Jornalismo

Vão-se os anéis e os jornais, infelizmente…

Memorias jornalismo1

Durante a minha formação escolar, uma convicção rapidamente se enraizou como meta futura: eu seria jornalista e minha escrita, aliada à uma curiosidade incansável, haveria de me levar para outros horizontes, além de um conjunto residencial situado na periferia de Fortaleza. Era algo cristalino, como uma dose de Ypióca Prata. Tal decisão nunca comportou hesitações e a aprovação no curso de Comunicação Social da UFC, num longínquo 1995, me parecia apenas a confirmação de um destino ambicionado desde os 12 anos.

Nos semestres finais da graduação, tive meu batismo profissional na sucursal da revista Veja, em período no qual a revista salpicava escritórios pelas grandes capitais do País. Em seguida, ingressei na Gazeta Mercantil, então o baluarte do jornalismo econômico brasileiro, numa época em que inexistia o Valor Econômico. Guardo lembranças positivas e negativas destas experiências; e, claro, coleciono algumas amizades. Mas se retomo hoje essas memórias, é para celebrar outro periódico e redação, aquela que foi a minha verdadeira casa, não obstante seus defeitos estruturais – o jornal Diário do Nordeste (DN), cuja edição impressa deixará de circular em fins de fevereiro, após quase 40 anos de atividades. A versão online sobreviverá; e pelo que me consta, turbinada. Alguns dirão que é uma migração inevitável; outros, que muitos empregos serão mantidos. Não contesto. Mas um portal não compensa minha insatisfação sempre que uma rotativa cessa de rodar.

Mas se retomo hoje essas memórias, é para celebrar o jornal Diário do Nordeste (DN), cuja edição impressa deixará de circular em fins de fevereiro, após quase 40 anos de atividades. A versão online sobreviverá; e pelo que me consta, turbinada. Mas um portal não compensa minha insatisfação sempre que uma rotativa cessa de rodar.

Neste misto de saudosismo e pesar pelo seu fechamento (uma sina compartilhada com outros tantos jornais brasileiros), faço um hiato para dois esclarecimentos. Nos anos em que vertia sangue para me converter num jornalista econômico mediano, frustrado porque estagiava numa área que não me apetecia, foi o DN que abriu suas portas para meus textos no campo do jornalismo cultural, publicados com pseudônimo porque a Gazeta Mercantil não autorizava de outra forma. Alguém indagará: você recebia algo pelas matérias? Não, escrevia de boa vontade e de peito estufado. E o que ganhei? Aquelas matérias não apenas me deram visibilidade numa seara que eu gostaria de ingressar; elas também asseguraram minha sobrevida emocional, uma vez que eu podia contornar a minha insatisfação diária a cada publicação anônima. E tal experiência rendeu frutos: após concluir a graduação, em meio a euforia pelo canudo e ansiedade para inaugurar a carteira de trabalho como efetivo, fui demitido da Gazeta. Um episódio muito dolorido, diga-se de passagem. Tal notícia chegou ao DN e, em menos de uma semana, o editor de cultura me recrutou para integrar sua equipe em definitivo. Aquelas matérias anônimas germinaram e a redenção possível veio.

Integrei a equipe do DN por quase 10 anos, com uma única pausa durante o início do meu mestrado. Ali colecionei amigos e quase nenhum desafeto (pelos menos, eu acho!). Fiz matérias que me honraram imensamente e outras que, a contragosto, tive que encarar. Jornalismo, eu lembro, não é blog, não é escolha pessoal – você se depara com paixões e rancores, levanta a cabeça e aprende a driblar os dissabores. O nome disso é malícia (no bom sentido), traquejo, experiência, savoir faire. No DN, fui uma foca feliz, um aprendiz permanente e me converti num profissional respeitado. Lembro com carinho de dezenas de reportagens que me emocionaram; e tinha um apreço imenso pelas edições dominicais, cujas matérias especiais consumiam longos dias de apuração e resultavam em pequenos dossiês sobre temas quase sempre fascinantes.

Foi o DN que abriu suas portas para meus textos no campo do jornalismo cultural, publicados com pseudônimo porque a Gazeta Mercantil não autorizava de outra forma. Escrevia de boa vontade e de peito estufado. Aquelas matérias não apenas me deram visibilidade numa seara que eu gostaria de ingressar; elas também asseguraram minha sobrevida emocional.

Uma redação de jornal é uma família. Extensa, é verdade. E como em toda família, há as afinidades e os mais distantes. Ali, eu contabilizei tantos afetos, que é impossível mensurar: colegas de geração se mesclavam a ex-alunos, que agora partilhavam comigo os “ossos do ofício”; e veteranos de outras décadas observavam curiosos a nossa presença crescente. Hoje, aos 44 anos, caso ainda estivesse na redação, me pergunto como eu acompanharia esta inevitável tarefa de renovação – eu seria receptivo ou teria desconfiança com os novatos?
Não pensem, pela leitura deste texto, que idealizo a profissão e mascaro suas dificuldades. De modo algum: os salários são defasados; as cobranças, permanentes; e as recompensas, nem sempre imediatas. Eventualmente uma pauta solicitada por encomenda da chefia ou para agradar um amigo dos proprietários, desconectada de importância para sua editoria, pode representar um desafio humilhante. E claro que os enfrentei. Mas se há desgosto nestas ocasiões, é preciso ressaltar também a euforia quando sua matéria emociona os leitores, transforma positivamente a vida das fontes consultadas ou promove empatias necessárias. Assim, nesta gangorra entre o impublicável e a reportagem notável, é preciso dosar para mensurar sua experiência profissional: no meu caso, o saldo é positivo, de longe.

Deixei a redação no fim de 2007 para cursar o doutorado e não mais retornei. Volta e meia confiro alguma edição, e sempre que vou a Fortaleza, tento visitar o jornal ou encontrar algum colega de ofício, embora minha geração hoje seja minoria no expediente. Mas a notícia recente do fechamento iminente do DN me alvejou em cheio. E retirou do meu estoque de lembranças uma dezena de memórias tocantes, felizes, preciosas… Não sei se outros jornalistas que passaram pela casa foram sensibilizados da mesma forma, afinal o vírus da comoção tem diferentes intensidades. Quanto mim, permaneço triste ao saber que suas rotativas ficarão emperradas.

Laécio Ricardo

Laécio Ricardo é (ou foi) jornalista, é doutor em Multimeios pela Unicamp e professor da UFPE. Apaixonado por gatos, tem convicção de que é cearense, não obstante pistas contrárias, e adora o mar, apesar da epiderme albina.

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