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	<title>A Pulga &#187; Literatura</title>
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	<description>Um coletivo diletante de ideias</description>
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		<title>Crônica da pandemia</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Sep 2020 14:35:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Dayse Abreu]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Apreensão, álcool gel, revolução no modo de trabalhar (quando não se perdeu o emprego), encontros virtuais, prefeito e governador que escutavam as orientações de médicos e cientistas, presidente que as <a class="read-more" href="https://apulga.com/cronica-da-pandemia/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2020/09/Captura-de-Tela-2020-09-21-às-11.47.51.png"><img class="alignnone size-full wp-image-1955" alt="Captura de Tela 2020-09-21 às 11.47.51" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2020/09/Captura-de-Tela-2020-09-21-às-11.47.51.png" width="631" height="461" /></a></p>
<p>Apreensão, álcool gel, revolução no modo de trabalhar (quando não se perdeu o emprego), encontros virtuais, prefeito e governador que escutavam as orientações de médicos e cientistas, presidente que as ignorava, lockdown, lockdown pero no mucho, notícias de quem pegou o vírus, de quem se curou, de quem não resistiu&#8230; Quando vai passar? Já não era para ter passado?! Começou em março de 2020. Algumas cidades no Brasil foram estabelecendo práticas de isolamento social, por conta da pandemia do coronavírus. Um dos memes que mais circularam foi o do “eu não aguento mais não aguentar mais”. Tentando (não) lidar com tudo isso, fui buscar um refúgio nos livros.</p>
<p>Logo no começo da quarentena, vi algumas pessoas lendo A Peste, do Camus. Ainda pensei em fazer o mesmo por curiosidade, afinal, não conheço o livro. Só que essa vontade não durou nem trinta segundos. Eu não queria me refugiar numa história que me traria de volta à realidade.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Só tinha a sensação de completude, de início e fim, quando lia alguma crônica do Fernando Sabino, num livro há tempos esquecido em cima de um móvel. Lia uma, lia outra, mas não considerava, solenemente, que “este é o livro que estou lendo”. </strong><strong></div></strong></h3>
<p>No entanto, paradoxalmente, era exatamente a realidade que eu parecia procurar, consumindo notícias em quase todo o meu tempo livre, como num transe. Quantos novos casos, em quais bairros, número de óbitos, taxa de ocupação das UTIs &#8211; podiam me perguntar qualquer um desses dados, eu saberia informar. Ser detentora de informações assim me fazia sentir, de alguma maneira, um pouco mais segura, mais preparada. Só que o preço dessa segurança (que não assegurava muita coisa, a bem da verdade) veio em forma de estafa mental.</p>
<p>Não conseguia me concentrar. Comecei e larguei várias leituras. No canto inferior direito da tela do leitor digital, a indicação de onde tinha terminado minha empolgação com cada livro: 15, 10, 3%&#8230;</p>
<p>Só tinha a sensação de completude, de início e fim, quando lia alguma crônica do Fernando Sabino, num livro há tempos esquecido em cima de um móvel. Lia uma, lia outra, mas não considerava, solenemente, que “este é o livro que estou lendo”. Grande bobagem. Eu não precisava estar lendo um livro inteiro. Eu precisava era de algo fluido, leve, engraçado, talvez até sério, mas, ainda assim, lírico. E curto, já que a estafa mental não tinha passado completamente, mesmo depois que passei a acompanhar menos as notícias.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Então era isso, crônicas do Fernando Sabino. Ou a questão seriam as crônicas? Ou o Fernando Sabino? Talvez as duas coisas. Comprei, assim, mais três livros de crônicas, dois do Antônio Prata e um do Rubem Braga&#8230; </strong><strong></div></strong></h3>
<p>Aquelas crônicas me faziam muito bem, só que elas estavam acabando. Eu precisava me reabastecer, e não podia ser com livro digital. Tinha que ser no papel, para poder abrir aleatoriamente. Assim, uma hora pode aparecer uma crônica ainda inédita. Outra, um texto que já li (mas sem problema, ele ótimo, vou ler de novo). Às vezes, até vem algum de que não gostei tanto assim, mas é só virar a página que a história é outra. Já que não podemos fazer isso com a pandemia, ao menos o façamos no nosso refúgio.</p>
<p>Então era isso, crônicas do Fernando Sabino. Ou a questão seriam as crônicas? Ou o Fernando Sabino? Talvez as duas coisas. Comprei, assim, mais três livros de crônicas, dois do Antônio Prata e um do Rubem Braga. E também fui atrás de dois livros de cartas, um de correspondências trocadas entre o Fernando Sabino e a Clarice Lispector, e outro de cartas que ele enviou para seus três grandes amigos ao longo de décadas.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Como me surpreendi com as confissões da Clarice Lispector ao amigo Fernando Sabino: &#8220;Só quem diz a verdade é quem não gosta da gente ou é indiferente. Tudo o que ele diz é verdade. Não se pode fazer arte só porque se tem um temperamento infeliz e doidinho&#8221;.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Essas compras me fizeram passar um tempo remoendo uma pequena culpa pelo surto consumista literário. Nos últimos meses, não fui diferente de tanta gente que começou a refletir mais sobre seus hábitos de consumo, sobre o que é preciso ter mesmo, em detrimento do que seria supérfluo. Sim, tenho muitos livros não lidos ainda guardados na estante. Mas eles não podiam me dar o abraço que as crônicas (ou o Fernando Sabino?) me proporcionavam. Leituras que abraçam não são supérfluas para mim em tempos pandêmicos. Culpa superada, então.</p>
<p>Ah, como eu ri da descrição do Fernando Sabino sobre o dia em que ele, em pleno aeroporto, foi convencido por um repórter de rádio a dar uma entrevista dentro de uma cabine telefônica para diminuir o barulho ao redor. Acabaram entalados. O amigo do Sabino, do lado de fora, tentava ajudar, “em gestos frenéticos de guardador de carro ajudando motorista a entrar na vaga” (1).</p>
<p>Como eu voltei no tempo quando o Antônio Prata relembrou as viagens de família na infância, quando o pneu do carro furava (2). Como eu achei lindo o mesmo Antônio Prata relatando uma conversa que teve com um motorista de táxi, viúvo, que contou da falta que sentia de não ter fotos da esposa fazendo as coisas do dia a dia, que era como ele se lembrava dela (3).</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Sabino desabafa: “Não é possível eu continuar assim, a vida me empurrando, me empurrando sem parar (&#8230;) Tudo vai acontecendo, vem vindo, vem vindo, já passou! É tão depressa, tão fugaz que nem percebo, não apreendo a vida.</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Como eu me surpreendi com as confissões da Clarice Lispector ao amigo Fernando Sabino em 1946. Clarice só tinha publicado dois livros até então e estava desanimada com a recepção negativa do segundo. Ela chega, num momento, a concordar com um dos críticos: “Só quem diz a verdade é quem não gosta da gente ou é indiferente. Tudo o que ele diz é verdade. Não se pode fazer arte só porque se tem um temperamento infeliz e doidinho” (4). Ainda bem que ela tinha um amigo com quem trocava cartas e que lhe deu apoio e incentivo. Clarice veio a escrever tantos livros depois disso ainda.</p>
<p>Como eu me diverti, lendo correspondências como a que Fernando Sabino endereçou a “meus jovens mentecaptos Hélio e Otto”. Por outro lado, como eu refleti sobre a amizade, quando, em outra carta, Sabino diz a um amigo que “o principal, que nos sustenta de pé quando a noite avança e o sono abaixa, é que nós nos sabemos juntos” (5).</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Tudo vai acontecendo, vem vindo, vem vindo, já passou! É tão depressa, tão fugaz que nem percebo, não apreendo a vida, ela escorre pelos meus dedos quando vou segurá-la”. O que Sabino não escreveria sobre essa peste de coronavírus?</strong><strong></div></strong></h3>
<p>Do livro com as cartas de Fernando Sabino para seus companheiros, uma das que mais me marcou foi escrita no Rio de Janeiro, em “12 para 13 de Agosto, 44”. Nela, Sabino desabafa: “não é possível eu continuar assim, a vida me empurrando, me empurrando sem parar (&#8230;) Tudo vai acontecendo, vem vindo, vem vindo, já passou! É tão depressa, tão fugaz que nem percebo, não apreendo a vida, ela escorre pelos meus dedos quando vou segurá-la” (5). Setenta e seis anos atrás, Fernando Sabino escreveu isso para seu amigo Hélio (“meu velho”). O que ele não escreveria sobre essa peste de coronavírus?</p>
<p>Me falta ainda explorar o livro do Rubem Braga. Por enquanto, só dei uma rápida folheada, suficiente apenas para descobrir que as crônicas que lá estão foram selecionadas pelo&#8230; Fernando Sabino. Juro que comprei sem saber.</p>
<p>(1) Da crônica &#8220;Por falar em aperto&#8221;, do livro &#8220;As melhores histórias de Fernando Sabino&#8221;<br />
(2) Da crônica &#8220;Ótima viagem&#8221;, do livro &#8220;Meio intelectual, meio de esquerda&#8221;<br />
(3) Da crônica &#8220;Recordação&#8221;, do livro &#8220;Trinta e Poucos&#8221;<br />
(4) Do livro &#8220;Cartas Perto do Coração&#8221;<br />
(5) Do livro &#8220;Cartas na Mesa&#8221;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>A esquerda que não teme a ciência</title>
		<link>https://apulga.com/a-esquerda-que-nao-teme-a-ciencia/</link>
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		<pubDate>Thu, 23 Jun 2016 03:43:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Alan Santiago]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Casa da Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[O amor ao conhecimento deve ser maior do que o amor ao conforto No capítulo final de “The Last Word”, uma defesa da racionalidade como ferramenta inescapável ao entendimento da <a class="read-more" href="https://apulga.com/a-esquerda-que-nao-teme-a-ciencia/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1494" style="width: 660px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/06/erica-zoe-a-queda.jpg"><img class="size-full wp-image-1494" alt="Ilustração: Érica Zoe" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2016/06/erica-zoe-a-queda.jpg" width="650" height="603" /></a><p class="wp-caption-text">Ilustração: Érica Zoe</p></div>
<p style="text-align: right;"><i>O amor ao conhecimento deve ser maior do que o amor ao conforto</i></p>
<p>No capítulo final de “The Last Word”, uma defesa da racionalidade como ferramenta inescapável ao entendimento da vida, o filósofo norte-americano Thomas Nagel lança um questionamento no mínimo provocador: e se chegarmos à conclusão de que a evolução tem um propósito? Nagel esclarece o pensamento desta forma: “Se a ordem natural admite leis físicas fundamentais, universais e matematicamente belas como as que descobrimos, por que não poderia admitir leis e limites igualmente fundamentais (sobre os quais nada sabemos) que sejam consistentes com as leis da física e deixem claro o desenvolvimento de organismos conscientes – alguns deles tendo a capacidade de descobrir, por meio de um prolongado esforço coletivo, verdades fundamentais sobre aquela mesma ordem natural?”*</p>
<p>Essa ideia arrepia os cabelos de racionalistas e céticos, porque parece imbuída de uma perspectiva religiosa – ainda que o filósofo tenha tomado o cuidado de pô-la apenas em termos científicos. Algum tipo inescrutável de coerência na criação e em seu desenvolvimento é o que todas as religiões reclamam que seja a verdade desde o início dos tempos. Num mundo cuja ascensão conservadora e o obscurantismo religioso são uma realidade, tal descoberta enfraqueceria, de alguma forma, o papel da racionalidade e da ciência, concedendo a sacerdotes de todos os matizes uma proeminência, ou ao menos uma equivalência, em decisões até então confiadas aos laboratórios e ao método?</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">O medo do pensamento religioso e das proposições religiosas não deve fragilizar justamente o que pensa estar protegendo. A ciência não se beneficia quando recusa de antemão uma ideia por se apegar a uma visão de mundo cristalizada.</div></strong></h3>
<p>É verdade que, até que se realize, isso não deixará de ser uma possibilidade. Mas, nesse ínterim, o medo do pensamento religioso e das proposições religiosas não deve fragilizar justamente o que pensa estar protegendo. A ciência não se beneficia quando recusa de antemão uma ideia por se apegar a uma visão de mundo cristalizada. Isso, inclusive, é anticientífico. Aliás, nenhum ser que opere com a razão lucra ao negar o que não lhe é conhecido sem motivos suficientes para tanto. Como se percebe, não estou dizendo que devemos procurar as tábuas da arca de Noé. Mas, voltando ao terreno da realidade e não do mito literário, sempre acho um devaneio infantil o medo do “gene gay”.</p>
<p>Primeiro, é preciso pontuar que uma parte da crítica a esse tipo de pesquisa não é desprovida de mérito: nenhum geneticista procura o gene hetero do mesmo modo que nenhum médico investiga a saúde, porque ambos são considerados o grupo padrão; logo, a homossexualidade desafiaria a heteronormatividade assim como a doença afronta a saúde. Fica, então, claro o lugar e a posição subalterna ou elevada de cada sexualidade nesse jogo científico. Entretanto, é irracional o medo, propriamente de esquerda, de que a sexualidade seja genética em essência, e não construída socialmente.</p>
<p>Isso é compreensível, porque se trata de um medo análogo ao que a ciência tem da religião, ou seja, de que a concessão a uma ideia estrangeira potencialmente perigosa e conservadora debilite uma visão de mundo aberta e inclusiva. Por isso, novamente pergunta-se nas mesmas bases usadas antes: num mundo de wahabismo assassino e de neopentecostalismo charlatão, identificar um tal gene pode desencadear uma corrida eugenista do mesmo modo que se tenta extirpar a predisposição genética ao câncer? Bom, são os riscos que a verdade corre. Só a mentira é soberana e imutável porque facilmente adaptável às ocasiões; a verdade, ao contrário, é remédio amargo, sempre diferente, cuja única alternativa que nos resta é aprender a administrá-la. De qualquer forma, é sempre bom lembrar que os fascistas não precisam da ciência para vociferar ou praticar insanidades. Eles já fazem isso a despeito dela ou a distorcendo em seu favor.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">De qualquer forma, é sempre bom lembrar que os fascistas não precisam da ciência para vociferar ou praticar insanidades. Eles já fazem isso a despeito dela ou a distorcendo em seu favor.</div></strong></h3>
