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	<description>Um coletivo diletante de ideias</description>
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		<title>Das Ding</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Aug 2023 03:54:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; O local preciso era 14 paradas após a estação de metrô mais longínqua na qual eu já havia posto os pés. Por outro caminho, pegávamos a condução em frente <a class="read-more" href="https://apulga.com/das-ding/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2023/08/Das-Ding2.jpeg"><img class="alignnone size-full wp-image-2025" alt="Das Ding2" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2023/08/Das-Ding2.jpeg" width="768" height="1024" /></a></p>
<p>O local preciso era 14 paradas após a estação de metrô mais longínqua na qual eu já havia posto os pés. Por outro caminho, pegávamos a condução em frente a universidade, descíamos 2 paradas depois para então pegar outro ônibus, percorrer mais 11 paradas e finalmente chegar àquele ponto onde ainda restavam mais 14 até o destino final. Repito: era o lugar mais distante em que havia estado e aquilo me atingiu de diversas maneiras. Era o outro ateando fogo ao conhecido que havia em mim.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> O que a gente faz para se despedir quando não parece ser possível se despedir completamente? A gente viaja. Vai rumo a deixar algo, mas cuja jornada acaba impregnando o mensageiro daquilo que ele iria entregar. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Se esse texto fosse um mapa colocaria uma marcação naquela coordenada que foi das grandes fronteiras do meu enfrentamento. Há um desenho animado antigo chamado Cavalo de Fogo (Wildfire, 1986), nele uma menina cruza um portal dimensional para um mundo ao qual ela pertence e que, ao mesmo tempo, lhe é estranho. Uma relação fantasiosa entre um rancho em Montana, no oeste norte-americano, e o planeta Dar-Shan. Uma parte do que ela é está em cada lugar. Referência que pego emprestada como uma espécie de caricatura do idílio, da travessia abrupta, daquilo que de maneira infantil nos toma. Acho mesmo que a gente passa boa parte da vida procurando em uma paisagem e em algo externo a representação do que somos em uma fração muito íntima da nossa psiquê. Ocorre que, algumas vezes, é uma pessoa quem nos apresenta essa paisagem externa que nos endereça a esse destino interno. Como se alguém nos convidasse a esse caminho.</p>
<p>É um oximoro. Um paradoxo. O que está fora e ao mesmo tempo mora dentro. “Rua Leonor/Rua Semente”, eu escutava no segundo andar do ônibus enquanto percorria aquelas 14 paradas que eram o trajeto que tanto me acolhia como me provocava. E esse dilema me tomou de assalto porque simplesmente aquela paisagem era um imã de polos opostos. Quanto mais eu queria largá-la, mas ela fincava uma raiz dentro de mim. Em síntese, é percurso que enseja uma pergunta: O que a gente faz para se despedir quando não parece ser possível se despedir completamente? A resposta é: a gente viaja. E viaja como quem tenta, parte em uma missão. Vai rumo a deixar algo, mas cuja jornada acaba impregnando o mensageiro daquilo que ele iria entregar.</p>
<p>“Tão Forte e Tão Perto” (Extremely Loud &amp; Incredibly Close, 2011), adaptado do romance Extremamente Alto &amp; Incrivelmente Perto de Jonathan Safran Foe é uma espécie de petardo da Sessão da Tarde sobre esse tipo de Odisseia íntima. No filme um menino escuta do pai uma história sobre o 6º Distrito, uma parte perdida de Nova Iorque cuja ideia serve de bússola para a procura de um lugar imaginário. É uma relação preenchida de histórias, com uma linguagem própria. Diante das dificuldades do filho em se relacionar, o pai criava um jogo para fazê-lo mover-se e ir, ao seu jeito, enfrentando seus medos. É o preâmbulo do enredo que, de fato, começa com a morte do joalheiro Thomas Schell e segue pela expedição que o pequeno Oskar empreende na tentativa de achar o dono para uma chave encontrada nas coisas de seu pai.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Eis o paradoxo do filme e daquilo que nos afeta. É sentir falta de algo quando o objetivo era justo não sentir.  Trata-se de um estranho percurso em que a gente se transmuta na tentativa de abandonar o que nos constituí. É sobre um movimento. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>A busca pelo destinatário desconhecido é um exercício que faz Oskar revisitar a cidade além dos muros, como Thomas sempre quis. O menino saí cruzando muitas fronteiras que vão se refletindo umas nas outras, como se olhássemos os espelhos em forma de triângulo no fundo de um caleidoscópio. Percorre os bairros além de Manhattan, atravessando a memória de quem ele próprio era ao lado do pai. São partes de si que vão se transformando pela jornada sem, no entanto, mudarem completamente. Dentro e fora. O oximoro. O caminho para viver seu próprio luto.</p>
<p>Podia ser a jornada bíblica de Tobias para encontrar a cura de Tobit ou alguma missão de Zeus dada a um herói grego. O recurso é antiquíssimo. O 6º Distrito, a chave ou o que mais puder tomar a imagem de algo a ser encontrado e devolvido ao seu lugar. Na verdade, essa “coisa” (das ding, diria Freud) é o sentimento fora de um espaço que lhe caiba. É preciso gastar certa energia na tentativa de, finalmente, devolver-lhe um sentido, restaurá-la. A coisa, tal como o choro que acalma. Na sua expedição de reconhecimento, ao cruzar diversas fronteiras, Oskar Schell diz: “Eu estava me aproximando do meu pai. Eu estava perdendo-o”. Touché!</p>
<p>Eis o paradoxo do filme e daquilo que nos afeta. É sentir falta de algo quando o objetivo era justo não sentir. Recordo o quanto já gastei de palavras no exercício de racionalizar. Não se trata de um não-lugar, do espaço da barganha. Tampouco é o passado visto da perspectiva de quem hoje compreende e aceita que não há mais afeto. Não sendo sobre o lugar e nem sobre o tempo, trata-se de um estranho percurso em que a gente se transmuta na tentativa de abandonar parte do que nos constituí. É sobre um movimento. Mas, suspeito que essa seja uma jornada impossível, visto que há algo em nós que não pode ser descolado, apenas deixa de estar fora para encontrar um pouso dentro. Contudo, após o trajeto, muda-se algo de substancial, como o estado físico de uma matéria. O gelo, o vapor e a água. Outro peso, forma, temperatura e pressão – ainda que com a mesma essência.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> E qualquer elaboração da perda passa por esse sequestro de um traço que era do outro e que você incorpora no eu. Mas aí há essa dialética. Era do outro, mas já era eu. Já era. Porque se a gente é ser com. Você só se apropriou de algo que já era teu e que você tinha se apoiado nesse outro por conta desse traço. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Isto porque as despedidas todas revelam algo que há em nós. E se esse texto é sobre o que se deixa, o percurso para decantar sentimentos, é preciso antes compreender como eles se formam. O porquê de ser impossível deixar algumas coisas por completo. Talvez das melhores explicações para essa impossibilidade, em sua plenitude, eu tenha escutado pelas palavras da psicanalista Maria Homem. Ao falar sobre o assunto, ela volta ao que une para, então, arrematar a partida: “Já percebeu que você termina uma relação e muitas vezes começa a fazer uma coisa que o outro fazia? Ou começa a fazer algo que você achava que nem gostava, mas que o outro queria que você fizesse? Você começa a fazer ginástica, começa a nadar, vai aprender uma língua, muda um estilo”.</p>
<p>Ao lado das perguntas, Maria Homem enceta uma resposta que me pareceu fechar um ciclo de inquietudes: “E depois de muito tempo você começa a se dar conta de que você carrega um traço que era do outro. É muito comum. Você aprende uma forma de falar, pega uma expressão que era do outro, vai cumprir um desejo inacabado do outro. Ele deixou uma música, era seu parceiro e você vai terminar de compor aquela música, vai escrever um livro de memória, vai pintar um quadro&#8230; Você vai elaborar aquela perda”. Nesse apanhado de frases, em uma costura que é própria da sua fala, a psicanalista revela essa espécie de sintoma que é a nossa busca por percorrer um caminho que tanto nos preenche como no tira algo.</p>
<p>É nesse exato momento que Maria Homem mata a charada ao enunciar: “E qualquer elaboração da perda passa por esse sequestro de um traço que era do outro e que você incorpora no eu. Mas aí há essa dialética. Era do outro, mas já era eu. Já era. Porque se a gente é “ser com”, você só se apropriou de algo que já era teu e que você tinha se apoiado nesse outro por conta desse traço. Você já tinha se apaixonado, por exemplo, por esse homem porque ele já era do universo da arte, que era teu, que você desejava e que você nunca se autorizou. E quando você perde isso, então você assume esse lado, desenvolve esse lado, mesmo tendo perdido o objeto. Então, na verdade, o que é a morte, o luto e a perda? São as várias faces das metamorfoses do eu. Grandes metamorfoses o tempo inteiro, a gente vai comendo, deglutindo e sendo outra coisa.”</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> É uma tentativa de aparta-se de algo visceral, de algum sentido que nos constitui. A figura do pai, um grande amor, a ideia de uma terra encantada&#8230;  É justo o exercício de desprender-se que acaba por nos revelar algo.  </strong><strong></div></strong></h3>
<p>É o “estar com”, o mit sein, como diz o filósofo alemão Peter Sloterdijk, que a psicanalista revela. Por isso, nunca conseguimos nos despedir de algo que em parte está em nós. Mais uma vez estamos diante de um oxímoro. Contudo, mais do que um exercício narcísico, há muito de poesia nesse movimento de nos reconhecermos em algo ou em alguém para depois nos vermos sendo esvaziados desse sentido original, justamente quanto o mais procuramos preenchê-lo. É porque talvez (apenas talvez) o luto se realize ao vermos que está dentro o que procurávamos fora. Conheço uma história de quem detestava cafés e fez um blog sobre o tema para servir de diário à sua jornada. Noutro caso, um fanzine foi artefato da despedida. Definido lindamente como “um retrato 3&#215;4 da alma”, a brochura caseira era o artifício do que precisava ser entendido. Movimentos para gastar o que só pode ser enterrado anos depois. Ao fim, é o menino Oskar Schell descobrindo que conseguia explorar a geografia de uma cidade e os seus próprios limites sem o pai.</p>
<p>É uma tentativa de aparta-se de algo visceral, de algum sentido que nos constitui. A figura do pai, um grande amor, a ideia de uma terra encantada&#8230; Mas como isso está cravado no que se é, tal tentativa tem lá sua faceta quixotesca. Novamente, a viagem para deixar e ao mesmo tempo encontrar algo. É justo o exercício de desprender-se que acaba por nos revelar algo. E quantos anos não se demora nessa estrada? Lembro de um dia, no entardecer defronte a uma janela naquele ponto mais longínquo, pensar que meus passos eram muito válidos, que eu só precisava de mais tempo para estar ali. Talvez fosse o início da Aurora, como escreve Paulo Mendes Campos.</p>
<p>É curioso que ao finalizar este texto sobre “despedidas”, em meio a uma conversa fortuita, eu receba um fragmento escrito assim “Fiquei triste um certo dia quando soube que até as estrelas morrem. Mas, desta vez, não foi a poesia que me consolou&#8230;” Um paragrafo vindo assim, por mensagem, num diálogo na madrugada.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Esse reconhecimento de quem se é, da própria história e do desejo que já existia antes de você encontrar o outro é justo o que lhe é “devolvido” ao fim da jornada de despedida. Gorgeous and alone. Face to face, como num solo do Nels Cline.  </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Sempre tive medo de me despedir, gastei tanto o tempo das coisas que algumas vezes me veio outro temor: o de que as palavras perdessem a força. Hoje entendo que é isso mesmo. Deixar ir leva tempo. É uma morte morrida e não matada. Enfraquece a memória porque algo novo é que vai ganhando vida. A viagem é, enfim, o ato de consumir. Só depois é possível compreender o novo. Por isso, também precisei exaurir alguns sentimentos. E também por isso, repito, este texto é sobre o movimento entre o espanto de ver-se apartado do futuro e o sentimento de quando já nos transformamos e não há mais lamento.</p>
<p>Na viagem que me dispus a fazer reconheci esquinas, percorri o caminho inteiro olhando todos os detalhes, me atentei aos letreiros, escutei os sons, pus os pés na grama, respirei tentando capturar o cheiro de éter e páprica, travei um diálogo insólito com uma senhora que desenhava sozinha pelas ruas. Exauri o que pude para então reconhecer que apenas precisei de um pouco mais de tempo para chegar até ali. Esse reconhecimento de quem se é, da própria história e do desejo que já existia antes de você encontrar o outro é justo o que lhe é “devolvido” ao fim da jornada de despedida. É uma parte sua que se revela inconteste e por isso mesmo não pode ser abandonada completamente. “Gorgeous and alone. Face to face”, como num solo do Nels Cline.</p>
<p>Seja como for, acho que vou dizendo um adeus fraco, agora ou depois. Quando estiver comendo um falafel do Zaim, ainda me lembrarei do que foi. Caminho feito, o passado não é mais. Muda devagar e sempre, o tempo todo, tal qual nós mesmos.</p>
<p>Uma charada in looping. “Finitude e eternidade não precisam ser antágonos”, sentencia minha interlocutora da madrugada. Ela que também escreveu sobre potes de vidros, armários antigos, espiãs russas, bicicletas azuis e uma série de fragmentos rotineiros de uma vida que já é outra. O oximoro. Na memória o aviso: &#8220;Rua Leonor/Rua semente&#8221;, o som que hoje escuto de outra forma dentro de mim.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Groucho Marx e o amor de si</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Jan 2022 23:28:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;Amor é dado de graça. É semeado no vento. Na cachoeira, no eclipse&#8230;&#8221;. Assim Carlos Drummond de Andrade alinhava um dos poemas mais bonitos da literatura brasileira. Se não fosse <a class="read-more" href="https://apulga.com/groucho-marx-e-o-amor-de-si/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2022/01/Groucho3.png"><img class="alignnone size-full wp-image-2018" alt="Groucho3" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2022/01/Groucho3.png" width="400" height="300" /></a></p>
