Comportamento

Foi bom, eu fingi que estava feliz

frida

Existe uma história ótima que ronda o meu círculo de amizades há anos. O filho mais velho da minha comadre era uma criança muito adulta. Quando levado àqueles playgrounds de shopping, sempre preferiu ficar em um canto, desenhando a correr e a pular como os outros meninos da sua idade. A mãe chegava a impulsioná-lo com algumas palavras e gestos, na tentativa de que o pequeno “gastasse” toda aquela oportunidade que, por vezes, parecia desperdiçada. Esse é o preâmbulo do episódio mais representativo desse dilema sobre as incríveis “chances da vida”. Acho que, por volta dos seus 5 ou 6 anos, depois de muita insistência, nosso infante finalmente cedeu e, atendendo aos anseios familiares, vestiu-se de toda uma capa lúdica e foi participar de sua primeira peça no colégio. Ao sair, a mãe, entusiasmada, interpelou-o: “E, então, meu filho, como foi?”. A resposta sincera veio de chofre: “Foi bom, mamãe, eu fingi que estava feliz”.

A frase “foi bom, eu fingi que estava feliz” – acabou virando um mantra, uma espécie de brincadeira íntima, que repetíamos sempre que queríamos designar a astúcia necessária para representar um papel de nós esperado pela sociedade.

O caso – e, sobretudo, a frase “foi bom, eu fingi que estava feliz” – acabou virando um mantra, uma espécie de brincadeira íntima, que repetíamos sempre que queríamos designar a astúcia necessária para representar um papel de nós esperado pela sociedade. Para os diversos meandros da academia, então, essa parecia ser a máxima perfeita. Tudo que se deve tolerar e representar em nome de um título. Como numa espécie de jogo da vida, chega ao fim mais repleto de patrimônio e relações aquele que melhor dominar a arte da interpretação.

Decerto, minha observação tem lá seu tom cínico. A academia, que tanto se coloca como balisa das outras instituições é, ela própria, um dos espaços de reprodução mais violenta e abusiva dessa lógica. Contudo, nem de longe se pode alegar que tenha exclusividade para tal modus operandi. Quanto mais hierárquicas (com poucos filtros verticais) e estimulantes da vaidade sejam as instituições, mais fácil é de se perpetrar essa lógica. Ela está na justiça, na diplomacia, na caserna… E, touché, chega no local do pensamento crítico que tudo analisa até que o referido princípio não lhe coloque em xeque. Tudo em nome das boas relações corporativas (sic).

Fosse eu falar o que vivi… Até hoje me pergunto como é possível um programa considerado como referência de estudos colocar para orientar em um doutorado alguém que sequer havia concluído uma orientação de mestrado. No âmbito do Judiciário, vi um advogado não ir a audiência mediente a apresentação de um atestado de uma ginecologista. A cena processual foi lá nos anos 1990. Logo depois, o debate em torno da Reforma do Judiciário sinalizou uma mudança institucional nunca convertida em democratização institucional. Mas, de alguma maneira, o incômodo estava lá aparecendo.

Decerto, minha observação tem lá seu tom cínico. A academia, que tanto se coloca como balisa das outras instituições é, ela própria, um dos espaços de reprodução mais violenta e abusiva dessa lógica.

Nos dias de hoje há uma ironia. Ainda que por uma superexposição de agenda e seus reais trâmites, de uma maneira nada usual, a magistratura se vê diante de críticas jamais vistas. Então, hoje também fico pensando quando movimentos como o #metoo, abarcando abusos de ordens distintas, chegará enfim à academia. Instituições com potencial de transformar vão minando suas estruturas pela reprodução do compadrio.  Não adianta questionar autores clássicos, falar em empoderamento periférico, se o desrespeito se coloca cotidiano nas relações mais básicas. Talvez daqui a alguns anos vejamos as contradições acadêmicas explodirem nas mesmas ironias que chegaram à Justiça em meio ao debate público.

