Comportamento

Resistência e sinal fechado – o triunfo de uma e a tragédia de muitos

"Nobody Likes Me," street art in Stanley Park.

“Nobody Likes Me,” street art in Stanley Park.

 

Em certa medida, este texto é uma homenagem. Não sei bem como conduzi-la, mas se trata de um reconhecimento público. Poderia ter sido feito de modo privado, mas me parece sensato partilhar que falhei; ou melhor, que sucumbimos, todos nós. Assim, o que importa é admitir que ela venceu, mesmo sem o saber ou sem conseguir articular as razões do seu triunfo. Norteada apenas por uma espécie de instinto que a afasta das hordas eletrônicas dispersivas, vigilantes, permissivas, promotoras de intrigas… Quanto a nós, o sinal está fechado pra nós. E talvez nunca mais reacenda. E se reacender, pode ser para exigir nova conexão. Deus me livre, arremesso pra longe meu smartphone!

Não é novidade pra ninguém, embora a partir de 2018 tenha se convertido numa revelação alarmante: ao navegar pela internet, inserir dados no Google, criar contas no Facebook e Instagram, aderir ao Whatsapp, deixamos pegadas digitais permanentes. Rastros, indícios, vestígios do nosso percurso e das nossas predileções. Pouco adianta deletar a postagem ou desativar o aplicativo. O prejuízo apenas se reduz. Nossas andanças virtuais já foram mapeadas e nosso perfil de usuário, devidamente dissecado, sem respeito a qualquer noção de privacidade. E os recentes escândalos envolvendo o Facebook nas eleições majoritárias dos EUA ou no plebiscito que definiu a saída do Reino Unido da Comunidade europeia (o chamado “Brexit”), dentre outros, apenas sinalizam que o fosso aberto é infinito.

Não é novidade pra ninguém: ao navegar pela internet, inserir dados no Google, criar contas no Facebook e Instagram, aderir ao Whatsapp, deixamos pegadas digitais permanentes. Rastros, indícios, vestígios do nosso percurso e das nossas predileções.

Assim, cada nova entrada é codificada, convertida em algoritmos e se transforma em bancos de dados à disposição de agências interessadas na gestão das nossas idéias e contatos. Seja para nos ofertar anúncios regulares cada vez mais invasivos, seja para realizar a triagem das possíveis notícias que nos interessariam, seja para nos indicar um potencial novo “amigo” ou “página” com os quais supostamente partilhamos afinidades, dentre outros males (oficialmente, a campanha eleitoral brasileira se inicia em agosto; e com ela, já se avista a possibilidade de novos vazamentos e a proliferação de fake news). Mas não adianta apenas praguejar contra Zuckerberg ou os criadores do Google; e exigir deles explicações nos tribunais do Primeiro Mundo. Esta espiral do Diabo, não custa lembrar, tem o nosso consentimento, ainda que involuntário. Baixar um aplicativo e postar freneticamente implica em aderir ao jogo, em ceder informações e abrir mão de qualquer privacidade.

Reconheço que o contexto atual estimula uma proliferação e circulação da intimidade, um desejo de se expor e de falar de si, materializado nos “textões” abertamente confessionais e no enquadramento narcísico das selfies. E este excesso de exposição, claro, só se concretiza com uma inevitável contrapartida – o mesmo contexto (uma nova configuração do capitalismo voltada à gestão do íntimo) também estimula um voyeurismo constante, o desejo de tudo bisbilhotar, a aspiração por uma visibilidade máxima, que se refestela diante das sex tapes intencionalmente vazadas, da proliferação dos reality shows, dos vídeos caseiros ambientados no espaço doméstico e cuja prerrogativa maior é a narração em 1ª pessoa. Alimentamos este circuito infernal e com ele nos regozijamos, despudoramente. Quem não se reconhecer neste quadro, em maior ou menor escala, que atire a primeira pedra!