<p>&#8220;Amor é dado de graça. É semeado no vento. Na cachoeira, no eclipse&#8230;&#8221;. Assim Carlos Drummond de Andrade alinhava um dos poemas mais bonitos da literatura brasileira. Se não fosse belo pelas palavras, seria pela maneira delicada de dizer uma verdade muito dura: o amor é escolha. Por mais que nos esforcemos para merecê-lo, não há peripécia, adorno ou mesmo imolação que consiga nos dar aquilo que também é atributo do outro; o gesto de nos escolher por aquilo que somos.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É isto: amamos pelo que o outro diz de nós, por aquilo que nele nos cala e, nesse sentido, não há esforço que molde esse intangível encontro. Digo que a dedicação só se sustenta porque algo nesse sentimento de encaixe se atualiza. “A gente se escolhe”. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>É isto: amamos pelo que o outro diz de nós, por aquilo que nele nos cala e, nesse sentido, não há esforço que molde esse intangível encontro. É claro, a maturidade nos mostra que só se sobrevive àquilo que se constrói a partir desse encontro. Mas meu ponto aqui não é o da pertinência, do tempo e daquilo que vai se urdindo a partir desse encontro. É precisamente o contrário. Digo que a dedicação só se sustenta porque algo nesse sentimento de encaixe se atualiza. “A gente se escolhe” é uma frase que minha comadre me repete há anos com uma precisão cirúrgica a selar esse dilema.</p>
<p>E o que nos faz continuar escolhendo algo ou alguém? Como se diz na homilia católica, “eis o mistério da fé”. Ou desejo é falta, diria Freud. Podemos procurar explicações mil, mas a questão aqui é precisar o quanto dessa escolha é da conta do outro, e não nossa. Repito: não há esforço que molde esse intangível encontro.</p>
<p>Se isso serve para entendermos nossas paixões (e nos libertarmos, caso alguém não nos escolha mais), ver essa constatação pelo espelho é algo que nos impõe um olhar agudo sobre nós mesmos. Woody Allen, no enredo que certamente é o precursor de nove entre dez comédias românticas citadas aqui como exemplo, coloca essa questão em Annie Hall (1977): “Não quero entrar pra nenhum clube que aceite alguém como eu como sócio”. A frase de Groucho Marx dita por Allen atualiza o humor judaico para expor a ironia de que, quando alguém nos aceita como somos, talvez algo de errado haja aí, algo que nos faça perder o interesse porque justamente a falta é (supostamente) preenchida.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">“Não quero entrar pra nenhum clube que aceite alguém como eu como sócio”. A frase de Groucho Marx dita por Allen atualiza o humor judaico para expor a ironia de que, quando alguém nos aceita como somos, talvez algo de errado haja aí, algo que nos faça perder o interesse porque justamente a falta é preenchida.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Essa referência me fez lembrar de um causo corriqueiro, mas bem ilustrativo. Loli, minha professora de alemão, ao me ajudar a procurar uma editora para minha tese e ao esbarrar com uma em relação à qual não viu defeitos aparentes, saiu-me com esta: “Grazinha, vamos procurar mais, porque está tudo muito bem, então, deve ter algo errado”. Essa história até hoje me traz boas risadas por múltiplos motivos, mas aqui vou pegar o fio da “inadequação” para descer um ponto a mais na ferida do ego. Saio do encontro com o outro (a editora, o amor, o filme etc.) e vou para o encontro com o eu.</p>
<p>É esse o tema que tem me pegado em rodeios como no nariz de cera que escrevi até aqui. Em específico, a falta que sentimos que nos faz tanto desejar como repelir algo – não no outro, mas algo em nós mesmos. Com o que é possível nos reconciliarmos a partir do que já vivemos e o que não pode prescindir de ainda ser vivido? Não sei se existe resposta fácil para essas questões. Suspeito que elas vão variar de acordo com o tempo histórico e com o nosso próprio tempo de vida, mas há algo nesse dilema que me intriga e foge um bocado às experiências para centrar-se em algo mais essencial.</p>
<p>Talvez possa dizer de forma mais precisa: e quando sentimos falta de nós e por isso “precisamos” nos escolher? E se cantássemos para nós mesmos o trecho “Olha, você tem todas as coisas/ Que um dia eu sonhei pra mim/ A cabeça cheia de problemas/ Não me importa, eu gosto mesmo assim&#8221;? É piegas e bobo, eu sei, um chavão. Ocorre que essa banalidade nos faz descer mais um degrau no argumento, indo a uma espécie de necessidade de aceitação dos nos próprios defeitos para seguir adiante em nossa escolha e aceitação do que somos. Um amor de si gabola que nos corrigi o rumo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Com o que é possível nos reconciliarmos a partir do que já vivemos e o que não pode prescindir de ainda ser vivido? Não sei se existe resposta fácil para essas questões. Suspeito que elas vão variar de acordo com o tempo histórico e com o nosso próprio tempo de vida, mas há algo nesse dilema que me intriga e foge um bocado às experiências para centrar-se em algo mais essencial.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>É como visualizar Groucho Marx sendo enquadrado por sua mãe judia em um discurso de quem tanto fez para lhe dar a luz e hoje não recebe nada em troca. O velho Groucho, diante de drama maior, haveria de pôr a ironia de lado e lustrar o próprio ego para fornecer uma significativa cota de orgulho e atenção à sua progenitora. É como ver meu afilhado, na galhardia dos seus 5 anos, exibindo-se com embaixadinhas para um grupo de crianças mais velhas. Destemido, olhava para a turma e dizia, entre pequenos chutes: “Olha o que eu seu fazer”. Deu certo, enturmou-se. Mas, no fundo, ele fazia mesmo era o malabarismo para si, em um misto de personalidade bem-resolvida, destemor infantil e, sobretudo, aceitação irreverente das suas habilidades meio falhas e meio atrevidas. “Uma pirueta, duas piruetas/ Bravo, bravo/ Super piruetas, ultrapiruetas/ Bravo, bravo/ Salta sobre a arquibancada e tomba de nariz/ Que a moçada vai pedir bis/ Que a moçada vai pedir bis”.</p>
<p>Muito antes de saber da existência de Groucho Marx, Didi Mocó fez esses malabares durante toda a minha infância e, confesso, sempre preferi os filmes e esquetes em que ele se dava bem no final àqueles em que saía triste tal qual o Carlito, alijado por algum galã. Vejo muito mais graça no Didi fantasiado de Maria Bethânia com o coração transbordando de pretendentes ao errante e preocupado Bonga de “Os Vagabundos Trapalhões” (1982). É como se Pedro Malasartes fosse a antítese de Groucho Marx. Sem ter muito em que se sustentar, para o astuto Pedro não havia espaço para ironias autodepreciativas, mesmo que cheias de charme.</p>
<p>Aliás, passei a infância escutando minha avó me falar das aventuras do Malasartes, uma espécie de MacGyver do sertão, a léguas de distância de qualquer Cinderela encantada. Eram histórias de um pobre coitado que, com um saco, três pedras, um graveto e muita esperteza conseguia quebrar o encanto da princesa, vencer o desafio do rei e ganhar seu quinhão no reino. Ah, os descendentes de Lazarillo de Tormes! Não à toa meu coração disparou ao ver João Grilo, do genial Ariano Suassuna, com seus causos sobre a cachorra que havia deixado um testamento, o gato que &#8220;descomia&#8221; dinheiro e a gaita mágica que ressuscitava gente. O Grilo enganou o padre e o bispo, o padeiro e sua mulher, o cangaceiro chefe do bando e, não contente com a façanha, diante do diabo, não usou de autocomiseração boba. Como ele mesmo anunciou, de besta só tinha a cara, e se saiu com um trunfo maior do que qualquer santo, apelando à Nossa Senhora, a Compadecida.</p>
<p>Um detalhe que vale menção é que Grilo faz seu chamamento sem solenidades e com um verso para lá de maroto: “Já fui barco, fui navio/ Mas hoje sou escaler/ Já fui menino, fui homem/ Só me falta ser mulher/ Valha-me Nossa Senhora/ Mãe de Deus de Nazaré”. É como ele mesmo diz: a mãe da Justiça, a lhe acudir, sabendo exatamente a peça que o Grilo é. Mas, antes, foi ele próprio quem não desistiu de si mesmo diante de todas as suas imperfeições e, muito provavelmente, até por elas. Queria estar no clube, era tudo o que ele tinha. Em uma análise psicanalítica de botequim, o Grilo havia escolhido a si próprio. Podia ensinar a Drummond o avesso do seu poema: &#8220;Amor é dado de graça. É semeado no vento. Na cachoeira, no eclipse&#8230;&#8221; o Grilo amou-se, sabe Deus (ou Nossa Senhora) o porquê. Mas é fato que, de alguma forma, supriu a própria falta reconciliado que estava consigo, com o que havia de bom e ruim.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Mas, antes, foi ele próprio quem não desistiu de si mesmo diante de todas as suas imperfeições e, muito provavelmente, até por elas. Queria estar no clube, era tudo o que ele tinha. Em uma análise psicanalítica de botequim, o Grilo havia escolhido a si próprio. Podia ensinar a Drummond o avesso do seu poema: &#8220;Amor é dado de graça. É semeado no vento. Na cachoeira, no eclipse&#8230;&#8221; o Grilo amou-se. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Eu volto a pensar nisso, como se houvesse solução para esse mistério contínuo do movimento de quando somos gentis conosco e quando nos torturamos. Penso que talvez uma arenga bem dosada nos sirva de medida, já que ela nos provoca, mas também nos acaricia com um humor necessário à vida. A chave me parece ser mesmo querer fazer parte do clube. Mesmo que ele não exista de fato, há algo que se sobressai naqueles que, enfim, fazem essa escolha. Acho que é um pulo não apenas por escapar, mas sobretudo por viver. “A esperteza é a arma do pobre”, diz a Compadecida diante dos pecados do Grilo.</p>
<p>Há alguns anos tive o privilégio de entrevistar Ariano Suassuna e lhe perguntei justamente sobre o encantamento e essa salvação pela astúcia. Ele me respondeu: “Sou uma pessoa que, com 80 anos de idade, ainda continuo animoso”. Por isso, sua literatura tinha esses personagens que enfrentam o real com uma espécie de galope mágico. Suassuna perdeu o pai assassinado ainda criança e viu sua mãe esconder o paradeiro do assassino para evitar que um rastilho de vingança destruísse a vida dos filhos. Foi compreender isso adulto. Dizia-se um homem assombrado até que sua esposa Zélia lhe aliviou o coração. Quando a conheceu, gaiato como ele só, Ariano disse a sua irmã Germana: “Hoje, na Rua Nova, uma galeguinha maravilhosa, linda, olhou pra mim com cara de alma que tá pedindo reza”. Ariano teve uma sorte imensa por Zélia ter lhe escolhido, dessa sorte dita por Drummond, que é do outro para conosco. Mas, acho que em algum momento ele mesmo escolheu a si mesmo como um ser animoso que era.</p>
<p>Nem sempre é possível seguir em frente pondo os pés sobre um alicerce imperfeito. Há pendências que precisam ser resolvidas para que não retornem sempre numa sabotagem cada vez maior, é fato. Mas também há uma hora em que a gente deve se escolher como escolhe o outro que enuncia nossas faltas e nosso desejo. Talvez por isso mesmo demos esse passo quando entendemos o que de nós pode ser aceito mesmo que nos doa. “Quatro cambalhotas, cinco cambalhotas/ Bravo, bravo/ Arquicambalhotas, hipercambalhotas/ Bravo, bravo/ Rompe a lona, beija as nuvens, tomba de nariz/ Que os jovens vão pedir bis/ Que os jovens vão pedir bis”. Salve o Grilo Saltimbanco Malasartes!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>O que você vai fazer com a sua dor?</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Jun 2021 17:41:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Laécio Ricardo]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; Este texto era para ser uma homenagem, algo com força de tributo e gratidão. Mas como o combustível que o impulsionou foi uma mescla de tristeza, raiva e impotência, <a class="read-more" href="https://apulga.com/o-que-voce-vai-fazer-com-a-sua-dor/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1996" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2021/06/Stardust-dor-enviar2.jpg"><img class="size-full wp-image-1996" alt="Foto: Eduardo Rocha" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2021/06/Stardust-dor-enviar2.jpg" width="640" height="617" /></a><p class="wp-caption-text">Foto: Eduardo Rocha</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este texto era para ser uma homenagem, algo com força de tributo e gratidão. Mas como o combustível que o impulsionou foi uma mescla de tristeza, raiva e impotência, ele resultou em uma espécie de confissão que expressa minha perplexidade com o drama que enfrentamos desde março de 2020, quando fomos alarmados com o viés insidioso e o ritmo de contaminação da suposta “gripezinha” e mergulhamos num abismo que parece não ter fim. Em poucas semanas, o mundo e a sociabilidade que conhecíamos foram interditados; e numa mudança súbita, livre de ensaios, tivemos que nos adaptar ao home office, aos remédios contra insônia e ansiedade, às máscaras e borrifadores de álcool, ao confinamento, à gestão da vida pelos smartphones.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">O que você, leitor, vai fazer com a sua dor? Ou não existe angústia no seu peito, pesar nos seus dias e aflição nas suas noites?! Duvido muito. Quando um país atinge uma cifra tão expressiva, apesar de tristíssima, penso que a imensa maioria dos seus indivíduos foram, de algum modo, alvejados direta ou indiretamente por tais números.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Passados 15 meses dessa distopia chamada covid-19, e com o número de óbitos no Brasil chegando à casa das 470 mil vítimas fatais, sem nenhum indicativo claro que sugira o final desta contabilidade fúnebre, lanço aqui a pergunta que intitula este texto: o que você, leitor, vai fazer com a sua dor? Ou não existe angústia no seu peito, pesar nos seus dias e aflição nas suas noites?! Duvido muito. Quando um país atinge uma cifra tão expressiva, apesar de tristíssima, penso que a imensa maioria dos seus indivíduos foram, de algum modo, alvejados direta ou indiretamente por tais números. Posso ser mais franco: desconheço hoje, no meu círculo de amigos, alguém que não tenha tido, na sua família ou entorno próximo, um parente ou pessoa querida que faleceu ou agonizou em leito hospitalar em decorrência da pandemia. Se você não se encaixa na descrição, não comemore o privilégio; é bem provável que, em breve, você ingresse no clube. E não se trata de profecia agourenta: com a vacinação em ritmo lento e a contaminação fora de controle, não há alternativa ou feitiçaria que promova uma blindagem.</p>
