Urbanismo

Todos nós somos Estelita

Movimento Ocupe Estelita

 

Com freqüência, amigos que não são ou não residem no Recife me perguntam o que vem a ser o movimento “Ocupe Estelita”, expressão que, ante o silêncio da grande mídia, especialmente a pernambucana, ganha reverberação cada vez maior nas redes sociais, arrebatando novos seguidores, sejam figuras anônimas ou celebridades da constelação política e artística. Em rápidas linhas, diria que se trata de uma versão local do famoso Occupy, sem necessariamente se subordinar à matriz americana e tampouco sem partilhar completamente de sua pauta de reinvindicações.

Um lugar outrora cartão-postal do Nordeste, com suas pontes e casario histórico entrecortado pelo Capibaribe, gradualmente dá lugar a um arremedo de cidade inspirado em delírios arquitetônicos da contemporaneidade como Dubai ou Miami

Críticas aos processos de exclusão provocados pelos modelos econômicos hegemônicos no Ocidente, amparados num ideal de progresso com feições predatórias e nada sustentável, claro, estão na ordem do dia de todas as ocupações/manifestações que despontam mundo à fora. Mas o “Ocupe Estelita” tem suas particularidades. O foco prioritário, pelo menos até onde acompanho, é a crítica contundente ao modelo de expansão urbana do Recife (e de tantas outras capitais deste país, infelizmente), pautado num processo de verticalização progressiva que gera impactos ambientais e paisagísticos profundos e, quase sempre, desfigura a memória arquitetônica da cidade. Em síntese, uma edificação com potencial para se converter em patrimônio é destruída aqui; um espaço público, ainda que em desuso, mas passível de revitalização, é furtivamente leiloado ali – e quase sempre arrebatado por empreiteiras ansiosas por erguer novas torres de concreto e vidro. O resultado mais imediato: um lugar outrora cartão-postal do Nordeste, com suas pontes e casario histórico entrecortado pelo Capibaribe, gradualmente dá lugar a um arremedo de cidade inspirado em delírios arquitetônicos da contemporaneidade como Dubai ou Miami.

Mas minha resposta segue inconclusa. O Estelita do título se refere ao Cais José Estelita, antiga zona portuária do Recife, fincada no bairro de São José e às margens da Bacia do Pina, área de notável beleza pela junção do rio e do mar. Quem trafega ou pedala pela região, rapidamente se depara com um terreno de dimensões notáveis, aparentemente baldio e no qual despontam a carcaça de antigos galpões outrora utilizados para a estocagem e o comércio de açúcar. É precisamente esta área, seu destino e possível transformação, que hoje é objeto de uma queda de braço seminal para a cidade. De um lado, se encontra um pool de construtoras reunidas pelo pretenso nome de “Consórcio Novo Recife”. Amparadas pelo silêncio ou cumplicidade explícita do poder público municipal e estadual, e alicerçadas em um discurso que entende o progresso como drástica ruptura com o passado, ambicionam redesenhar a paisagem urbana do lugar com a construção de uma dezena de torres com 40 andares. Um futuro abjeto para uma área histórica e que ainda desfruta de notável vigor arquitetônico, não obstante a má preservação de alguns logradouros. A mudança radical, claro, no médio prazo culminaria numa espécie de privatização desta área de beleza singular – quantas construtoras, afinal de contas, não sonham com imensos terrenos à beira-mar e propícios à especulação imobiliária?

Do outro lado, se encontra um aguerrido grupo de ativistas, majoritariamente vinculados à comunidade “Direitos Urbanos” (abrigada no Facebook), um coletivo suprapartidário e sem lideranças verticais que reúne mais 20 mil adeptos. Sua pauta central: denunciar as múltiplas irregularidades do projeto “Novo Recife” – ilegalidades que vão do suspeito leilão do terreno do Estelita (com sinais de claro favorecimento) à inexistência de estudos de impacto ambiental e de vizinhança que autorizem a implantação do projeto – e exigir do poder público um debate transparente sobre o futuro da região, bem como a adoção de propostas mais inclusivas e que favoreçam um uso democrático do espaço. A cidade, afinal de contas, é para todos.

Embora afundado em irregularidades, as ações do “Consórcio Novo Recife” tiveram início há um mês, aproxidamente, e de forma covarde: na calada da noite, como convém às decisões furtivas que colocam em xeque os princípios democráticos. Em algumas horas e ante a força dos tratores, parte considerável dos galpões foi ao chão. Alguns civis, num gesto heróico, tentaram impedir a conclusão da destruição – no embate, claro, tiveram seus equipamentos eletrônicos confiscados, apanharam da segurança privada das empreiteiras e sofreram ameaças. Mas resistiram. Resistiram e fundaram no terreno um acampamento. De início, improvisado com sete ou oito barracas, a ocupação gradualmente floresceu, multiplicou o contingente de “moradores”, ganhou um sem-número de entusiastas e devolveu vida ao esquecido Estelita (diariamente, atividades culturais e educativas são organizadas no terreno). Mais do que isso, demonstrou que é possível, através de mobilização forte, pacífica e organizada, reverter um processo aparentemente inexorável ou recolocar na pauta pública temas que são de grande interesse da cidade, mas dos quais, estranhamente, nos encontramos apartados.

Diretamente vinculada às construtoras, ou reféns dos anúncios oriundos da construção civil, a grande mídia pernambucana, neste episódio, revelou sua faceta covarde e subserviente: silenciou, quando deveria investigar as irregularidades do “Novo Recife”. 

Diretamente vinculada às construtoras, ou reféns dos anúncios oriundos da construção civil, a grande mídia pernambucana, neste episódio, revelou sua faceta covarde e subserviente: silenciou, quando deveria investigar as irregularidades do “Novo Recife”; e quase sempre distorceu as informações relativas aos propósitos reais da ocupação, num intuito de “negativar” suas ações perante o grande público. Contra este discurso hegemônico, negativista, cumpliciado, restava o poder de fogo das redes sociais. Foi por esta via, principalmente, que a pauta do acampamento ganhou fôlego, que o “Ocupe Estelita” encontrou voz e reverberou em outras praças e corações. E, curiosamente, sensibilizou certos segmentos da imprensa fora de Pernambuco.

Hoje, contabilizadas algumas semanas de ocupação e de intensificação dos debates em torno do Cais José Estelita, ainda é cedo para avaliar o impacto da iniciativa civil, bem como para especular sobre o futuro da região. A queda de braço, bem o sabemos, é desigual – opõe o capital privado aliado do poder político a uma parte da sociedade que reivindica práticas urbanísticas inclusivas e sustentáveis para a cidade. Mas a ocupação, além de revitalizar um debate que parecia sentenciado, injeta esperança para que novas pautas ganhem visibilidade. E, claro, seu êxito pode inspirar focos de resistência semelhantes, no Recife ou em outras localidades. E este seria um ganho político imensurável. Afinal de contas, hoje, todos nós que lutamos por um mundo mais inclusivo somos Estelita.

Veja o Tumblr satirizando o projeto Novo Recife.

Laécio Ricardo

Laécio Ricardo é (ou foi) jornalista, é doutor em Multimeios pela Unicamp e professor da UFPE. Apaixonado por gatos, tem convicção de que é cearense, não obstante pistas contrárias, e adora o mar, apesar da epiderme albina.

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