monstre dont la noire furie&#8221;*. Ou em português: &#8220;Monstro cuja fúria negra&#8221;.</p>
<p>Todos os que foram presos –do estudante de medicina François Bonis até o estudante de filosofia Vermont, que tentou em vão se esconder– só conseguiam indicar alguém que, assim como eles, era um mero distribuidor da poesia. Melhor seria das poesias, no plural.</p>
<p>Catorze chegaram a ser trancafiados nas insalubres masmorras mantidas pelo Ancien Régime, e o episódio ficou conhecido como L&#8217;Affair des Quatorze.</p>
<p>Poderia ser apenas uma situação esdrúxula para os olhos contemporâneos, uma espécie de curiosidade histórica, não fosse pelo conciso, simples e profundo livro de Robert Darnton ter dado ao fato a análise que ele merece.</p>
<p>&#8220;Poesia e polícia –redes de comunicação na Paris do século XVIII&#8221; (Companhia das Letras, 228 páginas) questiona se a obsessão de Luis 15 por investigar o que pensavam os parisienses sobre ele e sobre o seu reinado não era já ali a ebulição do que seria a consagrada opinião pública.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A poesia era o veículo de todos os estratos sociais. (&#8230;) Tudo clandestino e anônimo. E obra anônima, oficina do Diabo. Graças a Deus.</div></strong></h3>
<p>Se já não pode ser qualificado com esse termo, pelo menos não se pode negar que havia uma rede de comunicação eficiente que dava conta dos problemas atravessados por eles.</p>
<p>Nada escapava: os ministros, as amantes do rei (Madame Pompadour era odiada), os tratados de paz (o de Aix-la-Chapelle, considerado indigno), as batalhas (como a de Lawfeldt, vencida por WO, quando os ingleses retiraram as tropas). E também os temas prosaicos da arraia-miúda.</p>
<p>A poesia era o veículo de todos os estratos sociais. Os mais pobres cantavam junto com os cantores de rua que se apresentavam nas feiras e praças; a classe média e os cortesãos lidavam com os textos em pedaços de papel que iam passando de mão em mão.</p>
<p>Tudo clandestino e anônimo. E obra anônima, oficina do Diabo. Graças a Deus.</p>
<p>Por isso ia-se construindo tão forte e tão disseminado o pensamento sobre a vida, porque cada um podia acrescentar, modificar, rimar e falar sobre o mundo, criando uma teia ampla e profundamente complexa sobre o sentimento de uma época.</p>
<p>Não é à toa que isso fosse considerado um perigo lá e seja considerado ameaçador também hoje. De alguma forma, vivemos no livro de Darnton –que me soa, em certo sentido, como uma realidade espelhada num vidro fosco.</p>
<p>Ainda somos levados à Bastilha por delitos de opinião e voltamos a frequentar o anonimato que já estava com cheiro de mofo.</p>
<p>Nós, os contemporâneos, amantes carnais da internet, elevamos à máxima potência a capacidade de gerar uma rede de comunicação que nos exponha a todos diante da esfera pública.</p>
<p>Particularmente acredito que, por um detalhe &#8220;insignificante&#8221;, estamos em melhor posição que os franceses comandados-mas-nem-tanto por Luis 15: enquanto ali os poemas tendiam para a formação de um consenso público sobre as peripécias aristocráticas, por exemplo, aqui vamos construindo nosso universo baseado no dissenso político e social.</p>
<p>Não que a opinião pública tenha se evaporado hoje ou até se estilhaçado. A imprensa escrita e a mídia televisiva continuam tendo esse papel unificador, embora num grau muito menor que antes.</p>
<p>Mas já não aceitamos mais que mesmo coisas simplórias da vida sejam contadas sem senões, apostos ponderativos e discussões acaloradas.</p>
<p>Isso não é uma crítica aos homens de hoje, nem uma simplificação das várias forças argumentativas daquela França.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Primeiro, porque sociedade alguma pode anular o que, em verdade, é o viver em grupo: o não, o confronto e a diferença. Depois, porque a internet livre, anônima, gratuita nos concede a chance de exercer isso em plenitude.</div></strong></h3>
