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	<title>A Pulga &#187; Crônica</title>
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	<description>Um coletivo diletante de ideias</description>
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		<title>Das Ding</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Aug 2023 03:54:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; O local preciso era 14 paradas após a estação de metrô mais longínqua na qual eu já havia posto os pés. Por outro caminho, pegávamos a condução em frente <a class="read-more" href="https://apulga.com/das-ding/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2023/08/Das-Ding2.jpeg"><img class="alignnone size-full wp-image-2025" alt="Das Ding2" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2023/08/Das-Ding2.jpeg" width="768" height="1024" /></a></p>
<p>O local preciso era 14 paradas após a estação de metrô mais longínqua na qual eu já havia posto os pés. Por outro caminho, pegávamos a condução em frente a universidade, descíamos 2 paradas depois para então pegar outro ônibus, percorrer mais 11 paradas e finalmente chegar àquele ponto onde ainda restavam mais 14 até o destino final. Repito: era o lugar mais distante em que havia estado e aquilo me atingiu de diversas maneiras. Era o outro ateando fogo ao conhecido que havia em mim.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> O que a gente faz para se despedir quando não parece ser possível se despedir completamente? A gente viaja. Vai rumo a deixar algo, mas cuja jornada acaba impregnando o mensageiro daquilo que ele iria entregar. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Se esse texto fosse um mapa colocaria uma marcação naquela coordenada que foi das grandes fronteiras do meu enfrentamento. Há um desenho animado antigo chamado Cavalo de Fogo (Wildfire, 1986), nele uma menina cruza um portal dimensional para um mundo ao qual ela pertence e que, ao mesmo tempo, lhe é estranho. Uma relação fantasiosa entre um rancho em Montana, no oeste norte-americano, e o planeta Dar-Shan. Uma parte do que ela é está em cada lugar. Referência que pego emprestada como uma espécie de caricatura do idílio, da travessia abrupta, daquilo que de maneira infantil nos toma. Acho mesmo que a gente passa boa parte da vida procurando em uma paisagem e em algo externo a representação do que somos em uma fração muito íntima da nossa psiquê. Ocorre que, algumas vezes, é uma pessoa quem nos apresenta essa paisagem externa que nos endereça a esse destino interno. Como se alguém nos convidasse a esse caminho.</p>
<p>É um oximoro. Um paradoxo. O que está fora e ao mesmo tempo mora dentro. “Rua Leonor/Rua Semente”, eu escutava no segundo andar do ônibus enquanto percorria aquelas 14 paradas que eram o trajeto que tanto me acolhia como me provocava. E esse dilema me tomou de assalto porque simplesmente aquela paisagem era um imã de polos opostos. Quanto mais eu queria largá-la, mas ela fincava uma raiz dentro de mim. Em síntese, é percurso que enseja uma pergunta: O que a gente faz para se despedir quando não parece ser possível se despedir completamente? A resposta é: a gente viaja. E viaja como quem tenta, parte em uma missão. Vai rumo a deixar algo, mas cuja jornada acaba impregnando o mensageiro daquilo que ele iria entregar.</p>
<p>“Tão Forte e Tão Perto” (Extremely Loud &amp; Incredibly Close, 2011), adaptado do romance Extremamente Alto &amp; Incrivelmente Perto de Jonathan Safran Foe é uma espécie de petardo da Sessão da Tarde sobre esse tipo de Odisseia íntima. No filme um menino escuta do pai uma história sobre o 6º Distrito, uma parte perdida de Nova Iorque cuja ideia serve de bússola para a procura de um lugar imaginário. É uma relação preenchida de histórias, com uma linguagem própria. Diante das dificuldades do filho em se relacionar, o pai criava um jogo para fazê-lo mover-se e ir, ao seu jeito, enfrentando seus medos. É o preâmbulo do enredo que, de fato, começa com a morte do joalheiro Thomas Schell e segue pela expedição que o pequeno Oskar empreende na tentativa de achar o dono para uma chave encontrada nas coisas de seu pai.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Eis o paradoxo do filme e daquilo que nos afeta. É sentir falta de algo quando o objetivo era justo não sentir.  Trata-se de um estranho percurso em que a gente se transmuta na tentativa de abandonar o que nos constituí. É sobre um movimento. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>A busca pelo destinatário desconhecido é um exercício que faz Oskar revisitar a cidade além dos muros, como Thomas sempre quis. O menino saí cruzando muitas fronteiras que vão se refletindo umas nas outras, como se olhássemos os espelhos em forma de triângulo no fundo de um caleidoscópio. Percorre os bairros além de Manhattan, atravessando a memória de quem ele próprio era ao lado do pai. São partes de si que vão se transformando pela jornada sem, no entanto, mudarem completamente. Dentro e fora. O oximoro. O caminho para viver seu próprio luto.</p>
<p>Podia ser a jornada bíblica de Tobias para encontrar a cura de Tobit ou alguma missão de Zeus dada a um herói grego. O recurso é antiquíssimo. O 6º Distrito, a chave ou o que mais puder tomar a imagem de algo a ser encontrado e devolvido ao seu lugar. Na verdade, essa “coisa” (das ding, diria Freud) é o sentimento fora de um espaço que lhe caiba. É preciso gastar certa energia na tentativa de, finalmente, devolver-lhe um sentido, restaurá-la. A coisa, tal como o choro que acalma. Na sua expedição de reconhecimento, ao cruzar diversas fronteiras, Oskar Schell diz: “Eu estava me aproximando do meu pai. Eu estava perdendo-o”. Touché!</p>
<p>Eis o paradoxo do filme e daquilo que nos afeta. É sentir falta de algo quando o objetivo era justo não sentir. Recordo o quanto já gastei de palavras no exercício de racionalizar. Não se trata de um não-lugar, do espaço da barganha. Tampouco é o passado visto da perspectiva de quem hoje compreende e aceita que não há mais afeto. Não sendo sobre o lugar e nem sobre o tempo, trata-se de um estranho percurso em que a gente se transmuta na tentativa de abandonar parte do que nos constituí. É sobre um movimento. Mas, suspeito que essa seja uma jornada impossível, visto que há algo em nós que não pode ser descolado, apenas deixa de estar fora para encontrar um pouso dentro. Contudo, após o trajeto, muda-se algo de substancial, como o estado físico de uma matéria. O gelo, o vapor e a água. Outro peso, forma, temperatura e pressão – ainda que com a mesma essência.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> E qualquer elaboração da perda passa por esse sequestro de um traço que era do outro e que você incorpora no eu. Mas aí há essa dialética. Era do outro, mas já era eu. Já era. Porque se a gente é ser com. Você só se apropriou de algo que já era teu e que você tinha se apoiado nesse outro por conta desse traço. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Isto porque as despedidas todas revelam algo que há em nós. E se esse texto é sobre o que se deixa, o percurso para decantar sentimentos, é preciso antes compreender como eles se formam. O porquê de ser impossível deixar algumas coisas por completo. Talvez das melhores explicações para essa impossibilidade, em sua plenitude, eu tenha escutado pelas palavras da psicanalista Maria Homem. Ao falar sobre o assunto, ela volta ao que une para, então, arrematar a partida: “Já percebeu que você termina uma relação e muitas vezes começa a fazer uma coisa que o outro fazia? Ou começa a fazer algo que você achava que nem gostava, mas que o outro queria que você fizesse? Você começa a fazer ginástica, começa a nadar, vai aprender uma língua, muda um estilo”.</p>
<p>Ao lado das perguntas, Maria Homem enceta uma resposta que me pareceu fechar um ciclo de inquietudes: “E depois de muito tempo você começa a se dar conta de que você carrega um traço que era do outro. É muito comum. Você aprende uma forma de falar, pega uma expressão que era do outro, vai cumprir um desejo inacabado do outro. Ele deixou uma música, era seu parceiro e você vai terminar de compor aquela música, vai escrever um livro de memória, vai pintar um quadro&#8230; Você vai elaborar aquela perda”. Nesse apanhado de frases, em uma costura que é própria da sua fala, a psicanalista revela essa espécie de sintoma que é a nossa busca por percorrer um caminho que tanto nos preenche como no tira algo.</p>
<p>É nesse exato momento que Maria Homem mata a charada ao enunciar: “E qualquer elaboração da perda passa por esse sequestro de um traço que era do outro e que você incorpora no eu. Mas aí há essa dialética. Era do outro, mas já era eu. Já era. Porque se a gente é “ser com”, você só se apropriou de algo que já era teu e que você tinha se apoiado nesse outro por conta desse traço. Você já tinha se apaixonado, por exemplo, por esse homem porque ele já era do universo da arte, que era teu, que você desejava e que você nunca se autorizou. E quando você perde isso, então você assume esse lado, desenvolve esse lado, mesmo tendo perdido o objeto. Então, na verdade, o que é a morte, o luto e a perda? São as várias faces das metamorfoses do eu. Grandes metamorfoses o tempo inteiro, a gente vai comendo, deglutindo e sendo outra coisa.”</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> É uma tentativa de aparta-se de algo visceral, de algum sentido que nos constitui. A figura do pai, um grande amor, a ideia de uma terra encantada&#8230;  É justo o exercício de desprender-se que acaba por nos revelar algo.  </strong><strong></div></strong></h3>
