Literatura

Crônica da pandemia

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Apreensão, álcool gel, revolução no modo de trabalhar (quando não se perdeu o emprego), encontros virtuais, prefeito e governador que escutavam as orientações de médicos e cientistas, presidente que as ignorava, lockdown, lockdown pero no mucho, notícias de quem pegou o vírus, de quem se curou, de quem não resistiu… Quando vai passar? Já não era para ter passado?! Começou em março de 2020. Algumas cidades no Brasil foram estabelecendo práticas de isolamento social, por conta da pandemia do coronavírus. Um dos memes que mais circularam foi o do “eu não aguento mais não aguentar mais”. Tentando (não) lidar com tudo isso, fui buscar um refúgio nos livros.

Logo no começo da quarentena, vi algumas pessoas lendo A Peste, do Camus. Ainda pensei em fazer o mesmo por curiosidade, afinal, não conheço o livro. Só que essa vontade não durou nem trinta segundos. Eu não queria me refugiar numa história que me traria de volta à realidade.

Só tinha a sensação de completude, de início e fim, quando lia alguma crônica do Fernando Sabino, num livro há tempos esquecido em cima de um móvel. Lia uma, lia outra, mas não considerava, solenemente, que “este é o livro que estou lendo”. 

No entanto, paradoxalmente, era exatamente a realidade que eu parecia procurar, consumindo notícias em quase todo o meu tempo livre, como num transe. Quantos novos casos, em quais bairros, número de óbitos, taxa de ocupação das UTIs – podiam me perguntar qualquer um desses dados, eu saberia informar. Ser detentora de informações assim me fazia sentir, de alguma maneira, um pouco mais segura, mais preparada. Só que o preço dessa segurança (que não assegurava muita coisa, a bem da verdade) veio em forma de estafa mental.

Não conseguia me concentrar. Comecei e larguei várias leituras. No canto inferior direito da tela do leitor digital, a indicação de onde tinha terminado minha empolgação com cada livro: 15, 10, 3%…

Só tinha a sensação de completude, de início e fim, quando lia alguma crônica do Fernando Sabino, num livro há tempos esquecido em cima de um móvel. Lia uma, lia outra, mas não considerava, solenemente, que “este é o livro que estou lendo”. Grande bobagem. Eu não precisava estar lendo um livro inteiro. Eu precisava era de algo fluido, leve, engraçado, talvez até sério, mas, ainda assim, lírico. E curto, já que a estafa mental não tinha passado completamente, mesmo depois que passei a acompanhar menos as notícias.

Então era isso, crônicas do Fernando Sabino. Ou a questão seriam as crônicas? Ou o Fernando Sabino? Talvez as duas coisas. Comprei, assim, mais três livros de crônicas, dois do Antônio Prata e um do Rubem Braga… 

Aquelas crônicas me faziam muito bem, só que elas estavam acabando. Eu precisava me reabastecer, e não podia ser com livro digital. Tinha que ser no papel, para poder abrir aleatoriamente. Assim, uma hora pode aparecer uma crônica ainda inédita. Outra, um texto que já li (mas sem problema, ele ótimo, vou ler de novo). Às vezes, até vem algum de que não gostei tanto assim, mas é só virar a página que a história é outra. Já que não podemos fazer isso com a pandemia, ao menos o façamos no nosso refúgio.

Então era isso, crônicas do Fernando Sabino. Ou a questão seriam as crônicas? Ou o Fernando Sabino? Talvez as duas coisas. Comprei, assim, mais três livros de crônicas, dois do Antônio Prata e um do Rubem Braga. E também fui atrás de dois livros de cartas, um de correspondências trocadas entre o Fernando Sabino e a Clarice Lispector, e outro de cartas que ele enviou para seus três grandes amigos ao longo de décadas.

Como me surpreendi com as confissões da Clarice Lispector ao amigo Fernando Sabino: “Só quem diz a verdade é quem não gosta da gente ou é indiferente. Tudo o que ele diz é verdade. Não se pode fazer arte só porque se tem um temperamento infeliz e doidinho”.