Mariana Aquino, amiga querida e a homenageada deste texto, pode atirar. Na verdade, pode até despejar um carregamento inteiro de britas em nossos frágeis telhados virtuais. Tem moral e histórico para isso. Mas antes de enaltecer a sua resistência exemplar, gostaria de fazer mais algumas ponderações. Sim, as redes sociais têm uma faceta positiva – promovem novas formas de sociabilidade, impulsionam certas atividades profissionais e, pasmem, permitem até mesmo a circulação de contrainformação (de narrativas contrárias aos discursos hegemônicos). Deste modo, reconheço que é possível transitar por elas sem aderir a tanta exposição, sem ceder aos seus apelos e se beneficiando desta positividade. Mas eu conto nos dedos da mão de Lula quem assim procede! No geral, o chamado “show do eu” é incontornável. Um canto de sereia duradouro e irresistível.

Mariana Aquino, preciso reiterar: você venceu! Venceu porque nunca cedeu aos apelos tecnológicos, porque sempre recusou toda novidade e vício oriundo da Internet, porque sempre debochou da nossa estima pelo Facebook e porque nunca desejou ter conta no Instagram.

Ciente desta cantilena diabólica, e estimulado por minha heroína, optei por uma discrição virtual parcial. É pouco, reconheço. E não me isenta de ser tragado por estas engrenagens. Mas hoje repenso minhas adesões e postagens. Deixei inativa a conta do Facebook, o território por excelência da vigilância política e da proliferação de tretas (jargão que ilustra bem nossa predileção por picuinhas virtuais). E me excluí dos grupos de Whatsapp com inclinação suspeita e daqueles que funcionam para agregar dezenas de familiares distantes. Este canal pode possibilitar trocas instigantes, reconheço, mas a experiência me ensinou que o contato real tem maior apreço, é menos dispersivo e reduz a circulação de falsas notícias. Afinal, se existe um território onde a boataria perversa se aninha com prazer, ele se chama Whatsapp. E assim, com menos contas para administrar, me vejo com mais tempo para os livros e para garimpar, por ímpeto próprio, as notícias que de fato me interessam, nas fontes que julgo pertinentes.

Voltemos agora à minha homenageada. Desta vez, em definitivo. Mariana Aquino, preciso reiterar: você venceu! Venceu porque nunca cedeu aos apelos tecnológicos, porque sempre recusou toda novidade e vício oriundo da Internet, porque sempre debochou da nossa estima pelo Facebook, porque nunca desejou ter conta no Instagram, porque sempre controlou e restringiu seus acessos ao laptop, enquanto nós, servos do deus Google, dispersávamos nossa energia física e criativa navegando horas a fio. Por anos, admito, sua resistência me intrigara: a advogada que lia e-mails uma vez por semana e a única do grupo a não dispor de gadgets, de smartphones. A preferir o velho celular com lanterninha e a se limitar ao envio de torpedos. Em tempos recentes, é verdade, você aceitou a companhia de um smartphone; mas ainda assim, o enlace não foi fácil. O primeiro aparelho se danificou antes de ser usado; e o segundo foi roubado nos primeiros dias. Um sinal divino de que você estava certa e de que era preciso resistir. Hoje, passado algum tempo, você aderiu à novidade. Cheguei a imaginar que você recuaria em sua determinação. Mas logo percebi que as regras seguiriam firmes em prol da integridade. Afinal, este maldito aparelho te pertence (e não o contrário!). As ligações ainda são atendidas esparsamente, as fotos seguem escassas e enviadas somente para os mais íntimos; e a única rede social instalada, o Telegram, se encontra na lista de aplicativos não denunciados. Sim, amiga, você venceu. Admito mais uma vez. E o sinal está fechado pra nós. Talvez definitivamente.

Laécio Ricardo

Laécio Ricardo é (ou foi) jornalista, é doutor em Multimeios pela Unicamp e professor da UFPE. Apaixonado por gatos, tem convicção de que é cearense, não obstante pistas contrárias, e adora o mar, apesar da epiderme albina.

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