<p>Então, digamos que se tenha finalmente batido o martelo sobre este dado da natureza, que haja trechos de um par de genes responsáveis por definir a sexualidade de um sujeito. Todas as pessoas que acreditam numa sexualidade construída e não genética devem rever seus conceitos. Eu serei um deles. O amor ao conhecimento tem de ser maior do que o amor ao conforto. Conhecimento é, antes de tudo, desprendimento. Os anticopernicanos da época de Galileu também possuíam bons motivos, naquele contexto medieval, para desconfiar do modelo heliocêntrico. Todas as observações apontavam o contrário. Era o Sol que se movia enquanto a Terra permanecia substancialmente parada; os planetas sumiam e reapareciam no horizonte observável como se estivessem girando a nosso redor; um livro confiável e milenar, a Bíblia, referendava essa opinião. Hoje se considera louco aquele que continua afirmando a mesma coisa – as redes sociais estão cheias deles, infelizmente. Tal como o Sol ganhou o posto de centro de nosso sistema planetário, o “gene gay”, ou melhor, para ser mais correto, o gene que determina nossa sexualidade obrigará a uma recondução de muitas das pesquisas de gênero. Isso não seria ruim. Nem bom. Apesar de nós, a Terra continuará girando em torno do Sol.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>* NAGEL, Thomas. <b>The Last Word</b>. Nova York: Oxford University Press, 1997. (pp. 131-132. Tradução minha).</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Somos linchadores virtuais</title>
		<link>https://apulga.com/somos-linchadores-virtuais/</link>
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		<pubDate>Mon, 27 Jul 2015 06:30:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Alan Santiago]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Casa da Palavra]]></category>

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		<description><![CDATA[Todos aguardamos pacientemente o momento de expor com raiva canina os erros cometidos por outros nas redes sociais Depois que li “So You’ve Been Publicly Shamed”, livro do jornalista norte-americano <a class="read-more" href="https://apulga.com/somos-linchadores-virtuais/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1033" style="width: 1149px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/07/Literata-6-Linchamento-virtual.jpg"><img class="size-full wp-image-1033" alt="Ilustração: Yuri Leonardo" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/07/Literata-6-Linchamento-virtual.jpg" width="1139" height="800" /></a><p class="wp-caption-text">Ilustração: Yuri Leonardo</p></div>
<p><i><br />
Todos aguardamos pacientemente o momento de expor com raiva canina os erros cometidos por outros nas redes sociais</i></p>
<p><i></i><span style="line-height: 1.5em;">Depois que li “So You’ve Been Publicly Shamed”, livro do jornalista norte-americano Jon Ronson, tive mais certeza de que estamos mesmo nos tornando linchadores virtuais. O texto leve de Ronson, que investiga as particularidades da vergonha na era digital, deixa evidente a insensatez do justiçamento, que, para mim, é a mais abjeta forma de vingança.</span></p>
<p>A imolação dos pecadores segue um mesmo ritual macabro, com a exceção de dois ou três nomes próprios: alguém, por inocência ou má-fé, aperta o botão enviar com um comentário considerado desrespeitoso demais para ser uma mera piada de humor negro, e quase instantaneamente uma horda ensandecida e empunhando tochas arromba a porta do cômodo, arranca o sujeito da frente do computador e o leva para uma fogueira armada no meio da rua, onde geralmente a madeira já crepita; a figura perde o emprego, algumas amizades e às vezes até a segurança de sair na rua. Em poucos dias, o tuiteiro passa de companheiro descolado a condenado sem remissão, sem direito a defesa e, pior, obrigado a rever o calvário inteiro ao clique de um mouse.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Em poucos dias, o tuiteiro passa de companheiro descolado a condenado sem remissão, sem direito a defesa e, pior, obrigado a rever o calvário inteiro ao clique de um mouse.</div></strong></h3>
<p>Ronson conta a história da diretora de comunicação Justine Sacco, que, pouco antes de entrar num voo em direção à África do Sul, em 2013, onde ia visitar a família, teve a infelicidade de elaborar o seguinte tuíte: “Partindo para a África. Espero não pegar Aids. Brincadeirinha. Sou branca!”. A internet explodiu; Justine, depois, é claro, morreu metaforicamente. Perdeu o emprego e passou um bom tempo trancafiada em casa. Acabou indo fazer trabalho voluntário na mesmíssima África que pichou na internet.</p>
<p>Outro caso, de 2012, é o da professorinha de escola infantil, Lindsey Stone, que, diante da placa “Silence and Respect”, do Arlington National Cemetery, um cemitério militar em homenagem aos mortos nas guerras americanas, fingiu que gritava enquanto levantava o dedo médio numa foto postada no Facebook. Já havia feito outras peripécias do gênero sem maiores consequências, como simular que fumava num lugar proibido. Era uma brincadeira recorrente que compartilhava com um amigo. De críticas ao peso dela até ameaças de morte, Stone recebeu de tudo via comentário.</p>
<p>Cada uma à sua maneira, Sacco e Stone disseram a Ronson que foram mal interpretadas: Sacco pensou que fazia uma crítica, em verdade, ao privilégio e à desigualdade; Stone visou muito mais a mensagem simples da placa do que o subtexto histórico e militar que estava contido lá. Mas as justificativas delas pouco interessam. Não porque seus erros sejam injustificáveis, mas porque, mesmo que esses erros não fossem sob qualquer hipótese justificáveis, ainda assim não acredito que amarrar alguém num poste e açoitá-lo até a morte seja um modo saudável e humano de punir erros e desvios. É fisicamente ruim na vida real; é desumano também na internet com a capacidade de infinita reprodutibilidade —sobre isso, vale a pena ler o capítulo em que Ronson tenta ajudar Stone a se livrar das inúmeras referências negativas a seu nome e percebe que o mecanismo de pesquisa do Google é inteligente demais para deixar cair no esquecimento um fato que pode trazer ainda tantos cliques.</p>
<p>Pois, enquanto nos casos Sacco e Stone há uma suposta possibilidade de que as suas atitudes estejam mergulhadas de fato numa zona cinzenta (pondo-as no grupo das pessoas ‘boas’ em ações babacas), um caso brasileiro não deixa dúvidas de que a autora saiu, de propósito, vestida para matar, mas, apesar disso, não mereceu o que fizemos com ela.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Não acredito que amarrar alguém num poste e açoitá-lo até a morte seja um modo saudável e humano de punir erros e desvios. É fisicamente ruim na vida real; é desumano também na internet com a capacidade de infinita reprodutibilidade.</div></strong></h3>
<p>Era outubro de 2010, e a presidente Dilma Rousseff tinha acabado de ganhar as eleições. Eu me lembro muito bem, porque estive particularmente envolvido naquele período eleitoral —a verdade é que a gente tem muito tempo livre na época de faculdade. Quando saiu o resultado, dava para ouvir uma saraiva de balas de 140 caracteres pela janela. A paulistana Mayara Petruso, por exemplo, estava fula da vida: “Nordestisto (sic) não é gente, faça um favor a Sp, mate um nordestino afogado!”</p>
<p>Do sétimo andar de um apartamento no bairro de Fátima, em Fortaleza, eu trucidei Mayara no Twitter. Dizer que ela ia ser presa foi o mínimo. Outros me acompanharam. É até bem possível que você também tenha se juntado a mim nesse belo exemplo de linchamento virtual: @mayarapetruso era estagiária num escritório de advocacia, que a dispensou pouco depois daquele domingo; ela entrou numa espécie de crise de pânico, não saindo mais à rua, não indo à faculdade, que abandonou em seguida, e tendo crises de choro, segundo os familiares contaram à imprensa; o Ministério Público abriu investigação contra ela, e a conta do Twitter apagada em desespero não impediu, e a propósito não impede hoje, de as provas do crime estarem todas vivas, até com os deslizes de digitação. Para nosso deleite, o caso ainda rendeu matérias no jornal “Daily Telegraph”, na agência “AP” e na emissora “Fox News”. Tudo com a foto de Mayara.</p>
<p>Não sei ao certo quem foi o primeiro a puxar os cabelos dela e arremessar a moça no fogo, mas confesso que, na época, marejei os olhos por aquela criminosa estar ali derretendo e esguichando de dor bem pertinho de nós. Mayara entronou-se, para mim, como o primeiro espécime a ser identificado, julgado e condenado em poucos dias, numa celeridade que o judiciário brasileiro jamais concebeu.</p>
<p>Em 2012, a Justiça oficializou o que nós já tínhamos decretado dois anos antes: Mayara acabou sentenciada a um ano, cinco meses e quinze dias de prisão, uma pena abaixo do mínimo legal e convertida em prestação de serviços. A decisão está disponível online, e a juíza Monica Camargo optou por esse caminho pela “punição moral de fato a que Mayara foi submetida” e porque as consequências da infração “também atingiram a própria acusada de forma tão grave”.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Mayara entronou-se como o primeiro espécime a ser identificado, julgado e condenado em poucos dias, numa celeridade que o judiciário brasileiro jamais concebeu.</div></strong></h3>
<p>Pode parecer erroneamente que estou defendo um relaxamento do castigo em comparação ao crime e que, afinal, tudo passasse incólume. Muito ao contrário, acho que ela e todos os outros que cometeram xenofobia agora e naquela época, em 2014, na reeleição da Dilma, devem ser identificados, julgados e condenados (culpados, se possível). Como nordestino, me ofendo com cada comentário desse gênero que leio ou escuto na rua. Mas, sem querer ser legalista demais ou em outras palavras realista de menos, não consigo vislumbrar outra forma de punir pessoas que cometeram crimes senão pelo mecanismo judicial.</p>
<p>O que fizemos lá não foi isso. Ou melhor, não apenas isso. Hackearam até o (saudoso) Orkut da estudante. Reproduziram o tuíte dela em prints que ficaram fazendo voltas <em>ad aeternum</em> pela troca de bits na rede. Qualquer pesquisa rápida no Google retorna uma imensidão de páginas contando a história —essa é uma delas, feliz ou infelizmente. Nós destruímos não só a vida profissional e emocional de Mayara, mas quem sabe até a vida amorosa. Imagine pesquisar o nome da paquera e saber que ela vomitou o mais sórdido e pútrido preconceito. Em tempos de Tinder, todos nós damos um block, na vida real ou no Facebook, e passamos para a próxima. Mesmo que a pessoa, cinco anos depois, seja completamente outra. Eu e você mudamos de 2010 para cá; ela, veja só, é muito provável que também tenha. A diferença é que ela está marcada para sempre e nós, não.</p>
<p>Esse tipo de justiçamento ganhou força no Brasil com a visibilidade inevitável que ações do gênero começaram a ter na internet americana. A caça às bruxas se tornou bem mais refinado quando entraram no jogo movimentos da sociedade (de direita e de esquerda) que defendiam ideias bem claras e perceberam a necessidade de vencer a partida eliminando o adversário discursivamente. Não à toa há um rosário de termos em inglês, traduzidos ou não, que são uma espécie de receituário para a ação. Acontece que, se antes as Mayaras Petrusos abundavam e eram facilmente decapitadas, agora todo usuário de rede social sabe que se vive num permanente tabuleiro da moral, em que todos, rigorosamente todos podem ser defenestrados desde que se pise um pouco fora da casa. Isso tornou o jogo mais complicado e também internamente mais mortal. O inimigo pode estar em qualquer lugar.</p>
<p>Esse é exatamente o problema. Se todos somos potenciais inimigos, seres falíveis esperando o momento de uma escorregadinha para sermos abatidos, então o julgamento se torna uma fatalidade inevitável, ou seja, muito mais uma confirmação de que sempre fomos culpados —racistas, misóginos, tucanos etc.— do que uma análise que pesa contextos, variações do ambiente ou ainda que se autoavalie como incapaz de fazer mais julgamentos ponderados senão por meio jurídico.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Se todos somos potenciais inimigos, seres falíveis esperando o momento de uma escorregadinha para sermos abatidos, então o julgamento se torna uma fatalidade inevitável, ou seja, muito mais uma confirmação de que sempre fomos culpados —racistas, misóginos, tucanos etc.</div></strong></h3>
<p>Durante o século XVI, se a bruxa praguejasse contra os inquisidores de Deus enquanto virava cinzas na fogueira era atestado de culpa; se se calasse, era confirmação de que sua mágica a impedia até de sentir dor, logo, culpadíssima; se a palha demorasse a pegar fogo, era sinal claro de que os considerados poderes atrapalhavam até a execução da pena, então, culpadérrima. O cheiro da madeira queimada em 1567 sob os pés de bruxas rescende nos tuítes do século XXI.</p>
<p>E assim como naquele período tenebroso da história, nossa fogueira 2.0, com entrada USB e 30 Mbps, em farta medida cresce cada vez mais alta, porque pessoas que confiamos e que compartilham de nossos valores reproduzem irrefletidamente o mesmo manual de horror medieval nas redes sociais com outros que ainda não somos nós.</p>
<p>Vou citar um pensador a contragosto. O psicólogo social e físico amador francês Gustave Le Bon (1841-1931) —também misógino e racista, mas isso é outra história— tem uma definição hiperbólica sobre a mentalidade das pessoas em meio à multidão. No livro best-seller “La psychologie des foules”, lançado em 1895, ele escreve (apud Ronson): “Pelo simples fato de se fazer parte de uma massa organizada, um homem decai vários degraus na escada da civilização. Isolado, pode até ser um indivíduo refinado; na multidão, é um bárbaro —isto é, uma criatura que age pelo instinto (&#8230;) Na multidão, todo sentimento e ato são contagiosos.”</p>
<p>É um exagero. Trata-se da escrita de um sujeito influenciado pela ciência que se fazia em fins do século XIX, por isso minha contrariedade inicial, mas aponta para um cerne que, a despeito do que acreditava o autor em outras questões, é verdadeiro. Deixando de lado camadas e camadas de glacé positivista, Le Bon abriu margem para se entender que a manada, essa sem rosto mas cheia de vontades, mesmo se constituída de pessoas que compartilhem um ideal nobre, pode descambar para a barbárie, caso seus membros não se mantenham em contínuo questionamento do que estão fazendo e, em especial, de <i>como</i> estão fazendo.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A cobra da moralidade morde o próprio rabo um dia, e eu não quero estar nessa extremidade quando isso eventualmente acontecer. Por que, então, deveria contribuir quando o assado no espeto é o outro?</div></strong></h3>
<p>Participei de outros linchamentos depois daquele de Mayara. O último foi o do professor de literatura Idelber Avelar. Li, com renovado prazer, tudo o que se havia publicado a respeito na blogosfera brasileira. A certa altura, um escritor, meu amigo no Facebook, divulgou um comentário maldoso com um link para o Tumblr que reunia conversas privadas de Avelar com as mulheres que o acusavam de machismo e abuso psicológico. No mural de comentários, disparei: “Não entendo como alguém que se mostra publicamente defensor das minorias pode ter tão pouca empatia com mulheres e maridos traídos”. Não pude me sentir mais estranho. “Uma coisa não tem a ver com a outra. Sexualidade e vida pública são esferas separadas”, me respondeu outro internauta. Foi o suficiente para apagar o que havia escrito.</p>
<p>Percebi que estava mais uma vez colaborando para aniquilar um sujeito que não conheço e sobre o qual não tenho meios materiais nem morais para julgar. A bem da verdade, ninguém tem, exceto os poucos envolvidos na querela. A cobra da moralidade morde o próprio rabo um dia, e eu não quero estar nessa extremidade quando isso eventualmente acontecer. Por que, então, deveria contribuir quando o assado no espeto é o outro?</p>