<p>É o “estar com”, o mit sein, como diz o filósofo alemão Peter Sloterdijk, que a psicanalista revela. Por isso, nunca conseguimos nos despedir de algo que em parte está em nós. Mais uma vez estamos diante de um oxímoro. Contudo, mais do que um exercício narcísico, há muito de poesia nesse movimento de nos reconhecermos em algo ou em alguém para depois nos vermos sendo esvaziados desse sentido original, justamente quanto o mais procuramos preenchê-lo. É porque talvez (apenas talvez) o luto se realize ao vermos que está dentro o que procurávamos fora. Conheço uma história de quem detestava cafés e fez um blog sobre o tema para servir de diário à sua jornada. Noutro caso, um fanzine foi artefato da despedida. Definido lindamente como “um retrato 3&#215;4 da alma”, a brochura caseira era o artifício do que precisava ser entendido. Movimentos para gastar o que só pode ser enterrado anos depois. Ao fim, é o menino Oskar Schell descobrindo que conseguia explorar a geografia de uma cidade e os seus próprios limites sem o pai.</p>
<p>É uma tentativa de aparta-se de algo visceral, de algum sentido que nos constitui. A figura do pai, um grande amor, a ideia de uma terra encantada&#8230; Mas como isso está cravado no que se é, tal tentativa tem lá sua faceta quixotesca. Novamente, a viagem para deixar e ao mesmo tempo encontrar algo. É justo o exercício de desprender-se que acaba por nos revelar algo. E quantos anos não se demora nessa estrada? Lembro de um dia, no entardecer defronte a uma janela naquele ponto mais longínquo, pensar que meus passos eram muito válidos, que eu só precisava de mais tempo para estar ali. Talvez fosse o início da Aurora, como escreve Paulo Mendes Campos.</p>
<p>É curioso que ao finalizar este texto sobre “despedidas”, em meio a uma conversa fortuita, eu receba um fragmento escrito assim “Fiquei triste um certo dia quando soube que até as estrelas morrem. Mas, desta vez, não foi a poesia que me consolou&#8230;” Um paragrafo vindo assim, por mensagem, num diálogo na madrugada.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Esse reconhecimento de quem se é, da própria história e do desejo que já existia antes de você encontrar o outro é justo o que lhe é “devolvido” ao fim da jornada de despedida. Gorgeous and alone. Face to face, como num solo do Nels Cline.  </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Sempre tive medo de me despedir, gastei tanto o tempo das coisas que algumas vezes me veio outro temor: o de que as palavras perdessem a força. Hoje entendo que é isso mesmo. Deixar ir leva tempo. É uma morte morrida e não matada. Enfraquece a memória porque algo novo é que vai ganhando vida. A viagem é, enfim, o ato de consumir. Só depois é possível compreender o novo. Por isso, também precisei exaurir alguns sentimentos. E também por isso, repito, este texto é sobre o movimento entre o espanto de ver-se apartado do futuro e o sentimento de quando já nos transformamos e não há mais lamento.</p>
<p>Na viagem que me dispus a fazer reconheci esquinas, percorri o caminho inteiro olhando todos os detalhes, me atentei aos letreiros, escutei os sons, pus os pés na grama, respirei tentando capturar o cheiro de éter e páprica, travei um diálogo insólito com uma senhora que desenhava sozinha pelas ruas. Exauri o que pude para então reconhecer que apenas precisei de um pouco mais de tempo para chegar até ali. Esse reconhecimento de quem se é, da própria história e do desejo que já existia antes de você encontrar o outro é justo o que lhe é “devolvido” ao fim da jornada de despedida. É uma parte sua que se revela inconteste e por isso mesmo não pode ser abandonada completamente. “Gorgeous and alone. Face to face”, como num solo do Nels Cline.</p>
<p>Seja como for, acho que vou dizendo um adeus fraco, agora ou depois. Quando estiver comendo um falafel do Zaim, ainda me lembrarei do que foi. Caminho feito, o passado não é mais. Muda devagar e sempre, o tempo todo, tal qual nós mesmos.</p>
<p>Uma charada in looping. “Finitude e eternidade não precisam ser antágonos”, sentencia minha interlocutora da madrugada. Ela que também escreveu sobre potes de vidros, armários antigos, espiãs russas, bicicletas azuis e uma série de fragmentos rotineiros de uma vida que já é outra. O oximoro. Na memória o aviso: &#8220;Rua Leonor/Rua semente&#8221;, o som que hoje escuto de outra forma dentro de mim.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Groucho Marx e o amor de si</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Jan 2022 23:28:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;Amor é dado de graça. É semeado no vento. Na cachoeira, no eclipse&#8230;&#8221;. Assim Carlos Drummond de Andrade alinhava um dos poemas mais bonitos da literatura brasileira. Se não fosse <a class="read-more" href="https://apulga.com/groucho-marx-e-o-amor-de-si/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2022/01/Groucho3.png"><img class="alignnone size-full wp-image-2018" alt="Groucho3" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2022/01/Groucho3.png" width="400" height="300" /></a></p>
<p>&#8220;Amor é dado de graça. É semeado no vento. Na cachoeira, no eclipse&#8230;&#8221;. Assim Carlos Drummond de Andrade alinhava um dos poemas mais bonitos da literatura brasileira. Se não fosse belo pelas palavras, seria pela maneira delicada de dizer uma verdade muito dura: o amor é escolha. Por mais que nos esforcemos para merecê-lo, não há peripécia, adorno ou mesmo imolação que consiga nos dar aquilo que também é atributo do outro; o gesto de nos escolher por aquilo que somos.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É isto: amamos pelo que o outro diz de nós, por aquilo que nele nos cala e, nesse sentido, não há esforço que molde esse intangível encontro. Digo que a dedicação só se sustenta porque algo nesse sentimento de encaixe se atualiza. “A gente se escolhe”. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>É isto: amamos pelo que o outro diz de nós, por aquilo que nele nos cala e, nesse sentido, não há esforço que molde esse intangível encontro. É claro, a maturidade nos mostra que só se sobrevive àquilo que se constrói a partir desse encontro. Mas meu ponto aqui não é o da pertinência, do tempo e daquilo que vai se urdindo a partir desse encontro. É precisamente o contrário. Digo que a dedicação só se sustenta porque algo nesse sentimento de encaixe se atualiza. “A gente se escolhe” é uma frase que minha comadre me repete há anos com uma precisão cirúrgica a selar esse dilema.</p>
<p>E o que nos faz continuar escolhendo algo ou alguém? Como se diz na homilia católica, “eis o mistério da fé”. Ou desejo é falta, diria Freud. Podemos procurar explicações mil, mas a questão aqui é precisar o quanto dessa escolha é da conta do outro, e não nossa. Repito: não há esforço que molde esse intangível encontro.</p>
<p>Se isso serve para entendermos nossas paixões (e nos libertarmos, caso alguém não nos escolha mais), ver essa constatação pelo espelho é algo que nos impõe um olhar agudo sobre nós mesmos. Woody Allen, no enredo que certamente é o precursor de nove entre dez comédias românticas citadas aqui como exemplo, coloca essa questão em Annie Hall (1977): “Não quero entrar pra nenhum clube que aceite alguém como eu como sócio”. A frase de Groucho Marx dita por Allen atualiza o humor judaico para expor a ironia de que, quando alguém nos aceita como somos, talvez algo de errado haja aí, algo que nos faça perder o interesse porque justamente a falta é (supostamente) preenchida.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">“Não quero entrar pra nenhum clube que aceite alguém como eu como sócio”. A frase de Groucho Marx dita por Allen atualiza o humor judaico para expor a ironia de que, quando alguém nos aceita como somos, talvez algo de errado haja aí, algo que nos faça perder o interesse porque justamente a falta é preenchida.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Essa referência me fez lembrar de um causo corriqueiro, mas bem ilustrativo. Loli, minha professora de alemão, ao me ajudar a procurar uma editora para minha tese e ao esbarrar com uma em relação à qual não viu defeitos aparentes, saiu-me com esta: “Grazinha, vamos procurar mais, porque está tudo muito bem, então, deve ter algo errado”. Essa história até hoje me traz boas risadas por múltiplos motivos, mas aqui vou pegar o fio da “inadequação” para descer um ponto a mais na ferida do ego. Saio do encontro com o outro (a editora, o amor, o filme etc.) e vou para o encontro com o eu.</p>
<p>É esse o tema que tem me pegado em rodeios como no nariz de cera que escrevi até aqui. Em específico, a falta que sentimos que nos faz tanto desejar como repelir algo – não no outro, mas algo em nós mesmos. Com o que é possível nos reconciliarmos a partir do que já vivemos e o que não pode prescindir de ainda ser vivido? Não sei se existe resposta fácil para essas questões. Suspeito que elas vão variar de acordo com o tempo histórico e com o nosso próprio tempo de vida, mas há algo nesse dilema que me intriga e foge um bocado às experiências para centrar-se em algo mais essencial.</p>
<p>Talvez possa dizer de forma mais precisa: e quando sentimos falta de nós e por isso “precisamos” nos escolher? E se cantássemos para nós mesmos o trecho “Olha, você tem todas as coisas/ Que um dia eu sonhei pra mim/ A cabeça cheia de problemas/ Não me importa, eu gosto mesmo assim&#8221;? É piegas e bobo, eu sei, um chavão. Ocorre que essa banalidade nos faz descer mais um degrau no argumento, indo a uma espécie de necessidade de aceitação dos nos próprios defeitos para seguir adiante em nossa escolha e aceitação do que somos. Um amor de si gabola que nos corrigi o rumo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Com o que é possível nos reconciliarmos a partir do que já vivemos e o que não pode prescindir de ainda ser vivido? Não sei se existe resposta fácil para essas questões. Suspeito que elas vão variar de acordo com o tempo histórico e com o nosso próprio tempo de vida, mas há algo nesse dilema que me intriga e foge um bocado às experiências para centrar-se em algo mais essencial.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>É como visualizar Groucho Marx sendo enquadrado por sua mãe judia em um discurso de quem tanto fez para lhe dar a luz e hoje não recebe nada em troca. O velho Groucho, diante de drama maior, haveria de pôr a ironia de lado e lustrar o próprio ego para fornecer uma significativa cota de orgulho e atenção à sua progenitora. É como ver meu afilhado, na galhardia dos seus 5 anos, exibindo-se com embaixadinhas para um grupo de crianças mais velhas. Destemido, olhava para a turma e dizia, entre pequenos chutes: “Olha o que eu seu fazer”. Deu certo, enturmou-se. Mas, no fundo, ele fazia mesmo era o malabarismo para si, em um misto de personalidade bem-resolvida, destemor infantil e, sobretudo, aceitação irreverente das suas habilidades meio falhas e meio atrevidas. “Uma pirueta, duas piruetas/ Bravo, bravo/ Super piruetas, ultrapiruetas/ Bravo, bravo/ Salta sobre a arquibancada e tomba de nariz/ Que a moçada vai pedir bis/ Que a moçada vai pedir bis”.</p>