<p>Mas me permitam assumir a primeira pessoa, como é de praxe nos meus textos, uma vez que perdi o apreço pela escrita formal e distanciada há anos. Para expressar minha relação com a pandemia, eu precisaria de um espaço bem mais amplo do que este reservado à minha coluna – talvez um podcast com horas de duração. Na impossibilidade de me envolver com tal projeto, adotemos o teclado e as palavras como aliados. Tive um 2020 duríssimo: uma suspeita de contaminação que me deixou sequelas prolongadas (picos de ansiedade frequentes, uma quinzena de forte insônia, dificuldades alimentares), o cancelamento de um pós-doutorado almejado há anos, uma queda de braço com companhias aéreas e aeroportos para conseguir minha repatriação, e a admissão daquilo que durante anos eu hesitara em encarar – minha vulnerabilidade.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Fragilidade e vulnerabilidade, eis duas palavras que têm nos confrontado nesta pandemia. Um enfrentamento nada fácil. O lado positivo é que o ser humano parece descobrir, quando está prestes a tocar a superfície do abismo, outro binômio importante – resistência e resiliência.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O pano de fundo desse pesadelo vivido de forma solitária era, evidentemente, a covid-19 e as notícias sobre a pandemia veiculadas continuamente, numa espécie de looping perverso. Numa situação como esta, de evidente fragilidade, o excesso de informação e a contundência dos fatos divulgados apenas aceleram a abertura do cadafalso. Fragilidade e vulnerabilidade, eis duas palavras que têm nos confrontado nesta pandemia. Um enfrentamento nada fácil. O lado positivo é que o ser humano parece descobrir, quando está prestes a tocar a superfície do abismo, outro binômio importante – resistência e resiliência.  Voltei, pois, ao Brasil. Claro, sem achar que findaram os meus (e os nossos!) problemas. Sim, não se encerraram.</p>
<p>Na verdade, de um ponto de vista pessoal, celebro minha recuperação e acho que consegui administrar meus temores; mas quando penso no drama social que temos enfrentado, e que se aprofunda em 2021, sinto um misto de cansaço, esgotamento, irritação, dor. Sim, dor e empatia. Afinal, como encarar a cifra das 450 mil vítimas fatais e tocar o dia como se nada estivesse a ocorrer, como se fosse um problema deles, dos mortos, e não nosso?! Impossível. Aderir a certo torpor para prosseguir, é compreensível; diria até que é necessário para não sermos tragados pela tristeza e pela ansiedade. Mas não se comover com números tão alarmantes, não manifestar empatia pelo sofrimento dos pacientes e pela dor dos familiares e amigos, é de uma crueldade intraduzível&#8230;</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Fragilidade e vulnerabilidade, eis duas palavras que têm nos confrontado nesta pandemia. Um enfrentamento nada fácil. O lado positivo é que o ser humano parece descobrir, quando está prestes a tocar a superfície do abismo, outro binômio importante – resistência e resiliência.</strong><strong></div></strong></h3>
<p><strong> </strong>Quando o cientista Atila Iamarino, ainda no primeiro semestre de 2020, apresentou um estudo nos alertando para o risco da pandemia provocar a morte de até um milhão de brasileiros, caso nenhum planejamento efetivo e medidas de contenção fossem adotados previamente, muitos consideraram a divulgação excessivamente alarmista. Talvez estivessem seduzidos pelo desdém com que o presidente da República se referia ao problema (uma gripezinha, uma chuva), no intuito de minimizar sua contundência. Hoje, quando novas ondas de contaminação já se avizinham, e com o Brasil e a Índia na condição de párias do mundo, é provável que parte dos incrédulos (não digo todos porque, em tempos de boçalidade explícita, parte do gado prefere manter sua fidelidade a reconhecer os erros) releia as anotações de Iamarino como um trabalho profético.</p>
<p>Fizemos tudo errado. Uso o plural porque é preciso ser inclusivo sobretudo no reconhecimento dos erros. Da parte do governo Federal, faltou tudo – planejamento para enfrentar a crise, compra antecipada de vacinas, respeito à ciência e às autoridades sanitárias credenciadas, humildade para admitir os equívocos. Da nossa parte, faltou solidariedade e compromisso com os protocolos de segurança – uso ostensivo de máscaras, higiene regular das mãos, maior confinamento no espaço doméstico e, consequentemente, não promover aglomerações.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Fizemos tudo errado. Uso o plural porque é preciso ser inclusivo sobretudo no reconhecimento dos erros. Da parte do governo Federal, faltou tudo &#8211; planejamento para enfrentar a crise, compra antecipada de vacinas, respeito à ciência e às autoridades sanitárias credenciadas&#8230;  Da nossa parte, faltou solidariedade e compromisso com os protocolos de segurança.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Sim, estamos todos cansados e ansiosos pelo retorno da vida social; afinal, cada dia de isolamento amplia uma espera já insuportável. Mas a desculpa (compreensível até!) da higiene mental não pode justificar condutas precipitadas e a baixa da guarda, sob o risco de prorrogarmos o quadro atual de modo indeterminado. E não adianta bradar que na sua residência todo mundo faz o “dever de casa”; estamos diante de uma tarefa que precisa ser abraçada coletivamente e de modo massivo. Do contrário, acumularemos novos fracassos. Em outros termos, precisamos convencer as partes resistentes sobre a importância de aderir a tal esforço. Não é fácil, não é agradável – do lado de lá, há cegueira e intransigência. Mas é preciso perder o pudor e partir para a abordagem verbal lúcida, consciente, ainda que não tenhamos garantia de vitórias. Mas vai que alguém acate a nossa orientação; será, no mínimo, mais um que se despe do manto da incredulidade e do negacionismo.</p>
<p>Estou quase finalizando o texto e volto a pensar nos 470 mil mortos; vidas que sofreram em isolamento, vítimas que não foram devidamente veladas ou pranteadas, lutos que não foram elaborados por familiares e amigos. Somos um país de tradição cristã e de ritos funerários consolidados há séculos. Tais ritos foram interditados de modo súbito, tendo em vista as orientações sanitárias. O que significa dizer que foram interrompidos sem que houvesse um “aviso-prévio” ou a adoção de práticas interinas. E tudo isso terá forte impacto.</p>
<p>Podemos não mensurar agora, mas a conta virá. Onde não há luto, eu insisto, não pode haver superação da perda e o restabelecimento do fio da vida por parte dos que permanecem vivos. No limite, sempre haverá a lembrança de uma despedida impossibilitada, de um choro não partilhado, de um abraço não distribuído. Aqui devolvo para você a pergunta que dá título ao texto: o que você vai fazer com a sua dor? Vai administrá-la de modo solitário e sufocá-la num soluço ou vai canalizá-la em ação, de modo a contribuir com os esforços demandados pelo presente?</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Onde não há luto, eu insisto, não pode haver superação da perda e o restabelecimento do fio da vida por parte dos que permanecem vivos. No limite, sempre haverá a lembrança de uma despedida impossibilitada, de um choro não partilhado, de um abraço não distribuído. Aqui devolvo para você a pergunta que dá título ao texto: O que você vai fazer com a sua dor?</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Disse no início que esse texto deveria ser uma homenagem, mas cedo desisti da tarefa. Não gostaria de concluir, porém, sem fazer referência ao homenageado, um ex-professor e amigo querido que, infelizmente, ingressou na contabilidade das vítimas fatais. Seu nome: Francisco Gilmar Cavalcante de Carvalho. Um pesquisador notável, dotado do mais generoso dos dons na minha opinião: ser capaz de identificar e de motivar novas vocações. Sou um exemplo claro, mas estou longe de ser o único. Comigo estão outras dezenas de vozes, todas elas gratas pelos contínuos incentivos do Gilmar&#8230; Seu falecimento provocou uma comoção em nossas redes sociais.</p>
<p>Declarações de afeto e doces memórias se multiplicaram em postagens tocantes. Foi o nosso consolo e a despedida possível&#8230; Mas ao declinar da missão de redigir um tributo, vislumbrei outra constatação: mesmo que tivesse ânimo para avançar na tarefa, ela seria insuficiente e insatisfatória. Penso que uma homenagem à altura somente seria possível se eu pedisse licença aos colegas para partilhar todas as postagens e assim compor um texto coletivo. Apenas esse mosaico afetivo, acredito, alcançaria a intensidade da sua presença em nossas vidas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Vão-se os anéis e os jornais, infelizmente&#8230;</title>
		<link>https://apulga.com/vao-se-os-aneis-e-os-jornais-infelizmente/</link>
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		<pubDate>Sat, 20 Feb 2021 19:51:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Laécio Ricardo]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Stardust]]></category>
		<category><![CDATA[Jornalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Durante a minha formação escolar, uma convicção rapidamente se enraizou como meta futura: eu seria jornalista e minha escrita, aliada à uma curiosidade incansável, haveria de me levar para outros <a class="read-more" href="https://apulga.com/vao-se-os-aneis-e-os-jornais-infelizmente/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2021/02/Memorias-jornalismo1.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1980" alt="Memorias jornalismo1" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2021/02/Memorias-jornalismo1.jpg" width="662" height="499" /></a></p>
<p>Durante a minha formação escolar, uma convicção rapidamente se enraizou como meta futura: eu seria jornalista e minha escrita, aliada à uma curiosidade incansável, haveria de me levar para outros horizontes, além de um conjunto residencial situado na periferia de Fortaleza. Era algo cristalino, como uma dose de Ypióca Prata. Tal decisão nunca comportou hesitações e a aprovação no curso de Comunicação Social da UFC, num longínquo 1995, me parecia apenas a confirmação de um destino ambicionado desde os 12 anos.</p>
<p>Nos semestres finais da graduação, tive meu batismo profissional na sucursal da revista Veja, em período no qual a revista salpicava escritórios pelas grandes capitais do País. Em seguida, ingressei na Gazeta Mercantil, então o baluarte do jornalismo econômico brasileiro, numa época em que inexistia o Valor Econômico. Guardo lembranças positivas e negativas destas experiências; e, claro, coleciono algumas amizades. Mas se retomo hoje essas memórias, é para celebrar outro periódico e redação, aquela que foi a minha verdadeira casa, não obstante seus defeitos estruturais – o jornal Diário do Nordeste (DN), cuja edição impressa deixará de circular em fins de fevereiro, após quase 40 anos de atividades. A versão online sobreviverá; e pelo que me consta, turbinada. Alguns dirão que é uma migração inevitável; outros, que muitos empregos serão mantidos. Não contesto. Mas um portal não compensa minha insatisfação sempre que uma rotativa cessa de rodar.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Mas se retomo hoje essas memórias, é para celebrar o jornal Diário do Nordeste (DN), cuja edição impressa deixará de circular em fins de fevereiro, após quase 40 anos de atividades. A versão online sobreviverá; e pelo que me consta, turbinada. Mas um portal não compensa minha insatisfação sempre que uma rotativa cessa de rodar.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Neste misto de saudosismo e pesar pelo seu fechamento (uma sina compartilhada com outros tantos jornais brasileiros), faço um hiato para dois esclarecimentos. Nos anos em que vertia sangue para me converter num jornalista econômico mediano, frustrado porque estagiava numa área que não me apetecia, foi o DN que abriu suas portas para meus textos no campo do jornalismo cultural, publicados com pseudônimo porque a Gazeta Mercantil não autorizava de outra forma. Alguém indagará: você recebia algo pelas matérias? Não, escrevia de boa vontade e de peito estufado. E o que ganhei? Aquelas matérias não apenas me deram visibilidade numa seara que eu gostaria de ingressar; elas também asseguraram minha sobrevida emocional, uma vez que eu podia contornar a minha insatisfação diária a cada publicação anônima. E tal experiência rendeu frutos: após concluir a graduação, em meio a euforia pelo canudo e ansiedade para inaugurar a carteira de trabalho como efetivo, fui demitido da Gazeta. Um episódio muito dolorido, diga-se de passagem. Tal notícia chegou ao DN e, em menos de uma semana, o editor de cultura me recrutou para integrar sua equipe em definitivo. Aquelas matérias anônimas germinaram e a redenção possível veio.</p>
