Crônica

Quando se escolhe o caminho do meio

 

Caminho do meio3

Lendo a biografia do Edu Lobo me deparo com um caso exemplar de algo que acho o mais engrandecedor do ser humano: a capacidade de fazer escolhas. No auge do sucesso, depois de vencer o Festival da Canção em 1967 com Ponteio, o bom moço Edu Lobo havia tirado a sorte grande. Seu passaporte para o sucesso – que começava com uma série de shows no Beco das Garrafas e se estendia Brasil a fora – havia sido carimbado junto com nomes como Caetano, Gil, Gal, Elis, Chico…

Nem é preciso dizer que essas são figuras populares para além de um seleto grupo de entendidos em MPB, enquanto Edu Lobo permanece um ilustre desconhecido. Mesmo quem não conhece o álbum Transa do Caetano, certamente já escutou sua versão de “Sozinho” do Peninha. O sujeito pode nunca ter ouvido falar em “Vaca Profana” da Gal, mas já cantou “Festa do Interior” em algum baile carnavalesco da vida. Há, sem dúvida alguma, um corte entre uma MPB que é divulgada em meios massivos daquela que permanece submersa mais ligada aos arranjos, aos estúdios e aos bastidores musicais. Escolher ficar no lado B é incomum.

O que me impressionou no caso foi a escolha que não ficou no preto e branco, mas achou uma sintonia fina, um tom acinzentado que lhe aprouvesse. Era a música que ele queria, sem dúvida, mas não aquela “corrida de cavalos”.

Edu Lobo já fazia sucesso como compositor (vale lembrar que Elis Regina ganhou o Festival de 65 com “Arrastão”), mas ter dado voz e rosto a Ponteio, que estourou em 1967, foi um divisor de águas. Curiosamente, isso causou nele mais uma depressão e um desgosto do que propriamente um deslumbramento. O incômodo da vitória foi tanto que Edu não tardou em casar e ir morar nos Estados Unidos logo depois do episódio. Fuga? Não acredito. Gosto de pensar que era alguém que podia seguir um reta e resolveu fazer uma curva. Por isso, o que me impressionou no caso foi a escolha que não ficou no preto e branco, mas achou uma sintonia fina, um tom acinzentado que lhe aprouvesse. Era a música que ele queria, sem dúvida, mas não aquela “corrida de cavalos” que a vitória em um festival lhe proporcionara.

Nesse sentido, não há escapulida ou esconderijo, os 70 anos de Edu Lobo não contam a história de um homem dividido, de uma ruptura, mas de alguém que soube fazer uma tapeçaria fina e corajosa, sair da correnteza e criar algo que lhe fosse legítimo. Por outro lado, sua condição social lhe permitia alçar esses voos. Ainda assim, tirada a prova dos nove, mesmo que com muitos tijolos à disposição, o valor de se construir uma casa na árvore onde se esperava um belo sobrado com alicerce na terra é evidente. Erguer algo a partir do “não estabelecido” tem um mérito inconteste. Não há muito glamour em sair pela tangente. É preciso ciência.

Esse cuidado com a forma é algo próprio da comunicação que sempre me instigou. O meio, de fato, muda a mensagem. Essa capacidade de modelar a prática e o discurso – numa metáfora da nossa própria vida – é liberdade. Eis um terreno movediço que é assustador porque tudo que queremos é o consolo do que é dado. Nosso imaginário está repleto de frases do tipo: “Quando Deus fecha uma porta, ele abre uma janela”; “Ah, é porque não era para ser” e outras tantas do gênero. Nem sempre uma porta fechada dá numa janela. Às vezes ficamos presos e é preciso cavar um túnel. Quase nada na vida é para ser, ainda que algo ou alguma circunstância se imponha sobre nós é nossa reação diante daquilo que muda os caminhos. E nenhuma circunstância ou condição é eterna. O próprio tempo as dissipa. O que se faz enquanto o tempo passa ou depois que ele passou é o determinante.

Mesmo que com muitos tijolos à disposição, o valor de se construir uma casa na árvore onde se esperava um belo sobrado com alicerce na terra é evidente. Erguer algo a partir do “não estabelecido” tem um mérito inconteste.

Talvez por isso eu goste tanto do ensaio, porque esse é o gênero penetra entre a ficção e o jornalismo. É o representante-mor do caminho do meio. É o gênero essencial da construção em que se cerca um tema de várias maneiras. É movimento e experimentação. Ele nos mostra como é possível dar vida a algo olhando para os detalhes, escolhendo ora atalhos ora trilhas longas. Você desenha o trajeto que muda tudo. E essa transmutação tem mais a ver com  o modo do que com o conteúdo. É como se diz algo e não propriamente o que se diz. Nesse sentido o ensaio mostra a essência da criação em uma espécie de jam session. O jazz que é “igual” mas toma nova forma a cada apresentação.