<p>Estou dizendo que o cenário é apenas este: em tempo algum da história houve tantas situações frontal e publicamente opostas discutidas de modo massivo.</p>
<p>Primeiro, porque sociedade alguma pode anular o que, em verdade, é o viver em grupo: o não, o confronto e a diferença. Depois, porque a internet livre, anônima, gratuita nos concede a chance de exercer isso em plenitude.</p>
<p>Se os poemas de 1748-49 tinham limitações físicas, os comentários de Facebook e os 140 caracteres do Twitter são infinitos e não menos explosivos. Talvez só sem rima.</p>
<p>Nos tempos em que se vive, o Facebook é a poesia onde se canta mal ao rei e à amante dele, onde se questionam as decisões governamentais, se discutem dos temas mais tolos às questões filosóficas mais sérias e onde as diferenças estão vigorosamente pulsantes.</p>
<p>No Caso dos Quatorze, Darnton faz questão de destacar que o conjunto de poemas nada tem de revolucionário. É, antes, um coro de descontentamento com as estruturas de poder do período.</p>
<p>A questão lançada a nós é precisamente a mesma: será que, ao contrário, as poesias do século 21 estão nos levando para um movimento revolucionário? Eu me pergunto que Bastilhas morais, filosóficas, políticas poderiam –e podem– eventualmente cair com nossos tweets e nossos compartilhamentos.</p>
<p>*Eis o <a href="http://www.hup.harvard.edu/features/darpoe">link</a> para quem quiser ouvir as poesias cantadas por Hélène Delavault.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Olhos nos olhos &#8211; Como House of cards e o Netflix me arrebataram</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Mar 2014 13:26:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Andrea Ribeiro]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema e Audiovisual]]></category>
		<category><![CDATA[Netflix]]></category>
		<category><![CDATA[TV]]></category>
		<category><![CDATA[Audiovisual]]></category>

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		<description><![CDATA[Não são poucos os louros que House of Cards vem colecionando nesse primeiro ano vida. Em janeiro, Robin Wright venceu a categoria de melhor atriz em série de TV no <a class="read-more" href="https://apulga.com/olhos-nos-olhos-como-house-of-cards-e-o-netflix-me-arrebataram/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2013/12/Kevin-Spacey-House-of-Cards-Netflix.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-128" alt="Kevin-Spacey-House-of-Cards-Netflix" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2013/12/Kevin-Spacey-House-of-Cards-Netflix.jpg" width="1920" height="1080" /></a></p>
<p>Não são poucos os louros que <i>House of Cards</i> vem colecionando nesse primeiro ano vida. Em janeiro, Robin Wright venceu a categoria de melhor atriz em série de TV no Globo de Ouro – prêmio para o qual a série ainda teve três outras indicações: série dramática para TV; ator/drama (Kevin Spacey); e ator coadjuvante/drama (Corey Stoll). A primeira série original do Netflix também abocanhou três, dos nove Emmys para os quais foi indicada (diretor, para David Fincher; direção de fotografia; e elenco/drama. Indicações e prêmios merecidíssimos para a primeira e bastante intensa temporada.</p>
<p>Para mim, <i>House of Cards</i> foi paixão à primeira vista. Bastaram 80 segundos, um par de frases, um olho no olho, umas poucas notas musicais e, pronto&#8230; adeus, fim de semana de sol! Eu estava completamente entregue. Embarquei naquela história de cabeça. Sozinha em meu quarto, eu me tornei mais uma carta no castelo daquele mau-caráter de bico doce. É compulsão, eu sei. Onze horas de dedicação a esse vilão que deixa Iago parecendo mocinho de novela das nove. (Mas, em minha defesa, devo dizer que foram 11 horas divididas em dois dias. Assim pareço menos compulsiva?).</p>
