Gatos

O amor possui quatro patas e atende por um miado

Manolo1

Tenho três preconceitos consolidados, arraigados, entranhados, incrustados na alma: desconfio de quem substitui o café por chá (crime imperdoável, salvo indicação médica), não entendo quem troca praia por piscina (uma imensidão que porta vitalidade por água clorada? Não somos vegetais à espera de higienização) e me apiedo de quem não aprecia a companhia de animais. De todas as provocações, quero me deter neste último ponto. E prometo não estimular rivalidades, porque o que não nos falta neste Brasil de vigilância instaurada por todos os lados e aplicativos são tretas. Tretas, adoro esta palavra – no Recife, onde resido, ela é pronunciada com regalo, é quase desejada!

Assim, gostaria de me referir e de me dirigir aqui àqueles que, como eu, dão seu reino pela companhia de um bichano. Ah, captou a dica? Pensou em felinos? Bingo, você é dos meus! Traga sua ração premium, seu filho bigodudo e vamos tricotar sobre o amor a quatro patas.

Tenho amigos que fazem aquela linha: “não curto bichos, mas respeito e não maltrato”. Massa, bem diplomático. Não maltratar já é um bônus na minha balança dos amores renovados. Mas conta pouco, reitero. Não maltratar outro ser vivo me parece uma obrigação consensual (ou não?). Bom, pela escrita afiada e não vocacionada para o diálogo, deu pra sacar que este é um texto passional, né? E, como tudo que publico neste espaço, se trata de uma escrita errante – até sei o que me inquieta, mas desconheço onde chegarei. Sim, escrever é um parto sem direito a ultrassom conclusivo. Pelo menos pra mim… Assim, gostaria de me referir e de me dirigir aqui àqueles que, como eu, dão seu reino pela companhia de um bichano. Ah, captou a dica? Pensou em felinos? Bingo, você é dos meus! Traga sua ração premium, sua bolinha com guizo, seu filho bigodudo e vamos tricotar sobre o amor a quatro patas (não fetichize e nem me interprete mal, por favor!).

Também não me julguem pela maior inclinação, pendor, fascínio pelos gatos. Eu estimo e aprecio todos os animais domésticos, de “vera”. Nesta vida passageira, já tive preá, coelho, peixe ornamental, cachorro, periquito e hamster, além, logicamente, de um punhado de felinos. Não é pouco e a experiência me habilita a falar com algum conhecimento de causa. O fato é que, provavelmente por uma herança materna assumida com entusiasmo, os gatos cativaram desde cedo minha predileção (um antigo desenho animado – Manda-Chuva –também tem sua parcela de responsabilidade!). Cada gato encerra um mistério, cada dia de convívio é uma novidade e um aprendizado que não cessa, repito este bordão com fervor. Um encontro de donos de cães é uma festividade de rabos abanando e uma convergência de opiniões – isto quando os proprietários não são obrigados a interromper sua prosa para apanhar algum cocô inesperado. Um encontro de donos de gato é sempre imprevisível – primeiro, os bichanos não comparecem, ficam em casa exibindo sua silhueta elegante ou rolando pelo tapete; segundo, cada fala, relato é uma história diferente, pontuada de surpresas. Por vezes, algumas informações coincidem. Mas quase sempre predomina a novidade, a curiosidade, o encantamento…

Um encontro de donos de gato é sempre imprevisível – primeiro, os bichanos não comparecem, ficam em casa exibindo sua silhueta elegante ou rolando pelo tapete; segundo, cada fala, relato é uma história diferente, pontuada de surpresas.

Toda esta digressão para partilhar com vocês um fato triste e uma decisão súbita. Há aproximadamente um ano e meio perdi um gato que me acompanhara por quase onze anos. Um filho, eu insistiria. Felpudo e gorducho, do tipo que poderia estrelar qualquer comercial de ração, Manolo não era um felino comum. Era meu gato, fato, mas na verdade foi o animal de toda uma geração de amigos e parentes. Tinha a petulância e a curiosidade da espécie, mas uma exuberância incomum. Era magnético, garboso, arisco e observador. Conheço gente que passou a criar e a amar gatos após conviver e participar da confraria em torno de Manolo; e minha mãe insistentemente o considerava um neto. Enfim, com sua partida ficamos órfãos, nosso lar se despedaçou, uma lacuna imensa se abriu, seguida de lenta cicatrização. Ainda hoje, ele permanece vívido em nossas lembranças – e creio será tema de recordação e saudade permanentes.

Durante o ciclo do luto (extenso demais em minha opinião!), repensamos sobre a possibilidade de adotar ou não outro animal. Vale à pena reprisar esta experiência – longos anos de convívio fraterno e um período de agonia após a perda inevitável? Racionalmente, desejava evitar o questionamento e qualquer decisão. Mas a pergunta persistia e retornava. Durante algum tempo, senti-me inclinado a não mais adentrar neste círculo de afetos intensificados; uma cumplicidade que gerava demandas crescentes e que, em certa medida, comprometia meus engajamentos profissionais e viagens de lazer. Fora a necessidade de ter que viabilizar uma rede mínima de apoio, residindo numa cidade onde não dispomos de familiares – sim, bicho é quase filho e pede uma cadeia de solidariedade permanente.
Ocorre que, na virada do ano, motivado pelo espírito de renovação, mas sem qualquer planejamento, decidimos subitamente adotar dois rebentos felpudos. Dois! Uma mudança súbita para quem hesitava em aceitar um novo animal, receando sofrimentos futuros. Rápido passeio pelas páginas com bichanos para adoção e, voilà!, escolhemos nosso par de felinos. À esta escolha, seguiu-se uma breve disputa para definir seus nomes; após alguma discordância, fechamos em Ziggy (Stardust), persona mais famosa do meu divo David Bowie; e Bob (Dylan), músico sempre presente nas trilhas de nossas viagem.

Na virada do ano, motivado pelo espírito de renovação, mas sem planejamento, decidimos subitamente adotar dois rebentos felpudos. Neste lar fincado num cruzamento movimentado do Recife, a vida recomeçou com intensidade. 

Bob e Ziggy estão conosco há pouquíssimo tempo. E, desde suas chegadas, não parei de repetir um questionamento: terá sido uma decisão sensata? Era a hora indicada? Nosso lar e corações estavam em condições de acolher novas vidas? Todas as manhãs, procurava sinais indicativos de que esta escolha não fora precipitada. Aos poucos, juntamente com o privilégio de ver nossa casa com energias renovadas, estes indícios foram aflorando. Uma pista aqui, outra acolá, o quebra-cabeças se encaixava. Hoje, não obstante os desafios que nos aguardam (redistribuir de modo equânime os afetos e não trair a confiança daqueles que decidimos amar!), estou otimista, entusiasmado, empolgado. Na esfera coletiva, acredito francamente que 2018 será um ano tão amargo ou difícil quanto 2016 e 2017; não vejo sinais de mudanças, sobretudo positivas. Mas, neste lar fincado num cruzamento movimentado do Recife, a vida recomeçou com intensidade. E, por hora, isto me basta…

Laécio Ricardo

Laécio Ricardo é (ou foi) jornalista, é doutor em Multimeios pela Unicamp e professor da UFPE. Apaixonado por gatos, tem convicção de que é cearense, não obstante pistas contrárias, e adora o mar, apesar da epiderme albina.

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