Política

Um ano fadado a não acabar

caverna2016

Você já deve ter escutado de muitos amigos e provavelmente concorda: 2016 tá pesado! Pense num ano difícil e do qual pouco levaremos! Não tem freios, não há fim – desde que viramos a folhinha do calendário em janeiro as notícias e os eventos negativos são constantes. E quando a gente acredita que chegou no limite, ansioso pra liberar a respiração retida, vem outra desgraça com intensidade maior. Assim, se você tem algum ritual para desviar 2017 do caminho do antecessor e tornar nossas vidas amenas, é bom caprichar: pague o melhor pai de santo, compre uvas importadas, vista branco com assinatura Dolce & Gabbana e nem ouse abrir uma sidra na última noite de dezembro!

O mal sedimentado em 2016 permanece; o que nos aflige por hora, não desaparecerá com os fogos do réveillon. Basta pensar na alardeada PEC 55. Às vésperas do Natal, ainda somos açoitados com a recente divulgação de uma reforma previdenciária que promete empalidecer o nosso futuro.

Eu, como não sou adepto de rituais e ando descrente, já joguei a toalha e espiritualmente estou me preparando para um 2017 severo, de igual envergadura ou pior. Antes de julgamentos, antecipo: não sou do tipo pessimista, tampouco embarco no delírio alheio. Mas os ventos agourentos que sopraram em 2016 prometem retornar e derrubar muita palhoça. Ninguém precisa concordar com o diagnóstico – eu tampouco queria! Mas que indícios temos para imaginar que será diferente?! Ao que me consta nenhum. E olha que não apelei para o argumento dos incrédulos: o de que a simples virada do calendário não apaga a conjuntura tumultuada, sinalizando um recomeço do zero. Ou seja, o mal sedimentado em 2016 permanece; o que nos aflige por hora, não desaparecerá com os fogos do réveillon. Basta pensar na alardeada PEC 55, cuja aprovação a toque de caixa se avizinha. Na aurora de janeiro, enquanto estivermos recolhendo as taças quebradas e a sobra da farofa, provavelmente a maldita estará sendo chancelada. E não adianta chorar as pitangas. Lutou pelo impeachment, alçou Temer e sua corja ao poder, agora é aguentar no lombo! Por vinte anos, sem arrego!

Tempos difíceis, rumos imprevisíveis. Recuando um pouco no calendário, cinco ou seis anos, quem diria que chegaríamos ao biênio 2015/2016 de forma tão melancólica, tão pouco auspiciosa, sem grandes expectativas! E que avançaríamos para 2017 sem a mais remota promessa de felicidade! É bem verdade que, neste ano funesto, celebrei quatro décadas. Um triunfo pessoal, uma festa bacana, cercado de bons amigos, tal como desejara. Mas, salvo um ou outro reencontro, não guardo recordações positivas do ciclo 2016. Se ponderar apenas as dores pessoais, diria que este foi o ano que levou meu ídolo dileto (Bowie) e que findou com a morte de outro gênio querido (Leonard Cohen), numa lista de perdas que inclui ainda aquele que talvez fosse meu cineasta vivo preferido (Abbas Kiarostami). Pensando na esfera doméstica, perdemos também nosso filho felino de modo súbito, uma dor que ainda hoje me consome algumas horas à noite. Até nas redes sociais, onde geralmente investimos numa persona mais extrovertida, creio que meu balanço é negativo. Prova disso é o vídeo-recordação que o Facebook nos oferece com um resumo do ano – acabo de ver o meu e fiquei constrangido.

Assim, encaminho novo conselho: desenvolva formas de resistência, pense em estratégias capazes de te blindar minimamente. Vale tudo: dos engajamentos coletivos às terapias privadas. A solução é manter alguma sanidade.