<p>Muito antes de saber da existência de Groucho Marx, Didi Mocó fez esses malabares durante toda a minha infância e, confesso, sempre preferi os filmes e esquetes em que ele se dava bem no final àqueles em que saía triste tal qual o Carlito, alijado por algum galã. Vejo muito mais graça no Didi fantasiado de Maria Bethânia com o coração transbordando de pretendentes ao errante e preocupado Bonga de “Os Vagabundos Trapalhões” (1982). É como se Pedro Malasartes fosse a antítese de Groucho Marx. Sem ter muito em que se sustentar, para o astuto Pedro não havia espaço para ironias autodepreciativas, mesmo que cheias de charme.</p>
<p>Aliás, passei a infância escutando minha avó me falar das aventuras do Malasartes, uma espécie de MacGyver do sertão, a léguas de distância de qualquer Cinderela encantada. Eram histórias de um pobre coitado que, com um saco, três pedras, um graveto e muita esperteza conseguia quebrar o encanto da princesa, vencer o desafio do rei e ganhar seu quinhão no reino. Ah, os descendentes de Lazarillo de Tormes! Não à toa meu coração disparou ao ver João Grilo, do genial Ariano Suassuna, com seus causos sobre a cachorra que havia deixado um testamento, o gato que &#8220;descomia&#8221; dinheiro e a gaita mágica que ressuscitava gente. O Grilo enganou o padre e o bispo, o padeiro e sua mulher, o cangaceiro chefe do bando e, não contente com a façanha, diante do diabo, não usou de autocomiseração boba. Como ele mesmo anunciou, de besta só tinha a cara, e se saiu com um trunfo maior do que qualquer santo, apelando à Nossa Senhora, a Compadecida.</p>
<p>Um detalhe que vale menção é que Grilo faz seu chamamento sem solenidades e com um verso para lá de maroto: “Já fui barco, fui navio/ Mas hoje sou escaler/ Já fui menino, fui homem/ Só me falta ser mulher/ Valha-me Nossa Senhora/ Mãe de Deus de Nazaré”. É como ele mesmo diz: a mãe da Justiça, a lhe acudir, sabendo exatamente a peça que o Grilo é. Mas, antes, foi ele próprio quem não desistiu de si mesmo diante de todas as suas imperfeições e, muito provavelmente, até por elas. Queria estar no clube, era tudo o que ele tinha. Em uma análise psicanalítica de botequim, o Grilo havia escolhido a si próprio. Podia ensinar a Drummond o avesso do seu poema: &#8220;Amor é dado de graça. É semeado no vento. Na cachoeira, no eclipse&#8230;&#8221; o Grilo amou-se, sabe Deus (ou Nossa Senhora) o porquê. Mas é fato que, de alguma forma, supriu a própria falta reconciliado que estava consigo, com o que havia de bom e ruim.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Mas, antes, foi ele próprio quem não desistiu de si mesmo diante de todas as suas imperfeições e, muito provavelmente, até por elas. Queria estar no clube, era tudo o que ele tinha. Em uma análise psicanalítica de botequim, o Grilo havia escolhido a si próprio. Podia ensinar a Drummond o avesso do seu poema: &#8220;Amor é dado de graça. É semeado no vento. Na cachoeira, no eclipse&#8230;&#8221; o Grilo amou-se. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Eu volto a pensar nisso, como se houvesse solução para esse mistério contínuo do movimento de quando somos gentis conosco e quando nos torturamos. Penso que talvez uma arenga bem dosada nos sirva de medida, já que ela nos provoca, mas também nos acaricia com um humor necessário à vida. A chave me parece ser mesmo querer fazer parte do clube. Mesmo que ele não exista de fato, há algo que se sobressai naqueles que, enfim, fazem essa escolha. Acho que é um pulo não apenas por escapar, mas sobretudo por viver. “A esperteza é a arma do pobre”, diz a Compadecida diante dos pecados do Grilo.</p>
<p>Há alguns anos tive o privilégio de entrevistar Ariano Suassuna e lhe perguntei justamente sobre o encantamento e essa salvação pela astúcia. Ele me respondeu: “Sou uma pessoa que, com 80 anos de idade, ainda continuo animoso”. Por isso, sua literatura tinha esses personagens que enfrentam o real com uma espécie de galope mágico. Suassuna perdeu o pai assassinado ainda criança e viu sua mãe esconder o paradeiro do assassino para evitar que um rastilho de vingança destruísse a vida dos filhos. Foi compreender isso adulto. Dizia-se um homem assombrado até que sua esposa Zélia lhe aliviou o coração. Quando a conheceu, gaiato como ele só, Ariano disse a sua irmã Germana: “Hoje, na Rua Nova, uma galeguinha maravilhosa, linda, olhou pra mim com cara de alma que tá pedindo reza”. Ariano teve uma sorte imensa por Zélia ter lhe escolhido, dessa sorte dita por Drummond, que é do outro para conosco. Mas, acho que em algum momento ele mesmo escolheu a si mesmo como um ser animoso que era.</p>
<p>Nem sempre é possível seguir em frente pondo os pés sobre um alicerce imperfeito. Há pendências que precisam ser resolvidas para que não retornem sempre numa sabotagem cada vez maior, é fato. Mas também há uma hora em que a gente deve se escolher como escolhe o outro que enuncia nossas faltas e nosso desejo. Talvez por isso mesmo demos esse passo quando entendemos o que de nós pode ser aceito mesmo que nos doa. “Quatro cambalhotas, cinco cambalhotas/ Bravo, bravo/ Arquicambalhotas, hipercambalhotas/ Bravo, bravo/ Rompe a lona, beija as nuvens, tomba de nariz/ Que os jovens vão pedir bis/ Que os jovens vão pedir bis”. Salve o Grilo Saltimbanco Malasartes!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>A senhora do Tegel</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Jan 2019 23:22:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há muitos anos, eu estava sentada no chão do Tegel quando vi uma cena corriqueira que até hoje trago como referência. Depois de cruzar Berlin de ônibus com duas malas <a class="read-more" href="https://apulga.com/a-senhora-do-tegel/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/01/Screen-Shot-2019-01-08-at-20.27.49.png"><img class="alignnone size-full wp-image-1872" alt="Screen Shot 2019-01-08 at 20.27.49" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2019/01/Screen-Shot-2019-01-08-at-20.27.49.png" width="533" height="527" /></a></p>
<p>Há muitos anos, eu estava sentada no chão do Tegel quando vi uma cena corriqueira que até hoje trago como referência. Depois de cruzar Berlin de ônibus com duas malas e ser parte da uma despedida doída, eu era uma pessoa tão cansada quanto meio largada ao lado da minha mochila. Estava sentada no chão da sala de embarque esperando a chamada do voo. Lembro-me de tomar um café e pedir um salgado qualquer, talvez um croissant. Curioso é que eu me via assim, um tanto “juvenil”, já que, naquele instante, a vida era de qualquer jeito, um tanto quanto deslocada. Era como se uma parte de mim não se encaixasse, a parte toda a felicidade por aquela jornada.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Contudo, mesmo ainda longe de me aproximar daquela cena, acho que o que muda na minha percepção de agora é a certeza mais calma de si. A senhora do Tegel, como a chamo, é a metáfora perfeita desse tipo de &#8220;ciência&#8221;.  Ela é minha meta, mesmo no desalinho da correria.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Fato é que, enquanto eu esperava, ali no chão, com minha mochila, meu tênis e minha comida com gosto de qualquer coisa, uma senhora de uns 80 anos se materializou na minha frente. Mentira. Lembro-me de vê-la caminhar com um sobretudo de lã caramelo com uma leve estampa xadrez. O cabelo completamente branco cortado no ombro e uma boina de lado. Era linda. Parecia uma menina saída de algum college dos anos 50. Mas tinha lá seus 80 anos ou mais e uma serena certeza de si, the charming como diz o Morrissey na clássica canção. Não bastasse isso, ela sentou no balcão do café onde eu havia pedido meu insosso croissant e puxou da bolsa uma maçã para servir de lanche. Nunca vou esquecer essa cena. É das coisas que mais me dizem sobre como levar a vida. Quando tiver 80, quero ser desse jeitinho.</p>
<p>Hoje já aprendi (work in progress) a domar as mil bagagens, trago uvas e castanhas na bolsa, mas o chapéu segue guardado na mala para me economizar no manejo dos apetrechos diante da correria nos portões de embarque. Contudo, mesmo ainda longe de me aproximar daquela cena, acho que o que muda na minha percepção de agora é a certeza mais calma de si. A senhora do Tegel, como a chamo, é a metáfora perfeita desse tipo de “ciência”. Ela é minha meta, mesmo no desalinho da correria. Assim, é com essa visão que hoje volto de outra forma. Com o coração cheio nos dois sentidos, dos caminhos e pessoas que deixo e reencontro. E isso, graças a Deus, está longe de ser de qualquer jeito, de estar fora do lugar.</p>
<p>Texto publicado originalmente em outubro de 2017.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>A epifania do algodão doce</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Jun 2018 16:47:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ontem eu vivi uma cena tão bonita e forte que me lembrou outra vivida há anos, quando eu ainda fazia faculdade e peguei uma rota de ônibus chamada Demócrito Rocha, <a class="read-more" href="https://apulga.com/algodao-doce/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/algodão-doce.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1877" alt="algodão doce" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/algodão-doce.jpg" width="720" height="960" /></a></p>