<p>A culpa foi de Kevin Spacey, grandessíssimo ator que me olhou nos olhos, e do Netflix, que jogou todos os 13 episódios da primeira temporada da série na rede. Ao mesmo tempo. Sem dó. Como é possível controlar a vontade de saber o que o canalha vai aprontar sem ter que esperar uma semana inteira? É pior que tentar tirar a mão do saco de pipocas fresquinhas. Pois, como disse, eu não resisti. E não me arrependi da overdose de maldades, falcatruas, rasteiras e fofoquinhas das quais fui cúmplice.</p>
<p>Então, é assim: <i>House of Cards</i> estreou em fevereiro de 2013 e é baseada numa minissérie homônima, realizada nos anos 90 pela BBC de Londres (ainda não vi – mas verei, aguardem). Francis Underwood (Kevin Spacey, excelente, como sempre) é um senador que jurava que seria nomeado secretário de estado pelo presidente que ajudou a eleger. No entanto, o chefão passa uma tremenda rasteira e nomeia outro para o cargo. Com sangue nos olhos, Francis elabora um plano de vingança que vai derrubar, um por um (olha aí o castelo de cartas) todos os que, de uma forma ou de outra, participaram dessa “traição”.</p>
<p><i>Doug </i>[braço direito de Francis]<i> &#8211; Vamos dar o troco?</i></p>
<p><i>Francis &#8211; Não, não&#8230; É mais do que isso. Dê um passo para trás. Olhe o quadro geral.</i></p>
<p><i>Doug – Acho que estou entendendo. Kern primeiro?</i></p>
<p><i>Francis &#8211; É como se devora uma baleia&#8230; uma mordida por vez</i>.</p>
<p>É impossível não identificar traços de alguns personagens shakespeareanos bem conhecidos na composição de Francis (ou Frank, para os íntimos). O canalha é um mix de Macbeth, Ricardo III e Iago. Só gente boa da melhor qualidade. Mesmo assim, o  espectador cria um laço tremendo com ele. Provavelmente por conta do recurso mais visível da série – a quebra da quarta parede. Pera lá, não sou nenhuma acadêmica e não gosto desses artigos/resenhas que se cobrem de tecnicismo para dar aulas intelectualoides, mas acontece que é isso mesmo. Frank vive olhando para a câmera e chamando quem assiste para compactuar de seus pensamentos mais íntimos. Kevin Spacey é mestre nessa arte. Ele olha diretamente nos olhos. Da câmera. Do interlocutor. E, mesmo assim, mente descaradamente.</p>
<p>O outro trunfo da série é Robin Wright (<i>Os homens que não amavam as mulheres</i>), fantástica. Como dizem por aí, por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher. E as costas de Frank estão seguras por sua esposa, Claire. Ela sabe de todos os planos do político. Apoia e incentiva cada um deles, sem descer do salto e sempre com todos os fios de cabelo no lugar. Com certeza, páreo duro para Lady Macbeth.</p>
<p>Para tascar uma pimentinha na história, Frank se envolve com a jornalista Zoe Barnes (Kate Mara) que, em início de carreira e louca para arrasar nas manchetes país afora, alia-se ao político pessoal e “romanticamente” em troca de furos. São ótimas as cenas com os dois juntos.</p>
<p>Carta após carta, seguem-se 13 episódios muito bem-feitos, dirigidos por figuras como David Fincher (<i>Seven</i>, <i>Clube da Luta</i>), James Foley (<i>A estranha perfeita</i>), Joel Schumacher (<i>O número 23</i>, <i>Um dia de fúria</i>), Carl Franklin (<i>Por um triz</i>) e Allen Coulter (episódios de <i>Família Soprano </i>e <i>Sex and the city</i>). A qualidade é inquestionável. Tanto de produção, quanto de roteiro e interpretações. Estima-se que foram gastos US$ 100 milhões nessa primeira temporada. O valor será equivalente ao da segunda, cuja estreia aconteceu em 14 de fevereiro de 2014, também com 13 capítulos (todos já assistidos por esta que vos escreve, é claro).</p>
<p>E, se você quer saber, a segunda temporada manteve o padrão técnico da primeira. As interpretações continuam sensacionais, bem como a fotografia, as edições e direções. Os diálogos também são afiadíssimos. Mas a trama e as histórias paralelas, para mim, perderam força. São boas, mas minhas expectativas eram um tantinho maiores. De todo modo, valem a maratona (ou, para os mais parcimoniosos, ao menos as visitas semanais). Prefiro não expor a sinopse da segunda temporada aqui para não correr risco de spoilers (mesmo que involuntários) para quem for assistir aos primeiros episódios.</p>
