<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>A Pulga &#187; Comportamento</title>
	<atom:link href="https://apulga.com/tag/comportamento/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://apulga.com</link>
	<description>Um coletivo diletante de ideias</description>
	<lastBuildDate>Mon, 02 Oct 2023 09:05:39 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
		<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
		<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=3.8.41</generator>
	<item>
		<title>O que você vai fazer com a sua dor?</title>
		<link>https://apulga.com/o-que-voce-vai-fazer-com-a-sua-dor/</link>
		<comments>https://apulga.com/o-que-voce-vai-fazer-com-a-sua-dor/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 05 Jun 2021 17:41:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Laécio Ricardo]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Stardust]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=1984</guid>
		<description><![CDATA[&#160; Este texto era para ser uma homenagem, algo com força de tributo e gratidão. Mas como o combustível que o impulsionou foi uma mescla de tristeza, raiva e impotência, <a class="read-more" href="https://apulga.com/o-que-voce-vai-fazer-com-a-sua-dor/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1996" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2021/06/Stardust-dor-enviar2.jpg"><img class="size-full wp-image-1996" alt="Foto: Eduardo Rocha" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2021/06/Stardust-dor-enviar2.jpg" width="640" height="617" /></a><p class="wp-caption-text">Foto: Eduardo Rocha</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este texto era para ser uma homenagem, algo com força de tributo e gratidão. Mas como o combustível que o impulsionou foi uma mescla de tristeza, raiva e impotência, ele resultou em uma espécie de confissão que expressa minha perplexidade com o drama que enfrentamos desde março de 2020, quando fomos alarmados com o viés insidioso e o ritmo de contaminação da suposta “gripezinha” e mergulhamos num abismo que parece não ter fim. Em poucas semanas, o mundo e a sociabilidade que conhecíamos foram interditados; e numa mudança súbita, livre de ensaios, tivemos que nos adaptar ao home office, aos remédios contra insônia e ansiedade, às máscaras e borrifadores de álcool, ao confinamento, à gestão da vida pelos smartphones.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">O que você, leitor, vai fazer com a sua dor? Ou não existe angústia no seu peito, pesar nos seus dias e aflição nas suas noites?! Duvido muito. Quando um país atinge uma cifra tão expressiva, apesar de tristíssima, penso que a imensa maioria dos seus indivíduos foram, de algum modo, alvejados direta ou indiretamente por tais números.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Passados 15 meses dessa distopia chamada covid-19, e com o número de óbitos no Brasil chegando à casa das 470 mil vítimas fatais, sem nenhum indicativo claro que sugira o final desta contabilidade fúnebre, lanço aqui a pergunta que intitula este texto: o que você, leitor, vai fazer com a sua dor? Ou não existe angústia no seu peito, pesar nos seus dias e aflição nas suas noites?! Duvido muito. Quando um país atinge uma cifra tão expressiva, apesar de tristíssima, penso que a imensa maioria dos seus indivíduos foram, de algum modo, alvejados direta ou indiretamente por tais números. Posso ser mais franco: desconheço hoje, no meu círculo de amigos, alguém que não tenha tido, na sua família ou entorno próximo, um parente ou pessoa querida que faleceu ou agonizou em leito hospitalar em decorrência da pandemia. Se você não se encaixa na descrição, não comemore o privilégio; é bem provável que, em breve, você ingresse no clube. E não se trata de profecia agourenta: com a vacinação em ritmo lento e a contaminação fora de controle, não há alternativa ou feitiçaria que promova uma blindagem.</p>
<p>Mas me permitam assumir a primeira pessoa, como é de praxe nos meus textos, uma vez que perdi o apreço pela escrita formal e distanciada há anos. Para expressar minha relação com a pandemia, eu precisaria de um espaço bem mais amplo do que este reservado à minha coluna – talvez um podcast com horas de duração. Na impossibilidade de me envolver com tal projeto, adotemos o teclado e as palavras como aliados. Tive um 2020 duríssimo: uma suspeita de contaminação que me deixou sequelas prolongadas (picos de ansiedade frequentes, uma quinzena de forte insônia, dificuldades alimentares), o cancelamento de um pós-doutorado almejado há anos, uma queda de braço com companhias aéreas e aeroportos para conseguir minha repatriação, e a admissão daquilo que durante anos eu hesitara em encarar – minha vulnerabilidade.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Fragilidade e vulnerabilidade, eis duas palavras que têm nos confrontado nesta pandemia. Um enfrentamento nada fácil. O lado positivo é que o ser humano parece descobrir, quando está prestes a tocar a superfície do abismo, outro binômio importante – resistência e resiliência.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O pano de fundo desse pesadelo vivido de forma solitária era, evidentemente, a covid-19 e as notícias sobre a pandemia veiculadas continuamente, numa espécie de looping perverso. Numa situação como esta, de evidente fragilidade, o excesso de informação e a contundência dos fatos divulgados apenas aceleram a abertura do cadafalso. Fragilidade e vulnerabilidade, eis duas palavras que têm nos confrontado nesta pandemia. Um enfrentamento nada fácil. O lado positivo é que o ser humano parece descobrir, quando está prestes a tocar a superfície do abismo, outro binômio importante – resistência e resiliência.  Voltei, pois, ao Brasil. Claro, sem achar que findaram os meus (e os nossos!) problemas. Sim, não se encerraram.</p>
<p>Na verdade, de um ponto de vista pessoal, celebro minha recuperação e acho que consegui administrar meus temores; mas quando penso no drama social que temos enfrentado, e que se aprofunda em 2021, sinto um misto de cansaço, esgotamento, irritação, dor. Sim, dor e empatia. Afinal, como encarar a cifra das 450 mil vítimas fatais e tocar o dia como se nada estivesse a ocorrer, como se fosse um problema deles, dos mortos, e não nosso?! Impossível. Aderir a certo torpor para prosseguir, é compreensível; diria até que é necessário para não sermos tragados pela tristeza e pela ansiedade. Mas não se comover com números tão alarmantes, não manifestar empatia pelo sofrimento dos pacientes e pela dor dos familiares e amigos, é de uma crueldade intraduzível&#8230;</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Fragilidade e vulnerabilidade, eis duas palavras que têm nos confrontado nesta pandemia. Um enfrentamento nada fácil. O lado positivo é que o ser humano parece descobrir, quando está prestes a tocar a superfície do abismo, outro binômio importante – resistência e resiliência.</strong><strong></div></strong></h3>
<p><strong> </strong>Quando o cientista Atila Iamarino, ainda no primeiro semestre de 2020, apresentou um estudo nos alertando para o risco da pandemia provocar a morte de até um milhão de brasileiros, caso nenhum planejamento efetivo e medidas de contenção fossem adotados previamente, muitos consideraram a divulgação excessivamente alarmista. Talvez estivessem seduzidos pelo desdém com que o presidente da República se referia ao problema (uma gripezinha, uma chuva), no intuito de minimizar sua contundência. Hoje, quando novas ondas de contaminação já se avizinham, e com o Brasil e a Índia na condição de párias do mundo, é provável que parte dos incrédulos (não digo todos porque, em tempos de boçalidade explícita, parte do gado prefere manter sua fidelidade a reconhecer os erros) releia as anotações de Iamarino como um trabalho profético.</p>
<p>Fizemos tudo errado. Uso o plural porque é preciso ser inclusivo sobretudo no reconhecimento dos erros. Da parte do governo Federal, faltou tudo – planejamento para enfrentar a crise, compra antecipada de vacinas, respeito à ciência e às autoridades sanitárias credenciadas, humildade para admitir os equívocos. Da nossa parte, faltou solidariedade e compromisso com os protocolos de segurança – uso ostensivo de máscaras, higiene regular das mãos, maior confinamento no espaço doméstico e, consequentemente, não promover aglomerações.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Fizemos tudo errado. Uso o plural porque é preciso ser inclusivo sobretudo no reconhecimento dos erros. Da parte do governo Federal, faltou tudo &#8211; planejamento para enfrentar a crise, compra antecipada de vacinas, respeito à ciência e às autoridades sanitárias credenciadas&#8230;  Da nossa parte, faltou solidariedade e compromisso com os protocolos de segurança.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Sim, estamos todos cansados e ansiosos pelo retorno da vida social; afinal, cada dia de isolamento amplia uma espera já insuportável. Mas a desculpa (compreensível até!) da higiene mental não pode justificar condutas precipitadas e a baixa da guarda, sob o risco de prorrogarmos o quadro atual de modo indeterminado. E não adianta bradar que na sua residência todo mundo faz o “dever de casa”; estamos diante de uma tarefa que precisa ser abraçada coletivamente e de modo massivo. Do contrário, acumularemos novos fracassos. Em outros termos, precisamos convencer as partes resistentes sobre a importância de aderir a tal esforço. Não é fácil, não é agradável – do lado de lá, há cegueira e intransigência. Mas é preciso perder o pudor e partir para a abordagem verbal lúcida, consciente, ainda que não tenhamos garantia de vitórias. Mas vai que alguém acate a nossa orientação; será, no mínimo, mais um que se despe do manto da incredulidade e do negacionismo.</p>
<p>Estou quase finalizando o texto e volto a pensar nos 470 mil mortos; vidas que sofreram em isolamento, vítimas que não foram devidamente veladas ou pranteadas, lutos que não foram elaborados por familiares e amigos. Somos um país de tradição cristã e de ritos funerários consolidados há séculos. Tais ritos foram interditados de modo súbito, tendo em vista as orientações sanitárias. O que significa dizer que foram interrompidos sem que houvesse um “aviso-prévio” ou a adoção de práticas interinas. E tudo isso terá forte impacto.</p>
<p>Podemos não mensurar agora, mas a conta virá. Onde não há luto, eu insisto, não pode haver superação da perda e o restabelecimento do fio da vida por parte dos que permanecem vivos. No limite, sempre haverá a lembrança de uma despedida impossibilitada, de um choro não partilhado, de um abraço não distribuído. Aqui devolvo para você a pergunta que dá título ao texto: o que você vai fazer com a sua dor? Vai administrá-la de modo solitário e sufocá-la num soluço ou vai canalizá-la em ação, de modo a contribuir com os esforços demandados pelo presente?</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Onde não há luto, eu insisto, não pode haver superação da perda e o restabelecimento do fio da vida por parte dos que permanecem vivos. No limite, sempre haverá a lembrança de uma despedida impossibilitada, de um choro não partilhado, de um abraço não distribuído. Aqui devolvo para você a pergunta que dá título ao texto: O que você vai fazer com a sua dor?</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Disse no início que esse texto deveria ser uma homenagem, mas cedo desisti da tarefa. Não gostaria de concluir, porém, sem fazer referência ao homenageado, um ex-professor e amigo querido que, infelizmente, ingressou na contabilidade das vítimas fatais. Seu nome: Francisco Gilmar Cavalcante de Carvalho. Um pesquisador notável, dotado do mais generoso dos dons na minha opinião: ser capaz de identificar e de motivar novas vocações. Sou um exemplo claro, mas estou longe de ser o único. Comigo estão outras dezenas de vozes, todas elas gratas pelos contínuos incentivos do Gilmar&#8230; Seu falecimento provocou uma comoção em nossas redes sociais.</p>
