Crônica

A senhora do Tegel

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Há muitos anos eu estava sentada no chão do Tegel, quando vi uma cena corriqueira que até hoje trago como referência. Depois de cruzar Berlin de ônibus com duas malas e ser parte da uma despedida doída, eu era uma pessoa tão cansada quanto meio largada ao lado da minha mochila. Estava sentada no chão da sala de embarque esperando a chamada do voo. Lembro de tomar um café e pedir um salgado qualquer, talvez um croissant. Curioso é que eu me via assim, um tanto “juvenil”, já que naquele instante a vida era de qualquer jeito, um tanto quanto deslocada. Era um não se encaixar,  a parte toda a felicidade da jornada.

Contudo, mesmo ainda longe de me aproximar daquela cena, acho que o que muda na minha percepção de agora é a certeza mais calma de si. A senhora do Tegel, como a chamo, é a metáfora perfeita desse tipo de “ciência”.  Ela é minha meta, mesmo no desalinho da correria.

Fato é que enquanto eu esperava, ali no chão, com minha mochila, meu tênis e minha comida com gosto de qualquer coisa, uma senhora de uns 80 anos se materializou na minha frente. Mentira. Lembro de a ver caminhar com uma sobretudo de lã caramelo, com uma leve estampa xadrez. O cabelo completamente branco cortado no ombro e uma boina de lado. Era linda. Parecia uma menina saída de algum college dos anos 50. Mas tinha lá seus 80 anos ou mais e uma serena certeza de si, the charming como diz o Morrissey na clássica canção. Não bastasse isso, ela sentou no balcão do café onde eu havia pedido meu insosso croissant e puxou da bolsa uma maçã para servir de lanche. Nunca vou esquecer essa cena. É das coisas que mais me diz sobre como levar a vida. Quando tiver 80, quero ser desse jeitinho.

Hoje já aprendi (work in progress) a domar as mil bagagens, trago uvas e castanhas na bolsa, mas o chapéu segue guardado na mala para me economizar no manejo dos apetrechos diante da correria nos portões de embarque. Contudo, mesmo ainda longe de me aproximar daquela cena, acho que o que muda na minha percepção de agora é a certeza mais calma de si. A senhora do Tegel, como a chamo, é a metáfora perfeita desse tipo de “ciência”. Ela é minha meta, mesmo no desalinho da correria. Assim, é com essa visão que hoje volto de outra forma. Com o coração cheio nos dois sentidos, dos caminhos e pessoas que deixo e reencontro. E isso, graças a Deus, está longe de ser de qualquer jeito, de estar fora do lugar.

Texto publicado originalmente em outubro de 2017.

Grazielle Albuquerque

Grazielle Albuquerque é doutoranda em Ciência Política pela Unicamp, jornalista e arengueira. Criou a Pulga nos idos dos anos 2000 e agora revive a meninice. Nessa nova fase, edita a Pulga desde 2014. É viciada em história, política, café e música. Cultiva o bom humor e tem um quarto azul.

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