<p>Enquanto no pátio da internet as pessoas se divertem levando muitos à forca, baseando-se numa régua moral estreitíssima, tenho preferido ir para uma rua ou viela onde o rebuliço esteja em outro patamar, menos passional, mais racional e ponderado, o que ainda é possível. Caso contrário, é melhor voltar para casa e assistir ao vídeo das preguiças-bebês curtindo um banho de banheira.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Entrevista: Valter Hugo Mãe. Felicidade é uma cortina amarela</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Jun 2015 23:21:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Grazielle Albuquerque]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Valter Hugo Mãe sempre me intrigou pela beleza de sua prosa que é doce sem ser ingênua. Quando decidi entrevistá-lo para a Pulga, o fiz por impulso. Pensava que talvez <a class="read-more" href="https://apulga.com/felicidade-e-uma-cortina-amarela/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/06/V3.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-934" alt="V3" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/06/V3.jpg" width="625" height="464" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Valter Hugo Mãe sempre me intrigou pela beleza de sua prosa que é doce sem ser ingênua. Quando decidi entrevistá-lo para a Pulga, o fiz por impulso. Pensava que talvez pudesse achar um punhado de palavras que retratassem a humanidade contida no seu texto. Então, fui a uma noite de autógrafos numa pequena galeria na Vila Madalena e fiquei a observá-lo. Sem contato prévio, empresários ou cartões de apresentação pude ver um sujeito que levou horas a autografar pacientemente todos os livros que se punham à sua frente. Com duas canetas, intercalava-as de acordo com a página de guarda dos livros. As folhas pretas ganhavam a cor prata, as brancas eram escritas de azul. E ele escutava as histórias, todas. Num chiste, arrematava as dedicatórias com o que conseguia por de pessoal. Ao final, me aproximei e indaguei se aquilo não era muito cansativo. Ele me respondeu que era seu trabalho, era melhor do que carregar pedras – sabia exatamente o que fazia. Ali estava a humanidade que eu buscava. Naquele instante nos entendemos.</p>
<p style="text-align: justify;">A entrevista acabou acontecendo no outro dia. Ao longo de mais de uma hora de conversa o gesto de busca por algo, o olhar de quem procura o outro foi se descortinando. Eu me enganei, não havia representação. Diante de mim estava um homem adulto, reconciliado consigo, ciente do que era humano e agradecido por isso. Escutar sobre a sua trajetória foi perceber o caminho da maturidade numa dimensão central, de reencontro. Sem afetação, Valter Hugo Mãe sabe onde põe os pés porque a estrada nem sempre lhe foi fácil. Nos dizeres de uma amiga, nós “tuteamos”, conversamos sem formalidades. Assim, descobri preciosidades em sua fala, vi também minhas esperanças e cicatrizes em muitas delas. Em uma reflexão sobre a literatura e a vida, ele fala dos caminhos agrestes e do tempo que o fez perceber a felicidade sem deslumbre, numa dimensão possível de uma cortina amarela. Tal qual a narradora de “O paraíso são os outros”, Valter Hugo Mãe repete: “A maturidade, no fundo, é a capacidade que temos de corrigir”. E só cresce quem corrige, quem se dispõe a construir. Ele diz ter falhado, mas produziu tanto. Reencontrou-se. Chegou à maturidade e tatuou no antebraço “takk” (obrigado em islandês). Fechou um ciclo, abriu outro. Ah, o humano, demasiado humano! Sou eu quem agradeço, Valter. Takk.</p>
<p style="text-align: right; padding-left: 420px;"><strong>Por Grazielle Albuquerque</strong></p>
<h5 style="text-align: right; padding-left: 480px;"><strong> Essa entrevista contou com a edição de Alan Santiago e com as pontuações de Iana Soares e Débora Dias</strong></h5>
<p style="text-align: justify; padding-left: 120px;"><strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><b>A Pulga: <i>Valter, sua disponibilidade me impressionou muito. Ontem, na sessão de autógrafos, fiquei ali em um canto prestando atenção. É imensa a quantidade de pessoas que sentavam naquele sofazinho para te contar histórias. E há toda uma maneira como você as escuta, pega um elemento particular para fazer as dedicatórias. Então, existe um cuidado. Você me pareceu uma pessoa procurando a humanidade do outro, procurando uma coisa de concreta, longe da afetação de uma noite de autógrafos. Eu queria que você falasse um pouco sobre isso</i></b><i>.<br />
</i><b>Valter Hugo Mãe:</b> É, ontem eu até estava, bobagem minha, achando que ia ser uma festa de circulação e que ia dar tempo pra conversar com todo mundo e ficar assim, de copo na mão e assinando um livro aqui, um livro ali&#8230; Eu não percebia que tinha tanta gente. Eu não sei se nascia gente das paredes, mas minha intenção é muito essa: sempre conseguir dar alguma forma que as pessoas valham como pessoas. Não tenho muito a capacidade ou não consigo pela minha consciência ver as pessoas como números. Eu não cresci achando que seria uma pessoa importante e, por isso, hoje não me considero desimportante, mas não me considero mais importante que ninguém. Então, é muito fundamental pra mim que a relação com os leitores seja uma relação de igualdade.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">E sou exatamente aquele que perde mais porque eu sou o que participa ausente. Mas, para cada uma dessas pessoas, existe uma presença. E por isso eu fico muito curioso, às vezes, até por saber, perante esta mulher e este homem, o que é que significo e o que poderia ser se estivesse mais perto<strong>.</strong></div></strong></h3>
<p style="text-align: justify;"><b>A Pulga: <i>Mas, para além da sua condição de escritor, imaginemos que você tivesse outro ofício. A sensação que eu tive é, de fato, a de uma pessoa interessada em outras pessoas, como você acabou de dizer. Quando nasce esse interesse? Você acha que está intrinsecamente ligado à tua expressão pela palavra? Como isso interfere nas suas histórias?<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Você sabe que eu tive uma infância, uma adolescência e uma juventude muito solitária. Sentia sempre como a última pessoa no mundo, por isso é que eu estava dizendo, cresci achando que eu não era rigorosamente nada importante. Achava até que não era um ser humano viável, que nunca chegaria a ser adulto, a ter uma profissão. Nunca vislumbrei em mim, assim, um gênio qualquer, uma inteligência específica para alguma coisa. Então, hoje, quando encontro com as pessoas, fico muito maravilhado por, afinal, fazer parte, ver uma sociedade para mim. Você entende? De alguma forma, a solidão não era uma rejeição, era só uma falta de jeito que eu tinha para chegar às pessoas. Então, hoje quero muito que as pessoas sejam. Quando eu dizia isso de ver os leitores como iguais, é que não gosto muito da ideia dos leitores como admiradores. Eu gosto da ideia de ter amigos. São os amigos que sei que não posso conhecer pessoalmente a fundo. Eu sei que não vou saber o nome de toda a gente, não sei se as pessoas são casadas, são solteiras, querem ficar casadas ou se querem ficar solteiras, mas, no momento em que eu as encontro, sei que há uma história entre mim e essas pessoas. E sou exatamente aquele que perde mais porque eu sou o que participa ausente. Mas, para cada uma dessas pessoas, existe uma presença. E por isso eu fico muito curioso, às vezes, até por saber, perante esta mulher e este homem, o que é que significo e o que poderia ser se estivesse mais perto. Então, vou colecionando algumas pessoas que vão comparecendo mais vezes, já vou fixando e fico muito contente com isso. Quando eu vejo alguém que até lembro o nome, acho que isso compensa também pra mim, porque sinto indiretamente que a casa cresce. Eu acho que a gente volta para casa quando está com alguém que conhece, quando está com quem se sente seguro. Então, vir a São Paulo e olhar para cara de algumas pessoas, conhecer os nomes, saber minimamente quem são faz com que minha casa seja muito grande.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>A Pulga: <i>Houve alguma situação em que estar como espectador do outro te ajudou no relato de alguma personagem?<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Sim. Quando eu escrevi “O Filho de Mil Homens” (2011), por exemplo, encontrei uma senhora, em Lisboa, numa sessão de autógrafos, que estendeu o livro pedindo para eu assinar. Perguntei seu nome e ela disse que se chamava Isaura. E, no exato momento em que eu pouso a caneta para começar a escrever, ela faz um discurso demolindo o nome Isaura, atribuindo até culpa ao próprio nome, à fealdade do nome para uma certa tristeza, um certo desamparo na sua vida. Fiquei perplexo porque acho o nome Isaura muito bonito. Eu disse: “Não, tem de ser o contrário, você tem de entender que seu nome é maravilhoso. Você não está sendo esperta (<i>risos</i>). Acho que você tem de rentabilizar este nome”. E, então, eu disse: “Eu estou escrevendo um novo romance. Estou começando neste momento a investir nessa história e eu vou criar uma Isaura e eu vou colocar todo mundo dizendo pra ela que o nome dela é maravilhoso (<i>risos</i>). Eventualmente essa Isaura vai ser feliz. Ela não vai escapar a uma tristeza básica porque acho que a realidade não permite que toda a gente escape a uma tristeza básica, mas eventualmente ela vai ser feliz. Então, foi muito engraçado porque isso aconteceu numa livraria, num determinado lugar onde eles têm uma poltrona, eu estava de pé, essa senhora estava de pé e então, no chão, exatamente no lugar onde nós estávamos, foi colocado um autocolante que diz assim: “Aqui nasceu a Isaura”. Então, o povo fica passando por ali e ninguém entende que Isaura é aquela. É a Isaura de “O Filho de Mil Homens”, do Valter Hugo Mãe. Ali, de alguma forma, nasceu aquela personagem, na livraria Bulhosa, em Lisboa.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Mas acho sempre que eu ainda não estou convencido de participar, que ainda habito o mundo, assim, como quem se deslumbra e procura alguma maravilha. Então, fico colecionando oportunidades de encontrar gente conhecida ou desconhecida, mas sempre nessa perspectiva de pensar: “Ah, vale a pena efetivamente existir”.</div></strong></h3>
<p style="text-align: justify;"><b>A Pulga: <i>Como você concilia essa postura de quem apenas olha com a de quem também pertence? Você descobriu na palavra e na literatura um instrumento de acesso como participante do mundo?<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Acho que foi muito lentamente porque comecei publicando poesia com 24 anos. E, de cada vez que precisava ler um poema meu, ou simplesmente dizer: “Sim, fui eu que escrevi este livro que está a dois metros de mim” – porque eu não conseguia nem chegar perto, ia morrendo de ataque cardíaco todos os instantes –, eu via toda uma confusão quando escolhi me chamar Valter Hugo Mãe. Ninguém entendia o meu nome de início. Ninguém aceitava como um nome lógico. Sempre tinha uma piadinha. Era muito irresistível chamar-me, por exemplo, a um palco e zoar comigo. Então, durante um tempo, achei que talvez fosse daqueles escritores que teria de criar ausente, assim, quase de não aparecer mais, de não fazer entrevista, não participar em coisa nenhuma. Mas depois, lentamente, aquilo que ajuda é nós percebermos que há uma ou duas pessoas numa plateia de vinte ou trinta pessoas que estava efetivamente escutando e que no fim dizia qualquer coisa como: “Ah, gostei, gostei muito daquele poema, ou do outro poema, ou gosto do título ou gostei da forma como você explicou alguma coisa”. E, paulatinamente, assim, muito devagar, a gente vai se convencendo que vale a pena dizer alguma coisa, que vale a pena algum esforço para uma aproximação. Mas acho sempre que eu ainda não estou convencido de participar, que ainda habito o mundo, assim, como quem se deslumbra e procura alguma maravilha. Então, fico colecionando oportunidades de encontrar gente conhecida ou desconhecida, mas sempre nessa perspectiva de pensar: “Ah, vale a pena efetivamente existir”.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>A Pulga: <i>Em “a máquina de fazer espanhóis” (2010), por exemplo, você coloca a questão da vida que se encerra. Há um velho como personagem central. E você já disse em algumas entrevistas que tinha em mente morrer aos 18, 33 ou 40 anos. Queria perguntar o porquê disso. Você acha que a literatura é uma maneira de vencer o tempo, se perpetuando através da palavra?<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Eu creio que criei todas essas datas de morte porque achava que morrer era fácil. Eu falei algumas vezes que, quando nasci, tinha um irmão que já estava morto, e o meu pai era bastante tremendista. Era assim um hipocondríaco assustador porque ele achava que morreria quase todos os dias e que todos os dias surgiria um novo câncer inventado especialmente para ele. Então, cresci achando que não existia eternidade alguma, mesmo durante o tempo da infância quando as crianças têm uma ideia muito abstrata da longevidade. Acham que o pai e a mãe vão desaparecer só quando extinguir o Sol. Eu pensei sempre muito ao contrário. Sabia que um irmão meu tinha morrido mais novo do que eu, por isso morrer era uma coisa muito possível. Então, fui construindo as minhas barreiras. Primeiro, porque achava que não chegaria à idade adulta e, por isso, não saberia ser obrigado a trabalhar, a ser obrigado a responsabilidades, não conseguiria tomar conta de nada. Então, achava que provavelmente morreria antes dos 18 anos porque estaria encerrado numa certa infância. Depois, era muito crente e achava que se o Cristo morreu com 33 anos, quem seria eu para morrer mais tarde, para viver mais tempo, ser mais digno? Era muito burro (<i>risos</i>). Então, criei isso assim até antes dos 18 anos. Eu pensei: “Mas, se eu não morrer aos 18, eu com certeza dos 33 não passarei”. E foi inevitável aos 33 eu me lembrar dessa questão. Então, eu fiz uma festa de aniversário. A maior festa de aniversário que fiz até hoje foi quando completei 33 anos. Então, achei: “Mas, se esta festa não for um agradecimento por superar esta barreira, pode ser apenas uma despedida. Talvez eu esteja pra morrer em breve”. Mas foi muito importante, pra mim, assinalar e, de alguma forma, dizer às pessoas que eu gostava delas e escolher as pessoas e trazer as pessoas perto de mim e celebrar a oportunidade daqueles 33 anos. E depois fui fazendo contas e sobrou uns 43 anos. Eu já estava tão habituado a ter uma idade pra morrer que subitamente comecei a pensar nisso. E, enfim, eu acho que, quando fiz 40 anos, escrevi “O Filho de Mil Homens” anunciando a minha frustração de não ter filhos. Já a minha posição era outra. No fundo, já não estava em causa morrer, mas acho que estava em causa assumir um falhanço, assim, um “falhei em absoluto”. Você sabe que eu acho&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;"><b>A Pulga: <i>Falhei porque não morri? É isso?<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Falhei porque não tive um filho, falhei porque não cumpri os sonhos mais normais e óbvios. Você sabe que eu acho que a gente fica sonhando ser escritor porque não encara os melhores sonhos da vida e os melhores sonhos da vida são os sonhos de toda a gente; é o ter alguém, o encontrar uma casa com uma cortina amarela bonita e ter dois, três filhos. E então só sonha ser escritor ou só dedica todo o tempo à escrita ou à arte quem está completamente errado. Porque o certo é uma coisa muito mais normal e muito mais acessível a toda a gente. Então, acho que quando estabeleci essa morte aos 40 anos, no fundo estabeleci a consciência de ter falhado, de ter sonhado tudo errado.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Falhei porque não tive um filho, falhei porque não cumpri os sonhos mais normais e óbvios. Você sabe que eu acho que a gente fica sonhando ser escritor porque não encara os melhores sonhos da vida e os melhores sonhos da vida são os sonhos de toda a gente; é o ter alguém, o encontrar uma casa com uma cortina amarela bonita e ter dois, três filhos.</div></strong></h3>