<p>Declarações de afeto e doces memórias se multiplicaram em postagens tocantes. Foi o nosso consolo e a despedida possível&#8230; Mas ao declinar da missão de redigir um tributo, vislumbrei outra constatação: mesmo que tivesse ânimo para avançar na tarefa, ela seria insuficiente e insatisfatória. Penso que uma homenagem à altura somente seria possível se eu pedisse licença aos colegas para partilhar todas as postagens e assim compor um texto coletivo. Apenas esse mosaico afetivo, acredito, alcançaria a intensidade da sua presença em nossas vidas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/o-que-voce-vai-fazer-com-a-sua-dor/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Foi bom, eu fingi que estava feliz</title>
		<link>https://apulga.com/foi-bom-eu-fingi-que-estava-feliz/</link>
		<comments>https://apulga.com/foi-bom-eu-fingi-que-estava-feliz/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 27 Nov 2019 06:28:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Grilo Falante]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=1906</guid>
		<description><![CDATA[Existe uma história ótima que ronda o meu círculo de amizades há anos. O filho mais velho da minha comadre era uma criança muito adulta. Quando levado àqueles playgrounds de <a class="read-more" href="https://apulga.com/foi-bom-eu-fingi-que-estava-feliz/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/11/frida.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1909" alt="frida" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/11/frida.jpg" width="361" height="339" /></a></p>
<p>Existe uma história ótima que ronda o meu círculo de amizades há anos. O filho mais velho da minha comadre era uma criança muito adulta. Quando levado àqueles <i>playgrounds</i> de <i>shopping</i>, sempre preferiu ficar em um canto, desenhando a correr e a pular como os outros meninos da sua idade. A mãe chegava a impulsioná-lo com algumas palavras e gestos, na tentativa de que o pequeno “gastasse” toda aquela oportunidade que, por vezes, parecia desperdiçada. Esse é o preâmbulo do episódio mais representativo desse dilema sobre as incríveis “chances da vida”. Acho que, por volta dos seus 5 ou 6 anos, depois de muita insistência, nosso infante finalmente cedeu e, atendendo aos anseios familiares, vestiu-se de toda uma capa lúdica e foi participar de sua primeira peça no colégio. Ao sair, a mãe, entusiasmada, interpelou-o: “E, então, meu filho, como foi?”. A resposta sincera veio de chofre: “Foi bom, mamãe, eu fingi que estava feliz”.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A frase “foi bom, eu fingi que estava feliz” – acabou virando um mantra, uma espécie de brincadeira íntima, que repetíamos sempre que queríamos designar a astúcia necessária para representar um papel de nós esperado pela sociedade.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O caso – e, sobretudo, a frase “foi bom, eu fingi que estava feliz” – acabou virando um mantra, uma espécie de brincadeira íntima, que repetíamos sempre que queríamos designar a astúcia necessária para representar um papel de nós esperado pela sociedade. Para os diversos meandros da academia, então, essa parecia ser a máxima perfeita. Tudo que se deve tolerar e representar em nome de um título. Como numa espécie de jogo da vida, chega ao fim mais repleto de patrimônio e relações aquele que melhor dominar a arte da interpretação.</p>
<p>Decerto, minha observação tem lá seu tom cínico. A academia, que tanto se coloca como balisa das outras instituições é, ela própria, um dos espaços de reprodução mais violenta e abusiva dessa lógica. Contudo, nem de longe se pode alegar que tenha exclusividade para tal <i>modus operandi</i>. Quanto mais hierárquicas (com poucos filtros verticais) e estimulantes da vaidade sejam as instituições, mais fácil é de se perpetrar essa lógica. Ela está na justiça, na diplomacia, na caserna&#8230; E, <i>touché</i>, chega no local do pensamento crítico que tudo analisa até que o referido princípio não lhe coloque em xeque. Tudo em nome das boas relações corporativas (sic).</p>
<p>Fosse eu falar o que vivi&#8230; Até hoje me pergunto como é possível um programa considerado como referência de estudos colocar para orientar em um doutorado alguém que sequer havia concluído uma orientação de mestrado. No âmbito do Judiciário, vi um advogado não ir a audiência mediente a apresentação de um atestado de uma ginecologista. A cena processual foi lá nos anos 1990. Logo depois, o debate em torno da Reforma do Judiciário sinalizou uma mudança institucional nunca convertida em democratização institucional. Mas, de alguma maneira, o incômodo estava lá aparecendo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Decerto, minha observação tem lá seu tom cínico. A academia, que tanto se coloca como balisa das outras instituições é, ela própria, um dos espaços de reprodução mais violenta e abusiva dessa lógica.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Nos dias de hoje há uma ironia. Ainda que por uma superexposição de agenda e seus reais trâmites, de uma maneira nada usual, a magistratura se vê diante de críticas jamais vistas. Então, hoje também fico pensando quando movimentos como o #metoo, abarcando abusos de ordens distintas, chegará enfim à academia. Instituições com potencial de transformar vão minando suas estruturas pela reprodução do compadrio.  Não adianta questionar autores clássicos, falar em empoderamento periférico, se o desrespeito se coloca cotidiano nas relações mais básicas. Talvez daqui a alguns anos vejamos as contradições acadêmicas explodirem nas mesmas ironias que chegaram à Justiça em meio ao debate público.</p>
<p>Mas, de forma sintética, não há segredo e nem mistério: relações institucionais que dependam da sorte, dado o nível de poder e verticalidade nas quais se baseiam, costumam ter algo de muito errado em seu cerne. Da sorte dependem os sentimentos, e não um julgamento justo, uma orientação não abusiva, uma ordem abjeta. Contudo, seguimos aprendendo a pagar os preços. Digo, esses preços específicos do silenciamento e da <i>mise en scène</i>.</p>
<p>É exatamente este o meu ponto: quando se deve decidir não pagar esse preço? Quando simular a felicidade se torna algo pesado demais? Quando sucumbir for a única opção com sentido? Em nossa sociedade, há uma ode à felicidade. Ela é escancarada, como nos debates em torno do “show do eu” das redes sociais, para usar um termo da Paula Sibília, mas também ela é velada nos escaninhos do que todos suportamos em nome do que julgamos ser um bem maior.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Não é o caso de ter um raciocínio niilista ou hedonista, como se na vida não existissem responsabilidades. O que apontamos aqui é outra questão: é o sufocamento e a violência consentida em nome do pragmatismo.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Por vezes são os que nos amam a indicar, compreensivelmente, esse caminho. O concurso, a casa própria, o título, o pacote do que deveria trazer a felicidade. Talvez aqui seja o caso de evocar um teórico mais clássico, Erving Goffman, a nos indicar, como no teatro, o jogo interpretativo que fazemos para sobreviver. É muito comum pagar esses preços e, sim, ter uma sobrevida &#8211; não no sentido primeiro, do essencial – mas, ao contrário, de algo que é superficial e ao qual nos agarramos mesmo representando o oposto dos nossos desejos. Dito de forma direta: o apego à artificialidade que pode nos destriur silenciosamente. Se as instituições pagam um preço por isso a longo prazo (os brioches de Maria Antonieta podem atestar), o custo pessoal tampouco é baixo. Aí abre-se a janela para as escolhas íntimas que, por essência, temos maior manejo.</p>
<p>Não é o caso de ter um raciocínio niilista ou hedonista, como se na vida não existissem boletos, responsabilidades e dificuldades. O que apontamos aqui é outra questão: é o sufocamento e a violência consentida em nome do pragmatismo. Sempre que me pego articulando essas ideias, me vêm à mente aquelas mulheres dos anos 1950 que, seguindo a recomendação das mães, das avós e das revistas femininas, apreendiam sistematicamente que era melhor aceitar todas (ou quase todas) as violências conjugais em nome de não serem mulheres desquitadas, de não perderem o sustento do lar, de não macularem seu nome. Eis aí títulos não acadêmicos a pedir o silêncio como paga. Não é difícil imaginar a frase “minha filha, não faça isso, é para o seu próprio bem”. O patriarcado dá contorno a essa cena como a tantas outras, mas, como no argumento que levantamos, a lógica é mais ampla: tudo suportar em nome de algo pretensamente maior.</p>
<p>Acontece que o preço que pagamos por esse caminho de pragmatismo idílico desconhece os limites humanos, personalíssimos e intransferíveis. Nem tudo vale a pena e nem tudo nós suportamos da mesma maneira. Essa fronteira deve ser não só respeitada como dita. Quebrar o silêncio é fundamental. A lógica do  “faça, mas não alardeie” é outra violência. Parte fundante do processo de cura é a fala. Freud foi genial, entre outras coisas, por, justamente na época de ouro dos manicômios, apontar para a palavra como forma de elaboração da dor.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Acontece que o preço que pagamos por esse caminho de pragmatismo idílico desconhece os limites humanos, personalíssimos e intransferíveis. Nem tudo vale a pena e nem tudo nós suportamos da mesma maneira.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Contudo, é importante voltarmos ao passo anterior, àquele sobre admitir que não valeu a pena. Esse parece ser outro tabu dos nossos tempos. Diante do fracasso, há sempre uma advertência para vermos o lado bom e para tocarmos em frente. “Fazer do limão uma limonada” parece a concessão máxima que o pragmatismo idílico dá ao fracasso. A frase é em si um sofisma, porque o sonho de que tudo pode nos levar a um resultado prático é tão fantasioso como é pueril a esperança de que se possa seguir extraindo do mal um bem. Se tal pensamento serve para tantas coisas cotidianas, certamente não serve para determinadas situações nas quais sucumbimos. O que se procura é, neste caso, tão e simplesmente encarar essa verdade sem subterfúgios. Só isso pode nos levar ao passo seguinte. Sem tomar consciência de que algo para nós pereceu, não é possível dar qualquer outro movimento de mudança.</p>
<p>É, então, que o ato de falar e calar (por vezes, negar, no sentido de atribuir ao motivo de determinadas violências um fim) torna-se o segundo e importante passo. Há uma série de retratos de Frida Kahlo em que ela aparece com o rosto recortado das fotografias. No lugar da cabeça, um buraco, o vazio. É, talvez, uma expressão, digamos, plástica, de algo primeiro, que é a capacidade de recontar a própria história e, diante dela, dar os sentidos que as experiências de fato tiveram em nós. Em um <i>stand-up comedy</i> intitulado “Nanette”, a australiana Hannah Gadsby vai destrinchando com uma capa de humor uma série de situações abusivas, em especial as relativas ao ódio à comunidade LGBT.</p>