<p>Integrei a equipe do DN por quase 10 anos, com uma única pausa durante o início do meu mestrado. Ali colecionei amigos e quase nenhum desafeto (pelos menos, eu acho!). Fiz matérias que me honraram imensamente e outras que, a contragosto, tive que encarar. Jornalismo, eu lembro, não é blog, não é escolha pessoal – você se depara com paixões e rancores, levanta a cabeça e aprende a driblar os dissabores. O nome disso é malícia (no bom sentido), traquejo, experiência, savoir faire. No DN, fui uma foca feliz, um aprendiz permanente e me converti num profissional respeitado. Lembro com carinho de dezenas de reportagens que me emocionaram; e tinha um apreço imenso pelas edições dominicais, cujas matérias especiais consumiam longos dias de apuração e resultavam em pequenos dossiês sobre temas quase sempre fascinantes.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Foi o DN que abriu suas portas para meus textos no campo do jornalismo cultural, publicados com pseudônimo porque a Gazeta Mercantil não autorizava de outra forma. Escrevia de boa vontade e de peito estufado. Aquelas matérias não apenas me deram visibilidade numa seara que eu gostaria de ingressar; elas também asseguraram minha sobrevida emocional.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Uma redação de jornal é uma família. Extensa, é verdade. E como em toda família, há as afinidades e os mais distantes. Ali, eu contabilizei tantos afetos, que é impossível mensurar: colegas de geração se mesclavam a ex-alunos, que agora partilhavam comigo os “ossos do ofício”; e veteranos de outras décadas observavam curiosos a nossa presença crescente. Hoje, aos 44 anos, caso ainda estivesse na redação, me pergunto como eu acompanharia esta inevitável tarefa de renovação – eu seria receptivo ou teria desconfiança com os novatos?<br />
Não pensem, pela leitura deste texto, que idealizo a profissão e mascaro suas dificuldades. De modo algum: os salários são defasados; as cobranças, permanentes; e as recompensas, nem sempre imediatas. Eventualmente uma pauta solicitada por encomenda da chefia ou para agradar um amigo dos proprietários, desconectada de importância para sua editoria, pode representar um desafio humilhante. E claro que os enfrentei. Mas se há desgosto nestas ocasiões, é preciso ressaltar também a euforia quando sua matéria emociona os leitores, transforma positivamente a vida das fontes consultadas ou promove empatias necessárias. Assim, nesta gangorra entre o impublicável e a reportagem notável, é preciso dosar para mensurar sua experiência profissional: no meu caso, o saldo é positivo, de longe.</p>
<p>Deixei a redação no fim de 2007 para cursar o doutorado e não mais retornei. Volta e meia confiro alguma edição, e sempre que vou a Fortaleza, tento visitar o jornal ou encontrar algum colega de ofício, embora minha geração hoje seja minoria no expediente. Mas a notícia recente do fechamento iminente do DN me alvejou em cheio. E retirou do meu estoque de lembranças uma dezena de memórias tocantes, felizes, preciosas&#8230; Não sei se outros jornalistas que passaram pela casa foram sensibilizados da mesma forma, afinal o vírus da comoção tem diferentes intensidades. Quanto mim, permaneço triste ao saber que suas rotativas ficarão emperradas.</p>
<h3></h3>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Crônica da pandemia</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Sep 2020 14:35:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dayse Abreu]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Apreensão, álcool gel, revolução no modo de trabalhar (quando não se perdeu o emprego), encontros virtuais, prefeito e governador que escutavam as orientações de médicos e cientistas, presidente que as <a class="read-more" href="https://apulga.com/cronica-da-pandemia/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2020/09/Captura-de-Tela-2020-09-21-às-11.47.51.png"><img class="alignnone size-full wp-image-1955" alt="Captura de Tela 2020-09-21 às 11.47.51" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2020/09/Captura-de-Tela-2020-09-21-às-11.47.51.png" width="631" height="461" /></a></p>
<p>Apreensão, álcool gel, revolução no modo de trabalhar (quando não se perdeu o emprego), encontros virtuais, prefeito e governador que escutavam as orientações de médicos e cientistas, presidente que as ignorava, lockdown, lockdown pero no mucho, notícias de quem pegou o vírus, de quem se curou, de quem não resistiu&#8230; Quando vai passar? Já não era para ter passado?! Começou em março de 2020. Algumas cidades no Brasil foram estabelecendo práticas de isolamento social, por conta da pandemia do coronavírus. Um dos memes que mais circularam foi o do “eu não aguento mais não aguentar mais”. Tentando (não) lidar com tudo isso, fui buscar um refúgio nos livros.</p>
<p>Logo no começo da quarentena, vi algumas pessoas lendo A Peste, do Camus. Ainda pensei em fazer o mesmo por curiosidade, afinal, não conheço o livro. Só que essa vontade não durou nem trinta segundos. Eu não queria me refugiar numa história que me traria de volta à realidade.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Só tinha a sensação de completude, de início e fim, quando lia alguma crônica do Fernando Sabino, num livro há tempos esquecido em cima de um móvel. Lia uma, lia outra, mas não considerava, solenemente, que “este é o livro que estou lendo”. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>No entanto, paradoxalmente, era exatamente a realidade que eu parecia procurar, consumindo notícias em quase todo o meu tempo livre, como num transe. Quantos novos casos, em quais bairros, número de óbitos, taxa de ocupação das UTIs &#8211; podiam me perguntar qualquer um desses dados, eu saberia informar. Ser detentora de informações assim me fazia sentir, de alguma maneira, um pouco mais segura, mais preparada. Só que o preço dessa segurança (que não assegurava muita coisa, a bem da verdade) veio em forma de estafa mental.</p>
<p>Não conseguia me concentrar. Comecei e larguei várias leituras. No canto inferior direito da tela do leitor digital, a indicação de onde tinha terminado minha empolgação com cada livro: 15, 10, 3%&#8230;</p>
<p>Só tinha a sensação de completude, de início e fim, quando lia alguma crônica do Fernando Sabino, num livro há tempos esquecido em cima de um móvel. Lia uma, lia outra, mas não considerava, solenemente, que “este é o livro que estou lendo”. Grande bobagem. Eu não precisava estar lendo um livro inteiro. Eu precisava era de algo fluido, leve, engraçado, talvez até sério, mas, ainda assim, lírico. E curto, já que a estafa mental não tinha passado completamente, mesmo depois que passei a acompanhar menos as notícias.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Então era isso, crônicas do Fernando Sabino. Ou a questão seriam as crônicas? Ou o Fernando Sabino? Talvez as duas coisas. Comprei, assim, mais três livros de crônicas, dois do Antônio Prata e um do Rubem Braga&#8230; </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Aquelas crônicas me faziam muito bem, só que elas estavam acabando. Eu precisava me reabastecer, e não podia ser com livro digital. Tinha que ser no papel, para poder abrir aleatoriamente. Assim, uma hora pode aparecer uma crônica ainda inédita. Outra, um texto que já li (mas sem problema, ele ótimo, vou ler de novo). Às vezes, até vem algum de que não gostei tanto assim, mas é só virar a página que a história é outra. Já que não podemos fazer isso com a pandemia, ao menos o façamos no nosso refúgio.</p>
<p>Então era isso, crônicas do Fernando Sabino. Ou a questão seriam as crônicas? Ou o Fernando Sabino? Talvez as duas coisas. Comprei, assim, mais três livros de crônicas, dois do Antônio Prata e um do Rubem Braga. E também fui atrás de dois livros de cartas, um de correspondências trocadas entre o Fernando Sabino e a Clarice Lispector, e outro de cartas que ele enviou para seus três grandes amigos ao longo de décadas.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Como me surpreendi com as confissões da Clarice Lispector ao amigo Fernando Sabino: &#8220;Só quem diz a verdade é quem não gosta da gente ou é indiferente. Tudo o que ele diz é verdade. Não se pode fazer arte só porque se tem um temperamento infeliz e doidinho&#8221;.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Essas compras me fizeram passar um tempo remoendo uma pequena culpa pelo surto consumista literário. Nos últimos meses, não fui diferente de tanta gente que começou a refletir mais sobre seus hábitos de consumo, sobre o que é preciso ter mesmo, em detrimento do que seria supérfluo. Sim, tenho muitos livros não lidos ainda guardados na estante. Mas eles não podiam me dar o abraço que as crônicas (ou o Fernando Sabino?) me proporcionavam. Leituras que abraçam não são supérfluas para mim em tempos pandêmicos. Culpa superada, então.</p>
<p>Ah, como eu ri da descrição do Fernando Sabino sobre o dia em que ele, em pleno aeroporto, foi convencido por um repórter de rádio a dar uma entrevista dentro de uma cabine telefônica para diminuir o barulho ao redor. Acabaram entalados. O amigo do Sabino, do lado de fora, tentava ajudar, “em gestos frenéticos de guardador de carro ajudando motorista a entrar na vaga” (1).</p>
<p>Como eu voltei no tempo quando o Antônio Prata relembrou as viagens de família na infância, quando o pneu do carro furava (2). Como eu achei lindo o mesmo Antônio Prata relatando uma conversa que teve com um motorista de táxi, viúvo, que contou da falta que sentia de não ter fotos da esposa fazendo as coisas do dia a dia, que era como ele se lembrava dela (3).</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Sabino desabafa: “Não é possível eu continuar assim, a vida me empurrando, me empurrando sem parar (&#8230;) Tudo vai acontecendo, vem vindo, vem vindo, já passou! É tão depressa, tão fugaz que nem percebo, não apreendo a vida.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Como eu me surpreendi com as confissões da Clarice Lispector ao amigo Fernando Sabino em 1946. Clarice só tinha publicado dois livros até então e estava desanimada com a recepção negativa do segundo. Ela chega, num momento, a concordar com um dos críticos: “Só quem diz a verdade é quem não gosta da gente ou é indiferente. Tudo o que ele diz é verdade. Não se pode fazer arte só porque se tem um temperamento infeliz e doidinho” (4). Ainda bem que ela tinha um amigo com quem trocava cartas e que lhe deu apoio e incentivo. Clarice veio a escrever tantos livros depois disso ainda.</p>
<p>Como eu me diverti, lendo correspondências como a que Fernando Sabino endereçou a “meus jovens mentecaptos Hélio e Otto”. Por outro lado, como eu refleti sobre a amizade, quando, em outra carta, Sabino diz a um amigo que “o principal, que nos sustenta de pé quando a noite avança e o sono abaixa, é que nós nos sabemos juntos” (5).</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Tudo vai acontecendo, vem vindo, vem vindo, já passou! É tão depressa, tão fugaz que nem percebo, não apreendo a vida, ela escorre pelos meus dedos quando vou segurá-la”. O que Sabino não escreveria sobre essa peste de coronavírus?</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Do livro com as cartas de Fernando Sabino para seus companheiros, uma das que mais me marcou foi escrita no Rio de Janeiro, em “12 para 13 de Agosto, 44”. Nela, Sabino desabafa: “não é possível eu continuar assim, a vida me empurrando, me empurrando sem parar (&#8230;) Tudo vai acontecendo, vem vindo, vem vindo, já passou! É tão depressa, tão fugaz que nem percebo, não apreendo a vida, ela escorre pelos meus dedos quando vou segurá-la” (5). Setenta e seis anos atrás, Fernando Sabino escreveu isso para seu amigo Hélio (“meu velho”). O que ele não escreveria sobre essa peste de coronavírus?</p>
<p>Me falta ainda explorar o livro do Rubem Braga. Por enquanto, só dei uma rápida folheada, suficiente apenas para descobrir que as crônicas que lá estão foram selecionadas pelo&#8230; Fernando Sabino. Juro que comprei sem saber.</p>
<p>(1) Da crônica &#8220;Por falar em aperto&#8221;, do livro &#8220;As melhores histórias de Fernando Sabino&#8221;<br />
(2) Da crônica &#8220;Ótima viagem&#8221;, do livro &#8220;Meio intelectual, meio de esquerda&#8221;<br />
(3) Da crônica &#8220;Recordação&#8221;, do livro &#8220;Trinta e Poucos&#8221;<br />
(4) Do livro &#8220;Cartas Perto do Coração&#8221;<br />
(5) Do livro &#8220;Cartas na Mesa&#8221;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Marx sempre esteve certo</title>
		<link>https://apulga.com/marx-sempre-esteve-certo/</link>
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		<pubDate>Thu, 30 Apr 2020 20:29:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Naiana Rodrigues]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Avulsa]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho]]></category>

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		<description><![CDATA[Quem diria que precisaríamos viver uma pandemia, uma crise sanitária de alcance global, para olhar para a sociedade com mais cuidado e perceber que “tá tudo errado”. Consumismo, individualismo e <a class="read-more" href="https://apulga.com/marx-sempre-esteve-certo/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2020/04/marx-popart.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1940" alt="marx-popart" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2020/04/marx-popart.jpg" width="700" height="454" /></a></p>
<p>Quem diria que precisaríamos viver uma pandemia, uma crise sanitária de alcance global, para olhar para a sociedade com mais cuidado e perceber que “tá tudo errado”. Consumismo, individualismo e desigualdade de renda caíram na conta da negatividade social, pois eram situações com as quais já convivíamos e que se tornaram praticamente insuportáveis e abomináveis para muitos quando a morte por Covid-19 se tornou uma ameaça real e imediata. Por outro lado, esse mesmo temor direcionou os olhares para dimensões e instituições sociais que vinham em um processo de desgaste, de perda de credibilidade há tempos.</p>
