Kátia Freitas e sua trajetória além da fronteira

Kátia Freitas

A primeira entrevista da Pulga foi feita com a cantora Kátia Freitas, em dezembro de 2000, pouco antes do site entrar no ar. A conversa aconteceu num final de tarde, em uma casa branca de varanda azul, no centro de Fortaleza, onde os pais de Kátia moravam. Na conversa, a cantora falou da infância, da influência dos irmãos, da adolescência tímida e da vocação que desabrochou na faculdade. Na época, ela seguia para o segundo trabalho depois do imenso sucesso do álbum de estréia. Em trechos da entrevista é possível ver claramente esse ponto de inflexão de quem inicia uma nova jornada. Kátia estava em plena transição, começava a seguir um novo trajeto além das fronteiras da cidade. Éramos ela e nós, de alguma forma, iniciantes na estrada.

Pulga: Como foi a passagem da menina que cantava em casa para uma vocação que demarcou espaço na época da faculdade?
Kátia: Eu já tinha muita vontade de cantar, inclusive lembro de um festival (o Festival da Credimus) em que meu irmão participou como compositor. Eu tinha uns 12 anos na época e os jurados foram o Fagner e Alceu Valença. Fiquei indignada porque vi a apresentação e achava que ia cantar aquela música melhor do que aquela menina que defendeu a canção no festival. Pretensão ou não, mas já era um desejo meu de cantar. Na faculdade, tendo contato com algumas pessoas que já viviam no meio musical e trabalhavam com música, é que eu pude realmente externar isso. Então, a gente fazia rodas de violão na faculdade e as pessoas começaram a dizer que eu tinha voz boa, que devia entrar num coral. Eu já achava que tinha esse talento para a música, mas não me arriscava. Até que um amigo compositor, que fazia psicologia também, o Álcio Barroso me convidou para participar de um show que ele ia fazer no auditório da faculdade de Direito. Essa foi a primeira vez que eu subi solenemente num palco para cantar e cantei descalça. Depois disso eu tomei coragem e comecei a cantar no Blue Bar.

Pulga: E como foi essa experiência de começar cantando em um bar GLS nos idos dos anos 80?
Kátia: Eu acho que isso foi um aspecto bastante interessante porque era um público muito interessado no que eu tava fazendo. O que me possibilitou experimentar. Eu fiz maquiagens estilo Secos e Molhados, ia de chapéu, rolava no palco… Pude experimentar. Realmente era um palco, não é como hoje que você tem uma música ao vivo de fundo num barzinho. Realmente era um show, era uma hora que eu cantava toda sexta e sábado, e as pessoas que estavam lá realmente assistiam e aplaudiam.

Pulga: Além dessa experiência do Blue Bar, gostaria que você falasse um pouco mais da sua trajetória, a participação no disco do Ricardo Augusto, o show com Fausto Nilo… Como essas coisas foram acontecendo?
Kátia: Tudo é uma cadeia. Eu tocava com o Álcio, aí teve o Circo Voador aqui em Fortaleza e no último dia do Circo foi aberto ao público, quem quisesse subir lá para cantar, subia. E eu queria desesperadamente cantar, porque eu tinha assistido a todos os outros shows da dupla Paulo e Valerie, do grupo Bodega e de outros artistas. E no dia o Álcio não tava, aí eu vi o Zé Eugênio, chamei ele num canto e a gente ensaiou umas duas músicas, uma da Marina e outra do Álcio, e a gente cantou. Daí tudo começou, o Luís Miguel que é baixista estava lá, me viu e falou para o Ricardo Augusto, que na época estava lançando um disco. O Ricardo me convidou sem me conhecer e eu cantei duas músicas no LP Fotografia.  Uma delas tocou muito na rádio, a música chamava Imaginação e chegou ao quinto lugar nas paradas, o que era uma coisa totalmente inédita para uma música produzida no Ceará e independente. No pré-lançamento desse LP Fotografia foi que o Fausto Nilo me viu e me convidou para participar do lançamento de dois discos de letristas (um dele e outro do Fernando Brant), lá no My Way (que hoje é a boate do Iate Clube).