<p style="text-align: justify;"><b>A Pulga: <em>“Felicidade é se reconciliar consigo mesmo” – é uma frase sua. Agora, nesse estágio da vida, não é o momento de reconhecer que falhou, mas também viver um tempo de reconciliação?</em><br />
</b><b>Valter Hugo Mãe:</b> É exatamente essa felicidade possível. É uma felicidade consciente porque felicidade não tem como ser outra coisa. Tudo que escapa à nossa consciência, à nossa sobriedade ou lucidez é um regozijo, é uma coisa da dimensão das crianças. As crianças não são felizes; elas regozijam. Vivem numa espécie de euforia, mas não têm lucidez para perceber nem pra fazer perdurar determinadas sensações ou determinados sentimentos. Então, é um pouco o regozijo dos animais. O meu cachorro ele regozija; ele não é feliz. Então, a maturidade, quer queiramos quer não, traz este ensinamento, esse aprendizado. Passamos a ser capazes de guardar a memória das tristezas sem que isso impeça que possamos investir na felicidade e conquistar momentos de alguma plenitude. Então, acho que não vai haver ninguém que não tenha uma memória de momentos terríveis. Ninguém vai ser poupado a uma dimensão aterradora da vida. A felicidade tem de conter isso também. A felicidade não é a ausência da tristeza. A felicidade é uma consciência e uma capacidade de lidar com essa herança triste que todos nós temos.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>A Pulga: <i>Quem está de fora tem a sensação de que você sempre teve essa dimensão de que a felicidade era simples, porque você sempre prestou atenção nas coisas simples.<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> É, mas eu só aprendi isso agora. Eu só percebi agora que uma cortina amarela em casa é uma dimensão fundamental da felicidade. Uma coisa tão ridícula, mas tão simples que a gente só senta ali. Recebe um amigo, faz um jantar e só sente aquele momento e a gente pensa: “Não é necessário ganhar prêmios, não é necessário ter televisão, seja o que for. Felicidade esteve o tempo todo aqui, tem uma cor (<i>risos</i>) e tem uma gente, não é?” Mas acho que fui estabelecendo essas metas porque achava que precisava de concretizar alguma coisa. Precisava de criar algum tipo de relação de conquista assim: “Ok, eu sou viável, eu paguei as minhas contas, a minha mãe não precisa estar preocupada comigo achando que vou morrer de fome, que não tenho nem roupa, que ninguém vai gostar de mim”. E sabe que acho que hoje não tenho nenhuma data pra morrer? Porque eu acho que deixou de ser importante. O morrer deixou de ser importante porque, de algum modo, as coisas ficaram muito completas. Então, perdurar mais tempo, perdurar menos tempo já não vai retirar de mim esta sensação de plenitude que é sobretudo um modo mental de existir. Não é o ter muita coisa. Não sou um homem rico. A maior parte do dinheiro que tenho, dôo para pagar dívidas de pessoas amigas. Não tenho coisas caras. Se o acaso me matar, já não importa muito porque minha vida já valeu muito a pena.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>A Pulga: <i>Na verdade, o que quis te perguntar foi onde o menino meio torto colocava os sonhos?<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Colocava no impossível. Então, eu sonhava muito, mas não tinha nem coragem de me direcionar, porque achava que efetivamente era o último dos seres humanos, o menos digno, o menos capaz, aquele que não teria rigorosamente nada pra oferecer a ninguém. Então, achava que ia morrer sozinho, virgem, feio, pobre, cedo e burro.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>A Pulga: <i>Estava errado (risos). Ainda bem. Não, é que a felicidade&#8230;<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Mas é que qualquer coisa&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;"><b>A Pulga: <i>A felicidade, então, é a virada. Aliás, a maturidade é a virada pra felicidade possível, não?<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Exatamente. A maturidade é o momento em que pensamos assim: “Não, calma, eu vim desse menino. Esse menino está algures em mim esperando crescer”. Mas a consciência permite-me pensar: “Não, seria até ingrato da minha parte, né?”. Eu não posso cultivar tristeza, porque eu não tenho nem esse direito.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Eu só percebi agora que uma cortina amarela em casa é uma dimensão fundamental da felicidade. Uma coisa tão ridícula, mas tão simples que a gente só senta ali. Recebe um amigo, faz um jantar e só sente aquele momento e a gente pensa: “Felicidade esteve o tempo todo aqui, tem uma cor (<i>risos</i>) e tem uma gente, não é?”</div></strong></h3>
<p style="text-align: justify;"><b>A Pulga: <i>Em algum momento da sua literatura, você aponta que a gente não pode ser o mesmo, que é inclusive um perigo para o escritor ser o mesmo sempre. O que te motiva a mudar, então? Que escritor você ainda quer ser? Qual é o próximo ponto?<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> É cada vez mais difícil, é cada vez mais angustiante nesse sentido olhar para aquilo que eu já escrevi e pensar o que é que eu posso acrescentar, não é? Como é que eu posso apresentar um novo romance e meus leitores não me dizerem: “Valter, você já contou isso pra nós. Vá fazer outra coisa. Vá aprender a cozinhar. Não vale a pena”. Então, é uma oficina de todos os dias e depende muito de decisões, porque nós somos, por natureza, seduzidos por aquilo que já conhecemos. A gente sente uma segurança por determinados caminhos que já percorreu. E é muito mais fácil construir em cima de conceitos que já reconhecemos. O que acontece comigo é que, constantemente, quando quero começar um romance, deito tudo fora. Estou constantemente a tentar fora. Passo meses construindo alguma coisa, tomando notas e no momento em que começo às escrever é que descubro meu tempo e penso: “Ok, eu vou”. É o momento exato. Escrevo, chego à páginas 30, 40, 50 e penso: “Não é isto. Isto até me agrada muito, até me faz bem escrever esta história, até me alegra escrever no sentido do ego do termo”. As frases podem ser lindas. Há momentos poéticos que me cativam muito e que me chamam a atenção, mas aquilo é só uma espécie de emanação de outro romance qualquer, assim, uma mesma energia, uma mesma estética. E então é o momento de deitar fora e de pensar: “Ok, Valter, coragem. Vamos regressar ao ponto da pobreza absoluta e enriquecer um texto que seja todo ele uma surpresa também pra mim”. Eu não sei como subitamente as coisas comparecem. O fundamental é ver esta coragem de a gente não se deixar vencer pelo ego, não se deixar vencer pela facilidade, ou seja, seria muito mais fácil aceitar imediatamente alguma coisa que até está bem escrita e que até vai agradar os leitores que gostaram muito de “a máquina de fazer espanhóis” ou de “O Filho de Mil Homens”. Provavelmente seria um livro de sucesso e tudo isso. É muito importante a gente pensar: “Não, não está em causa você ficar imediatamente feliz com isto e ficar sossegado. Está em causa descobrir uma forma que não seja óbvia”.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>A Pulga: <i>Esta preocupação de renovação é permanente?<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> É, é uma preocupação dos dias e das noites. É uma das coisas que me acorda no meio da noite.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>A Pulga: <i>“A máquina de fazer espanhóis” é esse livro de se encerrar. Já “O Filho de Mil Homens” é um livro mais esperançoso, de alguma maneira. Como você trabalha o tom dos seus livros?<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Fico oscilando. Normalmente um livro mais difícil ou um livro um pouco mais aberto, depois um livro mais difícil, eventualmente um livro mais aberto. Neste momento, eu estaria a trabalhar num livro um pouco mais aberto. Mas meus livros todos são mais esperançosos dentro dum universo muito terrível. As minhas figuras todas elas sofrem muito e todas elas têm um percurso agreste. Então não consigo deixar de fazer as coisas assim porque não consigo deixar de ver o processo da vida como uma conquista muito profunda. A gente precisa mesmo aprender a passar pelas agruras. Não consigo que os meus livros não tenham uma relação com a morte, com a perda, com a esperança, às vezes, mais eufórica. Acho que tudo que fica no meio-termo é uma mediania aborrecida. A vida entra sempre muito pela intensidade. Pra mim, perder é perder muito e ganhar é ganhar muito. As pessoas simbolizam sempre isto pra mim. Significam sempre muito. Pessoas que vão embora e as que chegam são sempre importantes. E a literatura não usa a mediania. Então, tudo fica muito mais aguerrido e muito mais explícito. Nós, enquanto leitores, quando encontramos um texto assim, relativamente extremado nas posições que toma e naquilo que conta, é muito mais fácil, a partir até das caricaturas, sabermos onde estamos e a que distância estamos de uma tristeza profunda ou de uma felicidade absoluta. Só sei funcionar assim. É muito o jeito que sou, assim, de intensificar as coisas. É a única forma de o cotidiano adquirir alguma magia e de o tempo ser capturado. Nós só capturamos aquilo que foi intenso. Toda a mediania vai desaparecer da nossa memória. Parece-me que um dos sentidos da vida tem de ser a intensificação, porque a grande questão e o grande desafio de todos nós é lembrar.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">E a vida depois pragmatiza tudo. A literatura é o contrário. A literatura é o contrário do pragmático. A literatura faz uma fotografia dum instante e precisa explicar esse instante, porque não suporta que aquela frase seja dita daquela forma.</div></strong></h3>
<p><b>A Pulga: <i>Quando entrevistei Ariano Suassuna, ele disse que, embora numa condição muito difícil, seus personagens não podiam ser vulgares, deviam ter um sentido. É uma ideia de construção de personagem. Por um lado, existe a reflexão sobre a vida que você faz, mas, de outro, há o trabalho de sentar diante do computador para escrever efetivamente. Então, volto um pouco para a pergunta inicial: onde você encontra humanidade nas coisas cotidianas e como você transporta isso para dentro de seus textos?<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Antes de mais, o Ariano Suassuna é uma maravilha. Temos muita saudade dele. E depois, na verdade, na literatura, ninguém consegue ser vulgar a menos que o autor seja distraído e não saiba potenciar uma figura. O Caetano Veloso tem muita razão quando diz que “todos nós, vistos de perto, podemos ser um monstro, podemos ser grotescos”. Todos nós, vistos de perto, somos intensos, somos alguma coisa de muito especial. E a literatura faz isso. A literatura mostra-nos as figuras muito de perto, eventualmente até no recôndito dos seus próprios pensamentos, do seu mundo secreto e inconfessável. Por isso é que nós nos compadecemos tanto com as personagens e por isso é tão possível um processo de identificação. A gente pode identificar-se até com um assassino porque conhecemos as motivações. A literatura é muito perigosa, porque poderia desculpar toda a gente (<i>risos</i>). Temos de ter muito cuidado com a literatura nesse sentido. Mas encontro aquilo que me motiva, que me deixa subitamente energizado literariamente e com alguma urgência para escrever uma história muito numa disciplina do silêncio. Sou muito impressionado pelas pessoas caladas, porque sempre elas contêm uma explosão prestes a acontecer. E, por vezes, alguma coisa que as pessoas podem dizer sem se aperceberem ou sem conferirem um conteúdo demasiado consciente ao que disseram. Posso dar um exemplo muito acabado. Ontem mesmo, uma moça disse pra mim várias coisas, e ela estava falando lentamente, mas falou várias coisas e no meio disso, ela disse: “A minha mãe morreu. Então, eu viajei com a minha avó”. Fiquei parado naquela frase. “A minha mãe morreu. Então, eu viajei com a minha avó”. A gente esteve aqui, e ela ficou falando. Fiquei parado naquela frase: “A minha mãe morreu”. E eu pensei assim: “Não deve haver rigorosamente frase nenhuma mais triste neste momento do que ‘A minha mãe morreu’”. E isto, digo eu, porque não tenho filhos. Então, a moça ficou falando e eu fiquei conjeturando: “Qual seria a expressão mais triste, absolutamente mais triste de alguém usar? Eventualmente, ‘o meu filho morreu’”. Isso é muitas vezes o que me leva à literatura. É ficar com aquela energia e pensar: “Imagina que eu poderia parar o discurso daquela moça, a vida daquela moça, fazer um recuo, parar em cima daquela frase da mãe que morreu e extrair de toda aquela frase a importância que ela merece”. Aí é o livro. Aí está um livro inteiro no fundo, pousado em cima daquela frase do modo pragmático com que ela teve de dizer aquilo. Porque a vida depois pragmatiza tudo. A literatura é o contrário. A literatura é o contrário do pragmático. A literatura faz uma fotografia dum instante e precisa explicar esse instante, porque não suporta que aquela frase seja dita daquela forma.</p>
<p><b>A Pulga: <i>Você já disse que sua mãe te mandava ir ao colégio porque seria uma oportunidade de guardar as coisas que você tinha na cabeça. E você achava isso importante porque permitia fazer a lista de palavras de que você gostava, como pirilampo.<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Pirilampo é a mais bonita.</p>
<p><b>A Pulga: <i>Ainda é?<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Ainda é.</p>