<p>A ciência, o jornalismo e o trabalho compõem o que considero a tríade dos humilhados que se revelou essencial para manter a vida hoje, entendida aqui nos sentidos biológico e cultural. Cada elemento desse trio está envolto em uma miríade de sentidos contraditórios que se amalgamam à vida cotidiana em tempos de pandemia e isolamento social. Em razão da celebração do primeiro de maio, é interessante apontar a lupa da conscientização para o trabalho, pivô de embates com os quais nos deparamos na cobertura midiática, nas chamadas de vídeo com amigos e parentes, no supermercado, na farmácia e na portaria do prédio na hora de pegar o alimento comprado via aplicativo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Consumismo, individualismo e desigualdade caíram na conta da negatividade social, pois eram situações com as quais já convivíamos e que se tornaram insuportáveis quando a morte por Covid-19 se tornou uma ameaça.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O trabalho está em todos os lugares, não foi à toa, portanto, que Karl Marx e seus leitores, como György Lukács, enunciaram que o trabalho é o que dá sentido à vida do homem em sociedade. Para o velho barbudo e para os materialistas de plantão é pelo trabalho que o homem se diferencia dos demais seres vivos, pois através do trabalho, o homem transforma a realidade e essa transformação tem como objetivo garantir as condições materiais de existência e sobrevivência do próprio homem. Em resumo, o trabalho está no cerne da nossa própria definição de humanidade.</p>
<p>Os marxistas sempre defenderam a centralidade social do trabalho, até porque o trabalho é o que dá forma às mercadorias e serviços, sendo a peça-chave para a operação do sistema capitalista. Porém, por mais que eles tenham gritado a plenos pulmões que o trabalho importa, e muito, para a sanidade social, isso não impediu que o menino labor fosse humilhado pelo próprio sistema que dele depende. A tecnologia, a informação e o conhecimento já se insurgiram reclamando para si o posto de catalisadores da centralidade social. E conseguiram, a despeito de o trabalho estar sempre lá, dizendo que, sem ele, não há tecnologia, não há informação e nem conhecimento.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Para o velho barbudo e para os materialistas de plantão é pelo trabalho que o homem se diferencia dos demais seres vivos, pois através do trabalho, o homem transforma a realidade e essa transformação tem como objetivo garantir as condições materiais de existência e sobrevivência do próprio homem.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Da arena de disputas epistemológicas para o campo político, o trabalho se tornou um objeto da batalha discursiva que vem sendo travada em plena pandemia. Para o presidente da república, a defesa do trabalho virou sua plataforma de flexibilização do isolamento social. Quando o presidente diz: as pessoas precisam trabalhar! Ele deixa subentendido que não quer se responsabilizar pela geração de renda para a população que deve ficar em casa. A classe-que-vive-do-trabalho no Brasil, como diria o sociólogo Ricardo Antunes, é heterogênea em sua composição, mas homogênea em sua constituição precarizada. Portanto, ficar em casa para muitos desses trabalhadores significa perder a renda parcial ou totalmente e para outros sentir os efeitos deletérios da precarização.</p>
<p>A classe média composta por professores, servidores públicos, jornalistas e uma diversidade de profissionais que podem ficar em casa, sentem, muitos pela primeira vez, os efeitos contraditórios do trabalho em home office, da educação a distância, das reuniões por chamadas de vídeo, da cobrança por produtividade. A tal da tecnologia que tanto nos ajuda nas interações cotidianas também pode ser carrasca quando se alia a objetivos profanos. É o que experimentam esses trabalhadores, para quem a renda pode até não faltar, mas para os quais sobra a intensificação do trabalho com o aumento das horas trabalhadas ou o aumento da quantidade de atividades realizadas durante a jornada de trabalho.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Para o presidente da república, a defesa do trabalho virou sua plataforma de flexibilização do isolamento social. Quando o presidente diz: as pessoas precisam trabalhar! Ele deixa subentendido que não quer se responsabilizar pela geração de renda para a população que deve ficar em casa.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Em outra frente, há ainda os trabalhadores de plataformas, os famosos entregadores dos aplicativos e motoristas de uber, que continuam ziguezagueando nas ruas e desviando do vírus para garantir o sustento diário. Esses sim conhecem bem a cartilha da precarização, pois se submetem às empresas de plataforma que tentam fazê-los acreditar que estão se liberando do fardo de ser assalariados para se tornarem “homens-empresas”, indivíduos que governam suas vidas como se estivessem gerindo uma empresa. Mas, em vez de autonomia e prosperidade, esses trabalhadores de plataformas encontram sofrimento, servidão e, agora, o risco de contágio por coronavírus. Recentemente, essa situação foi bem exposta pelo programa do humorista Gregório Duvivier, em uma narrativa com toques de ironia e “comunismo” que destaca a crueldade das plataformas.</p>
<p>Frente todas essas circunstâncias, pode não fazer sentido a celebração do primeiro de maio. Mas o que o simbolismo da data nos remete é que não podemos perder de vista a centralidade social do trabalho. Quando as camadas de irrelevância da vida cotidiana começam a cair, o trabalho sobra no terreno da essencialidade. Mesmo que seu sentido remeta hegemonicamente a sofrimento, precarização e crise, sem ele, não há capitalismo nem sociedade. E somente com ele será possível reerguer o mundo em bases menos danosas e mais justas. Nos pós-apocalipse da pandemia, o que nos resta é o trabalho.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Quando as camadas de irrelevância da vida cotidiana começam a cair, o trabalho sobra no terreno da essencialidade. Mesmo que seu sentido remeta hegemonicamente a sofrimento, precarização e crise, sem ele, não há capitalismo nem sociedade.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Os sobreviventes terão, portanto, a árdua tarefa de forjar novos sentidos para o trabalho, desatrelando-o do consumismo, do individualismo e do espírito do capitalismo. E fortalecendo o significado ontológico do trabalho. Na prática, isso implica na assunção de que por meio do trabalho o indivíduo se conecta com a sociedade e que ele não pode se identificar com a empresa, estas que não podem mais lucrar indistintamente sobre a exploração da força de trabalho, força de trabalho humano essa que precisa do retorno das garantias sociais, extintas com as reformas trabalhistas. Garantias que, por sua vez, só serão asseguradas com a organização coletiva dos trabalhadores. Assim, um novo projeto de sociedade, quiçá de humanidade, pode se desenhar tendo como horizonte valores coletivos e solidários &#8211; comunistas, dirão muitos.</p>
<p>Afinal, antes mesmo da pandemia, o capitalismo, por meio da exploração, da precarização e da flexibilização do trabalho já vinha nos matando aos poucos. A sobrevivência material e social da humanidade, portanto, depende sim do trabalho e de como vamos defendê-lo e requalificá-lo, sem as firulas discursivas do mundo corporativo, mas com a certeza de que a emancipação do trabalho é a emancipação da vida como um todo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Foi bom, eu fingi que estava feliz</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Nov 2019 06:28:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Grilo Falante]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>

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		<description><![CDATA[Existe uma história ótima que ronda o meu círculo de amizades há anos. O filho mais velho da minha comadre era uma criança muito adulta. Quando levado àqueles playgrounds de <a class="read-more" href="https://apulga.com/foi-bom-eu-fingi-que-estava-feliz/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/11/frida.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1909" alt="frida" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/11/frida.jpg" width="361" height="339" /></a></p>
<p>Existe uma história ótima que ronda o meu círculo de amizades há anos. O filho mais velho da minha comadre era uma criança muito adulta. Quando levado àqueles <i>playgrounds</i> de <i>shopping</i>, sempre preferiu ficar em um canto, desenhando a correr e a pular como os outros meninos da sua idade. A mãe chegava a impulsioná-lo com algumas palavras e gestos, na tentativa de que o pequeno “gastasse” toda aquela oportunidade que, por vezes, parecia desperdiçada. Esse é o preâmbulo do episódio mais representativo desse dilema sobre as incríveis “chances da vida”. Acho que, por volta dos seus 5 ou 6 anos, depois de muita insistência, nosso infante finalmente cedeu e, atendendo aos anseios familiares, vestiu-se de toda uma capa lúdica e foi participar de sua primeira peça no colégio. Ao sair, a mãe, entusiasmada, interpelou-o: “E, então, meu filho, como foi?”. A resposta sincera veio de chofre: “Foi bom, mamãe, eu fingi que estava feliz”.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A frase “foi bom, eu fingi que estava feliz” – acabou virando um mantra, uma espécie de brincadeira íntima, que repetíamos sempre que queríamos designar a astúcia necessária para representar um papel de nós esperado pela sociedade.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O caso – e, sobretudo, a frase “foi bom, eu fingi que estava feliz” – acabou virando um mantra, uma espécie de brincadeira íntima, que repetíamos sempre que queríamos designar a astúcia necessária para representar um papel de nós esperado pela sociedade. Para os diversos meandros da academia, então, essa parecia ser a máxima perfeita. Tudo que se deve tolerar e representar em nome de um título. Como numa espécie de jogo da vida, chega ao fim mais repleto de patrimônio e relações aquele que melhor dominar a arte da interpretação.</p>
<p>Decerto, minha observação tem lá seu tom cínico. A academia, que tanto se coloca como balisa das outras instituições é, ela própria, um dos espaços de reprodução mais violenta e abusiva dessa lógica. Contudo, nem de longe se pode alegar que tenha exclusividade para tal <i>modus operandi</i>. Quanto mais hierárquicas (com poucos filtros verticais) e estimulantes da vaidade sejam as instituições, mais fácil é de se perpetrar essa lógica. Ela está na justiça, na diplomacia, na caserna&#8230; E, <i>touché</i>, chega no local do pensamento crítico que tudo analisa até que o referido princípio não lhe coloque em xeque. Tudo em nome das boas relações corporativas (sic).</p>
<p>Fosse eu falar o que vivi&#8230; Até hoje me pergunto como é possível um programa considerado como referência de estudos colocar para orientar em um doutorado alguém que sequer havia concluído uma orientação de mestrado. No âmbito do Judiciário, vi um advogado não ir a audiência mediente a apresentação de um atestado de uma ginecologista. A cena processual foi lá nos anos 1990. Logo depois, o debate em torno da Reforma do Judiciário sinalizou uma mudança institucional nunca convertida em democratização institucional. Mas, de alguma maneira, o incômodo estava lá aparecendo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Decerto, minha observação tem lá seu tom cínico. A academia, que tanto se coloca como balisa das outras instituições é, ela própria, um dos espaços de reprodução mais violenta e abusiva dessa lógica.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Nos dias de hoje há uma ironia. Ainda que por uma superexposição de agenda e seus reais trâmites, de uma maneira nada usual, a magistratura se vê diante de críticas jamais vistas. Então, hoje também fico pensando quando movimentos como o #metoo, abarcando abusos de ordens distintas, chegará enfim à academia. Instituições com potencial de transformar vão minando suas estruturas pela reprodução do compadrio.  Não adianta questionar autores clássicos, falar em empoderamento periférico, se o desrespeito se coloca cotidiano nas relações mais básicas. Talvez daqui a alguns anos vejamos as contradições acadêmicas explodirem nas mesmas ironias que chegaram à Justiça em meio ao debate público.</p>
<p>Mas, de forma sintética, não há segredo e nem mistério: relações institucionais que dependam da sorte, dado o nível de poder e verticalidade nas quais se baseiam, costumam ter algo de muito errado em seu cerne. Da sorte dependem os sentimentos, e não um julgamento justo, uma orientação não abusiva, uma ordem abjeta. Contudo, seguimos aprendendo a pagar os preços. Digo, esses preços específicos do silenciamento e da <i>mise en scène</i>.</p>
<p>É exatamente este o meu ponto: quando se deve decidir não pagar esse preço? Quando simular a felicidade se torna algo pesado demais? Quando sucumbir for a única opção com sentido? Em nossa sociedade, há uma ode à felicidade. Ela é escancarada, como nos debates em torno do “show do eu” das redes sociais, para usar um termo da Paula Sibília, mas também ela é velada nos escaninhos do que todos suportamos em nome do que julgamos ser um bem maior.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Não é o caso de ter um raciocínio niilista ou hedonista, como se na vida não existissem responsabilidades. O que apontamos aqui é outra questão: é o sufocamento e a violência consentida em nome do pragmatismo.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Por vezes são os que nos amam a indicar, compreensivelmente, esse caminho. O concurso, a casa própria, o título, o pacote do que deveria trazer a felicidade. Talvez aqui seja o caso de evocar um teórico mais clássico, Erving Goffman, a nos indicar, como no teatro, o jogo interpretativo que fazemos para sobreviver. É muito comum pagar esses preços e, sim, ter uma sobrevida &#8211; não no sentido primeiro, do essencial – mas, ao contrário, de algo que é superficial e ao qual nos agarramos mesmo representando o oposto dos nossos desejos. Dito de forma direta: o apego à artificialidade que pode nos destriur silenciosamente. Se as instituições pagam um preço por isso a longo prazo (os brioches de Maria Antonieta podem atestar), o custo pessoal tampouco é baixo. Aí abre-se a janela para as escolhas íntimas que, por essência, temos maior manejo.</p>
<p>Não é o caso de ter um raciocínio niilista ou hedonista, como se na vida não existissem boletos, responsabilidades e dificuldades. O que apontamos aqui é outra questão: é o sufocamento e a violência consentida em nome do pragmatismo. Sempre que me pego articulando essas ideias, me vêm à mente aquelas mulheres dos anos 1950 que, seguindo a recomendação das mães, das avós e das revistas femininas, apreendiam sistematicamente que era melhor aceitar todas (ou quase todas) as violências conjugais em nome de não serem mulheres desquitadas, de não perderem o sustento do lar, de não macularem seu nome. Eis aí títulos não acadêmicos a pedir o silêncio como paga. Não é difícil imaginar a frase “minha filha, não faça isso, é para o seu próprio bem”. O patriarcado dá contorno a essa cena como a tantas outras, mas, como no argumento que levantamos, a lógica é mais ampla: tudo suportar em nome de algo pretensamente maior.</p>