Mas, de forma sintética, não há segredo e nem mistério: relações institucionais que dependam da sorte, dado o nível de poder e verticalidade nas quais se baseiam, costumam ter algo de muito errado em seu cerne. Da sorte dependem os sentimentos, e não um julgamento justo, uma orientação não abusiva, uma ordem abjeta. Contudo, seguimos aprendendo a pagar os preços. Digo, esses preços específicos do silenciamento e da mise en scène.

É exatamente este o meu ponto: quando se deve decidir não pagar esse preço? Quando simular a felicidade se torna algo pesado demais? Quando sucumbir for a única opção com sentido? Em nossa sociedade, há uma ode à felicidade. Ela é escancarada, como nos debates em torno do “show do eu” das redes sociais, para usar um termo da Paula Sibília, mas também ela é velada nos escaninhos do que todos suportamos em nome do que julgamos ser um bem maior.

Não é o caso de ter um raciocínio niilista ou hedonista, como se na vida não existissem responsabilidades. O que apontamos aqui é outra questão: é o sufocamento e a violência consentida em nome do pragmatismo.

Por vezes são os que nos amam a indicar, compreensivelmente, esse caminho. O concurso, a casa própria, o título, o pacote do que deveria trazer a felicidade. Talvez aqui seja o caso de evocar um teórico mais clássico, Erving Goffman, a nos indicar, como no teatro, o jogo interpretativo que fazemos para sobreviver. É muito comum pagar esses preços e, sim, ter uma sobrevida – não no sentido primeiro, do essencial – mas, ao contrário, de algo que é superficial e ao qual nos agarramos mesmo representando o oposto dos nossos desejos. Dito de forma direta: o apego à artificialidade que pode nos destriur silenciosamente. Se as instituições pagam um preço por isso a longo prazo (os brioches de Maria Antonieta podem atestar), o custo pessoal tampouco é baixo. Aí abre-se a janela para as escolhas íntimas que, por essência, temos maior manejo.

Não é o caso de ter um raciocínio niilista ou hedonista, como se na vida não existissem boletos, responsabilidades e dificuldades. O que apontamos aqui é outra questão: é o sufocamento e a violência consentida em nome do pragmatismo. Sempre que me pego articulando essas ideias, me vêm à mente aquelas mulheres dos anos 1950 que, seguindo a recomendação das mães, das avós e das revistas femininas, apreendiam sistematicamente que era melhor aceitar todas (ou quase todas) as violências conjugais em nome de não serem mulheres desquitadas, de não perderem o sustento do lar, de não macularem seu nome. Eis aí títulos não acadêmicos a pedir o silêncio como paga. Não é difícil imaginar a frase “minha filha, não faça isso, é para o seu próprio bem”. O patriarcado dá contorno a essa cena como a tantas outras, mas, como no argumento que levantamos, a lógica é mais ampla: tudo suportar em nome de algo pretensamente maior.

Acontece que o preço que pagamos por esse caminho de pragmatismo idílico desconhece os limites humanos, personalíssimos e intransferíveis. Nem tudo vale a pena e nem tudo nós suportamos da mesma maneira. Essa fronteira deve ser não só respeitada como dita. Quebrar o silêncio é fundamental. A lógica do  “faça, mas não alardeie” é outra violência. Parte fundante do processo de cura é a fala. Freud foi genial, entre outras coisas, por, justamente na época de ouro dos manicômios, apontar para a palavra como forma de elaboração da dor.

Acontece que o preço que pagamos por esse caminho de pragmatismo idílico desconhece os limites humanos, personalíssimos e intransferíveis. Nem tudo vale a pena e nem tudo nós suportamos da mesma maneira.

Contudo, é importante voltarmos ao passo anterior, àquele sobre admitir que não valeu a pena. Esse parece ser outro tabu dos nossos tempos. Diante do fracasso, há sempre uma advertência para vermos o lado bom e para tocarmos em frente. “Fazer do limão uma limonada” parece a concessão máxima que o pragmatismo idílico dá ao fracasso. A frase é em si um sofisma, porque o sonho de que tudo pode nos levar a um resultado prático é tão fantasioso como é pueril a esperança de que se possa seguir extraindo do mal um bem. Se tal pensamento serve para tantas coisas cotidianas, certamente não serve para determinadas situações nas quais sucumbimos. O que se procura é, neste caso, tão e simplesmente encarar essa verdade sem subterfúgios. Só isso pode nos levar ao passo seguinte. Sem tomar consciência de que algo para nós pereceu, não é possível dar qualquer outro movimento de mudança.