<p>Apenas: se você gosta de intrigas, é chegado em boas interpretações e, de quebra, quer se sentir menos vira-lata tendo a certeza de que politicagem vil não é só coisa de brasileiro, corra para o serviço online e veja, ao menos, o primeiro episódio de <i>House of Cards</i>. Para mim, foi um nocaute. E você, o que achou?</p>
<p><b>Tchau, locadora?</b></p>
<p>Muito se tem especulado, por conta de serviços como o Netflix e de TVs <i>on demand</i> (tipo Sky e Net) – e da pirataria também, é óbvio –, que as locadoras estão com os dias contados. A União Brasileira de Vídeo (UBV) diz que existiam quase 14.000 locadoras no país, em 2005. Em 2012, houve uma redução de 71% (cerca de 4.000 em atividade).</p>
<p>Particularmente, sempre gostei de ir a locadoras. Assim como sempre gostei de ir ao cinema e não parei de fazê-lo por causa do videocassete, sabe como? As coisas mudam, evoluem, adaptam-se. Apesar dos nossos sentimentos saudosistas. Mas o que se sabe é que a internet está vindo com tudo. Cada vez mais, e com mais categoria. Com mais recursos. E com qualidade, o que é de extrema importância. De acordo com uma pesquisa da ZenithOptimedia (empresa francesa que mede a performance dos investimentos de publicidade em mídia), a rede mundial de computadores é, agora, a segunda mídia mais importante, perdendo apenas para a TV. Em 2013, a web abocanhou 20,26% da grana investida em anúncios. A TV teve quase o dobro (40,2%), os jornais ficaram com 17%, as revistas com 7,9% e o rádio com 6,9%. Aqui em terra brasilis, o fenômeno é bastante visível com a galera do Porta dos Fundos, que está aproveitando o momento como ninguém.</p>
<p>No caso de filmes e séries, depois do fechamento de sites de compartilhamento e downloads (com muito conteúdo pirata) como o Megaupload, Hotfile e 4Shared, os serviços de streaming, como Netlix, <a href="http://www.cuevana.tv">Cuevana TV</a>  e <a href="https://ofertas.totalmovie.com/peliculasenlinea/?pname=glispa&amp;subid1=non-incent&amp;subid2=CD2&amp;subid3=RD">Total Movie</a> estão na mira dos cinéfilos e “seriadófilos” (existe isso, produção?).</p>
<p>Confesso: neste momento virei fã do Netflix (se até a presidenta disse ver seus filminhos por ali&#8230; por que não eu, certo?). Pagando uma mensalidade R$ 16,90, tenho acesso a um acervo online (ainda é pequeno, é verdade) de filmes, seriados, shows e até novelas – daquelas bem ao gosto do seu Silvio Santos&#8230; Mas quem sou eu para julgar? Depois de sacrificar um fim de semana de sol (artigo raríssimo aqui para as bandas de Curitiba, de onde escrevo estas tantas linhas) para virar cúmplice das vilanias de Francis Underwood, passei duas semanas às voltas com as temporadas antigas de <i>Arrested Development</i>, até chegar à tão aguardada quarta temporada. Tudo sob as bênçãos do Netflix. Agora, começarei a ver <i>Breaking Bad</i> (não me julguem). E viva o serviço de streaming!</p>
<p><a href="http://www.netflix.com.br">Netflix</a></p>
<p><a href="http://www.ubv.org.br">União Brasileira de Vídeos</a></p>
<p><a href="http://www.cuevana.tv">Cuevana TV </a></p>
<p><a href="https://ofertas.totalmovie.com/peliculasenlinea/?pname=glispa&amp;subid1=non-incent&amp;subid2=CD2&amp;subid3=RD">Total Movie</a></p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>O pop também sofre</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Mar 2014 12:55:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Mônica Lucas]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Pulgaonline]]></category>
		<category><![CDATA[Pop]]></category>