<p>Lá pelas tantas, Hannah aponta para os buracos na sua própria narrativa e admite que, quando finalmente se assumiu lésbica, era tarde demais: ela já tinha internalizado a homofobia. É algo que começa parecendo um esquete de humor, mas é um soco no estômago. Ali não há um rosto retirado da foto, mas há uma negativa exposta. É alguém que sucumbe, expõe isso e só dessa forma consegue dar o significado real ao que se passou. Se uma verdade que é dura aflora, outra mais doce, porém inverídica, é finalmente silenciada.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É exatamente por isso que ao assumir que determinadas processos são uma farsa e que atos de violência e abuso foram perpetrados, o que se busca de fato é uma mínima reparação pela fala e pela verdade. Assume-se um valor.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Fico pensando cá com os meus botões se nós estivéssemos até hoje dizendo que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil só porque isso foi dito reiteradamente por quem convinha. Ou, se ninguém tivesse se revoltado contra a ideia sacrossanta do casamento, será que estaríamos até hoje falando que cabe à mulher zelar pela família? Quando uma versão é negada, outra é dita. Costumam ser mais custosas e verdadeiras aquelas histórias veladas que, quando vêm à tona, causam tanto pavor.</p>
<p>É exatamente por isso que ao assumir que determinadas processos são uma farsa e que atos de violência e abuso foram perpetrados, o que se busca de fato é uma mínima reparação pela fala e pela verdade. Assume-se um valor. Não sem custo, mas assume-se. O preço pelas escolhas todos nós pagamos. Novamente, é personalíssimo e intransferível. Só que, em determinados momentos, a questão é saber se você vai pagar pela doença de permanecer calado, inoculando as convenientes meias verdades, ou se é melhor pagar a conta de assumir o que não foi. É como se disséssemos de forma inversa: “Foi bom, eu não fingi que estava feliz”. É o limite de cada um. Não é saudável ir contra ele. Não é mais barato pagar o preço de fingir que dá para ir levando.</p>
<p>Aos que novamente relembram a práxis da vida, eu vislumbro o desejo que dá contorno aos limites. Por que um homem branco, hétero e bem-sucedido deixaria tudo para assumir outra identidade de gênero?  Por que alguém escolhe abandonar a faculdade de medicina? Por que negar que cada de nós é movido por pulsões e fronteiras distintas?</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Se, ao fim e ao cabo, somos nós que pagamos o preço, convém que nós também possamos escolher.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O risco de negar nossas verdades, em especial as mais duras, é ficarmos aprisionados como em um livro de Tolstói. O pobre Ivan Ilitch, que apenas teve sua epifania reveladora no momento da morte. Só ali viu que levou a vida a contemplar todos os desejos alheios, menos o seu. Se, ao fim e ao cabo, somos nós que pagamos o preço, convém que nós também possamos escolher.</p>
<div></div>
<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/foi-bom-eu-fingi-que-estava-feliz/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Resistência e sinal fechado – o triunfo de uma e a tragédia de muitos</title>
		<link>https://apulga.com/resistencia-e-sinal-fechado-o-triunfo-de-uma-e-a-tragedia-de-muito/</link>
		<comments>https://apulga.com/resistencia-e-sinal-fechado-o-triunfo-de-uma-e-a-tragedia-de-muito/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 18 Jun 2018 18:00:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Laécio Ricardo]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Stardust]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=1812</guid>
		<description><![CDATA[&#160; Em certa medida, este texto é uma homenagem. Não sei bem como conduzi-la, mas se trata de um reconhecimento público. Poderia ter sido feito de modo privado, mas me <a class="read-more" href="https://apulga.com/resistencia-e-sinal-fechado-o-triunfo-de-uma-e-a-tragedia-de-muito/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1826" style="width: 421px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/Foto-Pulga.jpg"><img class="size-full wp-image-1826" alt="&quot;Nobody Likes Me,&quot; street art in Stanley Park." src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/Foto-Pulga.jpg" width="411" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">&#8220;Nobody Likes Me,&#8221; street art in Stanley Park.</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em certa medida, este texto é uma homenagem. Não sei bem como conduzi-la, mas se trata de um reconhecimento público. Poderia ter sido feito de modo privado, mas me parece sensato partilhar que falhei; ou melhor, que sucumbimos, todos nós. Assim, o que importa é admitir que <i>ela venceu</i>, mesmo sem o saber ou sem conseguir articular as razões do seu triunfo. Norteada apenas por uma espécie de instinto que a afasta das hordas eletrônicas dispersivas, vigilantes, permissivas, promotoras de intrigas&#8230; Quanto a nós, <i>o sinal está fechado pra nós</i>. E talvez nunca mais reacenda. E se reacender, pode ser para exigir nova conexão. Deus me livre, arremesso pra longe meu smartphone!</p>
<p>Não é novidade pra ninguém, embora a partir de 2018 tenha se convertido numa revelação alarmante: ao navegar pela internet, inserir dados no Google, criar contas no Facebook e Instagram, aderir ao Whatsapp, deixamos pegadas digitais permanentes. Rastros, indícios, vestígios do nosso percurso e das nossas predileções. Pouco adianta deletar a postagem ou desativar o aplicativo. O prejuízo apenas se reduz. Nossas andanças virtuais já foram mapeadas e nosso perfil de usuário, devidamente dissecado, sem respeito a qualquer noção de privacidade. E os recentes escândalos envolvendo o Facebook nas eleições majoritárias dos EUA ou no plebiscito que definiu a saída do Reino Unido da Comunidade europeia (o chamado “Brexit”), dentre outros, apenas sinalizam que o fosso aberto é infinito.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Não é novidade pra ninguém: ao navegar pela internet, inserir dados no Google, criar contas no Facebook e Instagram, aderir ao Whatsapp, deixamos pegadas digitais permanentes. Rastros, indícios, vestígios do nosso percurso e das nossas predileções.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Assim, cada nova entrada é codificada, convertida em algoritmos e se transforma em bancos de dados à disposição de agências interessadas na gestão das nossas idéias e contatos. Seja para nos ofertar anúncios regulares cada vez mais invasivos, seja para realizar a triagem das possíveis notícias que nos interessariam, seja para nos indicar um potencial novo “amigo” ou “página” com os quais supostamente partilhamos afinidades, dentre outros males (oficialmente, a campanha eleitoral brasileira se inicia em agosto; e com ela, já se avista a possibilidade de novos vazamentos e a proliferação de <i>fake news</i>). Mas não adianta apenas praguejar contra Zuckerberg ou os criadores do Google; e exigir deles explicações nos tribunais do Primeiro Mundo. Esta <i>espiral do Diabo</i>, não custa lembrar, tem o nosso consentimento, ainda que involuntário. Baixar um aplicativo e postar freneticamente implica em aderir ao jogo, em ceder informações e abrir mão de qualquer privacidade.</p>
<p>Reconheço que o contexto atual estimula uma proliferação e circulação da intimidade, um desejo de se expor e de falar de si, materializado nos “textões” abertamente confessionais e no enquadramento narcísico das selfies. E este excesso de exposição, claro, só se concretiza com uma inevitável contrapartida – o mesmo contexto (uma nova configuração do capitalismo voltada à gestão do íntimo) também estimula um voyeurismo constante, o desejo de tudo bisbilhotar, a aspiração por uma visibilidade máxima, que se refestela diante das sex tapes <i>intencionalmente</i> vazadas, da proliferação dos reality shows, dos vídeos caseiros ambientados no espaço doméstico e cuja prerrogativa maior é a narração em 1ª pessoa. Alimentamos este circuito infernal e com ele nos regozijamos, despudoramente. Quem não se reconhecer neste quadro, em maior ou menor escala, que atire a primeira pedra!</p>
<p>Mariana Aquino, amiga querida e a homenageada deste texto, pode atirar. Na verdade, pode até despejar um carregamento inteiro de britas em nossos frágeis telhados virtuais. Tem moral e histórico para isso. Mas antes de enaltecer a sua resistência exemplar, gostaria de fazer mais algumas ponderações. Sim, as redes sociais têm uma faceta positiva – promovem novas formas de sociabilidade, impulsionam certas atividades profissionais e, pasmem, permitem até mesmo a circulação de contrainformação (de narrativas contrárias aos discursos hegemônicos). Deste modo, reconheço que é possível transitar por elas sem aderir a tanta exposição, sem ceder aos seus apelos e se beneficiando desta positividade. Mas eu conto nos dedos da mão de Lula quem assim procede! No geral, o chamado “show do eu” é incontornável. Um canto de sereia duradouro e irresistível.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Mariana Aquino, preciso reiterar: você venceu! Venceu porque nunca cedeu aos apelos tecnológicos, porque sempre recusou toda novidade e vício oriundo da Internet, porque sempre debochou da nossa estima pelo Facebook e porque nunca desejou ter conta no Instagram.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Ciente desta cantilena diabólica, e estimulado por minha heroína, optei por uma discrição virtual parcial. É pouco, reconheço. E não me isenta de ser tragado por estas engrenagens. Mas hoje repenso minhas adesões e postagens. Deixei inativa a conta do Facebook, o território por excelência da vigilância política e da proliferação de <i>tretas</i> (jargão que ilustra bem nossa predileção por picuinhas virtuais). E me excluí dos grupos de Whatsapp com inclinação suspeita e daqueles que funcionam para agregar dezenas de familiares distantes. Este canal pode possibilitar trocas instigantes, reconheço, mas a experiência me ensinou que o contato real tem maior apreço, é menos dispersivo e reduz a circulação de falsas notícias. Afinal, se existe um território onde a boataria perversa se aninha com prazer, ele se chama Whatsapp. E assim, com menos contas para administrar, me vejo com mais tempo para os livros e para garimpar, por ímpeto próprio, as notícias que de fato me interessam, nas fontes que julgo pertinentes.</p>
<p>Voltemos agora à minha homenageada. Desta vez, em definitivo. Mariana Aquino, preciso reiterar: você venceu! Venceu porque nunca cedeu aos apelos tecnológicos, porque sempre recusou toda novidade e vício oriundo da Internet, porque sempre debochou da nossa estima pelo Facebook, porque nunca desejou ter conta no Instagram, porque sempre controlou e restringiu seus acessos ao laptop, enquanto nós, servos do deus Google, dispersávamos nossa energia física e criativa navegando horas a fio. Por anos, admito, sua resistência me intrigara: a advogada que lia e-mails uma vez por semana e a única do grupo a não dispor de gadgets, de smartphones. A preferir o velho celular com lanterninha e a se limitar ao envio de torpedos. Em tempos recentes, é verdade, você aceitou a companhia de um smartphone; mas ainda assim, o enlace não foi fácil. O primeiro aparelho se danificou antes de ser usado; e o segundo foi roubado nos primeiros dias. Um sinal divino de que você estava certa e de que era preciso resistir. Hoje, passado algum tempo, você aderiu à novidade. Cheguei a imaginar que você recuaria em sua determinação. Mas logo percebi que as regras seguiriam firmes em prol da integridade. Afinal, este maldito aparelho te pertence (e não o contrário!). As ligações ainda são atendidas esparsamente, as fotos seguem escassas e enviadas somente para os mais íntimos; e a única rede social instalada, o Telegram, se encontra na lista de aplicativos não denunciados. Sim, amiga, você venceu. Admito mais uma vez. E o sinal está fechado pra nós. Talvez definitivamente.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/resistencia-e-sinal-fechado-o-triunfo-de-uma-e-a-tragedia-de-muito/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Ideologia: eu quero uma pra viver mesmo!</title>