<p>Ontem eu vivi uma cena tão bonita e forte que me lembrou outra vivida há anos, quando eu ainda fazia faculdade e peguei uma rota de ônibus chamada Demócrito Rocha, que nem sei se existe mais. Ela passava por dentro do meu bairro. Sempre pegava esse trajeto quando tinha tempo e queria ir vendo as ruas de dentro, longe da avenida, e ter alguma emoção com o motorista que dirigia nas ladeiras como se elas fossem um tobogã.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">É sobre as madeleines de Prost, é um gosto que lembra a infância. Não é lembrar das coisas em si, mas do gosto delas, o que em você elas mobilizam. Isso de alguma forma é libertador porque o que permanece é a sensação e não o desejo de voltar no tempo.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>O ônibus sempre ía vazio a noite e num desses passeios solitários eu avistei pela janela um carrinho com algodão doce. Foi a última vez na vida que vi um  carrinho daqueles. Uma espécie de carrocinha com a máquina acoplada, nada de palitinho e nem anilina. Era açúcar de pobre, sem refino (hoje conhecido como demerara) que ganhava forma de algodão doce apenas preso por uma ponta de papel, desses também rústicos, que antigamente enrolavam pão. Esse tipo de algodão, com esses vendedores foram entrando em extinção ao longo da minha adolescência. Já havia anos que eu não avistava um e, nesse dia, quando pela janela vi passar a tal carrocinha, dei sinal e desci ainda bem longe da minha casa. Catei todas as moedas que tinha e comprei o algodão doce maior que pude, como que na certeza de que nunca mais tivesse outra oportunidade de sentir aquela sensação.</p>
<p>Era quase cômica a cena. Um algodão gigantesco derretendo com o vento, grudando no meu rosto e cabelo.  Enquanto isso, eu andando uns 15 quarteirões a pé tentando tanto comê-lo, para evitar que derretesse, quanto ao mesmo tempo desejando que demorasse o máximo possível, querendo prolongar aquela sensação, tê-la guardada em algum lugar. Isso já tem pra lá de uma década e guardo até hoje essa sensação numa espécie de bolso íntimo, ainda que o gosto daquilo tenha durado, sei lá, cinco minutos.</p>
<p>É algo sobre as madeleines de Prost, é um gosto que lembra a infância, a casa da minha avó, a vitrolinha antiga&#8230;. A gente não pode reviver certas coisas, fato. Mas certas sensações se desprendem da realidade e remontam mesmo a um estado de espírito. Não é lembrar as coisas em si, mas do gosto delas, o que em você elas mobilizam. Isso de alguma forma é libertador porque o que permanece é a sensação e não o desejo de voltar no tempo. É como terminar uma jornada e de certa forma poder descansar, sentir a grama sob os pés, o choro incontido. Porque o que se retoma, ainda que momentaneamente, é algo vivo.  Mesmo que escondido, o que emerge é um potente sentimento sobre si.</p>
<p>Texto publicado originalmente em 13 de setembro de 2017.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>A sorte e o salto na vida</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Jun 2018 13:36:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Semana pancada e ânimo quase se exaurindo. Volto da biblioteca e sigo apressada a procura de um café. Aperto o passo na esquina da Benedito Calixto e num canto da <a class="read-more" href="https://apulga.com/a-sorte-e-o-salto-na-vida/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/Igal.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1849" alt="Igal" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/Igal.jpg" width="640" height="640" /></a></p>
<p>Semana pancada e ânimo quase se exaurindo. Volto da biblioteca e sigo apressada a procura de um café. Aperto o passo na esquina da Benedito Calixto e num canto da praça um menino me pergunta se eu não quero ajudá-lo comprando um origami. Eu cheguei a quase ir embora, não tinha trocado e queria meu café.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Eu disse: – Escolhe você que entende mais disso que eu. Ele abriu o sorriso e disse: – Toma o sapo, que é para dar um salto na vida e um Tsuru, que dá sorte. E abriu o sorriso maroto de novo.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Mas, não sei porque, o menino me chamou a atenção. Talvez a caixa de papelão toda colorida. Uma segurança na voz. Fato é que já estava quase indo quando desisti. Virei o corpo e perguntei se ele tinha troco pra uma cédula. E ele respondeu: &#8211; É claro, né? Já me compraram antes. Eu pensei com meus botões: &#8211; é muito gaiato. Então, falei: &#8211; Pois então me dá dois origamis. Ele me mostrou a caixa. &#8211; Pode escolher. Eu disse: &#8211; Escolhe você que entende mais disso que eu. Ele abriu o sorriso e disse: &#8211; Toma o sapo, que é para dar um salto na vida e um Tsuru, que dá sorte. E abriu o sorriso maroto de novo.</p>
<p>Aí eu não resisti. Perguntei: &#8211; E qual o seu nome? Ele falou: &#8211; Igal. Eu me despedi: &#8211; Pois tchau Igal, a gente se vê por aí. Num golpe final, ele retrucou: &#8211; Você é a primeira pessoa na rua que fala meu nome direito. E mais uma vez sorriu com um desprendimento tão bonito. E no fim fui eu quem saí feliz com meus dois origamis no bolso. Ironias da vida, quem me ajudou foi o menino. Dessas felicidades genuínas que te vencem.</p>
<p>P.S.: Em dia de pokemon go, ai como foi bom ver alguém procurando e oferecendo algo de verdade por aí.</p>
<p>Texto publicado originalmente em 4 de agosto de 2016.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>A vida é uma invenção</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Jun 2018 13:05:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[É das sutilezas e das certezas íntimas que são feitos os melhores dias de nossas vidas. E há aqueles em que se já não bastasse essa constatação, você ainda recebe <a class="read-more" href="https://apulga.com/a-vida-e-uma-invencao/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/Foto-Raquel.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1831" alt="Foto Raquel" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/06/Foto-Raquel.jpg" width="960" height="960" /></a></p>
<p>É das sutilezas e das certezas íntimas que são feitos os melhores dias de nossas vidas. E há aqueles em que se já não bastasse essa constatação, você ainda recebe um email carinhoso de uma professora que te acompanha desde o primeiro livro de teoria política. Lá no final da gradução, no tempo das imensas expectativas, da gaveta com sonhos.  Mas, tendo à parte as questões próprias de cada um, o que me resta na reflexão de hoje é algo sobre construção, persistência, tempo e &#8211; por que não dizer &#8211; reencontro consigo.</p>
<p>Quando a vida pesa, eu costumo brincar dizendo que não tem &#8220;pagadinha do Gugu&#8221; que dure dez anos. É uma forma de dizer que tudo passa, que a vida se reorganiza e as coisas mudam ainda que você fique inerte. Aí é que está. O tempo e o movimento da vida sempre mudam as circunstâncias ao nosso redor e isso, em si, transforma nossa condição, mesmo quando permanecemos parados. É um alento para quando não se tem muita gana de mexer as peças do tabuleiro. Nisso, muitas coisas morrem. Contudo, é bonito quando, mesmo antes da vida mudar de rota, nós mesmos vamos alterando a direção, damos alguma chance ao que ainda pode viver.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Tudo passa e as  condições se transformam. Contudo, é bonito quando, mesmo antes da vida mudar de rota, nós mesmos vamos alterando a direção, damos alguma chance ao que ainda pode viver.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Essa mesma professora a qual me referi sempre foi das pessoas mais luminares que conheci. Sempre atenciosa, mas sempre com pressa. A penúltima vez que a encontrei foi num café em Berlim, em 2013. Lá estava ela me ajudando com o projeto do doutorado. Uma caderneta, mil anotações e uma bicicleta lá fora. A vida veio num turbilhão e enquanto eu entrava do doutorado soube que ela estava em algum país do oriente, depois soube do seu câncer e por fim a reencontrei ano passado. Ela estava linda, com uma echarpe de seda nos ombros e o cabelo curtinho pintado de azul. A mesma acuidade, mas parecia outra pessoa. Algo tinha morrido e algo renascido, como nas metáforas próprias das doenças. Tinha pressa, mas tinha centramento e vida.</p>
<p>Quando ela estava se recuperando lembro de ter lhe enviado um livro da Rosa Montero &#8211; que adoro &#8211; chamado &#8220;A Louca da Casa&#8221;. É um livro sobre as narrativas que criamos para nós. Literalmente, a vida que inventamos. Era isso que eu queria dizer a ela. Que se podia inventar algo novo, mantendo o que ainda fazia sentido. Dizia para ela como quem repetia para mim: &#8221; &#8211; Sim, é possível&#8221;! E a gente tem que repetir sempre porque a gente esquece. Não tem uma semana, uma amiga repetia para mim a importância dessa vida inventada que a gente cria.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Era isso que eu queria dizer a ela. Que se podia inventar algo novo, mantendo o que ainda fazia sentido.  Sim, é possível! E a gente tem que repetir sempre porque a gente esquece.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>De tantas transformações, é bom perceber que não sou mais a menina de 20 anos mandando um email para uma professora desconhecida, é bom saber que do outro lado tem alguém que acompanhou minha trajetória. Mas, melhor mesmo é saber que ainda que lidando com o mesmo tema, com os mesmos sonhos, a trilha percorrida é outra porque nós também mudamos. Contudo, algo ainda faz sentido. O tempo destrói um monte de coisa e certamente é bom que isso aconteça. Tenho aprendido a deixar ir o que perdeu espaço na mesma intensidade que celebro o que mudou de roupa para caber melhor. E não há como negar que ver as coisas funcionando praticamente 15 anos depois é emocionante.</p>
<p>Nos dizeres da Rosa Montero, talvez seja porque nossa &#8220;vida inventada&#8221; tenha amadurecido, mas permaneça com o desejo de existir. Não precisa de situações drásticas para a gente se perder de si. A gente pode se perder no dia a dia. Por isso, é tão lindo quando ainda é possível se encontrar. Quando o que foi ainda pode ser, mesmo que para isso tenhamos que nos despedir de outras tantas coisas.</p>
