Crônica

Da felicidade e dos biscoitos

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Semana passada morreu Eduardo Galeano. Li pouca coisa dele, mas lembro com exatidão de alguns trechos de “O Livro dos Abraços” que comprei há alguns anos para dar de presente a Clarissa Tavares. O livro é feito de breves relatos sobre amigos, familiares, lembranças… Questões aparentemente despretensiosas que são, em essência, imensas. Fala de coisas importantes, dessas que a gente corre corre, dá a volta ao mundo, achando que vai encontrá-las num universo distante e encantado para ver, depois de muita estrada, que estão ao lado e são da ordem do cotidiano, do pessoal. Ao folhear o livro, na hora, me lembrei de um conselho que o Guimarães Rosa deu a Fernando Sabino ao saber que este escrevia uma peça de teatro enquanto acalentava o sonho de fazer um grande romance: “Não faça biscoitos, faça pirâmides”. Sabino chega a consolar-se ao lembrar dos “faraós biscoiteiros” como Machado de Assis e, ironicamente, relata isso numa singela crônica, dando-se conta de que era, na verdade, um feliz padeiro.

Foram essas “pequeninices” que a lembrança do Galeano me trouxe de volta. Quando ele se foi pensei que era preciso fazer uma homenagem dessa natureza. Então, me veio a mente a história curiosa de uma amiga que certa vez se envolveu num acidente de carro e, sendo culpada do entrevero, recebeu uma surpreendente indulgência do outro condutor. Comovido com o aperreio da moça, ele disse: “Tudo bem, minha filha. Tá tudo certo. Vá pra casa e faça uma boa ação”. Ela chegou em casa e, sem saber o que fazer, soltou um passarinho da gaiola. Essa história pueril, que mais parece uma tirinha, talvez seja uma das demonstrações mais certeiras do que o padeiro Sabino chama de “a estética do amor”. É o pouquinho da índia do Manuel Bandeira. É que nos remete o Livro dos Abraços do Galeano.

Valter Hugo Mãe que me disse: “Uma cortina amarela em casa é uma dimensão fundamental da felicidade”. Eis aí o sonho de toda a gente. Mas, um sonho plasmado numa imagem. Eis a estética do amor.

Em uma carta ao amigo Hélio Pellegrino, em uma noite chuvosa de 1945, enquanto escutava Bach, Sabino se emociona ao lembrar dos amigos e da infância em Minas Gerais. De sobressalto escreve uma das mais belas cartas que já li e diz como numa sentença luminar que o “único caminho possível é o amor se traduzindo numa atitude estética diante da vida”. Soltar um passarinho, comover-se com Bach… São dessas coisas, desse tecido fino, que a felicidade é feita. Há algum tempo quando pude conversar Valter Hugo Mãe fiquei comovida com sua visão sobre a felicidade. Era ele também um biscoitero. Frustrado porque não morreu antes dos 40, como previu quando era menino, deu-se conta que os melhores sonhos da vida são os mais comuns, os de toda a gente.

Mas a felicidade não é a ausência da tristeza. Ao contrário, ela traz em si uma consciência e uma capacidade de lidar com a herança triste que todos nós temos. Por isso mesmo, a ilusão nos escapa. Aprendemos a reconhecê-la (e nos contentarmos, com toda a dimensão que essa palavra encerra) com o simples que nos afeta e se projeta na maneira que vemos o mundo. Foi o mesmo Valter Hugo Mãe que me disse: “Uma cortina amarela em casa é uma dimensão fundamental da felicidade”. Eis aí o sonho de toda a gente. Mas, um sonho plasmado numa imagem. A estética do amor se contenta, mas não se conforma. Arruma a casa, abre a gaiola, escreve um carta. Faz algo por alguém. Está no que sentimos e o que expressamos a partir disso. Cabe numa pirâmide majestosa e num biscoito fino servido a quem amamos na sala de cortinas amarelas. Eu, aliás, prefiro os biscoitos.

Texto publicado originalmente em 21 de abril de 2015.

Grazielle Albuquerque

Grazielle Albuquerque é doutoranda em Ciência Política pela Unicamp, jornalista e arengueira. Criou a Pulga nos idos dos anos 2000 e agora revive a meninice. Nessa nova fase, edita a Pulga desde 2014. É viciada em história, política, café e música. Cultiva o bom humor e tem um quarto azul.

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