<p><b>A Pulga: <i>Então, penso que há escritores que começam a contar histórias por uma ideia, outros pela história em si e ainda outros por raiva, por exemplo. No seu caso, me parece que é pela palavra. É esse o início de tudo?<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> É a palavra, encontrar a expressão. Quando tenho vários livros em mente, e tenho sempre várias histórias, algumas eu vou adiando há dez anos. A história que ganha, no momento em que eu sento, é aquela que subitamente oferece a sua própria estética; é aquela que diz a sua própria tonalidade estética e me diz assim: “Valter, pense nessa frase”. Não é estranha. Não é, ao mesmo tempo, bonita, incômoda. Ela não deixa você necessitado de uma explicação. Então, corro atrás. O que acontece muitas vezes é que, depois, essa primeira frase não é a primeira frase do romance. É a primeira frase do romance para oficina, pra mim, mas depois, muitas das vezes, no meio do romance, eu crio um primeiro capítulo surpresa. É muito comum, no meu processo de escrita, o primeiro capítulo ser escrito no meio do livro, não no fim, mas no meio do livro. Quando estou bem no meio do livro, eu penso: “Não, eu preciso antecipar algumas coisas nesta história”. Até porque algumas frases, algumas das melhores frases surgem depois e eu penso: “Ah, o primeiro capítulo deste livro então é este”. Eu nunca disse isto a ninguém, mas, se você fizer um exercício de ver o segundo capítulo de todos os meus livros, provavelmente você vai perceber que é um excelente primeiro capítulo (<i>risos</i>). Se fosse efetivamente o primeiro capítulo, eu poderia criar uma tonalidade um pouco diferente na leitura. O leitor entraria na história num momento em que não seria o momento mais interessante; seria talvez um momento muito intenso, muito forte. Em “a máquina de fazer espanhóis”, por exemplo, o segundo capítulo era o primeiro capítulo por quase todo o livro. Começa com aquela ideia terrível de que, com a morte, também o amor devia acabar. Essa foi a primeira frase do livro. Foi por causa dessa frase que fui atrás do livro e pensei – não suportei essa frase – em como justificar aquilo que perdura. No fundo, como criar uma ideia de completude perante a morte? “O Filho de Mil Homens” é a mesma coisa. Eu começava com a história da anã, que era prévia e é prévia em absoluto. Ela conta o nascimento do Camilo, que depois vem a ser adotado por Crisóstomo. Mas, no livro, conto primeiro a história do Crisóstomo, e só depois é que nasce o Camilo.</p>
<p><b>A Pulga: <i>Você cria uma antessala.<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Eu crio uma antessala. Há qualquer coisa em mim que, ali no meio da escrita do livro, me possibilita pensar com outra lucidez. A gente não fica sabendo logo as coisas do livro. Aliás, eu não sei nada quase. Creio que vejo uma imagem e ela está embaçada. E a escrita do livro é uma espécie de processo de nitidez em que vou conquistando a possibilidade de ver. É muito grato escrever o livro exatamente porque é sempre um processo de descoberta. E ele está sempre em causar surpresa porque, se não estivesse em causar surpresa, eu não conseguiria escrever ou não vou ter vontade de escrever. Então, parto por um livro, por alguma coisa que eu vejo, mas só vejo muito mal.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Costumo dizer que a literatura é um estudo, mas é um estudo que, ao invés de ser feito no exterior, é sobretudo feito no interior. É um processo de intensificação do pensamento; é uma meditação longa.</div></strong></h3>
<p><b>A Pulga: Você tem algum método para encaixar todos os capítulos ou é algo muito fluido também?<br />
</b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Normalmente a frase vem relacionada com o assunto se eu quero muito discutir alguma coisa. Quando essa imagem surge, está dizendo assim: “Valter, se você conseguir clarear esta figura, você vai estar pensando sobre a violência doméstica, sobre a paternidade, sobre o abandono ou sobre a felicidade, sobre a terceira idade, na desumanização sobre a solidão absoluta, sobre o recôndito, sobre estar longe&#8230;” Então, aquela imagem seduz também porque vem ao encontro dessas histórias que quero contar, que – no fundo, quando eu digo que são histórias que eu quero contar – não são mais do que assuntos que quero explorar. Costumo dizer que a literatura é um estudo, mas é um estudo que, ao invés de ser feito no exterior, é sobretudo feito no interior. É um processo de intensificação do pensamento; é uma meditação longa. Sei que há muita coisa da vida sobre a qual quero pensar dessa forma, sobre a qual quero meditar. E então vou guardando essas impressões do que quero, do que vou adiando. Em dados momentos, é um pouco urgente. É tão urgente que acordo muitas vezes ao meio da noite com uma imagem. Penso: “Eu preciso clarear esta fotografia; eu preciso clarear esta coisa, de ver”.</p>
<p><b>A Pulga: <i>Você já mencionou que a maternidade é o mais próximo do humano – isso de se partir em outro. Nesse sentido, quando você adota o nome Mãe, cria uma chancela para a sua literatura, que é muito interessada no homem e nessa estética da humanidade.  Gostaria que você comentasse um pouco essa relação com a maternidade – ou com a paternidade. Esse tema causou inclusive certo alvoroço na Flip, em 2011 (risos).<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Você sabe que eu não tinha consciência concreta disso? Sabe que quando eu criei o nome Mãe, eu achava que a experiência extrema da existência tem de ser a maternidade. O homem fica no lado pobre da humanidade e da existência. Mas eu não estava consciente de que isso pudesse, de repente, reverter para uma espécie de acusação contra mim próprio. Era um pouco isso que falava há pouco. Os meus quarenta anos foram a celebração da frustração. Foi assim: “Ok, errei completamente. E estava na cara qual era o caminho. Eu até criei esse nome. Mas como é que eu não percebi que eu devia ter tido filhos? Como eu acabei ou como eu fui acabar, de todas as relações, deixando as meninas irem embora sem nenhuma ter engravidado, não é?” Não sei se foi uma prudência, se foi um estar sempre interessado ou deslumbrado com a arte, deslumbrado com a literatura, que eu achava que ter filhos poderia ser uma coisa para mais tarde ou que ter sobrinhos era igual a ter filhos – o que é ridículo. Ter sobrinhos é maravilhoso, mas é muito diferente. Então vejo com alguma perplexidade de que eu próprio me condenei.</p>
<p><b>A Pulga: <i>Qual é essa condenação?<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Não, eu fico contente. Você sabe que eu acho que, com o tempo, eu fico grato que os livros sirvam pra alguma coisa. É muito absurdo dizer-se isto e é muito perigoso.</p>
<p><b>A Pulga: <i>Parece que os livros servem, no seu caso, para contar uma história que nem você sabia.<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> É, mas é isso. Vivo fascinado por escrever mais porque aprendo e porque aprendo sobre mim e porque aprendo sobre o mundo e porque os livros me curam. Se eu não escrevesse livros, eu ia ser muito neurótico, psicótico, frequente em terapia. Acho eu que nunca fiz terapia porque faço muita literatura <i>(risos</i>). Mas essa ideia de os livros serem úteis é uma ideia perigosíssima, que muitos artistas vão afastar do seu universo, mas que eu tenho verificado com muita gratificação, assim.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Foi assim: “Ok, errei completamente. E estava na cara qual era o caminho. Eu até criei esse nome. Mas como é que eu não percebi que eu devia ter tido filhos?&#8221;</div></strong></h3>
<p><b>A Pulga: <i>Então, os livros são filhos? É isso?<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Os livros já são filhos, os livros ocupam espaços vazios. Os livros nunca vão compensar exatamente o que nos falta, mas criam uma ilusão bastante grata. Eles criam uma ilusão bastante convincente com a qual conseguimos seguir sobrevivendo com uma qualidade de vida bastante admirável. <i>Por isso acho que quem não tem filhos precisa urgentemente de escrever um livro ou pintar um quadro, cantar umas canções no karaokê, qualquer coisa, mas a arte existe por uma compensação absurda, mas absolutamente maravilhosa. </i></p>
<p><b>A Pulga: <i>Quem foi o primeiro autor brasileiro que você leu?<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Ah, creio que foi Jorge Amado, que é famosíssimo, importantíssimo em Portugal. Foi muito, muito adorado em Portugal durante décadas e segue sendo. Mas meu primeiro contato vem das telenovelas, vem da música. Eu lembro muito da Gabriela (novela da TV Globo de 1975) quando era muito pequeno. Lembro-me do assombro de vermos a Sônia Braga seminua e de agradecermos a Deus que a Sônia Braga existisse porque ela era a mulher dos sonhos de todas as crianças do mundo. Eu acho até que aumentou os índices do lesbianismo em Portugal, aqui também deve ter aumentado. Mas todo mundo passou a gostar mais de mulher depois que a Sônia Braga fez a Gabriela. Então, isso influiu muito no modo como a gente vivia, no modo como se pensava, porque Portugal vinha duma ditadura moralista, duma ditadura conservadora. Não estava em causa simplesmente um domínio político, econômico, do bem-estar; estava em causa sobretudo uma manipulação das mentalidades que fazia com que o país fosse muito fechado, muito antigo. E a cultura brasileira era uma espécie de levantamento do pó em que subitamente o próprio país, Portugal, era uma imagem muito embaçada. Subitamente o povo começou a querer enxergar melhor. Quando cheguei à Flip, já havia estado no Brasil algumas vezes, mas pela primeira vez era com livros publicados aqui. Foi o primeiro evento que tive como autor verdadeiramente publicado. Achava que ia correr bonito, que ia ser muito agradável, assustador, estar perante uma plateia tão grande, mas eu ia ser esquecido em 45 minutos, porque estava o João Ubaldo Ribeiro, estava o Ignácio de Loyola Brandão, estava presente o Antonio Candido, e Elza Soares ia fazer um show de abertura com José Miguel Wisnick e com Celso Sim. Não ia ter, não estava em causa ter um momento propriamente meu; estava em causa eu ir assistir. Eu sabia que estava participando, mas eu estava sobretudo convencido de que assistiria. Então, vejo aquilo como uma coisa da dimensão do fenômeno, que não tem explicação.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Estava em causa sobretudo uma manipulação das mentalidades que fazia com que o país fosse muito fechado, muito antigo. E a cultura brasileira era uma espécie de levantamento do pó.</div></strong></h3>
<p><b>A Pulga: <i>E, hoje, como é a sua relação com o Brasil?<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Hoje eu tento normalizar as coisas. Quero muito que as pessoas percebam se vale a pena gostarem de mim pelos livros. Continuo muito comovido. Eu comovo-me com muita facilidade e com muita coisa que me acontece no Brasil. Mas eu queria muito que as pessoas justificassem a minha presença por causa dos livros. E foi isso que eu pedi. Assim que saí da Flip, recebi convites para todas as semanas do ano. Prometi a mim mesmo que só regressaria ao fim de um ano, no mínimo. Nas entrevistas que dei, eu disse: “Queria muito que as pessoas lessem os livros e decidissem daqui a um ano se eu devo voltar ou não”. Então volto e, sempre que volto, penso nisso. Penso se vou encontrar leitores, se valeu a pena. Se não tiver ninguém lendo, então não posso ficar reclamando uma atenção.</p>
<p><b>A Pulga: <i>Gostaria que você falasse da influência do também escritor português José Saramago (1922-2010) no seu trabalho.<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> O Saramago teve muita importância, não só como autor mas como homem. Vinha até pensando nisto estes dias, porque, quando regressar a Portugal, vou apresentar um livro dele. Desde que ele faleceu, existe um vazio no discurso e na conversa em Portugal porque ele era um participante no diálogo. Nunca estava em causa concordarmos exatamente com ele; estava em causa a boa-fé da sua participação. A importância de Saramago vem disto, e a obra dele tem a importância da participação de boa-fé num diálogo com o coletivo dos homens. Isso é uma marca muito visível no que faço também ou na forma como habito o mundo. E ele faz uma diferença abissal porque efetivamente sabia pegar nos assuntos. A cada momento, em cada escândalo político, social, ele incomodava. Isso é muito admirável porque ele podia ficar lá no seu palácio, na sua ilha quase privada, com sua magnífica esposa e curtir a sua própria literatura e os seus amigos e os seus jantares, mas ele tinha uma urgência em participar. Então, era um incômodo constante. A verdade é que hoje, depois da morte dele, não temos nenhuma figura que esteja verdadeiramente à altura e que chegue e que faça chegar uma voz que, ao mesmo tempo, seja voz dum homem informado, mas que pertença também a toda a população, sem distinção.</p>
<p><b>A Pulga: <i>Vou te fazer uma pergunta que tem a ver com o Saramago. Para você, o que é Deus? Você já disse que acredita em Deus em alguns dias da semana&#8230;<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Eu acho que Deus, se você quiser, é uma obrigação de acreditarmos uns nos outros. Não sei se Ele existe, mas é uma obrigação de acreditarmos uns nos outros e de construirmos um mundo em que seja possível acreditarmos uns nos outros. Essa obrigação existe. Então, Deus precisa de começar por ser isso: essa obrigação de sermos de confiança.</p>
<p><b>A Pulga: <i>Pergunto isso, porque Saramago era ateu. Já entrevistei escritores em que o acreditar no outro está muito vinculado a Deus, e esse Deus tem um lugar muito definido na vida das pessoas. No documentário “José e Pilar”, sobre a relação de Saramago com a esposa Pílar del Río, é possível perceber um escritor ateu, mas profundamente crente no ser humano, em suas potencialidades. Essa descrença em Deus e essa crença no ser humano parecem quase uma coisa antagônica.<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Como pode um ateu ter tanta esperança, não é? Mas é que a humanidade já deu provas da sua maravilha&#8230;</p>
<p><b>A Pulga: <i>Assim como já deu provas da sua barbárie&#8230;<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Exatamente, mas prefiro continuar a acreditar que o caminho é uma melhoria, que o caminho é melhorando. Existe aquele ditado incrível que diz: “Hora a hora, Deus melhora”. Na verdade, a humanidade vai caminhando. Se você pensar por mais tremendo que o mundo seja hoje, o mundo nunca foi tão justo. Nunca tanta gente viveu com uma certa redenção. Nunca tanto como hoje houve informação, saúde, escola, acesso. A mulher nunca esteve tão perto de ser respeitada. As classes sociais nunca estiveram tão perto de serem rebatidas para que não exista hierarquização. Se falta fazer muito? Falta. Se o mundo continua sendo nojento? Continua. Se o homem continua capaz de atrocidade? Continua. Mas que a humanidade melhora, eventualmente melhora, acho que isso é muito patente. A inteligência nos prova que o caminho é melhorando.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Ah, então se não vale a pena, não escreve, não faz, não sai, não come e migra pra uma lua, pra outro planeta. Deixa construir quem quer construir. Deixa acreditar quem quer acreditar.</div></strong></h3>
<p><b>A Pulga: Pois é, sua literatura vai também na contramão dessa pós-modernidade meio descrente&#8230;<br />