		<link>https://apulga.com/ideologia-eu-quero-uma-pra-viver-mesmo/</link>
		<comments>https://apulga.com/ideologia-eu-quero-uma-pra-viver-mesmo/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 30 Mar 2018 16:13:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Naiana Rodrigues]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Avulsa]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=1773</guid>
		<description><![CDATA[Todo dia rompemos uma barreira rumo à intolerância. Marielle, presente! Anderson, presente! Quantos não sabemos os rostos? Os nomes? A gente grita, mas é preciso olhar o fundo, ver de <a class="read-more" href="https://apulga.com/ideologia-eu-quero-uma-pra-viver-mesmo/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p dir="ltr"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/HandsNaiana2.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1777" alt="HandsNaiana2" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/HandsNaiana2.jpg" width="750" height="500" /></a></p>
<p dir="ltr">Todo dia rompemos uma barreira rumo à intolerância. Marielle, presente! Anderson, presente! Quantos não sabemos os rostos? Os nomes? A gente grita, mas é preciso olhar o fundo, ver de onde brota essa violência, olhar as palavras que já escrevemos sobre ela. Para trazer essa questão para um plano mais próximo, lembro do um episódio ocorrido no final de janeiro de 2018. Nessa ocasião, o Benfica, bairro universitário da Capital cearense, mais uma vez foi cenário de manifestações de violência de cunho racista e homofóbica. Um refúgio até bem pouco tempo atrás considerado seguro para estudantes e pessoas gays, lésbicas, trans e bissexuais que se encontravam, aos fins de semana, em uma das pracinhas do bairro para tomar seu bom vinho barato, fumar seu baseado e paquerar, o lugar foi visitado por um grupo de homens brancos e negros também intitulados como “Carecas do Brasil” que diziam panfletar contra as drogas no bairro. O resultado dessa visita foi um jovem negro notadamente homossexual agredido.</p>
<p dir="ltr">O fato rapidamente circulou pelo Facebook. Não só o relato da agressão, mas as fotos e perfis dos carecas foram facilmente revelados pela inteligência coletiva. Na esteira da audiência na rede e das cobranças de justiça, os jornais locais se dedicam a entrevistar os carecas. Uma repórter, inclusive, presenciou, durante a realização da entrevista, uma cena de violência contra eles, ao que o jornal responde com um artigo que finaliza conclamando a oferta de flores para os agressores que naquele momento foram vítimas de violência.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">E todos temos uma, seja ela libertária, opressora, religiosa ou laica. A ideologia é inerente ao ser humano e assumir isso e não mascarar a existência de diferentes correntes ideológicas já é um grande passo para o empoderamento político.</strong><strong></div></strong></h3>
<p dir="ltr">Apesar da explanação do acontecimento e de sua cobertura jornalística, me abstenho aqui de realizar uma análise jornalística do fato &#8211; em sala de aula, já tenho espaço para fazer isso &#8211; mas quero apenas chamar a atenção para a aparição de condutas fascistas em nosso cotidiano, aqui, bem pertinho da gente. São atos e discursos violentos que expressam nada mais, nada menos que ideologias, conjunto de ideias forjadas em um tempo histórico, em uma dada cultura, por um grupo social com vistas ao alcance de uma posição hegemônica na sociedade.</p>
<p>E todos temos uma, seja ela libertária, opressora, religiosa ou laica. A ideologia é inerente ao ser humano e assumir isso e não mascarar a existência de diferentes correntes ideológicas já é um grande passo para o empoderamento político. Quanto mais se nega sua própria filiação ideológica (bem diferente de filiação partidária), mas se fica suscetível ao domínio ideológico de outrem, de uma maioria, de quem está no poder.</p>
<p>Essas reflexões em torno de ideologias e de como estas quando assumem o lugar hegemônico podem se tornar tiranas estão me perturbando intelectualmente desde que reli pela segunda vez a obra 1984, de George Orwell, e terminei a primeira temporada da série The Handmaid’s Tale, inspirada no livro homônimo da escritora Margaret Atwood.</p>
<p>Ambas, com focos diferentes, tratam da ascensão de governos totalitários. O livro de Orwell, com fim bem pessimista (não darei spoilers, calma!), mostra um futuro em que a história é constantemente manipulada. As notícias dos jornais são alteradas com vistas a terem sempre um caráter favorável ao partido. Esse controle da verdade social e discursiva relaciona-se, ao meu ver, com a propagação de fake news na atualidade, sobretudo, em épocas de disputas eleitorais. A noção de verdade se altera em 1984, assim como ela tenta ser alterada nas redes sociais em 2018.</p>
<p dir="ltr">A redução da linguagem a um vocabulário enxuto e livre de ambiguidades, de metáforas, de analogias e paradoxos foi algo que me assustou também no livro de Orwell. A orquestração da nova linguagem com palavras que expressam um conceito apenas e a definição direta de seu antônimo, me move a relacionar esse cerceamento intelectual a episódios recentes de censura de exposições artísticas, vendo a arte como uma linguagem, a mais transgressora delas, diga-se de passagem.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Esse controle da verdade social e discursiva relaciona-se, ao meu ver, com a propagação de fake news na atualidade, sobretudo, em épocas de disputas eleitorais. A noção de verdade se altera em 1984, assim como ela tenta ser alterada nas redes sociais em 2018.</strong><strong></div></strong></h3>
<p dir="ltr">Privar a expressão do pensamento é um dos primeiros artifícios dos governos autoritários. Mas limitar essa expressão em seu nascedouro, pois sem palavras, em uma cultura ainda tipográfica, como afirmou McLuhan, é minar o pensamento em sua gênese, pois sem saber o que dizer, como significar aquilo que se pensa, o que vou enunciar? Resta apenas o sentir. A luta no livro do sistema com o protagonista, que ousou enunciar seu pensamento contrário, mesmo de modo sigiloso, é exatamente em domesticar o sentir.</p>
<p>A domesticação, aliás, é o tema recorrente na série adaptada do livro de Atwood. A premissa central da obra trata de uma revolução ocorrida nos EUA orquestrada por um grupo reacionário que se ampara em preceitos religiosos para governar. A quebra da laicidade da política é outro fator que a ficção enfatiza e que observamos claramente no Congresso brasileiro. A bancada evangélica se organiza e fortalece para disputar mais espaços no pleito de 2018. Vale ressaltar que a mulher, seja para os pastores brasileiros no poder, ou para os homens de Gilead em The Handmaid’s Tale, é ainda a personificação do pecado. Tanto que, na série, uma das primeiras ações impetradas pelo grupo revolucionário é a demissão de todas as mulheres de seus empregos e o fechamento de suas contas bancárias, fazendo-as ficarem dependentes dos homens, sejam maridos, pais, irmãos ou amigos. Ideia que um Bolsonaro da vida não hesitaria em colocar em prática.</p>
<p dir="ltr">Na distopia audiovisual, a mulher fértil (guerras nucleares e empreendimentos médicos deixaram a população infértil no mundo da ficção) deve contribuir para o repovoamento da nova nação sendo uma aia, serva que permanece sob os cuidados de uma família (de homens do alto escalão do governo) até que gere um filho que será cuidado pela família. Vale destacar que a concepção consiste em um ritual realizado no dia fértil da aia, na presença da esposa, em um ato que claramente se caracteriza por um estupro. A dominação do corpo feminino e a legitimação do estupro como parte de um ritual sagrado e político é também assustador e que, em certa medida, é algo com o que vivemos dia após dia em uma sociedade de regime supostamente democrático.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Ser feminista é a ideologia que me salva todos os dias. Mas é aquela que também pode me conduzir a um exílio, à prisão ou à morte caso um regime totalitário se instaure no Brasil. É o risco de assumir um posicionamento perante o mundo. Ficar à deriva não é mais uma opção.</strong><strong></div></strong></h3>
<p dir="ltr">O corpo feminino é explorado pelas indústrias cultural, médica e da beleza e a cultura do estupro se manifesta em músicas, em discursos e em atos violentos praticados por homens que reproduzem o machismo estrutural, inclusive em ambientes considerados intelectualmente elevados como a universidade.</p>
<p dir="ltr">Nunca as distopias, para mim, foram tão próximas do presente como agora. Daí porque escolhi abrir esse texto com um fato real, para chegar nas ficções, mas o qual poderia aparecer na ficção, assim como os fatos da própria ficção podem surgir na realidade. E o que isso nos indica? Que as ideologias reacionárias se fortalecem mundo afora. Que os fascismos se avizinham (uso o plural, pois cada um tem sua particularidade, ora alinhado às religiões, ora ao próprio capital) e que um posicionamento ideológico da nossa parte é necessário, para, como já cantava Cazuza, vivermos.</p>
<p>Ser feminista é a ideologia que me salva todos os dias. Mas é aquela que também pode me conduzir a um exílio, à prisão ou à morte caso um regime totalitário se instaure no Brasil. É o risco de assumir um posicionamento perante o mundo. Ficar à deriva não é mais uma opção, pois lá do outro lado, eles se assumem como carecas, skinheads, evangélicos, de direita. E enquanto negarmos a ideologia por uma suposta neutralidade ou imparcialidade, eles continuarão sendo maioria e dispostos a agredir e aniquilar quem consideram opositores. Não vou entrar no mérito da violência por quem se afirma libertário ou minimamente partidário pelos direitos humanos, mas o confronto está próximo, e a força física, infelizmente, será necessária, mas por enquanto, quero apenas poder sentir com mais afinco o despertar da força ideológica, das ideias, mesmo, pois sem elas, não há motivação nem mobilização.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/ideologia-eu-quero-uma-pra-viver-mesmo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Do cotidiano como lugar de resistência</title>
		<link>https://apulga.com/do-cotidiano-como-lugar-de-resistencia/</link>
		<comments>https://apulga.com/do-cotidiano-como-lugar-de-resistencia/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 06 Oct 2017 15:00:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Laécio Ricardo]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Stardust]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=1661</guid>
		<description><![CDATA[Não tá fácil pra ninguém. Na verdade, nunca esteve, sejamos sinceros. Mas, de uns cinco anos pra cá, piorou bastante. Tudo se mostra extremamente difícil, sem sinalizar possibilidades de entendimento, <a class="read-more" href="https://apulga.com/do-cotidiano-como-lugar-de-resistencia/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2017/10/sombrinha.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1667" alt="sombrinha" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2017/10/sombrinha.jpg" width="750" height="563" /></a></p>