Pulga: Então, você já estava começando um caminho mais estruturado quando viajou para a Alemanha. Como foi essa história?
Kátia: Essa história da Alemanha é muito engraçada (risos). O Eugênio Leandro ligou para mim, me chamou para comer uma pizza e disse: “Vamos fazer uma viagem? Você quer ir para onde, para o Rio ou para a Alemanha?” Aí é claro que eu disse: “Pra Alemanha!” Mas a intenção era ir, fazer shows, divulgar… ele tinha um projeto mais bem elaborado na cabeça dele. Eu não, eu fui totalmente sem noção do que aquilo poderia me dar. Então, fui mesmo, mais uma vez a menina atravessando o mar para conhecer o outro lado. Fomos para lá: Eu, o Eugênio Leandro e o Eudinho (guitarrista cearense, até hoje radicado na Alemanha). Eu topei a história porque tinha um casal de amigos que já morava lá e porque tinha o Quilombo de Berlim, que era um centro de multicultura formado por brasileiros e alemães que ia ser inaugurado e a gente ia fazer o show de abertura. Tinha um estúdio em cima desse Quilombo e eles convidaram a gente para fazer um disco e eu fiquei lá para fazer esse disco que acabou nunca saindo.

Pulga: Foi nessa época que você entrou na banda Ônix?
Kátia: Pois é, diretamente de Berlim para Teresina (risos). Foi aí que eu recebi o convite para entrar na banda. Foi ótimo, outra experiência. Eu fiz 24 shows em 30 dias, o interior todo do Piauí, Maranhão, Pará e Tocantins. Mas assim, fui sabendo que não era o trabalho que eu queria fazer, que era puramente comercial, de entretenimento e patrocinado. E a intenção era pegar aquele dinheiro para começar a gravar meu disco.

Pulga: Isso foi em que ano?
Kátia: A minha viagem com a banda Ônix foi em 91, mas eu só comecei a gravar o disco em 93.

Pulga: E como você avalia a contribuição do disco para a divulgação da sua carreira?
Kátia: Muito da divulgação vem dos shows, mas principalmente porque eu tive sorte de ter tocado muito na rádio. E o desafio é que até então as pessoas só me conheciam como cantora e eu ia me lançar como compositora. E eu fiz o lançamento em outubro de 95 durante dois dias no Theatro José de Alencar, mas depois fiz um show em janeiro de 96 na barraca Biruta e nesse intervalo a música tocou muito na rádio, isso me ajudou muito. E tive muita sorte porque eu não precisei ir lá pedir, por favor, para tocar na rádio. O Guilhermando Duarte, que na época fazia parte da direção do sistema O Povo de Rádio, me chamou para conversar e todo o sistema meio que abraçou o disco.

Pulga: E o clipe? Já havia um projeto de lançar CD e clipe juntos?
Kátia: Não, o clipe foi mais uma iniciativa do (videomaker) Joe Pimentel. Ele tinha um programa na TVC e estava fazendo clipes para exibir nesse programa. Daí ele me chamou para fazer o clipe da música “Um qualquer”. Depois ele foi até exibido na MTV, mas não fazia parte dos meus planos.

Pulga: E depois do disco, não tinha uma cobrança em cima do seu trabalho? Algo como fazer uma divulgação mais sistemática no eixo Rio/São Paulo?
Kátia: Não só tinha como tem! Até as pessoas chegam para mim perguntando por que eu não faço sucesso nacionalmente. Como é que eu posso responder por isso? (risos). Mas eu acho que eu ainda não fiz esse esforço mesmo, eu nunca saí de Fortaleza. Eu ainda estou aprendendo. Acho que agora estou mais preparada para isso. Porque, veja bem, eu não podia num primeiro CD, lançado independente, em Fortaleza, numa cidade onde tudo ainda está por acontecer, tudo ainda está se construindo, como eu posso chegar e pular todo esquema da indústria fonográfica do país? Poderia até ter feito isso se eu fizesse uma música bastante comercial, eu acho que a minha música é comercial, mas ela prima por outras coisas e também eu acho que as pessoas que tiveram acesso ao disco ainda não sacaram como ela pode ser comercial.