<p>Acontece que o preço que pagamos por esse caminho de pragmatismo idílico desconhece os limites humanos, personalíssimos e intransferíveis. Nem tudo vale a pena e nem tudo nós suportamos da mesma maneira. Essa fronteira deve ser não só respeitada como dita. Quebrar o silêncio é fundamental. A lógica do  “faça, mas não alardeie” é outra violência. Parte fundante do processo de cura é a fala. Freud foi genial, entre outras coisas, por, justamente na época de ouro dos manicômios, apontar para a palavra como forma de elaboração da dor.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Acontece que o preço que pagamos por esse caminho de pragmatismo idílico desconhece os limites humanos, personalíssimos e intransferíveis. Nem tudo vale a pena e nem tudo nós suportamos da mesma maneira.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Contudo, é importante voltarmos ao passo anterior, àquele sobre admitir que não valeu a pena. Esse parece ser outro tabu dos nossos tempos. Diante do fracasso, há sempre uma advertência para vermos o lado bom e para tocarmos em frente. “Fazer do limão uma limonada” parece a concessão máxima que o pragmatismo idílico dá ao fracasso. A frase é em si um sofisma, porque o sonho de que tudo pode nos levar a um resultado prático é tão fantasioso como é pueril a esperança de que se possa seguir extraindo do mal um bem. Se tal pensamento serve para tantas coisas cotidianas, certamente não serve para determinadas situações nas quais sucumbimos. O que se procura é, neste caso, tão e simplesmente encarar essa verdade sem subterfúgios. Só isso pode nos levar ao passo seguinte. Sem tomar consciência de que algo para nós pereceu, não é possível dar qualquer outro movimento de mudança.</p>
<p>É, então, que o ato de falar e calar (por vezes, negar, no sentido de atribuir ao motivo de determinadas violências um fim) torna-se o segundo e importante passo. Há uma série de retratos de Frida Kahlo em que ela aparece com o rosto recortado das fotografias. No lugar da cabeça, um buraco, o vazio. É, talvez, uma expressão, digamos, plástica, de algo primeiro, que é a capacidade de recontar a própria história e, diante dela, dar os sentidos que as experiências de fato tiveram em nós. Em um <i>stand-up comedy</i> intitulado “Nanette”, a australiana Hannah Gadsby vai destrinchando com uma capa de humor uma série de situações abusivas, em especial as relativas ao ódio à comunidade LGBT.</p>
<p>Lá pelas tantas, Hannah aponta para os buracos na sua própria narrativa e admite que, quando finalmente se assumiu lésbica, era tarde demais: ela já tinha internalizado a homofobia. É algo que começa parecendo um esquete de humor, mas é um soco no estômago. Ali não há um rosto retirado da foto, mas há uma negativa exposta. É alguém que sucumbe, expõe isso e só dessa forma consegue dar o significado real ao que se passou. Se uma verdade que é dura aflora, outra mais doce, porém inverídica, é finalmente silenciada.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É exatamente por isso que ao assumir que determinadas processos são uma farsa e que atos de violência e abuso foram perpetrados, o que se busca de fato é uma mínima reparação pela fala e pela verdade. Assume-se um valor.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Fico pensando cá com os meus botões se nós estivéssemos até hoje dizendo que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil só porque isso foi dito reiteradamente por quem convinha. Ou, se ninguém tivesse se revoltado contra a ideia sacrossanta do casamento, será que estaríamos até hoje falando que cabe à mulher zelar pela família? Quando uma versão é negada, outra é dita. Costumam ser mais custosas e verdadeiras aquelas histórias veladas que, quando vêm à tona, causam tanto pavor.</p>
<p>É exatamente por isso que ao assumir que determinadas processos são uma farsa e que atos de violência e abuso foram perpetrados, o que se busca de fato é uma mínima reparação pela fala e pela verdade. Assume-se um valor. Não sem custo, mas assume-se. O preço pelas escolhas todos nós pagamos. Novamente, é personalíssimo e intransferível. Só que, em determinados momentos, a questão é saber se você vai pagar pela doença de permanecer calado, inoculando as convenientes meias verdades, ou se é melhor pagar a conta de assumir o que não foi. É como se disséssemos de forma inversa: “Foi bom, eu não fingi que estava feliz”. É o limite de cada um. Não é saudável ir contra ele. Não é mais barato pagar o preço de fingir que dá para ir levando.</p>
<p>Aos que novamente relembram a práxis da vida, eu vislumbro o desejo que dá contorno aos limites. Por que um homem branco, hétero e bem-sucedido deixaria tudo para assumir outra identidade de gênero?  Por que alguém escolhe abandonar a faculdade de medicina? Por que negar que cada de nós é movido por pulsões e fronteiras distintas?</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Se, ao fim e ao cabo, somos nós que pagamos o preço, convém que nós também possamos escolher.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O risco de negar nossas verdades, em especial as mais duras, é ficarmos aprisionados como em um livro de Tolstói. O pobre Ivan Ilitch, que apenas teve sua epifania reveladora no momento da morte. Só ali viu que levou a vida a contemplar todos os desejos alheios, menos o seu. Se, ao fim e ao cabo, somos nós que pagamos o preço, convém que nós também possamos escolher.</p>
<div></div>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Limitação criativa, abjeção, conservadorismo&#8230; os deslizes de GOT</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Jul 2019 18:03:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Laécio Ricardo]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Stardust]]></category>
		<category><![CDATA[GOT]]></category>

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		<description><![CDATA[Ao contrário de muitos, não assisti a Game of Thrones (GOT) durante sua exibição regular pela HBO. O enredo que me relatavam &#8211; pejorativamente, houve quem me dissesse ser a <a class="read-more" href="https://apulga.com/limitacao-criativa-abjecao-conservadorismo-os-deslizes-de-got/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/07/GOT2P3.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1902" alt="GOT2P3" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/07/GOT2P3.jpg" width="650" height="366" /></a></p>
<p>Ao contrário de muitos, não assisti a Game of Thrones (GOT) durante sua exibição regular pela HBO. O enredo que me relatavam &#8211; pejorativamente, houve quem me dissesse ser a obra um exemplar de capa e espada, que mesclava Senhor do Anéis com Caverna do Dragão &#8211; e seu eventual apelo dramático (uma dança das cadeiras marcada pela imprevisibilidade) estavam longe de mobilizar meu interesse. Mas minha resistência não deve ser entendida como atitude pedante. Estou longe da cinefilia marcada pelo elitismo. Se não aderi à febre, foi porque não me senti tragado por suas promessas. Acrescente a isto o fato de eu ter dificuldades em lidar com narrativas seriadas cujas tramas se prolongam no decorrer de temporadas. Sim, não administro a ansiedade de modo saudável.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Se você não viu a série, devo informar que este texto contém spoilers e comentários críticos. Francamente, não me enervo com vazamentos, mas entendo quem se inquieta com antecipações. Sendo assim, se pretende vê-la, abandone esta leitura. Prometo não guardar rancor. Também não tenho pretensão de ser uma espécie de voz do discernimento sobre a obra.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>De qualquer forma, apenas depois do seu desfecho oficial e em virtude de um acordo doméstico para maratonar GOT durante as férias escolares, iniciei meu périplo na adaptação da obra de George Martin, possivelmente o fenômeno televisivo mais importante desta década. Se você não viu a série, devo informar que este texto contém spoilers e comentários críticos. Francamente, não me enervo com vazamentos, mas entendo quem se inquieta com antecipações. Sendo assim, se pretende vê-la, abandone esta leitura. Prometo não guardar rancor. Também não tenho pretensão de ser uma espécie de voz do discernimento sobre a obra. Partilho apenas algumas impressões; como naveguei pelas águas de Westeros e o que achei da experiência. Assim, não porto respostas; trago provocações, aponte divergências e só. E não quero ser cobrado por isso &#8211; se você é fanático pela trama e adora debates, procure outro interlocutor.</p>
<p><strong>Dilemas da representação e demandas do presente</strong></p>
<p>Inicio meus apontamentos com outra informação brochante: não li nenhum dos volumes de Martin, de modo que só posso mensurar GOT pelo que a série me apresenta. A fidelidade, portanto, não é critério para minha apreciação. No que se refere à obra televisiva, a primeira coisa que me causou um peculiar incômodo nas escolhas de produção/encenação é o triunfo da branquitude na saga &#8211; a repetição de um padrão étnico majoritariamente europeu em Westeros e, obviamente, a ausência de um recorte plural. E quando um perfil multifacetado desponta no continente vizinho (Essos), os personagens são construídos com atitudes e trejeitos que parecem destoar do “padrão civilizado” (formal, marcado por certo recato e solenidade) evidente nos reinos de Westeros. Um tipo de construção que vislumbráramos, por exemplo, na franquia Indiana Jones e que, àquela altura, início dos anos de 1980, já inquietava algumas sensibilidades. O que desejo dizer com isso? Em tempos nos quais os debates sobre representação (como determinados temas, questões culturais e grupos minoritários são abordados na prática artística?) e representatividade (tais grupos minoritários participam das elaborações que deles são feitas?) no cinema se avolumam, talvez fosse sensato, da parte dos executivos da HBO, ponderar suas escolhas e, claro, avaliar suas consequências.</p>
<p>Exemplifico. Em que medida, em 2019, por exemplo, é pertinente articular a redenção de Daenaerys como “libertadora dos escravos” (ela, uma mulher branquíssima), para em seguida, numa demonstração de adoração, fazê-la desfilar nos braços da multidão de alforriados (pardos, em sua maioria)? Não teremos visto, na história da colonização, narrativas semelhantes que edificam um herói branco e silenciam os subalternos de qualquer protagonismo no que se refere às suas próprias demandas e destinos? Não desejo ser o censor de uma obra ficcional, mas penso que a fantasia não pode se autoproclamar um território blindado às revisões que despontam na contemporaneidade (em outros termos, se é importante respeitar o universo diegético da obra &#8211; sua ambientação, digamos -, penso ser igualmente relevante ponderar o seu contexto de circulação). Assim, uma adequação entre meios e fins, não no sentido maquiavélico, talvez seja a justa medida no empreendimento artístico&#8230;</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Não desejo ser o censor de uma obra ficcional, mas penso que a fantasia não pode se autoproclamar um território blindado às revisões que despontam na contemporaneidade (em outros termos, se é importante respeitar o universo diegético da obra &#8211; sua ambientação, digamos -, penso ser igualmente relevante ponderar o seu contexto de circulação).</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Avaliação semelhante vale para a nudez, para o tratamento do sexo e da violência sexual. Neste quesito, reitero: a quem interessa o excesso de exposição do corpo feminino? E por que a ocultação do corpo masculino? Um moribundo Jon Snow, num rito de ressurreição, permanece despido com sua genitália encoberta, escolha que atesta um pudor incabível; enquanto isso, em muitíssimas outras cenas, diferentes mulheres, atrizes centrais ou figurantes, comparecem em nu frontal. Curiosamente, o único protagonista que tem seu pênis exposto (Theon) é castrado no decorrer da série &#8211; uma espécie de punição pela exibição do falo? Desde a sua primeira temporada, a violência sexual faz parte da saga e é sempre possível argumentar que as relações de poder e de autoridade, numa atmosfera que evoca uma remota Idade Média, eram permeadas por abusos deste tipo. Estaríamos assim no campo da acuidade histórica (ou, para quem leu os livros, de uma possível fidelidade às escolhas do autor). Mas insisto: em tempos de #MeToo, de reivindicação de empoderamento pelas minorias, de questionamento das práticas desiguais no âmbito das discussões de gênero e da emergência de um pensamento decolonial que não mais aceita o triunfo exclusivo do patriarcado e do eurocentrismo, seriam tais escolhas narrativas pertinentes? Em que medida a fidelidade histórica poderia desconsiderar as demandas de um presente que não deseja mais pactuar com injustiças? E por que, quase sempre, esta violência se opera sobre e em torno do corpo feminino? Percebam que me limito a indagar, sem avançar nas respostas. Mas se trago perguntas é porque algo me inquieta, demandando uma reflexão superior ao tempo de alguns episódios&#8230;</p>
<p><strong>Uma trama que flerta com a abjeção?</strong></p>