<p>Texto publicado originalmente em 30 de maio de 2017.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Da felicidade e dos biscoitos</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Mar 2018 23:09:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Semana passada morreu Eduardo Galeano. Li pouca coisa dele, mas lembro com exatidão de alguns trechos de “O Livro dos Abraços” que comprei há alguns anos para dar de presente <a class="read-more" href="https://apulga.com/da-felicidade-e-dos-biscoitos-2/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/BiscoitoP.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1765" alt="BiscoitoP" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/BiscoitoP.jpg" width="612" height="612" /></a></p>
<p>Semana passada morreu Eduardo Galeano. Li pouca coisa dele, mas lembro com exatidão de alguns trechos de “O Livro dos Abraços” que comprei há alguns anos para dar de presente a Clarissa Tavares. O livro é feito de breves relatos sobre amigos, familiares, lembranças… Questões aparentemente despretensiosas que são, em essência, imensas. Fala de coisas importantes, dessas que a gente corre corre, dá a volta ao mundo, achando que vai encontrá-las num universo distante e encantado para ver, depois de muita estrada, que estão ao lado e são da ordem do cotidiano, do pessoal. Ao folhear o livro, na hora, me lembrei de um conselho que o Guimarães Rosa deu a Fernando Sabino ao saber que este escrevia uma peça de teatro enquanto acalentava o sonho de fazer um grande romance: “Não faça biscoitos, faça pirâmides”. Sabino chega a consolar-se ao lembrar dos “faraós biscoiteiros” como Machado de Assis e, ironicamente, relata isso numa singela crônica, dando-se conta de que era, na verdade, um feliz padeiro.</p>
<p>Foram essas “pequeninices” que a lembrança do Galeano me trouxe de volta. Quando ele se foi pensei que era preciso fazer uma homenagem dessa natureza. Então, me veio a mente a história curiosa de uma amiga que certa vez se envolveu num acidente de carro e, sendo culpada do entrevero, recebeu uma surpreendente indulgência do outro condutor. Comovido com o aperreio da moça, ele disse: “Tudo bem, minha filha. Tá tudo certo. Vá pra casa e faça uma boa ação”. Ela chegou em casa e, sem saber o que fazer, soltou um passarinho da gaiola. Essa história pueril, que mais parece uma tirinha, talvez seja uma das demonstrações mais certeiras do que o padeiro Sabino chama de “a estética do amor”. É o pouquinho da índia do Manuel Bandeira. É que nos remete o Livro dos Abraços do Galeano.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Valter Hugo Mãe que me disse: “Uma cortina amarela em casa é uma dimensão fundamental da felicidade”. Eis aí o sonho de toda a gente. Mas, um sonho plasmado numa imagem. Eis a estética do amor.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Em uma carta ao amigo Hélio Pellegrino, em uma noite chuvosa de 1945, enquanto escutava Bach, Sabino se emociona ao lembrar dos amigos e da infância em Minas Gerais. De sobressalto escreve uma das mais belas cartas que já li e diz como numa sentença luminar que o “único caminho possível é o amor se traduzindo numa atitude estética diante da vida”. Soltar um passarinho, comover-se com Bach… São dessas coisas, desse tecido fino, que a felicidade é feita. Há algum tempo quando pude conversar Valter Hugo Mãe fiquei comovida com sua visão sobre a felicidade. Era ele também um biscoitero. Frustrado porque não morreu antes dos 40, como previu quando era menino, deu-se conta que os melhores sonhos da vida são os mais comuns, os de toda a gente.</p>
<p>Mas a felicidade não é a ausência da tristeza. Ao contrário, ela traz em si uma consciência e uma capacidade de lidar com a herança triste que todos nós temos. Por isso mesmo, a ilusão nos escapa. Aprendemos a reconhecê-la (e nos contentarmos, com toda a dimensão que essa palavra encerra) com o simples que nos afeta e se projeta na maneira que vemos o mundo. Foi o mesmo Valter Hugo Mãe que me disse: “Uma cortina amarela em casa é uma dimensão fundamental da felicidade”. Eis aí o sonho de toda a gente. Mas, um sonho plasmado numa imagem. A estética do amor se contenta, mas não se conforma. Arruma a casa, abre a gaiola, escreve um carta. Faz algo por alguém. Está no que sentimos e o que expressamos a partir disso. Cabe numa pirâmide majestosa e num biscoito fino servido a quem amamos na sala de cortinas amarelas. Eu, aliás, prefiro os biscoitos.</p>
<p>Texto publicado originalmente em 21 de abril de 2015.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Neuer Jungferntieg</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Mar 2018 10:39:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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		<description><![CDATA[Quando cruzei pela primeira vez a Neuer Jungfernstieg, 21, em outubro 2011, eu tinha esquecido tanta coisa sobre mim. Dias antes, em Berlim, havia escrito uma carta a dois amigos <a class="read-more" href="https://apulga.com/neuer-jungferntieg/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Alster5.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1732" alt="Alster5" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Alster5.jpg" width="726" height="483" /></a></p>
<p>Quando cruzei pela primeira vez a Neuer Jungfernstieg, 21, em outubro 2011, eu tinha esquecido tanta coisa sobre mim. Dias antes, em Berlim, havia escrito uma carta a dois amigos falando sobre aquela viagem. Era uma espécie de memorial interrompido, um roteiro que dava conta de uma jornada antiga que nunca fora concluída. Era exatamente isto: eu estava onde queria ter estado há dez anos. Mas, estar ali, tanto tempo depois, era realmente o que eu queria? Ainda fazia sentido? Questionava os meus amigos, como num sofisma. Uma pergunta feita a mim mesma que eu, de pronto, já ensaiava a resposta: “Não, não havia mais sentido porque eu era outra pessoa”. Meus sonhos juvenis não caberiam mais ali. O sentimento era de inadequação, como se algo não pudesse mais se realizar.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Não se vive uma mesma história duas vezes, ainda que na primeira ela tenha sido promessa e não realidade. É preciso um significado de agora, do tempo presente, mesmo que traga em si a lembrança do que foi. E a grande dificuldade de juntar essas pontas, está em atravessar-se. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Diante daquela impossibilidade, em algum momento do <i>e-mail</i> exponho o dilema: “Vivo uma confortável vida de classe média ou saio para o doutorado fora e dou algum crédito à aventura e aos sacrifícios inerentes a ela? E, aí, vem a pergunta: qual o sentido disso?” Eis o ponto: esse sentido deve ser atualizado. Não se vive uma mesma história duas vezes, ainda que na primeira ela tenha sido promessa, e não realidade. É preciso um significado de agora, como algo novo, do tempo presente, mesmo que traga em si a lembrança do que foi. E a grande dificuldade de juntar essas pontas, preencher esse hiato, está no abismo de atravessar-se. Um fio solto de um sonho, a depender da sua natureza, se não deixa à deriva o próprio desejo – que sempre pode mudar –, decerto abandona uma parte do sonhador que em algum momento se perde de si, do que poderia ter sido e não foi. Há uma ruptura. Recuperar isso é impossível. Contudo, num instante qualquer, um gatilho nos provoca a saber o que deixamos para trás.</p>
<p>Poucas obras falam dessa experiência de maneira tão corajosa e bela quanto “Santiago”, de João Moreira Salles. Lançado em 2007, o documentário havia sido filmado em 1992, quando o cineasta tinha 30 anos, mas só aos 43 ele conseguiu voltar à edição do material, enfrentá-lo. E isso é colocado de pronto. Na primeira cena, o narrador enuncia: “Há treze anos, quando fiz estas imagens, pensava que o filme começaria assim: primeiro, uma música dolente. Não essa que eu só conheci mais tarde, mas algo parecido; depois, um movimento lento em direção a três fotografias. (&#8230;) Uma das minhas lembranças de criança sou eu e meus irmãos vestidos de copeiros, com uma bandeja na mão, entre os convidados, brincando de servir. Nessas ocasiões, quem punha a bandeja em minha mão e me ensinava a equilibrá-la sem derrubar os copos era Santiago, o mordomo da casa. O filme que eu tentei fazer há 13 anos era sobre ele”. Assim, João inicia a narração em uma película que não documenta um objetivo, não se volta a uma finalidade, mas expõe sua jornada interna para, com a passagem do tempo, conseguir ver o que antes lhe era impossível. É um filme sobre o filme, uma metalinguagem sobre a construção de uma obra audiovisual. Mas é, sobretudo, uma reflexão sobre o caminho que o diretor encontrou para poder realizá-lo.</p>
<p>Em dezembro último, durante um debate na Matilha Cultural, em São Paulo, perguntei a João sobre a relação entre “Santiago” e seu último filme, “No intenso agora”, lançado em 2017. Ambas são narrativas em primeira pessoa e, das múltiplas coisas de que se pode falar, ele enfatizou uma: Santiago é um filme sobre nós. O jovem João começou a filmar o mordomo de sua casa achando que ele era um personagem externo a si. Um outro. Mas esse argumento era falso porque aquele era o criado de sua casa e ele não era um cineasta estranho. Era o Joãozinho, como Santiago o chamava. Como ele próprio afirma, era um filme sobre nós, mas isso só pode ser visto depois. Ao concluir o documentário, João fala: “E, no fim, quando Santiago tentou me falar do que lhe era mais íntimo, eu não liguei a câmera”. Foi preciso tempo, tempo para atravessar-se. O documentário inicial de 1992 nunca pôde se concretizar, mas João Moreira Salles realizou sua jornada. O filme de 2007 é tanto algo novo como a representação dessa travessia.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">O que aconteceu comigo é que eu simplesmente tinha esquecido. A vida faz isso com a gente, né? De repente há uma interrupção em nosso caminho, algo se parte e vamos nos embotando, perdendo a memória de quem somos. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Por algum motivo psicanalítico não tão misterioso assim, Santiago sempre foi um filme que me tocou. Um quase diário a indicar a descoberta do tempo, de si e do outro. É fácil pensar nisso agora, tem um nexo. Mas o filme aqui é uma alegoria do meu incômodo, embora à época não o soubesse nominar. O que me importunava era diverso de um “nós”, de algo não percebido. O que aconteceu comigo é que eu simplesmente tinha esquecido. Tinha esquecido muito sobre mim. A vida faz isso com a gente, né? De repente, há uma interrupção em nosso caminho, algo se parte e vamos nos embotando, perdendo a memória de quem somos. Lygia Fagundes Telles costuma dizer que a gente precisa se “desembrulhar”. Mas como fazer isso se às vezes sequer temos a dimensão das camadas que nos “protegem”?</p>
