Tempo

Do tempo e da circularidade da vida

Stardust

Lembro-me de uma época em que os dias me pareciam longos e as horas escoavam em conta-gotas. Período em que as minhas atividades e afetos não excediam o perímetro do nosso conjunto residencial, e os colegas próximos cabiam em uma só folha da agenda. Duas eram as minhas urgências: decorar os versos do hino nacional para evitar constrangimento público e me certificar quanto a limpeza do uniforme escolar. Nada a fazer, senão me conformar com o tédio do subúrbio e observar o enfadonho deslizar das nuvens.

Nestes dias, reitero, eu me angustiava com a lentidão da ampulheta. Apenas desejava que o ano findasse, que os tempos de universidade chegassem e que novidades distantes não tardassem a sacodir meus estreitos limites. Mas não sei precisar o que me afligia. Não era insatisfação ou inadequação, pois eu celebrava as minhas tardes e apreciava as companhias diárias. Afinal, éramos partes de um entorno muito coeso… Talvez eu desejasse mais e intensamente por desconhecer que, àquela altura, possivelmente, já tivesse muito. Mas tais segredos a gente só descobre tardiamente, quando a ampulheta já verteu metade da areia.

Triste sina, hoje percebo que o tempo, antes um senhor de fala contida e aparente imobilidade, escoou de modo vertiginoso, sorrateiro, implacável. E eu desdenhei do seu bordado. Ou talvez tenha ficado na janela ensimesmado, distraído, contando os gatos da vizinhança. Hoje, quero recuperar alguns dos seus vestígios, mas não disponho de folga para iniciar o quebra-cabeças. Ai de mim, que pequei pelo excesso de tempo quando as horas não contavam.

Mas não sou do tipo cabisbaixo – coleciono muitas alegrias e tenho ciência de que não fui um aprendiz leviano. Prova disso é que, hoje, lido com o tempo de forma impecável; o trago na palma da mão e cedo a todos os seus caprichos sem hesitar. Em troca, peço apenas algumas horinhas de fluxo desacelerado, quando a urgência não se torna denominador comum e uma justa folga se instala.

Ante o ritmo urbano frenético, que nos aparta do mundo e dos afetos, tenho dificuldade para entender a ansiedade de tantos frente os ponteiros de um relógio. Que passem as horas, insistem. Que cessem os dias, repetem. Que venha o novo ano, anseiam… Salvo instantes em que a presença do tempo é ostensiva e me martiriza (a bordo de uma aeronave, por exemplo), desejo imensamente que Cronos não canse da minha ladainha e partilhe comigo demoradas xícaras de chá. Quero ser seu confidente e abusar de sua generosidade. Quem sabe, não sou contemplado com o signo dos imortais…

É possível que minha idade, margeando os 40, mas desejando loucamente permanecer nos 30, contribua para redefinir a minha relação com a sucessão dos dias e noites. Quero me agarrar a cada entardecer como quem se entrelaça ao seu arcanjo, sem deixá-lo escoar impunemente. Ciente, pois, de que não devo trocá-lo por pouca pauta ou barulho. Pode ser que numa etapa futura, quem sabe acometido d’alguma enfermidade, eu inverta meu diálogo com o tempo e o expulse da minha confraria. Então, voltarei a ser a criança que contava os dias como quem distribui as cartas de um baralho – sempre em ritmo célere. Mas, ora, não se diz que na velhice tornamos a ser meninos, recrudescemos para os dias de infância? Que seja, então; estarei apenas cumprindo o devir humano no que ele tem de inexorável…

Laécio Ricardo

Laécio Ricardo é (ou foi) jornalista, é doutor em Multimeios pela Unicamp e professor da UFPE. Apaixonado por gatos, tem convicção de que é cearense, não obstante pistas contrárias, e adora o mar, apesar da epiderme albina.

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