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		<description><![CDATA[Os fãs de Madonna sabem que ela costumava levar uns sopapos do primeiro marido, o ator Sean Penn, e que o casamento acabou numa delegacia. Não é novidade que Whitney <a class="read-more" href="https://apulga.com/o-pop-tambem-sofre/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Os fãs de Madonna sabem que ela costumava levar uns sopapos do primeiro marido, o ator Sean Penn, e que o casamento acabou numa delegacia. Não é novidade que Whitney Houston, em companhia do marido, promoveu várias festinhas regadas a cocaína e whisky. A imprensa bisbilhotou, noticiou e fotografou tudo nos mínimos detalhes. Algumas outras cantoras, no entanto, parecem querer ter um relacionamento mais franco com seus fãs. Antes que os jornalistas publiquem seus problemas, elas mesmas contam tudo, escancaram mesmo através de suas composições. Além de cantoras, são letristas. Foi assim que Fiona Apple relatou um estupro sofrido aos 12 anos, Tori Amos expôs um aborto traumático e Alanis Morissette se vingou do namorado.<span style="line-height: 1.5em;"> </span></p>
<p>Mulheres que expressam suas angústias através da música sempre existiram. Da diva Billie Holiday à brasileira Maysa, cujos olhos foram definidos como dois oceanos não pacíficos por Nelson Rodrigues, muitas mulheres foram capazes de cantar a própria alma de modo dilacerante, rasgado. As canções refletem o estado de espírito de suas intérpretes, tanto que os raros momentos de alegria também podem ser encontrados na audição de seus álbuns.</p>
<div class="scbb-content-box-gray scbb-rounded-corners">
<p><strong>PJ Harvey e suas maravilhosas estórias</strong></p>
<p>Singular talvez fosse um bom adjetivo para definir Polly Jean Harvey. Entre tantas cantoras de sua geração, ela se destaca por ter um estilo próprio, triste, raivoso, ousado. Se a descrição parece a de mais uma rebelde sem causa, igual a tantas outras &#8220;clonadas&#8221; de Alanis Morissette, deixe para lá. Ela não é nem um pouco poser. Escute o mais recente Stories from the city, stories from the sea e entenda.</p>
<p>Sem ser pretensiosa, a cantora britânica prova que existe vida inteligente no rock feminino. Passeando com desenvoltura por temas diversos e aparentemente distintos como religião, sexualidade e violência, ela confere-lhes uma amálgama mostrando o quanto estão intrinsecamente unidos, tudo em letras fortes, marcantes e muitas vezes dramatizadas. Autêntica, ela não costuma se render a modismos. A atual febre de música eletrônica, à qual muitos artistas já se renderam, não fez sua cabeça. Ela continua fazendo rock básico e cru. Sem frescuras, apenas guitarra, baixo e bateria. Simples e eficaz.</p>
<p>Mesmo quando é pop e romântica, faz isso de modo que não seja pegajoso ou forçado. Good Fortune poderia tocar em qualquer rádio por mais comercial que fosse, e isso não é nenhum demérito. A Place Called Home segue o mesmo caminho, mostrando que a cantora está mais feliz nesse novo trabalho. Mas é inegável que ela se sai bem melhor quando segue a veia roqueira, como em Big Exit, ou na mais pesada Kamikase, em que ela se arrisca num quase punk.</p>
<p>Se sozinha PJ já dá conta do recado, imagine com a luxuosa ajuda de Thom Yorke, do Radiohead, nos vocais. Ele empresta toda a sua melancolia a One Line, Beautiful Feeling e a maravilhosa This Mess We&#8217;re In. PJ Harvey deixa claro nesse CD que Yorke não apenas dividiu o microfone, mas também é uma forte influência musical. Beautiful Feeling e, principalmente, The Whores Hustle and the Hustlers Whore têm um gostinho bem radioheadiano.</p>
<p>No leque sonoro da cantora, até o folk encontra um espaço tímido em You Said Something. Talvez para lembrar as estórias de seu pequeno vilarejo à beira-mar, Dorset, em contraponto ao seu novo lar, a metrópole Nova York. O título remete às estórias vividas nos dois lugares. A nova cidade parece ter feito bem a ela; esse trabalho é bem menos cinza e pesado do que o anterior, Is the Desire?, o melhor dela até hoje.</p>