Mas, extrapolando a esfera privada, quando penso no meu entorno – Recife, Nordeste, Brasil – o diagnóstico é semelhante. Aversão à classe política (com o Executivo e o Legislativo disputando o monopólio da nossa raiva), incredulidade no Judiciário, desconfiança perante a grande imprensa (persiste a dúvida: onde encontrar alguma informação correta, equilibrada?), estagnação econômica e desemprego, exacerbação de um conservadorismo que julgávamos já superado, letargia social ou incapacidade para reagir diante deste quadro… Enfim, sinais de uma sangria que se aprofunda em vez de estancar. E, pra findar a lista, às vésperas do Natal, somos açoitados com a recente divulgação de uma reforma previdenciária que promete empalidecer o nosso futuro, solicitando de cada um maior tempo e maiores percentuais de contribuição, com a promessa de uma aposentadoria parcial numa velhice remota, arquejada. Para nos poupar, não vou enumerar as mazelas internacionais de 2016 – basta mencionar o nome Donald Trump, que já é uma boa síntese dos horrores que nos cercam.

Diante deste quadro, é fácil entender o anseio da maioria que, desde julho, pelo menos, pede celeridade ao tempo para promover o rápido desfecho do ano. É justo, com tanta negatividade no ar, quem desejaria aguardar todo um semestre e correr novos riscos?! Serei honesto, na contramão dos pedidos de tantos colegas, eu cá converso com Cronos e digo a ele que dezembro se demore um pouco mais, que dilate as horas. Não é masoquismo, nem a sina da vítima que se apega ao algoz. É que, uma vez na casa dos 40, não se deseja que o tempo escoe com rapidez. Afinal de contas, já não tenho a disposição e a doce inconsequência dos anos de graduação, quando a ampulheta poderia escorrer e tudo me era indiferente…

Ligo para os mais amados pra reiterar o amor e fortalecer os laços. Voltei a cozinhar com regularidade. Por fim, vou à feira de orgânicos num bairro próximo todo santo sábado. Encho as sacolas, toco nas pessoas e renovo meu credo na humanidade.

Mas te dou um aviso, sem nada cobrar: se julgas que o desfecho de dezembro e a chegada de um novo janeiro vai dissipar 2016 do seu coração e do seu futuro, estás enganado! A exemplo de 1968, embora numa chave inversa (no lugar da esperança, o desespero!), este é um ano fadado a não acabar. Ou seja, viveremos um ciclo de mais alguns decênios e a história estará retornando a 2016 continuamente, numa tentativa de melhor entendê-lo e de avaliar seu legado sombrio. Assim, encaminho novo conselho: desenvolva formas de resistência, pense em estratégias capazes de te blindar minimamente. Vale tudo: dos engajamentos coletivos às terapias privadas. A solução é manter alguma sanidade.

Cá já bolei algo, coisa pouca, mas de relativa eficácia pra mim: com regularidade, ligo para os mais amados pra reiterar o amor e fortalecer os laços; hoje, me permito cada vez mais fazer o que quero e na hora em que desejo; e voltei a cozinhar com regularidade, porque o fogão é uma segunda vocação e a boa comida um ótimo ansiolítico. Por fim, descobri que o  que mais me tranquiliza é ir à feira de orgânicos num bairro próximo todo santo sábado. Ritual constante do qual não me desapego. Chego às 8h30, converso com os feirantes, encho as sacolas, degusto uma fruta, compro um bolo, toco nas pessoas e renovo meu credo na humanidade. É o possível, por enquanto, e bem restrito à esfera do cotidiano. Mas é onde percebo os resultados mais evidentes. De qualquer modo, se tiverem nova receita ou conselho, me repassem sem hesitação. Estamos naquele momento em que precisamos todos, enquanto persistir alguma serenidade, partilhar sugestões, comunicar novidades, indicar brechas, cavoucar saídas… Do contrário, seremos tragados pela histeria coletiva de outros tantos.

Laécio Ricardo

Laécio Ricardo é (ou foi) jornalista, é doutor em Multimeios pela Unicamp e professor da UFPE. Apaixonado por gatos, tem convicção de que é cearense, não obstante pistas contrárias, e adora o mar, apesar da epiderme albina.

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