<p>Eu ensaiava alguma visão e meu incômodo é sinal disso, mas não conseguia de fato enxergar o todo. Uma vida adulta precoce demais tinha me tirado a ideia de que era possível eu me arriscar, me permitir. Posso falar da vocação, do mundo&#8230; Mas me refiro essencialmente a uma noção de “pertencimento”, não num sentido pueril e pretencioso que o termo carrega, mas no da permissão que o sujeito concede a si mesmo ao se sentir parte de algo. Obviamente, sentimentos como o amor e o pertencimento são também uma linguagem, tem elementos que nos escapam porque são acessados sem que tenhamos o controle. Por isso uma obra de arte nos salva, porque ela nos toca num ponto que desconhecíamos, ela nos revela. É “de lá para cá”, mas nós precisamos abrir a porta, sentir que merecemos.</p>
<p>Para Habermas, a legitimidade da lei carece de validade; para Freud, é necessária a transferência entre o paciente e o analista. São ligações misteriosas, requerem uma forma de permissão, um aceite. Para Deleuze, a amizade requer não uma comunhão de ideias, mas uma pré-linguagem comum. Numa entrevista à TV francesa, ele explica: &#8220;Há pessoas em relação às quais não entendo nada do que me dizem. Mesmo coisas simples como ‘passe o sal’, eu não consigo entender. E há pessoas que me falam de um assunto totalmente abstrato, com o qual não posso concordar, mas entendo tudo o que dizem. É um mistério, um charme”. Ele complementa: “Há frases insignificantes que têm tanto charme e mostram tanta delicadeza que, imediatamente, você acha que aquela pessoa é sua. Não no sentido de propriedade, mas é sua. E você espera ser dela. Nesse momento nasce a amizade”. É disto que falo: desse encontro com o outro. Especificamente, com outro que há em nós, escondido.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Sentimentos como o amor e o pertencimento são também uma linguagem, tem elementos que nos escapam porque são acessados sem que tenhamos o controle. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Nem sempre é fácil achar os sinais do que escondemos de nós mesmos, mas, em determinados momentos da vida, um fresta se abre. No começo, Hamburgo foi isto: uma porta aberta além de mim. Primeiro, foi o incômodo, a dúvida. Só depois pode ser a experiência plena. Os seis anos que separaram minha primeira viagem à cidade, em 2011, e a estadia mais recente, em 2017 – com direito a uma breve parada, em 2013 –, foram também a cronologia de uma jornada interna. Gastei esse tempo, esse precioso tempo, atravessando-me para reencontrar algo perdido.</p>
<p>A Hamburgo que conheci, em 2011, era um cenário tão diminuto quanto desafiador. Antes de qualquer coisa, a cidade foi a Colonnaden e seu pequeno comércio: a loja de botas de cowboy americano, o antiquário com louças delicadas e um casal de velhinhos, as duas livrarias – uma sofisticada e a outra um varejo de livros de idiomas – quase vizinhas, a velha casa de chá, a bifurcação com a Gustav-Mahler Platz, o café Caravela com suas coxinhas a me lembrar o Brasi. E foi, sobretudo, o sabor do macarrão com frutos do mar do Vinum et Cibus. O vinho tinto e a pasta servida com muito molho. O descer os degraus rumo ao porão para depois “emergir” equilibrando os pratos e pousá-los nas mesas altas no meio da rua. Como em um dos cenários do Circo do Dr. Lao, algo entre o lúdico e o estranho.</p>
<p>Eu observava o passo das pessoas, o vaievém das bicicletas, imaginava como poderia ser tal rotina. Aquele dia no fim de outubro de 2011 se fez assim: o céu cinzento, com um pouco de frio, o gosto da comida ainda na boca, uma rua estreita como atalho para Neuer Jungfernstieg e, finalmente, o German Institute of Global and Area Studies, o Giga, no número 21. Defronte, o Alster. Recordo de mirar o lago, ver um zepelim, as folhas caindo no outono. Olhava por entre alguns ganhos à margem do espelho d´água e, vendo de longe o céu, como já disse, tinha a sensação de uma porta aberta além de mim.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> No começo, Hamburgo foi isso: uma porta aberta além de mim. Primeiro foi o incômodo, a dúvida. Só depois pode ser a experiência plena. Os seis anos que separaram minha primeira viagem à cidade da estadia mais recente eu gastei atravessando-me para reencontrar algo perdido.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Seis anos depois, Hamburgo foi deixando de ser espanto para ser a vivência. Era o momento de chegar para ficar alguns meses. O plano de fazer o doutorado fora do Brasil ganhava, então, uma forma possível. A cidade saiu da paisagem restrita para construir-se numa rotina. A primeira morada na Bramhsalle, o caminho que fazia andando pela Gridelhof, o tempo de sentar com calma na Allende-Platz e ver o movimento em frente ao cine Abaton, o Grupo de Estudos de Temas Brasileiros na UNI, os cafés da Sternschanze, as bicicletas, o fishmarket, a chuva intermitente, os longos dias de verão, o metrô, o gosto das geleias e do Somersby. Landungsbrücken, HafenCity, Reeperbahn&#8230; A camaradagem dos amigos. A gentileza, o apoio, as dicas de <i>hostels</i> baratos, a garimpagem dos livros, os dias no parque, a vida de estudante, o dinheiro contado, o desafio do idioma, os novos laços que se desenhavam. De alguma maneira, estava entre aqueles que teriam estado comigo anos atrás.</p>
<p>E, de todas as coisas que poderiam ser ditas, das físicas às subjetivas, a mais honesta é a sensação de pertencimento ao cruzar os corredores do Giga. Uma certeza íntima foi se revelando no atravessar das portas, ao tomar café no final da tarde com um bando de <i>nerds</i> aficionados por Ciência Política e Relações Internacionais. Éramos felizes, mesmo meio “espremidos” na cozinha do 6<sup>o</sup> andar. E, dessa forma, todos os dias, ao passar pelo Alster, eu agradecia a chance de me lembrar do muito sobre mim que havia esquecido.</p>
<p>Essa lembrança é curiosa porque não é estanque, restrita ao passado, nem mesmo mora fora, na rua. Ela fica aqui dentro, hoje, me provocando a ser quem sou. De vez em quando aparece, irrompe, como num dia em que vi um quadro no Checkpoint Charlie. A imagem de Reagan e Gorbachev assinando o tratado de redução das armas nucleares em 1987 e, num piscar de olhos, estava diante do meu velho livro do Melhem Adas que me fez querer estudar Ciência Política. Era Santiago falando com a câmera desligada, as madeleines de Proust, o mecanismo que te desperta algo guardado e tão constitutivo de quem se é.</p>
<h3><strong> </strong><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> É difícil admitir a fragilidade, os medos e os outros esqueletos que temos no armário. Infelizmente, desconheço outro caminho. Porque só a percepção de que algo estava profundamente errado nos dá a chance de acertar a trilha.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>No fundo, quando quis escrever sobre Hamburgo, nessa perspectiva tão íntima, era disto que queria falar: do momento em que nos lembramos quando o sentido se reelabora. Mas isso só é possível depois de um árduo caminho de enfrentamento. É trabalho duro, contínuo. Dói um bocado. Mas é difícil admitir a fragilidade, os medos e os outros esqueletos que temos no armário. Infelizmente, desconheço outro caminho. Porque só a percepção de que algo estava profundamente errado nos dá a chance de acertar a trilha.</p>
<p>Em outra ocasião, pude escrever sobre Hamburgo do ponto de vista histórico, numa crônica* sobre as mudanças de um tempo e as nossas próprias. Nesse texto, uso uma frase de Aracy de Carvalho que, numa referência ao passado, diz: “Esse viver ninguém me tira”. Mas subverto a citação e a uso como predição, uma recompensa a quem se arrisca. Repito essa fase para mim, como uma forma de não mais esquecer. Atravessar-se é uma viagem, a mais difícil. E só a coragem para tal travessia leva a algum lugar com sentido. Há despedidas nesse caminho, mas hoje fico com o desejo de ir além e com os encontros, precisamente o que temos conosco.</p>
<p>É disto que falo e repito: Joãozinho, um “charme”, o Alster&#8230; Algo nos sopra o ouvido. De repente. E eu só consegui entender isso, muito antes de voltar ao Giga, quando me lembrei das coisas mais íntimas que carregava e do porquê de tê-las deixado de lado. Isso me traz de volta a João Moreira Salles e à sua narrativa. Se “Santiago” só pôde ser feito quando João entendeu quem ele era naquele enredo, em “No intenso agora” (2017) já há um diretor plenamente maduro a falar sobre dar sentido às coisas quando o ápice da vida parece já ter acontecido. Pode-se pensar que este é um filme sobre política, sobre 1968, mas não é. É sobre a capacidade de dar sentido ao novo. No instante em que nos lembramos de nós, algo se liga, mas não voltamos ao passado: precisamos dar um novo significado ao que nos tornamos e ao que temos pela frente.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Só a coragem para a travessia leva a algum lugar com sentido. Hoje fico com o desejo de ir além e com os encontros, precisamente o que temos conosco.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Talvez eu faça todas essas ilações porque ainda seja difícil falar sobre mim em primeira pessoa. Assumir os desejos, os riscos. Ir lá no osso, naquela menina que um dia fui. Ainda coloco uma camada, tal qual João Moreira Salles, que escala o irmão Fernando para narrar Santiago. Mas algo em mim já se atravessou definitivamente, o medo que tinha voltou a ocupar o lugar que lhe é devido na equação da vida. Finalmente, posso dizer que o meu medo de ficar é maior do que o de ir e eu reencontrei uma das partes mais preciosas de quem sou.