<p>Durante esta maratona, vivenciei um outro mal-estar; e este decorre de uma disposição moral-emocional minha versus a contundência do roteiro e das escolhas de encenação. Por diversas vezes, repeti a mesma pergunta: na balança da experiência espectatorial, sinto mais prazer ou desconforto com esta série? Quase sempre, o incômodo triunfava. Não tivesse firmado meu compromisso doméstico, teria abandonado a atração sem remorso&#8230; E como traduzir o mal-estar? Outra pergunta difícil. Mas como ele se refere unicamente a mim, tento esboçar uma (incompleta) resposta. Acredito que a trama de GOT é excitante, que há bons personagens (e logicamente ótimas interpretações), que algumas temporadas têm um cuidado bem acima da média na condução da narrativa. Porém, ao término de muitos episódios, me vi numa encruzilhada: determinadas escolhas no roteiro/encenação pareciam me posicionar, enquanto espectador, numa cumplicidade desconfortável, cuja analogia seria a de alguém envolto numa gangorra que oscilaria entre um sadismo desnecessário e um masoquismo inexpiável. Afetos ou pulsões que, dependendo da intensidade exposta, me constrangem. Não vejo uma obra para ser apaziguado, sei bem disso; mas não preciso escolher o que me fere, sobretudo se identifico uma desproporcionalidade na abordagem, algo que beira o abjeto.</p>
<p>Tentarei, se possível, aprofundar esta analogia. Há muitos exemplos na série, mas recorrerei aos embates familiares no enredo. Motivado pelo lema da roda, espécie de engrenagem que conecta e envenena os herdeiros de importantes famílias que se alternam no tabuleiro político de Westeros, GOT nos conta as disputas palacianas destas facções pelo trono de ferro; em síntese, pelo comando dos sete reinos. Um revezamento quase sempre marcado por traições e mortes trágicas. Nesta competição com ares de xadrez, onde predominam a estratégia e o conchavo, parece haver pouco lugar para a honra e outros sentimentos nobres. Importam a maquinação e as alianças. Por outro lado, aproximar-se e ocupar o trono também não é uma posição confortável, dado que todo rei, ou postulante ao cargo, no decorrer da série, está fadado à tirania, à loucura, ao autoritarismo ou, na melhor das hipóteses, à fé cega; e, no limite, sucumbe às tentações do poder e encontra seu fim. Percebemos logo, pelo menos eu o percebi, que a série nos conta, na verdade, a história do esfacelamento destas famílias e dinastias; tragadas por este elo inquebrantável, a roda, observamos a contínua queda e pulverização dos seus núcleos, episódio após episódio. Em alguns casos, sua completa extinção.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Acredito que a trama de GOT é excitante, que há bons personagens&#8230; Porém, ao término de muitos episódios, me vi numa encruzilhada: determinadas escolhas no roteiro/encenação pareciam me posicionar, enquanto espectador, numa cumplicidade desconfortável, cuja analogia seria a de alguém envolto numa gangorra que oscilaria entre um sadismo desnecessário e um masoquismo inexpiável.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Embora ciente do que designei no início de premissas da narrativa (a imprevisível dança das cadeiras; a frustração como lei geral), provavelmente desenvolvi uma empatia pelos Starks, senhores do Norte de Westeros. Em certa medida, é possível também entender GOT como uma espécie de narrativa sobre o ocaso e a posterior reabilitação do Starks, a única das grandes famílias a não ser destroçada nesta disputa. Mas, no meu entendimento, se os Starks retomam Winterfell (seu lar) e alguns dos seus herdeiros sobrevivem ao desfecho da trama, esta aparente compensação não implica exatamente um retorno da ordem. Diria até que, mesmo sobrevivendo, talvez sejam eles os que mais perdem nesta saga; e é exatamente ao ponderar o tratamento destinado aos nobres do Norte na série que meu incômodo se reafirmava. Todas as grandes casas caem, fato; mas nem todas caem da mesma forma ou recebem igual tratamento dos roteiristas. Dito de outro modo, há uma correlação desigual na abordagem. Se traçarmos um paralelo com seus principais rivais do Sul, os Lannisters, o desequilíbrio se torna evidente, pendendo negativamente para o clã do inverno.</p>
<p>Vejamos. No decorrer da saga, a família Stark perde seus genitores e o primogênito; seus corpos são objeto de pilhéria e expostos à execração. Não há luto, choro ou sepultamento &#8211; e sabemos que, onde não há luto, não há cicatrização e superação da perda. Acompanhamos, assim, a jornada trágica de pais que se separam e de filhos que não puderam se despedir; trajetórias fadadas a nunca se reencontrar. A filha mais velha, Sansa, permanece durante cinco temporadas submetida a ritos de humilhação diários. É mantida refém de um tirano detestável; é aparentemente salva por um aliado de conduta questionável; e, quando nenhum agravo lhe parece possível, cai nas mãos de um novo carrasco com o qual é obrigada a se casar. A união forçada se consolida com um estupro que, em termos narrativos, não encontra justificativas. Sabemos que Ramsay Bolton, o esposo, é um jovem sádico e intempestivo e que, sob sua vigilância, Sansa enfrenta agressões cotidianas (verbais e físicas). Neste contexto em que seu destino já nos fora comunicado, a encenação do estupro é desmesurada, se torna desnecessária (lembremos aqui do que eu disse acima sobre os dilemas da representação, sobre as demandas do presente e o movimento #MeToo).</p>
<p>Quando de sua fuga e posterior retomada de Winterfell pela família, na famosa Batalha dos Bastardos, imaginamos, nós, os espectadores, que o suplício dos Starks findará; no entanto, no início do conflito, seu irmão mais novo, Rickon, traído por ex-vassalos, é vítima da violência de Bolton. Temos aqui outra morte que, a meu ver, não encontra justificativa no âmbito narrativo, afinal Ramsay é o que já sabemos, ele deseja recuperar Sansa e matar Snow, e a batalha a que me referi seria travada de qualquer forma. Assim, em termos narrativos, o sacrifício de Rickon nada acrescenta &#8211; no máximo, potencializa o sentimento de vingança da dupla Sansa/Snow (sentimento já instalado, diga-se). Expandindo um pouco a reflexão, alguém poderia indagar: a morte de Oberyn Martell e da princesa Baratheon, esta última levada à fogueira com a anuência paterna, também não seriam exemplos de uma violência questionável em GOT?</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Todas as grandes casas caem, fato; mas nem todas caem da mesma forma ou recebem igual tratamento dos roteiristas. Dito de outro modo, há uma correlação desigual na abordagem. Se traçarmos um paralelo com seus principais rivais do Sul, os Lannisters, o desequilíbrio se torna evidente, pendendo negativamente para o clã do inverno.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Responderei à pergunta recorrendo ao mesmo argumento: Oberyn morre numa situação de duelo, da qual ele participa voluntariamente &#8211; alguém, portanto, haveria de perder, não obstante a brutalidade da cena. Já a herdeira dos Baratheon, traída pela sua estirpe, tem um desfecho tristíssimo, mas em termos narrativos, ele é pertinente &#8211; leva ao abandono do pai por parte de suas tropas e, assim, à sua derrota final. De qualquer modo, se pudéssemos formular um princípio para a discussão aqui exposta, ele seria: nos casos apontados (estupro de Sansa, morte de Rickon), a abjeção não decorre da violência explícita, mas da violência desnecessária, daquilo que não é pertinente à trama e que parece apenas violentar a nós, espectadores.</p>
<p>Mas voltemos aos herdeiros do Norte. Concluída a Batalha dos Bastardos, e ao término de seis temporadas (lembro que toda a série tem oito!), Winterfell retorna aos seus senhores e alguma unidade familiar parece próxima. Mas como ressaltei, a reparação já não é possível. Seguindo um arco paralelo durante a errância dos Starks, Arya, a irmã de Sansa, vive um rito iniciático &#8211; uma jornada que a levará a se tornar uma assassina cujo objetivo é matar os responsáveis pelos crimes cometidos contra sua “casa”. Finalizado o “treinamento”, é somente na sétima temporada que iremos testemunhar, de fato, uma reunião familiar. Sansa revê Arya, mas o reencontro é pouco caloroso e marcado por hesitações. Nenhuma delas é mais a personagem apresentada no início da série, fato; mas o crescimento teve como ônus a perda da inocência e do otimismo, a contenção de qualquer afetividade. Para os roteiristas de GOT, crescer é endurecer e se embrutecer, implica internalizar uma desconfiança permanente e bloquear os afetos. Um aprendizado talvez importante no contexto da trama, mas que implica grande sacrifício (uma quase desumanização).</p>
<p>Passemos aos Lannister. Alguém evocará: mas a “casa” que se orgulha de quitar suas dívidas e cujo brasão é um leão dourado, não pagou com a morte dos seus infantes pelos crimes cometidos por seu patriarca (Tywin) e pela rainha Cersei?! Aliás, o próprio patriarca e a rainha não terminam por morrer na saga?! É verdade, a família sucumbe aos desmandos dos seus expoentes e deixa de girar a roda, como se habituara há anos. Mas, como eu disse, a comparação é desigual: nenhum Lannister caiu pela espada de uma família traída, vilipendiada por seus abusos e maquinações; tampouco, foi degolado por um adversário ou teve seu corpo dilacerado e exposto à execração (a posterior vitória de Daenarys, a meu ver, não conta nesta apreciação; afinal, os Targaryen &#8211; reduzidos a dois herdeiros e exilados de Westeros &#8211; já não integravam a roda). Fato ainda mais grave: Joffrey, Tywin e Myrcella foram velados; portanto, houve pesar, sepultamento e despedida, precisamente os elementos que facultam a continuidade familiar após a perda. E foi exatamente a impossibilidade do luto &#8211; de um último aceno em meio a dor &#8211; que marcou a sina dos Starks. Isto para não mencionar o fim agridoce reservado a Cersei, autora de algumas das piores vilanias na série: a impiedosa rainha morre nos braços do seu amor incestuoso. Confortante e complacente.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Para os roteiristas de GOT, crescer é endurecer e se embrutecer, implica internalizar uma desconfiança permanente e bloquear os afetos. Um aprendizado talvez importante no contexto da trama, mas que implica grande sacrifício (uma quase desumanização).</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Retomando a lista de aflições contra os Starks, haveria uma última observação; algo que, se for pertinente, demarcaria a tragédia do clã. Pelo que entendi na série, a continuidade das famílias depende de patrilinearidade (os filhos herdam o nome do pai; apenas os homens são reis &#8211; o golpe de estado de Cersei, insisto, é um ponto fora da curva). Assim, os três filhos de Cersei são considerados Baratheon, a linhagem do pai (Robert), e não Lannister. Do mesmo modo, os filhos de Ned e Catelyn são designados de Stark (nome paterno) e nunca de Tully &#8211; e eles tampouco se vêem como herdeiros de Correrio. Tywin, por sua vez, não cessa de pedir a Jaime que deixe o posto de guarda real para assegurar a continuidade da casa Lannister. E onde quero chegar? Bem, se a premissa for legítima, Sansa e Arya não poderiam repassar o nome da família aos herdeiros, caso os tenham. Aclamado como novo rei, o “corvo Bran” é apontando como alguém impossibilitado de ter filhos. Sobra Snow. Ao desfecho da série, o outrora bastardo é punido (não pode casar e procriar); e caso pudesse, pelo princípio patrilinear, sabemos agora que ele, na verdade, é Targaryen. Assim, considerando tal princípio, a médio prazo os Starks também estariam fadados a desaparecer&#8230; Não, definitivamente eu não gostaria de ter nascido no Norte em GOT.</p>
<p><strong>Como perder o fio ou a série que desandou&#8230;</strong></p>
<p>Embora confrontado vez ou outra pela abjeção, optei por avançar na trama. Talvez por também ter ciência dos seus méritos. Eu só não esperava, todavia, concluir a curva da sexta temporada, que findara de modo promissor, e me deparar com o agonizante declínio da saga em sua reta final. É fato que, desejando inovar na construção do seu intrincado roteiro e apostando nas reviravoltas como mecanismo narrativo, GOT foi, na verdade, conservador. A que me refiro? Simples: gradualmente, sua fórmula virou clichê e o inesperado, de repente, se revelava pouco surpreendente. Decorre daí o que me parece ser uma lei da roteirização: todo recurso, empregado à exaustão, tende a se esgotar. Todavia, o que eu até então identificara como vício de roteiro, nas sétima e oitava temporadas se converte em incompetência criativa &#8211; a série desanda, mergulha numa espiral negativa e dela não consegue retornar.</p>
<p>São tantos os problemas que é difícil enumerá-los na íntegra. Há uma queda na abordagem narrativa &#8211; a condução rítmica eficiente cede lugar à precipitação e à celeridade -, os diálogos se tornam precários (perdem sofisticação) e a elaboração cuidadosa é substituída pelo espetáculo visual das batalhas e mortes gratuitas. Do ponto de vista da construção dos personagens, a matização é negligenciada e as derrapagens são evidentes &#8211; Cersei se torna uma caricatura de si, repetindo sempre a mesma expressão facial; Tyrion perde sua sagacidade, se torna careta e, pasmem, um conselheiro inábil (como um roteirista erra a mão com um personagem tão rico?); Daenarys, por seu turno, é empurrada para uma egotrip nazista pouco convincente (falarei disso à frente). E isto para citar somente três protagonistas. Mas talvez o pior pecado seja aquilo que eu vou definir como a abdicação do enxadrismo e das intrigas palacianas pelo mero embate físico, pela guerra vencida não mais em decorrência da estratégia, mas somente na ponta da espada (ou, se o desejarem, pelo bafo de um dragão!). Neste sentido, acho até que a morte de Mindinho (o verdadeiro enxadrista de GOT) é sintomática desta guinada fatídica.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Embora confrontado vez ou outra pela abjeção, optei por avançar na trama. Talvez por também ter ciência dos seus méritos. Eu só não esperava, todavia, concluir a curva da sexta temporada, que findara de modo promissor, e me deparar com o agonizante declínio da saga em sua reta final. Gradualmente, sua fórmula virou clichê.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Lamento por avançar nos spoilers, mas o exorcismo dos erros é necessário. De qualquer modo, dialogo aqui com quem viu a série da HBO e poderá, neste exercício, reconhecer ou não o seu desapontamento. A precipitação com que é conduzido o embate entre os habitantes de Westeros e o exército de mortos do “Rei da Noite” &#8211; algo que desde o início da saga se afirma como um dos principais conflitos do enredo &#8211; figura na lista de vexames. O alardeado conflito encontra solução num único episódio e, não obstante o desfecho a toque de caixa, apresenta falhas inaceitáveis: apontados como uma ameaça iminente na chamada “Longa noite”, os “caminhantes/andarilhos brancos”, a elite militar do inimigo, são apenas coadjuvantes no confronto. Uma figuração inexplicável e algo tão risível quanto a decisão dos roteiristas de, no mesmo episódio, deslocar os personagens vulneráveis de Winterfell para a cripta da fortaleza. Ora, esta batalha envolvia um adversário que convertia os mortos em parte do seu exército; nestas circunstâncias, sugerir uma cripta como refúgio é a mesma coisa que condenar seus abrigados à execução sumária.</p>