<p>Não tá fácil pra ninguém. Na verdade, nunca esteve, sejamos sinceros. Mas, de uns cinco anos pra cá, piorou bastante. Tudo se mostra extremamente difícil, sem sinalizar possibilidades de entendimento, de acolhida, de otimismo; as palavras parecem ponderadas com antecedência, como se temessem alguma vigilância constante e implacável, e todos os passos são executados com cautela, receosos de enveredar em alguma armadilha fatal. A polarização política que nos acomete, protagonizada por uma extrema direita irascível, fóbica e intolerante, e uma esquerda atordoada e patética, tampouco contribui para nos inspirar confiança. Na verdade, só aprofunda o fosso e a sensação de mal-estar.</p>
<p>Falta disponibilidade para se aproximar, para dialogar e entender; sobra impaciência, proliferam as pretensas verdades, ampliam-se os insultos, renovam-se os tabus, inclusive aqueles que julgávamos ter superado. Do meu lado, já ressabiado com tanta reviravolta e com o triunfo da hipocrisia, sedimenta-se certa desconfiança e também o pessimismo deseja fazer morada. Justo no meu coração, notório pelo seu entusiasmo e humanismo retumbante. Mas não tá fácil pra ninguém, menos ainda para o meu coração&#8230;</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Onde encontrar brechas? </strong><strong>É na esfera privada onde encontro brechas, vislumbro resistências e identifico possibilidades</strong><strong>. Pressionado pelos debates nada fecundos nas redes sociais, considero legítimo este refúgio na intimidade para recobrar algum ânimo.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Onde encontrar brechas? Onde identificar possíbilidades? Como construir alguma sociabilidade livre dos interditos e das vigilâncias, norteada pelo signo da esperança e do acolhimento? Este mundo carece de leveza, com urgência urgentíssima. Nada mais. E onde encontrá-la? Não tá fácil, reitero. Talvez seja a hora de renovarmos os engajamentos e de retomarmos as práticas militantes, aquelas que, conduzidas em grandes grupos e em espírito de comunhão, nos inspiram e nos sugerem possibilidades reais de transformação. Mas confesso que, na casa do 40 e com a carcaça já enrijecida, me encontro pouco motivado para enfrentar esta adversidade no corpo-a-corpo, no grito exaltado, ainda que ladeado por centenas de colegas igualmente irmanados. Confio plenamente nas ações coletivas, insisto, mas meu corpo hoje pede contenção, gestos mínimos, o que não se confunde com conformismo&#8230;</p>
<p>Portanto, é na esfera privada e nas redes próximas onde encontro brechas, vislumbro resistências e identifico possibilidades. À primeira vista, parece uma solução menor e pouco eficiente diante do quadro grave delineado; alguém poderia aventar também a hipótese de que se trata de uma saída com alcance social restrito. Admito e até visto a carapuça; mas não entendam como um gesto mesquinho, tampouco egoísta. Pressionado pelos debates nada fecundos nas redes sociais e exaurido pelas dificuldades de entendimento nos encontros presenciais, considero legítimo este refúgio na intimidade para reforçar os laços, consolidar os afetos e recobrar algum ânimo. Cada lealdade renovada, entendam, é um estímulo a mais para seguir num mundo onde as tensões parecem se multiplicar e a boa vontade se revela uma quimera.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Não pode ser simples mensagem de whatsapp ou outro aplicativo. É necessário ouvir, se demorar e, se as agitações da vida permitirem, encontrar pessoalmente, tocar, sentir a pulsação e a aprovação do olhar. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Tenho meus rituais cotidianos e sugiro a cada um que estabeleça os seus. Questão de sobrevivência, insisto. Ligo com regularidade para os amigos; um a um, sondo suas inquietações e partilho meus anseios. Não pode ser simples mensagem de whatsapp ou outro aplicativo. É necessário ouvir, se demorar e, se as agitações da vida permitirem, encontrar pessoalmente, tocar, sentir a pulsação e a aprovação do olhar. Não sou um indivíduo de forte vínculo familiar, mas não deixo estremecer o contato com as crianças que amo – sobrinha e afilhados. Venero meus discos com o entusiasmo de um adolescente e assisto a certos filmes com igual fascínio. E, como não tenho religiões, inventei uma própria. Todos os sábados, compareço ao meu culto matinal: vou à uma feira de orgânicos, onde me demoro a conversar em cada barraca; uma hortaliça aqui, uma fruta acolá, um doce mais a frente, encho a sacola e renovo meu credo. São nestes momentos breves, mas intensos, espécies de epifanias do cotidiano, onde recupero uma ponta de esperança, reencontro algum otimismo.</p>
<style type="text/css"><!--
p.p1 {margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px '.SF NS Text'; color: #4a4f56; -webkit-text-stroke: #4a4f56; background-color: #f1f0f0}
span.s1 {font-kerning: none}
--></style>
<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/do-cotidiano-como-lugar-de-resistencia/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Mais vale cumprir o próprio dharma</title>
		<link>https://apulga.com/mais-vale-cumprir-o-proprio-dharma/</link>
		<comments>https://apulga.com/mais-vale-cumprir-o-proprio-dharma/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 17 Feb 2017 22:36:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tatiana Chaves]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Vida Simples]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=1614</guid>
		<description><![CDATA[ “Mais vale cumprir o próprio dharma, ainda que de forma imperfeita, do que cumprir de maneira perfeita o dever de outrem.&#8221; Bhagavad Gita (III:35) &#160; Minha viagem certeira em direção ao que <a class="read-more" href="https://apulga.com/mais-vale-cumprir-o-proprio-dharma/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p align="right">
<p align="right"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2017/02/Dharma.png"><img class="size-full wp-image-1625 aligncenter" alt="Dharma" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2017/02/Dharma.png" width="592" height="588" /></a></p>
<p align="right"> “Mais vale cumprir o próprio <i>dharma</i>, ainda que de forma imperfeita, do que cumprir de maneira perfeita o dever de outrem.&#8221;</p>
<p align="right"><i>Bhagavad Gita</i> (III:35)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Minha viagem certeira em direção ao que sempre busquei aconteceu em novembro de 2014; uma viagem para a Índia quando finalmente me dei conta de que queria que o yoga fosse um pouco mais que minha prática (física) diária. Ali, mentalizei que queria ser um instrumento daquele modo de viver, mesmo ainda não sabendo de que maneira (ou será que eu já sabia?).</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">O que sempre falou mais alto era viver de forma mais simples e não aspirar estar em camadas sociais consideradas superiores. Isso me levou às seguintes perguntas: o que é realização? O que é sucesso?</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Mas a preparação para essa viagem começou muito antes. Esta questão profissional sempre foi algo que me inquietou. Sou Publicitária, mas muitas vezes achei que os valores, aparentemente tão comerciais da Publicidade eram incompatíveis com aquilo que eu acreditava ser um bom caminho: a colaboração, a preservação, a reutilização, a busca mais espiritual que material. Sem condenar, sem fazer juízo de valor, o que sempre falou mais alto dentro de mim era viver de forma mais simples (não simplória!) e não aspirar estar em camadas sociais consideradas superiores. Esse pensamento do que é superior, de pensar ser superior, me levou às seguintes perguntas: o que é realização? O que é sucesso?</p>
<p>Conversei com amigos, li artigos, entrevistas, blogs, para tentar entender as minhas próprias angústias, e compreendi que essas eram perguntas com respostas muito pessoais e que, enquanto muitos se encantam com a vida na cidade, com o trabalho em grandes corporações, outros estão voltando para o campo, para uma busca de uma vida mais tranquila e harmônica. Embora pareça clichê, percebi que não há certo nem errado; há o que te preenche e te faz brilhar os olhos.</p>
<p>Depois que voltei de um ano sabático (que tirei justamente por já me questionar sobre que caminho seguir), havia me determinado a dar aulas de inglês e de yoga, mas meus medos e, por trás deles meu ego, falaram mais alto. Achei que precisava daquela certeza no final do mês; achei que ainda precisava mostrar (para quem, hein?) que estava inserida no mercado. Muitas coisas passaram pela minha cabeça como: o que vão pensar de mim? O que fazer com todos os anos de estudo e dedicação à minha profissão?</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Decidi seguir minha intuição. Ela está dizendo o tempo todo qual é o caminho, mas muitas vezes não conseguimos escutar porque o barulho interno e os estímulos externos são muitos. É preciso silenciar para ouvir.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Voltei a trabalhar em agência e posso dizer que foi a melhor coisa que me aconteceu: conheci novas pessoas e reencontrei velhos conhecidos, alguns deles com o pensamento parecido com o meu, mas que conseguem equalizar com as demandas da atividade que exercem, o que me ensinou muitas coisas. Por outro lado, ter voltado me fez enxergar que aquilo tudo não fazia mais sentido pra mim, ver as pessoas discutindo, às vezes brigando, culpando uns aos outros (para satisfazer ao que mesmo?) era algo para o que não conseguia ver justificativa. E mais perguntas começaram a gritar dentro de mim e te convido a refletir sobre isso comigo: Qual o sentido do seu trabalho? Como ele modifica positivamente seu entorno e as pessoas que estão ao seu lado? Como ele te modifica? E indo além: o que você faria se não precisasse trabalhar por obrigação ou por dinheiro?</p>
<p>Me lembrei que havia pedido para o Universo (para Deus, ou providência, essa energia que ultrapassa meu entendimento) me levar para onde eu fosse desenvolver meu dharma e decidi seguir minha intuição. A intuição está dizendo o tempo todo qual é o caminho, mas muitas vezes não conseguimos escutar porque o barulho interno e os estímulos externos são muitos. É preciso silenciar para ouvir. Saí da agência sem ter trabalho certo, mas entendendo a minha decisão como escolha e não como fracasso. E essa decisão ganhou ainda mais força ao entender que meus filhos, especialmente o mais novo, um bebê de 1 ano, mereciam a presença de uma mãe feliz.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">As perguntas continuam; são inquietações que devem nos mover. Entretanto, uma delas, a meu ver, é a mais importante: estou feliz?</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Não estou dizendo que é fácil; ao contrário! É preciso coragem para mudar, mas é preciso compaixão para conosco para também lidar com o custo emocional que isso traz. Até porque, o primeiro impacto é financeiro e é óbvio que muitas coisas que gostamos envolvem dinheiro; precisamos do dinheiro para muitas coisas e aprender a lidar com ele também tem sido um exercício. Não é não querer, é não entendê-lo como motivador principal do meu trabalho. É conseguir exercitar o desapego sempre me questionando: do que eu realmente preciso?</p>
<p>Há quase dois meses voltei ao meu caminho com o coração cheio de gratidão. Dou aulas de yoga e estudo Ayurveda – sistema de cura tradicional indiano. Me dedico à prática de Ashtanga Yoga e busco auto conhecimento sem entender que isso me faz melhor que qualquer pessoa, mas entendendo que hoje sou um pouco melhor para mim. As perguntas continuam; acho que elas não devem cessar nunca, são inquietações que devem nos mover. Entretanto, uma delas, a meu ver, é a mais importante: estou feliz?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/mais-vale-cumprir-o-proprio-dharma/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Gordofóbicos passam!</title>