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/screen-shot-2018-03-11-at-12-06-53/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Screen-Shot-2018-03-11-at-12.06.53-150x150.png" class="attachment-thumbnail" alt="O Alster  visto de dentro, num barco, num dia alto de verão. Parece até que algo quebrado volta a funcionar. Sempre me lembrava o mar da Fusta e um encantamento que só a água tem." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/screen-shot-2018-03-11-at-12-00-34/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Screen-Shot-2018-03-11-at-12.00.34-150x150.png" class="attachment-thumbnail" alt="Foto completamente &quot;ordinária&quot; para o registro do famoso dia em que dormi no porão ou salinha de recreio da Cruz Vermelha. Síntese aventureira total." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/screen-shot-2018-03-11-at-11-35-59/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Screen-Shot-2018-03-11-at-11.35.59-150x150.png" class="attachment-thumbnail" alt="Eu sendo &quot;chapeleiro maluco&quot; na melhor loja de chapéus que vi na vida e com um autêntico panamá coco na cabeça. Cool cat, dear Fred Mercury." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/el-philharmonie-ao-fundo-pulga/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/El-philharmonie-ao-fundo-Pulga-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Saindo do Giga e indo à pé para a região portuária. El Philharmonie ao fundo. Deslumbre." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/rote-flora-g20-to-the-hell-pulga/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Rote-flora-G20-to-the-Hell-Pulga-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Rote Flora gritando: &quot;G20 to the Hell&quot;. O berço da contestação na  cidade." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/parque-brahmsalle2-pulga/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Parque-Brahmsalle2-Pulga-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Parque ao lado da Brahmsalle, a rotina com sol no verão. De serenar a alma, ler um livro e se desligar de qualquer aflição." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/screen-shot-2018-03-11-at-11-20-28/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Screen-Shot-2018-03-11-at-11.20.28-150x150.png" class="attachment-thumbnail" alt="Playground Coffee dentro do Otto&#039;s Burger na região da Grindlhof. Sem dúvida o café mais acolhedor e simpático, com um grão esplêndido da República Democrática do Congo, um chocolate quente e um chai latte precisos. Esse añi operando as &quot;máquinas&quot; é o simpático Mark." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/dehnhaide-pulga/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Dehnhaide-Pulga-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Imagem da estação Dehnhaide rumo a uma das minhas moradias. A rotina e a parte não turística da cidade." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/turma-giga-2/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Turma-Giga-2-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Turma do Giga na cozinha do 6o. andar. Todos &quot;espremidos&quot;  na cozinha do sexto andar, no café da despedida." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/margem-alster2-pulga/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Margem-Alster2-Pulga-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Margem do Alster, semana do Orgulho LGBT. Ao fundo, atrás das bandeiras, a Neuer Jungferntieg." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/colonnaden-pulga/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Colonnaden-Pulga-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Colonnaden, as bicicletas e as mesas na rua defronte ao Vinum et Cibus. A pasta com frutos do mar das sextas-feiras." /></a>
<a href='https://apulga.com/neuer-jungferntieg/alster-2011/'><img width="150" height="150" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2018/03/Alster-2011-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="O Alster no outono, o zepelim entre os galhos, uma porta aberta, outubro de 20111." /></a>

<h3><strong> </strong></h3>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>O livreiro e o outro</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Dec 2016 20:28:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
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		<description><![CDATA[Botou uma placa na frente da loja, um cavalete sobre a calçada. O escrito de giz na lousa anunciava: “Acervo – livros a 10 reais”. Foi um jeito de lidar <a class="read-more" href="https://apulga.com/o-livreiro-o-risco-e-o-outro/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;" align="center"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/Acervo34.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1593" alt="acervo34" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/12/Acervo34.jpg" width="683" height="625" /></a></p>
<p style="text-align: left;" align="center">Botou uma placa na frente da loja, um cavalete sobre a calçada. O escrito de giz na lousa anunciava: “Acervo – livros a 10 reais”. Foi um jeito de lidar com a crise, pois assim chamaria quem estivesse na rua. Melhor que a vitrine, no velho estilo, a placa era uma espécie de convite. É do reclame que vivem os comerciantes. Carece chamar atenção para o produto.</p>
<p>Mas acontece que sebo não é armarinho, nem loja <i>hipster </i>e nem banquinha de paletas mexicanas no verão. Livro tem vida. Certa dignidade mesmo. Tem cheiro, respira pelas páginas, usa capa feito vestimenta, tem temperamento para fisgar ou causar enfado. É cheio dos melindres. Talvez por isso o Chico de Assis, dono do sebo, tenha me dito que livreiro é meio professor. Embora, advertiu, nem todo professor possa ser um bom livreiro. O que une os ofícios é o gosto por saber das coisas e, sobretudo, por saber do outro. Das diferenças sei muito pouco; talvez fique no caixa, no estoque e na ordem das prateleiras.</p>
<p>Fato é que quem lida com livro, mais do que da letra, tem que entender do homem, seja ele leitor ou não. Isso porque é preciso dar uma chance ao futuro. É o convite. Há sempre o risco de alguém tombar com o reclame, entrar, dar de cara com um título e, bingo, talvez tornar-se um leitor, ainda que eventual.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Livreiro é meio professor. Embora, nem todo professor possa ser livreiro. Mas o que une os ofícios é o gosto por saber das coisas e, sobretudo, por saber do outro.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Foi isso que vi o Chico de Assis tantas vezes fazer. Fisgar o desavisado, dar a ele uma pista sobre o seu próprio desejo. É uma fronteira íntima. O sujeito leva um pouco mais do que lhe interessa ou pode esbarrar com algo novo que lhe abra uma porta. Mas, nesse escaninho, é sempre o outro que impera. É o diálogo no qual o livreiro antecipa a fala do seu interlocutor. Observa, conversa e arrisca a mostrar-lhe um mundo novo.</p>
<p>Mesmo para os iniciados, há descobertas. Falando do Borges, o bruxo, escuto o nome do Macedônio Fernández, argentino, louco, inspirador de muitos devaneios do elegante autor do “Jardins das veredas que se bifurcam”. Cá para nós: toda loucura tem pai. O motivo de ser também habita as palavras. Quem escreve já leu. Carrega consigo outros milhares de escritores, que, por sua vez, foram leitores, que foram escritores, que foram leitores, que, certamente, frequentaram livrarias e sebos.</p>
<p>Fico imaginando quando caíram nas mãos de Fernando Pessoa as primeiras letras de Omar Khayyam. Como Pessoa teria descoberto e trazido consigo as poções desse poeta e alquimista medieval? É um disparate imaginar esses caminhos.</p>
<p>Outro dia mesmo, no século XXI – na verdade, na quinta da semana passada –, um sujeito moderninho entrou no sebo e perguntou pelo Khayyam, o que nos levou a Pessoa, o que nos levou ao escaninho aberto, o que nos levou a tantos outros leitores e escritores. É o reclame. A plaquinha do sebo. O risco. O outro.</p>
<p>E são tantas e diversas as descobertas&#8230; Alguns dias de papo no Acervo e conheço o Fabián, um chileno que é garçom num restaurante de empanadas na vizinhança e me fala de Bolaños e vários outros cuja referência latina vergonhosamente me escapam. Tentando estipular uma ordem sobre o que se deve ler, Chico de Assis falava sobre o tempo necessário a algumas obras: “Tem livro para se ler maduro”, afirmava. Fabián discordou. Não há tempo. Saiu-se com essa: “A literatura é a própria carta de navegação”. Anotei num caderninho a frase. Era certeira. Eis o risco, ele nos lembrou.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Mas, nesse escaninho, é sempre o outro que impera. É o diálogo no qual o livreiro antecipa a fala do seu interlocutor. Observa, conversa e arrisca a mostrar-lhe um mundo novo.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Dos frequentadores do Acervo há também o Mangarielo, editor de livros comunistas e estudioso da obra de Jacob Bazarian. Aí o que se abre é o mundo da filosofia, a ponte entre o Brasil e a Armênia. Numa tarde encantada, Mangarielo repetia para mim que era preciso estar atento ao método, às premissas do pensamento. Falou que quando viajou à Armênia tinha a companhia do seu próprio KGB. Demorei alguns minutos para entender que, de fato, ele falava do Serviço Secreto Soviético. São tantas histórias&#8230;</p>
<p>Na vitrine, quando o Chico de Assis coloca os livros de sociologia sobre as diferenças de classe no Brasil, há clientes que entram desconfiados. Ah, o reclame também pode ser provocativo. É perigoso ter amigo comunista nestes dias, um cliente poderia dizer ao livreiro e professor. Pensando bem, “Comunismo e ficção nos dias atuais” até daria um bom nome para a prateleira ao lado daquela com os livros do realismo fantástico.</p>
<p>São as descobertas que vão das palavras aos personagens cotidianos, silenciosos.  Era começo de dezembro, numa tarde chuvosa, quando Dona Maria José, uma das mais curiosas frequentadoras do Acervo, adentrou o sebo à procura de um presente de Natal. Ao olhar o Chico de Assis por detrás da sua pequena mesa, dizia efusiva: “ Esse aí é um artista”. Eu ri, curiosa, querendo saber o porquê. Entendi que era algo relativo à alma. Sinceramente, não sei se dela, pessoa tão inquieta com o que é da superfície, ou dele, que tinha visto nela tal incapacidade de se adequar. E, num diálogo próprio dos dois, estabelecia-se uma conexão improvável aos grandes magazines.</p>