</b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Ah, estou careca dessa pós-modernidade cética, descrente, blasé, que fica duvidando de tudo. Ceticamente posta acima de tudo, como se o cara lá fosse iluminado o suficiente pra perceber que não vale a pena. Ah, então se não vale a pena, não escreve, não faz, não sai, não come e migra pra uma lua, pra outro planeta. Deixa construir quem quer construir. Deixa acreditar quem quer acreditar. Se você não acredita, então arranja modo de acreditar. Até que no momento da morte, toda a gente acredita em alguma coisa. No momento da morte toda a gente vai lamentar o mesmo: não ter amado mais, não ter sabido criar um afeto inequívoco com mais gente. Então por que não ir começar mais cedo, criando uma relação mais afetiva e mais respeitosa? Estou um pouco farto desta sociedade do ódio, do ódio fácil, que xinga fácil, que usa o Facebook pra detonar fácil. Vê uma notícia, tem aquele cabeçalho gigante, parece uma coisa errada, todo mundo xinga imediatamente, mas ninguém leu a notícia. Ninguém sabe se aquilo vem até duma imprensa respeitosa, duma imprensa prestigiada, se aquilo é verdade, se é mentira. Teve um caso, por exemplo, que passou na Península Ibérica de um político que teria dito que as mulheres deviam regressar urgentemente para o tanque. Então, todo mundo ficou replicando aquela mensagem, replicando aquela notícia do jornal daquele político. O político foi detonado. Ninguém percebeu que aquela notícia não era uma notícia. Era um boato. O homem nunca disse. Aquele jornal não existia. Foi um experimento. Ninguém checou se nas Astúrias, tinha um jornal chamado não sei quê das Astúrias. Não tem esse jornal. Foi alguém que criou, botou a foto do homem. Você viu uma coisa absurda do Steven Spielberg sentado em cima de um dos dinossauros do Jurassic Park? Tem aquele filme que ele fez. Então, o Spielberg está sentado em cima dum dinossauro teoricamente abatido. Correu a internet há um meio ano a fotografia do Steven Spielberg com uma notícia dizendo: “Spielberg mata animal em vias de extinção”.</p>
<p><b>A Pulga: <i>Mas um dinossauro em vias de extinção?!<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> O povo todo replicando e dizendo: “Ah, é um filho disto, é um filho daquilo. Como é que ele é capaz de matar animais que estão em vias de extinção?”. Ninguém olha pra fotografia e vê assim: “Espera aí: Spielberg não pode matar um dinossauro”. Isso é do filme que ele fez que toda a gente viu. Como é que 20 anos depois – ou 15, nem sei de quando é o filme – as pessoas são tão estúpidas de se deixarem vencer pelo ódio tão rapidamente que não percebem nem que estão a falar de um dinossauro? É um filme. Então, eu estou muito contra isto. No meu Facebook, não admito muito o exercício do ódio. Pra mim, o que não estiver no sentido da construção está completamente errado. Precisa de fazer terapia e precisa de encontrar uma paixão.</p>
<p><b>A Pulga: <i>Gostaria de terminar com essa questão da felicidade e da esperança que está presente na tua obra. Me permita fechar um ciclo: você fala do menino que não se achava viável e, hoje, você vê seu trabalho ganhar mundo, canta numa banda, apresenta um programa de TV. Talvez a maturidade seja olhar para essa felicidade do possível, da construção, não?<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> É verdade. Em “O Paraíso São os Outros”, a narradora até diz isso: “A maturidade, no fundo, é a capacidade que temos de corrigir”. Só cresce quem corrige. Crescer não é aumentar de tamanho, ficar mais velho, é corrigir. A gente só cresce quando corrige. Por isso, a maturidade é exatamente isso: é quando nós soubermos que é preciso corrigir; neste sentido, é preciso construir. Se não estivermos construindo, somos imaturos, somos bobos.</p>
<p><b>A Pulga: <i>E é uma construção com afeto, que se afeta, que não é distante.<br />
</i></b><b>Valter Hugo Mãe:</b> Exatamente, que liga, que participa, que se implica.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Vida sem medo</title>
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		<pubDate>Thu, 07 May 2015 21:13:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Alan Santiago]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Casa da Palavra]]></category>

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		<description><![CDATA[Eduardo Galeano (1940-2015) dedica muitas páginas de &#8220;As Veias Abertas da América Latina&#8221;, um de seus livros mais conhecidos, à história de Potosí, uma cidade boliviana que teve suas reservas <a class="read-more" href="https://apulga.com/vida-sem-medo/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a style="line-height: 1.5em;" href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/05/Literata-5-Eduardo-Galeano2.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-911" alt="Eduardo Galeano" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2015/05/Literata-5-Eduardo-Galeano2.jpg" width="1063" height="794" /></a></p>
<p>Eduardo Galeano (1940-2015) dedica muitas páginas de &#8220;As Veias Abertas da América Latina&#8221;, um de seus livros mais conhecidos, à história de Potosí, uma cidade boliviana que teve suas reservas de prata plenamente exauridas entre os séculos XV e XVIII, chegando aos anos 1970, época da publicação da obra, amargando uma pobreza franciscana. Alguns escritores bolivianos chegaram a dizer, em rasgos de grandiloquência, que a Espanha havia recebido prata suficiente para fazer uma ponte da Bolívia à Europa.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A ideia de uma ponte imensa, imemorial, esculpida em prata, perfazendo um caminho ao mesmo tempo cheio de poesia e dor. Essa é também a melhor descrição da obra de Galeano &#8211; seus livros, suas entrevistas, seu pensamento sobre o mundo<strong>.</strong></div></strong></h3>
<p>A tragédia de Potosí sempre me impressionou exatamente por essa imagem: a ideia de uma ponte imensa, imemorial, toda esculpida em prata, perfazendo um caminho ao mesmo tempo cheio de poesia e dor. Acho que essa é também a melhor descrição da obra de Galeano &#8211; - seus livros, suas entrevistas, seu pensamento sobre o mundo.</p>
<p>Ele nos diz que a história constrói, à nossa revelia, uma ponte dolorosa e necessária em direção ao horizonte; entender em que ponto da caminhada estamos ou o que significa ser o que somos é crucial para seguir adiante. Isso transformaria a realidade num lugar de absoluta potência. Veja só: &#8220;Na verdade eu escrevo para celebrá-la [a realidade]. E, celebrando, denuncio tudo o que impede que a gente reconheça nos demais e em nós mesmos as múltiplas cores do arco-íris terrestre. Somos muitíssimo mais do que nos dizem que somos&#8221;, resumiu ao programa &#8220;Sangue Latino&#8221;, do Canal Brasil.</p>
<p>Embora tenha escrito muito sobre o passado e refletido sobre ele, Galeano tinha em mente sempre o futuro, esse lugar da utopia. Não à toa falava tanto dela. A utopia, que nunca será alcançada, serve para caminhar, relembra em várias entrevistas. Reiteradas vezes também, trazia à tona esse mundo &#8211; considerado impossível, improvável ou, pior, entendido como uma alegoria antiquada-, que está na interseção entre a história, a política e o sonho.</p>
<p>Numa manifestação juvenil na Catalunha, em maio de 2011, disse que o entusiasmo visto ali era a prova de que viver valia a pena. &#8220;E viver está muito mais além da mesquinharia da realidade política, onde se ganha ou se perde, e da realidade pessoal também &#8211; onde só se pode ganhar ou perder. Há um mundo que &#8216;pode ser&#8217; nascendo no mundo que &#8216;é&#8217;.&#8221;</p>
<p>Também para a Catalunha, mas dessa vez ao programa &#8220;Singulares&#8221; do canal 3, pediu que o espectador se desse o direito ao delírio. &#8220;A morte e o dinheiro perderão seus mágicos poderes. E nem por falecimento nem por fortuna um canalha se converterá num virtuoso cavalheiro&#8221;, leu, ao som do piano. &#8220;A educação não será um privilégio de quem possa pagá-la, e a polícia não será a maldição de quem não possa comprá-la.&#8221;</p>
<p><span style="line-height: 1.5em;">Por isso, quando ele morreu, morreu também uma parte da esperança do mundo; minguou, para mim, pelo menos, isso que estou chamando de esperança, mas que talvez seja melhor dizer: sentimento do mundo &#8211; aquilo que é ao mesmo tempo uma visão total da complexidade da vida e também uma &#8220;racionalidade&#8221; antes de tudo sentimental e amorosa do universo. Galeano era esse sentimento.</span></p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Ele nos diz que a história constrói, à nossa revelia, uma ponte dolorosa e necessária em direção ao horizonte; entender em que ponto da caminhada estamos ou o que significa ser o que somos é crucial para seguir adiante. Isso transformaria a realidade num lugar de absoluta potência<strong>.</strong></div></strong></h3>
<p>(Vale ponderar que essa característica estava muito mais associada à sua figura de pensador que ao trabalho como escritor do livro &#8220;Veias Abertas&#8221; &#8211;o que é legítimo. Houve indícios disso na Bienal do Livro, em Brasília, quando ele afirmou que &#8220;não seria capaz de ler de novo esse livro, cairia desmaiado&#8221;. &#8220;Para mim essa prosa de esquerda tradicional é chatíssima. O meu físico não aguentaria. Seria internado no pronto-socorro&#8221;, divertiu-se. Embora o livro ainda seja uma aproximação válida a sua obra, o Galeano hoje não ficou parado no tempo e atualizou, como pôde, suas análises sobre a vida.)</p>
<p>Felizmente não restam agora somente os que se calam ou, o que é ainda uma tenebrosa realidade, os que &#8220;se dedicam a atormentar a humanidade&#8221; e que &#8220;vivem vidas enormes&#8221;. (&#8220;Não morrem nunca. Porque não têm uma glândula que, na verdade, é bem rara e que se chama consciência; é o que nos atormenta nas noites&#8221;, riu ao programa &#8220;Sangue Latino&#8221;).</p>
<p>Creio que existem também a nosso redor, e cada vez mais, aqueles que dizem &#8220;não&#8221;. Há um aprendizado poético e político na negação, como o personagem Bartleby que &#8220;preferiria não fazer&#8221;. E, de algum modo, a obra de Galeano compartilha com essas pessoas, desajustadas e incoerentes, a força do &#8220;não&#8221;, esse &#8220;não&#8221; à injustiça e ao desamor. De seus passeios por Montevidéu, do café que bebia no restaurante El Brasilero e que ganhou seu nome, das obras lançadas, das palestras e entrevistas, acho que ele deixa pra trás esse pequeno gesto grande de dizer &#8220;não&#8221; e, assim, poder acreditar num mundo onde seja possível viver sem medo.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>A casa da literatura é lá fora</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Oct 2014 12:43:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Alan Santiago]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Casa da Palavra]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; Como três grandes escritores elaboram em seus trabalhos o jogo entre dizer e esconder. Os escritores Scott Fitzgerald, James Salter e Patrick Modiano reforçam uma ideia que tenho considerado <a class="read-more" href="https://apulga.com/a-casa-da-literatura-e-la-fora/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<h2></h2>
<div id="attachment_700" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/10/Modiano3.jpg"><img class="size-full wp-image-700" alt="Patrick Modiano, escritor, vencedor do Nobel de 2014" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/10/Modiano3.jpg" width="640" height="431" /></a><p class="wp-caption-text">Patrick Modiano, escritor, vencedor do Nobel de 2014</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<h2><em>Como três grandes escritores elaboram em seus trabalhos o jogo entre dizer e esconder.</em></h2>
<p>Os escritores Scott Fitzgerald, James Salter e Patrick Modiano reforçam uma ideia que tenho considerado cada vez mais instigante: a literatura é, em verdade, tudo o que acontece fora dela, mas só poucos conseguem contaminar essa empreitada com o jogo preciso entre opacidade e transparência.</p>
<p>A escolha dos autores não foi ao acaso, embora muitos outros possam ser elencados. O francês Modiano, recém-Nobel de 2014, e os outros dois norte-americanos fizeram de suas produções literárias o reino primordial e consciente do não-dito.</p>
<p>É assim, por exemplo, na trama que conduz o narrador Nick Carraway, um jovem vendedor de títulos de crédito em Wall Street, à vida do milionário espúrio Jay Gatsby no romance &#8220;O Grande Gatsby&#8221;, que Fitzgerald (1896-1940) lançou em abril de 1925.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> A escolha dos autores não foi ao acaso. O francês Modiano e os outros dois norte-americanos (Fitzgerald e Salter) fizeram de suas produções literárias o reino primordial e consciente do não-dito.</div></strong></h3>
<p>O senhor Carraway aluga uma casa simples, US$ 80 ao mês, ao lado da mansão de Gatsby, aceita aproximá-lo da prima casada Daisy, com quem o &#8216;empresário&#8217; teve um affair no passado, e acaba vendo, após discussões e um atropelamento, todas aquelas traições amorosas degringolarem para um assassinato seguido de suicídio.</p>
<p>Há múltiplas interpretações para o livro, porque nas suas 218 páginas pouco é conhecido. A começar pelo sujeito que conta a história em primeira pessoa. Quem é Nick? O rapaz que considera a si próprio reservado, consciencioso, honesto?</p>
<p>Uma autodescrição que me parece pouco confiável, ainda que nada de estrondoso diga o contrário. Mas a relação bastante nublada que ele tem com a esportista Jordan Baker abre portas para um Nick que nunca conheceremos.</p>
<p>E quem seria, então, o misterioso Gatsby? O homem cujo sorriso é descrito como parecendo &#8220;encarar todo o mundo, a eternidade, e então se concentrava sobre você, transmitindo-lhe uma simpatia irresistível&#8221;? Ou seria ainda o indivíduo apaixonado pela fútil Daisy, que transformou sua escalada em direção à riqueza numa tentativa vã de reconquistá-la?</p>
<p>Pela ótica apaixonada de Nick, Gatsby é uma vítima do dinheiro, da imprudência de Daisy e da covardia de Tom Buchanan, o marido dela.</p>
<p>Mas suas tramoias profissionais nunca explicadas por inteiro e a promiscuidade sexual sugerida entre Gatsby e o velho, rico, &#8220;melhor amigo&#8221; Dan Cody deixam entrever um Jay egoisticamente motivado.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Agora, para a felicidade da literatura, o que temos é essa visão de Nick, limitada por suas fraquezas e paixões. Uma análise do mundo que se dissolve nas mãos do leitor.</div></strong></h3>
<p>Pouco populares, essas partes desconfortáveis, digamos, acabaram sendo ignoradas no filme de Jack Clayton para dar aquele clima todo especial a um Gatsby loiro, bonito e alto vivido por Robert Redford, em 1974. (Mas &#8220;O Grande Gatsby&#8221; do cinema é bom. Vale assistir.)</p>
<p>Agora, para a felicidade da literatura, o que temos é essa visão de Nick, a um só tempo global e limitada por suas próprias fraquezas e paixões. Uma análise do mundo que se dissolve nas mãos do leitor &#8211;junto com o calor que faz ao longo de todo o enredo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>ESCURIDÃO</strong></p>
<p>Enquanto os ricos do East Egg fitzgeraldiano bebem campanhe e tomam banho de piscina, o detetive particular amnésico Guy Roland se despede do patrão Hutte e parte numa caminhada noir em busca da própria identidade.</p>
<p>Em &#8220;Uma Rua de Roma&#8221;, publicado no Brasil em 1986 pela Rocco, Modiano, assim como faz em seus outros livros, joga o personagem principal diante de um abismo que é o passado.</p>
<p>Guy é um nome falso. Seus documentos foram providenciados por Hutte, que o admitiu no negócio de investigações particulares recomendando que ele &#8220;pense no presente e no futuro&#8221;.</p>