É, então, que o ato de falar e calar (por vezes, negar, no sentido de atribuir ao motivo de determinadas violências um fim) torna-se o segundo e importante passo. Há uma série de retratos de Frida Kahlo em que ela aparece com o rosto recortado das fotografias. No lugar da cabeça, um buraco, o vazio. É, talvez, uma expressão, digamos, plástica, de algo primeiro, que é a capacidade de recontar a própria história e, diante dela, dar os sentidos que as experiências de fato tiveram em nós. Em um stand-up comedy intitulado “Nanette”, a australiana Hannah Gadsby vai destrinchando com uma capa de humor uma série de situações abusivas, em especial as relativas ao ódio à comunidade LGBT.

Lá pelas tantas, Hannah aponta para os buracos na sua própria narrativa e admite que, quando finalmente se assumiu lésbica, era tarde demais: ela já tinha internalizado a homofobia. É algo que começa parecendo um esquete de humor, mas é um soco no estômago. Ali não há um rosto retirado da foto, mas há uma negativa exposta. É alguém que sucumbe, expõe isso e só dessa forma consegue dar o significado real ao que se passou. Se uma verdade que é dura aflora, outra mais doce, porém inverídica, é finalmente silenciada.

É exatamente por isso que ao assumir que determinadas processos são uma farsa e que atos de violência e abuso foram perpetrados, o que se busca de fato é uma mínima reparação pela fala e pela verdade. Assume-se um valor.

Fico pensando cá com os meus botões se nós estivéssemos até hoje dizendo que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil só porque isso foi dito reiteradamente por quem convinha. Ou, se ninguém tivesse se revoltado contra a ideia sacrossanta do casamento, será que estaríamos até hoje falando que cabe à mulher zelar pela família? Quando uma versão é negada, outra é dita. Costumam ser mais custosas e verdadeiras aquelas histórias veladas que, quando vêm à tona, causam tanto pavor.

É exatamente por isso que ao assumir que determinadas processos são uma farsa e que atos de violência e abuso foram perpetrados, o que se busca de fato é uma mínima reparação pela fala e pela verdade. Assume-se um valor. Não sem custo, mas assume-se. O preço pelas escolhas todos nós pagamos. Novamente, é personalíssimo e intransferível. Só que, em determinados momentos, a questão é saber se você vai pagar pela doença de permanecer calado, inoculando as convenientes meias verdades, ou se é melhor pagar a conta de assumir o que não foi. É como se disséssemos de forma inversa: “Foi bom, eu não fingi que estava feliz”. É o limite de cada um. Não é saudável ir contra ele. Não é mais barato pagar o preço de fingir que dá para ir levando.

Aos que novamente relembram a práxis da vida, eu vislumbro o desejo que dá contorno aos limites. Por que um homem branco, hétero e bem-sucedido deixaria tudo para assumir outra identidade de gênero?  Por que alguém escolhe abandonar a faculdade de medicina? Por que negar que cada de nós é movido por pulsões e fronteiras distintas?

Se, ao fim e ao cabo, somos nós que pagamos o preço, convém que nós também possamos escolher.

O risco de negar nossas verdades, em especial as mais duras, é ficarmos aprisionados como em um livro de Tolstói. O pobre Ivan Ilitch, que apenas teve sua epifania reveladora no momento da morte. Só ali viu que levou a vida a contemplar todos os desejos alheios, menos o seu. Se, ao fim e ao cabo, somos nós que pagamos o preço, convém que nós também possamos escolher.

Grazielle Albuquerque

Grazielle Albuquerque é jornalista, cientista política e arengueira. Criou a Pulga nos idos dos anos 2000 e agora revive a meninice. Nessa nova fase, edita a Pulga desde 2014. É viciada em história, política, café e música. Cultiva o bom humor e tem um quarto azul.

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