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Centro, um mapa afetivo da Fusta

Fortaleza2

Se tem uma coisa que eu gosto de fazer em Fortaleza é caminhar pelo Centro. É um hábito antigo que tenho desde criança, quando ia levada pelas mãos da minha mãe. Naquela época quase não haviam shoppings e os cinemas de rua ficavam lá. Aquele era o passeio mágico do fim do mês quando ela recebia o salário e eu sempre ganhava um mimo, tomava um sorvete e comia uma coxinha na cantina das Lojas Americanas. Era o hábito proletário mais feliz de todos. Um imenso cruzar de fronteiras.

Hoje quando retorno ao Centro e vejo tanto abandono procuro na minha mente esses lugares incríveis que eu tive a sorte de poder conhecer lá. Lembro de um restaurante self service que funcionava nos fundos de uma loja de aluguel de roupas para festas e, salvo engano, ficava na Barão do Rio Branco ou na Senador Pompeu. Almocei lá inúmeras vezes durante o 2o grau e até hoje me arrependo de não ter entrevistado os donos daquele inusitado negócio. Também havia um local que só vendia sucos (todos da fruta, nada de polpa) em plena Pedro Pereira, perto do antigo BEC dos Peixihos. O local chamava “Progresso Lanches” e o caixa vendia as fichas dos sucos e alguns produtos eletrônicos. Há alguns anos vi que o lugar havia cedido à vocação do entorno e o oásis do suco tinha se tornado mais uma loja de fios, lâmpadas e outros quetais.

Ainda que sem esses lugares perdidos no tempo, o Centro ainda tem traços do meu mapa afetivo. Subo no edifício Progresso e tenho uma das vistas mais espetaculares da cidade, esquecida (como o próprio Centro parece estar) numa janela aparentemente despretensiosa

Outro local que me dói de saudade é o Waldo Café que funcionou por mais de 30 anos na esquina da Barão do Rio Branco com Guilherme Rocha. Lá só se vendia café coado e água. Nenhum capuccino, nenhum expresso, nenhum bolo ou qualquer outro quitute. Minto, nos caixas era possível comprar bijuterias Michelin e cigarros. Mesmo com o que se pode chamar de oferta reduzida de produtos, arrisco a dizer que era o melhor café da cidade em minha memória afetiva, servido em uma louça grossa, colocada no balcão ainda quente, logo após ser escaldada. O local também não tinha cadeiras. A gente se espremia no balcão, tomava o café escaldante e ia embora. Era o café mais lotado que conhecia, me intriga profundamente que tenha fechado.

Ainda que sem esses lugares perdidos no tempo, o Centro ainda tem traços do meu mapa afetivo. Sempre que vou consertar o relógio, subo no edifício Progresso e tenho uma das vistas mais espetaculares da cidade, esquecida (como o próprio Centro parece estar) numa janela aparentemente despretensiosa que dá defronte ao todo. Para continuar no mesmo ramo, passo sempre numa ótica da Guilherme Rocha em que conheço os gerentes desde que eram vendedores e sou sempre recebida com café, água e sorrisos. Hoje, a Francisca, que trabalha lá há anos, disse que lembrou tanto de mim no final do ano, quando o coro do natal canta na Praça do Ferreira, e eu sempre apareço por lá. Ano passado não tive tempo de ir e ela me mandou uma mensagem preocupada com meu paradeiro. É dessas singelezas que o dinheiro não paga e que eu duvido que os grandes estabelecimentos comerciais cultivem.

Muita coisa mudou no Centro, mas essa teia orgânica de quem ganha a vida lá continua inteira. As pessoas se conhecem, sabem onde conseguir de um tudo, estabelecem laços, fazem dali mais do que um local impessoal de se fazer negócio. Elas vivem o Centro. De alguma maneira, se apropriar disso, conhecer as ruas e as pessoas me dá um sentimento de uma felicidade mais genuína e menos afetada. É bom reconhecer-se nesses espaços, ainda que muito tenha mudado.

Muita coisa mudou no Centro, mas essa teia orgânica de quem ganha a vida lá continua inteira. Conhecer as ruas e as pessoas me dá um sentimento de uma felicidade mais genuína e menos afetada

Contudo, confesso que me dá uma dor imensa saber que é preciso dessa ligação já estabelecida para ver a beleza que o Centro ainda conserva. Um estranho dificilmente se encantaria com tanto descaso. É uma das áreas mais cheias de vida da cidade e não reconheço uma ação para valorizá-la. Não há restauro das praças, criação de locais públicos convidativos, regulação do espaço urbano… É uma joia encoberta. Ás vezes tenho a ilusão de que, de alguma maneira, talvez isso afaste os predadores mais vorazes.

Da paisagem vista nesta foto fica tão claro como aquele é um espaço privilegiado. Quem só circula na Fortaleza-Dubai-Miami certamente não vê isso. Talvez, se visse, achasse bonito como num cartão postal europeu. Mas, se chegasse lá, logo expulsaria os antigos comerciantes, criaria um padrão de negócio, trocaria o que resta de vestígio do tempo e dos usos por alguma construção com aço e vidro. Acho que o nome moderno disso é gentrificação. Para mim é o desprezo a toda e qualquer identidade genuína.

Texto publicado originalmente em 13 de janeiro de 2015.

Grazielle Albuquerque

Grazielle Albuquerque é doutoranda em Ciência Política pela Unicamp, jornalista e arengueira. Criou a Pulga nos idos dos anos 2000 e agora revive a meninice. Nessa nova fase, edita a Pulga desde 2014. É viciada em história, política, café e música. Cultiva o bom humor e tem um quarto azul.

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