<p>Em meio à profusão de insossos chicletinhos pop na cola de Britney Spears e dos malabarismos vocais de Mariah Carey e Whitney Houston, PJ Harvey se destaca como uma das melhores cantoras e compositoras em atividade. Sem medo de se expor e de inovar, assim é Polly Jean Harvey.</p>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Gerações e gerações passaram seguindo direitinho a cartilha: Marianne Fairthfull, Patti Smith, Joni Mitchell e muitas outras. Mas nunca se viu tanta autoexposição quanto atualmente. Nos últimos anos, o mundo pop viu uma profusão de mulheres que transformaram suas músicas em confissões. É uma geração na faixa dos vinte, trinta anos, que faz da caneta mais uma sessão psiquiátrica. Obviamente inspiradas nas musas do passado, cantoras como PJ Harvey, Fiona Apple, Tori Amos e Aimee Mann fazem sucesso com a imagem de mulheres que sofrem e, com isso, encontram identificação imediata com o público fiel. Quantas pessoas já não encontraram em uma ou várias músicas um consolo para o próprio sofrimento? É o que se pode chamar de música feita para chorar, não necessariamente por dores de cotovelo, embora seja bem fácil encontrá-las também.</p>
<p>O que une essas cantoras, além da temática de suas músicas, é o modo como se expressam. Ao ouvi-las, muito provavelmente sabe-se que se tratam de composições feitas por mulheres. Experiências pessoais e assuntos polêmicos fazem parte de letras que contestam a religião, relatam masturbações e atacam o mundo. Cada qual a sua maneira traz um enfoque feminino e direto a assuntos antes camuflados. Não pense que se resumem a canções de amor. Muitas delas são, é verdade, mas não apenas isso. Vamos a elas, então&#8230;</p>
<div class="scbb-content-box-gray scbb-rounded-corners">
<p><strong>As cantoras mais confessionais da atualidade</strong></p>
<p><strong><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/02/Tori-Amos.jpg"><img class="alignleft" alt="Tori Amos" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/02/Tori-Amos.jpg" width="48" height="67" /></a></strong></p>
<p><strong>Tori Amos:</strong> a vida dessa cantora americana não foi fácil. No início da adolescência, foi expulsa do conservatório onde estudava piano por não se adequar às regras e querer improvisar. Passou a se apresentar em pequenos bares gays, até se mudar para Los Angeles, onde, em 1988, gravou o primeiro disco. O fracasso do álbum aliado a um estupro sofrido por um fã a quem dava carona após um show a fizeram entrar numa crise de depressão. O segundo disco, intitulado Little Earthquake, veio recheado de temas fálicos e a faixa Me and Gun, narra o acontecimento traumático. O sucesso veio no trabalho seguinte, Under de Pink, falando de religião, patriarcado e masturbação, que vendeu mais de um milhão de cópias. Em 1998, outro CD bem confessional, dedicado ao aborto espontâneo do ano anterior. Na música Spark, ela diz que ela se sentia &#8220;com as mãos amarradas e os olhos vendados, pois via aquela criança morta e nada podia fazer&#8221;. De lá para cá, sua vida parece ter melhorado bastante: casou-se com o produtor musical Mark Hawley e, em 2000, nasceu a primeira filha do casal. <strong>Álbum essencial:</strong> Little Earthquake</p>
<p><strong><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/02/Fiona-Apple.jpg"><img class="alignleft" alt="Fiona Apple" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/02/Fiona-Apple.jpg" width="97" height="132" /></a></strong></p>
<p><strong>Fiona Apple:</strong> no álbum Tidal, além de Sullen Girl, em que ela narra metaforicamente seu estupro aos 12 anos de idade (&#8220;estava velejando no mar tranquilo, mas fui traída por ele e lançada à praia, como uma concha vazia, depois que alguém me roubou a pérola&#8221;), tem ainda Shadowboxer, sobre o embate entre desejo e vulnerabilidade que resulta em amor perdido e arremedo de amizade. A dificuldade em encarar relacionamentos foi tema ainda de várias músicas do segundo CD, When the pawn&#8230;, com On the bound e To your love. Hoje, Fiona mantém um relacionamento estável com o cineasta Paul Thomas Anderson e declara-se bastante feliz. Será o seu próximo CD mais alegre ou os traumas do passado ainda a atormentam? <strong>Álbum essencial:</strong> Tidal</p>