<p>Talvez disso advenha o elã dos pequenos espaços, dos sebos que não apenas amontoam livros. Porque é preciso estar atento ao outro. Mas isso também só é possível quando quem manuseia o encanto sabe o que oferecer de suas estantes. Aliás, às vezes o desafio é oposto. Deve-se saber também o que não vender.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Acho que tem sua arte quem promove esses encontros.  Livreiro é professor sem cátedra. Como quem professa longe dos espaços públicos, de forma íntima.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Das próximas prateleiras a serem inauguradas no Acervo, haverá uma escrito: livros para não comprar. Em tempos de delírio coletivo, convém não ler aqueles livros que quebrem a corrente dos escritores, que, por sua vez, foram leitores, que foram escritores, que foram leitores, que, certamente, frequentaram livrarias e sebos. Soube pelas más línguas que um livro do Lobão foi oferecido de graça algumas vezes sem muito interesse. O Chico de Assis me disse que esse exemplar vai inaugurar a seção.</p>
<p>Acho que tem mesmo sua arte quem promove esses encontros. Talvez seja isto: o livreiro é professor sem cátedra. Como quem professa longe dos espaços públicos, de forma íntima, pelo escaninho, dependendo de quem veja a placa, entre e se permita o melindre das palavras.</p>
<p>Foi desse gesto que também eu caí no risco. Disse o Chico de Assis que o primeiro livro que comprei no Acervo foi um do Jaguar. Capa laranja, ele frisou. Mas, confesso, eu não lembrava. Fui procurar, e era mesmo. “Átila, você é bárbaro”, numa edição da Civilização Brasileira dos anos 60. E olha que tenho boa memória. Mas a verdade é que não sou eu a livreira. Estava apenas lá, entrando distraída. E, no fim, é isto mesmo: quem tem por ofício saber do outro é quem realmente lembra.</p>
<p>* Chico de Assis na verdade chama-se Josué. O apelido furtivo dado por mim é talvez o oposto ao pseudônimo do Julinho da Adelaide usado pelo Chico Buarque durante a Ditadura Militar ou do nome Teresa do Amor Divino usado pela artista plástica Djanira ao se recolher no fim da vida à Ordem Terceira Carmelita. Antes de esconder ou silenciar, na verdade revela todas as possibilidades que cabem na literatura e em seus personagens. A ficção tão real como a própria vida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Isn´t it a pity</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Aug 2016 22:56:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; Hilda Hilst costumava dizer: “Fico besta quando me entendem”. A perspicácia dessa frase sempre me fez pensar em variações para ela. Há diversas possibilidades mas talvez a melhor seja: <a class="read-more" href="https://apulga.com/isnt-it-a-pity/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/08/Isnt-a-pity3-copy.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-1463" alt="Isnt a pity3 copy" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/08/Isnt-a-pity3-copy.jpg" width="600" height="668" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Hilda Hilst costumava dizer: “Fico besta quando me entendem”. A perspicácia dessa frase sempre me fez pensar em variações para ela. Há diversas possibilidades mas talvez a melhor seja: “Fico besta quando me amam”. E o amor é para mim algo admirável. Primeiro, por sua natureza intangível. Será que ele existe? Depois, pela dificuldade de se escapar dele. Seria possível dar-lhe as costas sem nem ao menos um arranhão? Por fim, porque é sorte, é dado de graça, embora o cultivo lhe dê vida ou lhe condene à morte.</p>
<p>Falar do amor é abrir uma janela para o sem-fim onde a humanidade já se perdeu tentando nomeá-lo e entendê-lo. É sinuoso o caminho para encontrar esse substantivo abstrato. Defini-lo, então, é peleja para os poetas. O amor pode ser mil coisas, com infindáveis nomes e indistintas formas. O curioso, no entanto, é o espanto de senti-lo e não senti-lo mais.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">O amor pode ser mil coisas, com infindáveis nomes e indistintas formas. O curioso, no entanto, é o espanto de senti-lo e não senti-lo mais.</div></strong></h3>
<p>É o lamento.“<i>Isn&#8217;t it a pity</i>”, cantava George Harrison sobre a fração de segundos em que se percebe tê-lo perdido. Há mágoa na canção do velho Beatle,  toda aquela confusão de sentimentos de quem ainda tenta entender o que aconteceu. É uma balada triste e sincera. Longe dos versos, Freud diria que ainda não foi feito o luto pelo qual rompemos a ligação libidinal com o ser amado.</p>
<p>Não, não estou falando das entranhas do amor, mas do momento em que ele acaba, ou melhor, do instante em que sua finitude se realiza. <i>How we break each other&#8217;s hearts and cause each other pain?</i> Francisco Bosco, em uma crônica primorosa, enceta: “Se pudesses, deverias frequentar um outro mundo”. A frase de Ovídio é uma espécie de conselho para esse instante do rompimento, já que, como diz Bosco, o amor acaba depois. Então, o luto é extrair algo ainda vivo. Quando é preciso “separar os mundos, desjuntar o tempo, afastar-se libidinalmente – para que então, depois, o amor acabe”.</p>
<p>É o salto. Esse momento de corte é descrito por ele como numa perseguição de um filme de gângster: “Butch Cassidy e Sundance Kid estão em fuga pela mata. A polícia os persegue, com rastreadores, implacavelmente. Os dois fugitivos chegam a um precipício, de onde não podem voltar. Embaixo, muito embaixo, passa um rio. Os policiais estão a caminho: eles vão chegar. É preciso o salto. Sundance diz: ‘Eu não sei nadar’. O abismo, enorme, o medo, a vertigem – só de olhar. Mas é preciso. A polícia. Não tem volta. Feche os olhos. Pulam”.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Como diz Francisco Bosco, o amor acaba depois. Então, o luto é extrair algo ainda vivo. Quando é preciso “separar os mundos, para que então, depois, o amor acabe&#8221;.</div></strong></h3>
<p>Eis uma descrição justa. Pular no abismo. Extrair-se vivo. O espanto. Contudo, o problema está exatamente no que mencionei acima: o amor morre depois. <i>Some things take so long&#8230;</i>  Até encaramos o salto, mas o que nos faz chegar a um paradeiro é algo que nos foge ao controle. Eu suspeito, seja a consciência do desamor. Uma espécie de estalo que se dá quando encaramos a realidade. É como escutar a versão de Nina Simone para a balada de George Harrison. Nela há um tom acima, como se a lucidez sobre o que passou fosse mais aguda. Oh, miss Simone! Por que a gente foi esquecendo de lembrar, de voltar atrás? Agora, simplesmente, é muito tarde.</p>
<p>Há sempre esse momento em que nos esquecemos de deixar a porta aberta. No entanto, não interessa mais, não há retorno. É disto que falo: após o lamento, vêm o salto, a ruptura. E se engana quem acha que este é um faroeste unicamente carnal. Cabem muitos amores no tempo que corta os laços. Existem dois romances preciosos que, ao seu jeito, falam sobre essa tentativa de pular seja para onde for. São dois dramas familiares.</p>
<p>Como o título deixa antever, em “Dois Irmãos”, Milton Hatoum conta a história dos gêmeos Yaqub e Omar, que, feito Caim e Abel, entram numa disputa da qual parecem não conseguir escapar. O mais velho, Yaqub, tenta com todas as forças se esquivar daquela teia familiar, mas sempre dá um passo atrás, motivado pelos pedidos da mãe ou por alguma tentativa de dar ordem às coisas. Acontece que nada muda e o personagem só se enreda. Não consegue pular. Sempre me perguntei: o que Yaqub achava que podia ter daquelas pessoas? Por que não conseguia se apartar? Não digo que seja fácil. Costuma-se pagar um preço alto quando se foge de algo, sobretudo de nossas origens, sem se atravessar por dentro e se achar do outro lado. É este exatamente o meu ponto: a travessia é dolorosa, mas necessária. É preciso achar-se sem outro.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Há sempre esse momento em que nos esquecemos de deixar a porta aberta. No entanto, não interessa mais, não há retorno. Após o lamento, vêm o salto, a ruptura.</div></strong></h3>
<p>Essa é a sensação que se tem ao não se reconhecer mais quem um dia amamos muito. Às vezes o amor se transforma em amizade, mas noutras – quando simplesmente deixa de existir – é preciso enterrá-lo. Da mesma forma que algumas amizades continuam a vingar, outras se perdem. Entender que alguém não te ama é realizar que você também pode não amar. E essa afirmativa sequer tem uma ordem de reciprocidade necessária; ela é absoluta. A gente se escolhe. Isso implica que, seja pelo motivo que for, alguém um dia pode não nos escolher mais. É o desamor. E precisamos reconhecê-lo como forma de enxergar a nós próprios e seguirmos adiante. É o fim do espanto.</p>
<p>Se os personagens de Hatoum rodam presos entre si, em “Ciranda de Pedra”, Lygia Fagundes Telles torna protagonista a jovem Virgínia, cuja história é marcada justamente pelo rompimento. O romance de Lygia, escrito em 1954, faz uma crítica à burguesia paulistana. Porém, num plano mais fechado, mostra uma personagem que consegue sair da rejeição para enxergar – sem máscaras – a realidade de uma família corroída. Com a maturidade, Virgínia finalmente desloca sua libido, cessam suas tentativas de ficar com seu amor da infância, Conrado, e de fazer parte daquele círculo fechado, a tal ciranda de pedra. O final do livro narra uma mulher que, tendo experimentado mais uma vez pertencer ao grupo, entende que aquele não é o seu lugar. É o entendimento que Virgínia passa a ter sobre si e sobre os outros que a faz partir para uma longa viagem, sem perspectiva de volta. Ela entende que ali não havia amor e passa a não desejar mais aquilo para si.</p>
<p>É lindo o trecho final do romance: “Trocaram um leve beijo. Depois ela prosseguiu sozinha pelo estreito caminho da sombra. Quando julgou ter atingido a metade, voltou-se. Lá estava Conrado, na mesma posição em que o deixara, de pé na clareira. Mas os frouxos raios de sol que o iluminavam já tinham desaparecido. “Apagou-se”, pensou ela, acenando pela última vez. Ainda ouviu o grito do pássaro rompendo a quietude, porém não o achou mais parecido com a risada de Otávia. Era apenas um som anônimo, perdido na tarde”.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Entender que alguém não te ama é realizar que você também pode não amar. A gente se escolhe. Não, não é uma pena. É o começo da nova vida.</div></strong></h3>
<p>Há tempos em que o amor é dor, mágoa, esperança&#8230; Mas há, em algum momento, o ponto em que o amor é o próprio rompimento. Decerto ele havia morrido antes, mas é ao nos depararmos com sua ausência que o enterramos de vez. Assim, perceber que não amamos mais alguém é, curiosamente, a senha para compreendermos que também podemos não ser amados. A compreensão de que não mais escolhemos alguém é a mesma dada quando alguém também já não nos escolhe. Esse jogo de subtração nos liberta, somos apenas um.</p>
<p>O desamor nos ensina a partir, Miss Simone.</p>
<p>É um outro mundo. Deixar de amar talvez seja o término do fascínio, quando as coisas se apresentam como são e o encanto se esvai. Não, não é uma pena. O lamento também perdeu seu lugar. Ficou no passado. O salto concluiu-se. <i>Moving too fast.</i>  Finda o espanto, começa a nova vida.</p>
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