		<link>https://apulga.com/gordofobicos-passam/</link>
		<comments>https://apulga.com/gordofobicos-passam/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 25 Oct 2016 14:47:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Naiana Rodrigues]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Avulsa]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=1497</guid>
		<description><![CDATA[Machistas não passarão! Homofóbicos não passarão! Essas frases já devem ter ecoado alguma vez na sua timeline como palavras de ordem de algum movimento feminista ou de causa LGBT. Elas <a class="read-more" href="https://apulga.com/gordofobicos-passam/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/10/Avulsa-5-gordofobia3.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1513" alt="avulsa-5-gordofobia3" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/10/Avulsa-5-gordofobia3.jpg" width="700" height="579" /></a></p>
<p>Machistas não passarão! Homofóbicos não passarão! Essas frases já devem ter ecoado alguma vez na sua timeline como palavras de ordem de algum movimento feminista ou de causa LGBT. Elas emergem em um cenário em que as disputas simbólicas se aguçam e a violência se espraia e no qual a opressão se torna insuportável. Se por um lado cresce a intolerância de grupos religiosos e pessoas de orientação conservadora (para não dizer fascista) para com a desconstrução dos gêneros binários ou mesmo o empoderamento feminino; por outro, cresce também nossa intolerância com a opressão, a violência, mas não só a física, também aquela que se manifesta de forma hostil no cotidiano. Esse tipo de violência está na telenovela, na piada do stand up comedy, no rótulo do produto de beleza, no xingamento do motorista parado no trânsito, na academia, na discussão da relação, está em mim e em você. Todos somos vítimas e, às vezes, algozes quando reproduzimos práticas e discursos que não oprimem apenas o outro, mas a nós mesmos. Na esteira dessa esquizofrenia entre opressor e oprimido emerge um movimento que combate a gordofobia. Nunca ouviu falar ou leu sobre? Pois vamos lá!</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Todos somos vítimas e, às vezes, algozes quando reproduzimos práticas e discursos que não oprimem apenas o outro, mas a nós mesmos. Na esteira dessa esquizofrenia entre opressor e oprimido emerge um movimento que combate a gordofobia.</div></strong></h3>
<p>Agregado à pauta do feminismo, o movimento contra o preconceito, hostilização e constrangimento de pessoas pelo simples fato de serem gordas ainda não tem a expressividade que merecia. Essa timidez política e ausência de campanhas com #gordofóbicosnãopassarão talvez se deva à própria natureza da violência e do preconceito em questão, cuja agressividade, muitas vezes, se mascara na brincadeira e até mesmo no conselho da “miga” sobre a dieta do momento. Porém, isso não nos impede de ficarmos alertas ao menor sinal dos discursos gordofóbicos que se materializam em práticas as quais submetem o corpo a maus tratos desnecessários em prol de um ideal de beleza inexistente, ficcional, construído graças à destreza do editor de imagens que fez aquele curso massa de Photoshop e aos devaneios de consumo de uma indústria de massa. Assim como o machismo, a gordofobia está entranhada na cultura e, pior, legitimada por ela. As indústrias da moda e da beleza que o digam, responsáveis pela popularização de padrões de corpos cuja qualidade primeira é a magreza exacerbada. Daí a tristeza de dezenas de milhares de mulheres que entram no provador de uma fast fashion e saem com a autoestima nas profundezas do núcleo da terra porque experimentaram a loja inteira e nada caiu bem no seu corpo real, de trabalhadora, mãe, professora, estudante… Ah, mas existem as lojas plus size. Apesar de ser cliente de marcas assim, olho pra elas com “rabo de olho”, isso porque aquele mesmo mercado que exclui a mulher com corpo “fora do padrão” inclui a consumidora “com curvas protuberantes” criando um segmento considerado de nicho e cobrando, muitas vezes, preços absurdos. E não vou nem entrar no mérito das publicidades das marcas com modelos que passam longe do que é ser plus size. Enfim, pagamos um preço alto por não vestir 38.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Quando você afirma que não quer comer para não engordar, é como se você estivesse dizendo “não quero comer para não ficar doente” ou “não quero comer para não ficar feia”.</div></strong></h3>
<p>Vindo do mercado, nada me assusta ou estranha, porque ele é escroto mesmo e é honesto, quer lucrar. O que mais me incomoda são as relações de poder que se constroem na ostentação do corpo perfeito, nas restrições alimentares, nas relações pessoais. Não, eu não sou fofa, não sou cheinha, sou gorda, sou saudável e não preciso do seu conselho de emagrecimento. E você, amiga feminista, engajada e magra magoa a amiga gorda toda vez que senta ao lado dela no café e solta um “ah, não vou comer nada para não engordar”, “aqui só tem comida gorda” ou “nossa, você precisa emagrecer, é questão de saúde”. Para bom analista do discurso, uma única frase basta. Quando você afirma que não quer comer para não engordar, é como se você estivesse dizendo “não quero comer para não ficar doente” ou “não quero comer para não ficar feia”. E mais, por acaso, você já recomendou a uma pessoa magra engordar para ficar saudável? Loucura, nóia da minha parte? Seja honesta com você mesma e admita que já pensou isso ou fez isso. Quer afirmação mais gordofóbica do que “miga, você está linda, está magra! Fez dieta”? É o elogio que entra como uma verdadeira punhalada porque traz em si uma realidade não dita: “antes, te achava feia porque você estava gorda”. Fica a dica: basta dizer que a miga está mais bonita, sem fazer relação direta com o corpo dela, pois a beleza pode ser também um estado de espírito e não só a obediência a medidas de cintura, aos looks e cortes de cabelo da moda.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Assim como o machismo, a gordofobia está entranhada na cultura e, pior, legitimada por ela. As indústrias da moda e da beleza que o digam, responsáveis pela popularização de padrões de corpos cuja qualidade primeira é a magreza exacerbada.</div></strong></h3>
<p>Pare de fiscalizar o corpo alheio e respeite seu próprio corpo. Não estou fazendo apologia à gordura ou gordice (para os que gostam do hype), a saúde é o horizonte de todos nós, deixar o corpo saudável é prerrogativa para viver bem, mas o saudável também pode ser o gordo, o fora do padrão, o rechonchudo, o largo, o diferente. Ao contrário do que pregam a indústria farmacêutica e as blogueiras fitness, a magreza nem sempre é sinônimo de saúde em dia, sem falar dos processos pelos quais ela é alcançada que incluem mutilações cirúrgicas e “treinos” opressores. Como diria minha mãe: tudo demais é veneno! Mesmo aquela pessoa que está muito acima do peso “ideal” por razões patológicas merece respeito e não desprezo, pena ou repulsa. Se a ideia é ser desconstruída, então, admita seus preconceitos com o corpo alheio ou com o seu próprio. A democracia pela qual tanto se lamenta nos últimos tempos não está perdida apenas pela sujeira do jogo político institucional, ela se perdeu nas entrelinhas dos relacionamentos sociais, quando, por exemplo, enquadramos os corpos gordos, ou simplesmente os corpos diferentes, em uma posição de inferioridade. Ser democrático é tratar igual os diferentes, é respeitar os diferentes, sejam eles mulheres, gays ou pessoas gordas. No bojo dos novíssimos movimentos sociais de que fala Gloria Gohn, a luta contra a gordofobia é a minoria da minoria. E enquanto não aparecerem mobilizações virtuais ou presenciais mais intensas que deem conta desse preconceito, muitos gordofóbicos, sim, passarão.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/gordofobicos-passam/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Vida simples ou simplória</title>
		<link>https://apulga.com/vida-simples-ou-simploria/</link>
		<comments>https://apulga.com/vida-simples-ou-simploria/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 26 May 2016 16:19:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Tatiana Chaves]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Vida Simples]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=1395</guid>
		<description><![CDATA[Estava um dia desses assistindo a um vídeo em que Mário Sérgio Cortella (filósofo, escritor e educador) falava sobre a diferença entre uma vida simples e uma vida simplória. Obviamente <a class="read-more" href="https://apulga.com/vida-simples-ou-simploria/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/05/Vida-simples3.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1408" alt="Vida simples3" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/05/Vida-simples3.jpg" width="750" height="642" /></a></p>
<p>Estava um dia desses assistindo a um vídeo em que Mário Sérgio Cortella (filósofo, escritor e educador) falava sobre a diferença entre uma vida simples e uma vida simplória. Obviamente que o tema me chamou a atenção, especialmente pela escolha que fiz de ter uma vida mais simples desde que voltei da Irlanda onde morei por um ano e meio.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Com a vida simples que escolhi levar com minha família, o salário diminuiu, muitos dos que diziam ser meus amigos se afastaram, mas por outro lado, tenho mais tempo para ficar com meus filhos, fazer experimentos culinários, ler um livro, meditar e estar com quem também fez a escolha de ficar na minha vida.</div></strong></h3>
<p>A vida simples que escolhi levar com minha família começou quando decidi deixar minha profissão de publicitária para dar aula de yoga e inglês. O salário diminuiu, muitos dos que diziam ser meus amigos se afastaram, mas por outro lado, tenho mais tempo para ficar com meus filhos, fazer experimentos culinários, ler um livro, meditar e estar com quem também fez a escolha de ficar na minha vida.</p>
<p>Entretanto, mais do que a diferença conceitual em si, o que me chamou a atenção foi quando ele citou uma frase, um dito popular antigo, que diz: “o mundo que deixaremos para nossos filhos depende muito dos filhos que deixaremos para o mundo”. Quem me conhece sabe o quanto foi difícil tomar a decisão de ser mãe novamente depois de 17 anos. Muito da minha resistência passava justamente pela preocupação em ter uma criança e tentar dar a ela uma boa educação, que passa pela educação formal, sem dúvida, mas não para por aí e vai muito além, ou melhor, começa muito antes da criança sequer ter pisado na escola. E é neste ponto que o tema vida simples/vida simplória ecoa.</p>
<p>Como Cortella diz, uma vida simples é aquela em que temos o suficiente para nós e também para repartir, ou seja, uma vida simples não é uma vida de carência, mas também passa muito longe de uma vida de desperdícios . Uma vida simples é aquela em que eu possuo as coisas, e não aquela em que as coisas me possuem, o que significaria estar escravizado por elas. E quando se trata dos filhos, o que tenho visto é exatamente isto: um consumo sem medida de necessidades inventadas.</p>