Pulga: Mas como foi o processo de divulgação nacional do CD, você mandou copias para as gravadoras?
Kátia: Sim, mandei para todas as gravadoras, o disco tocou muito em São Paulo. O que eu não fiz foi me mudar para lá, fincar os pés e ficar batalhando. Eu não fiz isso, mesmo porque tudo era muito novo para mim e o barato era fazer o CD e conquistar Fortaleza. Eu gosto de viver em Fortaleza, eu quero sair daqui para trabalhar, mas eu nunca senti vontade de adotar outro lugar como lar. Acho isso tudo muito cruel e espero que essa lógica seja invertida. Espero que todos os eixos culturais do Brasil possam vir à tona, acredito nisso. Não sei se eu vou ter tempo para ver isso acontecer, mas acredito nisso e quero fazer parte dessa construção.

Pulga: Você pretende trilhar esse mesmo caminho com o novo CD?
Kátia: Eu quero seguir novos passos. Eu estou com mais energia, conheço melhor os caminhos, conheço alguns atalhos para conseguir o que quero. E principalmente não desejo com tanta ansiedade, como eu tinha, fazer parte de uma grande gravadora. Hoje tenho vontade de construir um caminho realmente independente.

Pulga: E como está o novo trabalho?
Kátia: Na verdade eu comecei a fazer o novo CD e é tudo que eu posso te dizer (risos). Porque eu gosto de trabalhar em silêncio como fiz no meu primeiro disco.

Pulga: É só isso? Tem composições suas? Você não pode falar mais nada?
Kátia: Tem composições minhas, tem regravações, tem algumas parcerias que eu acho que vão acontecer, que são novas e interessantes. Mas o legal é que este é um trabalho que eu estou tendo tranquilidade de fazer porque estou sendo patrocinada pela Telemar. Eu comecei a gravar esse disco quando pintou aquele festival da Globo (outubro de 2000) e eu gravei uma música minha para o festival. Graças a Deus ela não entrou, porque seria o fim para mim pedir autorização para gravar uma música minha. Foi daí que pensei que estava na hora de gravar.

Pulga: Você já tinha algum material na gaveta ou foi a partir daí que começou a garimpar o material?
Kátia: Eu tinha algumas coisas, na verdade eu até achava que não tinha nada porque passei um tempo muito vazia. Eu me casei, fiquei muito dedicada ao casamento, à casa, passei um tempo longe dessa coisa da criação. Quer dizer, eu achava que tava longe, mas depois eu fui ver um caderninho que uso para escrever e vi um monte de coisa que eu fiz nesse tempo e não me dei conta. Então, agora é fazer a música para essas coisas que eu já vinha escrevendo.

Pulga: Como está a gravação do novo álbum? Você pretende lançá-lo quando?
Kátia: O disco tem três músicas gravadas e mais duas escolhidas. Quero lançar depois do carnaval. E o fato de ser patrocinada, através da Lei estadual de Incentivo à Cultura, me dá uma maior tranquilidade para gravar, mas isso só vale para a gravação. O show de lançamento não está incluído.

Grazielle Albuquerque

Grazielle Albuquerque é doutoranda em Ciência Política pela Unicamp, jornalista e arengueira. Criou a Pulga nos idos dos anos 2000 e agora revive a meninice. Nessa nova fase, edita a Pulga desde 2014. É viciada em história, política, café e música. Cultiva o bom humor e tem um quarto azul.

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