Comportamento

Da arte de ser filho único

Ilustração: Mariane Marques

Ilustração: Mariane Marques

 

Componho com outros dois amigos de adolescência uma espécie de tríade fraternal de filhos únicos, com toda a idiossincrasia que essa expressão possa conter. Somos uma médica, um militar e uma jornalista. Tão díspares como um peixe, um tigre e um pássaro. Seres de hábitats distintos, mas os três com absoluta consciência de seus papéis familiares. E há algo a mais nesse ethos singular que nos une: somos filhos que cedo se responsabilizaram por suas mães, arcaram com as despesas de casa e foram, ao seu modo, protagonistas de famílias pequenas. Aqueles que saíram pro mundo e proveram o lar. Dito isso, esclareço que falo desse tipo específico de filhos únicos, como numa espécie de um gênero mais vasto, para, a partir dessa “tipologia”, ilustrar algo quase intrínseco a esses seres: a ideia de que se é responsável por tudo.

Dito isso, esclareço que falo desse tipo específico de filhos únicos, para, a partir dessa “tipologia”, ilustrar algo quase intrínseco a esses seres: a ideia de que se é responsável por tudo.

Todo mundo, mesmo que não seja um apreciador de samba, já batucou instintivamente a conhecida estrofe que diz: “Não posso ficar nem mais um minuto com você / Sinto muito amor, mas não pode ser / Moro em Jaçanã. Se eu perder esse trem que sai agora às 11 horas, só amanhã de manhã”. Eis aí uma representação popular clássica dos que atendem ao comando prioritário da responsabilidade, mesmo que sem a ginga malandra, como convém à musica. Na prática, pertencer a essa espécie é ter hora para chegar em casa, é avisar quando não vem e quando vai atrasar. É ser um pouco pai e mãe às avessas, um elo que nos liga à ancestralidade, e não aos nossos iguais. Não há com quem dividir as tarefas além daqueles que originalmente nos deram esse papel. Estamos do lado de cá, somos os únicos filhos, fazemos um monólogo e, nos diálogos que restam, quase sempre concluímos a fala como na sentença de Adoniran Barbosa: “Tenho minha casa para olhar, eu não posso ficar”.

Algumas histórias muito duras demonstram isso que quero dizer. Tenho uma amiga cujos pais se separaram cedo. Ela foi morar com a mãe na casa da avó que ficava em outro estado. As acomodações supostamente temporárias não permitiram uma mudança completa. Parte das coisas ficaram na Bahia, estado onde ela nasceu. Isso foi há uns 25 anos e, desde então, fotos de família, objetos de decoração e uma série de souvenirs, aparentemente sem importância, mas que nos ajudam a contar nossa história, ficaram encaixotados em algum lugar. Há mais de uma década essa espécie de espólio de miudezas foi colocada num depósito em alguma cidade da Região Metropolitana de Salvador. Ficou por isso. Há três anos ela teve seu primeiro filho e as indagações corriqueiras sobre com quem a criança se parece acabaram remetendo às fotos infantis dos pais. Ela tinha, então, apenas uma foto de si mesma quando bebê, que, por algum motivo, havia carregado consigo aos 13 anos quando saiu de Salvador. Eis alguém que devia, mesmo tão jovem, cuidar da própria memória. Nada lhe foi imposto, dito ou escrito. Este é o ponto. Era um cuidado que cabia a ela pelas contingências da vida.

É fácil seguir o movimento da inércia e nos responsabilizarmos por tudo a nossa volta, sem atentar ao preço extorsivo dessa onipresença.

Outro amigo é, além de filho único, praticamente o sobrinho único de uma leva de uns sete tios. Temporão, restou a ele enterrar os tios mais velhos que foram partindo e ajudar a organizar a rotina dos que ficaram. Eu mesma também sou a responsável pelo meu espólio afetivo e já preparei o funeral de tantas pessoas próximas, entre vivos e mortos, que me tornei uma espécie de PhD no trato das partidas. Mas está aí uma grande cilada. Porque é fácil seguir o movimento da inércia e nos acostumarmos a ocupar todos os espaços, organizar todos os ritos, nos responsabilizarmos por tudo a nossa volta, sem atentar ao preço extorsivo dessa onipresença.