O antropólogo francês Michel Leiris escreveu sobre o continente africano no célebre romance “África Fantasma”, de 1934,  e numa série de trabalhos etnográficos como “Contacts de civilisation en Martinique et en Guadeloupe” (1955). Era a mesma África que precisava se legitimar em instância diferentes, a literária e a acadêmica. Leiris fez isso, criou algo relevante nas duas áreas. O material de base era o mesmo, mas o formato mudava tudo. Assim, mesmo sem ter assumido um caminho do meio, incidentalmente ele ajudou a apontar os acessos entre os dois campos. E no centro da trilha estava ele, um sujeito que não cabia numa forma. Desenhou o 1 e 2, para mostrar todas as possibilidade de números fracionados que nos parecem inexistentes. Mas, é preciso encarar que quanto mais encaramos a possibilidade de fugir de modelos mais doído é porque não estamos nem lá nem cá. Decidir por essa trilha é muitas vezes se cortar, esperar mais, sofrer, criar as condições onde elas não existam.

De todas as histórias que conheço sobre esse trabalhoso “caminho do meio” a mais espetacular é a do critico literário Antônio Cândido. Da geração dos grandes pensadores brasileiros, hoje um ícone na casa dos 90 anos, ele não escapou de frustrações quando era mais jovem e não se encaixava nas formas institucionais. Durante sua defesa de doutorado na sociologia da USP, em 1954, Cândido sofreu um duro golpe. Na ocasião da avaliação da tese “Os Parceiros do Rio Bonito” (publicada em 1975), Roger Bastide, membro da banca, recusou-lhe a nota máxima porque considerava que aquele não era um trabalho de sociologia. A argumentação era que a cadeira era de sociologia e a pesquisa tinha, nitidamente, um cunho antropológico.

Era a mesma África que precisava se legitimar em instância diferentes, a literária e a acadêmica. Leiris fez isso, criou algo relevante nas duas áreas. O material de base era o mesmo, mas o formato mudava tudo.

À advertência, Cândido respondeu: “Se eu estou estudando uma cultura primitiva, acabo me preocupando com o problema humano daquele ser que está na minha frente. Como é que ele anda, como é que ele canta, como é que dança, como vê o mundo. No outro estremo, o da sociologia, eu não vejo ser nenhum. Eu vejo que 7.283 pessoas usam pasta dentifrícia Kolynos”. Ainda que tenha retrucado com ironia à queixa de Bastide, era evidente que a interseção feita por Antônio Cândido entre a antropologia, a sociologia e a literatura expunha as fissuras entre seu pensamento e os padrões cobrados à época. Não à toa “Os Parceiros do Rio Bonito” foi escrito no mesmo período em que “Formação da Literatura Brasileira”. Os interesses se misturavam, mas precisavam de um caminho próprio que não era o que estava à disposição.

Uma combinação de fatores – e a necessidade do agente – mudaram a rota do estabelecido. Cândido não se enquadrava como um “sociólogo puro” e achava a “sociologia da literatura” um subterfugio. Por outro lado, estava desgostoso com a USP após o entrevero. Mesmo se dizendo tímido, tomou fôlego e desligou-se da Universidade. Livre, pode se dedicar a fazer o que queria e do jeito que queria. Antônio Cândido trocou a poderosa Universidade de São Paulo pela pequena Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis no curso de literatura brasileira. Lá ele pois em prática toda a estruturação do seu trabalho de crítica literária. Só depois de criar seu espaço e inventar o que não existia, ele voltou à USP para, a partir de 1974, torna-se professor-titular de Teoria Literária. Foi preciso dar uma volta, inventar um campo de estudo, para depois voltar ao esperado, ainda assim num lugar bem diferente do que o “destino” o reservara.

De alguma maneira esses são casos extremos. Nem sempre é possível fazer isso. E como é sofrido tentar inventar a roda quando os carros correm tão bem. No entanto eu advogo o exercício dessa tentativa como a mais libertadora para o ser humano porque ela implica exatamente na construção do nosso próprio sujeito. Procurar essa sintonia fina também nos projeta para frente. Se não é possível ficar no ponto em que se está, a liberdade de escolher os outros caminhos – quaisquer que sejam – ainda que não sejam assertivos, que sirvam apenas de passeio e não de pouso, é essencial para não nos colocarmos como reféns de nada e ninguém.

O que somos terá mudado porque nos apropriamos com do nosso trajeto, nos legitimamos e, sim, descobrimos que a ausência e o incômodo nos dão a possibilidade de criar algo novo.

Não há formula de sucesso e, assim como se lê nos grandes ensaios, histórias tangenciais como a de Edu Lobo, Antônio Cândido e de tantos que desconhecemos são feitas de percalços, mas revelam como dar um salto e criar a própria rota é que nos torna quem somos. É possível fazer algo de diversas maneiras, a escolha delas muda sim o resultado ainda que aparentemente chegando no mesmo ponto final. O que somos terá mudado porque nos apropriamos com consciência do nosso trajeto, nos legitimamos como sujeitos e, sim, descobrimos que a ausência e o incômodo nos dão a possibilidade de criar algo novo. Volto a dizer: a novidade dói, demora, mas é libertadora.

 

Grazielle Albuquerque

Grazielle Albuquerque é doutoranda em Ciência Política pela Unicamp, jornalista e arengueira. Criou a Pulga nos idos dos anos 2000 e agora revive a meninice. Nessa nova fase, edita a Pulga desde 2014. É viciada em história, política, café e música. Cultiva o bom humor e tem um quarto azul.

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