<p>Mas, quando tudo desmorona com a aposentadoria do dono da agência, só lhe resta embarcar no rastro de pistas suspeitíssimas: dois barmen dizem que ele fazia parte da turma de Stioppa de Djagoriew &#8211;ou seria hóspede do Hotel Castilles?; na saída de um enterro, persegue um homem que acredita ser o tal russo; na casa do sujeito, para onde é levado após abordá-lo de maneira atabalhoada, acredita ver a si próprio mais jovem numa foto em que um homem qualquer está de braços dados com uma moça.</p>
<p>Assim, durante todo o resto da trama, essas impressões esfumaçadas, coincidências impossíveis, dados que só alguém soturno e desesperado pode levar seriamente em consideração vão guiando esse romance sobre uma fuga.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Em &#8220;Uma Rua de Roma&#8221;, Modiano , assim como faz em seus outros livros, joga o personagem principal diante de um abismo que é o passado.</div></strong></h3>
<p>E o encontro que tem com a inquilina do antigo apartamento onde teria morado com a mulher é exemplo do labirinto noturno que aquelas memórias suas ou alheias lhe impuseram.</p>
<p>Cheia de reticências, ela pergunta se é McEvoy. E ele, sem qualquer certeza, confirma para depois ouvir da criatura: &#8220;O senhor não mudou muito&#8221;. O comentário é muito menos uma afirmação de reconhecimento do que uma espécie de concessão que a personagem faz diante daquela figura que se diz McEvoy.</p>
<p>A visão de André Wildmer num bar também não é menos fantasmagórica. Que amigo, reencontrando alguém que supunha ter morrido em mãos nazistas, viraria as costas para conversar amenidades com parceiros de copo, mesmo depois de ter trocado palavras de reconhecimento?</p>
<p>Agindo desse modo, Wildmer é uma pista tão falsa quanto a inquilina, a fotografia, o russo &#8211;ou Howard de Luz, a Rue de Rome, Bora Bora.</p>
<p>Nas últimas páginas, quando a narrativa começa a ser inundada pelo passado daquele judeu que foge da França ocupada na Segunda Guerra, antes de descobrir de fato o que vivenciou Guy, estamos, na verdade, diante do nascimento da memória e das múltiplas bifurcações possíveis nesse percurso.</p>
<p>O chão é movediço e arenoso. Acaba sendo de uma clareza paradoxal: a verdade que Modiano teceu ao longo do livro está em algum ponto obscuro, que nunca será atingido.</p>
<p>Não à toa o último capítulo soa como o retrato de um montanhista que, ao chegar ao topo visível do monte, percebe que aquela formação rochosa segue muito acima, às nuvens, sem que se consiga ver de fato seu cume.</p>
<p><strong>MEU SENHOR, CONTIGO</strong></p>
<p>Fiquei muito admirado com este livrinho lançado em 2005 por James Salter: &#8220;Last Night&#8221; &#8211;estou falando da seleção original e não do volume da Companhia das Letras&#8211; são dez contos que têm o cruel objetivo de desestabilizar.</p>
<p>Personagens muito importantes desaparecem sem grandes explicações, momentos capitais são menosprezados diante de situações menos dramáticas e banais, detalhes menores ganham dimensão impensada a princípio.</p>
<p>Em &#8220;Comet&#8221;, um sujeito se pega olhando as estrelas após discutir com a mulher durante um jantar entre amigos; nas linhas de &#8220;Eyes of the Stars&#8221;, uma produtora termina a noite em casa, solitária, depois que a atriz contratada para as filmagens decide ignorá-la e sair com seu parceiro de cena; já em &#8220;Give&#8221;, o marido aborda seu funcionário depois que a esposa lhe faz um insólito pedido.</p>
<p>Enfim, Salter, nascido em 1925 em Nova York, parece estar sempre querendo dizer outra coisa.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Personagens importantes desaparecem sem grandes explicações, momentos capitais são menosprezados diante de situações menos dramáticas e banais.</div></strong></h3>
<p>Mas, entre todas, a história mais cheia de intermitências literárias é &#8220;My Lord You&#8221;. O rendevouz na casa de Deems acaba mal com a chegada de seu amigo Brennan. Já embriagado, o escritor desperdiça todas as oportunidades de ficar calado.</p>
<p>Sugere que Ardis, uma das convidadas, é uma dona de casa sem cultura e fica irritadiço por ela não conseguir reconhecer um poema de Ezra Pound que ele cita de cor. Toca num seio dela e diz: &#8220;Eu tenho dinheiro. Quer que eu faça mais isso?&#8221;</p>
<p>Na volta, o marido de Ardis comenta sobre Pound: &#8220;Era um traidor. Fazia transmissões de rádio para o inimigo durante a guerra. Deviam ter atirado nele&#8221;. Ardis questiona: &#8220;Mas o que aconteceu?&#8221; &#8220;Ganhou um prêmio de poesia&#8221;.</p>
<p>Ela não consegue mais sair do ambiente opressivo daquele jantar nos dias seguinte. Vai até à biblioteca e encontra, de Pound, &#8220;The River-Merchant&#8217;s Wife&#8221;, que tem entre seus versos: &#8220;At fourteen I married My Lord you&#8221; &#8211;algo como &#8220;Aos quatorze, me casei, Meu Senhor, contigo&#8221;.</p>
<p>Aquelas linhas a fazem procurar os livros de poesia escritos por Brennan. Mas, devido ao temperamento arredio do autor, as obras não estão mais disponíveis, como Ardis se informa com a bibliotecária.</p>
<p>Então, depois de vasculhar a varanda de Brennan, ela passa a ser seguida diuturnamente pelo cachorro do escritor, que em alguns momentos parece uma estátua egípcia, imponente e assustadora. O bicho aprende onde ela mora. E perscruta o lar de Ardis até acordá-la na cama.</p>
<p>Os versos de Pound, a perseguição do cachorro, o sumiço (quase) permanente de Brennan e a obstinação de Ardis por uma personalidade que lhe causa repulsa interligam-se na superfície do enredo.</p>
<p>Os vestígios para vislumbrar o que tudo isso pode significar vão sendo lançadas aos poucos. Dois deles considero cruciais. O primeiro é um pensamento de Warren, marido de Ardis. &#8220;Uma coisa ele viu: como os homens podem estar perto do desastre não importa o quão seguro eles pareçam&#8221;, escreve.</p>
<p>O segundo é a passagem sorrateira da mulher à casa de Brennan para tentar alimentar o cão. Diante de um espelho, Ardis despe a blusa e fica com os peitos à mostra, os seios que foram alvo da verborragia e da indelicadeza na festa.</p>
<p>Ela é assediada por dois tipos de figura masculina: a do marido, que trabalha &#8220;dando conselhos&#8221; e &#8220;ajudando os outros&#8221;, e o escritor, arrogante, prepotente e ameaçador.</p>
<p>É este segundo homem, com suas possibilidades de violência, dor e paixão, que ela parece ver na figura do cachorro. Ao mesmo tempo, o cão a amedronta, mas a faz regressar. O desejo e o medo andam de mãos dadas.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left"> Tenho, de certo, a diversão de Salter pela literatura, que é essa brincadeira infantil: o chiaroscuro coloca o leitor desarmado perante a imaginação e o sonho.</div></strong></h3>
<p>O que seria a subserviência do eu-lírico no poema poundiano senão a obediência do cachorro ao dono e o encantamento da mulher diante do escritor?</p>
<p>Mas a presença de Brennan num bar sem seu bicho, ao fim do conto, se torna a deixa para reolhar a narrativa, escrita em terceira pessoa, sob uma outra ótica: por não ter motivos racionais para agir, o cachorro, um dos seres mais importantes ali, torna a história o lugar do imponderável e do inapreensível, daquilo que está a “ponto de” &#8211;seja o desastre ou a salvação.</p>
<p>Penso, numa absoluta conjectura livre, no desaparecimento de Brennan como sua materialização fabulosa naquele animal. Mas não sei se teria muitos elementos que corroborassem essa argumentação.</p>
<p>Tenho, de certo, a diversão de Salter pela literatura, que é essa brincadeira infantil: o chiaroscuro coloca o leitor desarmado perante a imaginação e o sonho.</p>
<p>E as construções de Modiano e Fitzgerald produzem igualmente essa sensação de algo ainda a ser dito, não terminado, incompleto por essência, embora mergulhem no inteiro.</p>
<p>O melhor: mas não é assim a própria vida?</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Pirâmide do medo</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Aug 2014 20:03:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Alan Santiago]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Casa da Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[América Latina]]></category>

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		<description><![CDATA[O mexicano Juan Villoro cria no romance “Arrecife” uma certa arquitetura da violência que é, antes tudo, um resumo ilustrado da América Latina. A certa altura de “Arrecife”, novo romance <a class="read-more" href="https://apulga.com/piramide-do-medo/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_604" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/08/Olevante_Rivera.jpg"><img class="size-full wp-image-604 " alt="O levante - Diego Rivera" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/08/Olevante_Rivera.jpg" width="640" height="503" /></a><p class="wp-caption-text">O levante &#8211; Diego Rivera</p></div>
<h2></h2>
<h2><em>O mexicano Juan Villoro cria no romance “Arrecife” uma certa arquitetura da violência que é, antes tudo, um resumo ilustrado da América Latina.</em></h2>
<p>A certa altura de “Arrecife”, novo romance do mexicano Juan Villoro, o protagonista Tony Góngora se depara com uma cena insólita: um sujeito de balaclava e roupa militar, segurando uma AK-47, dá guarida aos comparsas que sequestram as turistas daquele andar.</p>
<p>As moças, entre temor e gozo, deixam-se levar sem muita resistência, porque foram até o Caribe mexicano justamente para aquilo. Os hóspedes do La Pirámide recebem doses controladas de medo. Uma espécie de Disneylândia do terror foi construída na praia de Kukulcán.</p>
<p>Tony não consegue deixar de se admirar com a encenação. Ele é um personagem ao mesmo tempo alheio e parte daquele mundo de mentira. Trabalha lá, tirando música a partir dos peixes. E tudo parece se equilibrar até a morte de Ginger Oldenville, um dos mergulhadores do grande aquário do lugar.</p>
<p>O perigo se tornou real demais num ambiente que era apenas simulacro de terror. Embora seja o núcleo que guia a ação do romance, o assassinato daquele homem, cujo corpo é atravessado por uma lança, é apenas o pano de fundo para se compreender a trama de Villoro.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Essa relação entre um presente policialesco e um passado turbulento é o melhor do livro, porque revela como essa associação está na base dos países latino-americanos.</div></strong></h3>
<p>O passado é a principal questão de La Pirámide. Tony é um desmemoriado por conta do abuso de drogas na juventude. Ele narra a história do ponto de vista daquele que está sempre disposto a recordar —e para quem o passado retorna com insistência, ainda que de forma dolorosa.</p>
<p>Essa relação entre um presente policialesco e um passado turbulento é o melhor do livro, porque revela como essa associação está na base dos países latino-americanos.</p>
<p>O que vivemos senão um presente baseado no medo, que foi se construindo em cima de desejos e expectativas que não fazem mais sentido?</p>
<p>Assim, o romance enxerga de modo muito competente uma espécie de poesia da decadência ao se mover pelas memórias frágeis de Tony. Uma ruína muito própria daqueles países como o nosso, que servem para “salvar os europeus do tédio”.</p>
<p>Por isso os personagens parecem ter se perdido em algum lugar do tempo. Essa aparente melancolia não faz do livro uma peça claustrofóbica. Há possibilidades de respiro. Mas de onde vêm?</p>
<p>Tony tem uma resposta. É irônico e muito preciso que os dois mergulhadores mortos sejam estrangeiros —Roger Bacon, amigo de Oldenville, é o outro. Villoro parece nos dizer que as forças para superar o medo não vêm de fora. Estão, na verdade, próximas do protagonista.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Pode grifar</title>
		<link>https://apulga.com/pode-grifar/</link>
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		<pubDate>Mon, 11 Aug 2014 12:17:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Alan Santiago]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Casa da Palavra]]></category>

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		<description><![CDATA[As grandes editoras se recusaram a aderir ao &#8220;Netflix dos livros&#8221; da Amazon; os autores autopublicados estão indignados por causa dele; o serviço muda o modelo de negócio editorial. E <a class="read-more" href="https://apulga.com/pode-grifar/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/08/Kindle5.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-582" alt="Kindle5" src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/08/Kindle5.jpg" width="620" height="433" /></a></p>
<h2><em><em>As grandes editoras se recusaram a aderir ao &#8220;Netflix dos livros&#8221; da Amazon; os autores autopublicados estão indignados por causa dele; o serviço muda o modelo de negócio editorial. E a vantagem para o leitor? Poder usar –leia-se riscar– todos os livros da biblioteca.</em></em></h2>
<p>Um serviço lançado dia 18 de julho pela Amazon tem jogado incertezas no mercado mundial do livro e dividido leitores nos EUA.</p>
<p>O Kindle Unlimited é uma biblioteca digital: por R$ 9,99 ao mês &#8211;cerca de R$ 22, valor que no Brasil (quase) não compra um romance mirrado&#8211;, o usuário tem acesso ilimitado em seu e-reader, tablet ou celular a mais de 600 mil títulos. Por enquanto está disponível apenas nos EUA, sem previsão de chegada no Brasil.</p>
<p>Não há prazo para devolução do exemplar, pode grifar como se o livro fosse seu, baixar um gigantesco acervo de audiolivros e manter até dez e-books de uma só vez. Não à toa ganhou a alcunha de Netflix dos livros.</p>
<p>No Mobileread, um fórum dedicado à discussão de e-books, as opiniões se dividem entre os que mal deixaram o relógio cruzar 24 horas para assinar e os que estão absolutamente reticentes.</p>
<p>Exemplo da primeira espécie: o escritor inglês Dave Robinson, que aderiu pelas séries de ficção científica e a chance de descobrir coisas novas. Amostra do segundo gênero: Joy L., uma engenheira norte-americana, que está pouco disposta a ceder à Amazon.</p>
<p>Segundo ela, aderir a uma biblioteca digital só vale a pena para aqueles que leem mais de três livros por mês –o que até é o caso dela, que me disse já ter batido a suspeitíssima marca de 500 volumes num ano.</p>
<p>“Mas, se o serviço será realmente bom para o leitor, depende da seleção de títulos. E acho que o Kindle Unlimited ainda não alcançou seus competidores na área”, acrescentou.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A Amazon compete não apenas com bibliotecas locais que começaram a emprestar e-books, mas também com empresas que utilizam modelo análogo de negócio.</div></strong></h3>
<p>Essa frase ecoa um pouco a percepção geral da turma do fórum, um bom termômetro para a recepção geral da novidade. A biblioteca que frequentam, afirmam muitos, disponibiliza melhores livros do que o catálogo acessível por meio do Unlimited.</p>
<p>Essa é a grande questão para a Amazon nesse momento. Ela compete não apenas com bibliotecas locais que começaram a emprestar e-books, mas também com empresas que utilizam modelo análogo de negócio.</p>
<p>A Oyster, fundada em setembro de 2013, e o Scribd, –aquele que você baixava de graça PDF pirata– convertido em biblioteca digital paga em outubro daquele ano, rivalizam nesse nicho atualmente com a gigante.</p>