Na outra ponta está o aprendizado de quem pode dividir. Uma vez uma grande amiga, cuja família me adotou, me falou de uma brincadeira de infância em que ela e os irmãos ensaiavam números de mágica. Ela posicionava-se cuidadosamente embaixo de uma mesa que era coberta por uma longa toalha. Em seu posto, tinha como tarefa passar por um buraco feito no tampo do móvel – que dava no fundo da cartola – tudo que o irmão mágico pedia. Certa vez, o pano caiu e ela foi pega em flagrante. Zangou-se e nunca mais serviu de ajudante para o número. Num exemplo cru, ser filho único é não ter essa chance, visto que toda a brincadeira corre por sua conta.

O escritor inglês Geoff Dier escreveu para a revista Serrote um ensaio autobiográfico sobre sua condição de filho único. Lá pelas tantas, ele dá alguns exemplos da faceta triste desta condição, quando lembra que brincava de Banco Imobiliário sozinho, que jogava Detetive sozinho e que conseguia até mesmo a façanha de jogar Subbuteo sozinho: “Algo quase impossível, já que você precisa manejar os atacantes e controlar o goleiro do time adversário ao mesmo tempo”. A questão é que, na vida real, é, digamos, difícil atuar nessas duas posições simultaneamente.

Dentro daquele esquema posto, tornamo-nos adultos mais cedo e há uma parcela de vantagens nisso: compramos casa e carro, construímos uma carreira… Em suma: não somos intimidados pelos compromissos.

Porém, aqui vale um parêntese: engana-se quem pensa ser esse um papel de lamúria. Como tudo na vida, há dor e delícia. E, em relação à última, as possibilidades são imensas. Aprendemos desde cedo a ter as rédeas da vida nas mãos. Ser responsável implica certo poder. Estar fora de um padrão, sobretudo na geração dos anos 70 e 80, quando a média por família era de três irmãos, era se livrar de algumas comparações obrigatórias e ganhar a chance de criar uma trajetória mais particular. Assim, se nos passam a conta das obrigações, também ganhamos voz ativa na mesa dos negócios.

Com o tempo, aprendemos a manejar o jogo e podemos escolher a cor das paredes do quarto, o colégio em que queremos estudar e se preferimos ganhar um kit de pequeno cientista ou outro brinquedo no Natal. Exemplos infantis à parte, a questão é que aquele de quem muito é cobrado, sendo o único fornecedor de expectativas, sem ter concorrentes diretos e com certa esperteza, aprende a fazer valer sua vontade. Dentro daquele esquema posto, tornamo-nos adultos mais cedo e há uma parcela de vantagens nisso: compramos casa e carro, pagamos as contas, construímos uma carreira… Em suma: não somos intimidados pelos compromissos.

A grande questão é que dessa onipresença, entre ganhos e perdas, surgem complicações. Lidar com as escolhas alheias é a principal delas. Acontece que, se um jarro quebra, o filho único não pode “culpar” o irmão mais novo, ninguém lhe abre o caminho e ninguém o precederá. O vazio ao lado lhe dá uma coroa e um chicote. Não ter ninguém para dividir é se empoderar do muito e, infelizmente, isso quase sempre é desumano. Quando rompemos essa barreira que nos imputa a falha, é comum cairmos na prisão escura de achar que nunca fizemos o suficiente. A ideia é que tudo depende nós, e não há maior engano do que esse. Eis a armadilha da qual nós, ensimesmados filhos únicos, devemos nos desvencilhar. Na vida, embora nosso senso de responsabilidade e certo narcisismo nos digam o contrário, a brincadeira não ocorre só por nossa conta. Há sempre outra pessoa envolvida, uma ou mais, e não há condições físicas e emocionais possíveis de fazer a mágica e empurrar o coelho em um único gesto.

É por isso que esse texto é antes de tudo uma reflexão sobre o outro, aquele à parte de nós, o qual devemos reconhecer e respeitar porque, fazendo isso, estamos, na verdade, respeitando nós mesmos.