<p>Depois que engravidei passei a ver, a ler e a ouvir muitas coisas sobre crianças e algumas delas me causam se não um estranhamento, certamente alguma preocupação. Coisas como chá de revelação, recepção com decoração e salgadinhos na maternidade e todas as regras de como se deve ou não se deve criar um filho me soam tão artificiais que me parece que têm tirado nossa naturalidade e leveza. Sem falar das festinhas de aniversário que agora começaram mais cedo com direito a bolo, docinhos e decoração diferenciada a cada mês até que a criança complete 1 ano. E aí, quando esta data chega, não há dinheiro que vença o nível de criatividade (e, diga-se de passagem, de desperdício) a que se pode chegar. Li um artigo que fazia uma crítica exatamente a esse exagero das festinhas infantis em que há até contratação de limusines para comemorar o aniversário de meninas de 7-8 anos!</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Depois que engravidei passei a ver muitas coisas que me causaram estranhamento. Coisas como chá de revelação, recepção com decoração e salgadinhos na maternidade e todas as regras de como se deve ou não criar um filho me soam tão artificiais que têm tirado nossa naturalidade e leveza.</div></strong></h3>
<p>E antes que pareça, eu não sou contra o dinheiro e as coisas que ele pode comprar, até porque, se não há suficiência, não se pode sequer optar por ter uma vida simples no sentido de que estamos tratando. Também não tenho nada contra as festinhas que mencionei acima, já que a vida sempre merece ser celebrada. O que questiono é a motivação para certas ostentações (realmente preciso disto ou preciso mostrar isto?) e, em casos mais extremos, me pergunto como impor limite às crianças quando os próprios pais não o tem para essas pequenas coisas.</p>
<p>No mais, nessa minha vontade de ter uma vida simples, mas não simplória, fico pensando nos valores que quero ensinar aos meus filhos de modo a encontrar um equilíbrio entre o que há para consumir e o que há para fruir, entre o vídeo game e o banho de chuva, entre um show pirotécnico e um lual com os amigos, entre ser ambicioso e sonhar, entre o ter e o ser.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/vida-simples-ou-simploria/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Da arte de ser filho único</title>
		<link>https://apulga.com/da-arte-de-ser-filho-unico/</link>
		<comments>https://apulga.com/da-arte-de-ser-filho-unico/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 18 Feb 2016 08:51:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Grilo Falante]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=1233</guid>
		<description><![CDATA[Ilustração: Mariane Marques &#160; Componho com outros dois amigos de adolescência uma espécie de tríade fraternal de filhos únicos, com toda a idiossincrasia que essa expressão possa conter. Somos uma <a class="read-more" href="https://apulga.com/da-arte-de-ser-filho-unico/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/02/Filho-único22.jpg"><img class="size-full wp-image-1994" alt="Ilustração: Mariane Marques" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/02/Filho-único22.jpg" width="432" height="755" /></a></p>
<dl class="wp-caption alignnone" id="attachment_1994" style="width: 442px;">
<dd class="wp-caption-dd">Ilustração: Mariane Marques</dd>
</dl>
<p>&nbsp;</p>
<p>Componho com outros dois amigos de adolescência uma espécie de tríade fraternal de filhos únicos, com toda a idiossincrasia que essa expressão possa conter. Somos uma médica, um militar e uma jornalista. Tão díspares como um peixe, um tigre e um pássaro. Seres de hábitats distintos, mas os três com absoluta consciência de seus papéis familiares. E há algo a mais nesse ethos singular que nos une: somos filhos que cedo se responsabilizaram por suas mães, arcaram com as despesas de casa e foram, ao seu modo, protagonistas de famílias pequenas. Aqueles que saíram pro mundo e proveram o lar. Dito isso, esclareço que falo desse tipo específico de filhos únicos, como numa espécie de um gênero mais vasto, para, a partir dessa “tipologia”, ilustrar algo quase intrínseco a esses seres: a ideia de que se é responsável por tudo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Dito isso, esclareço que falo desse tipo específico de filhos únicos, para, a partir dessa “tipologia”, ilustrar algo quase intrínseco a esses seres: a ideia de que se é responsável por tudo.</div></strong></h3>
<p>Todo mundo, mesmo que não seja um apreciador de samba, já batucou instintivamente a conhecida estrofe que diz: “Não posso ficar nem mais um minuto com você / Sinto muito amor, mas não pode ser / Moro em Jaçanã. Se eu perder esse trem que sai agora às 11 horas, só amanhã de manhã”. Eis aí uma representação popular clássica dos que atendem ao comando prioritário da responsabilidade, mesmo que sem a ginga malandra, como convém à musica. Na prática, pertencer a essa espécie é ter hora para chegar em casa, é avisar quando não vem e quando vai atrasar. É ser um pouco pai e mãe às avessas, um elo que nos liga à ancestralidade, e não aos nossos iguais. Não há com quem dividir as tarefas além daqueles que originalmente nos deram esse papel. Estamos do lado de cá, somos os únicos filhos, fazemos um monólogo e, nos diálogos que restam, quase sempre concluímos a fala como na sentença de Adoniran Barbosa: “Tenho minha casa para olhar, eu não posso ficar”.</p>
<p>Algumas histórias muito duras demonstram isso que quero dizer. Tenho uma amiga cujos pais se separaram cedo. Ela foi morar com a mãe na casa da avó que ficava em outro estado. As acomodações supostamente temporárias não permitiram uma mudança completa. Parte das coisas ficaram na Bahia, estado onde ela nasceu. Isso foi há uns 25 anos e, desde então, fotos de família, objetos de decoração e uma série de souvenirs, aparentemente sem importância, mas que nos ajudam a contar nossa história, ficaram encaixotados em algum lugar. Há mais de uma década essa espécie de espólio de miudezas foi colocada num depósito em alguma cidade da Região Metropolitana de Salvador. Ficou por isso. Há três anos ela teve seu primeiro filho e as indagações corriqueiras sobre com quem a criança se parece acabaram remetendo às fotos infantis dos pais. Ela tinha, então, apenas uma foto de si mesma quando bebê, que, por algum motivo, havia carregado consigo aos 13 anos quando saiu de Salvador. Eis alguém que devia, mesmo tão jovem, cuidar da própria memória. Nada lhe foi imposto, dito ou escrito. Este é o ponto. Era um cuidado que cabia a ela pelas contingências da vida.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É fácil seguir o movimento da inércia e nos responsabilizarmos por tudo a nossa volta, sem atentar ao preço extorsivo dessa onipresença.</div></strong></h3>
<p>Outro amigo é, além de filho único, praticamente o sobrinho único de uma leva de uns sete tios. Temporão, restou a ele enterrar os tios mais velhos que foram partindo e ajudar a organizar a rotina dos que ficaram. Eu mesma também sou a responsável pelo meu espólio afetivo e já preparei o funeral de tantas pessoas próximas, entre vivos e mortos, que me tornei uma espécie de PhD no trato das partidas. Mas está aí uma grande cilada. Porque é fácil seguir o movimento da inércia e nos acostumarmos a ocupar todos os espaços, organizar todos os ritos, nos responsabilizarmos por tudo a nossa volta, sem atentar ao preço extorsivo dessa onipresença.</p>
<p>Na outra ponta está o aprendizado de quem pode dividir. Uma vez uma grande amiga, cuja família me adotou, me falou de uma brincadeira de infância em que ela e os irmãos ensaiavam números de mágica. Ela posicionava-se cuidadosamente embaixo de uma mesa que era coberta por uma longa toalha. Em seu posto, tinha como tarefa passar por um buraco feito no tampo do móvel – que dava no fundo da cartola – tudo que o irmão mágico pedia. Certa vez, o pano caiu e ela foi pega em flagrante. Zangou-se e nunca mais serviu de ajudante para o número. Num exemplo cru, ser filho único é não ter essa chance, visto que toda a brincadeira corre por sua conta.</p>
<p>O escritor inglês Geoff Dier escreveu para a revista Serrote um ensaio autobiográfico sobre sua condição de filho único. Lá pelas tantas, ele dá alguns exemplos da faceta triste desta condição, quando lembra que brincava de Banco Imobiliário sozinho, que jogava Detetive sozinho e que conseguia até mesmo a façanha de jogar Subbuteo sozinho: “Algo quase impossível, já que você precisa manejar os atacantes e controlar o goleiro do time adversário ao mesmo tempo”. A questão é que, na vida real, é, digamos, difícil atuar nessas duas posições simultaneamente.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Dentro daquele esquema posto, tornamo-nos adultos mais cedo e há uma parcela de vantagens nisso: compramos casa e carro, construímos uma carreira&#8230; Em suma: não somos intimidados pelos compromissos.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Porém, aqui vale um parêntese: engana-se quem pensa ser esse um papel de lamúria. Como tudo na vida, há dor e delícia. E, em relação à última, as possibilidades são imensas. Aprendemos desde cedo a ter as rédeas da vida nas mãos. Ser responsável implica certo poder. Estar fora de um padrão, sobretudo na geração dos anos 70 e 80, quando a média por família era de três irmãos, era se livrar de algumas comparações obrigatórias e ganhar a chance de criar uma trajetória mais particular. Assim, se nos passam a conta das obrigações, também ganhamos voz ativa na mesa dos negócios.</p>
<p>Com o tempo, aprendemos a manejar o jogo e podemos escolher a cor das paredes do quarto, o colégio em que queremos estudar e se preferimos ganhar um kit de pequeno cientista ou outro brinquedo no Natal. Exemplos infantis à parte, a questão é que aquele de quem muito é cobrado, sendo o único fornecedor de expectativas, sem ter concorrentes diretos e com certa esperteza, aprende a fazer valer sua vontade. Dentro daquele esquema posto, tornamo-nos adultos mais cedo e há uma parcela de vantagens nisso: compramos casa e carro, pagamos as contas, construímos uma carreira&#8230; Em suma: não somos intimidados pelos compromissos.</p>
<p>A grande questão é que dessa onipresença, entre ganhos e perdas, surgem complicações. Lidar com as escolhas alheias é a principal delas. Acontece que, se um jarro quebra, o filho único não pode “culpar” o irmão mais novo, ninguém lhe abre o caminho e ninguém o precederá. O vazio ao lado lhe dá uma coroa e um chicote. Não ter ninguém para dividir é se empoderar do muito e, infelizmente, isso quase sempre é desumano. Quando rompemos essa barreira que nos imputa a falha, é comum cairmos na prisão escura de achar que nunca fizemos o suficiente. A ideia é que tudo depende nós, e não há maior engano do que esse. Eis a armadilha da qual nós, ensimesmados filhos únicos, devemos nos desvencilhar. Na vida, embora nosso senso de responsabilidade e certo narcisismo nos digam o contrário, a brincadeira não ocorre só por nossa conta. Há sempre outra pessoa envolvida, uma ou mais, e não há condições físicas e emocionais possíveis de fazer a mágica e empurrar o coelho em um único gesto.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É por isso que esse texto é antes de tudo uma reflexão sobre o outro, aquele à parte de nós, o qual devemos reconhecer e respeitar porque, fazendo isso, estamos, na verdade, respeitando nós mesmos</strong><strong>.</div></strong></h3>
<p>É por isso que esse texto é antes de tudo uma reflexão sobre o outro, aquele à parte de nós, o qual devemos reconhecer e respeitar porque, fazendo isso, estamos, na verdade, respeitando nós mesmos. A escolha do outro, em muitos casos, não é de nossa alçada. No fundo, o que nos cabe é, sim, como reagir. Essa é a nossa parte. Por isso acho que tal “domínio artístico” consiste em aprender a dividir, mesmo que num limite imaginário que vamos exercitando vida afora como quem aprende com a alteridade a ser mais humano.</p>