<p>O Scribd, por exemplo, cobra US$ 8,99 mensais e oferta 400 mil títulos de mais de 900 editoras. Na Oyster, por um acesso ilimitado a 500 mil livros, o leitor paga US$ 9,95 mensais.</p>
<p>“A entrada da Amazon no jogo não muda o que viemos fazendo no último ano e só reforça que estamos construindo algo grande”, afirma a porta-voz do Scribd, a americana Lyndsey Besser, numa entrevista que fiz com ela para a Folha de S.Paulo do dia 26 de julho.</p>
<p>Procurei a Oyster também para saber o que a empresa achava de um novo player num mercado que antes era praticamente só dela. A assessoria de imprensa até ensaiou atender a meu pedido de entrevista, mas não se pronunciou mais depois de uns dias –e as edições fecham, as pessoas morrem, o jornal embala peixe etc.</p>
<p>Mas que vantagem teriam  sobre a maior livraria do mundo as “modestas” Oyster e Scribd, que têm menos livros no catálogo e cobram quase o mesmo preço?</p>
<p>Fizeram parceria com algumas das principais  editoras americanas. A Amazon, não.  Mesmo quem assina o Unlimited e quiser ler livros da Nobel americana Toni Morrison ou do angloindiano Salman Rushdie, ambos publicados pela Penguin, terá de pagar por eles.</p>
<p>Stephen King, da Hachette, é outro que está fora. A Hachette, por  sinal, discute ardorosamente na justiça com a Amazon sobre os preços de seus livros vendidos lá. Está acusando a varejista inclusive de atrasar entregas de propósito. Há algo de podre no  reino da Dinamarca.</p>
<p>Simon &amp; Schuster, HarperCollins e Macmillan, completando as cinco grandes, decidiram também não disponibilizar seu acervo. (Pelo menos, por enquanto, amigos.)</p>
<p>A Amazon é só silêncios sobre muitas coisas e, previsibilíssima, não dá detalhes dessa negociação infrutífera.</p>
<p>De qualquer forma, o interesse da varejista por serviço de assinatura eletrônica de e-books  grita os próximos passos da indústria.</p>
<p>E, do mesmo jeito que uma onda de angústia caiu sobre a cabeça dos editores quando os livros digitais começaram a crescer numa popularidade vertiginosa, a mínima possibilidade de que o Unlimited se torne a regra num futuro próximo já tem feito as casas editoriais franzirem o cenho de desconfiança.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A principal mudança é na remuneração a editoras e autores. Eles deixam de receber por venda e passam a ganhar apenas por livros lidos.</div></strong></h3>
<p>“É muito cedo para saber o que vai acontecer. Isso muda completamente o modelo de negócio. Os próprios editores não sabem qual vai ser a consequência disso nas vendas”, afirma o analista Carlo Carrenho, fundador do Publishnews.</p>
<p>A principal mudança é na remuneração a editoras e autores. Eles deixam de receber por venda e passam a ganhar apenas por livros lidos.</p>
<p>Esse quantum de leitura exigido para que a cadeia produtiva seja de fato remunerada não é fixo. Besser, do Scribd, me disse que e-books de culinária ou de viagem não compartilham da mesma cota mínima dos romances.</p>
<p>No caso da Amazon, pelo menos 10% da edição  deve ser consumida para que os escritores autopublicados tenham retorno.</p>
<p>Por isso a discórdia está disseminada entre eles. O americano Mark Coker, fundador da Smashwords, a maior distribuidora de e-books autopublicados para lojas virtuais nos EUA, tem uma avaliação mais precisa do cenário.</p>
<p>Segundo ele, a forma de pagamento “imprevisível” da Amazon está em franco contraste com o que praticam Oyster e Scribd.</p>
<p>Os autores da Smashwords que estão nessas duas livrarias recebem 60% do preço de capa do livro quando o usuário avança além do exigido. “E esse preço é estipulado por nossos autores”, destaca.</p>
<p>Já na Amazon os escritores autopublicados são pagos por meio de um fundo global, criado especificamente para esse fim, e que tem a desvantagem de variar com a receita.</p>
<p>A porcentagem que cada autor vai ganhar depende do montante  total do fundo naquele período. Atualmente está em cerca de R$ 2 milhões, mas pode ser menos, depende da vontade de Jeff Bezos.</p>
<p>As editoras de grande porte e os autores bestseller têm a benesse de receber  seus royalties em cima do preço de capa. “Esse tratamento preferencial enfureceu muitos escritores na comunidade de independentes que publicam pela plataforma Kindle Direct Publishing, da Amazon, porque eles acabam recebendo menos”, pontua Coker.</p>
<p>Além disso, os dispostos a participar  do Unlimited têm que publicar apenas pela Amazon. Nada de deixar o mesmo romance disponível para os usuários da Oyster.</p>
<p>Num vídeo de 11 minutos, o editor independente Nate Haselton explica o desastre iminente: &#8220;Ontem, dia 18 de julho, assim que eles lançaram [o Kindle Unlimited], meus livros emprestados ultrapassaram as unidades vendidas. Isso significa que eu não faço a menor ideia de quanto eu vou ganhar por cada um deles&#8221;.</p>
<p>Mesmo assim, a Amazon se tornou um ator grande demais para ser ignorado, por isso muitos  preferem acompanhá-la do que trilhar um difícil caminho solitário. É o caso da Real. Cool. Media., uma pequena casa editorial com sede na Alemanha que tem seu catálogo no Unlimited.</p>
<p>“A gente espera que com o crescimento de inscritos no serviço o capital do fundo se adapte a isso. Mas acreditamos que mudança é sempre uma oportunidade positiva. Estamos ansiosos pelo futuro”, aposta o presidente da Real, o alemão Eliott Reich.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A suspeição das grandes editoras acontecerá também por aqui caso a gigante americana decida trazer o Kindle Unlimited para o Brasil?</div></strong></h3>
<p>Com seis romances de ficção científica no currículo, o professor Paul Levinson considera a novidade um “grande benefício” para os menos famosos, “porque vai encorajar novos leitores a tentarem seu livro”.</p>
<p>A suspeição das grandes editoras acontecerá também por aqui caso a gigante americana decida trazer o Kindle Unlimited para o Brasil? A presidente do Sindicato de Editores, Sônia Jardim, tenta ser cuidadosa. “Precisamos ver se esse modelo é adequado para o mercado brasileiro”, diz.</p>
<p>As bibliotecas digitais  também têm ganhado terreno no país. A Nuvem de Livros, nascida há quase três anos, tem mais de 12 mil títulos e dá também acesso a conteúdos multimídia educacionais –como teleaulas e jogos.</p>
<p>O acervo tem curadoria de três profissionais (que estão ali para renegar seu livro se for muito ruim, sorry) e guarda e-books de editoras como Moderna, Autêntica e Melhoramentos. Quem tem chip da Vivo paga R$ 3,49 por semana.</p>
<p>“Vejo o Kindle Unlimited como um movimento de ocupação de um espaço comercial que havia sido ignorado pela Amazon a princípio. Caso essa estrutura se afirme aqui no Brasil, vai ser uma disputa acirrada, mas não nos preocupa minimamente”, me disse por telefone o presidente da Nuvem, Roberto Bahiense.</p>
<p>Outra iniciativa, lançada em abril, é a Árvore de Livros. Com 14 mil livros para empréstimo, aceita apenas assinaturas de empresas, bibliotecas e escolas. Por mês, a empresa que contratou o serviço paga até R$ 5 por usuário.</p>
<p>Árvore e Nuvem optaram por uma estratégia bem à brasileira, longe do espírito de agressividade capitalista americano. Eles não reduziram a remuneração à leitura.</p>
<p>A Nuvem paga autores e editores um valor mensal, embora os conteúdos mais acessados acabem levando um toquinho a mais.</p>
<p>Já a Árvore tenta consagrar um esquema análogo ao do livro físico: se duas pessoas quiserem o mesmo título ao mesmo tempo, eles compram da editora dois exemplares. Quando um deles for alugado cem vezes, mais um valor é depositado na conta da casa.</p>
<p>O presidente da Árvore, Galeno Amorim, é otimista. Ex-gestor da Fundação Biblioteca Nacional, ele analisa que a entrada da Amazon nesse matagal inexplorado ajuda a consolidar o conceito de empréstimo de e-book.</p>
<p>Pondera também que a expansão dessa ideia vai ser um fator de democracia educacional. “Você chega a uma quantidade de lugares onde as pessoas não têm acesso a bibliotecas físicas.” Que assim seja.</p>
<p>OBS: O texto da Pulga é um desdobramento da <a href="http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/07/1491230-nova-regra-de-netflix-para-livros-enfurece-escritores-independentes.shtml">matéria</a> escrita por Alan Santiago para a Folha de São Paulo.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Poesia de Facebook</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Jul 2014 16:42:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Alan Santiago]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Resenha]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Casa da Palavra]]></category>

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		<description><![CDATA[Como a prisão de 14 pessoas na França do século 18 pode ajudar a explicar o sentido dos comentários nas redes sociais A investigação da polícia parisiense na primavera de <a class="read-more" href="https://apulga.com/poesia-de-facebook-2/">[Ler o post]</a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_550" style="width: 641px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/07/Alan-Texto1.jpg"><img class="size-full wp-image-550" alt="Poesia e redes sociais. Ilustração: Érica Zoe." src="http://apulga.com/wp-content/uploads/2014/07/Alan-Texto1.jpg" width="631" height="449" /></a><p class="wp-caption-text">Poesia e redes sociais. Ilustração: Érica Zoe.</p></div>
<h2></h2>
<h2><em>Como a prisão de 14 pessoas na França do século 18 pode ajudar a explicar o sentido dos comentários nas redes sociais</em></h2>
<p>A investigação da polícia parisiense na primavera de 1749 redundou, como já era de se prever, no mais amplo nada.</p>
<p>Ninguém sabia quem afinal havia escrito os versos que começavam desancando o rei Luis 15 assim: &#8220;Monstre dont la noire furie&#8221;*. Ou em português: &#8220;Monstro cuja fúria negra&#8221;.</p>
<p>Todos os que foram presos –do estudante de medicina François Bonis até o estudante de filosofia Vermont, que tentou em vão se esconder– só conseguiam indicar alguém que, assim como eles, era um mero distribuidor da poesia. Melhor seria das poesias, no plural.</p>
<p>Catorze chegaram a ser trancafiados nas insalubres masmorras mantidas pelo Ancien Régime, e o episódio ficou conhecido como L&#8217;Affair des Quatorze.</p>
<p>Poderia ser apenas uma situação esdrúxula para os olhos contemporâneos, uma espécie de curiosidade histórica, não fosse pelo conciso, simples e profundo livro de Robert Darnton ter dado ao fato a análise que ele merece.</p>
<p>&#8220;Poesia e polícia –redes de comunicação na Paris do século XVIII&#8221; (Companhia das Letras, 228 páginas) questiona se a obsessão de Luis 15 por investigar o que pensavam os parisienses sobre ele e sobre o seu reinado não era já ali a ebulição do que seria a consagrada opinião pública.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">A poesia era o veículo de todos os estratos sociais. (&#8230;) Tudo clandestino e anônimo. E obra anônima, oficina do Diabo. Graças a Deus.</div></strong></h3>
<p>Se já não pode ser qualificado com esse termo, pelo menos não se pode negar que havia uma rede de comunicação eficiente que dava conta dos problemas atravessados por eles.</p>
<p>Nada escapava: os ministros, as amantes do rei (Madame Pompadour era odiada), os tratados de paz (o de Aix-la-Chapelle, considerado indigno), as batalhas (como a de Lawfeldt, vencida por WO, quando os ingleses retiraram as tropas). E também os temas prosaicos da arraia-miúda.</p>
<p>A poesia era o veículo de todos os estratos sociais. Os mais pobres cantavam junto com os cantores de rua que se apresentavam nas feiras e praças; a classe média e os cortesãos lidavam com os textos em pedaços de papel que iam passando de mão em mão.</p>
<p>Tudo clandestino e anônimo. E obra anônima, oficina do Diabo. Graças a Deus.</p>
<p>Por isso ia-se construindo tão forte e tão disseminado o pensamento sobre a vida, porque cada um podia acrescentar, modificar, rimar e falar sobre o mundo, criando uma teia ampla e profundamente complexa sobre o sentimento de uma época.</p>
<p>Não é à toa que isso fosse considerado um perigo lá e seja considerado ameaçador também hoje. De alguma forma, vivemos no livro de Darnton –que me soa, em certo sentido, como uma realidade espelhada num vidro fosco.</p>
<p>Ainda somos levados à Bastilha por delitos de opinião e voltamos a frequentar o anonimato que já estava com cheiro de mofo.</p>
<p>Nós, os contemporâneos, amantes carnais da internet, elevamos à máxima potência a capacidade de gerar uma rede de comunicação que nos exponha a todos diante da esfera pública.</p>
<p>Particularmente acredito que, por um detalhe &#8220;insignificante&#8221;, estamos em melhor posição que os franceses comandados-mas-nem-tanto por Luis 15: enquanto ali os poemas tendiam para a formação de um consenso público sobre as peripécias aristocráticas, por exemplo, aqui vamos construindo nosso universo baseado no dissenso político e social.</p>
<p>Não que a opinião pública tenha se evaporado hoje ou até se estilhaçado. A imprensa escrita e a mídia televisiva continuam tendo esse papel unificador, embora num grau muito menor que antes.</p>
<p>Mas já não aceitamos mais que mesmo coisas simplórias da vida sejam contadas sem senões, apostos ponderativos e discussões acaloradas.</p>
<p>Isso não é uma crítica aos homens de hoje, nem uma simplificação das várias forças argumentativas daquela França.</p>
<h3><strong><div class="su-pullquote su-pullquote-align-left">Primeiro, porque sociedade alguma pode anular o que, em verdade, é o viver em grupo: o não, o confronto e a diferença. Depois, porque a internet livre, anônima, gratuita nos concede a chance de exercer isso em plenitude.</div></strong></h3>
<p>Estou dizendo que o cenário é apenas este: em tempo algum da história houve tantas situações frontal e publicamente opostas discutidas de modo massivo.</p>
<p>Primeiro, porque sociedade alguma pode anular o que, em verdade, é o viver em grupo: o não, o confronto e a diferença. Depois, porque a internet livre, anônima, gratuita nos concede a chance de exercer isso em plenitude.</p>
<p>Se os poemas de 1748-49 tinham limitações físicas, os comentários de Facebook e os 140 caracteres do Twitter são infinitos e não menos explosivos. Talvez só sem rima.</p>
<p>Nos tempos em que se vive, o Facebook é a poesia onde se canta mal ao rei e à amante dele, onde se questionam as decisões governamentais, se discutem dos temas mais tolos às questões filosóficas mais sérias e onde as diferenças estão vigorosamente pulsantes.</p>
<p>No Caso dos Quatorze, Darnton faz questão de destacar que o conjunto de poemas nada tem de revolucionário. É, antes, um coro de descontentamento com as estruturas de poder do período.</p>
<p>A questão lançada a nós é precisamente a mesma: será que, ao contrário, as poesias do século 21 estão nos levando para um movimento revolucionário? Eu me pergunto que Bastilhas morais, filosóficas, políticas poderiam –e podem– eventualmente cair com nossos tweets e nossos compartilhamentos.</p>
<p>*Eis o <a href="http://www.hup.harvard.edu/features/darpoe">link</a> para quem quiser ouvir as poesias cantadas por Hélène Delavault.</p>
<p></p>]]></content:encoded>
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