Grilo Falante

Narrar e fabular

Meninos – Grazielle Albuquerque

 

Certa vez, Fernando Sabino escreveu que tudo é genericamente chamado de crônica. Como nas doenças, pela exclusão das que são agudas. Assim, o moleque Sabino galhofa sobre o gênero atormentado das ruas, o mais vira-lata de todos os textos porque não tem apoteose, via de regra não acaba com trágicos assassinatos ou beijos de tirar o fôlego. Ao contrário, a crônica é como a difícil conquista da amizade, diária e mansa vai se mostrando aos poucos quando descobrimos uma afinidade, fazemos uma confidência ou deixamos nossa raiva escapar sem que isso signifique o fim do mundo.

A amizade e a crônica são feitas do mesmo tecido cotidiano: da caixa-de-fósforos, do pedaço de pizza, das mesmas lembranças pueris e sinceras. São ambas o silêncio a espera da resposta do outro. Como o velho que é reconhecido pelas pessoas que passam e sempre o vêem lendo o jornal no mesmo banco. Como o menino que compra o álbum só para se exibir com a figurinha premiada. Assim somos nós quando sabemos que o outro vai estar lá. A certeza de que alguém, mesmo distante, nos olha já é uma consumação. Já nos torna quem somos. Talvez, por isso, o escritor e o amigo possam sobreviver a tempos tão ásperos, porque eles apenas olham, esperam e, pelo toque da realidade do outro, se tornam quem são.

Muito provavelmente seja por esse motivo que Fernando Sabino, o citado mestre da crônica, tenha desenvolvido ao lado de Otto Lara Resende, Hélio Pelegrino e Paulo Mendes Campos um dos mais belos laços de amizade de que tive notícia. Eram meninos quando se conheceram nas Minas Gerais das décadas de 20 e 30. De lá foram para o Rio de Janeiro, para Londres, para Nova Iorque… Casaram, separaram, tiveram filhos, mudaram de emprego, fizeram filmes, escreveram livros, tiveram sucessos e fracassos, mas continuaram ligados: os quatro cavaleiros do apocalipse, se reunindo em três para falar mal do que estivesse ausente.

Toda a correspondência entre eles conhecida e catalogada vai de 1943 a 1992. Nas cartas, Sabino fala aos amigos dos mesmos temas que aborda em suas crônicas: Getúlio Vargas, as aventuras em Londres, a peste da saúva, o cansaço, as obrigações de ter se tornado um pai de família, o medo de perder a intimidade com os velhos “comparsas” de juventude, a necessidade de queimar os chinelos do Otto que insiste em viver de pijamas e se acomodar à vidinha que Belo Horizonte lhe dá.

É, aliás, ao mesmo Otto que Fernando dedica uma carta sintomática do que nos tornamos quando tocados pelo verdadeiro afeto: “Fiquei muito impressionado com os casos que você me conta do Hélio. Não, o salafra não me escreveu. Mas não tem importância, sei bem a quantas anda, é aquela velha ternura de sempre e ainda ontem tive com ele um sonho esquisitíssimo: ele me dava um poema enorme para ler e o poema desaparecia de minhas mãos feito água; então me dava outro e acontecia a mesma coisa; uma hora lá nos dois estávamos sentados em cima de um monte de roupas sujas tirando papel do bolso e rasgando, jogando pro ar, quando você chegou e ele gritou lá de cima: ‘Não chega não, Pajé! Nós dois já estamos perdidos, mas você não! Foge enquanto é tempo!’ Você aí começou a chorar, dizendo muito triste que queria estar perdido também.”

Esse sentimento de dividir a “perdição” ou a “salvação” é o que torna o lugar do outro a nossa casa. A vida do amigo nos importa como se fossemos a mais baixa das fofoqueiras. A diferença é que quando há perigo não olhamos da janela e achamos graça, nos ateamos ao fogo também. Saint Exupéry criou um aviador solitário e um garoto que viajava agarrado a cometas para tentar explicar tal engrenagem maluca. O velho que lê o jornal espera, com algum desejo, o sorriso no canto da boca dos que vão passando e, mesmo que por mero hábito, o cumprimentam. O menino mostra a figurinha premiada ao outro como quem, por um segundo, aprende a dividir o mais incrível dos segredos.