<p>É um desafio fazer o que nos cabe e deixar o outro seguir – ou pelo menos se reconciliar com essa ideia –, ainda que esse outro seja nosso pai, nossa mãe, um grande amor ou um amigo da vida inteira. Esse contorno semelhante ao de gêmeos siameses é o invólucro que nos constitui primariamente e que devemos romper. Há nessa totalidade um lado sombrio e um lado luminoso. Aprende-se com esmero que a vida depende da gente e, sim, somos capazes de feitos extraordinários. Tomamos em nossas mãos uma potência gigantesca e, tal qual um fugitivo que cava um túnel por trinta anos, realizamos com paciência o impensável. Mas isso não é vida, é estratégia de guerra. Pode servir para as questões estruturais, mas não para as relações. A vida comporta o outro. Ou melhor, a vida é desafiada pelo outro. E isso é incômodo porque há sempre algo que, para o bem e para o mal, repito, não depende de nós.</p>
<p>Há anos tive uma conversa com uma amiga de faculdade cujo relato me parecia misterioso à época. Ela me dizia que, quando interrompeu um período de análise, ainda adolescente, a terapeuta falou: – Eu vou te dizer algo, mas provavelmente você vai esquecer. E a frase reveladora era: – Você só dá conta de si. Aquela história me passou batida na época em que a escutei pela primeira vez. Eu mesma, que não era a interlocutora direta, havia esquecido. Lembrava-me da cena, mas não da assertiva. Contudo, mais de uma década depois, está guardado como num estalo em minha mente nosso diálogo sobre o assunto num pôr do sol na Ponte Metálica, em Fortaleza. Depois daquele hiato de tempo, em que havia trocado nossas especulações juvenis pela concretude da vida adulta, algo parecia mágico naquela constatação: – Sim, só damos conta de nós.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Sabendo nosso limite, podemos ser inteiros e seguir adiante como quem ora quer ser mágico e ora quer ser ajudante. Afinal, o que o outro nos dá é a liberdade de escolher ser quem somos.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Parte da nossa memória trazemos conosco, revelada ou não numa fotografia; outra parte está mesmo perdida por aí com quem cruzou nossa estrada. Podemos tentar girar o mundo para controlar as coisas, como naquela cena em que o Super-Homem, no filme clássico de 1978, coloca a Terra numa rotação inversa para salvar Lois Lane. Mas, fora do mundo da ficção e dos heróis, é fato que todo o esforço que queira mudar algo além de nós só terá efeito se conectado à vontade do outro.</p>
<p>E, ainda que com muito custo, é libertador não ser responsável por tudo. Isso nos empodera de maneira diversa da qual estamos acostumados porque dá aos nossos pares a possibilidade de agir e nos aliviar os ombros. Mesmo quando isso não acontece, ao fazer o que nos cabe e conseguir enxergar esse limite que costumamos avançar, nos livramos da prisão que é tentar ocupar dois espaços ao mesmo tempo. Ao abarcar o mundo, nos perdemos de nós. Parece uma daquelas charadas do Mestres do Magos, mas é bem isso. Reconhecer o outro e suas escolhas é tornar-se pleno em nossa unidade. Sabendo nosso limite, podemos ser inteiros e seguir adiante como quem ora quer ser mágico e ora quer ser ajudante. Afinal, o que o outro nos dá é a liberdade de escolher ser quem somos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/da-arte-de-ser-filho-unico/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Let’s talk about love &#8211; Parte 1</title>
		<link>https://apulga.com/lets-talk-about-love-parte-1-2/</link>
		<comments>https://apulga.com/lets-talk-about-love-parte-1-2/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 11 Mar 2015 09:32:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Naiana Rodrigues]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Avulsa]]></category>
		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://apulga.com/?p=871</guid>
		<description><![CDATA[&#160; Quem me conhece sabe que não sou uma romântica incorrigível. Sou sensível, reconheço, mas acho que uma das minhas maiores qualidades é ser realista, exceto quando estou “totally and <a class="read-more" href="https://apulga.com/lets-talk-about-love-parte-1-2/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_864" style="width: 658px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/03/Avulsa-361.jpg"><img class="size-full wp-image-864" alt="Mark Darcy e Bridget Jones" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/03/Avulsa-361.jpg" width="648" height="326" /></a><p class="wp-caption-text">Mark Darcy e Bridget Jones</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quem me conhece sabe que não sou uma romântica incorrigível. Sou sensível, reconheço, mas acho que uma das minhas maiores qualidades é ser realista, exceto quando estou “totally and completely in love” por alguém, porque não há razão que resista a uma enxurrada de desejo e emoção que brotam não sei de onde fazendo de você a mais ridícula e fofa das criaturas. Sim, tenho problemas com paixões, elas me assustam exatamente por isso, porque me tiram do Iluminismo e me jogam na Medina da primeira geração do Romantismo. Mas, continuando, não venho aqui hoje para narrar minhas “desventuras” românticas e sim para compartilhar uma observação que já faço há algum tempo: a mídia está matando o amor romântico. Calma, vou explicar.</p>
<p>A despeito de todas as comédias românticas que inundam o mercado audiovisual – que de tão ridículas não conseguem promover projeção nenhuma (pelo menos, em mim) – tenho percebido um movimento de “Vamos tocar a real” em algumas produções, sobretudo, televisivas. A real em questão é que o happy end não existe, não há felizes para sempre e “a pessoa”, aquela que vai te entender e completar, pode, na verdade, ser não uma, porém, mais de uma pessoa. É, minha gente, o mundo anda tão complicado&#8230; Ou diríamos mais interessante?</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"><strong>A TV alimenta um caldeirão de expectativas de pessoas românticas que, ao se depararem com a complexidade, mediocridade e até mesmo simplicidade das relações afetivas no plano realista acabam se deixando levar por um furacão de frustrações que as impede de ver a beleza singela dos diferentes encontros que a vida proporciona.</strong></div></strong></h3>
<p>Penso nessas conclusões exatamente quando lembro de dados reality shows (a praga da terceira fase da TV, como já enunciaria Eliseo Verón, apesar do adjetivo ser por minha conta). Essa ideia me veio à mente quando uma amiga me apresentou ao “Sister Wives”, um reality show exibido pelo canal TLC, desde 2010, sobre uma família poligâmica. E se confirmou depois da mesma amiga também me falar sobre o “Are you the one?”, um reality show exibido aqui no Brasil pela MTV, em que 10 homens e 10 mulheres (todos jovens e bonitos) são confinados em uma casa. O mote da questão é que existem cinco pares ideais na casa, reunidos pela produção do programa a partir de uma combinação de personalidades, e o jogo todo se desenrola em torno da busca pelo par ideal, motivada pela premiação de meio milhão de reais.</p>
<p>Genial! Porque o que se observa ao longo do programa é a formação de casais os mais díspares possíveis que, ao longo da disputa, descobrem que não formam um par ideal e aí se inicia o dilema: perseguir o dinheiro e o ideal ou me entregar ao que estou sentindo pelo parceiro “errado”? Enquanto isso, a audiência vai à loucura.</p>
<p>E qual o sentido da minha empolgação? De certa forma, mesmo forçando a barra para construir uma narrativa romântica a partir da edição das cenas, o programa, em sua parcela de realidade, mostra nada mais, nada menos, que não existe “o ser amado ideal”, mas apenas seres reais. Mesmo querendo retomar a lógica da narrativa melodramática, a rainha da cultura de massas, o programa acaba, a meu ver, desconstruindo certos ideais de romantismo que essa mesma cultura das mídias (parafraseando Lúcia Santaella) alicerçou ao longo de todo século XX em nosso imaginário. É nesse momento que alguém se insurge e diz que a realidade é dura e feia e o que se busca na ficção é mesmo a fantasia, a ilusão. Também concordo com essa afirmação, mas o que gosto de levar em consideração é que a televisão é responsável por uma de nossas mediações culturais, como já diria meu ídolo Jesús Martín-Barbero, e como tal, ela é responsável pela circulação de signos e ideias que encontrarão adesão no nosso cotidiano.</p>
<p>Em linhas gerais, a TV, por meio de suas ficções, alimenta um caldeirão de expectativas de românticos e românticas mundo afora que, ao se depararem com a complexidade, mediocridade e até mesmo simplicidade das relações afetivas no plano realista acabam se deixando levar por um furacão de frustrações e desânimo que os impede de ver a beleza singela dos diferentes encontros que a vida proporciona ou ainda de encarar as intempéries que qualquer relação a dois revela. E, muitas vezes, impedem também que se tenha mais uma história para contar, afinal, a probabilidade de ele ou ela não ser “the one” é muito maior do que o contrário. Por conta disso, muitos não se permitem simplesmente viver a realidade e ficam na eterna espera do amor de ficção que nunca chegará, porque ele só existe graças à magia da TV, do cinema ou da literatura.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"><strong>E, se como afirma Umberto Eco, tudo é uma grande ficção (no sentido de construção), então, vamos inventar nossos próprios romances, sem fórmulas ou paradigmas, apenas experimentando a melhor forma para construir nossas próprias narrativas de amor, sim, porque o amor não é um só, grande e inexorável, ele é multiforme.</strong></div></strong></h3>
<p>Até a adolescência, quando tudo é vivido pela primeira vez, é compreensível essa expectativa ilusória, mas na fase adulta, com um pouco mais de vivência afetiva, é possível perceber que não há fórmulas e moldes em um relacionamento, mas um processo árduo de construção. O problema é que a mídia continua a reproduzir esse signo romântico e, muitos de nós, em vez de apenas se deleitar com o prazer que a ficção proporciona, tentam forjar uma relação baseados em enredos fantásticos e cenas grandiosas. É aí onde mora o perigo.</p>
<p>Claro que eu queria um Mark Darcy na minha vida, mas como não há um advogado de direitos humanos bem sucedido esbarrando em mim no supermercado, ficarei feliz se um João, José, Antônio ou Francisco olhar e sorrir para mim no cruzamento da esquina, me oferecer um drink na balada, conversar comigo na jornada dentro do ônibus ou puxar um “oi” no aplicativo de paquera. O nome disso é vida real, algo que a ficção, às vezes, representa, mas, muitas vezes, também distorce. Contudo, românticos, não desistam, a realidade também é mágica, ela só tem outros tons diferentes daqueles mostrados na TV.</p>
<p>A magia dos encontros no mundo real pode estar no cheiro do perfume, na música em comum, nas frases que se completam, na risada sincera, no orgasmo que te deixa sem fôlego&#8230; Pera aí, Naiana, tu está exatamente descrevendo cenas de tantos e tantos filmes. Por isso mesmo, se a arte imita a vida, então, é porque tudo isso é plausível de se viver, mas para que consigamos encontrar “essa magia” (nos dizeres de muitos, e apenas, afinidade, no meu próprio vocabulário) é preciso deixar de tantas falsas expectativas e julgamentos, muitos que impedem até de se experimentar cada um desses momentos. E, se como afirma Umberto Eco, tudo é uma grande ficção (no sentido de construção), então, vamos inventar nossos próprios romances, sem fórmulas ou paradigmas, apenas experimentando a melhor forma para construir nossas próprias narrativas de amor, sim, porque o amor não é um só, grande e inexorável, ele é multiforme etc &#8230; Acho que essa não será nossa única conversa sobre amor. <img src="https://apulga.com/wp-includes/images/smilies/icon_wink.gif" alt=";)" class="wp-smiley" /> </p>
<p></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://apulga.com/lets-talk-about-love-parte-1-2/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>