<p><strong>Aimee Mann:</strong> apesar da experiência à frente da banda &#8216;Til Tuesday, ela era desprezada pelas grandes gravadoras por ser considerada pouco comercial. Meiguinha como ela só, resistia à depressão, tendo esperança numa virada. A grande chance veio com a gravação da trilha sonora de Magnolia (na realidade, uma compilação de sua carreira solo), que estourou em todo o mundo. O diretor Paul Thomas Anderson costuma dizer em suas entrevistas que o filme jamais poderia ter sido realizado sem as canções de Aimee, que funcionaram como ponto de partida para o roteiro. Melancolia e esperança são a tônica de seu trabalho. No mais recente, Bachelor nº 2, lançado pelo seu próprio selo independente, SuperEgo, &#8220;alfineta&#8221; aqueles que a desprezaram: &#8220;O que começou com tanta animação, agora eu termino com alívio&#8221;. <strong>Álbum essencial:</strong> Magnolia, trilha do filme homônimo.</p>
<p><strong>PJ Harvey: </strong>caso raro de cantora que conseguiu desvencilhar sua imagem do rastro do namorado famoso. Claro que ele influenciou seu trabalho, afinal era ninguém mais, ninguém menos que Nick Cave. E é praticamente impossível falar de músicas melancólicas sem citar seu nome. O quinto álbum, Is the Desire? mostra músicas que &#8220;são a cara&#8221; de alguém que o namorasse. Mas PJ sempre teve estilo próprio, com canções sobre problemas femininos e que vão bem além dos clichês do gênero. Nesse trabalho, o seu melhor, ela encarna 12 diferentes personagens. É como se cada música fosse uma página de diário arrancada de diferentes mulheres que vão fundo aos extremos de ódio, vingança e satisfação física. Agora, com namorado novo e morando em Nova York, ela reapareceu com Stories from the city, stories from the sea, mostrando seu novo momento. <strong>Álbum essencial:</strong> Is the Desire?</p>
<p><strong>Alanis Morissette:</strong> a típica cantora que fez sucesso moldando um estilo próprio da ousadia ao mainstream. Sua estreia foi impactante, com composições intensas do álbum Jagged Little Pill. Em You Oughta Know, ela confessa ter feito muito sexo oral no cinema com o ex-namorado, a quem, ironicamente, deseja felicidades. Já em Supposed Former Infatuation Junkie, na faixa Unsent, ela dá nome aos amores do passado. A canadense, no entanto, se deixou engolir pela padronização e fez músicas quase insuportáveis, como a chatíssima Thank You (abstenho-me de comentar o clip, um dos piores já produzidos) e a baba mais insossa dos últimos tempos, There I would be good. <strong>Álbum essencial:</strong> Jagged Little Pill</p>
<p><strong><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/02/Jewel.jpg"><img class="alignleft" alt="Jewel" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/02/Jewel.jpg" width="64" height="83" /></a></strong></p>
<p><strong>Jewel:</strong> teve uma infância pobre. Sua casa não tinha água nem aparelho de televisão. Os pais, músicos amadores, se separaram quando ela tinha 8 anos, o que marcou definitivamente sua carreira musical. O primeiro CD traz composições feitas durante a adolescência, em que critica o modo de vida retratado na televisão, em conflito com a realidade em que &#8220;para pagar as contas é preciso até negociar com o diabo&#8221;.  <strong>Álbum essencial: </strong>Pieces of You</p>
<p><strong>Melissa Etheridge: </strong>homossexual assumida, viveu muito tempo tentando esconder sua condição. Saiu do armário com o disco que levava o sugestivo nome de Yes, I am. O trabalho seguinte, Breakdown, reafirma sua opção sexual. Ainda critica os padrões de beleza ocidental na faixa Mamma, I&#8217;m strange, em que fala das dificuldades de uma infância à margem do padrão Barbie. <strong>Álbum essencial:</strong> Yes, Iam.</p>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<p>*O texto foi escrito em 2001, por isso as referências temporais não estão atualizadas</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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