Essas são histórias que se repetem cotidianamente, longe das dores agudas. E houve uma época em que eu já tinha esquecido o que elas representam. Melhor dizendo, havia perdido a noção de como a amizade pode nos rejuvenescer. Mergulhada que estava na vida adulta, fui colocando num quadro na parede a idéia coletiva dos amigos, da turma, do fogo adolescente que parece nos desafiar.

E então, quando eu parecia estar adormecida, acostumada à cidade que não muda e às pessoas que vivem a mesma vida, apareceu, de mansinho, uma janela aberta, alguém que se avizinha sem fazer alarde me mostrando alguma cor. Parafraseando, com alguma liberdade, Arthur da Távola pode-se dizer que “não tem amigo quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou no meio-dia do dia de sol em plena praia” Ou mesmo “não tem amigo quem não sabe o valor de dar gargalhada quando se fala ao mesmo tempo ou descobre a meia rasgada, quem não tem uma ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo viajar de metro, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário”.

É curioso como os amigos sempre representaram para mim a cura dessa fadiga de não ver a semana, a madrugada ou o sol. Eles me devolveram a disposição para o novo quando eu parecia já ter deixado a juventude escondida em alguma gaveta. E foi assim que eu voltei a querer viajar de metro, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Foi assim que cheguei a São Paulo pela primeira vez e me deparei com esse estranho mundo de idiossincrasias. Eis uma palavra metida à besta, mas exata para descrever o encontro do abraço e do afeto na cidade cinza e fria. Eu estava a caminho dos 30, mas era uma retirante aprendiz. Tentava manter espaços vazios e seguir como quem vai a caminho de algo e não como quem o deixa.

Foram cinco dias de espasmos. A cidade me sugou, a renite explodiu, as pernas caminhavam livres como há tempos não faziam sequer na minha vizinhança. Ônibus, táxi, metrô, trem, frio, paisagens, filas… Esta foi a São Paulo dos arranha-céus que para mim se mostrou às avessas. Como aprendi numa conversa com uma amiga, minha narrativa foi vazia dos clichês dos cartões-postais. Não fiz narrativas e sim fábulas. Isto porque não vi os muros gigantes, mas os trevos de quatro folhas que se fechavam a noite e despertavam abertos plantados num pote sobre a mesa da cozinha. Escamoteie a realidade sem nem sequer olhar sua cara. Fiz como a boneca Emília que diante da complexidade filosófica da vida saiu-se com essa: “A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais. A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama. Pisca e anda. Pisca e brinca. Pisca e estuda. Pisca e ama. Pisca e cria filhos. Pisca e geme os reumatismos. Por fim, pisca pela última vez e morre.

– E depois que morre – perguntou o Visconde.

– Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?”

Pois bem, a minha hipótese não coube no discurso sisudo de quem olha a si mesmo a procura de um fim. Neste caso, meu fim era uma pausa. Minha hipótese piscou e virou fábula. Minha São Paulo tinha mesa farta, carinho, sono, cobertor, espirro, bolo de fubá, gelatina de pinga, conversa e tempo para fazer nada. Era a São Paulo crônica e amiga. A São Paulo da cosmopolita avenida Paulista e da charmosa rua Capote Valente. Se me pedissem para tirar uma foto da cidade eu tiraria dos trevos de quatro folhas que ficavam na cozinha da casa que me acolheu. Seriam três fotos, três piscadas: acorda, dorme, acorda. Tudo o que há de simples e de mais importante até chegar o tempo de não acordar mais. Também me disseram que o nome disso é ciclo ou deriva. Minha São Paulo foi a possibilidade de ficar à deriva de mim mesma e mais perto dos que me fazem ser quem eu sou.

* Para Dé, Tati, Carlos, Léo e Caramuru.

Grazielle Albuquerque

Grazielle Albuquerque é doutoranda em Ciência Política pela Unicamp, jornalista e arengueira. Criou a Pulga nos idos dos anos 2000 e agora revive a meninice. Nessa nova fase, edita a Pulga desde 2014. É viciada em história, política, café e música. Cultiva o bom humor e tem um quarto azul.

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