<p>Um outro conflito mobilizou a ansiedade dos espectadores de GOT. Em virtude do ritmo cauteloso dos primeiros anos da série, tivemos (nós, os espectadores) que aguardar seis temporadas para vermos Daenarys e sua frota aportar em Westeros. Mas também aqui a celeridade se impôs como regra e um embate central do enredo encontrou solução num único episódio. E o pior, de modo polêmico &#8211; para o tormento dos zilhões de fãs da saga &#8211; e igualmente repleto de falhas. Algumas constrangedoras: 1) soldados mercenários (a tal companhia dourada) tido como imbatíveis e que fazem uma figuração tão medíocre quanto a dos “caminhantes brancos” &#8211; 20 mil homens vencidos pelas labaredas de Drogon; 2) armas letais que mataram e lesionaram os dragões Targaryen (o “escorpião”), instaladas em embarcações e nos muros da capital de Westeros, de repente, se tornam inofensivas; 3) uma cidade de alvenaria destruída por um único dragão, cujo combustível interno deve ser superior às reservas de petróleo da Venezuela. Sobra, como “cereja do bolo”, a revelação/afirmação da loucura de Daenarys, espécie de amazona alada com forte verve piromaníaca.</p>
<p>Sobre este último ponto, evitarei as controvérsias. Sei que metade dos fãs diriam dracarys para os roteiristas/produtores em virtude da decisão. No entanto, apesar da fúria, colegas próximos (e fãs assíduos da série) me informaram que o destino de fogueteira da musa platinada estava escrito na estrelas &#8211; ele fora antecipado em indícios, presságios do futuro sutilmente inseridos na saga. Particularmente, não gosto de tramas que apostam na inexorabilidade do destino (de que alguém estaria fadado a uma sina inelutável), sobretudo numa série que alardeia o imprevisível como seu principal mérito; além disso, penso que o problema maior desta escolha é o fato da conversão de Daenarys, em virtude da celeridade narrativa, não ter sido articulada de modo convincente.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Particularmente, não gosto de tramas que apostam na inexorabilidade do destino (de que alguém estaria fadado a uma sina inelutável), sobretudo numa série que alardeia o imprevisível como seu principal mérito; além disso, penso que o problema maior desta escolha é o fato da conversão de Daenarys, em virtude da celeridade narrativa, não ter sido articulada de modo convincente.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Decorre desta precipitação um outro desconforto. Se, em GOT, crescer equivale a vivenciar uma experiência de embrutecimento, por outro lado, a loucura ou a tirania parecem ser o fardo daqueles que ambicionam o poder. Por esta via, se aproximar do poder ou almejar o seu exercício, implica em se deixar seduzir pelo que há de mais torpe, em se corromper ou assumir a condição de déspota. Uma leitura que ressalta a negatividade do jogo político (e até um pouco simplória), mas que desconsidera o que talvez seja a sua positividade &#8211; a oportunidade de indicar outros possíveis e de repensar o futuro. Sim, Daenarys poderia personificar o novo, não o partido de Amoedo, óbvio, mas a promessa de uma vida menos amarga em Westeros. E com isto seu roteiristas nos entregariam uma heroína vibrante, em vez de uma mulher sanguinária; uma rainha notável e destoante da contagem de tiranos que lhe antecedera. Claro, esta é apenas a minha demanda diante de um presente que não mais aceita repetir os estereótipos da desigualdade de gênero. Um desejo talvez naïf; afinal o que esperar do desfecho de uma série na qual um dos personagens mais inteligentes, o Lorde Varys, num embate verbal com Tyrion, já na temporada final, afirma categoricamente que, para ser rei ou governar, “um pau pode fazer a diferença”?! Tirem suas conclusões.</p>
<p><strong>PS 1 -</strong> Sim, o último episódio foi vexatório. Acompanhemos. De início, vemos Daenarys enquadrada com as asas do seu dragão ao fundo, composição que nos leva a associá-la com uma espécie de anjo caído. É um plano bonito, admito. Em seguida, ela discursa para seus soldados; estes se encontram enfileirados numa disposição que evoca algumas tomadas célebres de “O triunfo da vontade”, de Leni Riefenstahl. Seu discurso, evidentemente, porta o delírio peculiar às bravatas do Führer. A egotrip nazista da herdeira dos Targaryen se afirma. Posteriormente, ela é morta por Snow; Drogon, seu filho-dragão, em vez de vingar a mãe, tem um insight filosófico e derrete o trono maldito, responsável pela queda de Daenarys. Decorrido algum tempo, os nobres sobreviventes se reúnem para aclamar um novo rei; ocasião em que Snow, após exigência dos Imaculados, é condenado ao exílio no extremo norte de Westeros. Apaziguados, os Imaculados partem do continente; Snow segue para sua pena. Faço uma pausa para realçar dois absurdos neste resumo. Sendo os Imaculados tão fiéis a Daenarys, teriam eles poupado Tyrion e Snow em virtude da traição do primeiro e do crime do segundo? E, uma vez que os Imaculados deixam Westeros, por que Snow, herói em batalhas cruciais da série, é obrigado a acatar uma sentença demandada por aqueles que partiram? Quem tiver respostas plausíveis, favor partilhar. Li opiniões que mencionavam que o regicida Snow, sendo o legítimo herdeiro Targaryen, deveria reivindicar sua condição de monarca; no contexto da trama (desta confusa oitava temporada), contudo, penso que tal sugestão não é cabível &#8211; além de não manifestar interesse, como poderia o jovem suceder à tia piromaníaca após a destruição da capital real, tragédia atribuída a uma espécie de herança familiar maldita? Quem confiaria em mais um Targaryen? Voltemos ao epílogo. Antes da escolha do novo rei, o anão Tyrion, num esforço metalinguístico, tenta disfarçar nosso mal-estar com uma piscadela ao espectador (“contar histórias é o que interessa”, diz ele). A brincadeira, porém, já não agrada, tampouco salva a série do seu ocaso. Aclamado o soberano, um novo conselho se reúne para deliberar os problemas do reino; o encontro, porém, revela a informalidade de uma mesa de bar&#8230; Decoro faz falta; criatividade, também.</p>
<p><strong>PS 2</strong> &#8211; Ainda sobre o imbróglio Daenarys, só uma coisa em seu arco narrativo me parece desprovida de nexo, desde o início de sua jornada. Herdeira Targaryen num lugar onde a filiação nem sempre assegura o trono (tendo em vista as traições e reviravoltas), ela não é uma cidadã de Westeros. Além disso, mobiliza um exército que concilia mercenários letais e um grupo étnico nômade completamente estranhos às estirpes orgulhosas do continente que ela almeja conquistar e subjugar. É este um ponto de partida viável? E suficientemente forte para lhe conferir legitimidade numa terra estranha? Entendemos, assim, o porquê de sua acolhida hostil em Westeros: não obstante sua importância na “Longa noite” e seu esforço para angariar reconhecimento, ela permanece uma outsider.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>A senhora do Tegel</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Jan 2019 23:22:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/01/Screen-Shot-2019-01-08-at-20.27.49.png"><img class="alignnone size-full wp-image-1872" alt="Screen Shot 2019-01-08 at 20.27.49" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/01/Screen-Shot-2019-01-08-at-20.27.49.png" width="533" height="527" /></a></p>
<p>Há muitos anos, eu estava sentada no chão do Tegel quando vi uma cena corriqueira que até hoje trago como referência. Depois de cruzar Berlin de ônibus com duas malas e ser parte da uma despedida doída, eu era uma pessoa tão cansada quanto meio largada ao lado da minha mochila. Estava sentada no chão da sala de embarque esperando a chamada do voo. Lembro-me de tomar um café e pedir um salgado qualquer, talvez um croissant. Curioso é que eu me via assim, um tanto “juvenil”, já que, naquele instante, a vida era de qualquer jeito, um tanto quanto deslocada. Era como se uma parte de mim não se encaixasse, a parte toda a felicidade por aquela jornada.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Contudo, mesmo ainda longe de me aproximar daquela cena, acho que o que muda na minha percepção de agora é a certeza mais calma de si. A senhora do Tegel, como a chamo, é a metáfora perfeita desse tipo de &#8220;ciência&#8221;.  Ela é minha meta, mesmo no desalinho da correria.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Fato é que, enquanto eu esperava, ali no chão, com minha mochila, meu tênis e minha comida com gosto de qualquer coisa, uma senhora de uns 80 anos se materializou na minha frente. Mentira. Lembro-me de vê-la caminhar com um sobretudo de lã caramelo com uma leve estampa xadrez. O cabelo completamente branco cortado no ombro e uma boina de lado. Era linda. Parecia uma menina saída de algum college dos anos 50. Mas tinha lá seus 80 anos ou mais e uma serena certeza de si, the charming como diz o Morrissey na clássica canção. Não bastasse isso, ela sentou no balcão do café onde eu havia pedido meu insosso croissant e puxou da bolsa uma maçã para servir de lanche. Nunca vou esquecer essa cena. É das coisas que mais me dizem sobre como levar a vida. Quando tiver 80, quero ser desse jeitinho.</p>
<p>Hoje já aprendi (work in progress) a domar as mil bagagens, trago uvas e castanhas na bolsa, mas o chapéu segue guardado na mala para me economizar no manejo dos apetrechos diante da correria nos portões de embarque. Contudo, mesmo ainda longe de me aproximar daquela cena, acho que o que muda na minha percepção de agora é a certeza mais calma de si. A senhora do Tegel, como a chamo, é a metáfora perfeita desse tipo de “ciência”. Ela é minha meta, mesmo no desalinho da correria. Assim, é com essa visão que hoje volto de outra forma. Com o coração cheio nos dois sentidos, dos caminhos e pessoas que deixo e reencontro. E isso, graças a Deus, está longe de ser de qualquer jeito, de estar fora do lugar.</p>
<p>Texto publicado originalmente em outubro de 2017.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>A epifania do algodão doce</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Jun 2018 16:47:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ontem eu vivi uma cena tão bonita e forte que me lembrou outra vivida há anos, quando eu ainda fazia faculdade e peguei uma rota de ônibus chamada Demócrito Rocha, <a class="read-more" href="https://apulga.com/algodao-doce/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/algodão-doce.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1877" alt="algodão doce" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/algodão-doce.jpg" width="720" height="960" /></a></p>
<p>Ontem eu vivi uma cena tão bonita e forte que me lembrou outra vivida há anos, quando eu ainda fazia faculdade e peguei uma rota de ônibus chamada Demócrito Rocha, que nem sei se existe mais. Ela passava por dentro do meu bairro. Sempre pegava esse trajeto quando tinha tempo e queria ir vendo as ruas de dentro, longe da avenida, e ter alguma emoção com o motorista que dirigia nas ladeiras como se elas fossem um tobogã.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É sobre as madeleines de Prost, é um gosto que lembra a infância. Não é lembrar das coisas em si, mas do gosto delas, o que em você elas mobilizam. Isso de alguma forma é libertador porque o que permanece é a sensação e não o desejo de voltar no tempo.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O ônibus sempre ía vazio a noite e num desses passeios solitários eu avistei pela janela um carrinho com algodão doce. Foi a última vez na vida que vi um  carrinho daqueles. Uma espécie de carrocinha com a máquina acoplada, nada de palitinho e nem anilina. Era açúcar de pobre, sem refino (hoje conhecido como demerara) que ganhava forma de algodão doce apenas preso por uma ponta de papel, desses também rústicos, que antigamente enrolavam pão. Esse tipo de algodão, com esses vendedores foram entrando em extinção ao longo da minha adolescência. Já havia anos que eu não avistava um e, nesse dia, quando pela janela vi passar a tal carrocinha, dei sinal e desci ainda bem longe da minha casa. Catei todas as moedas que tinha e comprei o algodão doce maior que pude, como que na certeza de que nunca mais tivesse outra oportunidade de sentir aquela sensação.</p>
<p>Era quase cômica a cena. Um algodão gigantesco derretendo com o vento, grudando no meu rosto e cabelo.  Enquanto isso, eu andando uns 15 quarteirões a pé tentando tanto comê-lo, para evitar que derretesse, quanto ao mesmo tempo desejando que demorasse o máximo possível, querendo prolongar aquela sensação, tê-la guardada em algum lugar. Isso já tem pra lá de uma década e guardo até hoje essa sensação numa espécie de bolso íntimo, ainda que o gosto daquilo tenha durado, sei lá, cinco minutos.</p>
<p>É algo sobre as madeleines de Prost, é um gosto que lembra a infância, a casa da minha avó, a vitrolinha antiga&#8230;. A gente não pode reviver certas coisas, fato. Mas certas sensações se desprendem da realidade e remontam mesmo a um estado de espírito. Não é lembrar as coisas em si, mas do gosto delas, o que em você elas mobilizam. Isso de alguma forma é libertador porque o que permanece é a sensação e não o desejo de voltar no tempo. É como terminar uma jornada e de certa forma poder descansar, sentir a grama sob os pés, o choro incontido. Porque o que se retoma, ainda que momentaneamente, é algo vivo.  Mesmo que escondido, o que emerge é um potente sentimento sobre si.</p>
<p>Texto publicado originalmente em 13 de setembro de 2017.</p>
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