É por isso que esse texto é antes de tudo uma reflexão sobre o outro, aquele à parte de nós, o qual devemos reconhecer e respeitar porque, fazendo isso, estamos, na verdade, respeitando nós mesmos. A escolha do outro, em muitos casos, não é de nossa alçada. No fundo, o que nos cabe é, sim, como reagir. Essa é a nossa parte. Por isso acho que tal “domínio artístico” consiste em aprender a dividir, mesmo que num limite imaginário que vamos exercitando vida afora como quem aprende com a alteridade a ser mais humano.

É um desafio fazer o que nos cabe e deixar o outro seguir – ou pelo menos se reconciliar com essa ideia –, ainda que esse outro seja nosso pai, nossa mãe, um grande amor ou um amigo da vida inteira. Esse contorno semelhante ao de gêmeos siameses é o invólucro que nos constitui primariamente e que devemos romper. Há nessa totalidade um lado sombrio e um lado luminoso. Aprende-se com esmero que a vida depende da gente e, sim, somos capazes de feitos extraordinários. Tomamos em nossas mãos uma potência gigantesca e, tal qual um fugitivo que cava um túnel por trinta anos, realizamos com paciência o impensável. Mas isso não é vida, é estratégia de guerra. Pode servir para as questões estruturais, mas não para as relações. A vida comporta o outro. Ou melhor, a vida é desafiada pelo outro. E isso é incômodo porque há sempre algo que, para o bem e para o mal, repito, não depende de nós.

Há anos tive uma conversa com uma amiga de faculdade cujo relato me parecia misterioso à época. Ela me dizia que, quando interrompeu um período de análise, ainda adolescente, a terapeuta falou: – Eu vou te dizer algo, mas provavelmente você vai esquecer. E a frase reveladora era: – Você só dá conta de si. Aquela história me passou batida na época em que a escutei pela primeira vez. Eu mesma, que não era a interlocutora direta, havia esquecido. Lembrava-me da cena, mas não da assertiva. Contudo, mais de uma década depois, está guardado como num estalo em minha mente nosso diálogo sobre o assunto num pôr do sol na Ponte Metálica, em Fortaleza. Depois daquele hiato de tempo, em que havia trocado nossas especulações juvenis pela concretude da vida adulta, algo parecia mágico naquela constatação: – Sim, só damos conta de nós.

Sabendo nosso limite, podemos ser inteiros e seguir adiante como quem ora quer ser mágico e ora quer ser ajudante. Afinal, o que o outro nos dá é a liberdade de escolher ser quem somos.

Parte da nossa memória trazemos conosco, revelada ou não numa fotografia; outra parte está mesmo perdida por aí com quem cruzou nossa estrada. Podemos tentar girar o mundo para controlar as coisas, como naquela cena em que o Super-Homem, no filme clássico de 1978, coloca a Terra numa rotação inversa para salvar Lois Lane. Mas, fora do mundo da ficção e dos heróis, é fato que todo o esforço que queira mudar algo além de nós só terá efeito se conectado à vontade do outro.

E, ainda que com muito custo, é libertador não ser responsável por tudo. Isso nos empodera de maneira diversa da qual estamos acostumados porque dá aos nossos pares a possibilidade de agir e nos aliviar os ombros. Mesmo quando isso não acontece, ao fazer o que nos cabe e conseguir enxergar esse limite que costumamos avançar, nos livramos da prisão que é tentar ocupar dois espaços ao mesmo tempo. Ao abarcar o mundo, nos perdemos de nós. Parece uma daquelas charadas do Mestres do Magos, mas é bem isso. Reconhecer o outro e suas escolhas é tornar-se pleno em nossa unidade. Sabendo nosso limite, podemos ser inteiros e seguir adiante como quem ora quer ser mágico e ora quer ser ajudante. Afinal, o que o outro nos dá é a liberdade de escolher ser quem somos.

 

 

Grazielle Albuquerque

Grazielle Albuquerque é doutoranda em Ciência Política pela Unicamp, jornalista e arengueira. Criou a Pulga nos idos dos anos 2000 e agora revive a meninice. Nessa nova fase, edita a Pulga desde 2014. É viciada em história, política, café e música. Cultiva o bom humor e tem um quarto azul.

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