Essas compras me fizeram passar um tempo remoendo uma pequena culpa pelo surto consumista literário. Nos últimos meses, não fui diferente de tanta gente que começou a refletir mais sobre seus hábitos de consumo, sobre o que é preciso ter mesmo, em detrimento do que seria supérfluo. Sim, tenho muitos livros não lidos ainda guardados na estante. Mas eles não podiam me dar o abraço que as crônicas (ou o Fernando Sabino?) me proporcionavam. Leituras que abraçam não são supérfluas para mim em tempos pandêmicos. Culpa superada, então.

Ah, como eu ri da descrição do Fernando Sabino sobre o dia em que ele, em pleno aeroporto, foi convencido por um repórter de rádio a dar uma entrevista dentro de uma cabine telefônica para diminuir o barulho ao redor. Acabaram entalados. O amigo do Sabino, do lado de fora, tentava ajudar, “em gestos frenéticos de guardador de carro ajudando motorista a entrar na vaga” (1).

Como eu voltei no tempo quando o Antônio Prata relembrou as viagens de família na infância, quando o pneu do carro furava (2). Como eu achei lindo o mesmo Antônio Prata relatando uma conversa que teve com um motorista de táxi, viúvo, que contou da falta que sentia de não ter fotos da esposa fazendo as coisas do dia a dia, que era como ele se lembrava dela (3).

Sabino desabafa: “Não é possível eu continuar assim, a vida me empurrando, me empurrando sem parar (…) Tudo vai acontecendo, vem vindo, vem vindo, já passou! É tão depressa, tão fugaz que nem percebo, não apreendo a vida.

Como eu me surpreendi com as confissões da Clarice Lispector ao amigo Fernando Sabino em 1946. Clarice só tinha publicado dois livros até então e estava desanimada com a recepção negativa do segundo. Ela chega, num momento, a concordar com um dos críticos: “Só quem diz a verdade é quem não gosta da gente ou é indiferente. Tudo o que ele diz é verdade. Não se pode fazer arte só porque se tem um temperamento infeliz e doidinho” (4). Ainda bem que ela tinha um amigo com quem trocava cartas e que lhe deu apoio e incentivo. Clarice veio a escrever tantos livros depois disso ainda.

Como eu me diverti, lendo correspondências como a que Fernando Sabino endereçou a “meus jovens mentecaptos Hélio e Otto”. Por outro lado, como eu refleti sobre a amizade, quando, em outra carta, Sabino diz a um amigo que “o principal, que nos sustenta de pé quando a noite avança e o sono abaixa, é que nós nos sabemos juntos” (5).

Tudo vai acontecendo, vem vindo, vem vindo, já passou! É tão depressa, tão fugaz que nem percebo, não apreendo a vida, ela escorre pelos meus dedos quando vou segurá-la”. O que Sabino não escreveria sobre essa peste de coronavírus?

Do livro com as cartas de Fernando Sabino para seus companheiros, uma das que mais me marcou foi escrita no Rio de Janeiro, em “12 para 13 de Agosto, 44”. Nela, Sabino desabafa: “não é possível eu continuar assim, a vida me empurrando, me empurrando sem parar (…) Tudo vai acontecendo, vem vindo, vem vindo, já passou! É tão depressa, tão fugaz que nem percebo, não apreendo a vida, ela escorre pelos meus dedos quando vou segurá-la” (5). Setenta e seis anos atrás, Fernando Sabino escreveu isso para seu amigo Hélio (“meu velho”). O que ele não escreveria sobre essa peste de coronavírus?

Me falta ainda explorar o livro do Rubem Braga. Por enquanto, só dei uma rápida folheada, suficiente apenas para descobrir que as crônicas que lá estão foram selecionadas pelo… Fernando Sabino. Juro que comprei sem saber.

(1) Da crônica “Por falar em aperto”, do livro “As melhores histórias de Fernando Sabino”
(2) Da crônica “Ótima viagem”, do livro “Meio intelectual, meio de esquerda”
(3) Da crônica “Recordação”, do livro “Trinta e Poucos”
(4) Do livro “Cartas Perto do Coração”
(5) Do livro “Cartas na Mesa”

Dayse Abreu

Dayse Abreu

Achou que ia ser publicitária, foi professora de inglês por alguns anos e hoje é servidora pública. Gosta de ler, ver e ouvir uma aleatoriedade de coisas e de conversar sobre elas. Tem medo de viajar sozinha, mas vai com medo mesmo e acaba adorando a viagem. É formada em Letras pela Universidade Estadual do Ceará (UECE).
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